Uma carta aberta ao Facebook

Na última terça-feira, feministas americanas publicaram uma carta de repúdio ao Facebook pela maneira como agressões de gênero são tratadas na rede social.

Muitas blogueiras e coletivos feministas se uniram para replicar a mensagem, cobrando dos anunciantes que parem de utilizar a plataforma enquanto não acontecer a mudança nas políticas do Facebook.

Aqui no Brasil também lutamos contra várias páginas e outros absurdos da rede social, e não surpreendentemente as exigências das feministas americanas são bastante parecidas com as nossas. Por isso, pedi permissão para republicar a carta aqui no blog, assinando embaixo. A Leila Paiva, leitora aqui do blog, gentilmente traduziu o texto. Mantivemos os nomes das páginas misóginas no original, mas aqui no Brasil temos diversos exemplos parecidos. Também por aqui fotos de mulheres amamentando ou na Marcha das Vadias foram removidas. O problema – assim como da violência contra a mulher – é mundial.

UMA CARTA ABERTA AO FACEBOOK

Por Soraya Chemaly, Jaclyn Friedman e Laura Bates, publicado originalmente no Huffington Post em 21 de maio de 2013

Nós, abaixo assinadas, estamos escrevendo para solicitar ação rápida, abrangente e efetiva a respeito das representações de estupro e violência doméstica no Facebook. Especificamente, queremos que você, Facebook, tome três ações:

1.       Reconheça o discurso que trivializa ou glorifica violência contra meninas e mulheres como discurso de ódio, se comprometendo a não mais tolerar este tipo de conteúdo.

2.      Treine moderadores de maneira eficaz, para que reconheçam e removam discurso de ódio baseado em gênero.

3.      Treine moderadores de maneira eficaz, para que entendam como o assédio online afeta homens e mulheres de modo diferente, em parte devido à pandemia de violência contra as mulheres no mundo real.

Para isso, estamos encorajando usuários do Facebook para que entrem em contato com anunciantes cuja publicidade no Facebook apareça próxima a conteúdos que colocam mulheres como alvo de violência; para solicitar a essas empresas que retirem seus anúncios do Facebook até que as ações solicitadas acima para banir discurso de ódio baseado em gênero sejam tomadas.

Estamos nos referindo especificamente a grupos, páginas e imagens que explicitamente compactuam ou encorajam estupro ou violência doméstica ou que sugerem que sejam algo a se rir ou se gabar de. Páginas ativas no momento no Facebook incluem Fly Kicking Sluts in the Uterus (“Dando voadoras no útero de vagabundas”), Kicking your Girlfriend in the Fanny because she won’t make you a Sandwich (“Chutando sua namorada na buceta porque ela não quer fazer um sanduíche para você”), Violently Raping Your Friend Just for Laughs (“Estuprando violentamente sua namorada só de zoeira”), Raping your Girlfriend (“Estuprando sua namorada”) e muitas, muitas outras. Imagens postadas no Facebook incluem fotos de mulheres espancadas, feridas, amarradas, drogadas e sangrando, com legendas do tipo “Essa vagabunda não sabia quando calar a boca” e “na próxima vez não engravide”.

Essas páginas e imagens são aprovadas pelos seus moderadores, enquanto vocês frequentemente removem conteúdos como fotos de mulheres amamentando, de mulheres pós-mastectomia e de representações artísticas do corpo feminino. Além disso, imagens de mulheres em discurso político envolvendo o uso de seus corpos em protestos e de maneira não-sexualizada são regularmente banidas como pornografia, enquanto conteúdo pornográfico – proibido pelas suas próprias regras de uso – é mantido. Parece que o Facebook considera a violência contra a mulher menos ofensiva do que imagens não violentas de corpos femininos, e que a única representação aceitável da nudez feminina é aquela em que mulheres aparecem como objetos sexuais ou vítimas de abuso. A sua prática comum de permitir esse tipo de conteúdo anexando a ele uma isenção como [humor] literalmente trata a violência contra a mulher como uma piada.

 A última estimativa da campanha das Nações Unidas Say No UNITE é de que a porcentagem de mulheres e meninas que foram vítimas de violência durante suas vidas é de intoleráveis 70%. Em um mundo em que tantas meninas e mulheres serão estupradas ou agredidas no decorrer de suas vidas, permitir que conteúdos sobre estuprar e agredir mulheres sejam compartilhados, incentivados e tratados como piada contribui para a normalização da violência doméstica e sexual, cria uma atmosfera em que agressores estão mais propensos a acreditar que não serão punidos e comunica às vítimas que elas não serão levadas a sério caso denunciem.

De acordo com uma pesquisa feita pelo Departamento de Governo britânico, uma em cada cinco pessoas acha que é aceitável que um homem bata ou esbofeteie sua mulher ou namorada em reação a ela estar vestida com roupas sexy ou reveladoras em público. E 36% acreditam que uma mulher deve ser totalmente ou parcialmente responsabilizada se ela for agredida sexualmente ou estuprada quando bêbada. Esse tipo de atitude é moldada, em parte, pela influência enorme de plataformas sociais como o Facebook e contribui para a culpabilização da vítima e a normalização da violência contra a mulher.

