Hipocrisia social obrigatória

Essa madrugada soube das fotos e vídeos íntimos de uma jovem que estavam rolando no Facebook. Agora já tiraram do ar, mas eu cheguei a ver. Pior: li os comentários.

Algumas pessoas defendiam a garota, mas basta dar uma olhada no Twitter para ver onde as pessoas chegam para xingar alguém.

“Vazamento” de vídeos e fotos eróticas não é novidade. Com a internet, a coisa se espalha rapidamente. No momento seguinte está todo mundo falando a respeito. O nome da garota tá nos trending topics desde ontem. Aí eu pergunto: por que não está o nome do cara?

Por que em tudo que se refere a sexo a mulher é sempre xingada e julgada, e o cara sai como o COMEDOR, mesmo que tenha feito a cretinice de expor a intimidade do casal?

Foi assim com aquela assessora de Brasília que acabou na capa da Playboy. Ela foi demitida. O cara que estava com ela no vídeo continuou exercendo as funções como se nada tivesse acontecido.

Bom, na verdade, nada aconteceu. O que está errado é darem tamanha importância à sex tape, porque sexo… bom, há sete bilhões de pessoas no mundo. Poucas delas foram geradas com o auxílio dos médicos. Quer dizer: fazemos sexo sim. Pensamos em sexo o tempo inteiro. Queremos que nossas vidas sexuais sejam melhores. Então porque mesmo que nos incomodamos tanto com a vida sexual alheia?

É o que Gaiarsa chama de “hipocrisia social obrigatória”. Todo mundo fode. Quem não fode, quer foder (claro que existem exceções, mas…). O psiquiatra fala sobre “a infinita estupidez humana e sua arte suprema de manter a si mesmo e aos próximos eternamente infelizes. Todos vigiando a todos para que ninguém faça o que todos gostariam de fazer – principalmente amar, rir, dançar, cantar. Só na hora certa, no lugar certo!”.

Eu incluiria um “sem câmeras envolvidas” à última frase acima. Porque isso acontece direto. Lembro ter contado em uma das minhas histórias que tirei algumas fotos. Coloquei a observação: “fique sempre com a câmera”.

Sei que é completamente maluco a gente não poder confiar no cara com quem partilhamos a intimidade. Nem estou falando de amor, mas de respeito. Você imagina que, se está transando com alguém e vocês decidem fazer vídeos e fotos, aquilo ficará restrito ao casal. Pra vocês curtirem, para se lembrarem de bons momentos, para se excitarem.

Infelizmente, não é assim que funciona. Esse material é bastante usado por ex parceiros vingativos e babacas. Se ele (o homem) soubesse que teria o mesmo tratamento ora dispensado às mulheres, ele jamais jogaria o conteúdo online. Jamais.

Mas não estou sugerindo que passemos a tratar os homens da mesma maneira, e sim que passemos a ver o sexo como algo natural e saudável. Não há nada de errado em trepar, em fazer caras e bocas para a câmera, em fazer boquete.

Todos nós fazemos. 

Sexo não tem qualquer relação com caráter; alguém transar muito ou pouco, com diversos parceiros ou só com um; ser celibatário ou ser rodado; nada disso interfere em questões morais.

A exposição e a reação das pessoas ao último caso, sim, dizem respeito ao caráter. Porque se você SABE (não precisa ter mais do que dois neurônios pra isso) que a atitude do ex foi deplorável, mas compartilhou as fotos, você é um (a) babaca, também. Você também pode pensar “e se fosse comigo?” e evitar falar sobre detalhes da anatomia da garota.

Quem compartilha/xinga/zoa é tão criminoso quanto o cara que está nos vídeos.

Ao final disso tudo a garota ficará devastada. Você quer mesmo ser responsável por fazer alguém se sentir mal? De repente acontece uma tragédia, como aconteceu com a Amanda Todd, e todo mundo fica com cara de tristinho dizendo “o bullying tem que parar”. Isso que muita gente está fazendo É bullying!

Mesmo contrariada (porque no meu mundo de faz de conta eu não deveria ter que falar isso), dou algumas dicas para o mesmo não acontecer com você. As pessoas não deixarão de tirar fotos peladas, mas infelizmente é necessário tomar algumas precauções:

  • Nunca, jamais, em tempo algum tire fotos/faça vídeos em que você possa ser identificada facilmente. O rosto, claro, não deve aparecer, mas tatuagens, por exemplo, mostram logo quem você é.
  • Fique com a câmera quando acabarem a brincadeira. Aí você escolhe quais fotos quer compartilhar.
  • Não deixe que as fotos ou vídeo sejam feitos no celular. Isso permite que o cara envie os arquivos imediatamente, sem você ver.
  • Se for fazer uma suruba/ménage, peça aos participantes para deixarem os celulares e câmeras em outro cômodo. É mais difícil controlar se alguém está fotografando com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo (sem contar que esse é um momento para relaxar, não para ficar grilada).
  • Caso vá compartilhar as fotos e vídeos, não envie do seu e-mail pessoal. Crie um outro, totalmente fake, para se resguardar.
  • Não saia com babacas. Sei que essa parte é a mais difícil, porque muitas vezes isso não vem escrito na testa deles, mas observe. Se ele é babaca com outras pessoas, ele será babaca com você.

Divirtam-se. E se cuidem, sempre.

5 desculpas para assédio nas ruas que nós precisamos parar de dar… já

Essa semana falamos no blog sobre o assédio nas ruas. Sempre que o assunto entra em pauta tem uns sujeitos dizendo “tem mulher que gosta”, “isso acontece sempre, pra quê esse mimimi” e afins.

Normalmente quem diz isso é homem, heterossexual, branco. Quer dizer: ele não tem a menor, a mais vaga ideia do que é ser assediado na rua. Algumas de nós, tão acostumadas com ouvir absurdos de estranhos, mudamos certos hábitos e sequer percebemos. Vira quase automático. Conheço quem não coma churros/tome sorvete em público, porque tem homem que aborda para falar bobagem. Às vezes nem precisa da palavra: basta o olhar e a cara de tarado. Ah, mas somos nós que estamos pedindo, né? A gente só come churros/toma sorvete que é para todos os homens do mundo entenderem como estamos loucas pra fazer um boquete num estranho!

Me poupem.

Eu poderia rebater todas as “justificativas” dadas por esses sem noção, mas achei um texto de Zosia Sztykowski que trata bem do assunto. Ela trabalha em uma organização sediada em Washington, nos Estados Unidos, que tem como objetivo acabar com os assédios na rua. Ela elencou cinco desculpas muito usadas e mostrou como elas estão equivocadas.

O original você encontra aqui. A tradução abaixo é minha, totalmente livre.

5 desculpas para assédio nas ruas que nós precisamos parar de dar… já

Por Zosia Sztykowski 

Imagine: é um lindo domingo de dia dos pais em Washington, DC. Um milhão de flores desabrochando marcam a calçada na qual eu caminho em direção ao churrasco de um amigo. Falo com meu pai ao telefone.

Mas antes que eu consiga dizer “Feliz Dia dos Pais”, ouço um “Você é uma gostosa. Posso te dar uma carona?”. Dois caras de carro diminuem a velocidade para acompanharem meu passo.

Respondo que não. Digo para me deixarem em paz. Até eu finalmente perder a paciência e xingá-los de volta, passei dois minutos inteiros ouvindo abusos verbais e gritos da parte deles.

