Os 100 melhores livros feministas

A notícia é um pouco velha, mas só fucei agora. Há um ano a revista Ms fez uma lista dos melhores livros feministas. Infelizmente grande parte não existe em português, mas quem lê em inglês já consegue comprar vários em formato e-book. (UPDATE: Aqui tem mais uma lista, dessa vez com 50 livros feministas. Claro que há livros que aparecem nas duas.)

Ah! Claro que nessa lista faltam títulos que nunca foram lançados em inglês – a Ms é uma revista americana.

1. Feminism is For Everybody: Passionate Politics, de bell hooks

Tem por encomenda na Cultura (R$ 39,50). Na Amazon sai por US$ 10.88, e aparentemente não tem em formato digital.

 

2. Cunt: A Declaration of Independence, de Inga Muscio

Uma leitora aqui do blog já leu e disse que é ótimo. Até pedi pra minha amiga Larissa comprar lá nos EUA, mas não tinha onde ela procurou. Irei encomendar com certeza!

É, encomendar, porque não tem no Brasil. Pela Cultura sai por R$ 42,20 e na Amazon (YAY) tem versão para o kindle por US$ 9.66. (aliás, alguém me dá um kindle?)

Eu nem tenho esse livro e já amo: o prefácio é da Betty Dodson, a mesma mulher incrível que desenhou o desenho que tatuei semana passada!

3. Sister Outsider: Essays and Speeches, de Audre Lorde

Pra variar, nada de versão em português. Só em inglês, comprando por encomenda na Cultura (R$ 48). Versão Kindle por US$ 10.97.

4. A Room of One’s Own, de Virginia Woolf

Eu procurei aqui na internet se tem versão em português, mas não achei. Se alguém souber o nome da tradução, por favor me avise. Eu espero que tenha, porque o livro é de 1928!!! Nele, Virginia Woolf analisa o papel da mulher na literatura – àquela época, mulheres escritoras eram raridade. É, pois é.

A boa notícia é que é fácil encontrar o original. Essa edição da Penguin, por exemplo, sai a R$ 18 na Saraiva. Tem versão digital na Cultura por R$ 13,63! Como o livro é bem antigo, pode ser que você encontre algum pdf perdido na internet.

UPDATE: a bela Elza (@elzadume) me falou o nome em português. É Um teto todo seu, infelizmente esgotado. Mas você pode ler em pdf! Aqui tem um link.

5. Nickel and Dimed, de Barbara Ehrenreich

A autora tem vários livros em português, mas acho que este ainda não foi traduzido. Como ele fala da economia norteamericana, não sei se é muito interessante para nós. Talvez eu preferisse algum dos outros livros da lista; de qualquer forma, isso depende muito de que área do feminismo você quer estudar.

O livro em inglês pode ser comprado por encomenda na Cultura. Custa R$ 42,40.

6. Backlash: o Contra-Ataque na Guerra Não Declarada às Mulheres, de Susan Faludi

Faça uma dancinha! \o/

Tem edição em português, FINALMENTE!!!

O bizarro é que tem livraria vendendo a menos de R$ 10 e outras por mais de R$ 50. Eu até tentei comprar agora pela Cia dos Livros (porque está R$ 8,42), mas deu erro direto. Achei estranho. Dá uma procurada na sua livraria favorita e de confiança. Na Saraiva e na  Cultura não tem (pelo menos não online).

7.Female Chauvinist Pigs: Women and the Rise of Raunch Culture, de Ariel Levy

Fiquei muito interessada nesse. Segundo a Ms, o livro “mostra os modos como as mulheres de hoje estão se transformando em objetos sexuais, e a autora não está impressionada. Ela mastiga o falso empoderamento baseado em auto-objetificação e oferece alternativas feministas”. Bacana, né?

A má notícia é que o livro não tem tradução para português. Na Cultura você pode escolher entre a versão digital por R$ 31,25 e a em papel por R$ 42,20 (por encomenda, com prazo de importação de seis semanas). Se você tem um Kindle, melhor baixar da Amazon por US$ 9.24.

 8. Ain’t I a Woman: Black Women and Feminism, de bell hooks

A autoria é a mesma do livro número 1, notaram? Infelizmente não tem em português – e na verdade nem tem à venda no Brasil, pelo menos não nas maiores livrarias. A obra trata das mulheres negras e o feminismo, questão muito importante. Por aqui temos o mesmo problema: há diversas críticas aos coletivos feministas como sendo voltados para as mulheres brancas. Não sei se a crítica é válida, só sei que ela acontece.

Bom, o jeito é importar. Na Amazon, o livro sai por US$ 24.92.

9. Feminist Theory: From Margin to Center, de bell hooks

Olha bell hooks aí de novo, gente! Fiquei bem interessada – é legal ter um livro de teoria feminista olhando para o século XXI (a obra é de 2000). Infelizmente só é possível comprar via importação. Na Cultura, o livro custa R$ 57,70. Na Amazon, US$ 22.

10. The Purity Myth: How America’s Obsession with Virginity is Hurting Young Women, de Jessica Valenti

A autora tem outros livros feministas que me interessam há tempos, como o Full Frontal Feminism (13º na lista da Ms), o Yes Means Yes (11º) e o He’s a stud, she’s a slut. Ainda nem li e Jessica Valenti já é das minhas autoras feministas favoritas, porque ela trata de coisas de hoje. O décimo lugar na lista, então, é exatamente sobre o que eu estudo: O mito da pureza – como a obsessão americana com a virgindade está machucando jovens mulheres.

Pra variar a obra tem que ser encomendada. Sai por R$ 47,90 na Cultura. Quem tem Kindle se dá bem: versão digital sai por US$ 9.99 na Amazon.

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Estes são os 10 mais.

Incrível como estamos atrasados na produção sobre feminismo, né? Há muitos blogs e muita gente traduzindo textos gringos, mas, pelo que sei, há pouquíssima produção nacional. Uma pena. Pior: esses livros sequer têm versões em português.

Mas na lista há livros que sim, eba!, são encontrados em português, como O Segundo Sexo (12º lugar), da Simone de Beauvoir. O que é chatíssimo é que o livro está esgotado há tempos. Você consegue encontrar em sebos, quase sempre com preços abusivos.

Eu não trago só más notícias! Aqui você encontra ele em pdf pra ler no computador ou imprimir. Outras obras bem conhecidas por aqui que também têm versões em português são Os Monólogos da Vagina, de Eve Ensler (17º), e O mito da beleza, de Naomi Wolf (19º).

O resto da lista você encontra aqui. Eu vou fazer uma listinha de “quero muito”. E se você já leu algum desses livros (ou outros que não estão na lista), que tal compartilhar com a gente? :)

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Os links da Saraiva e da Cultura acima são do programa de afiliados. Assim, caso vocês comprem livros por meio desses links eu ganho uma porcentagem da venda (bem pequena, mas né?). Não foi por isso que escolhi as duas livrarias, porém. Eu realmente compro em ambas e confio no sistema de entrega. Também busquei os menores preços de todos os livros e indiquei quando achei mais barato.

