Eu já fui assaltada algumas vezes. Lembro perfeitamente das últimas duas. Na penúltima, eu estava naquela alça da 23 de maio pro Paraíso. Vidro meio aberto. Celular no colo. Um garoto parou ao lado da porta e disse:
- Estou com várias outras pessoas. Me dá o celular em três segundos. 3, 2…
Entreguei.
A última vez foi na Paulista. Eu estava sentada com minha linda amiga Adriana num dos bares da Joaquim Eugênio. A conta havia acabado de chegar. Achei estranho o cara se aproximando de bicicleta e olhando muito pra nota de 50 reais que eu estava colocando na pastinha da conta.
Recolhi o dinheiro.
Não deu tempo de avisar a Adriana, e o cara – de bicicleta – pegou o celular dela e saiu pedalando.
Em todas as vezes em que fui assaltada, eu me culpei. Na primeira situação descrita acima, eu sei que aquela região é super perigosa. E não devia estar de vidro aberto. E nem com o celular no colo!
Mas… peraí. O celular era meu (nem tinha acabado de pagar…), o carro era meu, e era três da tarde. A culpa foi minha, mesmo, ou do assaltante?
Quando conto as histórias de assalto, sempre deixo claro “eu sei que dei mole”. Todos concordam. “É, ali é foda”, respondem. “Essa gangue da bicicleta também já roubou a mãe de uma amiga minha”, dizem.
Todos tiram a culpa do ladrão e colocam em quem foi roubado. Mas ninguém, ninguém, absolutamente ninguém questiona se o roubo realmente aconteceu. Se eu tinha mesmo um celular. Eu disse que aconteceu, elas acreditam.
E aí acontece um crime sexual.
Começam a culpabilização da vítima. Tomando o caso ocorrido recentemente em Santos.
A vítima tem 17 anos e estava em uma boate.
O que ela estava fazendo numa boate? Ela é menor de idade!!!
Todo mundo de repente, não mais que de repente, esquece de todas as vezes em que saiu beeeeeeeeeeeeem antes de completar 18 anos.
Ela bebeu.
Mas não é proibido vender bebida alcoolica para menores? Ah, bebeu e deve ter ficado fácil!
Então tá. Tem uma moça aqui chamada Hipocrisia te mandando um beijão.
Ela teria – segundo os donos da boate – se “engraçado” com o segurança (acusado do crime) para entrar na área VIP.
Sabia! Ficou dando mole pro segurança pra conseguir as coisas… Ele entendeu errado.
Tadinho do segurança com dificuldade de cognição! Mais uma vez, dona Hipocrisia mandando um abraço, pois muita gente usa de charme para conseguir as coisas. Homens e mulheres. E “dar o cu” não entra nessa troca.
Pois bem. Já culparam a vítima, ela deu mole, ela não devia ter bebido, blá blá blá.
Mas a coisa fica pior: em crimes sexuais SEMPRE se questiona se o estupro realmente aconteceu. Sempre. Ninguém jamais duvidou que meus celulares/colares/dinheiro tivessem sido roubados, mas é quase um padrão duvidar da veracidade do relato de abuso.
Mesmo que, como no caso de Santos, a vítima tenha sido encontrada desacordada num banheiro, com as calças abaixadas, queixo machucado, seios arranhados. O laudo do IML mostrou que ela foi violentada sim, com conjunção carnal e também no ânus. Quer dizer, o cara a violentou pela frente e por trás, mas tem gente que ainda o defende.
Eu escrevi sobre isso outro dia: às vezes nos preocupamos mais com o patrimônio do que com nossos corpos. É como se ele fosse do mundo, como se ninguém estivesse levando nada embora, como se ele não nos pertencesse.
Há muito a ser mudado na cabeça das pessoas acerca de crimes sexuais. Sobre crimes em geral, devemos parar de culpar a vítima. E sobre abuso, temos que parar de achar que alguém (qualquer pessoa, e aí incluo namorados e maridos) têm poder sobre nossos corpos. Não têm. Só quem decide o que vamos fazer somos nós mesmas.


Concordo muito com vc.. As pessoas tem um preconceito imenso contra quem sofreu um abuso e não contra quem cometeu.. Sempre que acontece esses tipos de caso e alguém da minha família culpa a vítima eu digo: E se fosse sua filha? Você diria que a culpa é dela? São coisas a se pensar!
Excelente texto, como sempre!
É ainda o velho esquema da “mulher honesta”, expressão que aliás, foi retirada só há poucos anos de certas leis.