Sou uma vadia, uma piranha, e tudo o que eu posso fazer é caminhar o mais rápido possível e torcer para que uma das várias pessoas que assistem a tudo de suas varandas intervenham.

Elas não fazem nada.

O carro acelera. A voz do meu pai me surpreende. Eu havia esquecido que estava ao telefone.

Não tenho certeza como devo responder à pergunta dele: “Você está bem?”.

Todos os dias, fóruns online como Hallaback, Stop Street Harassment, e o blog da minha organização, Collective Action for Safe Spaces, postam histórias exatamente como esta, ou piores. Dê uma olhada e você verá: quem sofre com assédio não está bem.

Essas pessoas estão com raiva, se sentindo humilhadas, e com medo.

Com raiva porque, se você for mulher, há 99% de chances de você já ter sido assediada sexualmente em público. Na verdade, há 20% de chances de você estar sofrendo com isso desde que você tinha 12 anos (receio que no Brasil a coisa seja pior). Se você é gay, transgênero ou bissexual, há 90% de chances de você ser verbalmente assediado no trabalho ou na escola. Muitos dizem sofrer assédio todos os dias.

Imagine como deve ser sentir, diariamente, que seu corpo ou gênero é propriedade pública para ser comentado, tocado ou abusado por mero capricho.

Humilhadas, porque assédio não acontece em razão de atração sexual. É um lembrete – do agressor para o agredido –  que ele, o agressor, detém o poder de machucar e ofender.

Para muitas mulheres, pode também ser um lembrete de que elas vivem em uma sociedade que as valoriza por pouco mais do que partes do corpo.

Amedrontadas, porque o assédio, não importa se é menos ostensivo, sempre contém a ameaça de violência. Essa ameaça pode ser explícita ou implícita: e se eu não responder do jeito que ele acha que eu devo? Ele vai me seguir? Vai me enfiar dentro do carro dele? E se eu encontrá-lo novamente e estiver escuro? E se eu estiver sozinha? E se ele estiver com amigos?

E mesmo quando as pessoas se posicionam contra o assédio, um monte de gente defende tais ações ou dizem para deixarmos pra lá.

Normalmente o assédio é defendido nos cinco modos abaixo:

1. Assédio é lamentável, mas totalmente normal. Lide com isso.

(eu, Letícia, adoro – só que não – esse tal “lide com isso”. pra qualquer coisa.)

Não há dúvida que esses assédios na rua são “normais” na nossa cultura. É só ver tv, ouvir música ou prestar atenção em anúncios publicitários. Sempre fazem pouco caso do assunto. Mesmo pessoas que são frequentemente assediadas não estão imunes a essa normalização, e muitas lidam com isso fazendo o máximo para ignorar. Por outro lado, os homens héteros tendem a não ter noção da gravidade do problema, pois eles mesmos não assediam desconhecidas – e raramente são assediados.

Mas sentindo ou não os efeitos negativos do assédio, você realmente pode tolerar um mundo em que é “normal” uma amiga, parente ou vizinha se sentindo menos segura na rua do que os homens?

Mulheres costumam evitar contato visual com estranhos e andar sozinhas nas ruas, ou mudam suas roupas e caminhos para evitar o assédio. Pode até parecer bobagem até você entender que, para muitas, esse é um ritual diário – e que nem sempre as deixa seguras.

2. Relaxe! É um elogio!

Se as mulheres fazem tudo isso para evitar assédio (mudar de roupa, não andar sozinha e evitar certos caminhos), elas provavelmente não o consideram um elogio. Elogios de desconhecidos à aparência ou ao corpo costumam deixar as pessoas mais desconfortáveis do que lisonjeadas, especialmente se a sociedade costuma dar valor excessivo à aparência em detrimento de outros valores.

No mesmo sentido, ainda que existam “zonas cinzentas” em que comentários de desconhecidos podem ser vistos como elogiosos e educados, essa não é uma boa desculpa. Mulheres costumam ter seus corpos comentados ou amedrontados em público, e algumas podem não querer ouvir isso, mesmo se a intenção for boa.

É mais importante focar em tratar todo mundo com respeito do que colocar na mulher a responsabilidade de adivinhar se a pessoa está genuinamente gentil ou se está assediando-a.

3. É só uma brincadeira! Homem é assim mesmo… 

Nós já sabemos que, para os agredidos, a experiência de ser assediado definitivamente não é divertida. Esse argumento pressupõe que homens são animais sem nenhum controle sobre seus instintos e nenhuma habilidade para frearem o impulso de machucar os outros.

Sério: se você é homem, você deveria se sentir ofendido com isso.

4. Como fica a paquera? E se eu encontrar A MULHER DA MINHA VIDA no ponto de ônibus amanhã? Você está me dizendo que eu não posso falar com ela?

Já há gente suficiente no mundo acreditando que o feminismo nada mais é do que um plano para interromper a reprodução das espécies. Juro que isso não é verdade! Muitas feministas (homens e mulheres) amam flertar e praticam isso com frequência – mas nós reconhecemos que é necessário duas pessoas para a paquera acontecer.

Dá medo quando a pessoa não deixa o objeto da atenção sozinha, mesmo quando ela deixa bastante claro que não está interessada. Lembre-se que muita gente, por sofrer assédio com frequência, já sai de casa meio desconfiada. É dever de quem está interessado tratar a outra pessoa com respeito e saber o momento de parar.

Quem tinha a intenção de paquerar pode ficar desapontado por suas boas intenções não darem frutos, mas precisam entender que a resposta positiva não é obrigação do outro.

5. O assédio tem tudo a ver com a vizinhança em que você se encontra/qual sua aparência/a roupa que você está vestindo. O que você espera ao sair de casa com essa minissaia?

Errado, errado e muito errado. Assédios acontecem em qualquer lugar e a qualquer hora do dia. Acontece com gente de todas as idades, classes sociais, orientações sexuais. Nas suas formas mais perniciosas, se mistura também com outros preconceitos, como o racismo ou contra pessoas com deficiência.

Como é motivado por sensação de poder e não por atração sexual, o assédio pouco tem a ver com a aparência do agredido. E, assim como nos crimes mais graves de violência sexual, ninguém está “pedindo” pra ser assediado, não importa como esteja vestido.

Roupas sensuais nunca são um convite para assédio ou qualquer forma de violência de gênero.

Quando as pessoas veem como normal e defendem assédio sexual, elas calam aquelas que falariam algo. Mas à medida em que mais ativistas ao redor do mundo se impõem e deixam claro que já fomos longe demais, esses mitos estão sendo chutados pra longe – e é lá que eles devem ficar.

Você já tentou explicar porque assédio nas ruas é errado? Por favor compartilhe sua experiência abaixo.

Excelente propaganda de camisinhas

Enquanto há quem faça apologia ao estupro para vender preservativos, também há quem tenha ideias criativas e sem nenhuma, absolutamente nenhuma alusão a sexo.

O vídeo abaixo foi escrito e dirigido pela jovem francesa Charlotte Rabate, estudante da Tisch School of the Arts, da Universidade de Nova York. O comercial, portanto, não é oficial; é apenas um “exercício”. E ficou demais!

Pra completar, ainda tem Sonic Youth na trilha sonora!

Durex ad long version from Charlotte Rabate on Vimeo.

Viram que bacana? Há quem trate tudo com bom humor e cuidado.

Você não é prato do dia

Durante o feriado rolou mais uma propaganda bizarra da Axe. Nós já sabemos que eles coisificam as mulheres, como se fossemos objetos, mesmo. Nem estou falando de “objeto sexual”, não, mas sim de uma coisa, um enfeite, um peso de porta.

