Delicada, eu? Me inclui fora dessa

Conversava com um amigo por DM. Ele me conhece pessoalmente. Sabe meu nome, meu endereço, tudo. Ainda assim me chamou de Letícia.

“Meu nome é Nádia, porra”, respondi.

Ele retrucou: “Você, como sempre, delicada”.

Eu falei em tom de brincadeira, mas é evidente que ele não percebeu. Tudo bem. Mas isso me leva a outra questão. Eu preciso ser delicada?

Preciso ser fofa, frágil, sensível, doce? Falar baixo, evitar palavrões, não entrar em discussões? Esperam também que eu tenha habilidades manuais, saiba cultivar uma hortinha na varanda, peça ajuda para abrir um pote ou para trocar a resistência do chuveiro?

Pois bem. Eu posso ser/fazer tudo isso, ou nada, ou escolher o que me interessa. Tenho habilidades manuais (faço artesanato, confeito bolos), mas mato todos os pés de manjericão que trago para casa.

Falo palavrão como vírgula, entro em discussão o tempo todo e sou doce e carinhosa em momentos especiais.

Mas por qual razão as pessoas pressupõem que eu (e você) devo ter as características acima? Por que eu sou MULHER, e “mulheres são assim”?

Se um homem se impõe, ele está sendo forte. Se uma mulher faz o mesmo, é louca-histérica-tá-na-tpm. Retirar da mulher a força que ela tem, mas muitas vezes não enxerga, é torná-la fácil de ser controlada.

Assim, se ~valoriza~ certas características como sendo femininas. Nenhuma delas coloca o controle nas mão das mulheres. Elas continuam submissas – e isso não pode ser bom.

Há bilhões de mulheres no mundo e sequer imaginar que todas temos características parecidas, como um bloco uno, é menosprezar todas as nuances do ser humano.

E Letícia é o caralho, meu nome é Nádia Lapa, porra!

Remexendo a velharia

Essa semana não vai ter post novo. Estou com um trabalho grande, tenho muitas dedicatórias para escrever para as pessoas lindas que já compraram meu livro (comprou o seu?), quero sair e ver gente. Enfim. Sem tempo.

Então resolvi colocar alguns posts no ar. Tenho feito isso e sempre linko no Twitter, mas sei que tem quem apareça aqui e nem sabe do que escrevo lá.

Então, vou fazer um post mostrando quais textos voltaram ao ar (gente, são 400 posts ~escondidos~, imaginem!).

Os de hoje são:

Depressão: um dia horrível, outro também (vejam como é impressionante a minha melhora em oito meses!)

(ainda) existe amor em São Paulo

Casamento aberto… de que lado?

Aqui ninguém toca!

E começa tudo de novo…

Na época em que relatava minhas transas, aconteceu um fenômeno irritante: os homens me faziam as propostas mais malucas de sexo. Recebi fotos de pau duro em vários ângulos (lembram do que fez questão de mostrar a marca da vasectomia?), propostas de pagamento por sexo e toda sorte de piração.

Para aquelas pessoas, o fato de eu fazer sexo e ser fácil significava que eu transava com qualquer um, só por eles demonstrarem interesse. Tiravam de mim o que eu sempre prezei muito (e depois do ano passado, mais ainda): a minha vontade.

Evidente que eu já fui para a cama sem morrer de tesão. Já fui por curiosidade, tédio, carência. Mas todos motivos meus. Se o meu interesse casasse com o interesse do outro, ótimo, transemos, então.

Podem dizer que esses caras que me procuravam apenas estavam demonstrando interesse. Não, não. Eu me envolvo com caras há quase vinte anos. E foram muuuuuitos caras. Eu sei quando um cara está flertando comigo e quando ele acha estar fazendo um favor em me comer.

Tanto sei diferenciar isso que conheci vários caras pelo blog e tive ótimo relacionamento com eles. Um leitor virou namorado – o maior amor que eu já tive na vida. Eu poderia, se quisesse, fazer mil homens em um ano, de tantas mensagens recebidas.

Em vez de eu me empolgar com isso, eu broxei. Cheguei a deixar de me interessar pelos moços por algumas semanas. Eu era tratada de um jeito tão esquisito por esses caras que eu fiquei um tempo na paranoia de que todos fossem assim. Não são, claro, mas eu fui soterrada por aqueles e-mails toscos.

Além de se colocarem na posição de “comedores”, tais homens me viam com uma pessoa com um só lado: o sexo. Só isso. Quem continuou lendo meu blog viu muitas nuances da minha personalidade. Mas aqueles caras que liam na época dos relatos criavam na cabeça uma personagem. Provavelmente bem diferente do que sou fisicamente, inclusive.

