Vem pra rua

Eu sou filha da ditadura militar: nasci em 1979. Fui uma criança bastante protegida; certos problemas que atingiam os brasileiros não influenciavam no meu dia a dia. Na década de 1980, acompanhei atentamente a péssima situação econômica. Claro que eu não entendia direito, mas achava bizarro como minha pipoca mudava de preço do dia pra noite. Também tinha dificuldade de compreender a despensa lotada como se estivéssemos estocando alimento e material de limpeza.

Quando finalmente tivemos a primeira eleição direta para presidente, em 1989, eu vesti a camisa. Fui a comícios e acreditei no Collor. Como, aliás, grande parte dos brasileiros. Por isso, quando toda a corrupção foi exposta, eu fiquei arrasada. Via os caras pintadas na televisão e achava o máximo. Sentia uma mistura de orgulho e decepção. Como, aliás, grande parte dos brasileiros.

Vi ao vivo a votação do impeachment do Collor. Eu já tinha quase 13 anos, e havia amadurecido muito depois da separação dos meus pais. Lembro de mim mesma contando os votos e, quando o último “sim” foi dito em voz alta, eu chorei. Fiquei com uma certa vergonha. Eu não fui às ruas, entendia pouco de política, por que eu chorava? Porque o poder de mobilização popular nos faz sentir parte do todo. Eu não sou ingênua e sei dos meandros que levaram à retirada do Collor da presidência. Mas nós, como povo, estávamos unidos.

Depois disso, me formei no colégio e me mudei para o Rio de Janeiro. Fiz direito, mas não me engajei em qualquer movimento estudantil. Passei duas décadas em coma, eu diria.

Eu era uma boa pessoa: fazia trabalhos voluntários, era honesta, não jogava lixo no chão, votava toda eleição. Mas era meio (ou muito, pensando bem) reacinha. Machista, com certeza. Me faltava engajamento político fora das instituições das quais fazia parte. Eu buscava melhorias e entrava em conflitos dentro do colégio, da faculdade, do condomínio. Mas minha participação terminava aí. Era bastante coisa, eu sei: grande parte das pessoas não defende a liberdade nem dentro do próprio quarto. Era insuficiente, porém, e eu nem me dava conta disso.

Nos últimos dois anos a aproximação com o feminismo me fez aprender mais, questionar mais, me engajar mais. O feminismo tem tudo a ver com questões de classe, com a feminização da pobreza, com direitos humanos. Evidente que eu já me indignava com a situação da população carcerária, por exemplo, até porque durante a faculdade de direito eu visitei presídios. Nunca achei que “bandido bom é bandido morto”, mas já defendi pontos de vista dos quais hoje me envergonho profundamente.

O incrível é que uma grande mudança aconteceu dentro de mim nos últimos anos. Depois dos 30, depois de ter feito duas faculdades de humanas. Eu tive algumas oportunidades de mudar. Eu não as aproveitei, porque… não sei. Sequer posso dizer que minha vidinha era cômoda, porque não era. Sou privilegiada intelectual e economicamente, mas meus olhos estavam (estão) abertos ao que acontece com quem não teve as mesmas oportunidades que eu. Acho que eu não tinha noção do poder que eu tenho.

Não eu, Nádia, como indivíduo, mas eu, juntando-me com a Helena, com a Talita, com a Elisa, com você aí que está me lendo. O feminismo me deu essa visão, e passei a enxergar como juntas somos fortes. Não só porque assim temos mais voz politicamente, como também porque podemos nos apoiar, nos organizar, nos defender.

E é por tudo isso que eu apoio os movimentos dos últimos dias. Sempre apoiei a manifestação e, neste caso específico, sou contra o aumento de tarifa (hoje sou a favor da catraca livre).

Todos sabemos como aconteceu a repressão do Estado às manifestações. A Nádia de dez anos atrás talvez chamasse os manifestantes de vândalos; a de hoje reconhece o aparato repressor do Estado e o discurso enviesado da imprensa.

Esta mesma imprensa que também foi amordaçada e cujo discurso mudou.

E com essa mudança de discurso e com o compartilhamento de informações nas redes sociais, muita gente sem qualquer engajamento político está se unindo ao movimento. Costumo chamar de inquietação esse sentimento de que algo está errado e não se sabe precisar exatamente o que é. Elas também sentem isso, assim como eu sentia antes. Elas, como eu, não se achavam capazes de mudar alguma coisa.

Hoje elas acham. Hoje, 17 de junho, elas irão às ruas unidas em vários lugares do Brasil. Hoje a mudança começa. Não apenas politicamente, mas individualmente. Por experiência própria, sei que quando a gente olha para os lados e vê gente nos apoiando e lutando por algo muito maior que nós mesmos os nossos corpos e mentes mudam.

