A Mariana (@mlaudeauser) me mandou o link de um texto no Huffington Post assinado por Soraya Chemaly.
Como o título do post diz, é sobre feminismo. Ele deixa o questionamento de porque algumas pessoas têm tanta dificuldade em se admitirem feministas. Eu traduzi, mas se você quiser ler no original (eu recomendo que o faça), o link está aqui. Ah, por falar em links, o texto original é cheeeeeeeeio deles. Talvez valha dar uma olhadinha por lá.
Porque eu sou Feminista com F maiúsculo
Katherine Fenton (24) é uma professora de jardim de infância que você provavelmente não conhecia antes de terça feira. Foi ela quem fez a pergunta que deu origem ao frenesi do “binders full of women”. No debate presidencial americano, ela teve a audácia de questionar o que Mitt Romney faria a respeito da diferença salarial entre homens e mulheres. Era uma preocupação honesta, tendo em vista o posicionamento – e endosso – de Romney acerca de pessoas que dizem coisas como “dinheiro é mais importante para os homens”.
Sabe o que ela ganhou com isso? Um bom e velho “slut shaming” de conservadores. Eles fuçaram página do Facebook e a conta do Twitter de Katherine para revelar que no passado ela usou álcool e talvez tenha demonstrado interesse em sexo.
Assim como Sandra Fluke, ela é apenas uma chorona que deveria calar a boca e ir pra casa. Bom, talvez Katherine não tenha memorizado o Slut Manifesto (Manifesto das Vadias; traduzirei em breve), mas ela com certeza absoluta sabe que, se um homem fizesse a mesma pergunta, ele não seria tratado dessa maneira.
Assim como o peso de Jim Lehrer não virou assunto na internet, enquanto o de Candy Crowley virou. Chloe Angyal sucintamente apontou no Feministing: “Essa merda toda é sexista, e feminismo é a luta contra sexismo”.
Mas, pergunte a muitos homens e mulheres (inclusive Katherine) e você provavelmente vai receber como resposta um “Eu não sou feminista!”. O que eles são, na verdade, é “Eu não sou feminista, mas…”.
Eles acreditam, no mínimo, no direito da mulher ao voto, em processos seletivos de trabalho sem preconceitos, em salários iguais entre homens e mulheres exercendo a mesma função, na liberdade da “dupla moral” sexual, no direito da mulher em decidir se e quando quer ser mãe, na habilidade delas tomarem suas próprias decisões, na ideia de que a roupa dela não é um passe livre para estupradores, e, bem, já que estamos falando disso, no direito da mulher em usar calças, correr em público e dirigir.
Se você perguntar aos homens, eles devem achar bacana estarem ativamente envolvidos na criação dos filhos, ou terem a liberdade de cozinhar para a família. Aliás, o que eu estou fazendo? Eu não preciso criar essa lista. Aqui vai uma lista fantástica, publicado no Dammit Janet, que deveria ser pendurada em todas as escolas, academias de ginástica e copas de escritórios:
Se você é uma mulher antifeminista e vota – você não lutou por isso.
Se você é uma mulher antifeminista e goza de direitos contratuais e de propriedade – você não lutou por isso.
Se você é uma mulher antifeminista, mas infelizmente se divorciou e ainda assim se beneficiou das mudanças do direito de família (permitindo que você tenha a guarda dos seus filhos, por exemplo) – você não lutou por isso.
Se você é uma mulher antifeminista que faz sexo seguro, incluindo métodos anticoncepcionais e aborto (nós não diremos pra ninguém) – você não lutou por isso.
Se você é uma mulher antifeminista que deseja ou precisa trabalhar “fora de casa” – você não lutou por isso.
Se você é uma mulher antifeminista que trabalha e ganha o mesmo que o seu colega homem sentado na baia ao seu lado – você não lutou por isso.
Se você é uma mulher antifeminista que foi pra faculdade – você não lutou por isso.
Se você é uma mulher antifeminista numa profissão antigamente vista como “masculina” – você não lutou por isso.
Se você é uma mulher antifeminista com direito a denunciar assédio sexual e preconceito no local de trabalho – você não lutou por isso.
Se você é uma mulher antifeminista que precisa de creche para seu filho – você não lutou por isso.
Se você é uma mulher antifeminista que teve licença maternidade para ter esse filho – você não lutou por isso.
E se você é um homem antifeminista cuja mãe, irmã, filha, esposa, namorada e amigas mulheres se beneficiam de qualquer das coisas acima – você certamente não lutou por isso.
(a autora não colocou o finalzinho, que é o seguinte:
Anti-feminist women love to SHRIEEEK: ‘Feminists don’t speak for me!’
No. We don’t.
But our accomplishments — and ongoing struggles — benefit ALL of you.
You’re welcome.
Mulheres antifeministas adoram reclamar: “Feministas não falam por mim!”.
Não, não falamos.