Apesar das alegações do Facebook de não se envolver em desafiar normas ou censurar discursos, vocês mantém procedimentos, termos e orientações para a comunidade que são interpretados e impostos. O Facebook proíbe discurso de ódio e seus moderadores lidam diariamente com conteúdos violentos, racistas, homofóbicos, islamofóbicos e antissemitas. A sua recusa em aplicar as mesmas regras para discursos de ódio baseado em gênero marginaliza meninas e mulheres, menospreza nossas experiências e preocupações e contribui para a violência contra nós. Facebook é uma rede social gigantesca com mais de um bilhão de usuários pelo mundo, o que torna o seu site extremamente influente em moldar normas e comportamentos sociais e culturais.

A resposta do Facebook às milhares de reclamações e solicitações para lidar com estas questões foi inadequada. Vocês falharam em fazer uma declaração pública a respeito do problema, em responder a usuários preocupados ou em implementar políticas que melhorariam a situação. Vocês também têm agido sem consistência em relação à própria política de remoção de imagens, em muitos casos se recusando a remover fotos ofensivas de estupro e violência doméstica, quando a remoção é solicitada por membros do público, mas as removendo assim que jornalistas as mencionam em artigos, o que nos envia a forte mensagem de que vocês estão mais preocupados em agir caso a caso para proteger a sua reputação do que em efetuar mudanças sistêmicas e assumir uma posição pública clara contra a perigosa tolerância ao estupro e violência doméstica.

Num mundo em que centenas de milhares de mulheres são agredidas diariamente e onde violência perpetrada pelo parceiro continua sendo uma das principais causas de morte de mulheres no mundo, não é possível ficar em cima do muro. Nós apelamos ao Facebook para que tome a única decisão responsável e que aja de maneira rápida e clara sobre a questão, alinhando políticas sobre estupro e violência doméstica com seus objetivos de moderação e regulamentos.

Sinceramente,


Laura Bates, The Everyday Sexism Project
Soraya Chemaly, Writer and Activist
Jaclyn Friedman, Women, Action & the Media (WAM!)
Angel Band Project
Anne Munch Consulting, Inc.
Association for Progressive Communications Women’s Rights Programme
Black Feminists
The Body is Not An Apology
Breakthrough
Catharsis Productions
Chicago Alliance Against Sexual Exploitation
Collective Action for Safe Spaces
Collective Administrators of Rapebook
CounterQuo
End Violence Against Women Coalition
The EQUALS Coalition
Fem 2.0
Feminist Peace Network
The Feminist Wire
FORCE: Upsetting Rape Culture
A Girl’s Guide to Taking Over the World
Hollaback!
Illinois Coalition Against Sexual Assault
Jackson Katz, PhD., Co-Founder and Director, Mentors in Violence Prevention
Lauren Wolfe, Director of WMC’s Women Under Siege
Media Equity Collaborative
MissRepresentation.org
No More Page 3
Object
The Pixel Project
Rape Victim Advocates
Social Media Week
SPARK Movement
Stop Street Harassment
Take Back the Tech!
Tech LadyMafia
Time To Tell
The Uprising of Women in the Arab World
V-Day
The Voices and Faces Project
The Women’s Media Center
Women’s Networking Hub
The Women’s Room

A roupa da outra

Você conhece o termo victim blaming?

Eu sei que é difícil acompanhar e aprender todas as expressões usadas por feministas. Infelizmente grande parte da produção sobre o movimento é em inglês (e, convenhamos, a gente usa muita expressão desnecessária em inglês. bom, eu uso. guilty as charged!)

Já tentei traduzir victim blaming, mas sem sucesso. Victim blaming é o mesmo que “culpar a vítima”. De qualquer coisa: desde o assalto no trânsito porque “deu mole com o vidro aberto” até, como se discute muito no feminismo, em crimes sexuais.

A diferença é que no roubo ninguém acha que o ladrão está CERTO, que ele foi levado ao erro pela vítima, que ele foi provocado, e por aí vai. Nos casos de assédio/abuso sexual, no entanto, a coisa muda de figura.

Todo o comportamento da vítima de estupro é microscopicamente analisado. Pergunta-se com quem ela estava, se bebeu, como estava vestida, qual a relação entre ela e o criminoso, o que ela estava fazendo naquele local, se há machucados comprovando a resistência… posso continuar escrevendo ad eternum todas as perguntas feitas a quem sofre a agressão. Até já escrevi sobre a vítima de estupro perfeita.

Caso roubem seu iPhone, ninguém vai pedir a nota fiscal do produto para você provar que tinha o aparelho, tampouco vai querer que você prove que o assaltante estava armado. Vão aceitar a sua versão dos fatos e lamentar pelo ocorrido.

Mas como assim um celular pode valer mais do que a integridade física de uma pessoa?

Na nossa sociedade é assim. Pode passar a mão, puxar o cabelo, enfiar objetos. Quase toda mulher já sofreu com isso ou pelo menos teve medo que isso acontecesse – consigo mesma ou com amigas.

E é aí que reside minha maior dúvida: se todas nós sabemos como é ruim passar por tais abusos, por que justificamos o abuso da outra?

Por que nós também julgamos a roupa que a outra está vestindo? Por que nós nos sentimos impelidas a cometer victim blaming contra mulheres?

Evidente que nem todas nós fazemos isso. Ainda bem. No entanto, não dá para negar que a maioria das mulheres faz, sim.

Penso que existem diversos motivos, como a (não tão) simples repetição do que nos ensinaram numa cultura machista. Porém, acredito que muitas mulheres acreditam que estão num patamar diferente daquelas que sofrem violência sexual. 

Eu não me visto assim, então nunca vai acontecer comigo.

Eu não fico bêbada na rua, então nunca vai acontecer comigo.

Eu não saio com estranhos, então nunca vai acontecer comigo.