Além de sermos colecionáveis, agora também estamos num cardápio. A “gracinha” no Facebook era a seguinte (infelizmente não salvei e já saiu do ar): “homem não tem agenda de telefone, tem cardápio”.

Feio demais uma empresa se posicionar dessa maneira. É aquilo que já conversamos: essas peças publicitárias passam por um montão de gente até chegar ao público. Ninguém percebe como são equivocadas?

No entanto, é preciso dizer: apesar de ser tosquíssima, a peça representa, sim, o pensamento de parte da população. Muitas das leitoras do blog chegaram aqui por meio de um texto difamatório postado em um outro blog em que o autor SEMPRE chamava as mulheres de “lanchinho”.

Pra ele, a agenda telefônica é, sim, um cardápio.

Muita gente vê o parceiro de sexo casual como uma coisa. Quem leu meu livro viu como eu trato meus moços. Mesmo que seja apenas sexo (e isso já é muita coisa), eles não se transformam em pintos voadores. Não há nada de errado em não pretender namorar com quem você está transando, desde que as intenções estejam muito claras.

Quantas vezes eu fiz sexo só pelo “eu não estou fazendo nada, você também”? Zilhões. Nem por isso eu tratei os caras com descaso, sem me preocupar com o prazer deles. Como diria Gaiarsa (sempre ele, esse lindo): “não esqueça que se trata de uma relação. Que você não está sozinho, que ela [a parceira] está até que bem próxima”.

No entanto, não posso deixar de admitir, com um certo pesar, que provavelmente fui tratada com um “lanchinho”. Que fui coisificada. Tratada como um buraco. Ou como uma bomba de sucção.

Porque antigamente eu pensava “homem é assim mesmo”. Não é o que dizem por aí? Também tinha problemas de autoestima e imaginava que o máximo que iria “conseguir” era aquilo. Que eu não merecia mais. Se eu quisesse, era aquilo. E que me desse por satisfeita!

Os anos foram passando, eu fui crescendo e amadurecendo. Percebi que, mesmo que eu não seja a Gisele Bündchen ou não tenha sido premiada com o Nobel de Literatura, ainda assim eu mereço ser tratada com respeito. Porque eu sou gente, não uma boneca inflável.

Faço sexo casual, adoro e pretendo continuar fazendo. O que mudou foi a qualidade das pessoas com quem me envolvo. Evidentemente às vezes não dá para perceber de cara que ele vai me tratar mal. Se eu tivesse uma bola de cristal…

Mas eu aprendi a dizer “basta” e a interromper certas relações se elas forem de alguma forma prejudiciais à minha sanidade física ou mental. Isso inclui, é claro, ser tratada como uma coisa.

Portanto, reclamemos, sim, de peças publicitárias patéticas e machistas como as da Axe. Mas precisamos nos posicionar também no cotidiano, seja nas relações da “vida real”, seja em como nos comportamos na internet. Como algumas de vocês leram aquele blog da “mulher lanchinho” durante tanto tempo? É porque era com a “outra”? Vale dar uma relida no post de ontem para perceber que a outra também é você. Seguir gente machistinha no Twitter, compartilhar texto de site/blog desrespeitoso, curtir página que faz piada com minoria: tudo isso é corroborar com o comportamento misógino e preconceituoso de quem trata outras pessoas como inferiores.

Nossa publicidade tem que mudar, sim, mas a mudança deve ser muito mais profunda que isso. É uma mudança estrutural, difícil, pesada. Mas ela tem que ser feita. Comece por você.

***

Eu não estou mais vendendo livros aqui no blog. No entanto, como muita gente estava esperando o cartão liberar/a grana entrar, resolvi dar uma última chance aos retardatários. :)

Se você quer comprar o livro com dedicatória, peço que preencha o formulário abaixo. De acordo com o número de pedidos, talvez eu faça uma nova encomenda à editora. Por favor só preencham se realmente tiverem interesse. 

Houve quem emitiu o boleto e não efetuou o pagamento, e isso me deixou no preju. Lembro que o livro está à venda em livrarias físicas e online (o link está aqui).

ATENÇÃO: Isso é uma mera possibilidade, que dependerá do interesse das pessoas. E o envio provavelmente demorará um pouco. Obrigada.

https://docs.google.com/spreadsheet/viewform?formkey=dFdXRGpzRmVtdXNHYVZsM2FoUWtUaGc6MQ

Vadia é a outra

Hoje rolou no Twitter um papo sobre assédio às mulheres nas ruas. Ótimo. Eis um assunto sobre o qual devemos falar sempre. No entanto, a reação foi a esperada: homens dizendo como as mulheres devem se comportar, que devemos levar isso menos a sério, que não poder mexer com alguém desconhecido vai acabar com a paquera; e mulheres julgando o comportamento da outra (essa parte sempre me impressiona).

Mesmo as que estavam reclamando de serem assediadas disseram que “tudo bem” se a mulher invadida na sua intimidade for uma “vadia”. Recolhi alguns comentários por aí:

Há mulheres gostosas que também são inteligentes, têm senso crítico e sabem ser gostosas sem serem piriguetes. Elas têm TODO o meu respeito. As vagabundas que se fodam.

foi o que eu falei… as vagabundas que se fodam… mas eu, por exemplo, to indo pra academia, com roupa de ginástica, de boa…

Se um cara te dá uma cantada, vc escolhe ignorar ou abrir espaço. Se vc se comporta como uma vadia, vão te tratar assim.

Se você sai na rua com uma roupa que é pra chamar a atenção, esteja preparada pra isso. As coisas só acontecem se vc se permite.

Acho escroto mexer com mulher na rua, mas isso SEMPRE vaI existir. Ignore, agora se o cara vir te atacar fisicamente é outra historia.

Ah, então a guria usa uma saia mostrando até o útero e quer que os caras não mexam com ela e respeitem?

guria que anda de modo promiscuo dá liberdade para mexerem e não tem direito de reclamar. Vagaba é vagaba.

Estes são tuites de apenas três pessoas (cada cor é de uma delas), mas representam bem o que li hoje. Pasmem: a primeira e a última são mulheres.
Quer dizer: a regra de “não serás grosseiro na rua” só vale quando a agressão é cometida contra as mulheres que elas dizem merecer respeito. As outras, vestidas de maneira teoricamente errada, podem ser agredidas, sim. 
Quem decide qual roupa e qual comportamento colocam alguém na categoria vadia/periguete? Para muitas pessoas, andar com roupa de ginástica por aí é motivo para xingamento. Afinal, tal indumentária é  bastante colada à pele, deixando as curvas do corpo à mostra.
Se formos mais longe, existem religiosos que veem como corretas apenas as mulheres vestidas com saias longas, blusas sem decote… e até burca.
Sobre o comportamento, as divergências também são conhecidas. Você se considera uma “mulher de respeito” porque só transa com namorados. Seu sonho é casar, seus relacionamentos são monogâmicos, sua primeira transa foi com um cara que você amava muito.
Na sua cabeça, você é uma mulher digna. Não merece ser xingada, assediada, perseguida. Estuprada? Jamais. “Não fiz nada para merecer isso”, você pensa.
Mais uma vez, há controvérsias, se levarmos em consideração a cabeça das outras pessoas. Nem precisamos fazer o exercício de pensarmos nas mulheres de burca – para o catolicismo, religião de milhões de brasileiros, transar sem o fim de reprodução é pecado. Ih, você transa por prazer, né? Hum. E agora?
Tenho uma sugestão: como você não é ditador (a) do mundo, pense que as suas regras não valem para o outro. Se você acha que deve se vestir/se comportar de determinada maneira, faça isso. Há sete bilhões de seres humanos no planeta e jamais conseguiremos viver de acordo com as regras de cada um deles. Já é insuportável termos de seguir as normas dos nossos próprios pais. Imaginem como seria se tivéssemos de acatar decisões de desconhecidos sobre o que devemos vestir, comer, falar.
Pois é exatamente isso que você está fazendo com o outro. Se acha que só por usar aquela minissaia a mulher merece ser punida com um xingamento, suas medidas estão fora do razoável.
Já que não podemos acatar as regras de todas as pessoas, sigamos apenas uma: cada um vive do jeito que achar conveniente, desde que isso não fira o outro. As leis existem e, caso a pessoa infrinja alguma delas, terá de ser responsabilizada. Só. O resto é mera cagação de regra.
Você aponta o dedo e diz “vadia” para alguém que fere alguma das suas regras. Outra pessoa pode fazer o mesmo com você, só porque você está de batom vermelho. Vadia é sempre a outra, mas está na hora de perceber que, ao colocar suas próprias regras como régua do mundo, você está, também, deixando que outrem faça o mesmo. E, na concepção desse alguém, você também é vadia.
Resumindo: vadias somos todas nós. 

