Preciso de ajuda

Oi!

Desculpem pela falta de textos. Só vai ter coisa nova lá pra quarta-feira. Resolvi ajeitar outras coisas por aqui e dar continuidade aos meus ~projetos~. Aliás, alguém tem 15 mil reais para patrocinar essa ideia brilhante que eu tive? Sério, é uma coisa bacanérrima e que já está bem encaminhada. Só que pra ficar do jeito que imaginei eu preciso de grana e… bom. Eu não tenho.

(fim do desabafo.)

É o seguinte: analisei os resultados da pesquisa que fiz por aqui (ainda não li tudo, é muuuuuuuuuuuita resposta!) e tive algumas surpresas. Uma delas é que a maior parte de vocês tem entre 18 e 25 anos. Eu achei que a maioria dos leitores tivesse mais ou menos a minha idade (32 anos), então foi surpreendente.

Mas o que venho dizer hoje diz respeito à pesquisa, só que preciso da ajuda de uma parcela pequenininha dos leitores. Como todos imaginam, a maior parte de quem me lê é do sexo feminino. Mas é uma maioria absolutíssima (cerca de 80%).

Outro número impressionante: 83% de vocês são hetero.

Assim, queria pedir ajuda dos 20% do sexo masculino e dos 17% bi, homo, etc. O que falta? O que vocês acham que poderia ser feito de melhor para que mais homens me lessem, assim como gente de qualquer orientação sexual?

Agradeço qualquer luz que vocês possam me dar.

Beijo e bom fim de feriado!! <3

Ciúme, essa coisa idiota sem nenhuma relação com o amor

Nós já nos apaixonamos mutuamente, brigamos em demasia, paramos de nos falar, voltamos a nos falar, brigamos mais um pouco, nos amamos mais um montão. Chegamos à conclusão (ok, mais ele do que eu) de que não é possível termos um relacionamento amoroso. Pelo menos não do jeito que as pessoas imaginam que isso seja.

Ele mora em outra cidade e sente imensa necessidade de controle. Eu, idem. Resultado: uma árdua luta por poder que jamais chegará ao fim. Decidimos, mesmo sem palavras, que está-bom-do-jeito-que-está. Falamos o dia inteiro no Facebook, contamos coisas íntimas um pro outro, fazemos planos de futuro, mesmo os que nunca se concretizarão. Semana passada, por exemplo, escolhemos as estantes da casa que teremos quando casarmos.

E vamos muito bem assim, obrigada. Só que não falamos sobre nossas vidas amorosas. Eu, falastrona, acabo contando uma coisa ou outra. Ele, nunca. Mesmo que eu peça. Até que em uma noite dessas ele parou de falar no chat do Facebook por alguns segundos.

Quando voltou, jogou a ~bomba~:

- Acabei de receber uma booty call.

Espumei do lado de cá da tela. Fiquei procurando dentro da minha cabeça onde havia surgido aquele ciúme. Eu saio com outros caras e sou partidária do relacionamento aberto (quando conversamos a respeito, inclusive, sempre dizemos que se tivéssemos um relacionamento “rotulado”, certamente poderíamos beijar-transar com outras pessoas).

Fiquei sem entender a minha própria reação. Quando ele começou a revelar algumas preferências sexuais que ele compartilha com a tal moça que ligou pra ele, me enfureci. Confessei meu ciúme e deixei ele falando sozinho.

Enquanto ele estava lá, em outra cidade, transando e sendo feliz, eu estava aqui pensando a respeito do meu ciúme. Infelizmente devo dizer que não é novidade na minha vida. Até bem pouco tempo atrás eu poderia me descrever como uma mulher ciumenta.

Mas as coisas mudaram. Eu mudei. Ter ciúme não tem nenhum sentido depois de tudo o que vivi, li e pensei. Não combina mais com a pessoa que me tornei.

Porque eu finalmente me dei conta de que ciúme não tem qualquer relação com quantidade de amor. É bem comum acharmos estranho quando nosso par não demonstra o tal “sentimento”. Pensamos logo que ele não nos ama ou que não se importa.

Não é verdade. O ciúme ocorre quando somos inseguros com a gente mesmo (“ele é areia demais pro meu caminhãozinho, já que sou feia/gorda/burra/etc”). Ou por acharmos que o outro “nos pertence”. “Se ele é meu, então não pode se envolver com mais ninguém.”

Pensar em proibir, reclamar e fazer escândalo é uma guerra inútil. Nossos parceiros irão, sim, conhecer outras pessoas. Irão sentir desejo por essas pessoas. Transarão com essas pessoas. E serão felizes com essas pessoas.

Por que temos tanto medo que isso aconteça? Se nosso amado nos “trocar” por outra, vai doer, sim, mas você quer que ele fique com você por obrigação?

No final percebi quão imbecil eu estava sendo. O moço bonito de pernocas delícia continua sendo ~meu~ nos momentos em que sempre foi: a gente segue conversando o dia inteiro. Sei que posso ligar quando sentir saudade do sotaque e das gírias horríveis que ele usa.

O que eu quero dele é que ele continue prestando atenção no que eu digo. Esses dias ele disse que havia jantado bem. Eu perguntei o que havia sido, e ele “você não ia gostar”. Ele lembrou que eu não como frutos do mar – e eu sequer recordava já ter dito isso pra ele algum dia.

Quero que ele continue me apoiando nos meus projetos, me admirando em uma coisa ou outra, me elogiando de vez em quando pra aquecer meu coração. Eu continuo tendo tudo isso. E nós vamos ter isso com outras pessoas, também.

