Respeito à mulher. Entre nesse bloco

A dica foi da leitora Maria Fernanda, que é de Salvador. A Secretaria Estadual de Políticas para as Mulheres da Bahia criou uma campanha para evitar os abusos no carnaval. Muito bacana, até porque diz diretamente: é crime. Com outdoors, banners e camisetas, a Secretaria quer acabar com aquelas coisas que a gente vê à força na televisão.

Segue a íntegra da notícia:

Este ano a Secretaria Estadual de Políticas para as Mulheres (SPM) participa do Carnaval de Salvador com a campanha Respeito à mulher. Entre nesse blocoA campanha é uma grande sensibilização para a questão da violência contra a mulher, que no carnaval é disfarçada pela folia e aceita com naturalidade por aqueles que praticam e presenciam atos que ferem a integridade física e moral das foliãs durante a festa. A SPM quer estimular toda população a se comprometer com um carnaval sem violência e com respeito às mulheres para que a nossa maior festa seja de alegria e paz para todos e todas.

A peça principal da campanha é um jingle (ouça aqui) de um minuto, que promete animar a galera com uma mensagem simples, divertida e sensibilizadora. Ainda serão veiculados busdoor, outdoor, peças para redes sociais, ventarola, adesivo, blimp (balão), entre outras. Também teremos banner, camiseta, e-mail marketing e anúncios nos principais sites, tudo isso nas estratégias de propagação da cultura de paz durante a folia. Divulgue, entre nesse time você também. Porque neste Carnaval, toda mulher merece respeito.

Veja nossas principais peças da campanha Repeito à mulher. Entre nesse bloco:

OBS: Para ver todas as peças, clique aqui.

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Santa Maria e o Estado-Em-Coma

Ontem, ao acordar, fui tomada por tristeza e angústia pelas vítimas em Santa Maria. À exceção de alguns (infelizmente muitos) seres sem noção que fizeram piada a respeito do assunto, acredito que todos nós sentimos o mesmo. Lamentamos profundamente a perda de tantas vidas.

Eu lamentaria a perda de uma só vida, em quase qualquer circunstância, mas especialmente quando o óbito se deu em razão da irresponsabilidade alheia. O ocorrido no Rio Grande do Sul foi uma sequência de erros criminosos, sobre os quais você pode ler nesse excelente texto.

A tragédia transformou a vida dos familiares e amigos, além dos moradores da cidade. Mas nós, que estamos longe, como somos também influenciados por isso? Fiquei pensando em todas as vezes que saí de casa e, sim, procurei a saída de incêndio dos locais fechados. Parece paranoia, mas sempre tive esse cuidado.

Lembro de quando eu era jovem, bem jovem, e ia numa boate ali na Bartolomeu Mitre, no Leblon. Acho que o nome era People. Era uma night super playba. Ficava no subsolo. No térreo havia um restaurante, se me lembro corretamente. Daí você descia uma escadinha  e, bom, aquela era a única saída caso algo ruim acontecesse.

Nos meus ótimos tempos de Bunker, em Copacabana, sabia que havia duas saídas – mas uma delas parecia estar constantemente fechada, a fim de evitar que saíssemos sem pagar, claro. As duas portas eram viradas para a mesma rua, enquanto as pistas de dança eram no fundo do imóvel. Logo, caso o incêndio acontecesse na parte da frente da casa, nós ficaríamos encurralados e não teríamos como escapar.

Sim, eu pensava nisso tudo quando tinha 18, 19 anos. Por isso, fiquei surpresa quando a prefeitura do Rio fechou outro local, o Espaço Marun (também foi Nautillus), no Catete, e foi criticada. Lembro das pessoas indignadas. “O Cesar Maia quer acabar com a cultura do Rio!”, reclamavam. O local não tinha qualquer plano de escape em caso de incêndio, funcionava sem alvará, um horror. Mas no país do “jeitinho”, o que a galera queria era ir dançar música das nossas infâncias, moda à época. Foda-se se os extintores estavam vencidos.

Reconheço ser impossível chegar em qualquer lugar – restaurante, cinema, boate, casa de show – e falar “amigão, me mostra aí o alvará, o seu plano em caso de incêndio, o último treinamento dos funcionários” e por aí vai. Você está indo se divertir e, se o negócio está aberto ao público, com letreiros grandes na fachada (em SP, nem tão grandes), propagandas na televisão e nas redes sociais, você não teria razão para desconfiar do mau funcionamento do mesmo.

Afinal, o poder público está aí para fiscalizar, não é mesmo?