Eles fantasiavam, e mandavam os e-mails/falavam comigo no Twitter como se eu fosse uma boneca inflável. Sem voz ou vontade. É estranho falar de mim na terceira pessoa, porque a Letícia é parte de mim, sim. Não vou negar nada. Gosto muito de sexo, não preciso de um relacionamento para tirar a roupa, dificilmente vou achar estranha alguma tara.

Mas eu não sou só a Letícia. Tem muito mais coisa aqui (inclusive coisas bem chatas).

Agora, com o livro, isso já voltou a acontecer. Homens chegando perto porque fantasiaram e acharam que eu estou disponível só por ser eu. Eu me sinto mal com isso, muito mal.

Mas já passei por isso, vou passar de novo. Assumi esse risco ao escrever o livro (não digo o mesmo em relação ao blog, porque eu realmente não sabia que as coisas seriam assim). E vou seguir em frente, com a Letícia e todos as outras mulheres que me habitam e me fazem mais forte a cada dia.

A venda do livro

Oi! :D

Se você é de fora de São Paulo e quer comprar o livro com dedicatória, é só clicar num dos ícones abaixo da capa.

Se você é de São Paulo, eu espero vê-la no lançamento, em 5 de novembro, na Livraria da Vila da Alameda Lorena. Mais info aqui.

Durante alguns dias eu vendi livros aqui pelo blog para enviar com dedicatória. Agora, se você quiser comprá-lo, deve se dirigir a uma livraria. Saraiva, Cultura e Livraria da Vila já têm nas lojas físicas.

Lançamento do livro!

~dancinha~

Tá difícil escrever no blog essa semana, porque peguei um frila beeeeem trabalhoso.

Mas preciso contar a novidade!

O lançamento do livro foi marcado! Será dia 5 de novembro, 19h, na Livraria da Vila da Alameda Lorena, nos Jardins, aqui em São Paulo.

Antes dos autógrafos haverá um debate comigo, a Clara Averbuck e a Mayara Medeiros (@brancanoescuro). O assunto? Mulheres: sexo e liberdade. Somos mesmo livres sexualmente?

Vai ser uma noite muito bacana, só com mulheres incríveis (desculpaê, sou também!). :)

 Aqui está o link do evento no Facebook. 

Se você mora em outra cidade e quer comprar um livro autografado e com dedicatória, aguarde mais uns dias que eu informo aqui como você deve fazer. Quem participa do grupo lá no Face já sabe.

Espero vocês lá! Não esqueçam: segunda-feira, 5 de novembro, a gente se encontra!

E a noite foi das mulheres…

Ano passado uma ~leitora~ aqui do blog colocava comentários sempre me xingando. Até ela me comparar com a Beth Ditto, vocalista do Gossip.

“Leticia, imagina se você, a ”gorda-alternativa mór”, iria aprovar o meu comentário sobre as suas seguidoras baba-ovo.
É tão mais fácil apagar, não é?Dou risada de você, se achando tão moderna e vai sobrar feio, minha filha. Com 30 anos parece que pode tudo, né? Espera só um pouco mais pra ver…Te imagino meio Beth Ditto, da banda Gossip: talentosa, do caralho, mas ô gordeta feia do cão! Tá, vc deve trepar pra caramba, so? I feel so sorry for you e por essas minas da sua espécie. Vão sobrar feio!!!hahahaha!”

Gorda e diva!

Eu me senti o máximo, né? Beth Ditto é talentosíssima e DIVOU no sábado, durante o show do Planeta Terra.

Vejam como ela entrou no palco:

Sério, gente. Ela cantou “Oi oi oi” e depois disse “We are the Kings of Leon” (a banda estava tocando na mesma hora). E ainda emendou com Love Long Distance, a minha música favorita deles. Infelizmente não dá para incorporar o vídeo aqui, mas você pode assistir em alta definição no site do Terra.

O show foi tudo de diferente do que se vê no Terra. Como o horário é todo certinho, as bandas acabam fazendo apresentações muito aceleradas e “fechadas”, mas Beth Ditto arrasou e misturou músicas de outras pessoas com as dela.

Segundo o Uol: “De ”What’s Love Got To Do With It”, imortalizada por Tina Turner, a ”La Isla Bonita”, de Madonna, Ditto passou por “Bad Romance”, de Lady Gaga, ”I Wanna Be Sedated”, dos Ramones, “Angie”, dos Rolling Stones, e até “Smells Like Teen Spirit”, do Nirvana. O repertório, que começou com “Love Long Distance”, teve “Eight Wonder” dedicada a uma integrante da banda punk feminista Bikini Kill e “Melody Emergency” para Lil Wayne.”

