Você já se olhou no espelho hoje?

A resposta é óbvia: claro que sim. 

Você já passou um corretivo para esconder as olheiras, aproveitou o espelho do elevador para dar uma última checada na roupa antes de sair de casa, deu uma espiada no retrovisor do carro e percebeu que os pelos da sobrancelha estão crescendo em velocidade impressionante.

Mesmo que você não seja vaidosa (o), possivelmente você se olhou ao menos enquanto escovava os dentes.

Estamos o tempo todo nos olhando, fazendo cara bonita pra foto e insistindo para o amigo apagar aquela em que todo mundo saiu lindo, mas você está com cara de bêbado ou de olhos fechados.

Mas, quando você está sozinha (e aqui estou me dirigindo às mulheres), você já se olhou meeeeeeeeeeesmo? Em algum momento da sua vida você já usou um espelho para ver como a sua buceta é?

A gente vê os homens medindo, comparando com o dos outros caras, balançando deliciosamente seus apetrechos por aí.

E nós? Quando observamos nossa própria vagina, e não para aparar os pelos e/ou ver se já está na hora de voltar à depiladora?

Nosso órgão sexual* é escondido, pra dentro, coberto de pelos. Sabemos que ela não é só escondida fisicamente, mas também moralmente. Desde sempre precisamos escondê-la ou evitar tocá-la (“tira a mão daí, menina!”).

Você já enfiou o dedo lá dentro? Pra sentir, ver como é, identificar o ponto G?

Pode parecer ridículo eu estar falando para mulheres adultas (minhas leitoras têm, em média, 25 anos) se olharem e se tocarem. Mas não é. Muitas de nós jamais fez essa “exploração” do próprio corpo. Não estou falando só de masturbação (e algumas não se masturbam mesmo!), não, mas de olhar, entender, achar bonito, notar que um clitóris pequeno ou grande demais não é feio. É só o seu clitóris. O mesmo vale para os lábios (há cirurgias plásticas para isso!!!!).

Se você não se acha bonita e delícia do jeito que é – com pelos que nascem nos lugares mais estapafúrdios ou com o odor que sabonetes íntimos tentam “disfarçar” – como você pode querer que seu parceiro faça sexo oral em você?

Caso você nunca tenha olhado com carinho para sua buceta, faça isso hoje. Ela é linda, ela é você, ela não fede. Continuar pensando nisso não vai te deixar relaxar na hora em que seu parceiro estiver se deliciando com dedos, língua e brinquedos na sua buceta. E você vai perder uma das grandes felicidades da vida.

*eu usei a expressão “órgão sexual”, mas sinceramente acho que todo nosso corpo é um órgão sexual, não só nossos genitais. 

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Não é negligência, imprudência, imperícia. É dolo – parte 3

10 verdades sobre o voo duplo

1) O voo duplo é proibido? Tem certeza?

Absoluta, de acordo com o Regulamento da Aeronáutica e o RBHA 104. Ele pode acontecer com fins instrucionais, isto é, quando o piloto está dando aula para alguém que pretende voar solo.

2) Se é proibido, por que rola solto?

Porque dá grana. Muita. Calcule aí. Eles dizem que só da Pedra Bonita decolaram 40 mil voos duplos por ano. Os voos custam entre R$ 250 e R$ 350. Fez as contas? Uns 12 milhões de reais SÓ NAQUELA RAMPA. Ao ano.

3) Mas as associações ganham grana com isso?

Sim. Todo mundo que voa duplo tem de pagar uma taxa diretamente à associação. A última informação que tive é que seria de R$ 10. Quarenta mil voos por ano daria só nessa taxinha R$ 400 mil. Só que o piloto precisa se cadastrar em um clube e pagar mensalidade, se não ele não pode voar. E esses clubes repassam parte do valor às entidades.

4) Existe seguro?

Não. Por ser uma atividade ilegal, as empresas não podem segurar o passageiro.

5) É uma atividade radical. É de supor que acidentes aconteçam.

Sim, acidentes acontecem. Até dentro da sua casa. Só que se você, por exemplo, não troca nunca os freios do seu carro, ultrapassa a velocidade permitida ou dorme ao volante e bate o carro, você diria que foi acidente?

É a mesma coisa. Só que os erros têm consequências mais graves, aí sim por causa do risco inerente ao voo livre. No caso da minha irmã, em 2003, o problema foi a asa velha. Acompanhei todos os acidentes graves que aconteceram de lá para cá e NENHUM deles foi por algo imprevisto. Todos foram causados por pilotos que utilizaram equipamento que já devia ter sido aposentado, ou por não atentarem às regras básicas de segurança. Todos. Não foram acidentes. Foram assassinatos.

6) Mas não tem manutenção e fiscalização?

Mais uma vez: se é ilegal, não há como fiscalizar. A ANAC diz que não é com ela, a polícia diz que não sabe o que fazer, o Ministério Público cruza os braços. Manutenção? Bom, boatos dizem que a asa que o Valtinho usou com a minha irmã estava remendada com silver tape. O “acidente” com Diandria Catem, em 2009, foi igualzinho. A asa velhíssima também quebrou no ar, mas felizmente Diandria sobreviveu. O piloto morreu.

7) Qual a responsabilidade das associações nisso tudo?

Toda. Você só pode usar a rampa se tiver autorização das associações. Eles ganham pelos voos. O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro já entendeu isso na ação que meus pais movem. Eles tentam fugir, como estão fazendo agora com o caso da Priscila, mas eles tem corresponsabilidade nisso.

8) Quando acontece algum acidente, as associações dão algum auxílio material?

Nenhum. Nem no meu caso, nem no do Michel, nem no da Diandria, pelo menos.

9) A atividade é proibida só no Rio?

Não. Em todo o território brasileiro. Nenhum sítio de voo (Atibaia, Parque da Cidade, etc) tem permissão para voos duplos comerciais.

10) Por que chamam pilotos de instrutores?

