Desde que comecei a falar aqui sobre a minha crise, li muitos e-mails e comentários dizendo “eu também tenho isso”. A coisa é grave mesmo. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), somos 120 milhões no mundo todo, e 17 milhões de brasileiros padecemos com a depressão. Até 2020, será a doença mais incapacitante do mundo.
Mas é preciso ter um diagnóstico sério. Não adianta você ler aqui os meus relatos e se identificar – e não procurar um psiquiatra. Temos a mania de dar um google em qualquer coisa que sentimos, e de repente podemos ter desde uma simples enxaqueca até um tumor no cérebro.
A internet serve como fonte de informação e, talvez, ajude a nos guiar. Um médico especialista ainda sabe um pouco mais que o Google, garanto. Mesmo que você tenha absoluta certeza de que sofre de um quadro depressivo, ainda assim é melhor buscar auxílio. Até porque só o médico pode indicar o melhor tratamento. Dizer “tenho depressão” não significa curar-se.
Reclamei muito de alguns sintomas dos últimos dias e alguns leitores se identificaram com eles. Mas eles podem não ter na-da a ver com a depressão.
Sinto muito sono e não quero sair da cama – você pode simplesmente estar dormindo mal/pouco. Pode ser porque ficou até muito tarde na internet, tomou café pouco antes de deitar ou até tem algum distúrbio do sono. Eu, por exemplo, fico só 5% do tempo na fase REM do sono (aquela fase em que a gente relaxa mais… e sonha!), enquanto o normal é de 20 a 25%. Logo, eu SEMPRE estou cansada. E isso não tem nada a ver com a depressão. Conheço pessoas que só descobriram que tinham apneia com 60 anos, pois nunca haviam feito uma polissonografia. Quem tem apneia desperta várias vezes durante a noite e sequer percebe isso. Resultado: cansaço extremo e as famosas “pescadas” durante o dia.
Não sinto prazer no meu trabalho – sei muito bem o que é isso. Ah, como sei! Claro que pode ser depressão (tive a primeira crise quando estava trabalhando num lugar que eu adorava), mas pode ser simplesmente falta de tesão. Talvez você tenha desejo de fazer outra coisa, ou encarou de maneira torta alguma mudança no trabalho que porventura tenha acontecido nos últimos tempos. Você também pode ter passado a vida inteira achando que nasceu para ser contador, mas se descobriu um puta de um cineasta. É, amigos. Been there, done that.
Terminei meu namoro/ tenho um relacionamento horroroso e não paro de chorar - Esse foi o relato que mais chegou na minha caixa de e-mail. Gente, quem não chora quando termina um namoro? Algumas vezes dói mais, mesmo, e em outras a gente só sente aquela tristeza básica. Meia dúzia de leitores mencionou estar em relacionamentos que não são bacanas há um, dois anos. Brigam, brigam, choram, choram. Se você não deixar para trás algumas pessoas, você não vai seguir em frente. É bem simples. Sim, é ruim pra caramba perceber que a gente não é amado, mas é muito pior perder meses/anos das nossas vidas com alguém que nos faz mal. Em última análise, nós mesmos é que nos fazemos mal, por insistirmos em histórias fracassadas. Entra aí um componente importante de autoestima (ou a falta dela).
Estou me sentindo sozinho/abandonado – Talvez você esteja, mesmo. Se você mudou de cidade, por exemplo, é provável que não tenha tantos amigos assim. Normal sentir um certo desamparo. Como mudar? Conhecendo gente. Cursos, internet (não precisa recorrer ao Par Perfeito. Teve gente que se conheceu, por exemplo, nos lives daqui do blog). Você pode ser simpático em diversas ocasiões e criar conexões para pelo menos ter com quem sair no sábado.
Não aguento mais meus problemas - Tem fases na nossa vida que são fuedas, mesmo. Lembro do início da minha crise do ano passado. Eu estava cheia, cheia de problemas de saúde. A coisa estava tão ruim que, ao me vestir para ir fazer o teste ergométrico lá no Hospital das Clínicas, eu caí no chão… sobre o meu próprio pé e quebrei o dedo mindinho. Maré horrorosa. Agora, por exemplo, estou sem grana, com dívidas, sem o namorado que eu amava, sem emprego, entreguei o TCC há poucos dias (e isso é estressante!), etc, etc. Péssimo. Tem gente em situação bem pior. Como não sentir desespero nesses casos? Procurar a luz no fim do túnel e não achar?