Se eu sou parecida no talento com essa mulher, hater de plantão, obrigada, obrigada, obrigada e obrigada.

E outro momento mágico foi Only happy when it rains, última música do show do Garbage. Foi como se eu estivesse de novo na pista da Bunker 94, dançando de olhos fechados.

Também consegui ver os moços do The Drums com Let’s go surfing e os do The Maccabees com Pelican. Mas, de fato, minha noite foi das mulheres.

 

Porque sou Feminista com F maiúsculo

A Mariana (@mlaudeauser) me mandou o link de um texto no Huffington Post assinado por Soraya Chemaly.

Como o título do post diz, é sobre feminismo. Ele deixa o questionamento de porque algumas pessoas têm tanta dificuldade em se admitirem feministas. Eu traduzi, mas se você quiser ler no original (eu recomendo que o faça), o link está aqui. Ah, por falar em links, o texto original é cheeeeeeeeio deles. Talvez valha dar uma olhadinha por lá.

Porque eu sou Feminista com F maiúsculo

Katherine Fenton (24) é uma professora de jardim de infância que você provavelmente não conhecia antes de terça feira. Foi ela quem fez a pergunta que deu origem ao frenesi do “binders full of women”. No debate presidencial americano, ela teve a audácia de questionar o que Mitt Romney faria a respeito da diferença salarial entre homens e mulheres. Era uma preocupação honesta, tendo em vista o posicionamento – e endosso   – de Romney acerca de pessoas que dizem coisas como “dinheiro é mais importante para os homens”.

Sabe o que ela ganhou com isso? Um bom e velho “slut shaming” de conservadores. Eles fuçaram  página do Facebook e a conta do Twitter de Katherine para revelar que no passado ela usou álcool e talvez tenha demonstrado interesse em sexo.

Assim como Sandra Fluke, ela é apenas uma chorona que deveria calar a boca e ir pra casa. Bom, talvez Katherine não tenha memorizado o Slut Manifesto (Manifesto das Vadias; traduzirei em breve), mas ela com certeza absoluta sabe que, se um homem fizesse a mesma pergunta, ele não seria tratado dessa maneira.

Assim como o peso de Jim Lehrer não virou assunto na internet, enquanto o de Candy Crowley virou. Chloe Angyal sucintamente apontou no Feministing: “Essa merda toda é sexista, e feminismo é a luta contra sexismo”.

Mas, pergunte a muitos homens e mulheres (inclusive Katherine) e você provavelmente vai receber como resposta um “Eu não sou feminista!”. O que eles são, na verdade, é “Eu não sou feminista, mas…”.

Eles acreditam, no mínimo, no direito da mulher ao voto, em processos seletivos de trabalho sem preconceitos, em salários iguais entre homens e mulheres exercendo a mesma função, na liberdade da “dupla moral” sexual, no direito da mulher em decidir se e quando quer ser mãe, na habilidade delas tomarem suas próprias decisões, na ideia de que a roupa dela não é um passe livre para estupradores, e, bem, já que estamos falando disso, no direito da mulher em usar calças, correr em público e dirigir.

Se você perguntar aos homens, eles devem achar bacana estarem ativamente envolvidos na criação dos filhos, ou terem a liberdade de cozinhar para a família. Aliás, o que eu estou fazendo? Eu não preciso criar essa lista. Aqui vai uma lista fantástica, publicado no Dammit Janet, que deveria ser pendurada em todas as escolas, academias de ginástica e copas de escritórios:

Se você é uma mulher antifeminista e vota – você não lutou por isso.

Se você é uma mulher antifeminista e goza de direitos contratuais e de propriedade – você não lutou por isso.

Se você é uma mulher antifeminista, mas infelizmente se divorciou e ainda assim se beneficiou das mudanças do direito de família (permitindo que você tenha a guarda dos seus filhos, por exemplo) – você não lutou por isso.

Se você é uma mulher antifeminista que faz sexo seguro, incluindo métodos anticoncepcionais e aborto (nós não diremos pra ninguém) – você não lutou por isso.

Se você é uma mulher antifeminista que deseja ou precisa trabalhar “fora de casa” – você não lutou por isso.

Se você é uma mulher antifeminista que trabalha e ganha o mesmo que o seu colega homem sentado na baia ao seu lado – você não lutou por isso.

Se você é uma mulher antifeminista que foi pra faculdade – você não lutou por isso.

Se você é uma mulher antifeminista numa profissão antigamente vista como “masculina” – você não lutou por isso.

Se você é uma mulher antifeminista com direito a denunciar assédio sexual e preconceito no local de trabalho – você não lutou por isso.

Se você é uma mulher antifeminista que precisa de creche para seu filho – você não lutou por isso.