Porque é permitido dar aulas de voo livre. Desde que minha família começou a “mexer” nisso tudo, eles passaram a usar essa gambiarra para continuar voando duplo. Eles não são instrutores, não estão ensinando nada, estão fazendo passeio panorâmico. Só. Eles fingem que você está pagando uma matrícula no curso (podem ver isso nos sites), mas é um jeito de burlar a lei.

Bom, isto posto, eu só posso pedir que vocês divulguem entre os amigos. Eu estou há oito anos nessa luta. Fiz de tudo para que outros acidentes não acontecessem. Falhei, mas fiz o que estava ao meu alcance. Os pilotos SABEM que estão agindo contra a lei, e mesmo assim continuam fazendo tudo isso. Para mim, não se trata de negligência, imprudência ou imperícia. Se você ganha dinheiro com uma atividade ilícita que mata, você é um assassino.

Não é negligência, imprudência, imperícia. É dolo – parte 2

Acompanhamos as notícias que saíram depois do acidente. Foi aí que descobrimos que o voo duplo era proibido, em um box num jornal que não me lembro mais qual é. Fiquei revoltada. Até então tratávamos o assunto como um acidente, uma fatalidade, algo inerente ao risco de voar de asa delta ou parapente.

Assim como a maioria das pessoas faz. Fatalidade.

Só que quando você sabe que a atividade é ilegal e que, apesar disso, é feita livremente e muitas vezes com o apoio de órgãos públicos (como a RioTur), o sentimento de revolta é inevitável.

A Ana, assim como inúmeras pessoas, só voaram porque achavam que tudo corria dentro da lei. Em uma decisão familiar, decidimos que não deixaríamos que a atividade continuasse acontecendo. E o melhor jeito para isso era entrar com uma ação judicial.

A busca do advogado

De volta ao Rio, procurei o advogado que havia sido entrevistado pelo jornal e que havia dito que o papel assinado pela minha irmã não tinha qualquer valor jurídico. Entreguei todos os documentos solicitados por ele.

Nesse ínterim um corretor de seguros me procurou. Disse que atendia diversos pilotos da ABVL e que eles, só os pilotos, tinham seguro. Eu não fiz a conexão imediatamente, mas depois isso se tornou óbvio: uma seguradora não poderia englobar o passageiro, simplesmente porque a atividade é ilegal!!!

Mas olha como o corretor foi bonzinho: como ele atendia muitos pilotos, a seguradora havia resolvido “fazer um agrado” e me pagar uma indenização. De dez mil reais. DEZ MIL REAIS (nota: tentaram devolver o dinheiro do voo ao irmão da Priscila, a moça que morreu domingo. Sério? Só pode ser brincadeira!).

Eu não aceitei, evidentemente, e tive de ouvir do advogado que não teríamos nada a fazer. Não me dei por satisfeita e procurei Maria Celina Bodin de Moraes, minha ex-professora de Responsabilidade Civil na PUC, e pedi uma indicação.

Ela pensou por alguns dias e disse que teria que indicar um advogado que ela soubesse que seria correto e apaixonado pela causa. Ela acertou em cheio e me disse para procurar Flavio Müller, que também havia sido meu professor na faculdade.

Flavio é corretíssimo, honesto, cordial, interessado e nos trata como se fôssemos da família. Ele abraçou fortemente a causa, e entramos com uma ação judicial indenizatória e uma ação civil pública para interrupção dos voos enquanto não fossem regulamentados.

Além disso, enviou consultas e questionamentos a órgãos como RioTur, ANAC, Prefeitura do Rio, fazendo a denúncia de que os voos continuavam acontecendo e pedindo providências.

O processo judicial

Meus pais são autores de uma ação civil indenizatória contra a ABVL e a AVLRJ.

Ainda na fase de instrução – isto é, quando coletávamos provas e depoimentos de testemunhas -, o então presidente da ABVL, Bruno Menescal (muito conhecido no meio), disse em juízo que as pessoas voavam porque queriam ser pilotos. Em juízo.

Disse, também, que a taxa paga diretamente na sede da associação (na época do depoimento, era de R$ 10) era para a manutenção do banheiro. Do BANHEIRO.

Eles quiseram se desvencilhar de qualquer culpa no caso. Afinal, o Valtinho tinha morrido mesmo, então não poderiam culpar o piloto, como estão fazendo agora no caso da nutricionista baiana.

Em uma das contestações, os advogados das associações disseram que nós queríamos dinheiro. Foram muito cruéis, o que já sabíamos que ia acontecer, mas me parece totalmente antiética tal suposição. Nada jamais trará minha irmã de volta, nenhum dinheiro no mundo. O que queríamos e continuamos querendo é que os responsáveis sejam responsabilizados. Assim como você, motorista, é punido caso se envolva num acidente de trânsito.

Mesmo mentindo em juízo e alegando essas coisas absurdas, as associações foram condenadas em duas instâncias. O processo ainda não transitou em julgado, pois ainda cabem alguns recursos de caráter meramente protelatório.

Copio aqui alguns trechos da sentença que julgo importantes e não são cheios de juridiquês (os grifos são meus):

Devidamente citadas, as associações rés apresentaram contestação às fls. 405/424, acrescida dos documentos de fls. 425/516, sustentando as preliminares de ilegitimidade passiva e impossibilidade jurídica do pedido. No mérito, sustentam a inexistência de contrato de transporte, a relação exclusiva da vítima com o falecido piloto da asa-delta, a existência de um termo de responsabilidade que as isentaria dos riscos da atividade, a natureza de ‘atividade de risco’ do vôo livre que transferiria à vítima a culpa pelo ocorrido, a incidência de legislação que determina que o vôo de asa-delta corre por conta e risco do participante, a impossibilidade de desconsideração da personalidade jurídica de seus representantes, a inaplicabilidade do CDC à hipótese dos autos ao fundamento de que ‘a única relação estabelecida entre a ABVL e a AVLRJ e a falecida filha dos autores foi a de disponibilização de toaletes’, a inexistência de ato ilícito, de negligência e de danos morais indenizáveis, a existência de responsabilidade exclusiva do piloto, da União e concorrente da vítima.