Eu, sendo fofa. Mas não se acostumem

Escrever as dedicatórias do meu livro tem se mostrado uma experiência muito emocionante. Eu conheço alguns de vocês, mas como são dezenas de exemplares, adotei uma técnica para escrever algo mais pessoal: procuro em todos os meus e-mails e nos comentários do blog algo que a pessoa já tenha escrito.

E, ao encontrar essas mensagens postadas há meses, é como se vocês tivessem escrito parte da minha história. Quando a pessoa costuma comentar bastante, a emoção é ainda maior. Vejo os primeiros comentários, ainda um pouco tímidos, se transformando em sinceridade profunda. Além de conhecer um pouco mais sobre vocês, rever estas mensagens foi um choque de realidade.

De um ano e meio atrás, leio comentários animados sobre a minha também animada vida sexual. As coisas foram ficando nebulosas, e vocês permaneceram fiéis. Depois fiquei na completa escuridão, com posts muito curtos e totalmente sem esperanças.

No meio desses textos amargos, de vez em quando eu escrevia sobre um pequeno momento de felicidade. Lá estavam vocês, de novo, felizes pelo esboço de recuperação.

Reli vocês me chamando de Nádia pela primeira vez; se indignando comigo sobre o voo duplo; se empolgando com o lançamento do livro.

E aqui temos um dos maiores turning points da minha vida.

Recebi os primeiros convites para escrever o livro em maio/junho do ano passado. Fiquei empolgadíssima. Pensei em trancar a faculdade para me dedicar a isso. Nos meses seguintes, porém, vivi a pior fase de todos os tempos, e adiei os planos (“adiar” = esquecer de tudo).

Já em 2012, em processo de recuperação, recebi outro convite. Aceitei. Mais uma vez, adiei. Eu não conseguia escrever nada. As ideias se embaralhavam na minha mente e eu tinha medo, muito medo de desabar de novo.

Achava que não ia aguentar as críticas que com certeza viriam, que assumir-me como Letícia/Nádia iria atrapalhar minha carreira, que ia ser pra sempre “aquela garota que deu pra todo mundo”.

Quando decidi ir em frente, eu superei meus medos e inseguranças. Eles existem, claro, mas não me impedem de ir em frente. Quero dizer, às vezes ainda impedem, sim, mas essa experiência me fez ver que eu sou capaz de domá-los. Basta uma certa força de vontade e bastante coragem. Isso eu acho que tenho.

Mas nada disso seria possível sem a torcida. Dos amigos, da família… e de vocês. Já li muita barbaridade a meu respeito na caixa de comentários, mas rever tudo esse mês está me enchendo de amor de uma forma que eu havia esquecido como era.

Há um ano eu jurava que o amanhã não ia chegar. Hoje, já comecei a fazer planos para o ano que vem. Novos desafios, que me forçarão a abandonar velhos hábitos. Quero escrever mais e mais e mais (tenho dois livros na cabeça e dois blogs a serem criados), estudar muito e meter a cara em coisas que me dão um certo pânico.

Tenho as companhias ideais para esses projetos malucos. E a melhor torcida do mundo.

Obrigada, obrigada, obrigada. Sou muito grata por todo o apoio recebido aqui no blog.

PS: Amanhã tem post “normal”, sem ser comigo mesma sendo fofa. :)

O ciclo de agressões e o comportamento de manada

Eu não vou dar detalhes ainda. Preciso organizar as informações e aí, talvez, escrever um post explicando tudo. Este texto de hoje é apenas um desabafo que fará sentido só para algumas pessoas.

Todo mundo sabe como as pessoas são cruéis de maneira geral. A internet, acredito, agravou a exposição dessa crueldade. Não só pelo anonimato, que é arma dos covardes. Mas mesmo pessoas que assinam os comentários maldosos tendem a não se importar com o receptor da mensagem. Penso que isso aconteça porque não se está cara a cara e se tem a certeza da impunidade.

Afinal, você não fala coisas deselegantes para seus colegas de trabalho-vizinhos-colegas-da-faculdade. Você pensa, é certo. Mas verbalizar? Difícil. Você reclama no boteco, numa conversa do chat do Facebook, mas ir lá e dizer barbaridades para quem você não gosta? Só quando a coisa já extrapolou os limites da paciência e boa vontade.

Na internet, no entanto, esses limites parecem não existir. Estamos cansados de saber disso. Mas uma situação que me pegou de surpresa há alguns meses foi a agressão dentro de coletivos feministas.

(e é exatamente essa parte que, por enquanto, não darei detalhes.)

Eu não recebi apoio de tais coletivos quando fui agredida pela imprensa. Algumas blogueiras falaram a respeito em seus blogs pessoais; o coletivo, no entanto, jamais se pronunciou a respeito. O G1 me chamou de prostituta? Silêncio. A Época fez texto me chamando de piranha? Cri… cri… cri… A Rádio Globo entrevistou uma falsa Letícia que obviamente me mostrou como uma perfeita idiota? Nenhuma palavra.

Comecei a ver que o famoso “mexeu com uma, mexeu com todas” não valia se essa tal “uma” não era uma puxadora de sacos. Entendam: neste caso, não é uma divergência ideológica dentro do feminismo. Era a grande imprensa me xingando. Ponto.

Se agiram assim em uma situação que não havia dúvida sobre quem era certo e quem era errado, imaginem quando houve discordância entre mim e algumas militantes. As pessoas me criticaram, mas não pararam aí. Conclamaram as demais participantes do coletivo – e aí eu já estava participando do grupo – a me agredirem.

Nenhuma atitude foi tomada para parar tais agressões, que ocorriam comigo, sozinha, assistindo ao espetáculo.

Saí do grupo e me distanciei completamente de qualquer militância.

Quando rolaram meus posts sobre o Papo de Babaca, fui agredida novamente dentro de tal grupo. As agressões foram tão graves que recebi e-mails de apoio de participantes do coletivo que não concordavam com o que estava sendo dito a meu respeito. Vejam: eu não tinha conhecimento do que estava acontecendo, posto que não participava do grupo há meses.