Se você é uma mulher antifeminista que teve licença maternidade para ter esse filho – você não lutou por isso.

E se você é um homem antifeminista cuja mãe, irmã, filha, esposa, namorada e amigas mulheres se beneficiam de qualquer das coisas acima – você certamente não lutou por isso.

(a autora não colocou o finalzinho, que é o seguinte:

Anti-feminist women love to SHRIEEEK: ‘Feminists don’t speak for me!’
No. We don’t. 
But our accomplishments — and ongoing struggles — benefit ALL of you.
You’re welcome.

Mulheres antifeministas adoram reclamar: “Feministas não falam por mim!”.
Não, não falamos.
Mas nossas conquistas – e lutas atuais – beneficiam TODAS vocês.
De nada.)

Muito agressivo pra você? Talvez você esteja se sentindo meio desconfortável? Porque, bem, você sabe… Mas pare para pensar um pouco sobre quem recebe o passe livre para ser raivoso-e-agressivo na nossa cultura. Certamente não são as garotas e mulheres, tampouco os negros. Às vezes a raiva é justificável e cabível.

Não existe uma carteirinha de feminista (se bem que seria bom a mídia tradicional aprender um pouco – o que é difícil com as empresas sendo parte de conglomerados que estão nas mãos de poucos). Também não estou “feminist-shaming” Katherine Fenton. Além disso, só porque uma mulher pergunta sobre igualdade de salários, isso não significa que ela é uma feminista. No entanto, eu estou pedindo às pessoas para pensarem no que elas estão fazendo quando reclamam do feminismo com desdém ou quando se chocam quando alguém os considera feminista.

Marissa Mayer, cujo sucesso não seria possível sem o trabalho e as vidas de feministas que vieram antes da gente, acabou de fazer isso, por exemplo (Marissa Mayer é ex vice presidente do Google que virou CEO do Yahoo; no link indicado há um vídeo em que ela diz que não é feminista).

Quando as pessoas dizem “eu não sou feminista” ou “eu sou feminista, mas…”, elas invariavelmente passam a sensação que isso é um transtorno. Serve como atestado do sucesso de pelo menos 40 anos de backlash conservador, que branda o feminismo como o trabalho demoníaco de mulheres que odeiam homens, agressivas, feias (não há pecado maior), mal humoradas, lésbicas, estéreis. Se alguém além das mulheres (com a ajuda dos seus aliados homens) tivesse feito a revolução social vista nos últimos 100 anos, todas as crianças aprenderiam a respeito (da revolução).

Mas, ao mesmo tempo em que amamos e ficamos mais e mais confortáveis em falar bem e admirar nossos líderes na luta pelos direitos civis, nós ainda sequer começamos a reconhecer as visionárias e revolucionárias que lutam pelos direitos das mulheres.

Esse é só o início. O que nós temos é uma camada fina do verniz da igualdade, que libertou uma geração de mulheres a viverem de um jeito nunca visto antes.

Isso permite que mulheres e homens mais jovens repudiem a palavra. Os mais velhos tendem a não fazer isso. Pesquisas aparecem aqui e ali explicando o fenômeno, como se isso fosse um reflexo da falência do movimento. Mas esses estudos nunca são longitudinais e nunca medem as mudanças no pensamento das pessoas ao envelhecerem. Talvez seja porque as pessoas não consideram as barreiras sistêmicas ou como elas são livres para tomar decisões individuais até elas viverem de maneira diversa por algum tempo.

Desconsiderando a questão da idade, as pessoas têm um sério problema em imaginar o que uma verdadeira liberdade significa. O feminismo é um movimento pelos direitos civis revolucionário e transformador. Nós devíamos ter orgulho das conquistas. Fogos de artifício, desfiles e festas deveriam acontecer para celebrarmos. Estátuas deveriam ser construídas; músicas deveriam ser compostas. Assim como está, nós não temos uma celebração nacional ou um marco público de qualquer tipo atestando os sacrifícios feitos no movimento para assegurar os direitos das mulheres. Pelo contrário: a história do feminismo é enterrada embaixo de uma grande negação.

Nós deixamos uma geração inteira sem conhecer o poderoso legado social do feminismo, e sedada pela ideia de que, como XOJane apontou, “comportamentos antifeministas são feministas porque feminismo dá a possibilidade de escolha”. E, mesmo que a mudança superficial seja melhor que nada, é só superficial de qualquer forma.

Quer a gente queira reconhecer ou não, o feminismo é parte do nosso genoma cultural coletivo e legado democrático. É bagunçado, pleno, conflituoso no seu entusiasmo. Mesmo assim, ele tornou o cotidiano mais fácil, simples, seguro, justo, produtivo, prazeroso e agradável para todos, exceto talvez um grupo de homens muito poderosos.