Mas nossas conquistas – e lutas atuais – beneficiam TODAS vocês.
De nada.)
Muito agressivo pra você? Talvez você esteja se sentindo meio desconfortável? Porque, bem, você sabe… Mas pare para pensar um pouco sobre quem recebe o passe livre para ser raivoso-e-agressivo na nossa cultura. Certamente não são as garotas e mulheres, tampouco os negros. Às vezes a raiva é justificável e cabível.
Não existe uma carteirinha de feminista (se bem que seria bom a mídia tradicional aprender um pouco – o que é difícil com as empresas sendo parte de conglomerados que estão nas mãos de poucos). Também não estou “feminist-shaming” Katherine Fenton. Além disso, só porque uma mulher pergunta sobre igualdade de salários, isso não significa que ela é uma feminista. No entanto, eu estou pedindo às pessoas para pensarem no que elas estão fazendo quando reclamam do feminismo com desdém ou quando se chocam quando alguém os considera feminista.
Marissa Mayer, cujo sucesso não seria possível sem o trabalho e as vidas de feministas que vieram antes da gente, acabou de fazer isso, por exemplo (Marissa Mayer é ex vice presidente do Google que virou CEO do Yahoo; no link indicado há um vídeo em que ela diz que não é feminista).
Quando as pessoas dizem “eu não sou feminista” ou “eu sou feminista, mas…”, elas invariavelmente passam a sensação que isso é um transtorno. Serve como atestado do sucesso de pelo menos 40 anos de backlash conservador, que branda o feminismo como o trabalho demoníaco de mulheres que odeiam homens, agressivas, feias (não há pecado maior), mal humoradas, lésbicas, estéreis. Se alguém além das mulheres (com a ajuda dos seus aliados homens) tivesse feito a revolução social vista nos últimos 100 anos, todas as crianças aprenderiam a respeito (da revolução).
Mas, ao mesmo tempo em que amamos e ficamos mais e mais confortáveis em falar bem e admirar nossos líderes na luta pelos direitos civis, nós ainda sequer começamos a reconhecer as visionárias e revolucionárias que lutam pelos direitos das mulheres.
Esse é só o início. O que nós temos é uma camada fina do verniz da igualdade, que libertou uma geração de mulheres a viverem de um jeito nunca visto antes.
Isso permite que mulheres e homens mais jovens repudiem a palavra. Os mais velhos tendem a não fazer isso. Pesquisas aparecem aqui e ali explicando o fenômeno, como se isso fosse um reflexo da falência do movimento. Mas esses estudos nunca são longitudinais e nunca medem as mudanças no pensamento das pessoas ao envelhecerem. Talvez seja porque as pessoas não consideram as barreiras sistêmicas ou como elas são livres para tomar decisões individuais até elas viverem de maneira diversa por algum tempo.
Desconsiderando a questão da idade, as pessoas têm um sério problema em imaginar o que uma verdadeira liberdade significa. O feminismo é um movimento pelos direitos civis revolucionário e transformador. Nós devíamos ter orgulho das conquistas. Fogos de artifício, desfiles e festas deveriam acontecer para celebrarmos. Estátuas deveriam ser construídas; músicas deveriam ser compostas. Assim como está, nós não temos uma celebração nacional ou um marco público de qualquer tipo atestando os sacrifícios feitos no movimento para assegurar os direitos das mulheres. Pelo contrário: a história do feminismo é enterrada embaixo de uma grande negação.
Nós deixamos uma geração inteira sem conhecer o poderoso legado social do feminismo, e sedada pela ideia de que, como XOJane apontou, “comportamentos antifeministas são feministas porque feminismo dá a possibilidade de escolha”. E, mesmo que a mudança superficial seja melhor que nada, é só superficial de qualquer forma.
Quer a gente queira reconhecer ou não, o feminismo é parte do nosso genoma cultural coletivo e legado democrático. É bagunçado, pleno, conflituoso no seu entusiasmo. Mesmo assim, ele tornou o cotidiano mais fácil, simples, seguro, justo, produtivo, prazeroso e agradável para todos, exceto talvez um grupo de homens muito poderosos.
Só porque o feminismo amedronta bandidos e hipócritas que dependem da negação e manipulação, e alimentam os medos das pessoas, não significa que nós devemos nos aprofundar nas entranhas do backlash e espalhar suas táticas de intimidação. Isso acaba sendo só um desperdício de forças para sermos educados ou menos agredidos por bullies.
Nos Estados Unidos e outras nações “desenvolvidas”, nós podemos nos sentir iguais, mas nossa educação, história, imprensa, língua, tudo conspira para que as mensagens de superioridade dos homens e inferioridade feminina se perpetuem maliciosamente por baixo da superfície.
Você sabe por que garotas e mulheres nesses países têm a obsessão com perfeição?
