Bullying e suicídio – parte I

Como grande parte de vocês deve ter visto, uma jovem canadense chamada Amanda Todd se matou após sofrer bullying. Para conhecer mais detalhes, leia o post de hoje da Lola. Vi muita gente compartilhando com indignação o caso. Falaram com pesar sobre a perda de uma garota tão jovem. Demonizaram quem praticou o bullying. Defender agressor é que não dá, né?

Mas eu não pude deixar de pensar no papel que desempenhamos nisso tudo. Não exatamente no caso Amanda – mas ela não é, infelizmente, a primeira pessoa a sofrer xingamentos e perseguições, tampouco a última a se matar.

Volta e meia novos casos surgem. Alguns despertam comoção popular, especialmente quando a vítima deixa algum vídeo no YouTube. Na semana seguinte, ninguém toca mais no assunto. Aparece outra pessoa denunciando bullying e ela é zoada. Dizem que é frescura. Aconselham que ela “deixe pra lá”, como se fosse fácil. Menosprezam tudo o que ela diz ou sente.

Ela dá todos os sinais de que não está aguentando. Ainda assim, as porradas continuam pelo lado do agressor, e pouco conforto é recebido para atenuar os machucados. Família, escola, amigos. Quase ninguém estende a mão, dá um abraço, aguenta as crises de choro.

E aí a vítima, sozinha, completa o ciclo. Novo suicídio, nova comoção das redes sociais, novo esquecimento. Nem sempre o fim é tão trágico. Mas me digam se não é uma calamidade que tantos adultos tenhamos problemas sérios de autoestima e amor próprio? Porque na semana passada eu recebi muitos, muitos relatos de gente que está aí, vivinha da silva, respirando, trabalhando, saindo, rindo… mas que por dentro carrega uma dor dilacerante (aliás, faltam três posts da semana da autoestima; eu não estou esquecida, só fiquei ocupada com outras coisas).

Logo, grande parte das pessoas continua vivendo apesar de. Só porque não houve morte, a dor é menos importante? Porque a pessoa conseguiu ser um adulto funcional, então tudo bem xingar, ofender, zoar? Já que o xingamento é direcionado a um adulto, “que deveria ser forte”, ele é menos ofensivo?

Falo da minha experiência. Cada um sente de um jeito e outra pessoa na mesma situação teria reagido de maneira diversa. Como contei aqui há uma semana, eu fui sacaneada na escola e também entre familiares. Criei uma casca grossa. Claro que isso teve consequências na minha autoestima, confiança  e no meu relacionamento interpessoal. Mas, ok, virei um ~adulto funcional~.

Comecei o blog em fevereiro de 2011 e sofri todo tipo de agressão psicológica que vocês podem imaginar. Fui atingida, óbvio. Não vou entrar em pormenores porque já falei a respeito muitas vezes. Isso, juntando com mais um monte de outros problemas, me fez cair em crise depressiva.

Quem lia o blog acompanhou tudo isso. Jamais escondi a minha condição. Escrevi durante toda a crise. Expus o problema no Twitter. E, em 31 de dezembro, tentei me matar. Eu dei todos os sinais. Talvez não aqui no blog (apesar de eu ter falado especificamente sobre ideação suicida), mas com certeza quem estava próximo de mim soube de tudo.

Tanto isso é verdade que meus amigos perceberam o que tinha acontecido – e foram eles que avisaram a minha própria família. Eu me despedi. Eu disse o que estava fazendo. Naquele dia já não era um pedido de ajuda (as pessoas têm mania de dizerem isso sobre quem tenta e não consegue morrer). Eu realmente achei que estava tudo acabado. Só quis dizer tchau e expressar como algumas pessoas eram muito amadas. Quis agradecer; não queria que elas carregassem uma culpa que não era delas.

Mas com certeza era de algumas pessoas. Além da própria existência em si mesma, claro, pois nós, como diria Bukowski, “pedimos mais da vida do que há”.