Hoje é o dia da mudança.

Estarei na rua te esperando.

 

Minha própria inércia diante da cultura do estupro

Depois que postei aqui a campanha Make your move, fiquei pensando sobre as vezes em que eu não fiz “my move”, em que não me posicionei em relação a possíveis (e prováveis) agressões.

Dói considerar minha própria inércia em um assunto que me é tão caro hoje em dia. Eu tenho consciência de que fui criada numa sociedade machista e que via alguns comportamentos horrorosos como normais porque foi isso que me ensinaram. Com informação, observação crítica do mundo e conversas honestas, percebi quão longe estamos de um mundo em que se respeita a dignidade humana.

Penso ser cruel me culpar por não ter feito nada, tendo em vista o panorama social. Afinal, não é a omissão que estupra, é o estuprador. Ao mesmo tempo, não falar nada é compactuar com o crime, dando oportunidade para que ele se repita.

rape culture 1

Nunca estive diretamente ligada a situações em que o crime era óbvio, mas já aceitei e reiterei a cultura do estupro. Ainda adolescente, saía para a night e via, em algumas festas, o famoso corredor de homens abusadores na fila do banheiro feminino.

Se a garota passasse por ali, era forçada a dar um beijo como pedágio. Perdi as contas de quantas vezes fiquei apertada porque não pude ir ao banheiro. Eu sabia ter algo de errado com aquilo. Porém, eu não conseguia identificar direito o que era – e as mensagens recebidas culturalmente eram as de que tal comportamento era “normal”. Fazia parte dos perrengues de sair pra balada.

Hoje sei que na verdade o tal corredor era abuso. Com certeza se eu visse algo parecido acontecendo hoje em dia eu falaria com a segurança. Seria suficiente?

Quantas vezes aceitei passivamente a agressão física, verbal e psicológica de mulheres? Foram muitas, e a situação é tão louca que sequer lembro com clareza delas. Meu cérebro guardou-as como “normais”. Tudo muito bem programadinho por essa cultura em que mulheres são objetos à disposição dos homens. É só pegar.

Claro que fiquei de olho em amigas e na minha irmã. É como se eu soubesse ser meu dever protegê-las. Contudo, não deixei de ficar muito puta quando elas bebiam demais e “pagavam mico” (eu não bebo). Na minha cabeça, além da óbvia chatice de se cuidar de um bêbado, era como se essas pessoas estivessem abrindo espaço para coisas ruins acontecessem com elas. O mesmo “pensamento” sobre sair sozinha ou usar saia curta.

rapeculture

Quando se tratava de pessoas desconhecidas, porém, eu deixava tais cuidados de lado.  Evidentemente não estou falando de coisas graves, em que o crime está óbvio e a pessoa pede ajuda. Falo dessas hoje não tão pequenas nuances da cultura do estupro. Passei batido mais vezes do que deveria.

Até que neste último Lollapalooza eu vi a cultura do estupro sambando na minha cara. Foi durante o show do The Killers. O Jockey estava lotadíssimo, e nós nos espremíamos uns contra os outros. Um cara veio tentando abrir caminho. Vários copos de cerveja na mão. Com certeza ele foi ao bar e estava à procura dos amigos. Ele então parou bem na minha frente e olhou em volta. Havia uma garota, também desconhecida, entre mim e ele.

Ele começou a “xavecá-la”. O desinteresse dela era mais do que óbvio. Percebi que ela pedia para ele sair de perto com gestos. Ele, cambaleante, insistia. Fiquei esperando os amigos dela falarem alguma coisa. Ninguém fez nada – exatamente como eu (não) agi tantas vezes no passado.

Eu virei para o cara e pedi para ele ir embora, pois ela queria assistir o show. “Eu também quero”, ele respondeu. Eu disse: “você está de costas para o palco”.

O bebum se tocou e foi embora. A garota me disse alguma coisa que não entendi. De vez em quando penso nisso tudo e, claro, considero a ideia de que às vezes a gente não fala nada porque tem medo. No entanto, para ser bastante honesta e até meio cruel, na maioria das ocasiões nós ficamos quietos porque achamos que não temos nada com isso.

Eu quis proteger minha irmã e minhas amigas, porque há amor e cuidado nessa relação. Hoje, porém, percebo que tal consideração deve ser direcionada a todos, sem esquecer que mulheres sofrem muito mais com agressões desse tipo. Combater a cultura do estupro requer, antes de tudo, percebê-la. E não é fácil, porque também nos mostra como falhamos no passado. Nesse aspecto, parei de falhar.

