Ela era uma garota de programa

Ontem conversava com um amigo sobre garotas de programa. Existe uma certa aura de fascínio, fetiche e muito moralismo em cima de quem “vende o corpo”.

Eu tenho muita curiosidade sobre como as coisas funcionam; como cada uma daquelas mulheres decidiu a profissão que ia seguir. Digo “mulheres” porque a prostituição masculina é tabu ainda maior.

Sempre pensei “e quando rola um sentimento?”. Temos casos cinematográficos, tipo Uma linda mulher. Ou ainda aquela a quem fui comparada milhões de vezes, a Bruna Surfistinha. Essas pessoas têm sentimentos, ora ora. E se envolvem emocionalmente.

Um amigo chegou a namorar uma garota de programa. Que ele conheceu durante um programa. Ele escreveu a respeito e compartilha conosco sua experiência:

Eu morava sozinho e em outra cidade, ganhando um bom dinheiro para trabalhar relativamente pouco. Eu era um homem solteiro e disposto a muitas coisas, como a sair em passeios de barcos noturnos com amigos que havia feito havia menos de um mês. Terminei essa noite aos amassos com a menina que lavava minhas roupas numa vila a meia quadra do apartamento que alugava.

Então era um dia de manhã e eu acordei impaciente. Eu entrava no trabalho perto da hora do almoço e ainda teria amanhã inteira em casa. Não lembro particularmente se o anúncio no jornal tinha algo demais, só lembro do nome – Luana. Liguei, ela atendeu, combinei pra dali a meia hora, ela chegou uma hora depois. Luana era linda, era morena, era mignon, era simpática. Sabia gargalhar com desconhecidos de mau-humor dispostos a pagar pelo seu sexo. Sim, eu estava de mau-humor porque ela atrasara e agora eu iria me atrasar.
Não era a minha primeira vez com garotas de programa e não seria a última. Já havia tido experiências ótimas e outras péssimas, e a maioria era simplesmente banal, sexo mal-feito e caro.
Com Luana foi diferente. Tornei a chamá-la um par de dias mais tarde, num horário menos inconveniente. E outras vezes. E por fim ela topou um programa especial, iria de noite e passaria a noite toda comigo, indo embora somente pela manhã. Eu estava apaixonado por aquela moça. Conversamos muito nesta noite e me declarei.
Algo aconteceu após esta noite e passamos a nos falar com frequência por telefone, como fazem duas pessoas que se gostam. E um dia ela apareceu no meu apartamento, num final de tarde e se assumiu minha namorada. Ela me disse seu nome verdadeiro, me mostrou fotos de sua sobrinha, sorriu e me encheu de beijos. 
Luana namorou comigo por seis meses, seis deliciosos meses, devo dizer. Luana gostava de bisbilhotar na agenda do meu celular pelos nomes de mulheres, ciumenta. Ela cursava o segundo grau e estudava de noite, saía das aulas e ia pro meu apartamento, onde namorávamos, ela assistia a novela, reclamava das porcarias que eu cozinhava em casa e dormia aninhada comigo. Ela já havia abortado uma criança e volta e meia um ex-namorado ou coisa do gênero surgia nas conversas, sempre nervoso e violento. 
Luana não algum tipo de tarada louca por sexo. Se você é do tipo que imagina que, por ser puta profissional, a moça é uma ninfomaníaca contorcionista, recomendo cair na real. Luana era uma ótima namorada na cama mas não mais ótima que a grande média das mulheres, e era até discreta, não se dava a orgasmos fingidos, palavrões, gritos. Gostava de carinho e de conversar – e principalmente, de respeito.
O namoro terminou e continuamos mantendo contato. Luana me ligou toda orgulhosa e feliz no dia em que conseguiu emprego numa franquia de lojas, seria vendedora de eletrodomésticos. Ela já havia até sido promovida quando marcamos um almoço para matarmos as saudades e ninguém no restaurante poderia supor que a moça que me fazia companhia na mesa fazia programas através de anúncios de jornal apenas alguns meses antes. Depois de um tempo, nós dois saíamos da cidade.
Luana estava casada e era mãe de duas crianças na última vez que mandou notícias.
O relato do meu amigo desmistifica um pouco a ideia do que seja, em geral, namorar uma prostituta. E você? Namoraria com alguém com essa profissão? E o ciúme? Como lidaria?

Happy new life

Eu sei de todos os clichês de “o ano só começa depois do carnaval”. Eu curto um clichê, mas nesse caso… não é o caso. Detesto carnaval, então pra mim tanto faz. Como não trabalho com horário marcado, o feriado também é indiferente. O fato de o meu “ano” só estar começando hoje é uma engraçada coincidência.

Tive o pior réveillon da minha vida. O 31 de dezembro foi um daqueles dias que você não quer esquecer, por mais doloroso que seja. É preciso relembrar como a vida que eu conhecia simplesmente desmoronou. Caiu sobre a minha cabeça. O chão se abriu. Sim, eu fiquei meio solta no ar. Tudo mudou. Minhas certezas ruíram. Eu me despedacei por completo.

Nesses primeiros dois meses de 2012 foi como se eu estivesse readquirindo forças pra sobreviver. Precisava arranjar novos amigos, reatar laços, buscar trabalho, respirar. Respirar. Apenas respirar. Não quero construir novas certezas – segundo a minha terapeuta, é melhor não ser tão rígida; assim, I can bend, but I won’t break.

Fui juntando os pedaços que se espalharam em 31 de dezembro. Colei um, colei outro, dispensei muitos. Joguei fora, queimei, sei lá. Use o verbo de “luto” que você quiser. Não foi – e continua não sendo – nada fácil. Na verdade, tá difícil pra caralho.

Resolvi facilitar um pouco as coisas e entrei em um avião com destino à felici OPS! ao Rio de Janeiro. Fiz uma espécie de retiro nada espiritual. Vim ser amada. Vim reencontrar (e encontrar pela primeira vez!) amigos queridos e que me ajudaram muito durante minha crise. Vim tomar um pouco de sol.

Fiz questão de chegar no Santos Dumont. Escolhi o horário a dedo: queria ver o sol ainda no céu. Confesso que a demora dessa coisa de ter de ir até Campinas me deixou de mau humor. Estava meio com sono. Até que, 15 minutos antes de aterrissarmos, eu vi uma pontinha de areia branca e o mar azul, azul. Fiquei hipnotizada. Fui acompanhando onde aquilo ia dar. Tentava reconhecer o local. Não consegui.