Eu não sou rodada, então nunca vai acontecer comigo.

Ad eternum, de novo.

Culpar a vítima dá uma falsa sensação de segurança. Se eu andar na linha, nada de ruim vai acontecer comigo, pensa a moça ingênua e desconectada da realidade. Isso serve para que você nunca se liberte, nunca conteste o status quo, e continue repetindo o comportamento e o papel de gênero que lhe impuseram ao você nascer.

Além de tolher sua liberdade, pensar desse jeito na verdade não te livra de nada. Se roupa significasse alguma coisa, mulheres de burca não sofreriam assédio ou abuso. Estatísticas mostram que 80% dos agressores são homens conhecidos – então não adianta pensar que você está a salvo em casa. E, de novo, posso repetir ad eternum provas e mais provas de que a culpa do estupro é do estuprador, nunca da vítima.

Muito menos da roupa dela. Repetirmos o discurso do “periguete” e coisas do tipo só abre mais espaço para a impunidade, para a falta de apoio mútuo, para a vergonha, para o medo.

Você não está segura só porque a OUTRA não dança conforme a música que alguém está tocando (e nem é você quem escolheu a trilha sonora). Você só estará segura quando nós mudarmos essa cultura. Comece hoje.

Sou feminista e minha orientação sexual não é da sua conta

Dá para ver em diversos blogs e livros de feministas jovens: todo mundo tentando mostrar que “ei! você é feminista!”.  De fato, muita gente tem medo do feminismo e parte desse receio é por puro desconhecimento.

Eu entendo a tentativa de mostrar que feminismo não é o que o senso comum pensa. Porém, fico incomodada com a tentativa às vezes desesperada de convencer alguém de que a pessoa é feminista. Começam a dizer tudo o que é “ok” uma feminista fazer. E uma das coisas que me irritam mais profundamente é o “eu sou feminista, mas não sou lésbica”.

E se fosse?

Porque uma pessoa só aceitaria ser chamada de feminista se ela não fosse confundida com uma lésbica?

O que tem tão de errado assim em gostar de outras mulheres?

O que o resto do mundo tem a ver com a sua vida sexual?

Essa lesbofobia foi bastante utilizada pela mídia mainstream na segunda onda do feminismo. Foi uma ferramenta para afastar mulheres do movimento, como mostra bell hooks em Feminism is for everybody:

A imprensa conservadora constantemente representou mulheres feministas como odiadoras de homens. E, como de fato existiam sentimentos anti-homem no movimento, a imprensa destacou isso como um jeito de colocar o feminismo em descrédito.

Nessa caracterização de feministas como anti-homem estava a ideia de que todas as feministas eram lésbicas. Apelando para a homofobia, a imprensa mainstream intensificou o sentimento anti-feminista entre os homens.

Sim, isso foi feito lá na década de 1970 e até hoje os estereótipos da feminista sobrevivem. Somos todas peludas, pouco femininas… e lésbicas. A grande questão para mim é que, dentro do movimento, nós não deveríamos ficar repetindo que não somos assim.

Ser pouco feminina, peluda ou lésbica (ou tudo junto) significa fugir ao padrão do papel de gênero estabelecido pela sociedade sexista. Temos que ser fofas, adoráveis, bonitas e disponíveis sexualmente para os homens. Bonecas. Enfeitando o mundo e ao mesmo tempo servindo para dar prazer sexual aos marmanjos.

Não é exatamente isso que a gente combate? Não lutamos, entre várias outras coisas, para sermos indivíduos gozando totalmente dos nossos corpos e direitos? Isso inclui gostar de meninos ou meninas. Ou não gostar de sexo.

Parece que, apesar de o feminismo ser um movimento pela liberdade, ainda estamos presas à ideia de que precisamos ser aceitas pela sociedade. E, por isso, não podemos ser tomadas por lésbicas.

Perdi as contas de quantos e-mails e mensagens eu recebi me ACUSANDO de não gostar de homens. Acho que toda feminista online já leu isso. Eu entendo que machistinhas levantem a carta da lesbofobia. A intenção desses caras é xingar – e se ser chamada de lésbica é xingamento, isso mostra que a homofobia é uma realidade violenta e agressiva.

O que eu não entendo é que algumas feministas se sintam ofendidas com isso e/ou insistam em “esclarecer as coisas”. Essa necessidade de esclarecimento mostra que a discussão está muito, muito atrasada. Está na hora de andar pra frente. “Sou feminista, mas não sou lésbica”, “sou feminista, mas gosto de homem” são frases que nem devem ser mais ditas. Sou feminista e ponto.

A terceirização da culpa

Várias pessoas me mandaram o link da coluna de domingo da Danuza Leão na Folha. Eu li, fiz alguns comentários no Twitter, mas sinceramente não ia escrever nada a respeito.

Afinal, todos os dias eu leio textos e comentários com o mesmo discurso: de que as mulheres precisam se preservar, que a culpa das agressões sexuais é da roupa que elas estão vestindo, que os hormônios fazem os homens enlouquecer e atacar mulheres nas ruas. Se eu for fazer um post a cada vez que vejo um absurdo desses, não farei outra coisa na vida.

Porque, infelizmente, esse é o discurso da maioria.

skirt

Agressões sexuais acontecem em qualquer cidade, em qualquer classe social, com pessoas de qualquer idade. Não é um crime do OUTRO. Ele está bem próximo, ameaçando todos nós, o tempo todo. Pode acontecer com você, com a sua irmã, mãe, namorada. Ainda que as estatísticas sejam mais baixas de homens como vítimas, essa também é uma realidade que não deve ser esquecida ou menosprezada.