Eu não preciso “tê-lo” como um prêmio, como um objeto. Eu só quero (sequer preciso!) ele na minha vida porque ela se torna mais colorida com ele por perto.

PS: Enquanto fazia a procura de imagens para esse post, coloquei “jealousy” e “ciúme” na busca. Basicamente apareceram ilustrações de duas mulheres disputando um homem. Ciúme não tem a ver com gênero. Não é sentimento de “mulherzinha”. É sentimento de GENTE insegura e possessiva. Independente de gênero. 

“Gordos e feios fazem sexo com mais vontade”

Será?

Ontem as Blogueiras Feministas publicaram um texto falando sobre esse mito de que nós, as gordas, fazemos tudo na cama como forma de “agradecer” pela graça alcançada (isto é, de arranjar alguém que nos coma).

Ela parece precisar da sua aprovação (isto é, que você transe com ela) para melhorar a autoestima?

O primeiro parágrafo explica tudo:

“Na luta das mulheres contra a balança, a gente que sai ganhando”

Essa frase eu ouvi a uns dias atrás quando estava próxima a um grupo de caras que conversavam sobre os planos para o final de semana. Um dos rapazes comentou que estava com tanta vontade de transar, que naquele dia “comeria” até uma mulher gorda. Nisso um outro rapaz complementa dizendo que então o dia estava ganho, porque mulher gorda não diz não, ela transa com qualquer homem, as gordinhas aceitam qualquer coisa.

Hoje, percorrendo os comentários num desses ~sites para o público masculino~ fui obrigada a ler o seguinte: “Quem tem mais experiência vai concordar que uma mina feinha tem mais motivação pra mandar bem na cama”.

MY EYES, MY EYES!

E ela?

Infelizmente esta ideia é repetida tanto por aí que já virou quase verdade absoluta. Ouço insinuações do tipo há mais de uma década. “Gorda faz tudo para agradar, são mais fogosas, etc, etc, etc.”

Eu concordo que durante o flerte algumas pessoas muito bonitas ficam com o carão de inacessíveis, esperando os súditos se ajoelharem aos pés. Porque talvez estejam acostumados. Mas, cá pra nós, vocês nunca esbarraram com gente que não está com essa bola toda (por uma série de motivos) que faz exatamente igual? A arrogância, meus caros, não está diretamente ligada à aparência, ao status social, à grana no banco.

Eu já conheci muitos homens arrogantes que eram metidos simplesmente por serem homens. “Eu tenho um pau no meio das minhas pernas, e tudo o que uma mulher quer é um pau para chamar de seu, então venha a mim, Letícia.” Nunca se deparou com seres assim? Sorte a sua.

Por essas e por outras é que a generalização é tão perigosa. Confesso já ter feito muito isso, inclusive aqui no blog (recebi críticas, repensei e tento evitar). Eu sou gorda e tento agradar no sexo. Mas eu não faço isso por ser gorda – eu já fazia quando tinha 40 quilos a menos.

Eu me dedico sexualmente porque naquele momento eu sou inteira do outro. Meu hormônios me enlouquecem, meu corpo responde. Se o parceiro também estiver no mesmo clima, a transa pode ser inesquecível. E isso não tem qualquer relação com a nossa aparência.

Será que secretamente ela grita "por favor, me comam?"

Gordos, magros, altos, baixos, muito gordos, muito magros, brancos, negros, peitudas, pintudos… somos assim porque a genética é implacável, porque comemos demais, porque malhamos bastante. O fator “gostar de sexo” não está escrito na nossa testa. Para sermos tarados e “bons de cama” precisamos de estímulo, de cabeça aberta em relação à sexualidade, e de parceiros que nos estimulem. Que achem nossa pancinha sexy, que não se importem porque nosso peito é pequeno, que admirem fervorosamente o pau menor que a ~média nacional~.

O que nos faz gostar de sexo é sermos bem comidos, e não a quantidade de refeições que fazemos num dia.

Todas as imagens foram retiradas do ótimo tumblr Gostosa que se acha gorda

Óculos

Ela tentava se arrumar. Colocou a jaqueta, prendeu o cabelo – desgrenhado àquela altura – em um coque, tirou da bolsa o espelho para checar se a maquiagem estava borrada. Ajeitou a saia. Certificou-se que não havia ficado presa na meia-calça.

Tudo certo.

Faltava a última coisa para poder sair à rua. Os óculos. Ela os detesta. Foram moda há cinco ou seis anos; e ela os comprou em uma tarde ensolarada de sábado na Benedito Calixto. Já não são mais bonitos. Agora usam uns aros enormes, redondos, como se tivéssemos voltado quase trinta anos no tempo.

Os dela não são assim. Meio quadrados, meio retangulares. Bicolores: preto e branco. Suas cores favoritas. Na verdade não importaria se fossem óculos modernos, estilosos, o que fosse. Ela, na verdade, acha que seus olhos pequenos ficam ainda menores quando há lentes separando-os do resto do mundo. Ela não gosta de enxergar com moldura.

E, naquela noite, ela se achava toda errada. Tirou os óculos logo que chegou ali. Talvez ele não achasse tão feia quanto ela mesma se via caso ela estivesse sem aquela armação ridícula e démodé.

Mas era hora de se despedir. Tinha de colocá-los de volta no rosto redondo. Pôs.

- Você fica gatinha de óculos… Sexy.

Ela então sentiu as pernas tremendo. Não sabe dizer se a sensação era física, pela posição que havia ficado minutos antes enquanto o chupava. Provavelmente não, pois dias mais tarde ela ainda pode jurar que sente o joelho virando gelatina a cada vez que observa seus óculos.