Campanha Make Your Move

Sempre falamos como temos que ensinar o estuprador a não estuprar – e não a vítima a não ser estuprada (até porque, como sabemos, não tem adiantado de nada).

Uma campanha chama à responsabilidade também quem está em volta da potencial vítima. Eu não sei direito o que penso a respeito. E aí? O que vocês acham?

(outros cartazes podem ser vistos aqui. infelizmente, são todos em inglês.)

missoula

“Bolsa estupro”: o crime patrocinado

Antes de qualquer coisa, quero dizer que errei ontem ao falar do Estatuto do Nascituro no Twitter. De fato, o projeto original, de 2007, tinha previsão de aumentar penas para crimes já existentes, criar novos tipos penais, além de transformar o aborto em crime hediondo.

incubator

O projeto de lei que passou ontem pela Comissão de Finanças é de 2010 tem modificações importantes em relação ao primeiro. No entanto, continua com diversas aberrações jurídicas, como o bizarro artigo 2o.:

Artigo 2o. Nascituro é o ser humano concebido, mas ainda não nascido.
Parágrafo único. O conceito de nascituro inclui os seres humanos concebidos ainda que “in vitro”, mesmo antes da transferência para o
útero da mulher.

Isso significa que embriões, mesmo não implantados no útero, teriam os mesmos direitos que eu e você, como o insustentável direito à personalidade, conforme previsão do parágrafo primeiro do artigo terceiro.

Tais conceitos são graves, vão contra o ordenamento jurídico, incluindo doutrina e jurisprudência. Porém, o motivo do post hoje é para falar sobre o artigo 13, conhecido popularmente como “bolsa estupro“. Tal artigo é o motivo pelo qual o projeto de lei passou pela Comissão de Finanças, já que prevê gastos públicos.

Segue a íntegra do artigo:

Art. 13. O nascituro concebido em decorrência de estupro terá assegurado os seguintes direitos:
I – direito à assistência pré-natal, com acompanhamento psicológico da mãe;
II – direito de ser encaminhado à adoção, caso a mãe assim o deseje.
§ 1º Identificado o genitor do nascituro ou da criança já nascida, será este responsável por pensão alimentícia nos termos da lei.
§ 2º Na hipótese de a mãe vítima de estupro não dispor de meios econômicos suficientes para cuidar da vida, da saúde do desenvolvimento e da educação da criança, o Estado arcará com os custos respectivos até que venha a ser identificado e responsabilizado por pensão o genitor ou venha a ser adotada a criança, se assim for da vontade da mãe. 

Segundo os defensores desse absurdo, o valor recebido pela vítima de estupro serviria para incentivar as mulheres a não abortarem. Eu ainda não consegui entender qual a intenção do Estado com isso. Todos os dias nascem crianças e mais crianças em situação de miséria. Não preciso falar dos indicadores sociais; todo brasileiro minimamente informado sabe as condições em que grande parte da população vive.

Há muito a ser feito ainda pelas pessoas que existem (e não essa ficção jurídica de que a pessoa passa a existir no momento da concepção – momento este que, aliás, não pode ser precisado na conjunção carnal “normal”). Faltam creches, falta alimento, falta saneamento básico, falta saúde, faltam moradias. Muitas famílias são sustentadas pela mãe, pois o pai simplesmente sumiu. A situação é tão grave que existe até um termo – feminização da pobreza – para apontar o estado em que se encontra a mulher enquanto classe.

Então, oferecer uma “bolsa estupro” para as vítimas é tripudiar sobre o sofrimento da mulher estuprada, bem como de todas as outras mulheres que fazem o impossível para sustentar a família.

A assistência pré-natal e a possibilidade de adoção já existem para qualquer gravidez, seja fruto de estupro ou não. A decisão de manter a gravidez decorrente da violência é pessoal, altamente subjetiva, e o Estado não deveria ter qualquer influência nisso.

utero

Porque, para piorar, existe a possibilidade de tal pensão ser paga pelo estuprador, pelo criminoso, que a lei chama de “genitor”, isto é, o pai. Isso significa que, caso se saiba quem é o estuprador, ele terá acesso à vítima. Quão desrespeitoso isso é?

Imaginem as cenas: mulher é estuprada, faz a denúncia (passando por todo o constrangimento de IML), o estuprador é pego, estuprador vai preso. Mulher tem o filho, estuprador sai da cadeia… e vira PAI da criança. PAI. PAI.

Por outro lado, para receber a pensão do Estado, é necessário que o estuprador não tenha condições financeiras ou não seja identificado/pego. Logo, a mulher teria que escolher entre denunciar o estuprador para que ele cumpra a pena devida, o que o transformaria no pai do seu filho; ou não identificar o agressor, deixando-o solto e livre, para que o Estado pague a pensão.