Até que chegamos na altura do Recreio. Ali eu já sabia onde estava, mas não era, ainda, onde queria chegar. Vi a Grajaú-Jacarepaguá, o Maracanã com as obras pelo visto muito atrasadas, o Túnel Rebouças… e ele. Ele. Ele, que me fazia ficar horas o observando da janela quando criança. Ele. Num dia de sol como ontem, ele parecia uma pontinha luminosa em cima de um morro. De braços abertos, sempre, mas ainda de costas pra mim.

Daí passamos pela sua esquerda. Olhei cada prédio que fez parte da minha vida. Quando o avião fez aquela voltinha na Enseada de Botafogo, dei um suspiro profundo (perguntei no Twitter, repito a questão aqui: alguém no mundo consegue não perder um pouco do fôlego a cada vez que passa por ali?). Ele estava de frente pra mim. Vi Niterói: o museu, o caminho, a ponte. Não consegui enxergar o Dedo de Deus – estava tudo nublado pros lados de lá. O sol refletia em tons de dourado na Baía. Ilha Fiscal. Decidi ir lá na minha temporada carioca; em anos morando aqui, nunca visitei o lugar. Finalmente aquela sensação de que iríamos pousar em pleno mar.

Eu estava em casa.

Não vou dizer que uma felicidade imensa tomou conta de mim. Achei que fosse acontecer, mas eu só pensei “ok, tô aqui, essa cidade é um desbunde, mas e agora?”. Sempre ouvi dizer que “a tosse acompanha o tuberculoso onde ele for”. E se a minha tentativa de renascer sob as águas de março fosse em vão?

Mas daí uma alma gêmea foi me buscar no aeroporto. E a minha alma gêmea, minha irmãzinha do coração, me recebeu em casa com lasanha, coca zero na geladeira e cama feita.

Conversamos, conversamos, conversamos. Falamos sobre coisas que aconteceram nos últimos meses, jogamos umas cartas para ver o que vai acontecer daqui pra frente. Exausta, fui dormir cedinho. Procurei meu remédio na mala e encontrei o pacote que achei na minha soleira ontem.

Dentro de uma bela embalagem das Livrarias Catarinense, um livro igualzinho ao que eu havia recebido da minha irmã, anos atrás, quando também passei por uma má fase. O mesmo. Fiquei emocionada. Junto, um bilhete:

Estou ao seu lado de coração e desejo que você se restabeleça logo e seja muito feliz!

Você é uma mulher fantástica e eu sou muito grata de poder “ler” você. 

Beijo grande,

Sheila

Já caindo pelas tabelas de tanto sono, lembrei de quanto amor recebi nos últimos meses. Eu precisava. MUITO! Me sentia sozinha, abandonada e mimimimimimimimimimi.

Pensei em todos vocês que simplesmente me amaram recentemente, mesmo eu estando completamente cagada. Dormi profundamente.

Acordei cedíssimo e vi no espelho uma moça loira e descabelada; meio cosplay de Elba Ramalho e Shakira. A maquiagem mal tirada acentuava ainda mais minhas olheiras. Mas eu gostei do que vi. Pela primeira vez em muito tempo, eu gostei do que vi.

Eu estou renascendo, graças a mim – é claro -, à minha médica, aos meus remédios e a muitos de vocês. Obrigada, obrigada, obrigada. Agora é hora de ser feliz. E nada melhor para isso do que estar numa cidade que eu amo. Uma moça querida mandou uma mensagem dizendo que o Rio está mais lindo comigo aqui. Pode ser. Prefiro acreditar que sim.

Amo vocês.

Você ainda não entendeu?

Sério. Quase um ano de blog. Você ainda não entendeu?

1) Eu não sou paga para escrever aqui.

2) Eu não sou sua amiga.

3) Isto é um blog, não uma coletânea de obras sobre sexualidade.

4) Eu sou agressiva.

5) Dizer “fica calma” não vai me deixar calma. Vai me irritar mais ainda.

6) Está achando ruim? Faz melhor.

Got it?

Ou é preciso desenhar?

Se é preciso explicar com mais minúcias, aí vai. Mas, se você ainda assim não entender, sugiro voltar para o primeiro ano da escola ou fazer cursos intensivos de interpretação de texto.

1) Eu não sou paga para escrever aqui. Eu adoro escrever no blog. Adoro. Meu “pagamento” vem daí: do prazer, sem o qual eu não consigo viver. Jamais achei que alguém tivesse que pagar para ler o que escrevo aqui. Tanto o é que algumas pessoas sugeriram ter aquele lance de doação no blog, e eu nunca gostei da ideia.

Caso eu escrevesse para um portal, aí sim eu gostaria (e exigiria) de ser remunerada, porque alguém estaria ganhando dinheiro às minhas custas. Repito: uma revista custa em torno de R$ 10 e você não tem o direito de pautá-la. Aqui você pode sugerir, contestar educadamente, dar sua opinião, relatar algo que tenha acontecido com você. Pautar – isto é, dizer que tal assunto não lhe interessa ou que é idiota – não. Não. Simplesmente não. Se você quiser que eu escreva sobre um assunto qualquer, ME PAGUE. Meu email é [email protected] e eu sou freela. Escrevo sobre coisas que você nem imagina. Mas recebo dinheiro por isso.

2) Eu não sou sua amiga. O fato de eu contar parte da minha vida no blog não te torna automaticamente meu amigo. Eu entendo que exista um carinho (que é mútuo em grande parte dos casos), reconheço que blogs dão uma falsa impressão de intimidade. É natural. Mas você tem de saber a hora de parar. O fato de me seguir no Twitter não vai me fazer imediatamente aceitar um convite pra sair ou acatar conselhos do tipo “cuidado com gente da internet”, como eu recebi ontem.

Eu fiz grandes, grandes amigos pelo blog. Tem o Robson, que esta semana gentilmente deixou aqui em casa uma temporada inteira de Criminal Minds (te amo, green eyes). Tem a Ana, com quem dividi uma ribs on the barbie e ontem ainda me trouxe um muffin do Starbucks. Viajarei com Mariana semana que vem. Maurilio já me ouviu choramingar mil vezes nos últimos tempos. Camilla veio aqui em casa num dia em que todo mundo achou que eu fosse me matar. E tem mais Sheila, José Fernando, Tati, Amanda, Henrique, Fabio, Érico, Mari, Larissa, Leandro, Rodrigo e mais muita, muita gente que hoje faz parte do meu cotidiano e que conheci por aqui.

Mas essas pessoas INTERAGEM comigo. Já saí com muitas delas, trocamos e-mails, conversamos no Twitter. São relações de amizade que COMEÇARAM virtualmente, mas se tornaram reais. E sim, quero ter um milhão de amigos e bem mais forte conseguir cantar, mas imaginem se cada um dos meus quatro mil seguidores resolver encher meu saco todo dia? Não dá pra aturar, gente. Interaja comigo. Sobre qualquer bobagem. Mas não venha cagar regra. Nunca. Jamais.