Cinco palavras, um sorriso, alguns hormônios. E a insegurança de anos desapareceu. Agora ela gosta de ver o mundo com essa moldura.

***

Volto em breve, pessoas. E, aos poucos, vou recolocando no ar os posts. Começarei pelos que vocês pediram por e-mail.

Estou concentrada em outros ~projetos~. Logo logo terei grandes novidades. Para saber a respeito, me sigam no Twitter (@vidadeleticia) e/ou curtam a página do blog no Facebook. Tenho postado algumas coisas por lá.

Crise nesse casório

Escrevo em blogs desde 2001. Comecei no Desembucha, um servidor brasileiro (tipo WordPress/Blogspot), depois de ter lido a respeito numa coluna do Sergio Maggi em O Globo. Na época ninguém nem sabia o que eram blogs – era preciso explicar os pormenores, como por exemplo que se tratava da abreviação de weblog.

Estávamos (acho que) em maio. Faltava pouco mais de um semestre para eu me formar, mas eu nunca havia arrumado um estágio. Não tinha perspectivas de emprego e minha vida amorosa também era caótica, pois eu me recuperava de um grande pé na bunda. Qualquer semelhança com o fim do ano passado não deve ser mera coincidência, mas certamente é uma grande piada dos deuses.

Sem nada pra fazer e muita coisa entalada na garganta, comecei a escrever. Era bem diarinho. Sei que é difícil acreditar, mas era ainda pior do que o Cem Homens. Lembro de um post em que discorri longamente sobre como um pombo havia feito cocô na minha cabeça.

O blog fez um relativo sucesso. Éramos poucos e fundou-se um certo “grupinho informal” de blogueiros. Alguns de nós continuaram trabalhando com internet, pois já eram estudantes de jornalismo/publicidade/letras. Outros, como eu, se formaram e foram empregados em outras áreas.

Continuei atualizando o blog mal e porcamente até o final de 2003, quando minha irmã morreu. Ao voltar dos meus dias de licença pelo luto, percebi que alguns colegas de trabalho sabiam do meu blog, apesar de eu escrever com pseudônimo. Acho que eu havia falado mal de todo mundo do escritório ali.

Então, não dava mais para continuar com ele no ar. Os lamentos de uma jovem não combinavam com a minha postura de “consultora tributária”. E simplesmente apaguei tudo. Nunca fiz nem backup.

De lá pra cá tive vários blogs. Outros também diarinho, outros sobre cultura geral. Escrevi sozinha e com amigos. Nesse meio tempo me descobri jornalista, coisa que nem me passava pela cabeça há dez anos. E me arrisco a dizer que todos nós, aprendizes de repórteres, temos alguns blogs registrados no WordPress.

Começar a escrever o Cem Homens, então, foi absolutamente natural pra mim. Eu era muito feliz com o assunto sobre o qual tratava profissionalmente, mas eu sentia necessidade de escrever sobre mim. Para quem? Não sei. Sinceramente nunca me importei muito com isso.

O que eu publicava na revista, sim, me trazia imensa alegria quando tinha um feedback positivo. Blog? Não. Nunca almejei fama. Dinheiro, claro, mas não com isso aqui, mas sim com meu trabalho cotidiano.

As coisas foram acontecendo meio sem querer. Aliás, totalmente sem querer. Os convites, as indicações no Twitter, os e-mails que chegavam às dezenas. Eu não estava preparada. Nem para a parte positiva de tudo, muito menos para a negativa.

Eu sofri, eu chorei, eu tive medo. Nunca escondi isso de ninguém. Fui me acostumando, desviando de uma ofensa aqui e outra acolá, mas nunca achei “normal”. Eu estava quieta no meu canto. Entendo totalmente o blog gerar fofoca, curiosidade e até algum descrédito. Mas me xingarem? Não, isso não me parece razoável.

No entanto, não é novidade. Lembro ainda das pessoas desconhecidas que já me odiavam lá no início da década passada. Para vocês terem uma ideia de como sou tonta, consigo recordar da garota que me chamou de “patricinha lobotomizada” num post.

Eram outros tempos, porém. Como disse, fazíamos parte de um “clubinho”. A internet era discada, os computadores eram caros. O acesso, por tudo isso, era mais difícil.

A gente se conhecia. Saíamos juntos. Havia uma galerinha-muito-louca-da-Zona-Sul-do-Rio-de-Janeiro que vivia junta pra lá e pra cá. Nós tínhamos nossos arranca-rabos, mas sempre offline. Alguns de nós nos pegamos, isso gerou intriga, ciúme, e tudo o que acontece quando pessoas se reúnem.

Apesar de sermos muito novos à época, não dávamos show. Até rolavam alfinetadas online, mas só. Não havia agressão. Parece que sou uma dessas velhas nostálgicas falando desse jeito, mas prefiro hoje.

Ter milhares de visitas diárias era impensável. Colocar uma mísera foto no blog era tarefa quase impossível. Vídeo? Hã? Não, não.

Então, agora é melhor, sim. Só que com a modernidade veio também um novo jeito de ganhar dinheiro. É muito mais barato anunciar em blogs do que, sei lá, na televisão. Com isso, o que antes eram só ~picardias juvenis~ se transformaram em trabalho. E a internet virou uma grande empresa corporativa, a maior redação de jornal do mundo, uma agência onde não somos separados por baias ou persianas fechadas no “aquário”.