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Por falar em livro, outubro começa amanhã e é o mês que irei lançar o MEU livro. Ai, ai, que ansiedade/nervoso/vontade de morrer/vergonha/etc/etc/etc. Se você tem interesse num evento de lançamento em São Paulo, por favor indique nos comentários sua vontade  e o e-mail pelo qual eu consigo entrar em contato com você. Também vale me mandar uma mensagem em [email protected] (quem já entrou em contato, inclusive pelo Facebook, não precisa reconfirmar).

A patrulha nunca termina

Como vocês sabem, essa semana fiz uma tatuagem nova. Eu estava super feliz até receber um telefonema ontem.

“Você tatuou uma BUCETA???” (a pergunta foi retórica, porque a pessoa já conhecia a resposta.)

Ouvi um monte de impropérios, inclusive que eu envergonhava as pessoas que me conheciam.

Perguntei, então, se eu tinha tatuado a buceta na cara dessas pessoas para elas se incomodarem tanto. “É a MINHA pele”, insisti. Não adiantou.

O mais bizarro é que a pessoa que me ligou NÃO viu a imagem. Mais bizarro: ela soube porque um ser pegou a imagem compartilhada no meu Facebook pessoal (em que só meus amigos podem ver o que posto), salvou no seu celular e mandou para um grupo do whatsapp. Tal grupo é composto por pessoas que eu conheço – mas eu não falo com várias delas. Fofoquinha patética e ridícula.

Toda a celeuma foi por causa dessa imagem:

É obra da década de 1970 feita por uma artista plástica. E é uma flor. Imaginem se eu tivesse, de fato, tatuado uma buceta explícita.

Daí eu pergunto: por qual razão uma coisa que eu coloco na MINHA pele incomoda tanto pessoas que me conhecem há décadas? (o feedback via blog/facebook/twitter foi extremamente positivo, quem me pentelhou foi gente que faz parte da minha “vida real”.)

Quando as pessoas pensam em órgãos sexuais, imediatamente vem a ideia de sexo à cabeça delas. Pronto: imediatamente você vira uma puta por ter uma tatuagem que remete a uma vagina. Queimem na fogueira!!!

Apesar de sexo ser um assunto muito presente na minha vida, a tatuagem não foi feita pensando nisso. Esses seres que me criticaram não perguntaram o motivo. Apontaram o dedo, julgaram, esbravejaram que eu não tinha mais jeito.

Pois eu explico. Há dois anos eu fui diagnosticada com menopausa precoce. Os sintomas já estavam ali há muito tempo (menstruação super irregular, fogachos, suores noturnos, ganho de peso), mas eu ainda tinha um montão de exames pra fazer.

Eu estava aceitando tudo muito bem. Nunca quis ter filhos e menstruar não era o maior divertimento da minha vida, então não via problemas em estar na menopausa. Acordar na madrugada toda suada, claro, não era bacana. Tampouco sentir um calor bizarro em pleno inverno, quando você está sei lá com quantas blusas e casacos (ia tirando a roupa, ficava quase pelada, pra poucos minutos depois colocar tudo de novo). Era incômodo. Mas só.

Até eu fazer os tais exames. Quando mostrei a ultrassonografia para minha ginecologista, ela disse que todos os meus órgãos estavam atrofiados. Útero, ovários, endométrio. Tudo pequenininho, como se eu fosse uma criança.

Foi um dos piores momentos da minha vida. Fiquei atordoada. Lembrei de todas as vilãs de novelas que não podem ter filhos e as pessoas dizem que elas são “secas por dentro”.

Eu era seca por dentro.

Absolutamente devastador. Com o diagnóstico, tive de realizar mais exames: mamografia, ultra de mama, densitometria. Acharam um nódulo no meu seio. Biópsia. Mastologista. E, no meio disso tudo, a minha libido desapareceu. A lubrificação também.

Eu me sentia menos mulher. Nada funcionava.

Conversei muito com os médicos. Eram vários – só endocrinologista foram quatro ou cinco. Levantamos a possibilidade de eu congelar óvulos. Apesar de eu não querer ter filhos, foi muito doloroso saber que eu simplesmente não podia.

A TPM publicou uma reportagem falando sobre congelamento de óvulos. Acompanharam uma moça durante o procedimento. Lendo tudo aquilo eu percebi que não queria passar pelas mesmas coisas. Mais calma, ponderei sobre maternidade e tive certeza absoluta que não é pra mim.

Ficou tudo bem. Minha libido voltou e eu (ufa) não menstruo mais. Win-win.

Apesar de hoje eu não me incomodar com o que aconteceu, durante aqueles meses do fim de 2010 eu estava infeliz e com medo.

Quando me deparei com a imagem da Betty Dodson que hoje ostento no meu braço direito foi emocionante. Justamente por representar os órgãos reprodutores é que me identifiquei. Betty havia transformado em arte uma dor que eu só sentiria 37 anos mais tarde.

Eu quis marcar em mim um dos acontecimentos mais importantes da minha vida. Um fato ruim, mas que eu precisava transformar em beleza.

Nada a ver com sexo. Nada a ver com “putaria”. Gosto muito das duas coisas, porém agora o assunto foi outro. Mas as pessoas veem o que elas querem ver – e quando já estão carregadas de preconceito o resultado só podia ser esse.

Fiquei arrasada ontem e ainda não sei como reagir. Mas sei de uma coisa: ninguém NUNCA MAIS vai patrulhar o meu corpo.

Na pele

Muita coisa mudou na minha vida do ano passado pra cá. E isso teve reflexos importantes do lado de fora, também. Sempre fui reticente sobre tatuagens, porque me incomodava profundamente a ideia de “pra sempre”.

Daí em maio fiz a primeira, do pulso. A segunda já estava escolhida, mas ainda me faltava coragem. Ela era bem maior.

Resolvi tatuá-la quando terminasse o livro, como um marco. Na pele. O desenho escolhido há meses é da Betty Dodson, sexóloga e artista plástica (você encontra os trabalhos geniais dela aqui, inclusive textos ótimos sobre sexo).

Combinei com o Gonta (@gontexxx) e ele fez um trabalho maravilhoso.

Preste atenção nos detalhes – é uma vagina e os órgãos reprodutores! :)

Agora, quando alguém me perguntar na rua ~o que significa~, eu vou responder: É UMA BUCETA! Vai ser bacanão.

E também preste atenção nos detalhes e veja como o Gonta foi cuidadoso e incrível na execução da tatuagem. Tá doendo, tá quente, tá coberta com esse plástico que eu odeio, mas estou feliz. :)

Cinquenta tons de backlash

ATENÇÂO: Se você ainda não leu Cinquenta Tons de Cinza e pretende fazê-lo, pule este post. O texto tem spoiler.