Preciso explicar que isso é absolutamente bizarro ou já deu pra entender? O pior é que a lei brasileira já previu coisa parecida. Até 2005 (sim, oito anos atrás), se a vítima de estupro casasse com o estuprador ou com terceiro, extinguia-se a punibilidade, isto é, o criminoso não cumpria pena.

O mais doido de tudo é que o legislador, totalmente descolado da realidade, esqueceu de um detalhe básico: a maioria dos crimes de estupro são cometidos por conhecidos da vítima. Em alguns casos, obstaria o tal casamento, além de a gravidez representar perigo à saúde física da vítima. Segundo dados do Dossiê Mulher, do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, 19,1% dos casos de estupro registrados em 2011 foram cometidos pelo pai ou padrasto. Nesses casos, como funcionaria? O criminoso pagaria pensão pro próprio neto?

O Estatuto do Nascituro inteiro é um erro. É uma aberração. Mas se torna ainda mais assustador para mim porque aponta a direção que o Estado está tomando não só na questão do aborto, mas também na de estupro. No fim, só fica uma certeza: para o Estado, a mulher não é dona do próprio corpo.

Um dia de aborto

Com a discussão do dia girando em torno do criminoso Estatuto do Nascituro, é importante dar voz a quem de fato passa por uma gravidez não planejada. O relato abaixo é de uma amiga.

O assunto voltará à tona muitas vezes aqui no blog. Neste momento, uma única observação: ser a favor do direito ao aborto não é ser favorável ao aborto. Cada pessoa deve decidir a respeito da continuidade da gravidez ou não, de acordo com sua crença e sua moral, que não são universais.

pro choice

Eu tinha 21 anos. Estava no último ano da faculdade e meu namorado, de partida para a Europa para fazer intercâmbio.

Meu pai havia acabado de perder todas as suas economias de 40 anos de trabalho num negócio mal sucedido. Estava em depressão. Perdemos casa, carro e quem pagou meu último semestre na universidade foi um parente do meu então namorado, que anos depois se tornou marido.

Achei que não ia acontecer comigo. Não tomava nada, porque tenho alergia ao estrógeno sintético. Fazia tabelinha e sabia que naquele dia não podia, mas aconteceu e antes mesmo do dia da menstruação vir, comprei o exame e deu positivo. Entrei em pânico.

O aborto foi a primeira opção levantada por mim e por ele. Em nenhum momento cogitamos ter o bebê. Mas eu queria que fosse rápido. Apenas isso. Levantamos a grana com a ajuda de amigos, pois era caro, bem caro. Meu namorado trabalhava, mas todo o dinheiro que ganhava ia para a poupança do intercâmbio. O que eu ganhava trabalhando como estagiária ia para as despesas da minha casa, pois meu pai estava aposentado (e falido) e eu tinha dois irmãos mais novos, um deles bem criança.

A clínica era em Pinheiros. Sob a fachada de uma clínica ginecológica. Tudo muito prático e rápido: eu entrei, falei o “problema”, foi feito uma ultrassonografia e marcada a data. O médico parecia o Leôncio do Pica Pau. A clínica era limpa, mas ele me parecia sujo. Porco. Nojento. Disse que eu estava de muito pouco tempo e que teríamos que esperar uma semana, pelo menos. Falou algo sobre “o óvulo descer para o útero”, mas não prestei atenção. Achei que fosse acontecer no mesmo dia. Queria acabar logo.

A tal semana foi a pior da minha vida. Comecei a sentir enjoos horríveis, a ponto de desmaiar (mais tarde um outro médico me disse q era uma forma do meu corpo tentar se livrar daquilo que eu não queria de jeito nenhum. Deve ser verdade, porque na gravidez – planejada – do meu filho não tive um único enjoo). Tive pesadelos. Sonhei que jogava vários bebês recém nascidos em um caldeirão fervente. E um daqueles bebês era meu irmão caçula.

Chegou o dia. Fiquei em jejum por 12 horas como recomendado. Um primo do meu namorado nos levou de carro. Não dizíamos uma palavra. Quando entrei na clínica preenchi uma ficha, uma enfermeira mediu minha pressão e perguntou se eu tinha alergia a algum medicamento. Paguei. Em dinheiro.