E, como nesses lugares, o contracheque e o cargo na plaquinha não são meritórios. Quer um exemplo? O Update or Die, um dos melhores sites brasileiros, tem menos de 15 mil likes no Facebook, enquanto um certo vlogger conhecido por sua produção machista e homofóbica arrebanhou mais de um milhão de seguidores no Twitter.

Quantidade não está – e nunca esteve – ligada à qualidade, mas quando uma empresa pensa em fazer propaganda ela espera atingir o maior número possível de potenciais compradores. Isso é óbvio. Não aprenderam ainda, porém, a separar o tipo de propaganda que desejam veicular.

E, com dinheiro em jogo, os egos inflaram. Alguns blogueiros-twitteiros-sabe-se-lá-mais-o-quê passaram a se sentir poderosos. Tem gente que sequer fala com quem tem pouco seguidor no Twitter. Pode? Não deveria, mas é o que acontece.

Gente arrogante e com ideias ultrapassadas sempre se deu bem. A vida, como sabemos, não é justa. Só que tem gente que se agregou a essas pessoas, como forma de, talvez, pegar um naco dessa grana que ~dizem~ rolar por aí. Pode até ser que não se trate de dinheiro, mas da necessidade de ter fama, de ser amado ou algo do tipo. Não sei, porque apesar da minha carência (quem nunca?) eu não sinto essa urgência em ser amada por desconhecidos.

Mas aconteceu algo curioso. Aquela “turminha copacabanense” se transformou numa turma que não tem mais restrição de lugar, idade, nada. Conta-se pelo número de acessos ou de seguidores. “Sou relevante”, bradam por aí.

E os outros ~alta social media~ se unem e se unem e se unem, formando a maior panelinha hipócrita do universo. Por qual razão falo em hipocrisia? Porque todo mundo vê o outro fazendo merda, mas em nome de uma so-called amizade (no meu mundo, substitui-se essa palavra por “interesse”), as pessoas fingem que nada viram.

Fez piada machista? “Ah, deixa pra lá, fulano é assim mesmo!” Xingou pessoas aleatórias de babaca? “É o jeito de ele fazer piada, Letícia, que falta de senso de humor!”. E assim vai se construindo uma rede de desonestidade e fingimento.

Só que eu não sou assim. Nunca lambi os pés de ninguém para conseguir algo. Não o fiz quando era advogada – e podia estar ganhando rios de dinheiro. Não fiz durante o colégio, quando puxar o saco de um tenente poderia render estrelinhas na minha farda (sim, estudei em Colégio Militar). Não vou fazer agora, adulta e consciente do que sou e do meu papel social.

Sim, porque o Cem Homens tem um papel social. Esperneiem os que não me suportam, mas é verdade. Tenho centenas de e-mails que comprovam como pessoas mudaram suas vidas a partir da leitura do blog.

Eu não acho que um blog ou um twitter precisam ter essa função. Você pode só divertir seus seguidores com piadas (de verdade) ou compartilhar, sei lá, boa música. Não é preciso que sete bilhões de pessoas “toquem” umas às outras.

Certamente, porém, não é necessário que meia dúzia inflame seus seguidores e leitores contra os outros. Seja uma pessoa especificamente (“a doida do Cem Homens com suas rolas imaginárias”), seja um grupo social (“lugar de mulher é na cozinha”, “vamos curar os gays”, “esses macacos”, etc, etc, etc).

Mas não é isso que acontece. Em um ano eu vi a minha “turminha” crescer de maneira assustadora. Sou reconhecida no Lollapalooza. Recebo comentário perguntando se era eu quem estava na fila do cinema. Essas pessoas se aproximaram com muito amor e carinho, e sou grata por isso.

Já disse e repito quantas vezes for necessário: foi com muitos de vocês que encontrei forças para seguir em frente quando meu mundo desabou.

No entanto, também já tive de lidar com jornalista mau caráter, com seres obcecados por mim, com xingamentos em níveis aterrorizantes.

Eu, nesse momento, não sou capaz de lidar com tudo isso. Com essa hipocrisia online. Tem gente que finge não me conhecer, mesmo com projetos de certa forma inspirados no Cem Homens. Porque têm vergonha. Porque a ~alta social media~ iria achar feio se soubessem que, na intimidade, somos muito íntimos.

Isso me machuca, me deixa descrente, me abala. Não estou fazendo mimimi. Eu realmente não consigo entender como as coisas funcionam. E, se é do jeito que eu imagino que seja, eu não quero fazer parte disso.

Essa semana voltei a ser perseguida por alguns haters (não estou falando de gente que me chama de boba-feia-e-má no twitter). Fui ameaçada de processo judicial (risos). Injustamente me imputaram diálogos que jamais existiram.

Eu não tenho estrutura para lidar com tamanho absurdo neste momento. Estou reorganizando minha saúde física e mental. Tenho bons projetos para colocar em prática.  Estou produzindo meu livro.

Assim, vou me aquietar um tempinho. Eu volto. Preciso, antes disso, aprender a lidar com esse lixo que estou sujeita – e sempre estarei, porque eu moro na internet –  a ver a todo momento.

Jamais irei compactuar com perfis e blogs de conteúdo preconceituoso. Nem todos da ~alta social media~ são assim, é verdade. Há gente bacana. Mas fica muito difícil separar as coisas quando esses ~bacanas~fazem vista grossa para o que é dito pelos seus compadres. E, enquanto eu não estiver imune a isso, prefiro me afastar um pouco.

Tem sido um casório muito bem sucedido. São onze anos de relacionamento bem frutífero. Só estamos numa pequena crise. Nada que uma terapia de casal não resolva. ;)

PS: Gente, não me desejem “melhoras”. Eu não estou mal, não estou doente, nada disso. Tá? 