Eu não li Cinquenta Tons de Cinza. E nem lerei. Não tenho tempo ou dinheiro para gastar. Em geral não curto literatura erótica; mesmo assim acho que existem obras bem bacanas que me acrescentariam muito mais, se eu quisesse enveredar pelo tema (Anaïs Nin e Catherine Millet são exemplos).

No início achei que a trilogia fosse apenas equivocada. Com a chegada da obra ao Brasil e com o boom nas vendas, a imprensa começou a falar muito sobre a história de Anastasia e Christian. E aí algo começou a me incomodar: passaram a falar como se TODA mulher quisesse um relacionamento daquele, como se qualquer mulher no universo quisesse, na verdade, ser submissa.

Só que não existe “todo mundo” quando se fala sobre sexo (no início do blog eu generalizava demais e era criticada. Hoje sei como isso era danoso). Eu, Letícia, não tenho qualquer tesão em sentir dor ou em alguém mandando em mim. Tampouco tenho vergonha de abrir um livro erótico na frente de qualquer um. Leio no ônibus, no café, onde for. Então não, nem toda mulher se enquadra nisso aí.

Minha antipatia não ultrapassava a questão da generalização feita pela imprensa. Até eu entender mais sobre o livro, mesmo que, juro, eu não tenha procurado informações. Daí bateu o desespero.

Pra ser bem objetiva, coloco em tópicos a razão do meu descontentamento com Cinquenta Tons de Cinza e o motivo pelo qual eu acho que é um retrocesso:

1) Anastasia é virgem e boboca. Christian é sedutor e milionário. Daí eles se encontram e, em tese, se apaixonam. Ok. Contos de fadas da Disney all over again? Vamos mesmo incutir na cabeça das mulheres que ela pode ser ~esquisita~ e que vai vir um homem e vai salvá-la?

Ou vamos mostrar que tudo bem ela ser esquisita e que tudo bem ela ser solteira? E esse homem que é o príncipe encantado precisa ser milionário? Ou ela pode ganhar o dinheiro dela… com o trabalho dela?

2) Mesmo virgem e sem qualquer experiência sexual (me corrijam se eu estiver errada, mas ela sequer se masturbava), ela aceita entrar numa relação de BDSM. E na primeira vez que transa, goza sei lá quantas mil vezes e continua gozando em todas as relações com Christian.

Bom, já escrevi mil textos sobre a primeira vez e em todos eu digo que não há regra; que há quem se divirta muito e há quem odeie com todas as forças. Então Anastasia poderia, sim, ter gozado. Mas todas as vezes?

Esse discurso faz com que as mulheres se sintam culpadas por não atingirem o orgasmo vaginal. “Será que há algo de errado comigo?”, elas perguntam. Muitas não sabem nem se gozaram, e está lá uma ficção distribuindo orgasmos. Não, não e não.

3) Christian Grey quer que Anastasia assine um contrato para que eles tenham uma relação BDSM. Risos. Risos. Risos. Contrato de papel, gente! Pra transar!!!! Pra uma pessoa ser DONA do seu corpo!!!

Mais louco ainda é que Anastasia NÃO assina. E eles têm a tal relação BDSM. Ah, uma dicona: contratos em que você dispõe do seu corpo não têm qualquer valor jurídico.

4) Uma relação BDSM (o que popularmente se conhece como “sadomasoquista”) deve dar prazer aos participantes e deve ser sempre, sempre, sempre consensual. Mesmo que você aí não consiga entender como alguém pode curtir ser amarrado, usar coleira e outras práticas, há muita gente que curte. E isso não tem nada a ver com traumas passados ou algum tipo de doença mental.

Pois imagine (e agora vem um spoiler, se liga!) que Christian Grey teve uma infância mega difícil. É filho de uma prostituta que se suicidou, sofreu abusos e por isso mesmo não deixa Anastasia tocá-lo.

Hã? As pessoas já têm tanto preconceito contra quem pratica o BDSM e aí vem uma autora X e estereotipa mais uma vez??? Errado, muito errado.

5) A relação entre Christian e Anastasia é abusiva. Ponto. Não há o que discutir aqui e fico muito, muito impressionada que algumas pessoas não enxerguem isso. Pior: tem muita mulher sonhando com um Christian Grey.

Uma relação abusiva não é só aquela em que existe violência física fora do quarto, tampouco precisa ficar óbvia a dominação de um dos parceiros (se bem que Grey deixa beeeeeeeeeem óbvio que manda em Anastasia).

Se você se submete aos desejos do parceiro (que a essa altura nem sei se pode ser chamado de “parceiro”) para que ele não vá embora, mesmo que você não esteja curtindo, ISSO É UMA RELAÇÃO ABUSIVA.

Porque uma relação saudável e de parceria pressupõe que ambos (ou mais) estejam no mesmo patamar, que sejam iguais. Não é o que acontece em Cinquenta Tons. O primeiro livro da trilogia, por exemplo, acaba quando Christian chicoteia Anastasia, que fica chateada e termina o namoro.

Claro que no segundo livro eles voltam, e ela diz que ficar sem ele doeu mais do que a agressão física. Isso é exatamente o que se chama de “violência doméstica”. Uma das pessoas fisica e/ou emocionalmente superior ao outro bate no parceiro – que, “em nome do amor”, aceita aquela violência. Como é que vocês podem criticar a mulher que apanha do marido e depois aceita ele de volta, mas podem suspirar por Anastasia e Christian???

Pra vocês terem uma ideia da loucura, não sei em qual dos livros Christian compra a empresa em que Anastasia trabalha só para que ela não viaje com o chefe dela. Não está convencida ainda? Durante a lua de mel, Anastasia faz topless e Christian fica puto. Daí ele resolve que é uma boa ideia dar chupões fortíssimos nos seios dela, deixando-os marcados, para que ela não os mostre mais pra ninguém.

Numa boate, um cara apalpa a bunda de Anastasia e ela revida com um tapa. Por que ela se sentiu violentada? Não! Porque ela tinha medo da reação do Christian ao saber que alguém tinha “invadido a propriedade”.

Eis o trecho, em inglês, com minha tradução livre embaixo.

My hand is throbbing. I have never slapped anyone before. What possessed me? Touching me wasn’t the worst crime against humanity. Was it? Yet deep down I know why I hit him. It’s because I instinctively knew how Christan would react seeing some stranger pawing me. I knew he’d lose his precious self-control. And the thought that some stupid nobody could derail my husband, my love, well, it makes me mad. Really mad.