Quando eles recorreram da primeira sentença, favorável aos meus pais, alegaram o seguinte (todos os trechos foram retirados do acórdão julgado em dezembro de 2011):

Para tanto, sustentam a inexistência de relação de consumo entre os pilotos associados e as associações, bem assim entre as associações e os interessados, que contratam os pilotos para a prática de voo livre, além da ausência de responsabilidade objetiva, por culpa exclusiva de terceiro.

Aqui eles tentam tirar o deles da reta e colocarem o do Valtinho, que… morreu no acidente!

O relatório da desembargadora Denise Levy Tredler, no entando, contraria todas as pretensões das associações (os grifos, de novo, são meus):

Isto porque, após detida análise dos autos, verifica-se que tanto as associações apelantes, como os pilotos, auferem proveito econômico em decorrência  da prática do voo duplo de asa delta, como atividade remunerada, e como tal enquadram-se no conceito de fornecedoras do serviço que disponibilizam, mediante o pagamento do preço que estipulam e a assinatura de  termo de responsabilidade pelo interessado.

(…)

O conteúdo das declarações constantes nos documentos de fls. 240/241 confirma a tese no sentido de que as associações atuam como intermediárias na atividade de voo duplo remunerado, auferindo proveito econômico, mediante a cobrança de verba, supostamente destinada à manutenção de suas instalações.

(…)

Trata-se, portanto, de cobrança diretamente vinculada à prática da atividade de voo duplo remunerada. Tanto que visitantes e acompanhantes dos interessados na prática do esporte não precisam pagar a referida quantia, ainda que configurem potenciais utilizadores de banheiros e outras instalações da rampa da Pedra Bonita. Ademais, não é razoável supor, de plano, que todos aqueles que se dispõem a praticar o voo duplo, irão, necessariamente, usar o banheiro.

Releva salientar não ser crível que a cobrança individual de uma taxa, que em um fim de semana pode totalizar R$1.700,00 (fl. 647), e no final de um ano R$230.000,00 (fl. 649), de acordo com o teor de reportagem jornalística divulgada em jornal de grande circulação, seja, apenas, destinada ao custeio do uso de banheiros e demais instalações da rampa, ou mesmo das associações.

(…)

Conforme comprovado nos autos, as associações se apresentam aos consumidores como sendo as responsáveis pela administração e o agenciamento da atividade de voo livre na região do acidente, como comprova a declaração de fl. 241, sendo obrigatória a vinculação de todos os instrutores, que realizam a exploração comercial da atividade, aos quadros de associados das apelantes, o que é apresentado ao mercado como fator de segurança a encorajar a sua contratação, funcionando como verdadeira publicidade do serviço exposto à aquisição pelos consumidores, conforme demonstra, igualmente, o documento de fl. 243.

(…)

É certo, ademais, que as associações mantêm sede única nas proximidades do local do pouso das asas deltas e os consumidores não procuram diretamente os pilotos, mas a referida sede, onde são encaminhados aos pilotos disponíveis, apenas após realizarem o pagamento da “taxa de manutenção”.

Contudo, resta evidente que a remuneração percebida pelas apelantes não se limita ao valor que lhes é diretamente pago. Muito mais relevante é a remuneração indireta que extraem da atividade explorada, haja vista sustentarem que a remuneração de cada voo é paga diretamente aos instrutores, que, para explorarem comercialmente a atividade, devem obrigatoriamente a elas estar associados, pagando-lhes mensalidades, como informado nos depoimentos de seus próprios representantes legais.

(…)

Releva notar, ainda, ser inconcebível acatar a tese no sentido de que todos aqueles que praticam voo duplo o fazem para fins de instrução, por pretenderem se tornar pilotos, sobretudo quando grande parte dos interessados são turistas.  

(…)

Releva observar, ademais, que não se pode afirmar que a referida exclusão decorre de fato da própria vítima, Ana Rosa, que, por sua espontânea vontade, assinara um Termo de Exclusão de Responsabilidade. Isto porque, nos termos do inciso I, do art. 51, do CDC “são nulas, de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais relativas ao fornecimento de produtos e serviços que impossibilitem, exonerem ou atenuem a responsabilidade do fornecedor por vícios de qualquer natureza dos produtos e serviços ou impliquem renúncia ou disposição de direitos”.

(…)

Releva notar, outrossim, que o acidente ocorreu em decorrência da deficiente manutenção do equipamento e da falta de fiscalização deste, que deveria ter sido realizada pelas apelantes.

As associações foram condenadas a pagar R$ 255 mil aos meus pais. Como disse, ainda não houve trânsito em julgado da ação, então eles podem recorrer ainda.

É importante notar que tudo isso que copiei acima foi COMPROVADO nos autos do processo, com documentação, depoimentos e etc.

Ainda assim, mesmo com a ação ter sido iniciada em 2004, isto é, há sete anos, eles continuam agindo exatamente da mesma forma. Isso é negligência? Imprudência? Imperícia? Não, pra mim isso é uma conduta dolosa. E falo mais sobre isso na terceira e última parte desse post.

Não é negligência, imprudência, imperícia. É dolo – parte 1

Estou devastada desde domingo à noite. Como vocês devem ter acompanhado nos noticiários, a jovem Priscila Boliveira despencou de um parapente e faleceu nas areias de São Conrado, no Rio de Janeiro.

As semelhanças com a morte da minha irmã eram assustadoras. Depois que soube do acontecido, tive crise de choro e passei a noite praticamente insone. Ontem, li  tudo o que saiu sobre o acidente (por favor leiam todos os “acidentes” que eu escrever com muitas e muitas aspas), dei entrevistas, cavei telefones, conversei com nosso advogado.