PS 2: Meu e-mail de contato agora é [email protected] Não vou responder imediatamente (como sempre!), mas podem continuar mandando dúvidas, sugestões e afins. 

“Sou bipolar, que legal!”

As pessoas falam muito de que todo mundo está sendo diagnosticado com algum problema de ordem mental. Esbravejam. Dizem que é um absurdo, “onde nós vamos parar”, “será mesmo que precisamos tanto de remédios”.

Eu não sou médica, não tenho estatísticas em mãos. Tudo o que sei é a partir da minha própria experiência e da observação. Evidente que tenho interesse pelo tema e também leio tudo o que cai na minha mão a respeito.

Não sei se todos nós um dia vamos ser diagnosticados com um distúrbio do tipo. O que sei é que iremos passar por momentos difíceis, como a perda de um ente querido ou dificuldades que nos deixam insones. Então, qual o problema de temporariamente se tomar um remédio que nos faça sentir melhor? Se você tiver uma doença diagnosticável por exames de sangue ou raio X, você não vai se medicar?

Então, o que vejo é as pessoas esbravejando contra algo que elas desconhecem. Um médico sério não vai sair passando remédio para quem não precisa. Eu, por exemplo, tenho imensa dificuldade de dormir. Imensa. Não importa a fase da minha vida, não importa a que horas acordei, não importa se trabalhei pra caramba o dia inteiro. Simplesmente não pego no sono. E, depois que finalmente durmo, acordo o tempo todo.

Fiz exames. Passei uma noite com eletrodos no meu corpo inteiro no Instituto do Sono para tentar identificar o motivo. Uma amiga, por exemplo, descobriu durante esse exame que tem “síndrome das pernas inquietas”. Ela movimenta os membros inferiores involuntariamente durante o sono – e isso faz com que ela acorde diversas vezes e fique exausta no dia seguinte.

Meu pai também já fez esse exame. Ele tinha mais de 50 anos de idade quando um médico notou a necessidade de ele se submeter à polissonografia. Descobriu-se que ele tem apneia do sono, que é quando a pessoa para de respirar enquanto dorme. Pela falta de oxigenação no cérebro, há quem morra por causa desse problema.

No meu caso, não há questão física nenhuma para que eu não durma direito. Mesmo assim, enquanto pessoas saudáveis passam entre 20 e 25% da noite na fase REM (a mais profunda, quando a gente sonha), eu fico apenas 5%. Com remédio. Isto é, meu sono é uma merda completa. Eu não tenho apneia, apesar de um desvio nasal. Eu não mexo as pernas. Nada. Não é possível saber fisicamente por qual razão eu passo muito mais tempo na fase de vigília do que na fase profunda do sono.

Daí voltamos aos médicos sérios. Tive duas psiquiatras na vida (fui em mais dois, mas não gostei e fugi). Ambas começaram o tratamento me passando remédio para dormir, tarja preta e etc. Alprazolam, vulgo Frontal. Uma caixa de 30 comprimidos de 1mg custa em torno de 40 reais. Quer dizer: uma noite de sono profundo por pouco mais de 1 real ao dia.

Só que o alprazolam vicia.

As duas médicas suspenderam o remédio quando completei três meses de uso. Não me deram outra receita. Passamos então para um indutor de sono, que faz com que eu pelo menos comece a dormir. Hoje tomo Zolpidem. Em uma das últimas consultas, reclamei que nem sempre o indutor me fazia dormir. Ela me receitou outra caixa de Frontal, mas já avisou que não vai passar de novo.

Evito ao máximo tomá-lo. Comprei a caixa nova há duas semanas e só abri ontem, quando não conseguia dormir de jeito nenhum. Depois do Frontal consegui pegar no sono. Acordei 10 horas depois, com uma ressaca horrível. É: remédio para dormir (os “de verdade”) pode dar ressaca. Você passa o dia inteiro meio zoado, e não raro precisa dormir de novo à tarde. É um dia perdido.

Eu ODEIO ter de tomar Frontal pra dormir. Eu ODEIO tomar Rivotril quando o calo aperta. Eu ODEIO ter de gastar 130 reais com Cymbalta todo mês. Eu ODEIO ter de observar cada tristezinha pra saber se não é a merda da depressão chegando perto de novo.

É uma vida de merda. Eu garanto a vocês.

Eu me divirto? Sim, claro. Danço, sorrio, produzo, escrevo, saio com os amigos. Faço tudo “normal”, mas sempre estou de olho a tudo – desde a minha falta de vontade de arrumar a casa até há quantas noites não durmo direito.

Tenho de constantemente ficar observando os possíveis sintomas de uma nova crise. E, ao pensar que talvez ela esteja voltando, entro em desespero. Porque eu não quero sentir aquilo tudo de novo. Nunca mais.

Essa introdução gigantesca é só para falar mal de quem se diz “bipolar, depressivo, borderline” para fazer gracinha. Colocam na bio do Twitter. Eu levantei a hipótese de ser bipolar com a minha médica, pois eu fui da merda completa para o florescimento de ideias e risos soltos. Tive medo de que estivesse passando pela fase de “euforia”. Ela me explicou direitinho como é a fase eufórica de um bipolar, e definitivamente eu não me enquadrava. O que eu estava passando é pela fase “normal” da Letícia. Eu tenho ideias. Eu sorrio. Eu produzo. Eu sou essa pessoa – com fases soturnas da depressão (que, mais uma vez, espero que nunca mais volte).