3) Isto é um blog, não uma coletânea de obras sobre sexualidade. Sabem quantos especialistas já escreveram sobre sexo? Muitos. Escreveram muita bobagem, eu sei, mas muito já foi produzido sobre o tema. Documentários, entrevistas, outros blogs, livros, teses, monografias, artigos acadêmicos. Este blog jamais teve qualquer intenção de abordar tudo o que se refere a sexo. Ele começou – vocês devem lembrar – apenas como um lugar onde eu relatava os  meus encontros sexuais. Foi se transformando e eu gosto do que ele se tornou. Mas jamais conseguirei, nem se eu me dedicasse exclusivamente a isso, abordar todos os temas. Por isso, se você acha que faltou “algo”, diga. Mas como SUGESTÃO, e não como COBRANÇA. Porque é chato. Porque é inútil. Porque me irrita. Já se você dá a ideia, pode virar um post bacana e instrutivo pra todos nós. Eu não faço NADA obrigada ou porque alguém fez cara feia. Eu olho pra uma cara feia há 32 anos. Nada do que você fizer ou espernear vai ser pior que isso.

4) Eu sou agressiva. Preciso explicar? Desde os primórdios até hoje em dia as pessoas dizem que sou agressiva. Eu já sei disso. Eu vejo isso acontecendo. Mas eu tomo remédios e faço análise, thank you very much for your concern. Repetir isso – ou pior, me xingar disso – não vai me fazer mudar. E, news flash: eu não quero mudar. O que muitas vezes as pessoas chamam de agressividade é apenas PERSONALIDADE. Eu sei que anda em falta por aí. As pessoas preferem ser fofinhas e bonitinhas para serem aceitas. Eu não preciso ser aceita por todo mundo, porque eu já me aceito. Eu sou incisiva. Eu luto pelo que acredito. Lide com isso.

5) Dizer “fica calma” não vai me deixar calma. Vai me irritar mais ainda. Sobre isso: vem aqui ser eu, vem. Já disse nesse post que adoro escrever o blog, mas tomei muita porrada por causa dele. Muita. Algumas nunca foram ao ar porque eu moderei. Outras vocês viram no Twitter. Não me acho a coitadinha, não. Teria sido bem fácil simplesmente desaparecer e esqueceriam da minha existência. Se eu continuo aqui, é porque eu quero, porque eu posso e porque eu acho correto. Mas não me exijam CALMA. Vou estourar de vez em quando mesmo. Lide com isso [2].

6) Está achando ruim? Faz melhor. Tem gente que acha meu blog uma merda. Diz que é inútil. Que é mal escrito. Que é fantasioso. Que é um saco eu misturar sexo, depressão, feminismo e não sei mais o quê. Essa sou eu. Este é um blog. Independente. Que não tem linha editorial. Se eu quiser a partir de hoje só colocar imagem de bichinho aqui, eu posso. Se você acha ruim, não visite. Mas se a sua vontade de voltar aqui for incontrolável, pense no que eu faço de errado que você não faria e monte seu próprio blog. Daí tenha você mesmo seus haters e trolls de estimação. Isso se alguém te ler algum dia, claro.

Se meu blog é inútil e você se acha um cidadão acima de qualquer suspeita, um cara super engajado, bacanudo, justo, honesto, etc, etc, etc, tenho algumas sugestões:

Leia esse post e depois cobre das autoridades o fato do Hopi Hari já ter aberto hoje. Ou olhe para o céu de São Conrado, veja as asas e parapentes voando duplo e denuncie à polícia. Verifique se a lancha que está puxando o banana boat tem uma grade em volta da hélice. Se não tiver, denuncie à Capitania dos Portos.

Leia essas notícias de maus tratos aos animais e contribua. Salve um bichinho na rua. Não tem espaço em casa? Contribua com o SalvaCão, da Lelê, ou com o Segunda Chance, ou com a ONG que com certeza existe perto da sua casa.

“Ah, salvar cachorro e gato quando tem tanta gente morrendo de fome é besteira”, você pode dizer. É um pensamento mesquinho, mas calma! Há outras opções para você ajudar!

Com 43 reais, numa única doação, você dá tratamento contra a malária para cinco pessoas pelo Médicos Sem Fronteiras. Com 60 reais, veja só, você alimenta CENTO E VINTE PESSOAS num dia.

Tá sem grana? Ah, sei bem como é. Estamos juntos nessa. Mas você pode oferecer lar temporário para um cachorro. Pode ir ler histórias para crianças internadas. Pode ajudar a fazer o sopão que alimenta moradores de rua.

E pare de me criticar. Gaste seu tempo com coisas úteis. Eu, com um ano de blog, mesmo sem querer, ajudei pessoas nos seus relacionamentos. Muitas delas relatam terem melhorado a autoestima só de vir aqui no blog. Ontem uma leitora disse que teve coragem de ir ao psiquiatra depois de eu falar da minha depressão. Eu estou fazendo um trabalho pequeno, estressante, que muitas vezes acaba com meu dia. Não é fácil mesmo receber tantos relatos de agressões, de infelicidade e de desespero. Mas eu estou aqui me doando. E você? O que fez pelo próximo hoje?

Acidente? Tem certeza?

Quero primeiro avisar que este post não tem a ver com sexo, nem com depressão, nem com corações partidos. É um assunto sério, seríssimo, e peço – mesmo – que vocês divulguem. Pensem a respeito. Repassem para os amigos. Por favor. 

Nesta semana aconteceram três “acidentes” fatais no turismo que foram divulgados pela mídia.

O primeiro foi o chocante atropelamento da garotinha de três anos em Bertioga. Por um jet ski.

Depois, Maiza Tavares morreu em Água de Lindoia quando o cabo da tirolesa se rompeu.

Hoje uma adolescente de 14 anos morreu no Hopi Hari.

Pessoas totalmente diferentes, em lugares diferentes, com causa mortis diferentes. Será? Será que foram meros acidentes?

Eu respondo, utilizando um recurso que se um ex-chefe meu soubesse, me mataria: o dicionário (muitos jornalistas têm mania de usar isso, e esse meu ex-chefe tinha horror à prática).

acidente
a.ci.den.te
sm (lat accidente) 1 O que é casual, fortuito, imprevisto.

Vamos ver isso caso a caso. Criança em Bertioga foi atropelada por um jet ski pilotado por um garoto de 14 anos. Somente maiores de idade podem pilotar e precisam ser habilitados para isso (leia mais a respeito no post do Sakamoto que eu indico na própria notícia). Acidente?