Descemos uma escada. Havia um centro cirúrgico no sub solo. Fechado por grades, igualzinho ao de uma cadeia. O “dr. Leôncio” já estava todo paramentado, de avental, luvas, máscara cirúrgica. Ele disse calmamente: “não vai demorar nem meia hora”. Meu namorado me disse que não demorou nem 15 minutos. Olhava tudo. O monitor cardíaco, um tubo de oxigênio no canto da sala e uma máquina parecida com um ultrassom, mas com um tubo igual ao de um aspirador de pó. Pensei: “esse negócio vai me aspirar!”. O médico conversou rapidamente comigo. Disse: “você está de duas semanas. O que tem dentro de você é do tamanho de uma ervilha. Não haverá complicação alguma para você engravidar novamente, pois estamos fazendo um procedimento cirúrgico. Você sairá daqui com um pouco de cólica. Tomará anestesia geral de pouquíssima duração. Conte até 5 de trás pra frente”. 5, 4… apaguei.

Acordei numa cama bem confortável (no andar de cima), sangrando um pouco e de absorvente. Vomitei. Não havia nada para vomitar, mas sempre que fico nervosa, vomito. Não sentia nada. Nem a tal cólica. Um pouco tonta, por conta da ânsia, apenas. A enfermeira deu a minha roupa, cuidadosamente dobrada, e perguntou se eu estava bem para me levantar e ir embora. Disse que sim. Ela me deu o cartão do médico com vários telefones e um remédio para infecção, que eu devia tomar por 3 dias. Ela me disse: “vida normal. Só tenha relações sexuais daqui a 20 dias”.

Saí da clínica aliviada, confesso. Não sentia culpa, não sentia dor, nada. Me sentia normal. Conversei com meu namorado e combinamos de nunca mais tocar naquele assunto. Não por ser dolorido nem nada, mas porque para mim era como se eu tivesse roubado. Ou traficado drogas do Brasil para o exterior. Uma cagada que poderia ter sido evitada.

Doce ilusão.

Dez anos depois, quando engravidei do meu filho, pensei no aborto os 9 meses. Nunca fui muito religiosa, mas rezava todos os dias para que Deus não me castigasse e me desse um bebê com problemas. Me consultava com dois médicos diferentes para poder fazer ultrassom toda semana, pois tinha certeza que o bebê morreria dentro de mim. Comprei livros sobre genética humana e atormentava os obstetras com doenças que nem existiam no Brasil. Era o monstro da culpa aparecendo com dez anos de atraso. Fui a grávida mais louca da história. Quando tive certeza q estava tudo bem, achei que ia morrer no parto. A conta disso foi a separação do pai do(s) meu(s) filho(s) assim que o bebê nasceu. Queria só cuidar dele. Ser exclusivamente mãe.

Eu sempre dizia às minhas amigas: “a minha culpa é não ter culpa”. Mas a culpa veio anos depois e de uma forma devastadora. Em 2006 estava trabalhando num portal de notícias e me chegou uma pauta sobre uma suposta clínica de aborto que havia sido fechada em Pinheiros. Senti meu sangue congelar. O médico, dono da clínica, havia sido preso. Não por fazer abortos – não conseguiram provar isso – mas sim porque assinava laudos falsos de suicídio para o DOPS na época da ditadura militar.

E eu, que nunca fui muito religiosa, pensei: “esse cara tinha parte com o diabo mesmo”.

***

Leia também:

Mulheres sangradas

Estatuto do nascituro: a mulher que se foda

Como é uma agência *matrimonial*

Uma leitora colocou um comentário no post anterior. Reproduzo aqui para vocês terem uma ideia de como funciona a coisa. 

Faz uns meses eu quis provar uma agência matrimonial. Uma amiga tinha me falado muito de lá, que era séria, que eles tentam te encaixar com alguém que é compatível em gostos e valores. Detalhe: é uma das agências mais sérias do Brasil.

Eu tenho dificuldades em me relacionar porque tenho uma profissão muito introspectiva, conheço pouca gente e ainda por cima sou das que preferem relação de compromisso depois de uma amizade e confiança.

Bom, Letícia, bem isso que você falou: as “dicas” da agência eram de se arrumar bem, se maquiar, principalmente porque a grande maioria dos homens selecionavam não pelas compatibilidades de valores e gostos, interesses, mas sim pela foto; só as bonitinhas arrumadas recebiam propostas. Além do mais o de não transar na primeira vez e o de que o homem é que tem que propor a saída e pagar a conta… tudo isso me deixou com o pé atrás.

Ok, sou caretona, eu quero me casar, uma relação séria, também prefiro transar depois de conhecer a pessoa. Só que isso é coisa minha e não uma agência tem que ficar dando essas dicas. E se acontecer o tesão? E por que o cara é quem tem que pagar a conta sozinho? E por que tem que ser ele quem tem que dar o primeiro passo?

O que mais me deixou chateada é que eu sou uma mulher normal e simples, geralmente to com a cara lavada, não uso salto…. Sou assim. Penso que a pessoa que gostar de mim tem que me aceitar e não tentar me mudar nessas pequenas coisas.