“Minha mão está latejando. Eu nunca bati em ninguém antes. O que aconteceu comigo? Me tocar não foi o pior crime contra a humanidade, não é? Mas no fundo eu sei o motivo pelo qual eu dei um tapa nele. É porque eu instintivamente sabia como o Christian reagiria ao ver um estranho me apalpando. Eu sabia que ele perderia seu tão precioso autocontrole. E pensar que um estranho poderia tirar dos trilhos o meu marido, meu amor, bem, isso me deixa louca. Muito louca.”

Christian também controla a alimentação de Anastasia. As roupas. A depilação. Ela não pode sequer se masturbar sem a permissão dele.

A cada novo detalhe sobre os livros eu fico ainda mais chocada. Fico também estupefata que as pessoas não consigam enxergar quão abusivo é esse relacionamento, e vejam tudo como se fosse apenas uma historinha de ficção. Não é.

Esta é a tecla que muitos de nós temos batido: esse tipo de obra faz com que achemos “normal” algumas coisas. Claro que não se deve proibir, censurar… mas questionar? Tentar entender porque tantas mulheres estão sonhando com Christian Grey?

Isso devemos fazer, sim. Devemos olhar para nossas próprias vidas e ver quantas vezes nós deixamos que abusassem de nós em nome de um “amor”, que na verdade é alimentado por autoestima abalada. Eu já passei por isso – quem acompanha o blog há mais tempo deve lembrar do número 15. Não chegou a ser uma relação (foi só uma noite), mas me submeter às vontades dele para ser querida/aceita me fez ficar mal durante semanas. Porque eu me dei conta da merda que eu tinha feito. Espero que não seja tarde demais pra você perceber que está fazendo merda também, pelo menos nos seus sonhos.

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Amanhã vou publicar o primeiro texto da Sheila Sens, amiga e leitora, que leu a trilogia só para escrever aqui. Vamos na ordem dos livros, claro.

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Se você acha que ~é só ficção~, leia esse texto da psicanalista Regina Navarro Lins sobre os contos de fadas. É de 2011 e eu compartilhei há alguns dias no Facebook. Por favor não ignorem o inconsciente.

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Ao final de cada texto da Sheila eu vou colocar alguns links sobre Cinquenta Tons para vocês repensarem. Hoje fiquem com o vídeo da linda Laci Green (em inglês).

 

É só uma membrana. Só. E é elástica

Recebi um e-mail essa semana que é basicamente a repetição do que já li várias vezes desde que comecei a escrever o Cem Homens: a garota é virgem e, por alguma razão que desconheço, tem vergonha de assumir isso.

Bom, vamos à mensagem, que está em itálico. Meus comentários estão em negrito ao longo do texto.

Tenho 19 anos e sou virgem, ou quase isso, depende do conceito de virgindade.

Primeira (e aparentemente eterna) questão: pra quê conceituar a virgindade? Além de ser importante para a saúde pública, qual a relevância disso? Sério, é uma pergunta honesta. 

Qual é o conceito de virgindade? Num relacionamento heterossexual, normalmente é quando o pênis entra na vagina. Ok. E se você for lésbica? E se for gay? E se você for hétero, já tiver feito de tudo (sexo oral, anal, masturbação no parceiro, etc), você ainda é virgem?

Ou a questão toda é o pênis? Ainda somos essa sociedade falocêntrica? 

Se a resposta for “sim”, é preciso um pau dentro da buceta para dizer que alguém não é mais virgem, eu fico com outra pergunta: por que tratamos a primeira vez de uma forma totalmente diferente entre garotos e garotas? 

Bom, eu acho que a resposta vocês já sabem. 

Sua virgindade não é a medida do seu valor

O fato é que nunca tive um pênis dentro de mim, porém sou adepta da masturbação desde que eu tinha 12 anos (ou até menos, a partir dos 12 eu tenho certeza).

Quando eu era adolescente havia uma dúvida assombrosa: absorventes internos tirariam a virgindade? Confesso que nem me passava pela cabeça introduzir algo na minha vagina durante a masturbação. 

O que deveria importar é se a pessoa teve uma RELAÇÃO SEXUAL, e não se ela tem uma MEMBRANA. E devemos nos preocupar com a primeira vez porque isso gera uma série de responsabilidades que poderiam ser resolvidas com educação sexual de qualidade. Se aquela pessoa sabe os cuidados a serem tomados para garantir a saúde física (camisinha, anticoncepcional, exames regulares) e emocional, é o que importa.

Logo, “perder a virgindade” (odeio essa expressão) pressupõe uma relação sexual, não a mera introdução de um objeto na vagina. 

Atualmente quando me masturbo geralmente é “algo externo”, já tem algum tempo que não coloco nada dentro de mim, porém, já fiz isso no passado. Enfim, acho que meu hímen já se foi. Não, nunca fui ao ginecologista, sei que deveria o fazer, mas houve fatos que contribuíam para isso. O primeiro é que fui criada em uma cidade muito pequena onde todo mundo se conhecia, e a minha mãe muito conservadora não ia engolir fácil quando eu pedisse para ela me levar ao ginecologista (ela é quem iria pagar afinal de contas!). Hoje, por causa da faculdade, moro em uma cidade maior com duas amigas e me sustento, ou seja, poderia muito bem ir ao ginecologista.

Um erro muito comum: achar que só se deve ir ao ginecologista quando se tem vida sexual ativa. Há uma infinidade de infecções e outras doenças que uma jovem pode ter sem nunca ter feito sexo. Candidíase, por exemplo, chega a ser corriqueira. Também há questões hormonais importantes. 

Eu sei que esse não é um problema da leitora. Dificilmente os pais acham que as filhas estão na idade de ir ao ginecologista. Mas essa cultura precisa mudar. Gineco não é médico de quem fode; é médico de quem tem sistema reprodutor com útero e ovário. 

Mas aí eu me pergunto: e se ele questionar se eu sou ou não virgem? Como eu já disse anteriormente, o conceito é um tanto complexo. Daí eu digo que sou e estou lá sem hímen, ou digo que não sou e o tenho. Ou senão eu falo: “Então Dr., eu metia as coisas dentro de mim quando eu tinha 12 anos, mas nunca um pênis, se é que o senhor me entende”. Vai por mim, eu não consigo. E eu também não tenho certeza se o hímen está ou não lá.

Bom, ele provavelmente vai perguntar se você é sexualmente ativa e qual a sua última relação sexual. A resposta é simples: você nunca teve uma (para fins puramente médicos, você nunca teve). 

Esqueça o hímen. É só uma membrana e ela não necessariamente é rompida quando se introduz algo na vagina – seja um vibrador, seja o dedo, seja um pinto. Há diversos tipos de hímen e cada uma de nós funciona de um jeito. 

Sobre isso, sempre indico o vídeo da ótima Laci Green sobre a primeira vez (é em inglês).

NINGUÉM sabe que eu me masturbo, essa é a primeira vez que conto a alguém (e está sendo via e-mail).