Esse povo que se diz bipolar quer, na verdade, justificar sua falta de tato ao lidar com o mundo. Oscilações de humor são normais no nosso cotidiano. Acordamos putos, porque queríamos ficar mais tempo na cama. Ficamos felizes porque, ao chegarmos no trabalho, conseguimos algo que há tempos esperávamos. Almoçamos com amigos, e daí ficamos mais felizes ainda. Só que à tarde recebemos um telefonema contando algo bem ruim. Ou então, na volta pra casa, pegamos duas horas de engarrafamento. Quem não oscilaria de humor? Bipolaridade não é oscilação de humor, é um distúrbio que deve ser tratado.

Não justifiquem suas grosserias com bipolaridade ou coisa do tipo. Quando eu estava em crise depressiva eu não era agressiva, por exemplo. Eu não conseguia nem reagir a qualquer agressão que me fizessem. Era como se eu estivesse numa situação de quase-morte (cada pessoa reage de um jeito, claro).

Fazer piada com bipolaridade ou qualquer outro distúrbio mental é cruel com quem de fato sofre com essas doenças. Assim, quando um de nós diz ao mundo pelo quê está passando (e é difícil, juro!), não é levado a sério. Acham que é frescura, que é brincadeira, que somos mais um que coloca esse tipo de informação na bio do Twitter.

Se informem mais. Se você realmente é bipolar, depressivo ou tem outro distúrbio qualquer, há médicos extremamente competentes que podem te ajudar. Se não é, pare de tentar justificar seus comportamentos antissociais com uma doença. Distúrbios mentais, felizmente, podem ser controlados e medicados. Babaquice e preconceito, não.

PS: já vi que tem um montão de erros no texto, mais do que o comum. Tava muito puta e escrevi sem reler. E continuo puta e não vou ajeitar agora. Só daqui a pouco. Tchau!

Uma rápida “visita”

Nunca mais falei sobre a depressão aqui. Estava até pensando em escrever um post sobre a análise – e como estou mudando com poucas sessões. Ia fazer isso ontem. Mas algo deu errado dentro da minha mente e eu não consegui.

Desconheço os gatilhos que fazem aquela maldita reaparecer. Estou tomando os remédios direitinho, indo à psicanalista toda semana, me divertindo. Mesmo assim ela está por aqui, esperando o melhor momento para tomar conta de tudo.

Ontem, ao que parece, ela se sentiu confortável para me dar um grande susto. Passei a semana doente, com uma sinusite que fazia cada espirro parecer que minha caixa craniana inteira ia sair pelo meu nariz. Mesmo assim fui ao cinema na terça, fui comer pizza na quarta, jantei na casa de uma amiga na quinta.

Mas eu notei que não estava dando conta de escrever, de produzir, de deixar as coisas mais ou menos arrumadas por aqui, de pagar contas (tenho uma relação esquisitíssima com dinheiro e esse tem sido o assunto na análise). Fiz muitos planos para os próximos meses. Minha cabeça fervilha de ideias.

Só que esses projetos são a médio prazo e eu não sei se eles vão dar certo. Comecei a ter medo. Eu meio que deixei outras coisas de lado para me focar nos tais projetos. E se der tudo errado? E se não der grana? E se eu for uma fraude?

Com o pânico, começo a olhar para o que sou hoje – e, pior: para o que eu fui há alguns meses. De medo para pânico, de pânico para desespero. Notar que ela ainda está por aqui é absolutamente aterrorizante.

E se ela voltar com tudo? E se eu quiser morrer de novo? E se eu não conseguir tomar banho? E se eu tiver crises de choro?

E se.

Sempre esse “e se” me deixando apreensiva. É difícil. Muito difícil segurar a onda, mesmo. Mas, como estou me cuidando, depois de um dia absolutamente inútil (ontem) hoje eu acordei ótima. Estou ouvindo Mika, arrumando a casa, brincando com o cachorro e escrevendo.

Não foi dessa vez que ela me pegou. E espero que perceba que aqui não é lugar pra ela.

Dos mitos sobre o feminismo: “agora a mulher tem jornada tripla de trabalho”

Você pode ser uma mulher de negócios e ter um moço de cueca cozinhando procê. ;)

Quem nunca disse ou pensou nisso? Vimos nas revistas femininas as dicas infalíveis de como podemos conciliar carreira, casamento, maternidade. Jornada tripla. “Não adiantou nada sair de casa se ainda é preciso fazer o trabalho doméstico”, esbravejam.

Esquecemos porque continuamos tendo de lavar, passar, cozinhar… por causa do machismo! Quando uma mulher tem um companheiro que também faz coisas em casa, costumamos dizer que ele a “ajuda”. O casal, na verdade, compartilha, já que não é obrigação feminina cuidar da casa. Eu, por exemplo, sou péssima nisso. Cozinho numa boa, mas detesto passar roupa com todas as minhas forças. Aqui vive tudo uma zona.

Imaginem se eu casasse e meu marido achasse que essa era minha função. Tava ferrado. Ia viver na bagunça.

Além de ser possível – e desejável, e eu diria mesmo imprescindível – compartilhar as tarefas domésticas e a educação dos filhos com o parceiro, você pode decidir não fazer nada disso. Não cuidar da casa. Não ser mãe. Ou não ir para o mercado de trabalho e ficar cuidando da vida doméstica.

Parece contraditório? Não. O que o feminismo conquistou foi a possibilidade de fazermos tudo isso. De trabalhar. De ter ou não ter filho. De casar ou não casar. Ainda torcem o nariz quando dizemos que não vamos ser mães? Sim, direto. Sempre me olham com incredulidade quando digo que meu “instinto maternal” é zero.