Só porque o feminismo amedronta bandidos e hipócritas que dependem da negação e manipulação, e alimentam os medos das pessoas, não significa que nós devemos nos aprofundar nas entranhas do backlash e espalhar suas táticas de intimidação. Isso acaba sendo só um desperdício de forças para sermos educados ou menos agredidos por bullies.

Nos Estados Unidos e outras nações “desenvolvidas”, nós podemos nos sentir iguais, mas nossa educação, história, imprensa, língua, tudo conspira para que as mensagens de superioridade dos homens e inferioridade feminina se perpetuem maliciosamente por baixo da superfície.

Você sabe por que garotas e mulheres nesses países têm a obsessão com perfeição?
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Não é por causa das modelos magras ou predisposição à ansiedade. É porque qualquer erro que garotas ou mulheres tenham, qualquer falha humana, um passo errado, é a validação da mensagem cultural de que elas são intrinsecamente inferiores.

Nada de igualdade financeira, representação midiática, autoridade moral, humanitária. A perfeição é o problema que resulta de termos ganhado legitimidade na luta por igualdade numa cultura lutando para manter-se dominante e dirigida por pessoas que não querem abrir mão do poder.

Lembre que essa mesma cultura, repleta de Marias da Penha e Leilas Diniz, faz com que as mulheres sejam responsáveis pela própria desgraça…. tudo, desde colocá-las como culpadas dos próprios estupros, a negá-las direitos reprodutivos. Depois, as castigam pelas “irresponsabilidades pessoais”, passando por considerá-las responsáveis pela própria vulnerabilidade financeira, ignorando que isso é resultado de sistemas econômicos que priorizam os homens como chefes de família.

As palavras são poderosas, e essa – Feminismo – não é menos que as outras. Mas, apesar de despertar medo, o feminismo não é um bloco único, e eu de maneira quero falar em nome de “todas as mulheres” ou “todas as feministas”. Sou só eu, sentada à frente do meu computador.

Eu sei que no movimento mundial pelos direitos das mulheres não há um único jeito de advogar ou militar; tampouco um jeito melhor ou “oficial”. Há tantos modos quanto existem pessoas. Como escritora, eu diariamente luto com as palavras e seus significados, porque elas dizem respeito a privilégios, força e opressão.

Nesse mundo de gente tão diversa lutando por direitos de igualdade, a polarização acontece. Mas, enquanto há incontáveis “feminismos”, o que eles compartilham é a crença que nós somos, ainda que diferentes, igualmente humanos.

Eu não estou maldizendo ou denegrindo a experiência de Humanistas/Feministas ou outros por usarem a palavra “feminista” de maneira autossuficiente. Pra mim, os benefícios reais e tangíveis da luta por fazer com que as mulheres sejam vistas como humanas são desprezados por quem se beneficia diretamente desses benefícios. Nosso inimigo comum é o patriarcado. O sistema patriarcal é opressor pra todos – exceto pouquíssimas pessoas do mundo – e eu incluo quase todos os homens nisso aí. Mas o patriarcado é um sistema construído por humanos; por isso mesmo ele pode ser destruído justamente por humanos.

E é por isso que eu sou Feminista com um F enorme, gordo, barulhento e imperfeito.

Now you’re just somebody that I used to know

Logo no início do livro About a Boy (que virou o filme estrelado por Hugh Grant e a ótima Toni Collete), de Nick Hornby, o personagem Marcus pergunta à mãe se ela terminou um namoro.

Com a resposta positiva, o garoto se perde nos próprios pensamentos. “Ele não pensava que um dia se acostumaria com isso. Ele gostava de Roger [o até então namorado da mãe], e eles três saíram algumas vezes; agora, aparentemente, eles nunca mais se veriam. Marcus chegou a dividir um sanitário com Roger, quando os dois estavam apertados para fazer xixi depois de uma viagem de carro. Você imagina que, se você já urinou com alguém, você deve de alguma forma manter contato com essa pessoa.”

Li o livro há muitos anos, mas essa parte sempre volta à minha mente todas as vezes em que um namoro termina. Dificilmente as coisas fluem com naturalidade. Na maioria dos casos, o término de uma relação gera dor, mágoa, revolta… tristeza. Mesmo quando ambos sabem que não dá mais certo, mesmo quando ambos não sentem mais amor, mesmo quando ambos tomam a decisão.

São muitos planos interrompidos. Por vezes separar-se de um parceiro amoroso significa também deixar para trás outras pessoas por quem temos carinho: parentes e amigos do ex; até o cachorro da casa. Terminar o namoro/casamento implica mudar hábitos.