Esse é um tabu e tanto (e injustificável em 2012). Desde sempre os meninos são estimulados a se masturbarem. “Coisa de homem”, os pais dizem. Achavam normal, quando eu era adolescente, que os meninos tivessem revista de mulher pelada. Hoje, é totalmente aceitável que eles vejam pornografia online.

Ninguém pergunta também por qual razão aquele rolo de papel higiênico ou papel toalha está ali no quarto. Se uma garota tiver um massageador, porém, é razão para começar a terceira guerra mundial! 

Falem mais de masturbação, garotas. Contem para suas amigas o que funciona pra você. Façam um tour ao sex shop. Vejam quantas coisas bonitas, coloridas e anatomicamente perfeitas estão à venda. É bom, é gostoso. 

Já cheguei muito perto de transar, MAS MUITO PERTO MESMO, do tipo, só não rolou porque a gente tava no carro do amigo dele (eu com a minha saia toda levantada) e o bendito amigo chegou. Não tenho a pira de perder a virgindade com um príncipe encantado que vai chegar em um cavalo branco, nem quero um relacionamento sério num futuro próximo, estou focando na faculdade e no meu trabalho. Aos sábados saio para a balada e sim, pego geral (mas tudo fica no beijo na boca e na mão boba) e eu adoro isso! Atualmente estou mantendo contato com um cara que eu conheci na balada e  ele já deixou bem explícito que quer sexo. E sei lá, estou com vontade de transar!

Mas essa é minha dúvida: Conto ou não conto que sou virgem? Será que ele vai perceber? Me ajude por favor.

Bom, vamos lá. 

Perceber? Hum. Por questões físicas, tipo sangramento ou dor? Não tem como saber de antemão. Há mulheres que nunca sangraram (eu, por exemplo), outras que sangraram na hora, muitas que sangraram só quando já estavam sozinhas. 

A dor costuma aparecer, mas também não há regra. E não só virgens sentem dor, então isso não é indício de que aquela é a primeira vez da garota.

Se ele vai perceber porque talvez você não saiba direito o que fazer? É possível. Mas tem gente (homens e mulheres) que mesmo depois de transar mil vezes ainda não sabem o que fazer. Logo, também não tem como bater o martelo.

Mas eu acho que sim, todo mundo deve contar quando é a primeira vez. Porque talvez você precise de um pouco mais de paciência, talvez você se confunda ao colocar a camisinha, talvez você sangre. 

Existe a possibilidade do cara fugir, assim como pode ser que ele se sinta o máximo por “desvirginar mocinhas inocentes”. As duas atitudes são idiotas, pois dão imenso valor a algo que não tem tanta importância assim.

Antes que digam “ah, pra mim foi importante!”, eu sugiro um exercício. Pense se você deu esse valor todo porque VOCÊ quis ou se foi porque a nossa cultura coloca a “castidade” como parte do caráter de uma mulher.

O que se quer é que os jovens adiem o início da vida sexual, e não que eles transem com responsabilidade. Falso moralismo, machismo, controle. O peso que se dá à virgindade da mulher tem a ver com isso, não com a saúde dela.

Então, o que importa é você (leitora que mandou o email e você aí que está me lendo) se cuidar física e emocionalmente. Transar quando tiver certeza, quando já tiver ido ao gineco (eu sei que isso é quase utopia, mas sigo torcendo!), quando souber direitinho quais riscos você corre, quando tiver um parceiro bacana (não um príncipe encantado porque isso não existe!), quando você estiver fazendo por você, e não para agradar, conseguir algo, ser aceita. Por você e pra você.

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Sigo respondendo perguntas no ask.fm (ask.fm/vidadeleticia), usando freneticamente o Twitter (@vidadeleticia) e postando coisas no Facebook (é só clicar em “curtir” nesse quadrinho aí na lateral esquerda). Interajam! E bom fim de semana. :)

Quanto custa pra sair desse mundo?

Todos os dias eu leio reportagens absurdas. Sigo muitas ~feminazis~ no Twitter e sempre cai na timeline algum (ou vários) link de bizarrices cometidas pelos meus coleguinhas. Normalmente penso em fazer um post, mas se eu fosse escrever sobre e analisar cada matéria, o blog seria só sobre isso – e eu não poderia mais dormir, coisa que muito me dá prazer. É, a coisa está feia assim.

Mas agora está circulando um info sobre quanto custa ter uma vagina (??????). Esse é, aliás, um “argumento” muito utilizado pelos (as) machistas de plantão: em tese, custa um dinheirão ter uma buça e um corpo ~pronto para o sexo~. E aí incluem no cálculo até o hidratante que você usou, como se por isso fosse obrigação do cara pagar o motel.

O problema dessa reportagem é ela tomar forma de material informativo, quando na verdade é apenas uma palhaçada. Quando me mandam links de blogs mascus, por exemplo, eu só dou uma micro risada, porque eu sei que pouca gente vai levar a sério.

Quando sai na imprensa, porém, a informação se reveste com uma aura de “lei”. Muita gente acredita.

Portanto, aqui vão alguns esclarecimentos sobre “o custo da mulher sexualmente ativa“.

Primeiro: pílula anticoncepcional. Realmente é um custo pra mulher sexualmente ativa. Não todas, claro, porque o método utilizado varia muito (inclusive há quem não use nenhum). Mas, se é pra generalizar, ok. É um custo de fato.

Remédios para cólicas: R$ 276 por ano. Hã? Eles fizeram um cálculo da mulher tomar TODO MÊS, durante CINCO DIAS, remédio para cólica. Se a sua TPM é forte assim, eu sugiro procurar um gineco, pois pode ser algo grave, como endometriose, ou até bem simples de ser resolvido (com a troca do anticoncepcional, por exemplo).

Camisinha: R$ 223 por ano. No texto, dizem que fizeram uma média com os valores de mercado – um pacote com 3 unidades sai entre R$ 2,50 e R$ 9,90. E acharam por bem dizer que a mulher faz sexo duas vezes por semana e, portanto, usa oito preservativos por mês. De onde tiraram essa média? O ~meu~ problema não era querer transar duas vezes por semana (isto é, 100 vezes num ano)? E a pessoa só dá uma?

Mesmo assim, fazendo o cálculo: 8 camisinhas por mês, 12 meses no ano = 96 camisinhas, ou 32 pacotes. Se for a mais barata, dá 80 reais por ano. Mas vamos jogar o preço lá pra cima, né? Ignorar que há quem pegue preservativo em posto de saúde e que, olhem só, têm parceiros que também compram camisinhas! Além de ter gente que não trepa com quem tem pinto.

Sabonetes íntimos: don’t. Just don’t. Muitos ginecologistas são contra, completamente contra o uso. Outros dizem que não tem problema. Mas nenhum ESTIMULA o uso. Parem. Sua buceta não é pra ter cheiro de flores. Ela tem esse cheirinho aí, mesmo, que não é fedor. É odor. 