Provavelmente algumas feministas também resmungariam se uma mulher dissesse preferir ser dona de casa a ser “independente”. O feminismo, como sempre digo, não é um movimento coeso – assim como machismo não é sempre, sempre igual.

Mas não podemos esquecer das conquistas de quem veio antes da gente. Por causa das lutas dos séculos anteriores é que hoje vamos à faculdade, trabalhamos e podemos morar sozinhas. Ainda ganhamos menos que eles? Ainda temos de convencer nossos parceiros que eles não estão fazendo favor nenhum ao lavarem a louça do almoço? Sim. A culpa disso é do machismo, não do feminismo.

E se fosse com você?

Neste post não vou nem falar sobre o poder da mulher sobre o próprio corpo. Há muitos bons textos sobre o assunto por aí. Trata-se de uma reflexão a partir da minha experiência.

Nunca quis ter filhos. Quando criança achava que engravidaria, “porque é assim que as coisas são”. Com o passar dos anos, vi que não era a minha. E, por isso mesmo, sempre tive pânico de uma gravidez indesejada.

Tomava pílula, usava camisinha e ainda assim desconfiava de um mísero atraso na menstruação. Se ela não viesse naqueles sete dias de pausa do anticoncepcional, eu surtava. Engravidar significaria, entre outras coisas, voltar a morar em Manaus – coisa que eu prefiro que não aconteça.

É evidente que em alguns momentos desconfiei que uma gravidez pudesse ter acontecido. Quem nunca tomou a pílula do dia seguinte, se deparou com uma camisinha estourada ou se empolgou e sequer usou preservativo que atire a primeira pedra.

Por duas ou três vezes tive receio de estar grávida. Não havia indício nenhum. Numa delas, lembro da moça do laboratório perguntando há quanto tempo eu não menstruava. Meu ciclo estava normal, mas eu havia lido que muitas mulheres continuam menstruando, mesmo gestantes. Ela ficou me olhando com cara de ????, mas colheu meu sangue.

Até sair o resultado, porém, eu cismei estar grávida. Chorava. Via diversas gestantes na rua e me imaginava com aquele barrigão. Pensava nas mudanças que uma gravidez acarretaria na minha vida e na do meu então namorado. Em nenhum momento pensei na possibilidade de abortar. Jamais vi gravidez como algo horroroso, que “estraga” a vida de uma pessoa. Conheço mulheres que tiveram filho na adolescência e, por mais que à época parecesse o fim do mundo, hoje são muito felizes com a prole – hoje os filhos já estão até na adolescência.

Mesmo tendo consciência disso tudo e sabendo que minha família jamais me abandonaria, eu não queria ter um filho. Desejei fortemente que o exame desse negativo. Enquanto o resultado não saía, perambulei pelas ruas do Rio de Janeiro apreensiva. Foram, sei lá, um ou dois dias apenas. Bem pouco tempo, mesmo.

E, naquele período, vivi um turbilhão de emoções. Oscilava entre o desespero completo, o medo absoluto… até que comecei a amar um bebê que jurava estar dentro de mim. Que, àquela altura, não seria uma criança, claro. Seria quase nada.

Até que fui buscar o resultado. Quem pegou foi uma amiga. Fiquei esperando no saguão do laboratório, e ela voltou com um risinho nos lábios. Eu estava sendo patética, gelada, nervosa. Negativo. Fiquei aliviada.

Foi a única vez que cheguei a fazer um exame de sangue para verificar se estava esperando um bebê. Houve outras ocasiões em que me virei com o teste da farmácia. Sempre negativo.

Hoje, enquanto pensava sobre o julgamento de amanhã (quarta, 11) no STF sobre a interrupção da gravidez em caso de anencefalia, fiquei relembrando das sensações que tive enquanto achei – por algumas horas – que esperava um filho.

Repito: foram algumas horas, mas eu passei por uma montanha russa de emoções.

Daí imaginei como teria sido se eu tivesse, de fato, engravidado. Teria mudado minha vida inteira. Meu namorado e eu largaríamos a faculdade para voltar pra Manaus (ele também é de lá). “Enfrentaríamos” nossas famílias (convenhamos, dar essa notícia quando nãos e está casado-ganhando-dinheiro é muito difícil). Com o passar das semanas, estaríamos celebrando a vinda de um bebê.

Mas poderia ser que, aos três meses de gestação, eu descobrisse que aquela criança na verdade não tinha cérebro. E aí? Pela lei vigente hoje no Brasil, eu teria que continuar com a gravidez. Vocês conseguem imaginar isso? Carregar dentro de si um feto que jamais viverá?

Passar meses encontrando as pessoas na rua que te parabenizarão pela vinda de uma criança que você sabe que não tem como sobreviver? Fazer exames médicos, correr risco de vida, passar por uma cirurgia para “colocar no mundo” um bebê que não tem a menor chance de sobrevivência? E, caso chegasse a parir, ter de registrar no cartório, dar um nome a um bebê, e depois enterrá-lo?

Vocês têm noção do que isso deve significar para uma mãe?

Eu não consigo sequer imaginar o tamanho dessa dor. Como disse, eu amei a possibilidade de ter um filho. E foram apenas algumas horas. Pensem como seria se fossem três meses. Imaginem o corpo mudando, os hormônios enlouquecendo, a menstruação faltando. Para, mesmo com tudo isso, você não poder fazer o chá de bebê, decorar o quartinho, comprar fraldas. Nada.