Falei abertamente sobre a tentativa. Escrevi a respeito. Mencionei em muitas conversas. Muita gente que acompanhou todo o processo da queda no abismo ficou sabendo. Nunca me deram um telefonema. Jamais pediram desculpa por não estarem por perto.

Se eu tivesse morrido, teriam elas emitido comentários pesarosos sobre mim? “Tão jovem! Tinha acabado de se formar, estava mudando de carreira! Tanta coisa pra viver!”

Diriam? Mandariam flores? Encontrariam minha mãe na rua e falariam de mim com os olhos marejados?

Aposto que sim.

Porque socialmente isso é esperado. Você não ~pode~ simplesmente não ligar pra morte de alguém, ainda que você não tenha ligado pra ela em vida. Que monstros nos tornamos? Vestimos mesmo essa capa da hipocrisia?

O que eu vi foi um monte de gente continuando a me dar porrada. Eu estava me recuperando do pior momento que eu já vivi. Mas, como era um ~adulto funcional~, acharam que estava na hora de tentarem quebrar minhas pernas mais uma vez. Novos xingamentos, novos julgamentos. Pedras. Muitas.

Ignoraram o fato de eu estar em recuperação. Eu estava me tratando. Fazendo análise, tomando remédio, me esforçando de maneira absurda. Nada disso importava. O que importava para algumas pessoas era continuar batendo. Se já não tinham respeito por mim quando eu conseguia ficar de pé, quando eu estava caída pareceu ainda mais fácil. E bateram. Continuam batendo. Nenhuma humanidade, nenhuma simpatia, nada.

Hoje algumas dessas pessoas que me agrediram e continuam agredindo tiveram a cara de pau de se dizerem indignados com o caso Amanda Todd. Gente que também xinga, pratica bullying, menospreza a dor alheia. Indignadíssimos! Mas ninguém conhecia a Amanda. Porém, com certeza tem alguém por perto de você (mesmo que virtualmente, como eu estive durante meses) totalmente desamparado. O que você está fazendo para ajudar? O que você fez para empurrar a pessoa cada vez mais pro buraco? A culpa também pode ser sua.

***

JURO que o clima vai melhorar aqui no blog. Tenho mil coisas começadas e estou muito animada com.. a vida! Mas alguns assuntos sérios acabam furando a fila. :)

***

Uma estudante de jornalismo me procurou para ajudá-la com fontes para uma entrevista. Eis o recadinho dela:

“Olá. Meu nome é Mariana. Sou repórter da revista Jenipapo, produzida por estudantes de Jornalismo da Universidade Católica de Brasília. Estou escrevendo uma reportagem que vai abordar o mercado erótico para mulheres e a vida sexual das mulheres. Gostaria de saber quem toparia ser entrevistada. Gostaria de saber  quais de vocês são casadas e se frequentam sex shops ou casas de swing. Quem topar falar sobre o assunto, favor entrar em contato pelo email: mariana.avilapalhares@gmail.com. Caso solicitado pela fonte, o nome verdadeiro das entrevistadas pode ser mantido em sigilo.”

39 pensamentos em “Bullying e suicídio – parte I

  1. O que eu aprendi deste mundo é que as pessoas são cruéis…Minha família mesmo sempre me jogando pra baixo,busco forças para sair desse abismo que me encontro.Tento o máximo me manter afastada da sociedade,mesmo sabendo que é o pior pra mim..O que me resta é esperar que o meu fim chegue logo já que sou muito fraca para me matar!

    • Você não é fraca. Agradeça (mesmo) o fato da sua mente não ter te feito tentar nada. E se cuide. Peça ajuda. Alguém vai te ajudar. Muita gente me ajudou – só não foram as pessoas que eu esperava. Força.