Ginecologista: uma consulta custando entre R$ 150 e R$ 300 a cada seis meses. Quem inventou essa periodicidade? De seis em seis meses? A não ser que você tenha algo para acompanhar, os médicos recomendam uma visita ANUAL ao ginecologista.

Exames: papanicolau, ultra de mama e pelve e colposcopia uma vez ao ano. Ué, não era pra ir ao gineco de seis em seis meses? Daí você só faz o exame uma vez? Pra quê ir duas vezes no médico, então?

Depilação. Ah, a depilação. Ai de você se te acharem com a buceta peluda, hein? Vai ser presa!!! (preguiça, suspiros eternos de preguiça.)

Tratamento para infecções: R$ 60 ao ano. Gente? Eles supõem que a mulher vai ter pelo menos uma infecção por ano. Hã? Oi?

Absorvente. Ok, generalizaram no uso, etc, etc, mas era preciso partir de algum número inventado. A minha questão aqui é: não são só as mulheres sexualmente ativas que usam absorvente, têm cólica, vão ao ginecologista. Eu sei que muitas só procuram o médico após começarem a transar, mas não devia ser assim. As tais infecções do item anterior, por exemplo, acontecem com todo mundo, transando muito, pouco ou nunca. Checagem hormonal também faz parte do pacote. E menstruação, infelizmente (detesto), também.

Também fizeram a média baseando a vida sexual da mulher entre 18 e 40 anos. Fora da realidade, primeiro porque a média de idade para a primeira vez é abaixo disso. E aí chega aos 40 anos e você para de transar? A menopausa não vai ter chegado ainda (e, portanto, você vai continuar menstruando, sentindo cólica e usando anticoncepcional).

Mesmo que você já não menstrue mais (eu, por exemplo, estou na menopausa há anos!), você para de lavar a buça? De ir ao gineco? Não faz nenhum sentido dizer que isso é o custo para uma mulher sexualmente ativa. Nenhum.

Além de ser um desserviço fazer reportagens que mostrem que é um “fardo” ter uma buceta.

De quem é esse corpo?

Eu já fui assaltada algumas vezes. Lembro perfeitamente das últimas duas. Na penúltima, eu estava naquela alça da 23 de maio pro Paraíso. Vidro meio aberto. Celular no colo. Um garoto parou ao lado da porta e disse:

- Estou com várias outras pessoas. Me dá o celular em três segundos. 3, 2…

Entreguei.

A última vez foi na Paulista. Eu estava sentada com minha linda amiga Adriana num dos bares da Joaquim Eugênio. A conta havia acabado de chegar. Achei estranho o cara se aproximando de bicicleta e olhando muito pra nota de 50 reais que eu estava colocando na pastinha da conta.

Recolhi o dinheiro.

Não deu tempo de avisar a Adriana, e o cara – de bicicleta – pegou o celular dela e saiu pedalando.

Em todas as vezes em que fui assaltada, eu me culpei. Na primeira situação descrita acima, eu sei que aquela região é super perigosa. E não devia estar de vidro aberto. E nem com o celular no colo!

Mas… peraí. O celular era meu (nem tinha acabado de pagar…), o carro era meu, e era três da tarde. A culpa foi minha, mesmo, ou do assaltante?

Quando conto as histórias de assalto, sempre deixo claro “eu sei que dei mole”. Todos concordam. “É, ali é foda”, respondem. “Essa gangue da bicicleta também já roubou a mãe de uma amiga minha”, dizem.

Todos tiram a culpa do ladrão e colocam em quem foi roubado. Mas ninguém, ninguém, absolutamente ninguém questiona se o roubo realmente aconteceu. Se eu tinha mesmo um celular. Eu disse que aconteceu, elas acreditam.

E aí acontece um crime sexual.

Começam a culpabilização da vítima. Tomando o caso ocorrido recentemente em Santos.

A vítima tem 17 anos e estava em uma boate.

O que ela estava fazendo numa boate? Ela é menor de idade!!!

Todo mundo de repente, não mais que de repente, esquece de todas as vezes em que saiu beeeeeeeeeeeeem antes de completar 18 anos.

Ela bebeu.

Mas não é proibido vender bebida alcoolica para menores? Ah, bebeu e deve ter ficado fácil!

Então tá. Tem uma moça aqui chamada Hipocrisia te mandando um beijão.

Ela teria – segundo os donos da boate – se “engraçado” com o segurança (acusado do crime) para entrar na área VIP. 

Sabia! Ficou dando mole pro segurança pra conseguir as coisas… Ele entendeu errado.

Tadinho do segurança com dificuldade de cognição! Mais uma vez, dona Hipocrisia mandando um abraço, pois muita gente usa de charme para conseguir as coisas. Homens e mulheres. E “dar o cu” não entra nessa troca.

Pois bem. Já culparam a vítima, ela deu mole, ela não devia ter bebido, blá blá blá.

Mas a coisa fica pior: em crimes sexuais SEMPRE se questiona se o estupro realmente aconteceu. Sempre. Ninguém jamais duvidou que meus celulares/colares/dinheiro tivessem sido roubados, mas é quase um padrão duvidar da veracidade do relato de abuso.

Mesmo que, como no caso de Santos, a vítima tenha sido encontrada desacordada num banheiro, com as calças abaixadas, queixo machucado, seios arranhados. O laudo do IML mostrou que ela foi violentada sim, com conjunção carnal e também no ânus. Quer dizer, o cara a violentou pela frente e por trás, mas tem gente que ainda o defende.

Eu escrevi sobre isso outro dia: às vezes nos preocupamos mais com o patrimônio do que com nossos corpos. É como se ele fosse do mundo, como se ninguém estivesse levando nada embora, como se ele não nos pertencesse.

Há muito a ser mudado na cabeça das pessoas acerca de crimes sexuais. Sobre crimes em geral, devemos parar de culpar a vítima. E sobre abuso, temos que parar de achar que alguém (qualquer pessoa, e aí incluo namorados e maridos) têm poder sobre nossos corpos. Não têm. Só quem decide o que vamos fazer somos nós mesmas.

Eu não aceito

Antes de começar o post propriamente dito: pra quem está chegando por agora, sejam bem vindos. Sim, vários posts não estão no ar. Num acesso de sei lá o quê no início do ano eu os coloquei offline.

A ideia era ir repostando alguns, mas minha conhecida procrastinação impediu tal coisa. Quem sabe eu não consigo fazer isso depois de terminar de escrever o livro?

Por enquanto, só está online o que está online aqui e no Cem +1. Uso o Twitter @vidadeleticia, respondo perguntas no ask.fm/vidadeleticia e posto coisas no Facebook também (basta você dar um “like” nessa caixinha na coluna à esquerda). E respondo emails no [email protected]

Divirtam-se!