Portanto, se homens são também vítimas de estupro e outras agressões sexuais, como se pode em 2013 justificar tais crimes pela roupa curta?

André Forastieri, colunista do R7, fez isso ontem (copio só o último parágrafo abaixo):

Nada de moralismo aqui. A juventude que faça o que quiser com seus orifícios e protuberâncias. Mas se as moças dão pinta de puta, serão tratadas por muitos rapazes de acordo, sendo ou não. É melhor para as meninas valorizar algo mais que suas partes. Sou todo a favor do sex-appeal (surpresa!). Mas cresci interessado por moças que  seduzem com mais do que carne à mostra, e que fazem questão de ser tratadas de igual para igual. Ser amado por uma mulher assim, não há dinheiro que pague. Mesmo que seja por só uma noite…

Eu ainda não consegui entender duas coisas do texto do Forastieri. Ele diz que as moças hoje estão se vestindo de maneira sedutora, “mostrando as carnes”. Ele estava em coma nos últimos, sei lá, 50 anos?

Outra parte foi essa de “as moças serão tratadas como puta”. O que é tratar alguém como puta? Putas podem ser tratadas como indignas de respeito? Como funciona isso?

Ler tamanho desatino me fez ficar pensando porque as pessoas insistem em querer dizer como o outro deve se vestir ou se comportar. Ok, é controle, já falei isso mil vezes aqui no blog.

Mas me parece que tem algo ainda por trás de tudo isso. Assim como agressões sexuais podem acontecer com qualquer um de nós, muitos de nós também podemos ser os agressores. Ou vocês acham que os 17 casos de estupro denunciados todos os dias no Rio de Janeiro são perpetrados pelo mesmo louco estuprador? Os criminosos também são nossos amigos, colegas de faculdade, familiares, parceiros.

Repetindo o discurso de colocar a culpa na vítima, essas pessoas estão não apenas absolvendo os criminosos denunciados, mas a si mesmos.

“Se eu avancei mais do que devia, a culpa foi dela, que me provocou.”

“Se eu desrespeitei uma desconhecida na rua, a culpa foi dela, que estava com um decote com os peitos pulando pra fora.”

“Se eu constrangi uma colega de trabalho, a culpa foi dela, que fala abertamente sobre sexo e eu achei que estava me cantando.”

“Se eu passei a mão na garota no metrô, a culpa foi dela, que tem uma bunda grande e estava de calça colada e eu não me controlei. São meus hormônios.”

É a terceirização da culpa, como se não fossemos capazes de responder pelos nossos próprios atos. Vejam que não incluí nos exemplos acima a penetração à força, porque essas pessoas que repetem o discurso da culpabilização da vítima também dizem repudiar tal agressão.

Mas se elas justificam agressões “menores”, elas estão corroborando com uma cultura que nega o direito ao próprio corpo, com consequências terríveis para as vítimas.

Agredir verbalmente, desconfiar da vítima, passar a mão, penetrar com dedos, pênis ou qualquer outro objeto, tudo isso faz parte da mesma cultura. Esses atos são cometidos por alguém, não são uma simples reação ao comportamento da vítima. Chega de terceirizar a culpa.

Ciúme não salva, ciúme naufraga

Sempre me achei uma mulher ciumenta. Está lá na descrição astrológica do meu signo (sou escorpiana) e tudo. Aceitei como verdade e, ao me perguntarem se eu tinha ciúme, respondia que sim.

Fazia ressalvas: “não tenho ciúme de familiares ou de amigos”.

Com namorados, era meio desconfiada, mas nunca criei caso para eles saírem sozinhos, irem beber uma cerveja com os amigos, jogarem bola sei lá qual dia da semana. Eu achava isso natural, uma vez que eu também queria meus momentos sozinha. Se o cara SÓ quisesse fazer programas sem mim, aí sim eu acharia estranho.

Hoje sou adepta das relações abertas, mas lembro perfeitamente quando tinha 16 anos e um namorado de quem gostava muito. Eu amava sair à noite para esses lugares que tocam música de rádio. Ele detestava. Decidimos que eu ia a uma festa e ele não. Como fui me arrumar na casa de uma amiga, ele passou lá para me ver. Queria saber como eu ficava maquiada, de vestido e de salto (não usava nada disso na época). Fez elogios, me deu um beijo e voltou pra casa. Eu fui pra night.

Maduros? Não. Nós tínhamos 16 anos! Só que existem coisas que são básicas: o direito à intimidade é uma delas.

Quero dizer, eu achava.

De vez em quando ouço histórias de namoradas (e namorados) que fuçam carteira, celular, gavetas. Sempre acho exagero de quem está contando. Não é possível que exista alguém assim, penso.

Até comprar uma revista feminina esse mês.

Na capa, a chamada: QUANDO O CIÚME PODE SALVAR SEU RELACIONAMENTO.

What? Repita, por favor:

QUANDO O CIÚME PODE SALVAR SEU RELACIONAMENTO

Calma. Isso só pode estar errado. Ciúme faz relacionamento naufragar, isso sim. Deve ter sido um erro de diagramação.

Fiquei repetindo isso como mantra, mas aí abri a revista na página da reportagem. No subtítulo: “Mas calma: se você souber usar esse ‘excesso de cuidado’ a seu favor, vai conseguir deixar o cara ainda mais apaixonado”. Gente? Até na hora de ser uma louca varrida a intenção é “segurar o gato”?