No entanto, acabei recebendo os e-mails em que fui chamada de attention whore, mau caráter e outras coisas do tipo. Semanas mais tarde entrei em contato com o tal grupo, mas as respostas recebidas foram sempre se esquivando de qualquer responsabilidade.

“Somos um grupo autogestionado.” Isso não existe. Para entrar no grupo, é necessário pedir autorização. A qualquer tempo o moderador pode expulsar um membro.

“É impossível controlar o que se fala.” De fato, não há moderação prévia dos comentários. No entanto, certas regras de convivência social não estão escritas, mas devem ser observadas. Eu gerencio um grupo no Facebook com 597 membros. E esse tipo de agressão não acontece por lá – e as pessoas discordam bastante ideologicamente, mas não levam a coisa pro lado pessoal. E, se o fizerem, serão expulsas de imediato.

Tomei certas decisões difíceis sobre o que eu faria a respeito de tais agressões. Com o lançamento do livro, problemas pessoais e alguns projetos novos, eu adiei um pouco a tomada de atitudes. O “tempo” de cada um para reagir a uma agressão é bastante pessoal. Ninguém pode dizer quando o agredido deve se manifestar.

E eu não ia escrever esse post. Quando (e se) o fizesse, eu seria bem específica sobre onde, quando e quem me agrediu. No entanto, nos últimos dias fiquei sabendo de novas agressões a uma militante que, até onde ia meu conhecimento, tinha ótimo relacionamento com a maioria das pessoas do grupo.

Esta militante está sendo agredida de maneira muito cruel. Estão expondo detalhes bastante íntimos da vida dela; as pessoas sabem dessas coisas porque, como disse, eram amigas até discordarem de uma posição ideológica da mesma.

Eu entendo que certas divergências ideológicas cheguem a irritar. Também vejo com naturalidade o famoso “não fui com a cara”. Eu não gosto de incontáveis pessoas. No entanto, apesar de toda a minha conhecida “agressividade”, eu jamais faço comentários desabonadores sobre a PESSOA. Posso fazer piadas sobre um twit, uma frase do texto, mas jamais, em hipótese alguma, faço comentários sobre a PESSOA. E, olha, tenho munição suficiente pra isso.

Eu e a militante agora agredida pensamos de maneira bastante diferente e, inclusive, já nos desentendemos no passado. No entanto, jamais poderei compactuar com agressões covardes feitas a qualquer pessoa. Qualquer uma. Não importa se eu gosto ou não da vítima; agressões são sempre agressões.

O “curioso” (e nada surpreendente, pelo menos pra mim) é que os agressores de agora são os mesmos que me agrediram no passado. Que viram naquele coletivo feminista o espaço correto para conclamar as demais militantes a me “tamancarem”. Pessoas que jamais foram chamadas a atenção e continuaram participando do grupo.

Então, qual a participação do grupo nisso tudo? Bem simples: se você não se posiciona a respeito de uma agressão, você está compactuando com ela. É o que nós, feministas, dizemos a respeito de quem não luta contra o patriarcado ou de quem não denuncia agressões no “mundo real”.

Logo, por qual razão seria diferente quando tais agressões acontecem debaixo dos nossos narizes? Por que o agressor é “amigo”? Sério? Joguemos fora toda a nossa ideologia e compactuemos com bullying e covardia só porque conhecemos a pessoa? Dois pesos e duas medidas? De verdade?

O mais aterrorizante é que o grupo não se posicionou lá atrás, quando aconteceu comigo, tampouco está se posicionando agora. Além disso, as pessoas que nos agrediram não foram expulsas do grupo.

Gostaria de dar mais detalhes a respeito e eventualmente isso irá acontecer. Por enquanto, vocês terão que ficar só com a minha palavra: há alguns coletivos feministas online que são um antro de gente covarde, mesquinha e patética. Posam de boas moças porque ninguém lhes confiscou a carteirinha, mas são ainda piores dos que são assumidamente cruéis.

Há muita gente correta, bacana e humana trabalhando em favor do feminismo. Infelizmente o trabalho dessas pessoas é ofuscado pelas intrigas e agressões perpetradas por uma parte das pessoas.

Também aponto um outro problema. Algumas pessoas se manifestaram a meu favor por e-mail, assim como estão fazendo com essa nova pessoa agredida. Não o fazem em público por medo de alguma retaliação. Eu compreendo o receio, mas não consigo engolir. Omitir-se é fortalecer o lado errado.

Por isso que eu, apesar de, como disse, ter minhas divergências com a moça ora agredida, manifesto claramente meu repúdio aos agressores, que já foram longe demais com sua covardia. Está na hora de pararem. E, no que depender de mim, isso acontecerá.

Quebrando paradigmas: virgindade

Desde o início do blog recebo muitos e-mails questionando sobre virgindade. Nas últimas semanas, é só o que vem pintando na minha caixa de entrada. É muito assustador que as pessoas venham falar algo tão íntimo para uma blogueira desconhecida.

Cadê a educação sexual dessa galera? Onde foram parar as amizades em que se pode falar de tudo? Os pais desses jovens acham que eles nunca farão sexo?

Eu não estou reclamando de escreverem pra mim, vejam bem. Mas temos de pensar seriamente sobre o papel da escola, da família, dos amigos e dos parceiros nessa equação.

Tenho inúmeros posts sobre virgindade. Falo a respeito constantemente e, apesar de dizerem já ter lido todos os textos, quem me escreve continua com dúvidas a respeito da primeira vez.

Penso que essas pessoas talvez não estejam preparadas para fazer sexo. Sentir nervosismo é normal; ter vergonha de ir ao médico, de mostrar o corpo pro parceiro e de se masturbar, não. Pode ser comum, mas não é razoável. Como você pode esperar que outra pessoa te dê prazer, se você mesmo não se sente confortável com seu corpo?

Recebi três e-mails de garotas virgens em faixas etárias diferentes. Todas fazendo questionamentos que não teriam lugar mais se nossa sociedade tratasse o sexo da maneira que deve ser: com seriedade, mas com naturalidade.

Falar sério sobre sexo é necessário porque existem consequências importantes nas nossas vidas quando começamos a transar. Gravidez indesejada e doenças sexualmente transmissíveis podem ser  evitadas, mas para isso é preciso educação.

A primeira das leitoras já passou dos 25 anos e está grilada porque quer “se livrar” da virgindade. Amigos que sabem que ela nunca transou acham absurdo ela ser virgem.

Fico pensando como nós temos uma relação tão doentia com a tal “virgindade”, que não passa de uma construção social. Normalmente as “primeiras vezes” de qualquer coisa são marcantes. De qualquer coisa. Mas a gente não deixa de fazer tais coisas e/ou fica adiando para “o momento certo”. A gente vai lá e faz quando se sente preparado pra isso. Ponto.

Também não consigo entender por qual razão as OUTRAS pessoas se metem na vida sexual de quem não lhes pediu opinião. Recentemente conheci um rapaz um pouco mais novo. Ele deve ter uns 23, 24 anos, por aí. Ele me contou, com uma ponta de orgulho, que transou com cinco garotas. Acha um número bom.

Só que três dessas garotas eram prostitutas – e a parada foi bem “gozou, pagou, vazou”. Não houve intimidade, sexo oral, carinho. Nada. Foi pau-dentro-da-buceta e tchau. Das outras duas, uma das garotas foi uma rapidinha numa festa e só uma foi uma relação sexual, digamos, mais completa.