Cheguei ao final do dia exausta. Um bagaço. Fisicamente, por não ter dormido; e emocionalmente, pois remexer nessa história é deveras desgastante. Mas como eu nunca mais quero passar por isso ou ouvir a voz de choro da minha mãe ao saber de um novo acidente, faço questão de escrever esse post. Ele é por mim, sim, mas é muito mais por você e pelos seus amigos e familiares.

Peço que compartilhem, divulguem, repensem. Você pode salvar vidas.

O acidente da minha irmã

Ana sempre quis voar de asa-delta. Como é caro (os voos custam hoje entre R$ 250 e R$ 350), ela nunca havia conseguido ir. Em 2003, já trabalhando, decidiu ir. Recebeu um panfleto na praia, mas eu mesma a aconselhei a procurar a sede da Associação Brasileira de Voo Livre (ABVL), que fica na praia de São Conrado, a poucos metros da área de pouso das asas e parapentes.

Achamos que seria melhor ela procurar a associação para que esta a indicasse um piloto experiente, evitando riscos desnecessários. Foi o que ela fez. Disseram a ela – na ABVL! – que o melhor piloto disponível no momento era Edvaldo Silva, o Valtinho, que tinha muitas horas de voo e prêmios internacionais.

Ela acertou o pagamento para ela, e o amigo que a acompanhava, o Railson, também médico, voaria depois. À época era preciso assinar um termo de responsabilidade (não é o termo de matrícula que existe hoje) e pagar uma taxa dentro da própria ABVL. Se não me falha a memória, o valor era de R$ 5.

Os três (Ana, Railson e Valtinho) subiram para a rampa de decolagem. Notem que tal rampa fica em área federal, pois é dentro do Parque Nacional da Tijuca. Existe uma guarita para que você possa chegar até lá de carro. A área é uma concessão da União (no caso, do IBAMA) e, por isso, atividades ilegais não podem ser realizadas ali (ou em qualquer outro lugar, óbvio, mas essa condição está expressa no termo de concessão).

Ana se preparou para o voo. Como “preparação” entenda aprender a dar uma corridinha. Só. Aqui vocês veem ela poucos minutos antes da decolagem:

Ela estava feliz, satisfeita de realizar um sonho. Era a tarde de uma quarta-feira, 12 de novembro de 2003.

A decolagem de parapentes e asas acontece exatamente no mesmo local. A única diferença é que quem está na asa dá a famosa corridinha nessa parte de madeira aí que aparece na foto, enquanto o parapente decola de uma área imediatamente abaixo desta estrutura.

Ana decolou e tudo parecia correr bem. Até que a asa simplesmente quebrou no ar. Quebrou. Em vez de planar, ela ficou descontrolada e eles bateram em um costão de pedra e caíram no mar. Testemunhas dizem que a quebra aconteceu a 50-70 metros do chão.

Minha irmã chegou a ser resgatada com vida, mas Valtinho morreu imediatamente. Não sei a causa mortis dele, mas a da minha irmã foi a fratura da coluna cervical. Caso tivesse sobrevivido, ela teria ficado tetraplégica.

Railson, o amigo que a acompanhava, estava na rampa na hora do acidente e não viu o que aconteceu. Notou apenas a movimentação estranha, até que o levaram para a praia e ele ficou sabendo de tudo. Assim como os amigos de Priscila, ele teve de ir prestar depoimento na 15ª DP.

O motivo do acidente

A asa estava velha. E não sou eu quem está falando isso. Eu nunca nem vi a asa sem ser por essas fotos. Pentelha que sou, fui até a 15ª DP, enchi o saco do policial e ele chamou algumas pessoas para depor. Uma delas foi a presidente da AVLRJ na época do acidente, que coincidentemente também se chama Ana.

Ela disse que a asa que Valtinho usava estava CONDENADA pelos próprios pilotos. Estava muito velha, sem condições de uso. Mas mesmo assim ele subiu para a rampa, tirou a asa do “aseiro” (um depósito fechado que fica sob responsabilidade das associações) e voou.

Por favor notem que existe – ou deveria existir – um fiscal de rampa. E que sempre há outros pilotos lá em cima. Eles podiam ter impedido o voo, mas não fizeram.

Boatos dizem que a asa estava remendada com silver tape. SILVER TAPE.

Não foi feita perícia no equipamento. Ela caiu no mar, junto com a minha irmã e o piloto, e afundou. Dias mais tarde o corpo de bombeiros a retirou de lá, e entregou à ABVL. A própria associação fez a “perícia” (quão louco isso é???) e chegou à conclusão que não tinham conclusão.

Anotaram que a asa estava quebrada em algumas partes, mas não sabiam precisar qual parte quebrou no ar e qual se partiu no choque contra a pedra. Não há uma única palavra sobre as condições do equipamento, se estava velho, se alguma parte estava corroída, nada.

Quando perguntados em juízo o que haviam feito com a asa, eles disseram que jogaram fora. JOGARAM FORA. 

Como eu fiquei sabendo

Tudo isso aconteceu, o mundo ficou sabendo (porque saiu em jornais, plantões e sites), mas eu estava alheia a tudo. Saí do trabalho e fui para a aula de espanhol, deixando meu celular no silencioso durante esse tempo. Passava um pouco das nove da noite quando cheguei em casa e notei as dezenas de chamadas perdidas no telefone. Não vou passar detalhes desse momento, porque foi extremamente dramático e muitos de vocês já sabem.

O fato é que em poucos minutos a minha casa estava cheia de amigos (queridos, os agradeço imensamente por isso). Dois deles estavam no IML, minha prima e um ex-namorado. Só que o corpo da minha irmã não estava lá, mesmo horas após o acidente.

Flávia e Roberto, duas almas gêmeas que tive o prazer de encontrar nessa vida, foram até o Grupamento Marítimo dos Bombeiros, na Barra, e descobriram que a Ana (desculpem, não consigo chamá-la de “corpo” ou “cadáver”) estava lá. Numa maca. Há horas. Eles acompanharam o carro dos bombeiros que a transportou para o IML, onde chegou apenas no início da madrugada.