A reportagem indica 12 passos para a “recuperação” do ciúme – na verdade, de demonstrações de ciúme, para que o namorado não perceba que você está no encalço dele. Afinal, “você não quer dividi-lo com ninguém. É como se o ciúme funcionasse como um detector de ameaças, acionado toda vez que uma periguete entra em cena” (palavras da revista. slut shaming incluído).

Segundo a revista, tudo bem ser ciumenta, porque o gato já sabia desse seu traço de personalidade e se beneficia com isso (?).

Mas o que me deixou passada, mesmo, foi um dos 12 passos, logo o primeiro, que copio integralmente abaixo. O grifo ao final é meu.

Admito que sinto ciúme, sim

Você não é a última e nem a primeira mulher a ter ciúme. Então, não se sinta péssima porque perdeu a linha uma hora ou outra – seria preciso ter um coração de pedra para não pirar com certas situações. Não é fácil definir até onde o ciúme “normal” vai – a linha é tênue! Um bom termômetro é prestar atenção em quanto tempo você gasta com ele. O ideal é não ultrapassar uma hora por dia, duração necessária para se incomodar com algo e resolver, seja falando com o gato, seja sozinha.

UMA.HORA.POR.DIA.SE.ESTRESSANDO.COM.CIÚME.

Uma hora a menos de sono, um episódio inteiro de The Big C, várias páginas de um livro, um banho maravilhoso cheio de coisas cheirosas. E, se for pra incluir o gato, imaginem o tanto de coisa que dá para fazer com ele em uma hora!

Somando tudo, dá para fazer uma PÓS GRADUAÇÃO no tempo em que uma revista feminina, em 2013, diz para você se preocupar com ciúme.

Depois tem um monte de outras baboseiras, mas foi ali que descobri que as pessoas instalam Google Latitude no celular do namorado. Eu super achava que estava stalkeando algum bonitinho por ler o twitter dele de tempos em tempos, mesmo sem segui-lo.

Eu já fiz muita cagada em relacionamentos amorosos. Várias delas em razão da insegurança, que também é motor do ciúme. Mas esta insegurança estava em mim mesma, não no meu parceiro. Ele não era culpado pelas coisas que eu sentia – e, se eu continuei sentindo, mesmo quando mudei de parceiro, é porque de fato o problema era comigo. Sou EU que tenho que resolver isso.

E não para agradar o gato, como dizem as revistas femininas, mas porque eu mesma não posso sofrer e sofrer e sofrer em razão de um problema pelo resto da minha vida. Segundo a revista, posso perder uma hora por dia com isso. Acho que tenho coisas melhores a fazer.

Top 5 dos erros no sexo

Há algumas noites conversamos no Twitter sobre o que era menos legal no sexo. Fiz meu Top 5. Depois comecei a pensar em quantas mil outras coisas eu achava detestáveis.

Resolvi, por isso, fazer esse Top 5 combinando a minha contrariedade à prática e a regularidade com a qual essa prática acontece. Isso é o que eu penso; há pessoas que curtem algumas dessas coisas que eu detesto (como o basquetinho), então o ideal – sempre – é checar com o parceiro se ele está gostando.

E não é a pergunta “tá gostando?”,  porque isso pode fazer o outro ficar envergonhado de dizer que não. Você pode captar os sinais; ficar atento aos sons; observar se a pessoa “se entrega” ou se afasta o corpo, ainda que lentamente; testar um novo jeito, uma nova posição, e perguntar qual o parceiro prefere.

Afinal, sexo não é masturbação acompanhada, mesmo que seja casual. É para todo mundo envolvido sair dali feliz, feliz.

Mas há algumas coisas que tiram um pouco desse brilho de felicidade. Quais são as suas?

As minhas são essas:

1) Insistência. O cara que insiste pra transar, depois insiste para fazer anal, depois insiste pra gozar na sua boca, depois insiste pra qualquer outra coisa. Não suporto. Uma pessoa que faz isso evidentemente foi criado pensando que assim se consegue levar alguém pra cama e não está nem aí pro seu prazer. Se você NÃO QUER fazer algo, a probabilidade de você curtir quando está engajado na situação é bem pequena.

2) Basquetinho. Quando falei no Twitter, várias pessoas não sabiam do que se tratava. Imagine o sexo oral e, enquanto você está lá chupando, o parceiro começa a empurrar sua cabeça, como se estivesse batendo uma bola de basquete. Acho desconfortável. Em algumas situações, pode ser que ele empurre demais e, bom, a ânsia de vômito apareça. Nada legal, né? E eu tenho um outro problema com isso; parece que o cara quer comandar – e não sinto tesão nisso.

buzina

3) Meu peito não é buzina. Meu peito é grande desde que entrei na puberdade, então já perdi a conta das vezes em que ele foi apertado como se fosse a buzina do Chacrinha. Era batata: qualquer tipo de aproximação de cunho sexual começava pelo FÓN FÓN nos meus peitos. Se já é super boring, muitas vezes eu estava com sutiã de bojo – isto é, o cara apertava uma espuma! Com o tempo as coisas foram melhorando e hoje em dia isso é menos comum, mas sempre há um desavisado. Felizmente não tenho mais TPM (ser apertada neste momento é ainda pior).