Então a dona da agência me dizia que eu tinha que me arrumar um pouquinho mais, que parecia que eu na verdade nem quero conhecer ninguém, porque não demonstro. Perdão, tem que usar salto pra demonstrar que você quer uma relação?

Pior: os sites de internet também têm essas dicas, bem como você falou. E se você entra num chat de internet, os caras repetem as mesmas coisas: “quero mulher linda e maravilhosa, fogosa na cama, SEMPRE sem defeitos e que me aceite tal e como sou”.

Na tal agência eles me mostraram algumas fichas de homens para que eu tivesse uma ideia. Todos uns caras normalzinhos mas fazendo umas exigências da sua “parceira ideal” “linda, maravilhosa, sarada, inteligente mas não mais que eu, carinhosa, perfeita….”.

Então falei pra dona “olha nem vou perder meu dinheiro e tempo tentando conhecer esses caras, serei descartada sempre; não sou sarada, não sou linda maravilhosa, perfeita….”.

Detalhe: a inscrição custava uns 3000 reais!

Mais do mesmo

A timeline hoje está em polvorosa por causa de um curso para você se tornar uma “mulher magnética”. Se me dissessem o termo “mulher magnética” fora de contexto, eu ia super achar que é uma nova super heroína. Já ia perguntar quando estreia o filme e quem está no papel de protagonista.

Mas não. Não tem heroína salvando o mundo com poderes magnéticos. Nesse caso, você usaria o magnetismo para “conquistar um partidão”. Em seis horas de curso – e pagando R$ 1 mil -, você teoricamente aprende como  se tornar irresistível aos homens. E só homem magro e rico (e machista)!

O assunto veio à baila porque saiu uma reportagem na Folha sobre o curso. Eu já conhecia, infelizmente, porque li uma matéria da TPM a respeito. Mais que isso: eu vivo nesse mundo, e nada do que a professora ensina é novidade. Bom, talvez a parte de ter que mexer os quadris enquanto conversa. O resto é só mais do mesmo.

Porque em qualquer revista feminina brasileira que você encontrar, o discurso vai ser o mesmo. “Esteja maquiada”, “homens preferem saias e vestidos”, “coloque um salto para se sentir poderosa e atraia olhares”. O mais importante de tudo você também já sabe: seja magra e nunca, sob hipótese alguma, transe na primeira noite.

Nos últimos anos, sites sobre relacionamentos também repetem tais asneiras. Então, hoje não precisa nem gastar os R$ 10 da revista, basta dar um clique. O impressionante é que tem quem gaste mil reais.

Isso me assusta. Porque eu sou super a favor de cursos e encontros e trocas de experiência. O que não entra na minha cabeça é porque você faria um curso para se adaptar às expectativas do outro (um outro que, aliás, você nem conhece ainda).

Um curso deveria ser para você se tornar uma pessoa melhor. Aprender algo. Mas se o desespero da solidão é tamanho que você precisa ser quem você não é, o caso não é de curso, é de terapia.

Quem sou eu – versão 2013

Como muita gente chegou ao blog depois da minha entrevista no De Frente com Gabi, acho importante me apresentar e esclarecer alguns pontos.

Primeiro de tudo: quero agradecer efusivamente todas as pessoas que me mandaram mensagens carinhosas nos últimos dias. Fiquei super feliz e satisfeita. É muito legal ver que há quem gaste seu tempo apenas para elogiar. Vocês são incríveis e fizeram a minha vida ficar mais colorida. Sei que já escrevi muitos posts agradecendo o apoio recebido nesses dois anos, mas acho que nunca será suficiente. Em todas as vezes que me encontram na rua, nas noites de autógrafos, nos eventos feministas, sempre sou muito bem tratada e eu só tenho amor por vocês. Obrigadíssima. De novo e de novo.

E vamos às apresentações: sou Nádia Lapa, amazonense, formada em direito e jornalismo, pós graduanda em gênero e sexualidade. Sou blogueira desde que os blogs existem, e o Cem Homens nasceu em 2011.

De lá para cá a minha vida sofreu uma reviravolta incrível. Continuo morando no mesmo bat local (São Paulo). Fora isso, mudou tudo! O que antes era um papo de boteco – sexo – virou a minha área de estudo. E eu amo!

Sim, antes eu escrevia sobre pau-dentro-da-buceta (e outras práticas), e aqui é importante fazer uma observação. Eu jamais, em tempo algum, sob qualquer hipótese, incentivei qualquer leitora ou seguidora a viver sexualmente do mesmo jeito que eu. A sexualidade é subjetiva e, mesmo sem conhecer sobre teorias acadêmicas sobre o assunto, eu sempre respeitei o tempo, a orientação e as escolhas de cada um.

