Escrevo em blogs desde 2001. Comecei no Desembucha, um servidor brasileiro (tipo WordPress/Blogspot), depois de ter lido a respeito numa coluna do Sergio Maggi em O Globo. Na época ninguém nem sabia o que eram blogs – era preciso explicar os pormenores, como por exemplo que se tratava da abreviação de weblog.
Estávamos (acho que) em maio. Faltava pouco mais de um semestre para eu me formar, mas eu nunca havia arrumado um estágio. Não tinha perspectivas de emprego e minha vida amorosa também era caótica, pois eu me recuperava de um grande pé na bunda. Qualquer semelhança com o fim do ano passado não deve ser mera coincidência, mas certamente é uma grande piada dos deuses.
Sem nada pra fazer e muita coisa entalada na garganta, comecei a escrever. Era bem diarinho. Sei que é difícil acreditar, mas era ainda pior do que o Cem Homens. Lembro de um post em que discorri longamente sobre como um pombo havia feito cocô na minha cabeça.
O blog fez um relativo sucesso. Éramos poucos e fundou-se um certo “grupinho informal” de blogueiros. Alguns de nós continuaram trabalhando com internet, pois já eram estudantes de jornalismo/publicidade/letras. Outros, como eu, se formaram e foram empregados em outras áreas.
Continuei atualizando o blog mal e porcamente até o final de 2003, quando minha irmã morreu. Ao voltar dos meus dias de licença pelo luto, percebi que alguns colegas de trabalho sabiam do meu blog, apesar de eu escrever com pseudônimo. Acho que eu havia falado mal de todo mundo do escritório ali.
Então, não dava mais para continuar com ele no ar. Os lamentos de uma jovem não combinavam com a minha postura de “consultora tributária”. E simplesmente apaguei tudo. Nunca fiz nem backup.
De lá pra cá tive vários blogs. Outros também diarinho, outros sobre cultura geral. Escrevi sozinha e com amigos. Nesse meio tempo me descobri jornalista, coisa que nem me passava pela cabeça há dez anos. E me arrisco a dizer que todos nós, aprendizes de repórteres, temos alguns blogs registrados no WordPress.
Começar a escrever o Cem Homens, então, foi absolutamente natural pra mim. Eu era muito feliz com o assunto sobre o qual tratava profissionalmente, mas eu sentia necessidade de escrever sobre mim. Para quem? Não sei. Sinceramente nunca me importei muito com isso.
O que eu publicava na revista, sim, me trazia imensa alegria quando tinha um feedback positivo. Blog? Não. Nunca almejei fama. Dinheiro, claro, mas não com isso aqui, mas sim com meu trabalho cotidiano.
As coisas foram acontecendo meio sem querer. Aliás, totalmente sem querer. Os convites, as indicações no Twitter, os e-mails que chegavam às dezenas. Eu não estava preparada. Nem para a parte positiva de tudo, muito menos para a negativa.
Eu sofri, eu chorei, eu tive medo. Nunca escondi isso de ninguém. Fui me acostumando, desviando de uma ofensa aqui e outra acolá, mas nunca achei “normal”. Eu estava quieta no meu canto. Entendo totalmente o blog gerar fofoca, curiosidade e até algum descrédito. Mas me xingarem? Não, isso não me parece razoável.
No entanto, não é novidade. Lembro ainda das pessoas desconhecidas que já me odiavam lá no início da década passada. Para vocês terem uma ideia de como sou tonta, consigo recordar da garota que me chamou de “patricinha lobotomizada” num post.
Eram outros tempos, porém. Como disse, fazíamos parte de um “clubinho”. A internet era discada, os computadores eram caros. O acesso, por tudo isso, era mais difícil.
A gente se conhecia. Saíamos juntos. Havia uma galerinha-muito-louca-da-Zona-Sul-do-Rio-de-Janeiro que vivia junta pra lá e pra cá. Nós tínhamos nossos arranca-rabos, mas sempre offline. Alguns de nós nos pegamos, isso gerou intriga, ciúme, e tudo o que acontece quando pessoas se reúnem.
Apesar de sermos muito novos à época, não dávamos show. Até rolavam alfinetadas online, mas só. Não havia agressão. Parece que sou uma dessas velhas nostálgicas falando desse jeito, mas prefiro hoje.
Ter milhares de visitas diárias era impensável. Colocar uma mísera foto no blog era tarefa quase impossível. Vídeo? Hã? Não, não.
Então, agora é melhor, sim. Só que com a modernidade veio também um novo jeito de ganhar dinheiro. É muito mais barato anunciar em blogs do que, sei lá, na televisão. Com isso, o que antes eram só ~picardias juvenis~ se transformaram em trabalho. E a internet virou uma grande empresa corporativa, a maior redação de jornal do mundo, uma agência onde não somos separados por baias ou persianas fechadas no “aquário”.
E, como nesses lugares, o contracheque e o cargo na plaquinha não são meritórios. Quer um exemplo? O Update or Die, um dos melhores sites brasileiros, tem menos de 15 mil likes no Facebook, enquanto um certo vlogger conhecido por sua produção machista e homofóbica arrebanhou mais de um milhão de seguidores no Twitter.
Quantidade não está – e nunca esteve – ligada à qualidade, mas quando uma empresa pensa em fazer propaganda ela espera atingir o maior número possível de potenciais compradores. Isso é óbvio. Não aprenderam ainda, porém, a separar o tipo de propaganda que desejam veicular.