    • As pessoas sempre nos jogarão pra baixo, pois fazem isso com elas mesmas, imagina se não farão conosco? O jeito é ignorar e se juntar a quem só nos joga pra cima. Mas quem realmente tem que ser a pessoa número um em nossas vidas somos nós mesmos. Então nós que temos que nos dar apoio, compreensão, atenção e realizar todos os nossos desejos. O outro só vai nos respeitar se nos respeitamos. Eu sempre convivi com taxações de burra, incapaz, de ser uma pessoa ruim… mas confesso que era fraca e boba, me deixava contaminar por isso, hoje em dia sou mais forte e me tratam melhor. Me tratam melhor, não porque eles mudaram, mas porque eu mudei e passei a exigir respeito. Tenho certeza de que se eu continuasse a mesma pessoa tonta de antes, o tratamento seria o mesmo ou bem pior. Então foque em si mesma e aprenda a mandar mentalmente o que não presta para um lugar bem feio verbalmente.

  2. Reflexão extremamente pertinente, lúcida e necessária.
    É confortável para qualquer um/a comover-se com uma morte trágica. Questionar como as próprias atitudes contribuem na construção de tal realidade é, porém, incômodo, principalmente para quem se imagina “pessoa de bem” – mesmo reproduzindo conscientemente preconceitos, discriminações e indiferença.

  3. Seus textos sobre a depressão e as pauladas que a gente toma sempre pegam fundo em mim, sabia? É como ver de novo o processo de rejeição que eu sofria em filme. E o pior é que essa coisa de que isso “forma caráter” é uma grande merda. Ser exposto ao abismo da humanidade dessa forma -deforma- a personalidade da gente. Até hoje, vez por outra, eu fico aflito quando alguém me toca ou fala comigo do nada. Eu sempre temo que queiram me violentar (porque isso é violência. Ninguém se engane) do jeito que fizeram quando eu não tinha defesas. E eu nunca sei quanto os meus muros podem aguentar.

  4. no meu caso, quem bate é a família; os “amigos” são omissos e o namorado viu que a barra era pesada demais, ficou assustado e foi embora no pior momento. duas tentativas sérias de suicídio, a última há dez meses, muitos médicos e terapeutas. já experimentei todos os remédios que se possa imaginar: antidepressivos, antipsicóticos, estabilizadores de humor. uma batalha diária, constante, muitos momentos de desespero. e muitas vezes eu acho mesmo que não vou aguentar.

  5. Quando eu estava no primeiro ano do ensino médio, um colega meu também cometeu suicídio, em parte porque sofria bullying. No dia em que a turma recebeu a notícia, todos choraram, se abraçaram, oraram, se mostraram preocupados que o colega iria pro inferno por ter cometido suicídio (!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!) – chegaram até a implorar uma missa de sétimo dia, que normalmente não é realizada em caso de suicídio (ignorando completamente a crença do próprio falecido, veja bem).
    Os mesmos que um dia antes faziam comentários maldosos, tomavam atitudes ameaçadoras e passavam longe, com cara de nojo. Os mesmos que inventavam rumores ofensivos como passatempo, que se vangloriavam quando faziam chorar, que nunca saíram da casca de agressor e se mostraram seres humanos. Confesso que também nunca dei uma palavra de conforto ou doei meu tempo para ouvir o que se passava, mas assumi minha culpa silenciosamente.
    Bom, neste dia não tivemos aula, passaram a manhã inteira chorando. Eu, liguei pra minha mãe e pedi pra ir embora, pois caso contrário não ia aguentar de indignação em ver a hipocrisia alheia, iria abrir a boca e… eu também sofria bullying, melhor não dar mais um motivo, não é? (ou pelo menos na minha cabeça adolescente, hoje teria falado.)

    Obrigada pelo espaço, sempre vivi com isso entalado na garganta e nunca um texto expressou tão bem o que eu senti e ainda sinto quando presencio essas coisas.

    • Eu sinto muito, por tudo. Quando eu estava no primeiro ano, um colega se matou com um tiro. Parece que os problemas eram dentro de casa – na escola ele era popular. Eu fiquei arrasada. Lembro até hoje.