Eu tenho problemas “especiais” nisso tudo. A análise me fez olhar para os meus términos de maneira diferente – e muito dolorosa. Tenho questões dificílimas com separações. Elas trazem de volta sentimentos do passado que me atormentam. É horrível.

Vocês acompanharam o término do meu último namoro. Quase um Big Brother. Daí essa madrugada, pouco antes de eu dormir, uma pessoa que nós dois conhecemos tuitou algo. Por um milésimo de segundo eu me imaginei comentando sobre aquilo com ele. Imediatamente me toquei que isso jamais irá acontecer, pois a gente não se fala.

De vez em quando esses flashes acontecem. No início eram super frequentes. Na verdade, eles vinham acompanhados de imensa, gigantesca vontade de falar com ele. Eu precisava comentar. A saudade era grande demais. Eu não conseguia imaginar como seria minha vida sem aquela ligação intelectual que tínhamos. Era difícil olhar pra frente e pensar em nunca mais falar com ele sobre livros, reportagens, filmes.

Mas o tempo passa, novos interesses surgem, outros amigos entram em cena. A vontade vai passando… (de vez em quando ela aparece, sem aviso, mas a razão prevalece.) Amanhã tem Planeta Terra e é impossível para mim não lembrar que depois do festival no ano passado eu fui pra casa dele, transamos, dormimos, combinamos um jantar comemorativo para dali a um mês. Nunca aconteceu.

Fica uma tristeza, claro, mas o que me dói em algumas histórias é exatamente o que angustiava o Marcus. Como assim você dividiu tantas coisas e, agora, você sequer fala com a pessoa? Não tem nas redes sociais, não pode dar um telefonema no dia do aniversário, não compartilha conquistas. Zero.

Penso na estranheza de encontrar por acaso uma dessas pessoas do passado com quem compartilhei muito mais que um banheiro e que hoje não sei nem por onde andam. Imagine olhar para quem já esteve tão dentro dos seus pensamentos, lembrar de como a pessoa chora, goza, caminha, fala, gesticula…. e não saber sequer se pode dizer “oi”?

Eu sei que muitas vezes, após o término, é necessário rolar um afastamento. Os sentimentos ficam confusos, e deixar por perto alguém que gostávamos tanto (e que talvez tenha nos magoado profundamente) é “perigoso”. Mas afastar-se para sempre? Trocar número de telefone, como diz a música abaixo? Apagar das redes sociais (mea culpa: faço isso)?

De repente, a pessoa com quem você planejava tantas coisas e compartilhava a vida vira só alguém que você conheceu um dia. Jamais me acostumarei com isso.

Acenda o farol!

Aprendi não sei quando e não sei com quem que deveria esconder o máximo possível os meus mamilos. Bom, não só eles, claro, mas é que eles têm aquela mania de ficarem duros e pontudos em algumas situações.

Sempre que eu fico com frio ou angustiada com um barulho a ponto de me arrepiar (do tipo alguém arranhando com as unhas uma parede), “preciso” olhar imediatamente pra baixo e verificar se os mamilos estão à mostra, ainda que por baixo da roupa.

Se eu estiver usando mil roupas de frio ou sutiã com bojo, fico mais tranquila. Daí outro dia eu desci de vestido – e sem sutiã – para comprar uma coca cola. Enquanto esperava para atravessar a rua, bateu um vento gelado e ~pén~ os faróis acenderam. (esse pén aí é uma buzina, tá? faço sonoplastia quando conto uma história.)

Fiquei meio tensa de passar pelo posto e entrar na loja de conveniência com os peitões enlouquecidos. Afinal, eles já são grandes e algumas pessoas são suficientemente sem noção e ficam olhando direto. Se o farol estiver aceso, então, é como se essas tais pessoas se sentissem no DIREITO de olhar. “Ah, ela está mostrando”, como se fosse uma escolha minha.

Cheguei em casa e perguntei no Twitter se as moças também sentiam vergonha quando o farol acendia. Todas responderam que sim. Perguntei o motivo. Não souberam responder.

O “problema” todo é que há quem fique com os mamilos enrijecidos quando está numa situação sexual. Em algumas pessoas isso rola ainda no momento da excitação (lembram daquele cara que ficou passando a mão freneticamente no meu peito esperando que o mamilo ficasse duro? risos). Outras, depois de gozarem. Algumas, nunca.

Creio que a relação entre o mamilo enrijecido e o sexo esteja na cabeça de muitos. Mais uma vez: como se tivéssemos controle sobre isso e como se eles só ficassem duros quando há sexo envolvido. Esconda os mamilos, que daí também está escondendo que você é um ser sexual. 