A atitude das associações após o óbito e o traslado do corpo

Quando Flá e Beto chegaram ao IML e encontraram minha prima, Adriana, e o Cristiano, o ex-namorado, o local estava lotado de pilotos de voo livre. Todos prestando solidariedade à família do Valtinho, cujo corpo tinha ido direto para lá após o acidente. Eles estavam tentando liberar o cadáver para sepultamento.

Em conversas informais, os diretores da ABVL e da AVLRJ (hoje chamada de Clube de Voo Livre de São Conrado) disseram que dariam todo o apoio para ajudar-nos na burocracia decorrente da morte da minha irmã. Entregaram cartões, números de telefone, foram simpáticos e aparentemente prestativos. Disseram, também, que existia um seguro que cobria casos como aquele.

Só que o corpo da Ana não poderia ser analisado naquele momento, pois já era madrugada e não havia nenhum médico de plantão. Teríamos, então, que esperar a manhã seguinte.

Foi o que fizemos. No horário da abertura do IML já estávamos lá (eu, em completo choque). Além da demora habitual de qualquer órgão público, a impressão digital da Ana estava muito fraca na carteirinha do Conselho Regional de Medicina (CRM), o único documento que ela havia levado para o Rio.

Enquanto tentávamos liberar o corpo apesar deste inconveniente, tive de lidar com repórteres-urubus. Passamos horas naquele lugar fétido (o IML é o lugar mais fedido do mundo). Nesse meio tempo tivemos que começar a organizar o traslado do corpo para Manaus, onde Ana seria enterrada.

Antes de embarcá-la no avião, porém, seria necessário embalsamá-la. Creio que isso aconteça por questões de segurança, para que o avião não seja infectado com alguma doença que o morto porventura tivesse. Isso também conserva o corpo por muito mais tempo.

Foi quando alguns amigos tentaram contato com o pessoal da ABVL e da AVLRJ. Como poucos voos faziam esse traslado à época, precisávamos liberar o corpo imediatamente, para que desse tempo de irmos para Manaus no mesmo dia.

Todos os telefones indicados estavam desligados ou fora de área. Deixaram recado nas associações. Ninguém jamais retornou ou nos deu qualquer auxílio na liberação e traslado do corpo.

Com auxílio inestimável da minha amiga Christianne, encontramos uma funerária que fez todo o serviço de embalsamar e transportar para o aeroporto. Porém, só conseguimos embarcar – eu, Ana, Railson e meu cachorro – na sexta-feira pela manhã (o acidente havia sido na quarta-feira).

Aqui eu preciso fazer um mimimi, já que não fiz até agora. Ao chegar em Manaus meu pai me esperava dentro da sala de desembarque. Todo mundo na cidade já sabia do que havia acontecido e deixaram que ele ficasse lá dentro.

Perguntei pela minha mãe e ele disse “está lá no Terminal de Cargas”. Pedi para ele pegar meu cachorro e saí correndo pelo aeroporto. Minha tia Magnólia me levou até o outro terminal, onde encontrei minha mãe e meu irmão. Estávamos completamente destruídos. Vocês não têm a menor ideia do que é receber o caixão da própria irmã num terminal de cargas.

Voltando.

Levamos à funerária, velamos, enterramos. E aí começa uma nova saga na minha vida, que escreverei em outro post porque este já está longo demais.

 

 

Voo duplo é proibido!

Hoje não vai ter live porque estou devastada. Completamente arrasada. Uma moça morreu num acidente de parapente no Rio de Janeiro. (leia aqui e aqui)

Sempre mando e-mails para meus amigos quando acontece algo do tipo. Resgatei um aqui de 2008, e compartilho com vocês. Gostaria de atualizar a informação de que meus pais já ganharam em SEGUNDA INSTÂNCIA também.

Texto enviado aos meus amigos no dia 11 de dezembro de 2008.

Ontem aconteceu mais um “acidente” de asa-delta no Rio de Janeiro.
Ironicamente, numa quarta-feira, tal qual aquele 12 de novembro 2003,
quando minha irmã, a médica Ana Rosa Lapa dos Santos, faleceu em um
acidente muito parecido. Na ocasião, também morreu o piloto da asa,
Edvaldo da Silva, conhecido como “Valtinho”.

O que muita gente não sabe é que o vôo duplo com fins comerciais é proibido
pela legislação aeronáutica brasileira. Vôos duplos são permitidos, sim,
mas apenas como processo de instrução. Em tese, os passageiros são alunos
de cursos de pilotagem.

Os pilotos, associações e clubes burlam a legislação (isto é, contrariam a
lei!), ao fingir que os vôos turísticos são instrucionais. Por esta razão é
que sempre se referem ao piloto como “instrutor”. Convenhamos: ele não está
ensinando nada. É um passeio recreativo, turístico, e extremamente
vantajoso.

O Sr. Roberto Menescal, presidente da Associação Brasileira de Vôo-Livre
(ABVL) à época do acidente da minha irmã, afirmou EM JUÍZO que todos os
passageiros de vôo duplo são pessoas interessadas em pilotar uma asa-delta.
Qualquer morador do Rio de Janeiro sabe quão falsa é esta afirmação.

Há alguns anos um vôo duplo custava a bagatela de 200 reais. Façamos as
contas: se um piloto fizesse um único vôo ao dia, de segunda a sexta, ele
ganharia 1.000 reais por semana, ou 4.000 reais mensais. Sem incidência de
qualquer imposto de renda, INSS, PIS, Cofins, ou coisa que o valha. Quatro
mil. Limpos. Lembro que um vôo dura cerca de 15 minutos e ainda tem mais o
tempo de subir até a pedra, montar a asa e depois desmontá-la. Digamos que
eles levem 1 hora pra fazer isso tudo. Está de bom tamanho, não está?