Tirolesa: como ainda não há muitas informações a respeito, eu digo que uma tirolesa não é somente pendurar uma corda de um lugar mais alto e amarrá-la no chão, para que a pessoa, ao escorregar, caia em uma linda poça d’água. Não. A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) tem regras bem específicas sobre altura, peso suportado, manutenção, monitoramento (há que existir, por exemplo, uma pessoa habilitada no local da partida e outra no local da chegada). As regras seguem aquelas fórmulas físicas mesmo. É cedo para dizer que o sítio onde Maiza morreu não seguia essas regras? Talvez. Mas um cabo de aço não se rompe do nada.

Vamos então ao Hopi Hari. A adolescente pagou um ingresso e achou que ali dentro estava segura. Eu usei aquele mesmo brinquedo mil vezes. Adorava. ADORAVA. Até que em 2007 eu fui ao parque e me assustei com o abandono. Pintura descascando, falta de monitor em alguns brinquedos… Cheguei até a mandar um e-mail pra lá. Disse que se eles não se preocupavam assim com a aparência, qual preocupação eles teriam com a segurança? Não tenho mais o texto guardado, pois o contato foi pela caixinha de mensagem no próprio site do Hopi Hari. Tenho apenas a prova do recebimento, numa mensagem automática de 19 de outubro de 2007.

Alguns dias mais tarde me ligaram do parque. Com muita educação, me explicaram que o Hopi Hari estava passando por mudanças significativas e que em breve estaria tudo ok. Eu agradeci o contato, falei que nunca mais colocaria meus pés lá mas que confiava na palavra da simpática moça. “Não quero que aconteça um acidente por aí”, disse.

Agora vocês devem estar se perguntando a razão pela qual eu escrevo tudo isso aqui ou resmunguei tanto no Twitter nesse começo de tarde. Algumas pessoas, logo no início desse blog, me xingaram dizendo que eu devia me preocupar com coisas “mais importantes”, me “engajar em causas relevantes” e toda essa bobagem (como se falar sobre sexo fosse inútil).

Pois bem. Há nove anos eu sou engajada, sim, numa causa que me é muito, muito cara: a da segurança em turismo/esportes de aventura. Façam suas contas aí, sejam espertos e descubram do que eu estou falando.

Há quase uma década eu luto incansavelmente para que as regras de segurança sejam respeitadas. Por isso que eu mandei o e-mail para o Hopi Hari. Não sou o tipo de pessoa que faz cara feia nem pro garçom, imagina se eu ia me incomodar em escrever uma mensagem enorme pra um parque de diversões. Fiz porque achei que era meu dever como cidadã. Como uma pessoa que já sentiu na pele o que é ver um ente querido virar estatística. Mera estatística.

Porque é exatamente isso que acontece: rapidamente o Hopi Hari vai dizer que X pessoas foram ao parque nesses anos de atividades, mas que somente X/1000000000000 sofreram algum tipo de machucado. A adolescente de 14 anos vai virar um número. Sem nome. Sem rosto. Sem sonhos. Um número.

Mas por trás dela há uma família. Uma família que hoje vai liberar um corpo no IML, vai lutar na justiça por uma indenização e vai ouvir de um burocrata qualquer exatamente que foi “uma fatalidade”. Não. Num “brinquedo” como aquele, a manutenção é essencial. É preciso registrar as horas de uso de cada peça; conferir o funcionamento antes do parque abrir. Tudo isso está numa lista de regras assinada pelos donos dos principais parques de diversões do país. Regras essas que, aliás, não têm força de lei.

Resumindo, é isso: essas regras são feitas pelas próprias pessoas que exploram as atividades. No caso da ABNT, as normas parecem ter respaldo técnico e demoraram anos para serem concluídas. Mas quem fiscaliza? Você não é obrigado a obedecer, se não quiser.

Sabem aqueles passeios de bugue nas dunas do nordeste? Que o motorista – muitas vezes não habilitado – te pergunta se você quer com ou sem emoção? Pois é. Você vê as fotos da galera super animada sentada na parte externa do bugue e segurando naquele negócio cujo nome desconheço (aquela barra entre os bancos traseiros e dianteiros). Todo mundo de biquini e sunga, feliz e bronzeado. A regra diz que as pessoas devem estar DENTRO do carro e com cinto de segurança. Para todos. Alguém segue isso?

Há casos ainda piores, em que a própria atividade é proibida. PROIBIDA. É o caso do voo duplo. É, aquele mesmo que você vê na TV, com os globais dizendo que foi a experiência da vida deles. A Agência Nacional de Aviação Civil diz que tais voos só podem ser feitos com fins instrucionais. Por causa disso é que os pilotos se autointitulam “instrutores” e dizem que você está pagando uma “matrícula”, quando na verdade você está só de férias no Rio e nunca mais vai se pendurar numa asa delta ou num parapente.

Porque eles BURLAM a lei. Eles fingem que estão “dando aula”, mas na verdade estão fazendo um voo panorâmico. Eles cometem uma ilicitude. E ganham MUITO dinheiro com isso. MUITO. E, agora sim eu posso dizer de cadeira: não fiscalizam, não treinam os pilotos e usam asas e parapentes desgastados, velhos e que QUEBRAM NO AR.

Se algo acontecer com você em alguma dessas atividades, você vai virar uma Maiza, ou a adolescente de 14 anos, ou ainda a garotinha de três. A notícia vai chocar alguns. Outros nem vão ficar sabendo. Quem explora a atividade vai te transformar em estatística. Mas seus pais, irmãos, amigos, namorados ficarão eternamente com uma sensação de impotência e revolta. Pra eles você tem nome, sobrenome, sonhos, planos de futuro.

Vejam a matéria de Denise Odorissi, do R7, sobre os casos da semana com a querida Silvia Basile, uma pessoa séria e que luta  há anos pela causa. 

Por tudo isso, eu dedico esse post e essa música a você, my dear. I love you loads and loads. 

 

O estigma da mulher honesta

Uma das grandes dúvidas da maioria das mulheres é o “momento certo” para transar. Muitas ficam adiando, adiando, pois acham que assim o cara não vai julgá-las, “desvalorizá-las”. Todo mundo sabe como eu acho isso uma bobagem sem tamanho, mas eu sei que na “vida real” essas coisas acontecem.

Foi o que uma leitora me contou por e-mail.

Moro (sozinha) em sampa há uns 5 meses, tenho 25 anos, vida estável, e tudo mais (bla bla bla).