Naquela semana eu lia Sexo, Reich e Eu, do Gaiarsa, e ele fala da mesma relação com o pinto. O mamilo seria o “sinal” de quem tem buceta. E o pinto, se estiver duro, também mostra que – oh! – você pode fazer sexo.

Gaiarsa revela: Durante um encontro de amor, fui me dando conta aos poucos de quão equívoca é a presença do pinto na situação amorosa. De um lado ele é essencial; do outro lado, publicamente ele não pode existir. (tipo o seu mamilo, sacou?)

No meu tempo de adolescência sofria agudamente desse conflito:embora a maior parte da minha atividade mental fosse animada e dirigida pela intenção do encontro, aproximação, contato e sexo, apesar disso eu fazia o possível e o impossível para fazer de conta que eu não tinha pinto, ou que ele não tinha função na situação – porque senão todo mundo sairia correndo! Eu percebia e temia assim – levando em conta todo o clima sexualmente negativo do meu mundo de adolescente.

(…) Queria muito integrar o pinto, senti-lo como parte de mim e parte importante da minha força; ao mesmo tempo, fazia um esforço brutal para negá-lo e dizer que ele não existia e não tinha importância! Quando dançava sentia muito medo, um quase pânico de ter uma ereção – e aos poucos não tive mais! Receava muito que as moças ficassem ofendidas se percebessem esse fato – e pelo menos naquele tempo, parte delas ficaria mesmo. 

Não sei se elas ficariam de verdade ou se ficariam por encenação social. Mas ficariam.

Gaiarsa, lá na primeira metade do século passado, escondia o pinto. Temia que ele ficasse duro. Seria desrespeitoso. Mudamos algo? Ou continuamos escondendo nossos mamilos enrijecidos e a ereção peniana?

Não sei se é por causa da repressão sexual que nós nos envergonhamos do farol aceso. Teria que fazer uma análise histórica para bater esse martelo. Sempre que o meu se acendeu numa situação não-sexual, porém, eu fiquei envergonhada.

Pau duro e farol aceso fazem parte de quem somos. É nosso corpo reagindo a estímulos – não necessariamente sexuais. Mas, mesmo que fossem, qual o problema? Estamos (quase) todos aqui no mundo porque pessoas transaram. Muitos de nós gostamos muito da prática. Pra quê a vergonha?

Por isso, desde aquela noite, eu não mais tentei disfarçar meus mamilos. E, se eu fosse você, acenderia o farol sem culpa.

Bullying e suicídio – parte I

Como grande parte de vocês deve ter visto, uma jovem canadense chamada Amanda Todd se matou após sofrer bullying. Para conhecer mais detalhes, leia o post de hoje da Lola. Vi muita gente compartilhando com indignação o caso. Falaram com pesar sobre a perda de uma garota tão jovem. Demonizaram quem praticou o bullying. Defender agressor é que não dá, né?

Mas eu não pude deixar de pensar no papel que desempenhamos nisso tudo. Não exatamente no caso Amanda – mas ela não é, infelizmente, a primeira pessoa a sofrer xingamentos e perseguições, tampouco a última a se matar.

Volta e meia novos casos surgem. Alguns despertam comoção popular, especialmente quando a vítima deixa algum vídeo no YouTube. Na semana seguinte, ninguém toca mais no assunto. Aparece outra pessoa denunciando bullying e ela é zoada. Dizem que é frescura. Aconselham que ela “deixe pra lá”, como se fosse fácil. Menosprezam tudo o que ela diz ou sente.

Ela dá todos os sinais de que não está aguentando. Ainda assim, as porradas continuam pelo lado do agressor, e pouco conforto é recebido para atenuar os machucados. Família, escola, amigos. Quase ninguém estende a mão, dá um abraço, aguenta as crises de choro.

E aí a vítima, sozinha, completa o ciclo. Novo suicídio, nova comoção das redes sociais, novo esquecimento. Nem sempre o fim é tão trágico. Mas me digam se não é uma calamidade que tantos adultos tenhamos problemas sérios de autoestima e amor próprio? Porque na semana passada eu recebi muitos, muitos relatos de gente que está aí, vivinha da silva, respirando, trabalhando, saindo, rindo… mas que por dentro carrega uma dor dilacerante (aliás, faltam três posts da semana da autoestima; eu não estou esquecida, só fiquei ocupada com outras coisas).

Logo, grande parte das pessoas continua vivendo apesar de. Só porque não houve morte, a dor é menos importante? Porque a pessoa conseguiu ser um adulto funcional, então tudo bem xingar, ofender, zoar? Já que o xingamento é direcionado a um adulto, “que deveria ser forte”, ele é menos ofensivo?