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Não é por causa das modelos magras ou predisposição à ansiedade. É porque qualquer erro que garotas ou mulheres tenham, qualquer falha humana, um passo errado, é a validação da mensagem cultural de que elas são intrinsecamente inferiores.
Nada de igualdade financeira, representação midiática, autoridade moral, humanitária. A perfeição é o problema que resulta de termos ganhado legitimidade na luta por igualdade numa cultura lutando para manter-se dominante e dirigida por pessoas que não querem abrir mão do poder.
Lembre que essa mesma cultura, repleta de Marias da Penha e Leilas Diniz, faz com que as mulheres sejam responsáveis pela própria desgraça…. tudo, desde colocá-las como culpadas dos próprios estupros, a negá-las direitos reprodutivos. Depois, as castigam pelas “irresponsabilidades pessoais”, passando por considerá-las responsáveis pela própria vulnerabilidade financeira, ignorando que isso é resultado de sistemas econômicos que priorizam os homens como chefes de família.
As palavras são poderosas, e essa – Feminismo – não é menos que as outras. Mas, apesar de despertar medo, o feminismo não é um bloco único, e eu de maneira quero falar em nome de “todas as mulheres” ou “todas as feministas”. Sou só eu, sentada à frente do meu computador.
Eu sei que no movimento mundial pelos direitos das mulheres não há um único jeito de advogar ou militar; tampouco um jeito melhor ou “oficial”. Há tantos modos quanto existem pessoas. Como escritora, eu diariamente luto com as palavras e seus significados, porque elas dizem respeito a privilégios, força e opressão.
Nesse mundo de gente tão diversa lutando por direitos de igualdade, a polarização acontece. Mas, enquanto há incontáveis “feminismos”, o que eles compartilham é a crença que nós somos, ainda que diferentes, igualmente humanos.
Eu não estou maldizendo ou denegrindo a experiência de Humanistas/Feministas ou outros por usarem a palavra “feminista” de maneira autossuficiente. Pra mim, os benefícios reais e tangíveis da luta por fazer com que as mulheres sejam vistas como humanas são desprezados por quem se beneficia diretamente desses benefícios. Nosso inimigo comum é o patriarcado. O sistema patriarcal é opressor pra todos – exceto pouquíssimas pessoas do mundo – e eu incluo quase todos os homens nisso aí. Mas o patriarcado é um sistema construído por humanos; por isso mesmo ele pode ser destruído justamente por humanos.
E é por isso que eu sou Feminista com um F enorme, gordo, barulhento e imperfeito.




Obrigada Letícia por compartilhar e traduzir esse esclarecedor texto!
Amei o texto! Mas só uma correção: no último tópico do texto traduzido tem “Se você é um homem feminista”, quando no original está “anti-feminista”.
Obrigada, Indira. Reli isso mil vezes e não percebi!
A cada texto, eu me vejo mais Feminista.
Muito obrigada por nos presentear com seus textos repletos de conhecimentos.
Sou sua fã, e fã de todas que lutaram para que eu usufrua de tanta coisa hoje em dia.
bjm
O texto não é meu, mas aceito o elogio! :D
Me orgulho de hoje ser considerada feminista por muitos que mim rodeiam. Me orgulho principalmente de ser feminista de fato e coração. Sempre, desde criancinha, tive uma veia feminista. Vim perceber isso depois que comecei a ler seus postes. Adoro ser feminista e o quanto mais puder propagar nossas idéias irei fazer. ;)
Ótimo texto, ótimo post! Obrigada pela tradução e pela divulgação. É díficil entender como uma mulher pode negar as conquistas do feminismo, as dificuldades de ser mulher e achar que ser feminista é negar sua experiência de feminilidade. Muita distorção. Adoro seu blog!
obrigada pelo texto, letícia. parece que vou ter que mostrar pro meu namorado, que até hoje não acredita que eu sou feminista. é que ele relaciona o sufixo “ista” com extremismos, e eu já tentei explicar pra ele que não é bem assim… mas ainda não funcionou. essa semana ele me falou “você não é feminista, é só alguém que luta pelos direitos das mulheres”. e logo meu namorado, uma pessoa super humana e super esclarecida! pra você ver a conotação negativa que o termo tem pra certas pessoas.
Nossa, hiper comum pessoas que , pelo que acreditam, são total feministas, mas veem essa palavra com pavor. No facebook direto, nas discussões, tem alguém que diz que concorda e tal, mesmo sem ser feminista. Eu sempre escrevo embaixo, “fulana, não precisa ter medo de ser feminista, pq vc já é”.
beijo!
Obrigada por compartilhar esse texto. Sempre quis melhorar meus argumentos para poder falar com não-feministas, me ajudou muito. Parabéns pelo seu blog!
Pingback: “Como assim não é feminista?” « Onírico e irônico.
Temos muito o que avançar….Principalmente mudar a mente de mulheres que validam o machismo. Meninas que frequentam blogs machistas e ainda batem palma, depreciando as próprias mulheres…..