Esses dias me aconteceu algo q eu achei q devia compartilhar, principalmente com vc…
Vc tem me ajudado muito a parar com o estigma da mulher honesta…. ou seja, a entender que não sou uma puta por querer ficar com caras, por querer fazer sexo, e principalmente, por querer ficar com alguém por ficar.

Sempre fui gordinha, mas sempre peguei quem eu quisesse.. mas transar.. ih.. transar era outro esquema.Sempre fui pudica quanto ao sexo, isso era coisa esporádica, e só achava que seria capaz de fazer sexo no estilo papai e mamae..

Depois q mudei pra cá resolvi q tinha q viver a vida. Resgatei um cara do passado. Ele veio me ver, foi tudo ótimo, e descobri coisas sobre mim que eu nem sabia… pena q foi rápido demais e não sei se vou vê-lo de novo.

Continuando a saga “viver a vida”, no domingo, um amigo de um amigo meu, com quem fiquei no final de semana passado, veio falar comigo na internet… ficou de putaria, putaria, pedindo pra vir aqui me ver, aquela coisa.

Não resisti e falei: VENHA. É, ele veio… 

Veio, me comeu, e foi embora depois de 30 minutos.

ME SENTI UM LIXO. Ele sequer tirou minha roupa, não encostou nos meus peitos, e eu nem vi direito o pinto dele. Absurdo. 

Eu, que passei a pregar que temos direito iguais, que assim como os homens nos usam, podemos também usá-los, e por aí vai, me vi de novo com o estigma de ter que ser uma mulher honesta.

Não fiz nada de errado. Eu já sabia que ele era cuzão.. mas porra, desse nível?
Ainda, antes de ir embora, me disse: “desculpa a falta de educação, mas eu tô muito cansado.. tô indo.. tchau”.

É, tô fazendo força pra não me sentir mal, uma putona completa, e nem ficar me martirizando.. mas parece que quando eu me livro do estigma, ele bate à minha porta de novo…

Me apego nos direitos iguais, mas quando eu quis usar, acho que acabei mesmo foi sendo usada…

A primeira coisa que as pessoas precisam entender é que a gente não “usa” o outro. Ou, pelo menos, as pessoas “normais”. Se eu estou a fim de gozar apenas, eu me resolvo sozinha. No momento em que você decide fazer sexo, isso automaticamente inclui um parceiro. Não importa se é casual, se é um namoro apaixonado ou um casamento que já dura 20 anos. O corpo do outro não é para você se masturbar. Sexo não é masturbação acompanhada.

Logo, a leitora deve riscar do vocabulário a expressão “usar” quando se referir a sexo casual. Se ela fala desse jeito a respeito do carinha, é de se esperar que ela a use para falar de si mesma – e isso traz uma carga imensa de culpa e a ideia de que estamos à disposição do outro. Que vai nos usar… e nos descartar. Como um copo de plástico, um guardanapo de papel… um objeto qualquer.

Mas, sobre o caso específico, o cara é um panaca. Panaca completo. Uma amiga veio me dizer que o mesmo aconteceu com ela durante o carnaval. Ela transou com um conhecido, e o cara usou o famoso pau-britadeira. Não fez mais nada. Não demonstrou qualquer preocupação com o prazer dela, assim como o “parceiro” da leitora.

Ambas demonstraram um abalo na autoestima após o acontecido. Outro dia eu estava conversando com um amigo e falei como minha autoestima havia desaparecido após os eventos dos últimos meses. Ele me respondeu, direto (e um pouco duro) como sempre: “Ninguém tira minha autoestima, porque ela é minha, e não do outro”.

É difícil perceber isso. É dificílimo colocar isso dentro da nossa cabecinha. Em geral temos anos e mais anos de comportamentos destrutivos. Alguns de nós sofremos com bullying na escola (quando nem existia uma expressão pra isso!), outros fomos xingados dentro da nossa própria casa. Não que faltasse amor, mas toda uma geração de pais achava bacana dizer pro filho que ele “não fez mais que a obrigação” quando conquistava algo. Ontem uma leitora-amiga me disse que a mãe reclamava do cabelo dela. Meu pai fez o mesmo comigo. Isso sem contar as cobranças da sociedade, essa que coloca mulheres irreais nas capas de revista e inventa mil tratamentos estéticos ao dia. Tudo com 56% OFF nos sites de compras coletivas.

Assim, tendemos a achar que a culpa é nossa. Por que ele não se importou com o meu prazer? O que fiz de errado? Foi muito cedo? Se eu tivesse demorado mais a transar, ele teria me tratado com mais carinho?

A resposta é bem simples: não. Não. Um homem desses acha que você, mulher, serve apenas para o prazer dele. Você é um objeto, mesmo que você não vista a carapuça. Pra ele. Infelizmente não posso dizer que os moços dos dois casos são exceção. São a regra.

Da mesma forma que você pode ser “a regra” e ser insegura, sem autoconfiança e colocar a sua autoestima nas mãos do outro. Mas eu honestamente desejo que você seja a exceção, e se torne uma mulher forte, dona do próprio corpo e segura de si.

E daqui a alguns anos, quem sabe, isso se torne a regra.

Educação sexual… para os pais (e para a ministra)

O post sobre as declarações da ministra Maria do Rosário sobre o caso Eloá levou a algumas discussões no Twitter. Algumas pessoas disseram que a ministra estava certa. Outras, que não deixariam uma filha namorar alguém tão mais velho. Teve quem reclamasse da tal sexualidade precoce (namorando aos 12 anos? queima na fogueira!).

A história toda me espanta. Fico surpresa como uma ministra pode falar tamanha asneira. Você pode até concordar que uma garota de 12 anos não deve namorar, especialmente alguém “tão mais velho”. Mas, eu pergunto: a ministra alguma vez foi lá falar com a mãe da Eloá? Oferecer apoio? Conhece os autos do processo? Falou da transformação do cárcere privado em novelinha trágico-romântica nas redes de televisão? Me parece que não (e espero estar errada). Em vez de, como autointitulada feminista, apontar que este é mais um crime do machismo, colocou a culpa na família da vítima. Ela sabe como Eloá era criada? Sabe se faltava apoio familiar? E, quem diz que a menina transava com Lindemberg: você estava lá? Que diferença isso faz no caso?

Depois se entrou na discussão de que o correto seria falarmos em erotização precoce, e não em sexualidade, já que esta é inerente ao ser humano, como demonstrei no último post. Qual é a idade para isso? Quem disse? De onde veio a regra? As coisas mudam. Não só na época em que vivemos. Eu, adolescente nos anos 1990, não queria saber de sexo com 12 anos. Ainda brincava na rua, jogava bola, subia em árvore. Mas tive um namoradinho (opa! ele era da minha idade). Durou um fim de semana e eu nem beijei ele. Eu fui precoce?