Quer dizer: ele diz “transei com cinco garotas”, mas na verdade ele só transou cinco vezes – e quatro delas não foi exatamente sexo, e sim um orgasmo acompanhado. O que importa, no final, é um número? É dizer “eu  não sou mais virgem”, mesmo que a sua vida sexual seja assim?

A segunda leitora a me escrever tem vinte anos. Palavras dela: “Mas a questão é: eu não espero um namorado para fazer sexo com ele, não tenho mais isso em mente “só vou transar com meu namorado”. E se ele não chegar? E se demorar e eu continuar virgem? Não que eu esteja muito na seca, é que meu corpo já está pedindo isso há muito tempo, e eu não sei mais o que fazer. A pergunta é: um ficante transaria comigo, se eu quisesse? Ele teria toda aquela responsabilidade, mas será que ele desistiria? E se na hora H eu não disser, ele vai saber que ainda sou virgem?”.

Vinte anos e já está grilada com a idade. Quem foi que estipulou uma IDADE em que se DEVE transar?

Daí ela vem com a pergunta que os filmes e novelas colocaram nas nossas cabeças. A de que é uma GRANDE RESPONSABILIDADE para quem nos “desvirgina”. Gente? A responsabilidade é de ambos, no sentido de se cuidarem para não se engravidar/pegar DST.

Por que alguém não falaria para o parceiro que nunca fez sexo antes? É comum que a primeira vez seja um pouco incômoda, talvez você sangre… então, pra quê esconder?

A terceira leitora é adolescente ainda e tem um namorado há mais de um ano. Ambos são virgens, mas eles já tentaram a penetração. Só que ela se queixa de dor.

“Por algum motivo eu moooorro de agonia com qualquer coisa dentro de mim, já tentei enfiar o dedo mindinho mas só consegui enfiar uns 2cm, eu não sei se é o meu hímen que é meio apertado (descobri recentemente que ele não é um “lacre”, fiquei indignada por não ensinarem isso na escola, aposto que minha ginecologista não sabia disso) ou se é puro medo psicológico.”

É evidente que a ginecologista dela sabe o que é o hímen. Mas eu fiquei pensando: como assim, “um lacre”? Será que as pessoas acreditam que o hímen está logo na entrada da vagina, feito um lacre, sei lá, do vasilhame do catchup?

Por favor, garotas, a menstruação de vocês desce por algum lugar, certo?

Ela então diz que disseram que ele (acho que o hímen) “dilata”. O que acontece com ele é que, com a estimulação (dedos, vibradores), a abertura pode ir aumentando aos poucos, tornando a penetração com o pênis mais fácil.

A vagina, em si, é larga o suficiente para que não se sinta dor na penetração. O que acontece é que, com a tensão, os músculos podem ficar rígidos. Algumas pessoas têm uma condição chamada vaginismo, que é a contração involuntária dos músculos da região pélvica e da vagina. Para diagnosticar isso, porém, é preciso consultar um médico (não é só pensar “nossa, dói, então é vaginismo”. pode ser falta de lubrificação, alergia à camisinha…).

A leitora diz, ainda, que não sente prazer no clitóris e que, inclusive, evita tocar na região. Ela pede ao namorado para que ele acaricie os pequenos lábios, mas não o clitóris. Nem todas as pessoas têm prazer no clitóris, óbvio, mas há que se pensar se a carícia é feita da maneira correta.

Se o parceiro chupa o clitóris como se fosse arrancá-lo e você prefere algo mais leve, o problema não é o clitóris – é o parceiro. Por isso, tentar outros toques e outras posições, bem como usar apetrechos eróticos que façam o serviço sozinhos (há bullets capazes de coisas MUITO gostosas), pode ser uma ótima.

Depois de tantos e-mails sempre perguntando as mesmas coisas, eu proponho que:

1) Tenhamos noção de que não existe idade certa para a primeira vez;

2) Aprendamos, finalmente, que a decisão de transar ou não é pessoal e intransferível. Não é você quem decide isso por um amigo ou um parceiro;

3) Mudemos todo o conceito de virgindade. Há uma carga gigantesca de preconceito, moralismo e culpa em cima disso. Ninguém PERDE a virgindade. O parceiro não leva nada embora; você continua inteiro (a) após transar;

4) Deixemos de ser tão falocêntricos. Costumamos considerar a “primeira vez” só quando um pinto entra numa buceta, mas não é assim. Alguns pintos jamais entrarão em uma buceta, assim como algumas bucetas jamais serão penetradas por um pinto. Mas essas pessoas farão sexo. Só não desse jeito heteronormativo que a gente costuma pensar;

5) Reconheçamos a masturbação como um passo essencial no autoconhecimento. Os garotos são de certa forma incentivados a se masturbarem, enquanto as garotas devem “tirar a mão daí porque é sujo”.

E, além disso, por favor, por favor, por favor: vá ao médico antes de começar a vida sexual. Se você não está preparado para falar sobre sexo com um especialista, você não está preparado para FAZER sexo.

Nove anos de impotência

Há nove anos, enquanto eu provavelmente respondia e-mail de cliente ou fazia alguma piada imbecil no escritório, minha irmã morria.

Desde então, nenhum 12 de novembro é feliz. Posso estar no melhor astral no dia anterior, mas acordar nesta data me corrói por dentro. Todos os sons, cheiros e dores daquele novembro de 2003 voltam com clareza à minha mente. E machuca.

Nos outros 364 dias (e dois 365 desde então), a lembrança dela surge sem aviso. Pode ser por causa de uma música, uma foto encontrada por acaso, um olhar diferente pro quadro pintado por ela pendurado na parede. Às vezes eu choro, em outras eu sorrio pelo prazer de tê-la na minha vida por 23 anos…

Em nove anos, muitos sentimentos já me atordoaram. Tive medo de esquecer da voz e gestos. A saudade, que eu achava que seria crescente, estagnou. No entanto, as minhas memórias mais recentes são sempre meio incompletas. Ela não participou de nada; da minha mudança para São Paulo, do meu aniversário de 30 anos, da minha formatura em jornalismo. Nada. Falta uma peça.

Mas o sentimento que mais me atinge desde a morte da Ana é uma mistura de revolta e impotência. Como muitos de vocês sabem, ela morreu num “acidente” (mil aspas) de asa delta. Ela voava duplo, passeio turístico do Rio de Janeiro, mas o piloto resolveu usar uma  asa velha, sem condições de uso, e ela quebrou no ar. Ambos – Ana e Valtinho – morreram.

Na época, descobri que o voo duplo era proibido (você encontra links explicativos ao final desse post). Desde então, eu tenho tentado: avisar as pessoas sobre a ilegalidade; parar os voos duplos no Brasil inteiro até que a atividade seja regulamentada; responsabilizar quem é responsável.

É um trabalho insano, cansativo, exaustivo emocionalmente. Já escrevi a respeito do tema em todos os meus blogs, na revista em que trabalhei, em e-mails encaminhados aos meus amigos. Dei entrevistas para todas as mídias a respeito do caso.

Enquanto isso, com o trabalho incansável de nosso advogado, meus pais moviam uma ação indenizatória contra as Associações Brasileira e Estadual de Voo Livre (esta última hoje conhecida como “Clube de Voo Livre de São Conrado”). Além disso, entramos com representações junto a todos os órgãos públicos de alguma maneira ligados ao voo duplo (ANAC, Ministério Público, Prefeitura do Rio).

Conseguimos algumas coisas, como o MPF e a Justiça Federal se posicionarem no sentido de que a atividade deve ser paralisada. Nós sabemos que continua acontecendo, agora com os pilotos se fingindo de instrutores e o voo sendo chamado de “aula”.