E, com dinheiro em jogo, os egos inflaram. Alguns blogueiros-twitteiros-sabe-se-lá-mais-o-quê passaram a se sentir poderosos. Tem gente que sequer fala com quem tem pouco seguidor no Twitter. Pode? Não deveria, mas é o que acontece.
Gente arrogante e com ideias ultrapassadas sempre se deu bem. A vida, como sabemos, não é justa. Só que tem gente que se agregou a essas pessoas, como forma de, talvez, pegar um naco dessa grana que ~dizem~ rolar por aí. Pode até ser que não se trate de dinheiro, mas da necessidade de ter fama, de ser amado ou algo do tipo. Não sei, porque apesar da minha carência (quem nunca?) eu não sinto essa urgência em ser amada por desconhecidos.
Mas aconteceu algo curioso. Aquela “turminha copacabanense” se transformou numa turma que não tem mais restrição de lugar, idade, nada. Conta-se pelo número de acessos ou de seguidores. “Sou relevante”, bradam por aí.
E os outros ~alta social media~ se unem e se unem e se unem, formando a maior panelinha hipócrita do universo. Por qual razão falo em hipocrisia? Porque todo mundo vê o outro fazendo merda, mas em nome de uma so-called amizade (no meu mundo, substitui-se essa palavra por “interesse”), as pessoas fingem que nada viram.
Fez piada machista? “Ah, deixa pra lá, fulano é assim mesmo!” Xingou pessoas aleatórias de babaca? “É o jeito de ele fazer piada, Letícia, que falta de senso de humor!”. E assim vai se construindo uma rede de desonestidade e fingimento.
Só que eu não sou assim. Nunca lambi os pés de ninguém para conseguir algo. Não o fiz quando era advogada – e podia estar ganhando rios de dinheiro. Não fiz durante o colégio, quando puxar o saco de um tenente poderia render estrelinhas na minha farda (sim, estudei em Colégio Militar). Não vou fazer agora, adulta e consciente do que sou e do meu papel social.
Sim, porque o Cem Homens tem um papel social. Esperneiem os que não me suportam, mas é verdade. Tenho centenas de e-mails que comprovam como pessoas mudaram suas vidas a partir da leitura do blog.
Eu não acho que um blog ou um twitter precisam ter essa função. Você pode só divertir seus seguidores com piadas (de verdade) ou compartilhar, sei lá, boa música. Não é preciso que sete bilhões de pessoas “toquem” umas às outras.
Certamente, porém, não é necessário que meia dúzia inflame seus seguidores e leitores contra os outros. Seja uma pessoa especificamente (“a doida do Cem Homens com suas rolas imaginárias”), seja um grupo social (“lugar de mulher é na cozinha”, “vamos curar os gays”, “esses macacos”, etc, etc, etc).
Mas não é isso que acontece. Em um ano eu vi a minha “turminha” crescer de maneira assustadora. Sou reconhecida no Lollapalooza. Recebo comentário perguntando se era eu quem estava na fila do cinema. Essas pessoas se aproximaram com muito amor e carinho, e sou grata por isso.
Já disse e repito quantas vezes for necessário: foi com muitos de vocês que encontrei forças para seguir em frente quando meu mundo desabou.
No entanto, também já tive de lidar com jornalista mau caráter, com seres obcecados por mim, com xingamentos em níveis aterrorizantes.
Eu, nesse momento, não sou capaz de lidar com tudo isso. Com essa hipocrisia online. Tem gente que finge não me conhecer, mesmo com projetos de certa forma inspirados no Cem Homens. Porque têm vergonha. Porque a ~alta social media~ iria achar feio se soubessem que, na intimidade, somos muito íntimos.
Isso me machuca, me deixa descrente, me abala. Não estou fazendo mimimi. Eu realmente não consigo entender como as coisas funcionam. E, se é do jeito que eu imagino que seja, eu não quero fazer parte disso.
Essa semana voltei a ser perseguida por alguns haters (não estou falando de gente que me chama de boba-feia-e-má no twitter). Fui ameaçada de processo judicial (risos). Injustamente me imputaram diálogos que jamais existiram.
Eu não tenho estrutura para lidar com tamanho absurdo neste momento. Estou reorganizando minha saúde física e mental. Tenho bons projetos para colocar em prática. Estou produzindo meu livro.
Assim, vou me aquietar um tempinho. Eu volto. Preciso, antes disso, aprender a lidar com esse lixo que estou sujeita – e sempre estarei, porque eu moro na internet – a ver a todo momento.
Jamais irei compactuar com perfis e blogs de conteúdo preconceituoso. Nem todos da ~alta social media~ são assim, é verdade. Há gente bacana. Mas fica muito difícil separar as coisas quando esses ~bacanas~fazem vista grossa para o que é dito pelos seus compadres. E, enquanto eu não estiver imune a isso, prefiro me afastar um pouco.
Tem sido um casório muito bem sucedido. São onze anos de relacionamento bem frutífero. Só estamos numa pequena crise. Nada que uma terapia de casal não resolva. ;)
PS: Gente, não me desejem “melhoras”. Eu não estou mal, não estou doente, nada disso. Tá?
PS 2: Meu e-mail de contato agora é [email protected] Não vou responder imediatamente (como sempre!), mas podem continuar mandando dúvidas, sugestões e afins.