Hoje, pra quem nasceu após a virada do século (e que estão fazendo os tais 12 anos), as coisas mudaram muito. São jovens mais bem informados, mais independentes. Não sou socióloga, nem psicóloga, nem antropóloga. Mas… muita gente fala em diminuir a maioridade penal. Chamam de monstros garotos que cometem crimes aos 10, 12 anos. Eles podem matar, mas não podem transar? Sinceramente, não sei a resposta. Não sei resolver essa equação. Se filhos tivesse, ficaria em casa angustiada sempre tentando entender e acertar na educação. Se ministra fosse, escolheria melhor minhas palavras e contaria com os tais sociólogos, antropólogos, psicólogos e toda a sorte de especialistas para me ajudar nisso.

Como sou apenas uma mera blogueira, posto abaixo um texto que já havia feito e entraria no ar apenas amanhã. É a minha experiência pessoal. Como disse, de uma jovem mulher que foi adolescente na década de 1990, isto é, há vinte anos. Uma sociedade muda em duas décadas, lembrem-se disso. Não adianta vocês quererem viver lá no passado.

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O que você faz individualmente, dentro da sua casa, é problema seu. Quer ser rígido e não permitir que os filhos saiam à noite? Ou que fumem? Ou que bebam? Ou que transem?

Ok, isso é uma escolha baseada no jeito que você foi criado, nos próprios medos e inseguranças, na sua religião. O que incomoda na fala da Ministra é que ela falou como agente político, e não como uma “zelosa” (e autoritária) mãe. Eu não terei filhos, mas sou uma cidadã relativamente engajada, pouco alienada e que escrevo sobre sexo. Então, a respeito do tema eu confio no meu próprio bom senso, em autores que estudaram o assunto, em documentários sérios acerca da questão. Mais que tudo: eu lembro do que eu passei e observo muito como nos comportamos socialmente. Além dos incontáveis e-mails, eu pergunto, questiono – faço quase um interrogatório.

E, com tudo isso, eu vejo que de nada adianta proibir. Não porque “o proibido é mais gostoso”. Eu não concordo com isso. Nunca achei “gostoso” encontrar com meu namorado escondida. Odiava. Sentia culpa. Deixava de aproveitar o momento plenamente, como deveria acontecer.

Como já disse algumas vezes, transei pela primeira vez aos 15 anos. Jamais mencionei o assunto com a minha mãe. Eu sabia exatamente o que estava fazendo. Usamos camisinha. Nunca fiquei grávida ou tive qualquer DST. Mas, sinceramente, não posso creditar isso à educação sexual que tive dentro de casa.

Quando alguns artistas começaram a morrer por HIV, como Cazuza e Freddie Mercury, minha mãe comprou uma camisinha e nos mostrou. Explicou o que era a doença e disse como deveríamos nos proteger. Eu era bem nova, sexo nem passava pela minha cabeça.

Menstruei aos 10 anos, transei aos 15 e só fui ao ginecologista aos 17, quando já morava sozinha. Entre minha primeira transa e a minha saída de casa (dois anos mais tarde), minha mãe veio conversar comigo sobre meu namorado. Disse “imagina se você tivesse transado com o primeiro namorado, hoje você estaria sem ele e não seria mais virgem”. Eu ri muito por dentro. Muito. Eu havia de fato transado com o tal primeiro namorado e já havia feito o mesmo com o segundo. Detalhe: ele era virgem.

Só que durante alguns anos eu tive muito medo de que minha mãe descobrisse que eu não tinha mais – olha só que coisa! – um hímen. Eu não podia ir pras festas de carona com meus namorados, pois não podíamos ficar sozinhos. Mas aí ela ia me deixar… e eu fugia das festas. Sozinha com o namorado. Em muitas dessas vezes eu não transei, pois ainda era virgem e não ia transar só porque a oportunidade apareceu. Em outras, eu transei, no carro mesmo, naquela famosa rapidinha.

Durante anos eu rezei para que minha menstruação descesse todo mês. Tinha medo da reação da minha família caso eu engravidasse (engraçado… jamais me incomodei com a parte “social” da coisa). Muito tempo mais tarde, já morando sozinha, tinha de inventar desculpas quando ia sair com algum moço e estava recebendo visitas da família. Era mais fácil mentir do que ter de dizer o que o garoto fazia, o que estudava, há quanto tempo a gente saía e se iríamos namorar. E, na volta, ainda tinha de dizer como o filme tinha sido bom ou a comida (ui) estava gostosa. Tudo inventado, tudo ficcional, pois o máximo que eu poderia dizer é como era a suíte do motel da vez.

Estava conversando com uma amiga há pouco e ela comentou que a mãe dela dizia que a bunda da mulher caía depois da primeira transa. Assim, não adiantava essa minha amiga esconder caso fosse pra cama com alguém. Só pelo formato da bunda a mãe descobriria as peripécias da filha.

Que tipo de educação sexual é essa? Que quer que a gente adie e adie e adie a primeira transa? Pelo que vejo aqui no blog e nas minhas amigas, talvez um ou outro de nós tenhamos adiado um pouco, sim. Mas todos fizemos. E, quando isso aconteceu, o sexo veio carregado de culpa, como se fosse sujo, proibido. Um pecado.

Assim, os primeiros anos de vida sexual da maioria de nós não foi nada feliz. Ok, atingíamos o orgasmo (o que é sempre delícia), mas não era pleno. Era como se tivesse uma vozinha dentro de nós relembrando quão errado era aquele comportamento.

Em vez disso, pais e mães deveriam lidar com o sexo de maneira natural, porque é exatamente isso que ele é. Não estou dizendo que deve ser fácil perceber que o filho, que até ontem era um bebê, hoje já é grande o suficiente para ter vida sexual. Mas, como pai, você deve orientar, e não proibir.

Cala a boca, Maria

Segundo a Ministra dos Direitos Humanos Maria do Rosário o caso Eloá serve de alerta sobre sexualidade precoce. O assassino e a adolescente começaram a namorar quando ela tinha 12 anos. Lindemberg é sete anos mais velho.

Uma “simples” declaração da ministra (ocupando um cargo político, Maria do Rosário deveria tomar mais cuidado com o que fala; as coisas reverberam. Ela não está numa mesa de boteco) me fez pensar muito sobre toda essa questão da tal “sexualidade precoce”.

Primeiro, analisemos o caso geral, para depois chegarmos ao triste caso de Eloá.