Mas eu gostaria de falar a respeito da decisão na ação indenizatória. Meus pais venceram a contenda e as associações foram condenadas ao pagamento de indenização. Ainda há alguns procedimentos típicos do judiciário, com os réus tentando a todo custo adiar o trânsito em julgado da condenação.

No entanto, em todos os julgamentos de mérito, as Associações de Voo Livre – brasileira e do estado do Rio de Janeiro – foram CONDENADAS. 

E, apesar da condenação, tudo continua como sempre lá pros lados da Pedra Bonita. É difícil ter alguma fé de que as coisas irão melhorar quando você já fez absolutamente tudo que estava ao seu alcance; quando o judiciário já disse que você está certa; quando a imprensa já te deu voz. E nada mudou.

Esse assunto me desgasta sobremaneira. Estou há nove anos tentando fazer com que outras famílias não tenham seu próprio “12 de novembro”. Falhei. Outras mortes aconteceram. Eu não sei mais o que fazer.

Mas, como ainda me resta uma ponta de esperança, cá estou eu escrevendo de novo. Não voem duplo no Brasil. A atividade é ilegal e ninguém se responsabiliza.

Se eu acreditasse em vida após a morte, eu conversaria com a Ana hoje e diria a ela que ela jamais será esquecida. Que vou, sim, esquecer da voz e de alguns trejeitos, mas jamais me esquecerei do sorriso e das covinhas na bochecha. Como não acredito, só posso pedir para que vocês cuidem dos seus. Um dia eles não estarão mais aí e seu coração vai doer como se tivesse algo perfurando-o. Cuidem-se. Mutuamente.

I’ll always cherish you, my dear. 

Não é negligência, imprudência, imperícia. É dolo – Parte 1

Não é negligência, imprudência, imperícia. É dolo – Parte 2

Não é negligência, imprudência, imperícia. É dolo – Parte 3

O casório da cabra

Eu criei um jeito de saber se devo ou não ler algumas coisas. Quando enxergo a palavra “homossexualismo” no meio do texto, passo batido. O mesmo acontece ao ver “Valerie Solanas” e “Scum Manifesto”. Recentemente incluí “Femen” nessa lista.

Porque, por mais que existam correntes diferentes na militância, ninguém que fala a sério desses assuntos sequer considera utilizar tais termos.

Só que hoje rolou um artigo assinado por J.R. Guzzo, publicado na revista Veja. O título? “Parada gay, cabra e espinafre”. Você com certeza está pensando “o que uma coisa tem a ver com a outra?”. Pois é. Nada, exceto na cabeça do articulista de Veja e de seu diretor de redação que deixou tal aberração ser publicada.

Acabei de ver o deputado Jean Wyllys dizer que fazer piada da Veja é inútil. Eu tendo a concordar na maioria dos casos, mas quando um texto atinge níveis absurdos de preconceito, simplesmente não dá para ficar quieta.

Uma coisa é quando a gente vê esses blogs com 0 comentários em cada postagem. Dá para ignorar. A Veja, por outro lado, é a revista mais lida do país, gostemos disso ou não. Segundo informação do site da Abril, a tiragem semanal da revista ultrapassa 1,2 milhão de exemplares. Cada revista é lida por, em média, oito leitores (porque fica em consultórios, salões de beleza, etc.)

São quase nove milhões de pessoas lendo; não dá para simplesmente ignorar.

Fingir que essa revista não tem importância é ser muito ingênuo ou muito burro. Tem, sim. Pode não ter diretamente na sua vida, mas a Veja é, sim, a revista mais importante do país.

Bom, isto posto, passemos à análise do texto publicado na edição dessa semana. Eu não vou copiá-lo inteiro; a @bruxaOD já o fez (e vocês encontram aqui). O artigo é todo ruim, mas algumas partes parecem saídas de uma obra de realismo fantástico. Uma obra ridícula, diga-se de passagem.

O *autor* começa assim: “Já deveria ter ficado para trás no Brasil a época em que ser homossexual era um problema.”. Eu não poderia concordar mais. Você até pensa que pode ser um texto positivo, apontando como ainda somos preconceituosos, como  a vida sexual do outro ainda nos  importa, etc, etc. Mas ele não poderia terminar nessa frase. Ele vai além.

Na segunda frase ele manda um “homossexualismo”, o que já seria motivo para eu deixar o texto de lado, como disse no início do post. Porém, Guzzo comete verdadeiras atrocidades:

Ainda agora, na eleição municipal de São Paulo, houve muito ruído em tomo do infeliz “kit gay” que o Ministério da Educação inventou e logo desinventou, tempos atrás, para sugerir aos estudantes que a atração afetiva por pessoas do mesmo sexo é a coisa mais natural do mundo.

Mas é, moço. É a coisa mais natural do mundo.

Mas aí é que está: apesar de sua aparente ineficácia como caça-votos, dizer que alguém é gay, ou apenas pró-gay, ainda é uma “acusação”.

Verdade. Não é louco isso? Chamar alguém de “gay” (ou mulherzinha, viadinho, bichona) É ofensivo. Em 2012.

Para a maioria das famílias brasileiras, ter filhos ou filhas gay é um desastre – não do tamanho que já foi, mas um drama do mesmo jeito.

E o seu texto, senhor Guzzo, será lido por incontáveis pais e mães por aí – eles continuarão morrendo de medo dos filhos um dia se assumirem homo ou bissexuais. Well done!

O kit gay, por exemplo, pretendia ser um convite à harmonia – mas acabou ficando com toda a cara de ser um incentivo ao homossexualismo, e só gerou reprovação.

(segure o vômito a cada vez que esse senhor usa a palavra “homossexualismo”.)

Gerou reprovação de quem? Quem achou que era um incentivo à homossexualidade? É um incentivo à aceitação da diversidade, o que é bem diferente.

O fato é que, de tanto insistirem que os homossexuais devem ser tratados como uma categoria diferente de cidadãos, merecedora de mais e mais direitos, ou como uma espécie ameaçada, a ser protegida por uma coleção cada vez maior de leis, os patronos da causa gay tropeçam frequentemente na lógica – e se afastam, com isso, do seu objetivo central.

Os gays lutam pelo quê? Pelo direito de não serem discriminados na rua. De se casarem legalmente. Isso é querer mais ou mais direitos? Esses direitos já não são garantidos a quem é hetero? Os gays não querem ter MAIS direitos; querem ter os MESMOS direitos.

E ele ainda arremata o parágrafo com um “estão se afastando do seu objetivo central”. Adoro essa gente que não conhece uma vírgula da militância e diz o que o OUTRO deve fazer. Só que não.

O primeiro problema sério quando se fala em “comunidade gay” é que a “comunidade gay” não existe – e também não existem, em consequência, o “movimento gay” ou suas “lideranças”. Como o restante da humanidade, os homossexuais, antes de qualquer outra coisa, são indivíduos.

Não estou falando? É ele quem sabe o que é a militância, minha gente! Que gênio!! Ah, guardem a frase do “os homossexuais, antes de qualquer coisa, são indivíduos”. Em breve ele irá se contradizer nisso.

Na verdade, a única coisa que têm em comum são suas preferências sexuais – mas isso não é suficiente para transformá-los num conjunto isolado na sociedade, da mesma forma como não vem ao caso falar em “comunidade heterossexual” para agrupar os indivíduos que preferem se unir a pessoas do sexo oposto.