Faço questão de sempre incentivar – aí sim – o sexo seguro e consensual. Da mesma forma, indico constantemente a necessidade de se procurar um médico. Este blog e meu livro falam sobre minha vida e minhas escolhas; jamais tive a pretensão de transformá-los em guia ou manifesto. Seria leviano e desrespeitoso de minha parte.

Ao longo desses dois anos, o blog foi mudando de cara, porque eu também fui. Passei por momentos ruins com uma crise depressiva, e relatei tudo aqui. Às vezes me arrependo, porque virou um prato cheio para a crueldade de alguns. No entanto, quando baqueio e me questiono, logo em seguida recebo e-mail de algum (a) leitor (a) que procurou auxílio terapêutico ao ler as discussões no blog. Se eu ajudei alguém a encarar de outra forma a própria doença ou de familiares e amigos, já está valendo. Eu apenas estou devolvendo toda a ajuda que recebi de vocês.

Essa exposição, é claro, trouxe coisas ruins também. Bem ruins, aliás. Muito ruins. Viver do jeito que vivo ainda faz muitos torcerem o nariz, por mais bizarro que isso seja. Afinal, é só a minha vida – se alguém tem que reclamar ou achar ruim, isso deveria caber às pessoas próximas e com quem tenho relações íntimas.

E é justamente para preservar a vida dessas pessoas que hoje em dia eu não exponho certas coisas aqui no blog. Portanto, se você chegou aqui à procura de narrativas sexuais, você não as encontrará. Também não estou disponível, tampouco numa prateleira de supermercado (não adianta mandar e-mail com seus números de telefone; não vai rolar e é muito grosseiro).

Uma das grandes mudanças pelas quais passei foi o envolvimento com o feminismo. O blog não surgiu feminista. Pra falar a verdade, eu nem gosto quando apontam o Cem Homens como feminista. É meu blog, pessoal, em que exponho minhas opiniões. Já escrevi aqui sobre a proibição do voo duplo, por exemplo, e até dei receita de brownie.

Ao mesmo tempo, estou cada vez mais envolvida com o movimento, participando de eventos, lendo bastante, fazendo pós sobre gênero, interagindo com outras feministas. O feminismo mudou a minha vida. Pra melhor.

Também vieram somar os amigos que fiz aqui pelo Cem Homens. Gente que faz parte da minha vida, do meu cotidiano. Amigos incríveis que não teria conhecido se não fosse pelo blog.

Por tudo isso, só tenho coisas boas a falar dessa experiência. Ok, tem muita coisa feia e bizarra, também, mas mesmo isso me faz enxergar a vida e a humanidade de maneira mais realista e pé no chão.

Quem chegou agora, seja bem vindo.

Quem está aqui há mais tempo, obrigada pelo apoio.

Amo vocês.

***

E junho começa com novidades! Tenho um novo blog, na companhia de Helena de Angelo, o Capricha no Bacon. Bom, pelo nome, você já deve imaginar do que se trata… é sobre comida!

Nós já temos Twitter e Facebook. Segue e curte a gente lá!

(para seguir e curtir o Cem Homens, o link está aqui.)

A simetria que não existe

Marcha das Vadias São Paulo 2013

Marcha das Vadias São Paulo 2013

Semana passada eu participei de um evento feminista. A maior parte das pessoas que estavam ali não conhecia muito sobre o movimento. A questão da roupa usada pelas mulheres foi assunto constante, e uma das garotas perguntou o motivo pelo qual uma garota não gostaria de ser elogiada por um passante desconhecido.

E eu errei na resposta.

Eu repliquei questionando, entre outras coisas, se a moça costumava mexer com estranhos na rua, chamando-os de gostoso ou delícia – ou então dizendo que irá chupá-los todinhos. Bom, eu não fui tão explícita, mas acredito que entenderam meu ponto.

De forma alguma estou ignorando o número absurdo de estupros cometidos contra homens. Também a personalização no debate deve ser combatida – e eu tenho mania de fazer isso. O que interessa se uma mulher X fala besteira para homens em lugares públicos? Ela talvez seja apenas uma exceção à regra, e enquanto este não for um fenômeno social, ele pode ser individualmente reprimido, mas não é representativo.

Então, aí vai meu primeiro erro na resposta. O segundo – e que incrivelmente demorei a me dar conta (perdoem, aquela noite mexeu com muitas das minhas teorias e as fichas estão caindo aos poucos) – é que a simetria é falsa.