O que é sexualidade precoce? Quem diz qual o melhor momento para se começar a pensar/falar a respeito/fazer sexo? O que é sexo?

Sexo é quando alguém consegue uma ereção? Pois bem. Bebês têm ereção. Você sabia disso? Segundo Gaiarsa, “a ultrassonografia de alta resolução veio a demonstrar que desde o sétimo mês da gestação o feto masculino exibe (!) – ou apenas experimenta! – uma ereção a cada hora e meia. Tem muito mais: durante a ereção o cerebrozinho do feto mostra uma atividade elétrica que, se registrada em um adulto, indicaria com certeza que ele estava sonhando!”. Sobre as garotas, é óbvio que não é possível enxergar nenhuma ereção, mas o psicanalista diz que bebês do sexo feminino ficam “molhadas” durante o sono.

Já um pouquinho maiores, as crianças descobrem que seus órgãos sexuais podem dar prazer. Quando você começou a se masturbar? Mesmo sem saber que aquilo que você fazia era, de fato, masturbação? Conheço relatos de pessoas que começaram lá pelos cinco anos, se esfregando nos objetos mais improváveis. Como média, diria que a maioria de nós descobriu isso aí antes dos 10 anos.

Nunca passei por isso, mas todos nós sabemos (mesmo que não queiramos enxergar) que ainda na infância acontece muito troca-troca e brincadeiras de beijo na boca (salada mista e afins). Nunca participei. Beijei pela primeira vez aos 14 anos, e era considerada “velha” pelos meus amigos.

Assim como meu namorado da época era considerado velho pra mim. Eu estava acabando a oitava série; ele já estava na faculdade. Nossa diferença de idade era menor que a entre Eloá e o assassino: quatro anos apenas. Mas era o suficiente para dizerem que tudo o que ele queria comigo era me “desvirginar”.

Ainda assim meus pais nunca me levaram a um ginecologista. Você, leitor por volta dos 30 anos, me diga: seus pais levaram você ao gineco ou ao uro durante a puberdade? Ou eles, como os meus, fingiram não enxergar seus pelos ficando mais espessos, os seios crescendo e o tempo no banheiro aumentando? Ou eles nunca descobriram revistas de mulher pelada?

Porque a equação é bem simples: por mais que você não faça sexo, você fala sobre sexo com seus colegas, tão desinformados quanto você. Por mais que você não faça sexo, você pensa em sexo. Por mais que você não faça sexo, você quer fazer sexo.

E aquele meu namorado lá que “só queria me comer” efetivamente me comeu. Um ano depois. Quando eu quis. Não fiz para agradá-lo, tampouco “segurá-lo”. Eu, aos 15 anos, sabia quão dona do meu corpo eu era.

Então, nós não sabemos com que idade Eloá transou com Lindemberg. Foi com menos de 14? Isso configura estupro de vulnerável, nos termos da lei penal. Segundo o entendimento legal, menores de 14 anos (homens e mulheres) são incapazes de consentir o ato sexual. E, relembrando o caso BBB: estupro não é só conjunção carnal.

É possível que Eloá tenha transado com Lindemberg antes dos 14. Mas, convenhamos: ela foi a única? Quantas colegas de colégio de vocês engravidaram aos 15? Segundo dados do IBGE, 20% dos partos realizados no Brasil são de mulheres entre os 10 (sim, DEZ) e os 19 anos. E por favor não ignorem a quantidade de abortos, cujo número jamais saberemos.

Temos de levar em consideração, ainda, classe social e região onde essas pessoas vivem. Segundo levantamento de 2002 do IBGE, “os dados também revelam índices altos de gravidez na adolescência, uma vez que, entre as jovens de 15 a 17 anos, a proporção de mulheres com, pelo menos, um filho é de 7,3% no país. Na região metropolitana do Rio de Janeiro, esse índice chega a 4,6% e na região metropolitana de Fortaleza, 9,3%.” Quer dizer, em Fortaleza o número de mães adolescentes DOBRA em relação ao Rio de Janeiro.

Os pais sempre acharão que os filhos – mulheres, especialmente – são novos demais para ter envolvimento sexual. Mas grande parte de nós, ainda na puberdade, experimentamos aquele calorzinho subindo pela nuca quando vemos o garoto ou a garota por quem suspiramos. Gaiarsa, mais uma vez: “fizemos da relação sexual um departamento separado da vida e agora perguntamos apenas se é sexo ou não, em vez de percebermos as mil gradações que vão desde um olhar encantado ou até desejoso, um tomar caloroso de mão, um abraço sentido, um sentar junto, um diálogo olhos-nos-olhos e por aí vai. Há uma escada longa entre o olhar ou a carícia e a cama, com um sem-número de patamares e de colaterais”.

Nós não temos como saber qual a idade certa para cada adolescente começar a vida sexual. Tenho leitores adultos e virgens que não se sentem preparados para transar. Mas com certeza temos de desmistificar o sexo, levar isso como uma coisa natural. Educação sexual, sempre. Apoio familiar, sempre. A vacina de HPV, por exemplo, deve ser tomada aos NOVE anos de idade. Tem gente que acha vacinar a filha a incentiva a começar a transar; eu, por outro lado, acho que a impede de ter o colo do útero cauterizado aos 15 anos porque pegou o vírus.

E, dentro dessa educação sexual sobre a qual falo, inclui-se falar sobre feminismo, sobre a mulher ter o poder sobre o próprio corpo. Lindemberg não matou Eloá porque ele era sete anos mais velho que ela. Lindemberg não matou porque era um “jovem descontrolado” (engraçado que nesse momento ele é “jovem”. Aos 19 ele era um bicho-papão, né?). Lindemberg não matou porque ele amava muito. Lindemberg matou porque ele achou que Eloá lhe pertencia. Lindemberg matou porque considerava Eloá um objeto e, portanto, não tinha vontade própria.

No caso de Queimadas, na Paraíba, todos eram maiores de idade. E estupraram. E mataram. Porque as mulheres, afinal, serviam apenas para deleite dos homens. É essa mentalidade que tem que mudar. 

A culpa de Eloá ter morrido não é dela e nem da família dela. Quem apertou o gatilho foi Lindemberg. E, ao insistirmos em culpar a vítima, nós damos força para que isso continue acontecendo.

Feliz todos aniversários, meu amor

Vou tentar escrever esse post deixando de lado todas as mágoas, tristezas, tropeços e tudo o que hoje me parece impossível perdoar. Vamos ver se eu consigo (escrever o post. Perdoar acho mais difícil).