4) Segurar demais o orgasmo. Na nossa sociedade falocêntrica, acha-se que manter a ereção peniana por muuuuuuuito tempo é sinal de virilidade. Além disso, superestima-se o orgasmo. Resultado: o cara segura durante muito tempo, esperando que a parceira goze (ainda que tudo o que ele esteja fazendo é aquele vai e vem totalmente britadeira). E nada. A lubrificação acaba, ele cospe (nem todos, claro, ainda bem) e continua. No outro dia, não dá para fazer xixi sem sentir ardor. No, thanks.

5) Flanelinha. Decorrente do item anterior. Com a demora para gozar e o desespero para o pinto não amolecer nunca (tudo bem amolecer, gente, depois fica duro de novo), é preciso trocar de posições. E se o cara puder mostrar quantas ele conhece, então! Nossa! Ganhou um passaporte pro inferno. É um tal de “agora fica de quatro”, “agora vem por cima”, “vamo ali pra sala”, “senta aqui na beiradinha da cama”, assim, sem parar, como se fosse um flanelinha te ajudando a manobrar o carro. Detalhe: dirijo bem pra cacete e não preciso de ajuda.

Tem muito mais coisa, muito mesmo: gente que cospe/usa saliva como lubrificante, quem lava o pau na pia (esquecendo que outras pessoas vão usá-la, escovar os dentes e tal, além de ignorar a existência da virilha), quem se recusa a usar camisinha, quem bate com o pau na minha cara, quem pergunta se eu quero “leitinho”.

Nossa, posso continuar isso pra sempre! E você? Quais práticas comuns que você não curte? Me conta.

Falando com portas

Eu sinto como se estivesse parada em frente a uma porta, fechada, falando incessantemente. Nenhum som além da minha voz. Nem o vento entrando pela fresta da janela. Na verdade, não tem janela nenhuma neste cômodo. Só sou eu, de pé, e a porta. Fechada.

Por mais que eu me esforce para abri-la, parece que ela está emperrada. Experimento todas as chaves. Puxo a maçaneta. O som da minha voz se mistura com as batidas na porta e os pedidos de socorro.

Nada.

Mas eu fico ali, falando, olhando para a porta, esperando que alguma coisa aconteça. Até paro de bater. Simplesmente não adianta.

***

É assim que eu me sinto na internet. Há dois anos. No primeiro deles, sofri toda sorte de xingamentos, agressões e injúrias. Sofri muito, de verdade. Foi péssimo para a minha autoestima e para meu estado emocional.

Assumir minha identidade, ainda que muita gente já soubesse quem eu era, foi um ato de coragem. Tive de enfrentar, então, mais um monte de outros julgamentos, agressões e injúrias, dessa vez de pessoas do meu mundo real.

Para completar, naquele momento minha aparência física estava ainda mais em evidência, sob o escrutínio constante de quem obviamente não vê outro propósito na vida além de agredir e humilhar os outros.

Passei por mais um ano. Agora, quando recebo mensagens me chamando de feia, feminazi ou algum outro termo imbecil, eu rio. Gargalho, até. Tenho o costume até de bater palminha. Uma só, acompanhando o riso aberto e barulhento.

Mas agora eu não aguento mais. Eu cheguei ao limite da minha sanidade. Continuo rindo das mensagens absurdas, mas não suporto mais aqueles que dizem, em tom meio paternalista meio ditatorial, como eu devo escrever, sobre o que devo escrever, como devo pensar, quantos tuítes eu devo postar por dia.

Essas mensagens não vêm com xingamentos óbvios. Por trás das palavras, uma crítica óbvia e amarga, dedos apontados, uma lupa procurando qualquer – qualquer – incoerência no discurso.

Há uma revista nas bancas, não lembro qual, com a Sabrina Sato na capa.  A manchete é “como lidar com a agressão na internet”. Segundo o que li enquanto estava na fila do supermercado, o segredo é não responder.

Isso vale para grandes celebridades, que usam as redes sociais como forma de autopromoção e para divulgação de eventos. Elas também ganham dinheiro se disserem que estão usando a roupa de tal marca ou bebendo tal cerveja.

Para completar, as celebridades contam com assessoria de imprensa para filtrar as mensagens. Uma blogueira como eu, no entanto, está na linha de frente. Leio todos os e-mails, todos os replies, todos os comentários no blog.

Nem sempre tenho tempo ou vontade de responder, mas leio tudo. Há dois anos. E não foi pouco: teve vlogger com mais de um milhão de seguidores fazendo vídeo para me sacanear, teve programa de rádio entrevistando outra pessoa se passando por mim, teve ameaça, teve análise minuciosa do meu corpo.

E eu estou exausta. Eu simplesmente não aguento mais.

Jamais ganhei dinheiro com isso aqui. Ganhei outras coisas: amigos, apoio, conhecimento. Nenhum dos meus frilas, que por sinal nem pagam minhas contas, têm a ver com o blog. Todos são de outras áreas. Fui contratada por pessoas que provavelmente nem sabem que eu fui um dia a Letícia.

Sobre meu livro, basta vocês saberem que um autor no Brasil ganha entre 5 e 15% do valor de capa. Um mês trabalhando em redação faria entrar mais dinheiro no meu bolso do que se eu esgotar a edição do livro.

Eu amo o Twitter e amo o blog. Eu não quero abandonar nenhum dos dois – o blog com certeza continuará existindo, porque eu gosto muito mesmo. Mas estou chegando num ponto em que não vou mais conseguir deixar os comentários abertos, tampouco vou querer usar o Twitter. Eu até o fechei há alguns dias, reabri depois de uma semana, mas eu considero realmente deletá-lo de vez.