Do ponto de vista meramente legal, lembrem-se que o Código Penal, que criminaliza o aborto, é de 1940. Na época era impossível precisar se um feto era anencéfalo. Nem ultrassonografia existia à época.

Quanto à questão religiosa, sou de criação católica e durante muitos anos me declarei espírita. Para quem tem essas crenças, o aborto não é “permitido”. Mas este é um aspecto religioso que não pode influenciar na legislação do nosso país que, em tese, é laico. Além disso, temos de respeitar quem crê em outras coisas – até mesmo em nada. Se você não acha bacana abortar, pois acredita que isso já estava escrito no seu destino e que já há um espírito destinado a passar pelo abortamento, então não aborte.

Também é ridículo dizer que uma mulher que aborta é assassina. Então quando doamos órgãos de quem teve morte cerebral nós estamos matando essa pessoa? A medicina tem meios, hoje, de identificar quando não há mais possibilidade de sobrevivência. O mesmo vale para quem diz “ah, então vamos abandonar um ente querido que tem uma doença fatal?”. Aquela pessoa já viveu, respirou, sorriu. Nós sempre temos esperança de uma reviravolta. E, quando nos damos conta de que não há jeito, fazemos de tudo para manter a pessoa confortável, dando todos os cuidados paliativos para que a morte seja o mais “tranquila possível”.

No caso de uma gravidez de anencéfalo, não se trata de “morte”, simplesmente porque não há vida. Por mais triste e doloroso que isso seja. Não se pode é prolongar essa dor ainda mais, por meses, gerando traumas pessoais e familiares que podem ser evitados. Espero que nesta quarta o STF reconheça o direito da mulher a interromper a gravidez. Chega de torturar mulheres.

O meu Lollapalooza

Eu estava com medo do Lolla. Tive problemas com meu ingresso, me deparei com um péssimo atendimento ao cliente e ainda li muitas reclamações no Twitter sobre a noite de sábado. Falavam das filas intermináveis, da dificuldade de voltar para casa. Por tudo isso, estava apreensiva.

Mas entrei numa boa, encontrei uma amiga sem problemas. O 3G não funcionava, tampouco a rede wi-fi que estaria disponível gratuitamente por ali (era preciso fazer um cadastro! imaginem um negócio desses). O primeiro show que vimos foi o Friendly Fires, no palco Butantã.

Li críticas absurdas no Estadão sobre o show (e sobre todo o dia de ontem!). Vou dar a minha opinião sobre os FF: QUERO UM GANG BANG COM VOCÊS, BEIJO.

Eu não sou fã de Friendly Fires e não conhecia grande parte das músicas. Dancei pra caramba, me diverti horrores e me apaixonei loucamente pelo vocalista, que dança de um jeito, digamos, curioso:

Ed Macfarlane, seu lindo, vem rebolar aqui!

Depois do show eu fui comprar uns dinheirinhos e uma leitora me reconheceu na fila do caixa! Embaraçoso, né? Fiquei com vergonha (um beijo, Camila!).

Esperamos o MGMT, mas vimos só metade do show. A maioria das críticas fala muito mal da apresentação da banda (exceto o Estadão, claro, porque aparentemente eles estavam em outro festival), mas valeu por ter visto Kids (aos 31’20” e Eletric Feel (aos 19’40”) ao vivo. Infelizmente perdemos Time to Pretend (aos 51′) porque estava na hora de rever o Foster the People! (eu fui ao Cine Jóia na quinta-feira.)

(eu juro que estando lá na plateia não pareceu tão ruim!)

Eu sou suspeita pra falar do Foster. Suspeitíssima. Foi por causa deles que comprei meu ingresso. Acho bem bizarro que digam que “o público se surpreendeu”, pois o show seguiu um script já bem conhecido. Além disso, muita gente que conheço foi lá para vê-los.

E eles me fizeram muito feliz DE NOVO. :)

Mark Foster (o vocalista), fofíssimo, falou que os sul americanos têm fama de ser uma ótima plateia. Clichê? A fofura ficou por conta do “it’s true” que ele soltou meio sem querer. Te amo, Foster! Voltem sempre que quiserem. Estarei por lá.

(meus momentos favoritos: Call it what you want, aos 33’45 – vejam como a galera cantou e o Mark estava felizão -; Helena Beat, aos 48’28”, porque eu AMO; e Pumped up Kicks, aos 53’16”, mesmo sendo a última música do show. A parada vira uma pista de dança gigante, as pessoas estavam felizes e eu estava satisfeita. Não, a gente não percebeu que a voz do Mark estava um cocô.)

Depois só ficou faltando o Arctic Monkeys, que perdi quando vieram ao Tim Festival há alguns anos. Eu morava no Rio e tive de escolher entre The Killers e Arctic (eles tocaram em dias diferentes e eu não tive $ para ir aos dois), então estava ansiosa.

Chovia, fazia frio, meus pés doíam, minha voz já tinha sumido.

Mas vale a pena para ver isso, né?

A camisa do Alex Turner estava medonha, assim como o penteado do mancebo. Mas a voz dele é impecável, o show foi incrível e eu dancei até minha lombar gritar.

Como nem tudo é perfeito – e o Lolla está longe da perfeição, com a cerveja a oito reais, mesmo preço cobrado por uma fatia de pizza hot pocket – passei um ligeiro perrengue na volta para casa. Não moro longe dali e pego o ônibus na direção contrária à da maioria da galera. Mesmo assim fiquei muito tempo esperando. Cheguei em casa tranquila, mas é certo que ainda não temos estrutura para um evento desses.