A fugitiva de Viracopos

Logo que o Femen surgiu no Brasil me perguntaram o que eu achava do movimento. Eu não tinha embasamento nenhum para responder. Havia acompanhado por fotos em portais de notícias algumas manifestações da matriz ucraniana, mas não havia pensado a respeito.

Depois comecei a achar estranho que o grupo fosse formado por tão poucas pessoas – e só mulheres, ainda. Um movimento com “alcance” internacional (afinal, a mídia do mundo inteiro cobriu alguns desses protestos) poderia estar se fortalecendo com novos membros.

Daí entendi tudo: era preciso ser mulher, pois é necessário pintar os seios. Branca. De preferência, loira. Magra.

Bom, isso não me parecia um movimento feminista.

Simplesmente deixei pra lá.

O problema é que a mídia não deixou. E muita gente passou a ver o Femen como uma iniciativa feminista. Isso me incomoda, porque o feminismo já é tão mal compreendido que um grupo tomar para si esses ideais (e agir no sentido contrário) é grave.

Porque, como já disse aqui, feminismo não é uma seita. Cada um pode construir a própria ideologia. Não é um pacote fechado, que você recebe e tem que seguir a cartilha. Existem várias correntes ideológicas dentro do feminismo. Algumas, inclusive, batem de frente. Se formos falar em indivíduos, então, a coisa fica ainda mais complexa: muita gente pensa diferente. Isso é bom, faz com quem nos questionemos e não fiquemos presos a uma ideia só.

Mas, pelo que eu sei, nenhum movimento feminista sério tem processo seletivo baseando a escolha dos integrantes na aparência física. As “entrevistas” aqui em São Paulo foram feitas, inclusive, no Starbucks da Alameda Santos. É muito bizarro.

As coisas pioraram. Descobriram que a Sara Winter, líder do Femen BR, tem um passado obscuro. Ela teria ligações com grupos nazistas, curtia Plínio Salgado (extrema direita), falou mal da Marcha das Vadias ano passado. Curiosamente, fez questão de desfilar na Marcha de São Paulo deste ano… bem na frente da galera.

Ela tentou se justificar, não conseguiu. Tentaram marcar debates com o Femen para que elas se explicassem. Não rolou. Sara admitiu conhecer pouco de teoria feminista. Tudo bem nunca ter lido, sei lá, Simone de Beauvoir, mas isso se você for uma garota ou um garoto que não milita. Que apenas está se interessando pelo assunto, que procura informação em blogs e curte as boas iniciativas feministas bem humoradas que andam surgindo nos últimos dias.

Se você quer ser LÍDER de um movimento e representar um montão de gente,  aí a coisa muda de figura. Não estou falando de títulos e diplomas pendurados na parede; um ou outro livro de teoria básica sobre feminismo, porém, são essenciais (e eles não são de difícil leitura!).

Quando achei que a coisa já tinha chegado ao limite (suspeita de envolvimento com fascismo é dose!), ontem surgiu o boato que uma das integrantes do Femen BR, Bruna Themis, havia sido SEQUESTRADA no Aeroporto de Viracopos.

A “notícia” foi postada na fanpage do Femen BR no Facebook. Segundo o post, elas estavam sendo ameaçadas há alguns dias. Mesmo assim, Bruna e Sara se separaram dentro do aeroporto (para quem não conhece Viracopos, devo informar que é minúsculo). Depois de postarem que a garota tinha sofrido um SEQUESTRO, Sara seguiu viagem para Brasília, pois “o Femen não pode parar”.

No meio disso tudo, uma outra integrante do Femen disse ter sido impedida de embarcar em Belo Horizonte.

Foi um rolo. Um vergonhoso rolo. Vocês podem acompanhar lá na página do Femen. Eu ri demais a tarde inteira, porque o roteiro era inacreditável. Elas se diziam perseguidas pela polícia. Todas as polícias. Exército!

Menos, gatas, menos.

Aí Bruna apareceu. Segundo postagem do grupo, ela teria percebido que estava sendo seguida e resolveu entrar no ~modo stealth~ (muitos risos).

Eis que hoje fomos surpreendidos novamente com uma mensagem da própria Bruna:

Tudo o que foi pronunciado pelo Femen no dia 06-09-2012 referente ao meu suposto desaparecimento que de fato não ocorreu, ou seja, na realidade desde o dia 06-09-2012 eu simplesmente resolvi me afastar do Femen.
E não existe nada de concreto, havendo apenas rumores de que uma das integrantes do Femen teria sido barrada no aeroporto de BH. E eu de fato nunca me senti perseguida ou vigiada por ninguém inclusive nunca recebi ameaças de qualquer natureza.

Acho que agora chega, né? O ~movimento~ não tem nem três meses aqui no Brasil e esse monte de baboseira já aconteceu.