  6. é, letícia. vi o video da amanda todd e mais umas notícias aqui e ali. me comovi porque me identifiquei com ela, pois também tive problemas de integração em vários momentos, e sofri bullying por anos e anos enquanto estava na escola. claro que o caso dela é 1000 vezes mais grave que o meu (eu, como você, também me tornei uma ~adulta funcional~, e ela tirou a própria vida aos 15 anos). o que me surpreende é a quantidade de pessoas que foram coniventes com as agressões sofridas: o pedófilo online, os adolescentes que bateram nela e até os que viram tudo e não fizeram nada a respeito. desconfio que essas pessoas não sejam necessariamente más pessoas – talvez algumas delas sim- mas interpreto isso mais como um reflexo da cultura machista, que condena o comportamento que ela teve. porque, claro, mostrar os seios pra um paquerinha online e dormir com um garoto que já tem namorada (ela provavelmente forçou o garoto a transar com ela, aposto que ele nem queria, hein?) são atitudes imperdoáveis.

  7. Letícia, suas postagens são sempre pertinentes. Você é uma pessoa incrível, inteligente, forte e corajosa, com certeza. Acho ótimo poder ler seu blog e fazer parte do grupo no Facebook. Continue observando e comentando, o mundo nos dá cada dia mais razões para descrermos em tudo, porém, acredito que mesmo nossa participação em querer reverter isso seja pequena, é necessária e importante e faz sim, alguma diferença.

  8. Uma dúvida, por que quando alguém tenta suicídio as pessoas próximas se olham, dão de ombros e perguntam “o que eu poderia ter feito? Nada, né?”.

    Uma amiga recentemente tentou se matar. Pessoas próximas dela, vizinhos inclusive, não fizeram absolutamente NADA. Acharam que as mensagens eram bobagenzinhas. Nem para ir bater na porta e perguntar o que estava acontecendo foram. Eu, morando a 4mil quilômetros dela, fiz meu pai sair de casa às 5h da manhã viajar 200km para ver se ela estava bem. E não estava.
    Quando eu chiliquei com os amigos em comum e com a família dela, recebi como resposta a pergunta acima seguida de uma cara de cachorro abandonado.
    Aí me pergunto: é descaso com a vida do outro, preguiça, é o quê?

    Leticia, daqui uns dias estou viajando pra lá e vou ficar um tempo com ela, alguma dica?

    • Não sei te dizer pq as pessoas agem assim. Não sei. Já não entendia antes de eu mesma tentar. Agora ficou pior, porque além de não entender eu também sofro.

      Eu não sei o que te dizer sobre como ajudar. Seja apenas amiga. Fique junto. Só. :)

  9. Olá Letícia! Conheci o seu blog faz pouco tempo por meio de uma amiga e estou adorando. Confesso que às vezes não concordo com algumas coisas, mas é isso que faz tudo ficar mais interessante, não é mesmo?! Gostei muito do post de hoje, especialmente pelo tema. Eu odeio quando as pessoas dizem que no tempo delas todo mundo era “zuado” e ninguém reclamava. Ser “zuado” é muito diferente de ser humilhado, e só quem passou por isso sabe exatamente a diferença. Eu tenho 22 anos e ainda choro por coisas que ouvia quando tinha 12. É uma dor que ninguém tira de você, é exatamente a dor dilacerante que você cita no texto. Porque transforma toda a sua vida. É a dor que a cada novo fracasso faz você pensar que aquelas “pessoas” tinham razão. A vida é mais difícil para quem passou por isso, a gente passa a vida procurando algo sem saber bem pelo o quê. Tipo uma cura, pois nada é o suficiente. E não adianta, as pessoas não entendem, nem as pessoas que supostamente te amam, como seus pais. Por isso é tão legal se deparar com um texto desses e encontrar pessoas que de alguma forma conhecem a sua dor. Parabéns pelo blog e sucesso!

    • Íris, é claro que alguns casos são mais graves que outros, mas não acho que qualquer zoação seja necessária. Sim, quando eu era criança/adolescente fui cruel muitas vezes. Nem vou dizer com quem e nem como, porque eu esqueci.