Desconheço os valores que são praticados atualmente, mas desconfiava que as
normas de segurança não estavam sendo seguidas. O acidente de ontem só me
deu a certeza de que tudo continua como dantes no quartel de Abrantes, o
que é muito triste e frustrante. Afinal, a morte de duas pessoas (só uma me
dói – imensamente, aliás – mas não podemos esquecer do piloto) foi
absolutamente em vão.

A ANAC continua fazendo vista grossa, a prefeitura do Rio finge que não é
com ela, as agências de turismo continuam vendendo o “passeio” e os pilotos
e associações continuam enchendo os bolsos de dinheiro. Enquanto isso,
neste exato momento há pelo menos uma família com um parente internado na
UTI (as informações são vagas e desencontradas; uns dizem que o piloto é
que se machucou muito, outros dizem que foi o turista canadense).

Por favor notem que não há seguro indenizatório para caso de acidentes; que
o passageiro NÃO é equipado com pára-quedas; e que a atividade não é
regulamentada justamente por ser ILEGAL. E ainda acontece em área federal
(isto é: minha, sua, nossa!): a área da rampa pertence ao IBAMA.

Não ficamos de braços cruzados e entramos com ação judicial indenizatória.
A sentença da primeira instância nos foi favorável, estabelecendo reparação
pecuniária. O processo continua transitando. Nada nos trará a Ana de volta,
mas serve de alerta para que novos acidentes sejam evitados.

É muito doloroso remexer nestes fatos, especialmente por sabermos que nada
mudou. Mas é nosso dever, enquanto cidadãos, tentar mudar a história do
nosso país. É o que estamos (eu e minha família) fazendo.

O turista canadense é o ator Michel Cardin, que havia casado poucos dias antes com uma brasileira, a Carol. Ele está em estado vegetativo até hoje. Alguns meses mais tarde outra moça teve um “acidente” parecido, a Diandria. Felizmente Diandria sobreviveu, mas o piloto que estava com ela, conhecido como Parafina, morreu.

Michel Cardin

Armário quebrado

Eu não saí do armário. Já havia saído de lá há muito tempo. O que eu fiz ontem foi quebrar o armário em pedacinhos. Não sobrou nada. Só as memórias permanecem, e são elas que conto aqui para vocês.

Jamais tive vergonha de pensar, falar ou fazer sexo. Claro que, mais nova, me senti “desvalorizada” quando transei no primeiro encontro e nunca mais fui procurada. Quando criei a Letícia, porém, eu era uma adulta e não tinha mais grandes questões sobre sexualidade. Exceto uma.

Assim, não tive problema algum em conhecer pessoalmente diversos leitores ou em admitir para meus amigos que eu era a Letícia. Quem dizia que eu me escondia estava muito equivocado – eles só não me conheciam. Eles é que eram desinformados.

No entanto, eu sabia de todas as consequências que assumir o personagem teriam na minha vida profissional. O mundo ainda é infelizmente povoado de pessoas hipócritas e com um falso moralismo exacerbado. Não sou ingênua de achar que um bispo ou um deputado conservador, por exemplo, me concederiam entrevista sabendo que eu escrevo aqui.

Só que há algumas semanas as coisas mudaram muito de figura. Fui me recuperando da crise depressiva e pensei muito sobre quem eu era e o que desejo fazer da minha vida. Como vocês sabem, também trabalhei com direito e larguei tudo para fazer jornalismo. Eu não gostava do que fazia, e resolvi buscar um trabalho que me desse prazer.

Teria sido fácil continuar trabalhando na consultoria tributária. Meus amigos que continuam por lá ganham muito mais que eu. Alguns estão super bem de vida. Eu penso nisso? Claro. Considero como seria minha vida se eu não tivesse preocupação com grana? Evidente que sim.

Mas eu não gostava, não era feliz, não me sentia desafiada, não tinha tesão. Larguei tudo e tive apoio financeiro da minha família. Então, com as elucubrações deste início de ano, eu me dei conta que eu não tinha nenhuma carreira para colocar em risco (risos da desempregada). Mais do que isso: eu gosto muito de ler a respeito, discutir, conhecer e escrever sobre sexo.

Então resolvi que essa é a minha carreira. Que é exatamente isso que eu quero fazer.   Não necessariamente com o blog, mas eu posso fazer um mestrado, uma pós no exterior, sei lá. Quando entro numa livraria vou direto para a área de psicologia e de sexualidade. Todos os filmes/livros/documentários/vídeos do YouTube que estão na minha lista de “coisas a fazer” são sobre o tema.

Isso já foi deveras libertador. Eu realmente assumi a Letícia; não para o mundo, mas para mim mesma. É isso que eu faço. Ponto. Estudo sexualidade.

Só que havia outro problema, aquele que mencionei lá em cima como “problema da minha sexualidade”. Venho de uma família conservadora, como disse no blog algumas vezes. Alguns meses atrás liguei para uma pessoa muito próxima e contei sobre o Cem Homens. A notícia foi bem recebida, mas ainda faltava a minha mãe.

Como vivo longe de casa desde os 17 anos, há muito sobre a minha vida que ninguém sabe. Não tenho de entrar em discussões sobre machismo, liberdade sexual ou de orientação sexual. Eles pensam coisas contrárias a mim, eu fico chateada, mas não tenho de me confrontar com ninguém no almoço de domingo, quando normalmente as mulheres vão para cozinha lavar a louça e os homens ficam sentados bebendo cerveja. Sei que é isso que acontece na maioria das casas brasileiras.

Por morar longe, tive oportunidade de fazer o que me desse na telha. Posso sair a qualquer hora, para qualquer lugar; posso receber quem eu quiser em casa; posso sumir durante dias e não dar satisfação a ninguém.

Eu tenho um problema, todavia. Eu continuo dependendo financeiramente da minha família. E, mais importante que isso, eu gostaria que minha mãe sentisse orgulho de mim, e nenhuma vergonha.