***

(se bem que o post não é nada divertido.)

***

Anteontem falava sobre transtornos mentais no Twitter. Falava genericamente; há tempos não compartilho nada sobre minha depressão. Não lembro a razão do assunto ter surgido. Talvez eu estivesse vendo Private Practice, justamente o episódio em que Sam é obrigado a internar a irmã bipolar. Sequer lembro o comentário que eu fiz.

Recebo o reply de uma garota com quem nunca havia conversado. “Quem não quer se cuidar tem mais é que se foder, mesmo”, ela disse. Sempre me assusto com esse tipo de afirmação. O primeiro motivo deveria ser óbvio para todos nós, inclusive quem não tem qualquer conhecimento sobre transtornos: desejar o mal de alguém, por qualquer motivo, é cruel e desumano.

Porque eu já fui sacaneada. Bastante. Por gente muito próxima, que teria o dever de, na verdade, cuidar de mim. E por alguns milésimos de segundo até passou pela minha cabeça como seria se essas tais pessoas explodissem pelos ares e não restasse nada, nada, nada, nenhuma única célula desses seres.

São pessoas com quem não quero encontrar nunca mais ou sequer ouvir falar no nome. Você deve ter gente assim na sua vida, também. Mas, além de imaginar esses desaparecimentos de desenho animado, eu jamais desejei o mal dessas pessoas. Quando eu era religiosa e acreditava em alguma justiça da vida, eu até achei que elas se ferrariam eventualmente, mas como forma de “pagarem” pelas maldades que fizeram (gente má não é má só com uma pessoa).

Agora sou muito cínica e sei que não, o mundo não é justo e talvez essas criaturas sejam muito felizes, bem sucedidas, amadas. Mesmo assim, nunca movi um membro para prejudicá-las. E eu não sou boazinha. Segundo os astros, inclusive, sou vingativa-escorpiana.

Então, fico assustadíssima quando alguém diz ao universo “tem mais é que se foder”. Por quê? Por que uma pessoa que você sequer conhece tem que se dar mal? Porque 20% da humanidade MERECE se ferrar? (segundo a Organização Mundial de Saúde, esta é a porcentagem da população que terá algum episódio depressivo ao longo da vida.)

Aí sim entramos numa seara que eu conheço bem. Há alguns meses uma amiga de faculdade me disse, durante conversa no gtalk: “eu também tenho minhas tristezas e aprendi a lidar com elas”.

Falava num tom de superioridade, como se ela, apesar de mais de dez anos mais nova do que eu, fosse muito sábia. Eu também aprendi a lidar com minhas tristezas. Quem me conhece sabe quão difícil é que eu peça ou aceite ajuda. Sou toda ~independente~ e odeio sentir que alguém pode estar odiando me fazer um favor.

Lidei com muita coisa na vida. Coisas ótimas (e nem por isso fáceis de digerir) e coisas péssimas. Lembro de um dos piores dias dos últimos anos: o diagnóstico de menopausa precoce. Eu sabia que ele viria. Eu não esperava que ele ia doer tanto. E eu estava sozinha, assim como peguei meu táxi sozinha depois da consule fui trabalhar. Desabei quando cheguei na redação, mas ok.

Mas houve um momento em que “sozinha” não era mais uma opção. Eu precisei de ajuda, inclusive dessa tal amiga com quem conversei no chat. Eu preciso de ajuda até hoje, quando certos demônios invadem minha mente e me deixam especialmente medrosa e solitária.

Para tentar me entender e compreender um pouco mais da vida de quem, como eu, tem transtornos de ordem mental, comecei a ler “O demônio do meio-dia”, indicado por várias leitoras quando eu assumi meu diagnóstico.

Demorei a começar a ler; o livro é uma porrada no estômago para quem se vê a cada linha (o autor também é depressivo). Andrew Solomon vai analisando fatos históricos e sociais, estatísticas, fala de remédios. O último capítulo que eu li trata de um assunto sobre o qual não falamos: suicídio.

E é assustador. O livro é de 2001, então não sei quão atualizados estão esses dados mas, segundo Solomon, a cada 17 minutos alguém comete suicídio nos Estados Unidos. É a segunda maior causa de morte entre estudantes universitários naquele país.

É real.

Não é “não saber lidar com as próprias tristezas”. É uma dor que não passa. Depressão hoje é tratável, não curável. Você não diria para um paciente de câncer “que ele tem mais é que se foder mesmo”. Por qual razão se aceita que digam isso para quem tem transtornos mentais?

Eu não aceito.

Camisinha não é coisa de vadia

O ~alta social media~ decretou: ”Mulher: se um cara põe camisinha sem vc pedir é pq ele te acha uma vadia.”.

Minha cara ao ler esse tipo de coisa em setembro de 2012:

Infelizmente tal pensamento ainda é muito comum. Muita gente dizia que, com minha quantidade de parceiros, eu seria um poço de DST. Sabem uma coisa curiosa? Eu nunca tive nenhuma. Também não escondo de nenhum parceiro o meu passado (e presente) sexual, mas mesmo assim alguns deles não fizeram essa questão toda de usar preservativo comigo.

Eu sempre fiz questão (não, não vou dizer que jamais transei desprotegida. Já rolou e eu me arrependi amargamente).

Quando alguém dispensa a camisinha com você, essa pessoa não está necessariamente te dando um sinal sobre o que ela acha de você. Ela está falando de si mesma: é tão arrogante que acha que ela mesma é imune a doenças sexualmente transmissíveis.

Porque se você está num relacionamento (casual ou não) e a camisinha nem entra em pauta, é bastante provável que aquele (a) parceiro (a) também não faz questão de usar o preservativo com outras pessoas. E bom, vocês já sabem o que acontece.

Comecei minha vida sexual lá na década de 1990. Todo mundo parecia mais preocupado com o HIV. Grandes nomes de especial influência na minha existência morreram por causa do vírus (Cazuza, 1990; Freddie Mercury, 1991; Renato Russo, 1996). A gente via nossos ídolos lutando e definhando. Sarcomas aparentes. Perda de peso. Queda de cabelo. Fim.

Na época, as camisinhas eram mais caras e muito desconfortáveis. Quem sofria de alergia… tinha de sofrer, pois só as de látex eram vendidas. E, apesar de extremamente grossas, estouravam.

As coisas mudaram pra melhor em todos os aspectos. Contrair o HIV já não é uma sentença de morte – e talvez por isso mesmo algumas pessoas se considerem invencíveis. Ser soropositivo, porém, requer uma série de cuidados com a saúde, como vocês podem ver nessa reportagem do Profissão Repórter do ano passado.

Prevenir-se também ficou mais fácil. As camisinhas se tornaram mais baratas e confortáveis, sendo encontradas em diversos tamanhos e materiais diferentes.