      Mas hoje sou uma adulta e tenho que repensar tudo isso, não é mesmo?

      • Não entendi sua resposta…soou como se eu tivesse te questionado por algo que você não gostou. Eu não te conheço, mas quis comentar porque gostei bastante do seu post e acabei contando um pouco da minha história. Era só isso..de qualquer forma obrigada por responder.

      • LETICIA ,

        BEM DURO TAMBEM SOFRER POR QUEM NAO NOS QUER , QUE FAZ CARA DE NOJO , QUE DIZ ‘TCHAU ” DE UM JEITO OFENSIVO ! TRABALHO EM 1 ESCOLA E GOSTEI MUITO DE UMA PROFESSORA E ONTEM ( 29 DE ABRIL DE 2013 ) ELA FEZ CARA DE NOJO E ME DISSE ” TCHAU ” DE MODO OFENSIVO . BEM DURO …. DEVASTADOR !

  10. Letícia, seus posts sempre mexem comigo de alguma forma, mas esse foi especial. Tocou uma ferida que eu cismo em reafirmar que está cicatrizada, mas no fundo não está.
    Sofri bullying na escola nos primeiros anos do ensino fundamental, pelo meu peso, era muito magra, pelo meu déficit de atenção e por não ter tanto dinheiro quanto meus colegas. Fiz terapia e mudei de escola. Fui pra uma escola pública, continuei sendo discriminada, dessa vez porque era mais ~rica~ do que o restante da sala. Só consegui ter amigos quando mudei de escola de novo, já perto dos 14 anos. Aí eu passei a sofrer bullying da minha família, porque eu engordei muito. Também fiz uma carta de despedida. Planejei me matar no meu aniversário de 15 anos. Nessa época eu tive problemas cardíacos, falta de ar e taquicardia. Minha mãe dizia que era drama, pra chamar atenção, que eu sempre fui tão boazinha, que estava ficando rebelde. E depois eu ainda tive uma série de episódios de depressão, de outras tantas somatizações. Hoje eu tenho 24 anos, e me tornei uma ~adulta funcional~. Mas ainda tenho dificuldade de olhar no espelho e me achar bonita, sempre acho que estou gorda demais, tenho dificuldade de acreditar que sou capaz de trabalhar e me sustentar. Faço análise, e é isso que tem me ajudado.

    Parabéns pelo blog Letícia. Não me canso nunca de parabenizá-la. É muito difícil e doloroso falar sobre tudo isso e se expor dessa forma.

  11. Só pensei em suicídio na adolescência, quando era extremamente infeliz e rejeitada na escola. Lembro de ficar horas sentada na janela do apartamento (morava no 9o. andar) pensando se pulava ou não. Depois disso, nunca mais. Infelizmente esse assunto não é abordado, a sociedade nega visceralmente que as pessoas pensam em se matar e cospe na cara de quem ousa falar sobre isso. Amiga, como sempre te admiro muito pela coragem de falar sobre o que a maioria cala. Obrigada.

  12. Alguns programas expõem tragédias porque dão ibope e chamam a atenção de multidões, ou seja, as pessoas dão atenção a tragédias, sentem empatia.
    Só que, infelizmente as pessoas sentem mais empatia nas horas de tragédia com pessoas completamente desconhecidas, (mobilizando doações, cerimônias coletivas e simbólicas etc) do que com as pessoas que estão próximas, pessoas as quais elas realmente teriam que gastar energia e fazer algo. Se esforçar para estar presente, “perder” tempo cuidando da pessoa, dar atenção, carinho, conselho, pelos relatos e pelo caso da Amanda é fácil perceber que no nosso dia a dia, poucas pessoas estarão dispostas a fazer isso. Uma pena, porque todos nós estamos passíveis de precisar de ajuda um dia.