Por favor, lembrem-se que aqui deste lado da tela há um ser humano real, extremamente envolvido com as causas com as quais se identifica. Eu tenho problemas como qualquer ser humano; de grana, de enxaqueca, de mau humor meio sem razão. Tem dias, como hoje, que não dá para segurar a onda.

Antes de criticarem, de apertarem o send se dirigindo a mim, de serem escrotos, pensem se vocês gostariam de ler aquilo. Multiplicado por dez, pra dizer o mínimo.

Muita gente diz que o outro não sabe ouvir críticas. Eu sei, mas não gosto. Você gosta? Fica bem pior quando eu não conheço a pessoa, e tudo o que ela sabe de mim é pelo Twitter ou pelo blog – e se ela começou a me ler nos últimos meses, ela basicamente não sabe de nada.

Eu sempre me expus demais e sei que isso dá uma falsa sensação de intimidade. Prefiro achar que algumas leitoras são, sim, minhas amigas, e que a gente pode confessar qualquer coisa uma para a outra.

Porém, há coisas que você não diz nem para a sua melhor amiga. Se você está perfeitamente decidida a dizer a ela coisas difíceis, certamente (eu espero) você vai aguardar o melhor momento e o melhor ambiente para tanto. Então por que você acha que o Twitter é o melhor lugar para me “falar umas verdades”?

Por favor, lembre-se de mim aqui desse lado da porta. Eu sei que você não me enxerga. Mas eu estou aqui.

Livro: “A culpa é das estrelas”

Estou lendo compulsivamente. Mesmo. A maior parte do meu tempo se volta para textos feministas, e por isso mesmo quero “dar uma respirada” e buscar  obras sobre outras coisas.

Foi assim que cheguei ao A culpa é das estrelas, de John Green. Ele figura na lista dos mais vendidos, uma grande amiga adorou, há diversas postagens no tumblr a respeito dele.

a culpa é das estrelas de john green

Sabia que a obra é voltada a jovens adultos, então imaginava mais ou menos como seria a fluidez do texto. Não tenho nada contra coisas feitas para adolescentes: assisto (e adoro) Awkward. e My Mad Fat Diary.

A história é a seguinte (e não vou dar spoiler, não se preocupem): uma adolescente chamada Hazel conhece Augustus. Ambos têm câncer e se encontram num grupo de apoio. Ela, claro, é boba, desajeitada e insegura. Ele, engraçado, divertido e seguro (claro). E eles se apaixonam – claro.

Até aí, ok, livros de amor são assim mesmo, apesar de já estar cansada de tantas mocinhas pobres, indefesas e à espera de um homem salvador que as tirará do buraco.

Logo no final do primeiro capítulo, Hazel decide ir à casa de Gus (Augustus) para assistir um filme, apesar de não conhecê-lo. Ela pega carona com ele após a reunião do grupo de apoio.

Pra mim, o problema começa aí.

Eis a narrativa:

Eu deveria estar nervosa – sentada no carro de um estranho, indo para a casa dele, perfeitamente ciente do fato de que meus pulmões de araque iriam dificultar quaisquer esforços para evitar avanços indesejados.

Eu vivo no mundo real (mais do que eu gostaria) e eu sei que mulheres temem pegar carona com estranhos. Porém, não me parece nada razoável que um livro voltado para adolescentes normatize isso.

Entendo que a ficção – e, infelizmente, obras baseadas em fatos reais também – deve ter personagens falhos. Joseph Campbell, na conhecidíssima jornada do herói, mostra muito bem como o herói/heroína precisam ter um quê de defeito, porque só assim eles se tornam humanos. Se forem perfeitos, o leitor/espectador não consegue se identificar com eles.

Da mesma forma, não sou contrária ao uso de personagens que estão beeeeeem distantes da perfeição, como vilões sanguinários e sem caráter.  No entanto, o A culpa é das estrelas não tem essa pegada. Pelo contrário. É visto como um livro fofo, de amor, de companheirismo.

Portanto, normatizar a cultura do estupro dessa maneira é no mínimo irresponsável (não, ele não a estupra).

Logo depois dessa carona cheia de medo, Hazel chega à casa de Gus e pensa: “talvez ele levasse uma garota nova todas as noites para ver um filme e se aproveitar dela”.

Cultura do estupro de novo. De novo. “Se aproveitar dela.”

Notem que a narradora é Hazel, e John Green transforma a personagem numa moça tão insegura quanto Anastasia, de Cinquenta Tons. O que há com as pessoas para insistirem em ler e se identificar com narrativas em que a mulher não tem força e é salva por um marmanjo?

Gus e Hazel começam a assistir V de Vingança. Ao final, ele pergunta o que ela havia achado do filme.

A resposta:

Sério. Era um filme do tipo que só agrada garotos. Não sei por que os meninos esperam que gostemos desses filmes. Nós, meninas, não temos expectativa nenhuma de que eles gostem dos nossos tipos de filme.

E isso tudo antes do fim do segundo capítulo. Simplesmente desisti. Como aguentar esse festival de estereótipos até o final? Além da caracterização clichê dos personagens, ainda rola essa separação entre “coisas de menino” e “coisas de menina”?

A culpa é das estrelas é extremamente bem sucedido no mercado. Vai até virar filme. Ótimo pro autor. Mas e pra nós, que continuamos consumindo narrativas que imbecilizam mulheres e normatizam a cultura do estupro?