Há alguns dias uma leitora mandou e-mail dizendo ter dificuldade em usar camisinha com o namorado, pois o pênis dele é bem grosso. Ele reclamava que os preservativos apertavam demais. Eu disse para ela testar a Preserv Extra Premium (nunca usei), que tem 58mm de diâmetro (as comuns têm 52).

Ela testou e me respondeu dizendo que foi ótimo: “Ele disse até que tem que colocar a mão de vez em quando pra ter certeza que não saiu, pois a sensação é de estar praticamente sem”.

Mesmo com tantas boas notícias, os preconceitos (como do tuiteiro mencionado acima) persistem. E deixam pessoas doentes. Em dez anos, dobraram os casos de HIV na terceira idade. Muitas das infectadas são mulheres monogâmicas e casadas.

Enquanto tratarmos o sexo como um componente do “caráter”, os números continuarão aumentando. Não consigo ver motivo razoável para deixar a camisinha de lado, mesmo em relações mais duradouras e teoricamente monogâmicas. Mas, caso você decida fazer isso, por favor faça exames completos antes, sempre observando a janela imunológica. Se cuidem.

E deem unfollow nesses imbecis cheios de preconceitos. A saúde física e mental de vocês agradece.

A fugitiva de Viracopos

Logo que o Femen surgiu no Brasil me perguntaram o que eu achava do movimento. Eu não tinha embasamento nenhum para responder. Havia acompanhado por fotos em portais de notícias algumas manifestações da matriz ucraniana, mas não havia pensado a respeito.

Depois comecei a achar estranho que o grupo fosse formado por tão poucas pessoas – e só mulheres, ainda. Um movimento com “alcance” internacional (afinal, a mídia do mundo inteiro cobriu alguns desses protestos) poderia estar se fortalecendo com novos membros.

Daí entendi tudo: era preciso ser mulher, pois é necessário pintar os seios. Branca. De preferência, loira. Magra.

Bom, isso não me parecia um movimento feminista.

Simplesmente deixei pra lá.

O problema é que a mídia não deixou. E muita gente passou a ver o Femen como uma iniciativa feminista. Isso me incomoda, porque o feminismo já é tão mal compreendido que um grupo tomar para si esses ideais (e agir no sentido contrário) é grave.

Porque, como já disse aqui, feminismo não é uma seita. Cada um pode construir a própria ideologia. Não é um pacote fechado, que você recebe e tem que seguir a cartilha. Existem várias correntes ideológicas dentro do feminismo. Algumas, inclusive, batem de frente. Se formos falar em indivíduos, então, a coisa fica ainda mais complexa: muita gente pensa diferente. Isso é bom, faz com quem nos questionemos e não fiquemos presos a uma ideia só.

Mas, pelo que eu sei, nenhum movimento feminista sério tem processo seletivo baseando a escolha dos integrantes na aparência física. As “entrevistas” aqui em São Paulo foram feitas, inclusive, no Starbucks da Alameda Santos. É muito bizarro.

As coisas pioraram. Descobriram que a Sara Winter, líder do Femen BR, tem um passado obscuro. Ela teria ligações com grupos nazistas, curtia Plínio Salgado (extrema direita), falou mal da Marcha das Vadias ano passado. Curiosamente, fez questão de desfilar na Marcha de São Paulo deste ano… bem na frente da galera.

Ela tentou se justificar, não conseguiu. Tentaram marcar debates com o Femen para que elas se explicassem. Não rolou. Sara admitiu conhecer pouco de teoria feminista. Tudo bem nunca ter lido, sei lá, Simone de Beauvoir, mas isso se você for uma garota ou um garoto que não milita. Que apenas está se interessando pelo assunto, que procura informação em blogs e curte as boas iniciativas feministas bem humoradas que andam surgindo nos últimos dias.

Se você quer ser LÍDER de um movimento e representar um montão de gente,  aí a coisa muda de figura. Não estou falando de títulos e diplomas pendurados na parede; um ou outro livro de teoria básica sobre feminismo, porém, são essenciais (e eles não são de difícil leitura!).

Quando achei que a coisa já tinha chegado ao limite (suspeita de envolvimento com fascismo é dose!), ontem surgiu o boato que uma das integrantes do Femen BR, Bruna Themis, havia sido SEQUESTRADA no Aeroporto de Viracopos.

A “notícia” foi postada na fanpage do Femen BR no Facebook. Segundo o post, elas estavam sendo ameaçadas há alguns dias. Mesmo assim, Bruna e Sara se separaram dentro do aeroporto (para quem não conhece Viracopos, devo informar que é minúsculo). Depois de postarem que a garota tinha sofrido um SEQUESTRO, Sara seguiu viagem para Brasília, pois “o Femen não pode parar”.

No meio disso tudo, uma outra integrante do Femen disse ter sido impedida de embarcar em Belo Horizonte.

Foi um rolo. Um vergonhoso rolo. Vocês podem acompanhar lá na página do Femen. Eu ri demais a tarde inteira, porque o roteiro era inacreditável. Elas se diziam perseguidas pela polícia. Todas as polícias. Exército!

Menos, gatas, menos.

Aí Bruna apareceu. Segundo postagem do grupo, ela teria percebido que estava sendo seguida e resolveu entrar no ~modo stealth~ (muitos risos).

Eis que hoje fomos surpreendidos novamente com uma mensagem da própria Bruna:

Tudo o que foi pronunciado pelo Femen no dia 06-09-2012 referente ao meu suposto desaparecimento que de fato não ocorreu, ou seja, na realidade desde o dia 06-09-2012 eu simplesmente resolvi me afastar do Femen.
E não existe nada de concreto, havendo apenas rumores de que uma das integrantes do Femen teria sido barrada no aeroporto de BH. E eu de fato nunca me senti perseguida ou vigiada por ninguém inclusive nunca recebi ameaças de qualquer natureza.

Acho que agora chega, né? O ~movimento~ não tem nem três meses aqui no Brasil e esse monte de baboseira já aconteceu.

Escrevi esse post porque algumas pessoas ainda se confundem. Perguntam se eu me sinto representada pelo Femen. Pensam (porque a imprensa trata desse jeito) que o grupo é feminista. Não é.

Poderia ser. E seria muito bacana se a agenda feminista tivesse tanto espaço na mídia se não fosse por seios de fora, mas sim com um debate sério e respeitoso sobre os problemas reais que nos atingem. Não sou contra seios de fora, pelo contrário. Mas alguém já viu alguma reportagem nos grandes portais sobre o Femen que não seja apenas para mostrar as fotos das garotas seminuas? Alguma dessas matérias traz informação aprofundada sobre os motivos do protesto?

Acho que estamos caminhando para maior discussão sobre o feminismo. Ou talvez eu esteja numa bolha – sigo no Twitter gente feminista, converso sobre feminismo – e esteja iludida. Espero que não. E espero que o Femen BR não tenha manchado o que já se conquistou.