Escrevi esse post porque algumas pessoas ainda se confundem. Perguntam se eu me sinto representada pelo Femen. Pensam (porque a imprensa trata desse jeito) que o grupo é feminista. Não é.

Poderia ser. E seria muito bacana se a agenda feminista tivesse tanto espaço na mídia se não fosse por seios de fora, mas sim com um debate sério e respeitoso sobre os problemas reais que nos atingem. Não sou contra seios de fora, pelo contrário. Mas alguém já viu alguma reportagem nos grandes portais sobre o Femen que não seja apenas para mostrar as fotos das garotas seminuas? Alguma dessas matérias traz informação aprofundada sobre os motivos do protesto?

Acho que estamos caminhando para maior discussão sobre o feminismo. Ou talvez eu esteja numa bolha – sigo no Twitter gente feminista, converso sobre feminismo – e esteja iludida. Espero que não. E espero que o Femen BR não tenha manchado o que já se conquistou.

25 pensamentos em “A fugitiva de Viracopos

  1. Eu nunca vou parar de rir dessa história, gente. E essa foto do Sergio Mallandro me fez gargalhar!
    Desde esse rolo da Sara com neonazistas já dava pra perceber que o Femen Br é muito picareta. A fugitiva de Viracopos e a Barrada de Confins só confirmaram. Agora só não vê quem não quer mesmo.

  2. Eu fico pensando se a intenção destas moças não é justamente manchar o movimento feminista. Pode parecer teoria da conspiração, mas não acredito que alguém possa ser tão amadora a ponto de inventar um sequestro e achar que vai ficar tudo bem. Hoje, na era da internet. Enfim, tudo isso para isto:

    http://g1.globo.com/distrito-federal/noticia/2012/09/manifestantes-seminuas-sao-detidas-durante-protesto-em-brasilia.html

    E lá está a mídia dando voz para o Femen BR.

    • Nossa, eu pensei exatamente a mesma coisa quando estava escrevendo meu comentário logo abaixo (antes mesmo de ver esse seu comentário). Realmente, juntando o histórico de vida da tal Sarah e do movimento ucraniano, que pelo que entendi, surgiu pra protestar contra a prostituição, mas pelos motivos errados. Quer dizer, pelos motivos conservadores e não pela defesa dos direitos humanos e dignidade da mulher.

      Então, faz sentido isso ser um movimento de sabotagem pra desmoralizar o feminismo. Ainda que possa parecer muita teoria da conspiração, mas vai saber, né?! Tem doido pra tudo, até pra forjar sequestro.

  3. Não sou militante feminista, mas sou mulher, logo feminista. Pq enquanto houver homem ganhando mais do que mulher, no mesmo cargo, o feminismo fará todo o sentido de existir. Sendo assim ou vc é machista ou é apática aos próprios problemas.

    Mas sou filha de uma feminista militante. Minha mãe é secretária da Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres, na minha cidade (e palmas para a minha cidade por ter criado tal Secretaria). E diante da luta diária que vejo minha mãe enfrentar, agindo concretamente pelos direitos de mulheres vítimas de violência, pobreza e desigualdade. Sinto muita raiva por criaturas desse tipo mancharem e ridicularizarem as causas dessa luta. Mostrar os peitos sem ter conteúdo, em nada ajuda o movimento feminista. Se pra chamarem a atenção para o que defendem, as mulheres precisam expor os corpos, não vejo nada de libertador ou revolucionário. Pq há uns 50 anos, as nossas avós já estavam queimando sutiã em praça pública e chocando a sociedade. De forma muito mais corajosa e autêntica.

  4. Só vou repetir o que disse assim que tomei conhecimento do Femen BraZil e das presepadas da militonta Sara Winter: NÃO ME REPRESENTA. Nem a filial brasileira da empresa (me recuso a chamar de coletivo feminista) nem a matriz ucraniana.

  5. Primeiro de tudo, queria deixar claro que não considero o Femen (Ucraniano) um movimento feminista nos moldes da militância clássica, ou de representatividade internacional, no entanto, como a própria autora do texto sabe – e os que escreveram os outros comentários – oque é veiculado e passado pela mídia é muito restrito e construído conforme uma gama de interesses. Se é assumido no texto que a mídia deturpa a imagem do feminismo ao colocar o Femen como um representante do movimento internacional, por outro lado, é evidente que o que se compreende do contexto social, político, moral e cultural ucraniano e feminista ucraniano, considerando apenas a mídia a qual temos acesso, é muito deturpado.
    Morei na Ucrânia por algum tempo, durante os anos de 2009 e 2010 e posso afirmar que, se é difícil lidarmos com a realidade do nosso próprio nordeste, é quase impossível compreender a realidade e atualidade ucraniana e do Femen por meio da mídia ocidental e pelas fotos de garotas loiras peladas. Além disso, claro que o Femen tem seus defeitos aos nossos olhos e perante às teorias e representações feministas, mas não nego a sua importância perante ao contexto em que vive o país (que, garanto para vocês, não é NADA do que pensam por aqui).
    Outro ponto importante e absurdo é o Femen BR. O Femen faz certo sentido quando conduzido no contexto em que foi fundado e como foi realizando suas ações naquele país. Agora, não podemos confundir mais ainda todas essas coisas: brasileiras com passados suspeitos querendo ser europeias arianas e, só assim, se reconhecendo como feministas, só a foto do Sérgio Malandro explica.