  13. Olha, Let,
    os altos indices de suicidio nos obrigam a uma reflexão das exigencias da nossa sociedade, da nossa completa incapacidade de educar as pessoas para que elas sejam livres e saudaveis, etc. Ainda mais quando as declarações antes do suicidio dizem claramente que a pessoa está fazendo iso porque não suporta mais a escola, a empresa, etc.
    Mas é preciso lembrar que há um fator bastante individual aí.
    algumas pessoas simplesmente não se matariam. Mesmo em situações terríveis. Não estou dizendo que isso é bom/ruim, estou dizendo que há essa diferença, de pessoa pra pessoa.
    E talvez essa própria diferença seja um dos motivos pra algumas pessoas serem tão…alheias, tão incapazes de entender quem está do outro lado.
    Eu mesma tenho uma reação bastante diversa nesse tema. Ao invés de ter pena, ou de ficar indiferente, eu tenho uma raiva danada!!!!!! Pronto falei! E é terrível, eu sei, mas to sendo sincera e sei que isso tãopouco é incomum. É uma forma (bastante infantil) de reagir ao suicidio de alguem que nos importa.
    Enfim, sei que há gente falsa, e completamente incapaz (ou desinteressada) de se conectar com as pessoas ao redor, e sinto muito que essas pessoas sejam tão ausentes e caras-de-pau quando alguém pede socorro. É uma merda, e colegas assim existem a na vida de todo mundo. Mas há as pessoas que de fato se importam, só que não sabam como reagir. Não sabem como ajudar. E quando elas dizem “o que é que eu poderia fazer?” elas não estão apenas lavando as mãos. Estão perguntando mesmo!
    Eu fico felicíssima e muito grata pelo lindo trabalho que vc vem fazendo na elucidação de estereótipos, pra desmascarar a máfia dos esportes de aventura, etc. Acho um privilégio viver numa época em que a gente pode se comunicar dessa forma. Mas de verdade? Me sinto completamente inapta pra dizer um ai que seja quando vc fica mal.
    Até quando vc disse que ia parar o blog eu joguei fora o comentário que escrevi te elogiando e pedindo pra não parar. Pq achava que era cruel te cobrar esta ou aquela postura enquanto vc própria tava vendo o que era melhor pra si. Continuar se expondo ou não.
    Enfim, e se o suicídio da Todd não foi um erro? E se realmente na situação dela aquela era a melhor escolha? Só ela seria capaz de dizer, nem eu nem vc nem ninguem.
    O erro da nossa sociedade não foi a incapacidade de impedir esse ou outros suicídios. Foi a incapcidade de prover uma educação que contemplasse outras possibilidades menos violentas de viver. Essa menina não se matou apenas por não querer continuar a vida que ela levava. Ela se matou porque ela não sabia que era possível levar um outra vida, menos violenta, onde ela não fosse bullyed pra sempre. E aí é que tá a nossa responsabilidade!!! Temos é que construir espaços e relacionamentos não violentos, evitar essa perda do amor proprio muito mais do que remediar depois que ela já aconteceu.
    Curiosamente hoje é dio do Ame Seu Corpo.

    … bom, não me deteste! por favor.

  14. Leticia
    Que triste!
    Ainda bem que sua tentativa de suicidio não deu certo!
    Vc é uma pessoa maravilhosa e, mesmo sem te conhecer, tenho certeza que faria muita falta aqui no mundo!!!
    PS- apesar de ser sua leitora pensei que vc tivesse cogitado o suicidio e não efetivamente tentado…
    Tenho mais nojo ainda das pessoas que presenciaram sua tentativa de suicidio e nada fizeram

  15. Eles fizeram várias montagens dela com os seios de fora no 4chan, e espalharam pela internet (em alguns sites ainda tem). Muito triste o que fizeram com essa menina. O pior é que ninguém ficou ao lado dela, pelo contrário ficaram contra. Triste pensar o quanto as pessoas são más e o quanto podem destruir uma outra.