Se você estava rezando, de roupas longas, à luz do dia, pode ser – e mesmo assim pode ser – que acreditem na garota.
Fico sem saber se acham que a vítima está mentindo (como se houvesse alguma vantagem em se dizer vítima de um crime) ou se ficam é querendo justificar o que ocorreu, dizendo que a culpa foi da mulher. Sinceramente, não sei qual das duas opções é pior. Triste é quando é uma pessoa que gostamos e admiramos entrando nessa.
Ótimo texto!
Desejo com todas as minhas forças que esse ser nojento apodreça na cadeia! E que seja usado e abusado pelos outros presos da mesma forma que ele fez com a garota.
Qual o problema das pessoas que acham que a menina “pediu” pra ser violentada?!
Demorou pra Deus começar esse mundo de novo!
Eu juro, JURO que acabei de ler o comentário de uma garota que frequenta essa balada em Santos sobre o crime, e ela terminou com “cu de bêbado não tem dono”. Meu estômago embrulhou.
Se não for o dela, né?
Sabe que esses tempos eu fiquei pensando justamente sobre a extensão da culpabilização da vítima na questão de sofrer crimes? Às vezes eu fico pensando se isso não é uma forma de legitimar o criminoso. Isso fica ainda mais claro quando se trata de um crime sexual. Além de transferir a culpa do problema para a vítima, esse processo ainda acaba glorificando quem comete o crime. Como se não fosse nosso direito ir e vir.
Por isso não tenho mais paciência com os “ela-tava-pedindo”.
Quem culpa a vítima deveria ser estupradx, talvez assim veja que a “santidade” não é tão intocável assim.
Fodam-se essas pessoas – literalmente.
“Ela estava pedindo” é muito ridículo. Normalmente a pessoa sabe pedir, tipo, COM TODAS AS LETRAS.
Além de culparem a vítima, nesse caso específico vi muita gente culpando a mãe da garota. Veja bem, a culpa do estupro não é dos estupradores, é da mãe que não criou direito??? E depois dizem que a sociedade não é machista…
Há sempre essa culpabilidade mesmo, como se as cosias fossem simples assim. Concordo com sua posição.
tem sempre uma horda de imbecís pra dizer que a mulher “tava pedindo” pra ser estuprada. pra começar que pedir pra ser estuprada é um paradoxo: estupro é por definição um ato não consentido pela vítima.
quando as pessoas dizem “ela tava pedindo” o que elas querem dizer é que estupro não existe. porque não dá pra falar em consentimento ou não consentimento se a gente não tá falando de gente. e mulher não é gente, é coisa, portanto basta estar ao alcance para estar disponível (leia-se “pedindo”).
mas falando assim fica evidente demais que se é uma besta completa, então as pessoas preferem dizer que “ela tava pedindo”.
Isso me faz lembrar de um caso aqui na minha cidade, que é interior.Diferente dessa história, mas a hipocrisia muito igual.Uma jovem se deixou filmar transando com o namorado.Eles terminaram,ele publicou na internet e o video vazou.. aquela mesma historia de sempre.Acontece que escutei diversos comentarios maldosos,inclusive de pessoas que eu gosto.Do tipo: “vamos olhar de cara feia pra menina(do video),quem sabe ela nao fica sem graça.” “É uma puta mesmo”( como se ninguém transasse né). Na época eu era nova,mas ja achava um absurdo esse tipo de julgamento.Eu lembro que dei minha cara a tapa e defendi a menina,todas vezes que escutava uma insanidade.Discuti com parentes,amigos.Não conhecia a garota,nunca conversei com ,nunca trocamos uma palavra,mas me senti na obrigaçao de expor o que eu sentia na epoca. Uma coisa que me enoja demais é hipocrisia e falso moralismo.
Ela estava bêbada numa boate: no meu ponto de vista, isso não apenas não “ameniza” o crime, por assim dizer, como também deveria dar margem a outras investigações. Quem é o responsável por esse ambiente que permite que menores entram e consumam bebidas alcoólicas? Por que essa lei também nunca é respeitada?
Laís, o que eu ouvi dizer é que aqui em São Paulo está mais difícil até comprar bebida alcóolica em supermercado. Mesmo que você tenha rugas e cabelos brancos eles estão pedindo identidade.
Mas o brasileiro tem uma relação estranha com o álcool, né? É meio “permitido”, apesar de proibido. Também acho que os donos da boate deveriam ser responsabilizados; não criminalmente, porque não há nem previsão legal pra isso, mas na esfera cível. E parece que fecharam a boate.