Meu parente morreu e eu não consigo superar – Acabei de fazer um estudo sobre o luto, então aqui eu posso falar um pouco melhor do que mero achismo. Vocês devem estar familiarizados com os estágios do luto de Kübler-Ross (negação, raiva, barganha, depressão, aceitação). Essas fases podem acontecer ao mesmo tempo e não têm tempo certo para acabarem. Mas é normal ir melhorando cada dia um pouquinho, até finalmente aceitar que a pessoa se foi (e que não vai mais voltar). Continuar na depressão é o chamado luto patológico. Como o próprio nome diz, não é saudável. Eu já passei pela perda de uma pessoa extremamente importante. Posso dizer, então, que a saudade sempre vai aparecer. Imaginar como seria o mundo se ela estivesse aqui, também. Se revoltar volta e meia – não pela morte em si, mas sim pelas circunstâncias – também me parece razoável.
Nenhuma das situações acima, por si só, caracterizam a depressão. Eu não sou médica, e entendo sobre o assunto tanto quanto uma pessoa relativamente bem informada. Por isso, reitero que é preciso procurar ajuda médica. Tem gente que se recusa a tomar remédio. Essa decisão é muito pessoal, mas eu acho boba. O fato de você começar a tomar uma pílula hoje não quer dizer que você irá se medicar para sempre. Pode acontecer de você precisar das drogas durante crises, mas com psicoterapia e outras coisas mais naturais – tipo exercício físico e yoga – você pode melhorar muito e ter uma vida super saudável. De olho na depressão, sempre, mas ainda assim criativa, bem humorada, feliz.
Quem nunca teve nenhuma crise também deve ficar de olho em como está vivendo. Os indícios de que algo pode degringolar a qualquer momento aparecem. Ano passado, conversando com a psiquiatra e contando minha vida inteira, ela disse que eu passei por muitas situações de estresse e não parei para cuidar de mim. Teve a morte da minha irmã, a decisão de largar o direito, a mudança para São Paulo… todas essas fases, necessárias e imprescindíveis para eu ser quem eu sou hoje, pedem algum tipo de suporte. E eu fui fazendo tudo, sendo “forte”. E enquanto escrevo isso, estou há dois dias sem tomar banho. Quer dizer, não vale a pena essa “fortaleza” toda.
Se você desconfia de que algo está errado, procure (por favor, procure mesmo!) ajuda médica. E não confie em qualquer um. O psiquiatra deve te ouvir, te fazer perguntas, entender o que está acontecendo. Se ele mal olha para a sua cara e já vai te receitando um remedinho, desconfie (aqui tem uma reportagem da Trip sobre essa coisa de sair passando remédio logo de cara). Eu só gostei da terceira psiquiatra que eu fui. Gostei muito desta que me atendeu nessa semana, também.
Analisando meu passado, vejo que houve um período da minha vida em que eu estive à beira de uma crise. Na época eu nem percebi. Foi quando eu já havia largado meu antigo emprego, mas ainda não sabia se iria conseguir passar no vestibular/começar nova faculdade. Foi no segundo semestre de 2007. Eu não tinha dinheiro e passava os dias em casa. Resolvi pegar o ócio e começar a me desafiar. É, me desafiar. Sempre fui muito esporrenta, com gestos nada delicados. Pensei: será que sou assim mesmo?
Comecei, então, a fazer artesanato.
Meu primeiro “desafio” foi o biscuit.
A coisa começou a me irritar porque demorava muito tempo para secar. Então passei para as caixinhas de madeira.
Mas que graça teriam as caixinhas sem nada dentro? Fui para os bombons.
Depois que aprendi tudo sobre bombons e trufas, resolvi fazer um curso de confeitagem. Isso eu achava que JAMAIS conseguiria. Depois do primeiro módulo (são três ou quatro, não lembro. fiz até o três), em outubro de 2007, recebi pessoas em casa com esse bolo:
Fico até meio com vergonha como ele é torto, mas eu era novata na coisa, me deixem! Mas os bolos davam muito trabalho – e eu sou ansiosa demais pra isso. Peguei meu conhecimento de biscuit e comecei a fazer… cupcakes, bem antes de eles terem esse nome por aqui.
Eu não acho que fazer artesanato (ou se dedicar a qualquer outra coisa que você goste muito, como um esporte, por exemplo) vai salvar alguém. Mas, em conjunto com uma terapia, uma religião (se você acredita), isso pode, sim, trazer alguma espécie de paz. Pode parecer ridículo, mas isso também me ajudou na autoestima. Eu sempre achei que “não conseguiria”. Se descobrir capaz de alguma coisa – qualquer coisa – dá uma enorme sensação de poder.
Eu cheguei a vender cupcakes por encomenda aqui em São Paulo. Meu material de artesanato, no entanto, está guardado em caixas desde 2008, quando me mudei pra cá. Pretendo voltar. E você? Por onde vai começar?

