Eu sou filha da ditadura militar: nasci em 1979. Fui uma criança bastante protegida; certos problemas que atingiam os brasileiros não influenciavam no meu dia a dia. Na década de 1980, acompanhei atentamente a péssima situação econômica. Claro que eu não entendia direito, mas achava bizarro como minha pipoca mudava de preço do dia pra noite. Também tinha dificuldade de compreender a despensa lotada como se estivéssemos estocando alimento e material de limpeza.
Quando finalmente tivemos a primeira eleição direta para presidente, em 1989, eu vesti a camisa. Fui a comícios e acreditei no Collor. Como, aliás, grande parte dos brasileiros. Por isso, quando toda a corrupção foi exposta, eu fiquei arrasada. Via os caras pintadas na televisão e achava o máximo. Sentia uma mistura de orgulho e decepção. Como, aliás, grande parte dos brasileiros.
Vi ao vivo a votação do impeachment do Collor. Eu já tinha quase 13 anos, e havia amadurecido muito depois da separação dos meus pais. Lembro de mim mesma contando os votos e, quando o último “sim” foi dito em voz alta, eu chorei. Fiquei com uma certa vergonha. Eu não fui às ruas, entendia pouco de política, por que eu chorava? Porque o poder de mobilização popular nos faz sentir parte do todo. Eu não sou ingênua e sei dos meandros que levaram à retirada do Collor da presidência. Mas nós, como povo, estávamos unidos.
Depois disso, me formei no colégio e me mudei para o Rio de Janeiro. Fiz direito, mas não me engajei em qualquer movimento estudantil. Passei duas décadas em coma, eu diria.
Eu era uma boa pessoa: fazia trabalhos voluntários, era honesta, não jogava lixo no chão, votava toda eleição. Mas era meio (ou muito, pensando bem) reacinha. Machista, com certeza. Me faltava engajamento político fora das instituições das quais fazia parte. Eu buscava melhorias e entrava em conflitos dentro do colégio, da faculdade, do condomínio. Mas minha participação terminava aí. Era bastante coisa, eu sei: grande parte das pessoas não defende a liberdade nem dentro do próprio quarto. Era insuficiente, porém, e eu nem me dava conta disso.
Nos últimos dois anos a aproximação com o feminismo me fez aprender mais, questionar mais, me engajar mais. O feminismo tem tudo a ver com questões de classe, com a feminização da pobreza, com direitos humanos. Evidente que eu já me indignava com a situação da população carcerária, por exemplo, até porque durante a faculdade de direito eu visitei presídios. Nunca achei que “bandido bom é bandido morto”, mas já defendi pontos de vista dos quais hoje me envergonho profundamente.
O incrível é que uma grande mudança aconteceu dentro de mim nos últimos anos. Depois dos 30, depois de ter feito duas faculdades de humanas. Eu tive algumas oportunidades de mudar. Eu não as aproveitei, porque… não sei. Sequer posso dizer que minha vidinha era cômoda, porque não era. Sou privilegiada intelectual e economicamente, mas meus olhos estavam (estão) abertos ao que acontece com quem não teve as mesmas oportunidades que eu. Acho que eu não tinha noção do poder que eu tenho.
Não eu, Nádia, como indivíduo, mas eu, juntando-me com a Helena, com a Talita, com a Elisa, com você aí que está me lendo. O feminismo me deu essa visão, e passei a enxergar como juntas somos fortes. Não só porque assim temos mais voz politicamente, como também porque podemos nos apoiar, nos organizar, nos defender.
E é por tudo isso que eu apoio os movimentos dos últimos dias. Sempre apoiei a manifestação e, neste caso específico, sou contra o aumento de tarifa (hoje sou a favor da catraca livre).
Todos sabemos como aconteceu a repressão do Estado às manifestações. A Nádia de dez anos atrás talvez chamasse os manifestantes de vândalos; a de hoje reconhece o aparato repressor do Estado e o discurso enviesado da imprensa.
Esta mesma imprensa que também foi amordaçada e cujo discurso mudou.
E com essa mudança de discurso e com o compartilhamento de informações nas redes sociais, muita gente sem qualquer engajamento político está se unindo ao movimento. Costumo chamar de inquietação esse sentimento de que algo está errado e não se sabe precisar exatamente o que é. Elas também sentem isso, assim como eu sentia antes. Elas, como eu, não se achavam capazes de mudar alguma coisa.
Hoje elas acham. Hoje, 17 de junho, elas irão às ruas unidas em vários lugares do Brasil. Hoje a mudança começa. Não apenas politicamente, mas individualmente. Por experiência própria, sei que quando a gente olha para os lados e vê gente nos apoiando e lutando por algo muito maior que nós mesmos os nossos corpos e mentes mudam.
Hoje é o dia da mudança.
Estarei na rua te esperando.