  6. O fato de nunca ter me visto representada no Femen, ou seja, negra de cabelo ondulado e de olhos castanho, já fazia com que não sentisse confiança no grupo, depois dessa pataquada, ainda menos

  7. Fora os comentários machistas que sempre tem nessas notícias, referentes às ucranianas ou as brasileiras.. Hoje mesmo, na notícia que tinha a Sara e a outra menina sendo presas no protesto do 7 de setembro um cara comentou ” ah, deixa as meninas protestarem rsrs” só pq estavam semi nuas.

  8. Começando que ao entrar no site oficial do FEMEN não existe o Femen brasileiro. Digamos que essa moça (Sara Winter) se apropriou de um nome de um movimento bem bacana pra fazer essa porcaria que ela faz aqui no Brasil. Eu vi uma entrevista dela na Marília Gabriela que foi hilariante. A explicação dela para que os peitos de fora não fossem sensuais: “A gente ergue os braços e urra!”
    Lindo! De chorar de rir da coitada. Essa daí vai acabar sendo presa uma hora dessas e não vai ser por deixar as mamicas de fora.
    Parabéns pelo blog! Sou viciada desde que me apresentaram ele!

    • O Femen BR não aparece pq as paginas foram excluidas, 3 vezes.

      Apos a primeira exclusão, foi dito que pagina tinha sido invadida por hakers e que elas estavam falando com a gerencai do face (oi?), pra recuperar.

      Ai foi apagada de novo e voltou uma pagina sem os posts sobre os sequestros e a saida de Bruna, mas o pessoal não perdoou e contou que salvaram printis e continuaram questionando sobre a farsa, ai a pagina foi apagada, voltou e foi apagada de novo, não vontando até agora.

      Até hoje de manha, a pagina oficial do Femen reproduzia a historia do sequestro e depois do aparecimento.

      Porem varios brasileiros foram la denunciar e colocaram links para prints que eles tinham salvado, inclusive do depoimento da Bruna negando tudo e anunciando sua saida.

      Essas pessoas cobraram um posicionamento oficial, mas ao inves disso os post e os links foram apagados.

  9. Tá, ok. Elas NÃO NECESSARIAMENTE precisam me representar. Mas o Femen está militando O QUE além do direito de mostrar os peitos? Assim como a autora do post, eu sou totalmente a favor do protesto, de todas as formas, MAS MENOS GATAS, menos! Fora que, na marcha das vadias, por exemplo, existem mulheres de TODOS os tipos. Magras, gordas, negras, brancas, altas, baixas.. Ou seja, TODO MUNDO É LIVRE pra ir lá e se expressar. Alguém já viu uma militante fora do padrão de beleza na Femen?
    Eu acho que as gurias estão de ~brinks~ com o movimento.

  10. obrigada pelo artigo, letícia. fico feliz com a sua volta! (:

    o problema é que o femen conseguiu sim, uma ótima atenção da mídia, mas nao teve a menor ideia do que fazer com isso. para mim é o desperdício de uma ótima oportunidade.

    quando falo que sou feminista, a primeira coisa que me perguntam é o que eu acho do femen. é difícil explicar que nao me sinto representada pelo grupo (apesar de teoricamente termos a mesma ideologia). e que o manifestar nu sem nenhuma causa bem fundamentada é, para mim, vazio.

  11. Cara, na boa!
    A Pegadinha é sua!!

    Poxa, Letícia, acesso toda semana o Cem+1, e sempre com aquele post da pausa. Por um acaso resolvi dar uma passadinha aqui e vi o blog super movimentado…
    Confesso: estou arrasada. Caí na pegadinha. Na sua pegadinha!

  12. “E seria muito bacana se a agenda feminista tivesse tanto espaço na mídia se não fosse por seios de fora, mas sim com um debate sério e respeitoso sobre os problemas reais que nos atingem”

    Eu te amo *-* finalmente, uma FEMINISTA de verdade :)

  13. Pingback: Margaret Thatcher e o feminismo | Cem Homens

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