Como, então, ela poderia não se envergonhar de uma filha “puta”, se é assim que muitas pessoas me veem?

Só que eu cansei. Cansei de não poder compartilhar com ela os convites para escrever um livro. Cansei de não pedir a opinião dela sobre um projeto pro Cem Homens. Cansei de não contar para ela sobre os e-mails incríveis que vocês mandam.

E também não posso negar a importância – ainda que não seja bacana – de estar cansada de ser ameaçada.

Porque algumas pessoas, que sabiam da minha identidade, me ameaçavam. Diziam que iam espalhar para todo mundo, colocavam minha foto no Twitter, etc, etc, etc. Li coisas horrorosas nos comentários aqui no blog. Sofri com alguns deles. Chorei. Tive medo, sim (regozijai-vos).

O que as pessoas não contavam é que quando eu era criança ainda e me perguntavam o que eu queria ser quando crescer eu dizia “minha mãe”. Nada de médica, astronauta ou bailarina. Eu, brincando de barbie e playmobil, respondia, sempre: “quero ser igual à minha mãe”.

Ela também não era médica, astronauta ou bailarina. Era dona de casa. Sentava conosco para nos ajudar nos trabalhos da escola, cuidava para que estivéssemos sempre saudáveis, recortava o jornal e nos mostrava notícias sobre doenças e drogas (lembrem que isso foi há mais de vinte anos, não havia internet).

Se ela era uma mãe “comum”, então por qual razão eu queria ser como ela?

Essa mesma mulher casou-se com um homem de classe social muuuuuuuuito inferior à dela em plena década de 1970. Quinze anos mais tarde, com três filhos e sem emprego, se separou desse mesmo homem porque não aceitou mais ser só uma “dona de casa”. Estávamos em 1989, e a tal “tradicional sociedade” da época xingou. Julgou. Dentro da própria família vimos narizes torcidos para a “mulher divorciada”.

Tiveram mais trabalho (e torceram bem mais que o nariz) ainda ao descobrirem que ela namorava um homem oito anos mais novo. Passamos diversos perrengues financeiros, mas ela se manteve fiel, sempre, às suas escolhas.

Ali, sem saber, ela me mostrou o que é ser mulher. E não “mulher por ter órgão sexual de mulher”, mas mulher como cidadã, como ser humano, como pessoa. Além de ter plantado em mim a sementinha do feminismo. À época (eu tinha dez anos), eu brigava com todo mundo que falasse qualquer coisinha a respeito dela.

Depois, quando perdemos a minha irmã, entramos com uma ação judicial contra os responsáveis pelo “acidente” que a vitimou. Muita gente disse que não daria em nada. E, bom, ganhamos em duas instâncias já.

Teve gente que disse que eu precisei de coragem para me revelar por aqui. Não. Coragem é estar frente a frente com quem sabia do risco que minha irmã corria, mas mesmo assim permitiu que aquele voo acontecesse – e que, em juízo, disse que nós queríamos dinheiro. Coragem é aturar isso ou tantos outros desdobramentos desse caso.

Coragem é ligar para minha mãe, a única pessoa que importa nisso tudo, e contá-la sobre a Letícia, mesmo morrendo de medo da reação dela. Conversamos, expliquei tudo. Evidentemente houve surpresa, questionamentos.

Mas ela lembrou de todas as vezes em que foi chamada de puta (só por ter se separado!) e “continuou vivendo”. Disse que, se eu não estou prejudicando ninguém e continuo sendo a pessoa de caráter que sempre fui, ela me apoia incondicionalmente.

Esta é a minha mãe. É a mulher que agradeço todos os dias por ter na minha vida. Discutimos ao longo dessas três décadas, sim. Muito. Discordamos mais ainda. Mas é nela que tenho meu suporte e por quem nutro o maior amor do mundo.

E, felizmente, meus desejos de infância se tornaram realidade: no que realmente importa, eu me tornei a minha mãe.

Quem sou eu

De uma vez por todas.

Meu nome é Nádia Lapa, sou amazonense, fiz direito na PUC-Rio e jornalismo na Cásper Líbero.

Tenho 32 anos, faço aniversário em 5 de novembro.

TUDO o que disse aqui, desde o primeiro post, é a mais absoluta verdade.

Não tenho nenhum problema em ser quem eu sou, nenhuma vergonha, nada.

Eu sou essa pessoa. Estou na foto na foto com a minha irmã, que morreu em 2003.

Esta é uma foto mais recente.

Feia? Gorda? Puta?

Xinguem do que quiserem. Eu tenho certeza de que sempre pautei minha vida por princípios de honestidade, de luta por justiça e por uma sociedade mais igualitária.

E você?

Excelentes notícias

O dia começou glorioso com a prisão dos “responsáveis” pelo site Silvio Koerich, que era racista, misógino, homofóbico e tudo de ruim que vocês podem imaginar. Excelente, excelente.

Daí depois li que a prefeitura de Catalão, em Goiás, está vacinando gratuitamente as adolescentes contra o HPV. A vacina é cara (ultrapassa os mil reais), não é distribuída na rede pública de saúde e os planos de saúde não cobrem.

Mesmo quando têm condições financeiras, os pais tendem a não vacinar as filhas – acham que isso as estimularia a transar. Por favor, né? Colocar uma mulher em risco de pegar câncer só para ela permanecer virgem é de um atraso surreal.

Isso porque a vacina é mais indicada para garotas a partir dos nove anos de idade. Há quem ache prematuro, mas segundo a reportagem do G1 este é o momento ideal por causa da resposta imunológica. O fato é que você não sabe quando sua filha vai começar a vida sexual, e se você puder protegê-la do vírus que é o grande responsável pelos casos de câncer de colo do útero no país, torna-se essencial a vacinação.

Parabéns à prefeitura de Catalão!

Outra boa nova é que o SUS voltou a distribuir as camisinhas femininas. Caríssimas (na farmácia custa em torno de R$ 7 e nos sex shops o valor chega a dobrar), elas estavam há um ano sem serem entregues nos postos de saúde. O Ministério da Saúde comprou 20 milhões de unidades.