Falo da minha experiência. Cada um sente de um jeito e outra pessoa na mesma situação teria reagido de maneira diversa. Como contei aqui há uma semana, eu fui sacaneada na escola e também entre familiares. Criei uma casca grossa. Claro que isso teve consequências na minha autoestima, confiança  e no meu relacionamento interpessoal. Mas, ok, virei um ~adulto funcional~.

Comecei o blog em fevereiro de 2011 e sofri todo tipo de agressão psicológica que vocês podem imaginar. Fui atingida, óbvio. Não vou entrar em pormenores porque já falei a respeito muitas vezes. Isso, juntando com mais um monte de outros problemas, me fez cair em crise depressiva.

Quem lia o blog acompanhou tudo isso. Jamais escondi a minha condição. Escrevi durante toda a crise. Expus o problema no Twitter. E, em 31 de dezembro, tentei me matar. Eu dei todos os sinais. Talvez não aqui no blog (apesar de eu ter falado especificamente sobre ideação suicida), mas com certeza quem estava próximo de mim soube de tudo.

Tanto isso é verdade que meus amigos perceberam o que tinha acontecido – e foram eles que avisaram a minha própria família. Eu me despedi. Eu disse o que estava fazendo. Naquele dia já não era um pedido de ajuda (as pessoas têm mania de dizerem isso sobre quem tenta e não consegue morrer). Eu realmente achei que estava tudo acabado. Só quis dizer tchau e expressar como algumas pessoas eram muito amadas. Quis agradecer; não queria que elas carregassem uma culpa que não era delas.

Mas com certeza era de algumas pessoas. Além da própria existência em si mesma, claro, pois nós, como diria Bukowski, “pedimos mais da vida do que há”.

Falei abertamente sobre a tentativa. Escrevi a respeito. Mencionei em muitas conversas. Muita gente que acompanhou todo o processo da queda no abismo ficou sabendo. Nunca me deram um telefonema. Jamais pediram desculpa por não estarem por perto.

Se eu tivesse morrido, teriam elas emitido comentários pesarosos sobre mim? “Tão jovem! Tinha acabado de se formar, estava mudando de carreira! Tanta coisa pra viver!”

Diriam? Mandariam flores? Encontrariam minha mãe na rua e falariam de mim com os olhos marejados?

Aposto que sim.

Porque socialmente isso é esperado. Você não ~pode~ simplesmente não ligar pra morte de alguém, ainda que você não tenha ligado pra ela em vida. Que monstros nos tornamos? Vestimos mesmo essa capa da hipocrisia?

O que eu vi foi um monte de gente continuando a me dar porrada. Eu estava me recuperando do pior momento que eu já vivi. Mas, como era um ~adulto funcional~, acharam que estava na hora de tentarem quebrar minhas pernas mais uma vez. Novos xingamentos, novos julgamentos. Pedras. Muitas.

Ignoraram o fato de eu estar em recuperação. Eu estava me tratando. Fazendo análise, tomando remédio, me esforçando de maneira absurda. Nada disso importava. O que importava para algumas pessoas era continuar batendo. Se já não tinham respeito por mim quando eu conseguia ficar de pé, quando eu estava caída pareceu ainda mais fácil. E bateram. Continuam batendo. Nenhuma humanidade, nenhuma simpatia, nada.

Hoje algumas dessas pessoas que me agrediram e continuam agredindo tiveram a cara de pau de se dizerem indignados com o caso Amanda Todd. Gente que também xinga, pratica bullying, menospreza a dor alheia. Indignadíssimos! Mas ninguém conhecia a Amanda. Porém, com certeza tem alguém por perto de você (mesmo que virtualmente, como eu estive durante meses) totalmente desamparado. O que você está fazendo para ajudar? O que você fez para empurrar a pessoa cada vez mais pro buraco? A culpa também pode ser sua.

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JURO que o clima vai melhorar aqui no blog. Tenho mil coisas começadas e estou muito animada com.. a vida! Mas alguns assuntos sérios acabam furando a fila. :)

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Uma estudante de jornalismo me procurou para ajudá-la com fontes para uma entrevista. Eis o recadinho dela:

“Olá. Meu nome é Mariana. Sou repórter da revista Jenipapo, produzida por estudantes de Jornalismo da Universidade Católica de Brasília. Estou escrevendo uma reportagem que vai abordar o mercado erótico para mulheres e a vida sexual das mulheres. Gostaria de saber quem toparia ser entrevistada. Gostaria de saber  quais de vocês são casadas e se frequentam sex shops ou casas de swing. Quem topar falar sobre o assunto, favor entrar em contato pelo email: mariana.avilapalhares@gmail.com. Caso solicitado pela fonte, o nome verdadeiro das entrevistadas pode ser mantido em sigilo.”