ótimo texto..
contra a culpabilização da vítima, em santos, no dia 30/9, domingo, acontece a MARCHA DAS VADIAS
concentração as 13h, na praça independencia.
quem tb se indignou, compareça!
NADA justifica estupro, NADA. Mas também isso não significa que não se deva duvidar das vítimas. Obviamente, não é o caso aqui mencionado. Agora não se pode sair crucificando ninguém pq fulana se diz vítima de estrupro do ciclano. É necessário provas cabais do estupro, ao contrário do roubo, que é um crime, em tese, puramente material. O Estupro é um crime de caráter pessoal, comunicado exclusivamente pela vítima, que pode ter tido uma relação sexual consentida poucas horas antes e após afirmar ser vítima de estupro, por isso a necessidade de perícia (que não é absoluta) e demais provas. Então querer comparar ROUBOU com estupro…sinceramente, é demonstrar completa ignorância de Leis e procedimentos mínimos de culpabilidade.
Eduardo, eu estava falando da reação das pessoas. Você viu que eu não citei delegado ou promotor? Estava falando de bate papo com os amigos. De como a gente responde SOCIALMENTE a diferentes tipos de crime. E acho que você entendeu, sim, mas quis só criticar pra ser inconveniente.
Ah, dica: eu sou formada em direito, beijos.
Pelo que eu já li existem 2 tipos de estupro , o assalto sexual e o estupro social (inventei esse nome).
Do primeiro ninguém vai duvidar, já do segundo que geralmente ocorre entre parceiros sexuais , ou conhecidos, fica muito difícil não rolar uma dúvida. confesso, não por desconfiança da ídolo da vítima.
Mas então pq ? Explico, quem nunca teve uma amnésia alcóolica e fez algo de que não se lembrou ?
Essa semana mesmo por acaso, minha parceira (com quem dormi junto) sonhou que eu a penetrava “de repente”, e perguntou no dia seguinte se tínhamos feito “algo a mais”…ela mesma não tinha certeza do que aconteceu.
Veja o meu lado, dormimos juntos, inclusive acordamos de madrugada para fazer “coisinhas” , mas em nenhum momento houve penetração ou um fez algo com o outro enquanto o outro estava dormindo .
Eu fiquei pensando, putz, vai que ela não acredita em mim ? Sacou ?
Como provar ou desprovar a história ? No caso eu não a penetrei, seria fácil…mas se tivessa havido penetração consentida enquanto estávamos acordados ?
A prova de estupro nesse caso é muito, muito subjetiva. Não dá pra sair condenando assim. Estuprador , é um estigma muito forte, ao contrário do que algumas feministas discursam por aí, até mesmo na cadeia o estuprador tem que ficar isolado para não ser agredido (vc deve saber disso como advogada).
Luiz, uma pessoa não é condenada só porque alguém a acusou. É preciso haver provas.
Sim sim, mas estou falando “condenar” cotidianamente , não legalmente. É um estigma muito forte, pois se pensa logo em um monstro psicopata quando se fala em estuprador, nem sobre o assaltante se tem uma imagem tão negativa.
Pelo menos eu cresci achando isso, cresci com essa imagem do maníaco do parque, não acredito que a maioria dos outros homens(com a minha escolaridade ao menos) pense muito diferente.
Eu não acho. O que vivemos é a “cultura do estupro”, em que normalmente se culpa a vítima.
Tudo que não vejo é ‘crucificar’ o criminoso. No meu caso, toleram meu agressor, e eu que sofro discriminação. Rompi com vários amigos. Deixei e ainda deixo de ir a vários lugares. Sim, descobri na pele que sim, no Brasil – não no Afeganistão – a VÍTIMA que carrega o fardo, a culpa e a vergonha. Não existe NENHUMA vantagem em ser ‘a estuprada’ (pois é como agora se referem a mim, com essa amabilidade toda). Moro na capital do Rio de Janeiro, lido com pessoas teoricamente esclarecidas e muitos formadores de opinião e tenho que viver assim.
Azar o meu que o estuprador usou boa noite cinderela, né? E que o pouco que me lembro de tudo é que tomei um banho. Ou seja, não há provas. Mas SIM, HOUVE UM CRIME. Quem ficou sangrando por 3 dias fui eu. Quem viu os hematomas pelo corpo e uma pancada enorme que levei na cabeça. Infelizmente nada que possa colocar meu agressor na cadeia. Mas que ninguém venha me dizer que não houve um crime, isso é um insulto. Ninguém imagina como me revolta toda essa situação.
Sinto muito. Mesmo. Força.