  16. Leticia, essa é a primeira vez que comento sobre algum assunto aqui na sua página. Sou uma leitora esporádica do blog e infelizmente não acompanhei esse seu período. É provável que eu me sentisse envolvida e procurasse falar contigo. Mas como não vi, não falei e isso, pelo visto, passou, vamos ao post atual. Agora que arranjaram um nome gringo para definir o escárnio nosso de cada dia, parece que as pessoas tem se preocupado um pouquinho mais com isso e com suas vertentes e consequências. Eu fui sempre um alvo irresistível. Usei tampão grudado nos meus óculos fundos, fui muito magra – quando era démodé – e depois fui e ainda estou gorda. Os “coleguinhas” na aula de educação física ficavam a ponto de chorar quando eu sobrava para o seu time e eu ouvi grandes barbaridades. Já tive duas tentativas de suicídio e a última aconteceu esse ano. De tudo isso o que mais me espanta é ver o descaso das pessoas, como você bem disse no seu post. As pessoas fingem que se importam umas com as outras, num conjunto de “comportamento social esperado” e se você não atentar aos detalhes, quase acredita que é real. Na primeira semana de casada descobri que fui amplamente traída e de lá pra cá tenho passado por desgostos “ad infinitum”. Depois da lavagem estomacal, caí na real de que jamais tentarei algo assim novamente e me empenho, desde então, a ser alguém que acrescenta na vida das pessoas, seja virtualmente, ou pessoalmente. Que estejamos atentos as necessidades do nosso próximo, que saibamos calar e também aconselhar com a consciência da importância que há cada uma das palavras que direcionamos. Me desculpa o comentário tão grande. E apesar de não nos conhecermos formalmente, sinta-se a vontade para conversarmos, seja o que for. Tenho simpatia gratuita por você e que Deus a abençoe. ;D

  17. Claro que a gente nunca sabe o que fazer nessas situações. Mas sempre dá pra tentar fazer algo – às vezes, basta uma palavra “boba” de conforto, ou mostrar que se importa… Eu já “salvei” uma amiga do suicídio, fazendo a única coisa que eu achava que estava ao meu alcance na hora – fui rápida, percebi que ela estava dando “sinais” numa conversa pela internet, e assim que ela se despediu, peguei o telefone e liguei pra ela. Nem lembro o que disse, talvez um monte de coisas clichês como “tudo vai dar certo, vc precisa ser forte, isso vai passar”. Mas foi o suficiente pra ela entender que tinha alguém no mundo com quem ela podia contar, ou pra quem ela era importante. isso a fez pensar um pouco mais e desistir da ideia. Hoje, apesar de ainda ter problemas, ela está bem mais feliz.

  18. Sempre sofri bullying e tive várias tentativas de suicídio. Fiz terapia alguns anos, agora estou melhor, só um pouco perdida na vida.

    O bullying normalmente só é percebido nos casos extremos.

    Gostei do seu texto.

  19. Oi Letícia, acredito que hoje você já tenha superado essa deprê né? Bem, eu desde adolescente tinha esses sentimentos depressivos, já pensei em morrer inúmeras vezes, etc. Fui me destruindo, até que tive um namoro bem destrutivo também, saí dele totalmente perdida. O que é bom entre todas essas coisas ruins, é que de uma forma ou outra, a gente fortalece. Depois desse namoro eu vi que tinha algo errado comigo, e comecei a minha jornada “em busca de mim mesma”. Mas claro, as deprês às vezes batem. Este ano comecei a fazer terapia, e cutucar a ferida tem sido difícil. Estou tendo altos e baixos nos últimos 8 meses, desde que comecei a terapia, mas a cada queda me sinto mais forte pra levantar. Por exemplo, ontem entrei em crise, no meu trabalho, por motivos diversos que foram desencadeados por um cara. Parece que vem uma marretada, sei lá, uma coisinha desencadeou tantos pensamentos ruins em mim, me senti perdida, desamparada, uma pessoa horrível. Mas então eu li que a autoestima é sua, ninguém tira de vc, aqui no seu blog, rs… Já me sinto melhor =)

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