Lembro com perfeição da sua cara de sono naquela madrugada de seis de novembro. Seus olhos ficam meio inchadinhos. Vi o esforço que você fez para estar de pé cinco da manhã, depois de eu me esbaldar com Julian Casablancas e cia ltda. Você, de pé, na porta de casa. Eu, estropiada, suja, cansada.

No quarto, meu presente em cima da cama. Chocolate, livro, um bilhete que hoje já nem existe mais – fiz questão de jogar fora, achando que assim me livraria das lembranças daquele dia. E de todos os outros, aliás. Que tonta. Você ainda ficou me devendo o documentário da banda que, três dias antes, tínhamos visto no Morumbi.

Dormimos, nos amamos, escolhemos o restaurante praquele almoço e pra um jantar em cinco de dezembro que nunca aconteceu. Assim como jamais faremos a “troca” dos feriados. Combinamos que você, folião convicto, estaria livre, leve e solto no Rio de Janeiro durante esses dias momescos. Eu, então, escolheria pra onde iríamos em outro feriado. Mais uma coisa que você ficou me devendo.

Com tantos planos, eu nunca imaginei que nessa sexta-feira ensolarada eu não iria acordar ao teu lado e te encher de beijos pelo seu aniversário. Nem fiz planos para o 17 de fevereiro de 2012. Achei que seria sua, você seria meu, e seríamos felizes só por existirmos na vida um do outro.

Mas as coisas mudaram e você está, de fato, livre, leve e solto no Rio de Janeiro. Eu passarei o carnaval do jeito que imaginei: em casa, vendo DVD, escrevendo, lendo. Mas, quando a festa acabar, você estará mais velho e cada vez mais longe de mim.

Ontem as cartas do tarô e as linhas da minha mão mostraram que provavelmente ano que vem, neste mesmo dia, eu não lembrarei sequer de mandar um SMS para dar os parabéns. Então, deixo aqui meu desejo para que você tenha todos os aniversários mais felizes do mundo. Espero que seu dia seja tão incrível como foi o meu seis de novembro. Quero que, em 17 de fevereiro ou não, você sinta a felicidade que eu sempre senti a cada sorriso seu. Te amo pra sempre, meu amor. Feliz aniversário.

O preconceito nosso de cada dia

Peguei um táxi hoje à tarde. Eu e motorista começamos a falar das obras na Rebouças, de como isso era necessário para as próximas eleições. Passamos por ditadura militar. Morar no exterior. Viver longe da família.

E aí ele diz que não conseguiria ficar distante das filhas. Me contou, orgulhoso, que uma delas já estava formada em administração e que a outra havia voltado ao curso de engenharia depois de dar um tempo na carreira musical. Indicou os vídeos da garota cantando no YouTube.

Empolgado, me mostrou uma foto na tela do celular. Ele, uma senhora que obviamente era a esposa, e três jovens moças.

“Ué, mas tem uma mulher a mais aqui”, eu disse.

“É a minha nora.”

“Ah, então o senhor tem um filho também?”, perguntei, achando estranho o fato de até aquele momento ele não ter mencionado nada a respeito.

“Não, ela é mulher da minha filha.”

Fuén.

Fuéééééén.

Um grande FUÉN pra mim, que vivo dizendo que a gente deve ser menos preconceituoso, mas que automaticamente assumi que, se ele tinha uma nora, ele deveria ter um filho homem.

Parabéns, Letícia, por carregar ainda tanto preconceito dentro de si, mesmo lutando pra se livrar de todos os resquícios disso.

Ainda não consegui. Mas sigo tentando.

Delícia

Scarlett aparece assim no Red Carpet:

Tão linda que até você, mulher heterossexual, queria enfiar a cabeça aí no meio desses peitos.

Ignoramos o vestido feito sob medida, as milhares de sessões de drenagem linfática, a maquiagem feita por um profissional super gabaritado. Algumas de nós nos lamentamos por não termos o cabelo tão perfeito, volumoso na medida certa. Outras olham pros próprios seios e pensam “queria ser mais voluptuosa”.

Até que surge isso:

Daí você se dá conta (se ainda não deu, já passou da hora) que Scarlett é gente como a gente. A gostosona atua desde os 10 anos de idade – sempre na mira dos holofotes, deve ter feito mais tratamentos de beleza do que podemos supor. Mesmo com todo o dinheiro e até com a necessidade de aparecer sempre bonita (já que isso rende contratos publicitários), Scarlett, ora vejam só, é lotada de celulite.

Este é o momento em que você, que estuda, trabalha, limpa a casa, pega ônibus, passa mil horas no trânsito, não tem dinheiro pra pagar personal trainer e etc etc etc deve perceber que os ideais de beleza da nossa sociedade são inatingíveis até para quem é inatingível, como as estrelas de Hollywood.

Não se trata aqui de falar mal da atriz. Nas praias do Rio de Janeiro você encontra mulheres e homens de corpos perfeitos, lisinhos, atléticos, sarados. Então sim, é possível ser muito, muito bonito. Mas qual a importância disso na sua vida? Que preço você está pagando por tentar, tentar e nunca conseguir se olhar no espelho e se sentir bem?

Eu nunca tive um corpão. Estou mais gorda do que jamais estive, mas mesmo antes, mais magra e com dez anos a menos, eu nunca fui gostosona. Ainda assim, sempre fiquei peladona com uma facilidade impressionante. Quando morava no Rio ia à praia no ponto mais cheio de gente gata. Ia, inclusive, com amigos gatos. Chegava lá, tirava minha roupa e lia o jornal despretensiosamente, mesmo com a minha barriga fazendo várias dobras. Eu queria ter o corpo perfeito de algumas daquelas pessoas? Sim, mas eu não estava disposta a fazer o que eles faziam para isso. Horas na academia, alface no almoço e no jantar e umas bolinhas entre as “refeições”? Tô fora. Eu olhei com cobiça para os homens de corpos perfeitos? Sim, mas também olho com cobiça moços que sorriem meio de cantinho, tímidos, ou que, gorduchinhos e de all star, cantarolam uma música que eu goste.

Sei que não é fácil se libertar de padrões que ninguém sabe quem impôs. Essa matéria ridícula, preconceituosa e desnecessária mostra que ser gordo é motivo de piada nesse mundo. Os gordos são ponto de referência, são encarados como preguiçosos e desmotivados, além de serem vistos com pena, como se estivéssemos com o pé na cova.

Então, já que estamos à beira da morte mesmo, meu conselho pra todos nós é que façamos como eu fazia em Ipanema: mostrem suas gorduras. Transem de luz acesa. Curtam o corpo de vocês – gordo, magro, esquelético – do jeito que ele é. O que importa é a fonte inesgotável de prazer que ele proporciona.