***

UPDATE 

Falaram que eu devia acabar de ler o livro, porque só assim eu teria condições de realmente analisá-lo (como se quando você dissesse “putz, não gostei dessa nova música da banda X” você conhecesse a fundo o trabalho dela ou tivesse alguma formação na área). Então vou fazer isso. Gostaria de avisá-los, contudo, que não tenho qualquer especialização em crítica literária, então não adianta desqualificarem minha opinião baseando-se nisso.

Minhas sinapses nervosas funcionam perfeitamente e eu analiso criticamente a mídia, em especial quando se trata de sexismo. Portanto, sou completamente capaz de entender as mensagens que recebo, seja pela capa de revista, seja por um livro, seja num filme. A minha opinião e a minha percepção não são lei universal. Assim sendo, você pode ter a sua. Inclusive espero que você tenha a sua.

Aviso de antemão que os trechos abaixo são retirados literalmente da obra de John Green, e, como tentarei ler até o final, poderão conter spoilers.

O post será atualizado ao longo da leitura.

“”Eu tinha me sentado na beira da cama desarrumada dele. Não queria me insinuar, nem nada; é q me canso um pouco toda vez q fico muito tempo de pé.” – Hazel justificando que precisou SENTAR, mesmo ostentando um balão de oxigênio.

“Pensei em contar pra ela que estava saindo com um garoto também, ou pelo menos que tinha assistido a um filme com ele, só porque sabia que o fato de alguém como eu, tão descuidada da aparência, dos bons modos e baixinha, poder, mesmo que por um breve momento, despertar o interesse de um garoto causaria surpresa e espanto na Kaitlyn.” – Hazel, realmente super segura.

“Depois pegou um par de sapatos altíssimos, com várias tiras, à la prostituta.” – Hazel falando sobre um sapato que a amiga experimentou. Porque, claro, existem roupas “de prostituta”, “de periguete”, de “mulher que se dá ao respeito”…

(e isso tudo acima, mais o que está no post, acontece só nos três primeiros capítulos do livro…)

Desculpa, mas você precisa do feminismo

Texto originalmente publicado em 7 de maio de 2013 no Facebook, mas aqui coloquei links que não existem lá

feminist

Eu sei. Dói. Você leu em todos os lugares, as músicas te disseram, as capas de revistas afirmaram em letras garrafais: “você pode tudo”.

Mas era mentira.

A essa altura você já deve ter percebido. Está enfrentando transporte público lotado, escolhe coisas no supermercado pelo preço, espera ansiosamente pela promoção de passagem aérea.

Nem sinal daquelas prometidas condecorações e da sala com vista para a Marginal Pinheiros.

Você fez a lição de casa direitinho: estudou, passou no vestibular, se formou, fez pós, estudou inglês-francês-alemão, mas… nada.

Também disseram que não importa se você é homem ou mulher. “As oportunidades são iguais para todos, basta se esforçar.”

Namorou anos, não casou, conta nos dedos quantos caras beijou na vida e na primeira vez que transou com alguém com quem não tinha “compromisso”, logo colocaram o letreiro de “puta” na sua testa.

(na verdade, você nem transou, mas todo mundo acha que sim, então é isso que importa.)

Mesmo sendo um pouco cruel, eu preferia dizer que você é que é uma azarada. Que errou em alguma escolha de carreira, que é rodeada de amigos babacas, que a culpa é toda, individualmente, sua.

Se eu dissesse isso, eu estaria apagando a história:

- de 7 a cada 10 mulheres: elas serão agredidas ao longo da vida;
- das 500 pessoas que, só em fevereiro, denunciaram estupro à polícia do Rio de Janeiro;
- das 10 mulheres assassinadas por dia no Brasil;
- de todas as mulheres que, exercendo a mesma função que um funcionário homem, ganham 30% a menos;
- de 45% da força de trabalho brasileira que, só por serem mulheres, nunca chegarão a cargos de diretoria (mulheres ocupam apenas 7,9% desses cargos)¹;
- de 1 a cada 4 mulheres que será abusada sexualmente;
- das 2 milhões de mulheres que anualmente passam pela mutilação genital;
- das 140 milhões de crianças que casarão à força até 2020.

Eu queria dizer que você não precisa de feminismo. Queria muito. Eu só não posso.

(todas as estatísticas acima são de órgãos oficiais, como Secretarias de Segurança Pública, ONU, Banco Mundial, Unicef e IBGE.)

 ¹ Dado do Núcleo de Direito e Gênero da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas, segundo o livro Faça Acontecer, da Sheryl Sandberg.

Trocando a capa

A autora Maureen Johnson escreveu um excelente texto sobre mulheres e literatura. Infelizmente é em inglês e um pouco longo, mas eu recomendo demais a leitura.

Ela conta como vê o papel da mulher no mundo literário. A crítica ao baixo número de autoras e à escolha de autores homens nas aulas de literatura são recorrentes no meio feminista.

Livros escritos por mulheres são vistos como vazios, frívolos, bobos. Maureen diz que até as capas são diferentes, dependendo do gênero do autor*.

Ela então propôs aos seguidores no Twitter que eles criassem capas diferentes para livros. Se o autor fosse homem, deveriam criar uma capa “feminina” (mil aspas pra esse papel de gênero ridículo). E vice versa.

O resultado é meio assustador, de tão real e certeiro.

Vejam alguns exemplos:

Vocês podem ver outros exemplos aqui no Huffington Post.

*sim, eu faço um mea culpa sobre a capa do meu próprio livro. nunca escondi isso de ninguém. comprem bastante que é para fazermos uma segunda edição e eu mudar isso.