Uma mulher ouve gracinhas na rua desde sempre. Deixando de lado a séria questão da pedofilia, basta a mulher “ganhar corpo” para ser abordada por estranhos. Além da experiência pessoal, ela também ouviu em casa, na escola e na mídia como ela deve se resguardar, como ela não deve andar por aí sozinha, como certas roupas não devem ser usadas.

Marcha das Vadias Belo Horizonte 2013

Marcha das Vadias Belo Horizonte 2013

Ela sente culpa pelo peito que “cresceu demais” (e, não importa o que use, estará sempre com decote), pela largura do quadril, pelo cabelo solto, pela cintura marcada. O sentimento de inadequação chega muitas vezes ao nível absurdo de a mulher não querer mais sair de casa, especialmente sozinha. Ou então ela tem dificuldade de relaxar em público, como se precisasse o tempo todo ficar de olho no próprio comportamento. Afinal, qualquer deslize pode abrir a possibilidade de alguém se sentir no direito de invadir seu espaço.

Mesmo que a mulher jamais sofra uma agressão sexual como tipificada no Código Penal, as coisas não serão fáceis. É bastante provável que ela simplesmente “deixe pra lá”, porque “é assim que as coisas são”. O cotidiano vai passando, e ela vai tomando cuidados mesmo sem perceber. A invasão do outro já não machuca tanto na superfície, mas por dentro vai se instalando um estado de medo e vigilância constante.

Acho que nem precisamos comparar o número de casos de assédio cometidos por desconhecidos cometidos contra homens e contra mulheres. Sabemos que a regra é a do cara fazer a abordagem. Além disso, quando uma mulher aborda um cara, o ponto do qual aquela relação parte é totalmente diferente do que o contrário. E o meu erro está justamente aqui.

Na nossa sociedade, a mulher é a guardiã da própria sexualidade, altamente reprimida e escondida. Ela precisa se fazer de difícil, esconder que tem desejos, fingir até mesmo não que gosta de sexo. Por outro lado, o homem (e eu estou falando aqui de relações heterossexuais, já que vivemos numa cultura heteronormativa¹) deve fazer de tudo para ultrapassar tais barreiras. Eles são criados desse jeito: para insistir, para tentar transformar o “não” em “sim”², para estarem preparados para sexo 24 horas ao dia, 7 dias por semana. Assim, quando ele é abordado por uma mulher, ele é considerado “pegador” e dizem que “ele se deu bem”.

Marcha das Vadias Rio das Ostras (RJ) 2013

Marcha das Vadias Rio das Ostras (RJ) 2013

Eu acho grosseiras e desnecessárias as abordagens de desconhecidos, exceto em situações específicas e quando há pelo menos algum sinal de reciprocidade. Independente de quem faz a abordagem e de quem é abordado; tanto faz se é homem ou mulher; não importa a orientação sexual.

Porém, é impossível partir do pressuposto, como eu fiz no evento, de que estamos no  mesmo patamar social. Mesmo em cidades grandes e em locais de grande movimento – onde em tese, segundo o senso comum, agressões sexuais não acontecem -, ainda nesta situação a mulher está em uma situação de vulnerabilidade em relação ao homem.

Também não se trata de vitimizar mulheres e dizer que elas não são capazes de se impor e de se defender. Nós podemos (e acredito que conseguiremos), mas analisar as relações sociais achando que todos os envolvidos têm o mesmo poder e a mesma bagagem é, no mínimo, ingênuo.

E eu fiz isso. Eu usei uma falsa simetria. Nós, homens e mulheres, ainda não somos educados iguais. Ainda. Um dia seremos – e, neste dia, espero, ninguém irá invadir o espaço do outro. Iremos compartilhar espaços, mas sempre de maneira consensual.

¹ heteronormativa = tudo é feito para casais heterossexuais, desde leis até propagandas de dia dos namorados.

² tal insistência de transformar o “não” em “sim” também é a cultura do estupro mandando beijos efusivos.

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Como costumo dizer, feminismo é uma construção. Leva tempo, requer estudo, clama por compartilhamentos mútuos. Aquele evento me proporcionou pensar muito a respeito de diversos temas. É difícil enxergar certas coisas, porque isso significa que eu também sou falha e que preciso crescer um montão. Mas estou no caminho. Compartilhe experiências também: você pode ajudar a mudar o pensamento do outro.

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Em junho o Cem Homens está fazendo dois anos nesse endereço. Terei novidades em breve, mas gostaria de receber sugestões de vocês para melhorar isso aqui. Podem usar o espaço dos comentários, o e-mail (blog@cemhomens.com), a página do Facebook.

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Na quarta-feira eu serei a entrevistada do De Frente com Gabi, no SBT. O programa começa à meia-noite. Assistam!