Cinco meses. Vivi mais nesse tempo do que muita gente durante suas miseráveis existências. Não, não foi necessariamente feliz/legal/animado. Mas foi overwhelming. Senti como se não tivesse nenhum controle sobre a minha vida. Surpresas aconteciam todos os dias. Era um mundo novo se abrindo nos momentos mais improváveis.
Tais fatos tiveram relação direta com a minha crise depressiva. Nos piores momentos, reconheci quem estava ao meu lado de verdade. Parei de dar valor a algumas coisas. Tornei-me ainda mais solitária (veja tal adjetivo de maneira positiva). Várias coisas perderam sentido, pois a própria vida não fazia sentido. Respirar parecia trabalho hercúleo. Pra quê? Pra onde estou indo? O que vai ter lá no final?
E eu desisti. Desisti de viver. Virei uma dessas pessoas que completam os dias, meio sem rumo. Paixão? Nem ideia do que seria. E eu não sei viver sem sentir. Trabalho com paixão, escrevo com paixão, me apaixono por todos os meus amigos e caras com quem saio. De repente, eu não tinha nada. Não sentia (e isso não tem qualquer relação com os remédios, e sim com a apatia decorrente de fatos que mudaram a minha vida).
Quando recomecei a viver – naquela minha viagem pro Rio – vi que eu não era mais aquela mulher de antes. Eu desejava tatuar “You only live once”, nome de uma música do Strokes, como um lembrete de que preciso experimentar tudo muito intensamente.
Daí resolvi trocar para “You only live once. Or not”, pois em 31 de dezembro de 2011 passei pela maior ruptura possível. Foi muito pior que a morte da minha irmã ou qualquer outra dor que eu tenha sentido em 32 anos. Vi tudo desabando: família, verdades absolutas, amizades. Into pieces.
E não foi necessariamente ruim. Dói. Pra caralho, às vezes. Olho para os lados e penso “putaquepariu, tô sozinha nessa merda”, mas ao mesmo tempo sinto que agora eu posso ser quem eu sou. Só.
Livre.
Foi daí que a Letícia saiu do armário. Coloquei minha carinha de bolacha aqui, assumi nome e sobrenome, dei entrevista em vídeo. Eu sou eu. Finalmente.
Mas eu ainda não tinha forças para certas mudanças. A recuperação da deprê foi difícil (e eu nem estou curada, só aprendi a lidar com os dias ruins e os aceito. choro, me descabelo, mas não sinto mais desespero). Meu coração estava partido, pelo maior amor do mundo que se foi e pelas tais questões familiares. Fui um arremedo de mim mesma durante meses, como se estivesse me reconstruindo.
E, quando ressurgi, vi que eu não sou mais aquela. Mudei valores, amigos, desejos. Ontem conversava com uma dessas minhas novas amigas e contava sobre o moço por quem eu era apaixonada em janeiro de 2010. Ele era a favor de relacionamentos abertos e eu achava um absurdo. Absurdo! E, bem, vejam onde estou agora.
Só que ainda faltavam algumas amarras. Certas convenções sociais são difíceis de largar. Achava, por exemplo, que eu seria uma completa loser se não tivesse meu nome impresso no expediente de uma revista. Queria uma mesa, um ramal de telefone, um cartão profissional com aquela conhecida arvorezinha de logomarca. Achava que não viveria sem carro. Família? Era preciso “estar lá”, e morar longe há tanto tempo me trazia imenso sentimento de culpa, por não acompanhar o crescimento das crianças ou jamais comemorar datas importantes, como aniversários, batizados, casamentos.
(e eu estou rodando e rodando e não chegando a lugar nenhum. desculpa. sou dessas.)
Nesses cinco meses tudo mudou de figura. Fui desatando certos nós. Pensei muito. Fiz análise (e continuo fazendo). Sofri. Chorei. Briguei. Esperneei. Reconsiderei. E os laços foram se afrouxando. Ao me sentir menos presa, eu virei eu.
Fiz uma tatuagem, algo impensável há dois ou três anos.
Cortei o cabelo. Curto. Pintei de preto, depois de uns 10 anos loira – com uns breves períodos ruiva de farmácia. Nem meu porteiro me reconheceu quando cheguei em casa.
Agora, a transformação que acontecia pelo lado de dentro está passando para o lado de fora. Meu novo visual não foi aprovado pela família nos dias em que passei junto deles (voltei a São Paulo no sábado). E, pela primeira vez na minha vida, eu ignorei. Não preciso mais de aprovação.
Foi exatamente essa a mudança. Depois de muito tentar, de fazer de tudo, de desejar ser admirada/amada/cuidada por algumas pessoas importantes, como família e amigos muito próximos, eu abandonei isso.
Sou educada, gentil quando consigo e tento ser atenciosa. Com qualquer pessoa, desde um desconhecido na rua ou meus amigos de milênios. Mas não faço nada disso com a intenção de ser aprovada, de ter um selo de qualidade. Sempre fui meio rebelde na atitude. Desde criança. Mas, no fundo, tinha uma parte do meu ego, da minha vaidade, que precisava ser massageado. Eu queria ser amada.
A tal grande ruptura que experimentei foi perceber que nada disso adiantou. Pessoas são escrotas porque são escrotas e não há nada que você possa fazer para mudar isso. Eu me fodi. Quase morri. Literalmente.
Mas a melhor coisa de renascer aos 32 anos é que agora eu sei como o mundo funciona e o que espero da vida. Não sou mais um bebê bochechudo e indefeso. Tomei as rédeas dessa porra.
Sou livre. Como nunca fui antes.
***
E, com tantas mudanças assustadoras acontecendo, o Cem Homens virou Cem +1. Já está no ar há duas semanas, alguns de vocês sabem. Infelizmente tive de fazer uma viagem inesperada e ele ficou todo desconfigurado e foi mal atualizado. Tem coluna desconfigurada, palavras em inglês, as páginas não me obedecem. Mas agora estou de volta e com tempo para ir ajeitando. Tenham paciência. Temos alguns colaboradores que irão me ajudar na empreitada.
Fui convidada para participar hoje de um programa de TV. Não aceitei. Mas estou com saudade de vocês e, portanto, irei fazer uma twitcam lá pelas nove da noite. Fiquem ligados no Twitter e no Facebook.