Aqui o autor usa uma falsa simetria. Indico este texto do Tulio Vianna a respeito.

Outra tentativa de considerar os gays como um grupo de pessoas especiais é a postura de seus porta-vozes quanto ao problema da violência, imaginam-se mais vitimados pelo crime do que o resto da população. (…) Os homossexuais são vítimas de arrastões em prédios de apartamentos, sofrem sequestros-relâmpago, são assaltados nas ruas e podem ser mortos com um tiro na cabeça se fizerem o gesto errado na hora do assalto – exatamente como ocorre a cada dia com os heterossexuais; o drama real, para todos, está no fato de viverem no Brasil. E as agressões gratuitas praticadas contra gays? Não há o menor sinal de que a imensa maioria da população aprove, e muito menos cometa, esses crimes; são fruto exclusivo da ação de delinquentes, não da sociedade brasileira.

Risos eternos. É a mesma falácia de quem diz que não existe violência de gênero. Nem todos os crimes perpetrados contra mulheres, gays ou negros são por causa do machismo, homofobia ou racismo. Mas há crimes cometidos SÓ por causa disso.

Evidente que a “imensa maioria da população brasileira” não concorda com isso. Imaginem se 100 milhões de brasileiros cometessem crimes. De qualquer tipo. Pois é.

Qualquer artigo na imprensa que critique o homossexualismo é considerado “homofóbico”; insiste-se que sua publicação não deve ser protegida pela liberdade de expressão, pois “pregar o ódio é crime”. Mas se alguém diz que não gosta de gays, ou algo parecido, não está praticando crime algum – a lei, afinal, não obriga nenhum cidadão a gostar de homossexuais, ou de espinafre, ou de seja lá o que for. Na verdade, não obriga ninguém a gostar de ninguém; apenas exige que todos respeitem os direitos de todos.

Outra preguiça: quando levantam o discurso da “liberdade de expressão”. Sou super a favor de qualquer liberdade; no entanto, as pessoas devem ser responsabilizadas pelo que fazem ou dizem. O que se espera é isso: responsabilização.

E, nossa, o espinafre deve ficar realmente muito chateado quando alguém não gosta dele, né? Ops, espinafre não é gente? Hum. Aguarde que já já o autor coisifica DE NOVO os homossexuais.

Há mais prejuízo que lucro, também, nas campanhas contra preconceitos imaginários e por direitos duvidosos. Homossexuais se consideram discriminados, por exemplo, por não poder doar sangue. Mas a doação de sangue não é um direito ilimitado – também são proibidas de doar pessoas com mais de 65 anos ou que tenham uma história clínica de diabetes, hepatite ou cardiopatias.

Eu também não posso doar sangue, pois sou tatuada e “promíscua”. Lá na década de 1980, quando o HIV ainda era um vírus quase desconhecido, tal restrição até fazia sentido. Hoje, com o avanço da medicina, manter tais proibições é puro preconceito. Não existe mais “grupo de risco” baseado no que se faz na cama. Diabéticos e cardiopatas não doam sangue porque isso pode fazer mal a eles mesmos (como pessoas até 50 quilos). Hepatite é transmissível pelo sangue.

O mesmo acontece em relação ao casamento, um direito que tem limites muito claros. O primeiro deles é que o casamento, por lei, é a união entre um homem e uma mulher; não pode ser outra coisa. Pessoas do mesmo sexo podem viver livremente como casais, pelo tempo e nas condições que quiserem. Podem apresentar-se na sociedade como casados, celebrar bodas em público e manter uma vida matrimonial. Mas a sua ligação não é um casamento – não gera filhos, nem uma família, nem laços de parentesco.

Os limites foram impostos por quem?

Se casais homossexuais podem livremente viver como casais, celebrar bodas e manter uma vida matrimonial, isso não é um casamento? Daí você pode se perguntar por qual razão, então, os gays querem um papel. Porque sim. Porque faz parte da nossa cultura, porque é válido para questões de herança, para o plano de saúde, para comprar um apartamento.

Um homem também não pode se casar com uma cabra, por exemplo; pode até ter uma relação estável com ela, mas não pode se casar. Não pode se casar com a própria mãe, ou com uma irmã, filha, ou neta, e vice-versa. Não poder se casar com uma menor de 16 anos sem autorização dos pais, e se fizer sexo com uma menor de 14 anos estará cometendo um crime. Ninguém, nem os gays, acha que qualquer proibição dessas é um preconceito. Que discriminação haveria contra eles, então, se o casamento tem restrições para todos?

Essa parte é, talvez, a mais inacreditável. Como pode? E, aparentemente, a direção da revista achou SUPER bacana, porque a ilustra do artigo… é uma cabra.

A mais nociva de todas essas exigências, porém, é o esforço para transformar a “homofobia” em crime, conforme se discute atualmente no Congresso. Não há um único delito contra homossexuais que já não seja punido pela legislação penal existente hoje no Brasil. Como a invenção de um novo crime poderia aumentar a segurança dos gays, num país onde 90% dos homicídios nem sequer chegam a ser julgados? A “criminalização da homofobia” é uma postura primitiva do ponto de vista jurídico, aleijada na lógica e impossível de ser executada na prática. Um crime, antes de mais nada, tem de ser “tipificado” – ou seja, tem de ser descrito de forma absolutamente clara. Não existe “mais ou menos” no direito penal; ou se diz precisamente o que é um crime, ou não há crime. O artigo 121 do Código Penal, para citar um caso clássico, diz o que é um homicídio: “Matar alguém”. Como seria possível fazer algo parecido com a homofobia? Os principais defensores da “criminalização” já admitiram, por sinal, que pregar contra o homossexualismo nas igrejas não seria crime, para não baterem de frente com o princípio da liberdade religiosa. Dizem, apenas, que o delito estaria na promoção do “ódio”. Mas o que seria essa “promoção”? E como descrever em lei, claramente, um sentimento como o ódio?

Esse parágrafo me irrita sobremaneira. Isso porque, para quem não entende muito bem como acontece a tipificação de um crime, pode parecer fazer sentido. Mas só parece. É evidente que há meios de se tipificar um crime de ódio. Não é porque o ódio é um “sentimento” que ele não pode ser mensurado.

No mesmo artigo 121 citado pelo articulista existe a forma tipificada do crime, conforme abaixo:

§ 2º - Se o homicídio é cometido:

I - mediante paga ou promessa de recompensa, ou por outro motivo torpe;

II - por motivo fútil;

III - com emprego de veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura ou outro meio insidioso ou cruel, ou de que possa resultar perigo comum;

IV - à traição, de emboscada, ou mediante dissimulação ou outro recurso que dificulte ou torne impossível a defesa do ofendido;

V - para assegurar a execução, a ocultação, a impunidade ou vantagem de outro crime.

Nossa, como vamos identificar o que é um motivo torpe ou fútil, senhor Guzzo? Pois é. É por isso que as pessoas estudam doutrina e jurisprudência! Direito não é a mera aplicação das leis, meu caro.

Os gays já percorreram um imenso caminho para se libertar da selvageria com que foram tratados durante séculos e obter, enfim, os mesmos direitos dos demais cidadãos.

Opa! Menos o casamento, porque isso aí é só pra quem pode procriar.

Bom, acabei copiando quase todo o artigo. Há outras frases escritas por esse senhor que renderiam verdadeiras teses de mestrado. É muita merda e preconceito junto. Há um longo caminho pela frente, amigos. Sigamos.