Justamente por causa do custo, as camisinhas femininas não são muito populares. Mas podem ser uma excelente saída para mulheres alérgicas ao látex ou que tenham aqueles parceiros chatíssimos que não se acostumam com o preservativo masculino. Eu testei e contei tudo aqui.

Um dia de boas notícias. Que continue assim.

Shame

Vou confessar que é bem difícil escrever sobre Shame sem pensar no pintão enorme do Fassbender, protagonista do filme. Mas vamos tentar.

Antes de começar a preparar esse post eu li diversas críticas de gente gabaritada. Em geral elas apresentam Brandon (Michael Fassbender) como um viciado em sexo que tem sua vida mexida com a visita da irmã, Sissy (Carey Mulligan, que você deve conhecer de Drive e Educação). E param por aí.

Alguns não conseguem nem disfarçar o julgamento que fazem do modus vivendi de Brandon. A saber: bem sucedido, com um belo apartamento, morando em NY e belíssimo, o personagem não consegue se desligar de sexo. Nunca. Paquera no metrô, paga prostitutas, consome tanta pornografia na internet que uma daqueles mulheres que aparecem em câmeras já até o chama pelo nome. Brandon não se controla – se masturba sempre no banheiro do trabalho e usa o computador profissional para ver pornografia.

Brandon não é feliz, e os que já escreveram sobre o filme dizem que é por esta razão que ele procura tanto a satisfação sexual. Eles perdem um ponto importante – e aí acho que está a grande participação de Sissy no filme.

Explico.

Se você pretende ver o filme, pare de ler esse texto agora.

A interpretação de um filme – ou de qualquer obra de arte – é totalmente subjetiva. A gente carrega tanta coisa na hora de entrar numa sala de cinema! E, bom, é bom deixar claro que eu já fui considerada uma “doente” por gostar tanto de sexo e sou depressiva assumida. Isto posto, vamos à minha personalíssima opinião sobre o filme, sem qualquer embasamento técnico-científico para isso.

Brandon é bonito, tem grana, mora bem. Flerta em bares de maneira respeitosa, contrata garotas de programa, vê pornografia na internet. Até aí ele é muito parecido com grande parte dos homens que conhecemos (exceto por aquele pintão abençoado pela mãe natureza!). Só que ele não consegue se desligar das ideias sexuais – está sempre em busca do próximo orgasmo.

Mas, em termos puramente médicos, não se pode considerar que tem um problema. Afinal, ele não está prejudicando ninguém. Trabalha, produz, tem vida social normal (o comportamento dele no bar com os amigos mostra que ele é gente-como-a-gente).

Desde o início do filme, porém, vemos que uma moça tenta insistentemente falar com ele por telefone. Liga mil vezes. Deixa recados. Até que ela aparece de surpresa na casa de Brandon. É Sissy, sua irmã, vivida pela belíssima Carey Mulligan (ela é uma das minhas atrizes favoritas na atualidade).

Ela chega literalmente para mexer com a vida do irmão. Até ela entrar em cena o apartamento de Brandon era limpíssimo, arrumadíssimo, quase asséptico (o tom azulado usado pelo diretor passa ainda mais essa sensação de que estamos dentro de um hospital). Sissy é bagunceira, faz sujeira na mesa da sala, bebe suco no gargalo, deixa o aparelho de som ligado em alto volume.

Ele tenta controlá-la: institui até o horário em que ela deve sair da casa. Mas não tem jeito. Apesar de irmãos, são totalmente diferentes. Enquanto ele se veste sempre de maneira sóbria, Sissy usa casaco de oncinha e chapéu vermelho de brechó. Enquanto ele trabalha em um desses escritórios com grandes janelas de vidro e com clientes de paletó, ela canta na noite.

Sua interpretação de New York, New York, aliás, é uma das cenas mais longas do filme e é belíssima. Carey Mulligan arrasa.

Por fora, tudo diferente.

Por dentro, tudo igual.

Sissy e Brandon não falam do passado. Não mencionam os pais, nunca. Ela tem algumas marcas no braço – que não aparecem até o final do filme, mas o sócio de Brandon comenta a respeito.

A cantora tenta de todas as maneiras chamar a atenção. Fez isso antes de chegar à casa do irmão; procura incessantemente o cara com quem saiu, ignorando o fato de ele ser casado; pede carinho a Brandon o tempo todo.

E ele nega. Foge. Busca sexo e mais sexo e mais sexo. Em um encontro romântico, menciona que seu relacionamento mais longo durou quatro meses e revela que não gostaria de se casar. Broxa quando transa com sentimento, mas na cena seguinte come uma prostituta. Depois que Sissy chega à cidade, Brandon se vê mudando de comportamento – não só porque saiu num date sem nem beijar na boca, mas porque se mete em brigas e entra num lugar estranho sendo até chupado por… um homem.

Shame é perturbador. E não por causa das cenas de sexo. O filme mexeu comigo porque mostra que todos nós somos um pouco broken. Acho que a história é justamente essa, e não do homem-tarado-procura: trata-se de uma narrativa sobre gente, e de como nos tornamos adultos problemáticos. Alguns de nós se viciam em drogas, outros em sexo, outros não conseguem manter relacionamentos porque exigem demais (been there, done that).

Brandon é viciado em sexo e bloqueia qualquer aproximação, mesmo da irmã. Sissy, por outro lado, tenta compensar sua carência com a procura inconveniente por atenção. Em um diálogo entre os dois, ela diz que eles têm um passado ruim. Fica evidente que vieram de um lar conturbado.

Algumas pessoas dizem terem visto uma tensão sexual entre os dois. Eu confesso não ter percebido isso. Para mim, eles compartilham só com o olhar histórias que apenas ambos sabem, e daí vem uma cumplicidade não falada, calada, escondida.

Brandon e Sissy são broken. And so are we.