Ter ou não ter o alvará não significa muito por aqui. Conheço empresários sérios que andam na linha, mas simplesmente não conseguem ter o documento emitido. Alguém na prefeitura, devidamente assalariado, enrola para dar o alvará. Porque faz parte de um “esquema”. Se você pagar, eles “agilizam”. E, em tal panorama, é claro que há empresários nada sérios se aproveitando do artifício da propina.

Então, como se proteger nessas circunstâncias?

Difícil, bem difícil. Até porque, em tese, isso não caberia a você. O Estado tem o poder-dever de fiscalizar; não pode simplesmente cruzar os braços e fingir que não é com ele. No entanto, assim como às vezes tenho de escrever dicas de como se proteger de potenciais agressores, também já escrevi sobre como notar que há algo errado – e salvar sua vida.

Quando trabalhava em redação, fiz uma matéria sobre como ver se determinada atividade de turismo de aventura era legal. Lembro de uma das dicas: se a pintura do lugar estiver descascando e houver fiação exposta, fuja. Afinal, se o cara não se preocupa em comprar um galão de tinta ou uma fita isolante, ele com certeza não gasta dinheiro em treinamento e segurança.

Foi o que senti quando fui ao Hopi Hari pela última vez. Estávamos em 2007 e eu ainda não havia me mudado para São Paulo. Vim ver a corrida de Fórmula 1 e meu primo, que não conhecia o parque e me acompanhou na viagem, quis ir até lá. Fomos. Notei tudo velho, alguns brinquedos em manutenção. Na volta ao Rio, escrevi um longo e-mail ao parque, relatando o que vi e lamentando, pois eu gostava de lá.

Me ligaram e uma moça muito educada e simpática admitiu que eles haviam passado por problemas, mas que com a nova direção as coisas iriam melhorar. Ao final da conversa, disse pra ela que torcia por isso, pois sabia quão importante o parque era pro turismo e para a criação de empregos diretos e indiretos na região. Porém, eu não colocaria os pés lá nunca mais.

Alguns acidentes aconteceram desde então no Hopi Hari. Em fevereiro do ano passado, Gabriella Nichimura, de 14 anos, morreu após cair do brinquedo que é uma réplica da Torre Eiffel. O parque tinha alvará, pelo que sei. E continuou funcionando depois disso. Em dezembro, um casal registrou ocorrência porque dessa vez o problema teria sido na montanha russa.

E o parque continua aberto. Por R$ 79 você compra ingresso. O que vai acontecer? Não sei. A prefeitura deveria saber.

Porém, é possível que, se acontecer um “acidente”, a prefeitura diga que não sabia de nada. Vocês têm conhecimento da minha luta contra o voo duplo com fins turísticos, que é proibido por lei. Depois de anos vendo as asas e parapentes colorindo os céus de São Conrado; aparecendo em propagandas da RioTur, novelas, programas esportivos; com a rampa localizada em área  federal (IBAMA); recebendo cartões de pilotos na praia e em hotéis; eu achei que tudo fosse legal, fiscalizado, seguro (além dos riscos óbvios de, enfim, se estar voando).

Descobri da pior forma – com a morte da minha irmã – que a atividade é ilegal. E desde 2003, quando aconteceu, já perdi as contas de quantas vezes fui à 15ª DP, quantas entrevistas dei, quantos textos escrevi sobre o tema.

Mas não apenas isso. Fizemos denúncia ao Ministério Público, cobramos explicações do Ibama e da Anac, questionamos a Prefeitura do Rio. Tudo protocolado. Na ação movida na justiça, a União (representando a Anac e o Ibama) disse desconhecer que ali, na Pedra Bonita/São Conrado, exista esse tipo de atividade.

Lembro da resposta do meu advogado: “só se a União esteve em coma nos últimos trinta anos”.

Na mosca. O poder público está em coma. Tragédias acontecem – e não são acidentes, posto que poderiam ser evitados – e os responsáveis cruzam os braços. Vejo a notícia de que o dono da boate de Santa Maria e os músicos tiveram a prisão decretada.

E o prefeito? E o comandante do Corpo de Bombeiros? Continuamos colocando a culpa no acaso, no acidente, no intangível. Não. Essas mortes poderiam ter sido evitadas. No final, a culpa não é de ninguém. Daqui a um tempo, serão apenas números. Estatística: “de tantas X boates que existem no mundo, só X por cento pegaram fogo”.

Pra família, é claro, basta uma. A vida dessas pessoas desmoronou, ao mesmo tempo em que o chão se abria sob seus pés. O Estado não pode continuar se omitindo.

Daqui, só posso demonstrar solidariedade. Enquanto cidadã e jornalista, continuarei tentando evitar que novos “acidentes” aconteçam. É um trabalho pequeno, quase irrelevante, mas é o que está nas minhas mãos. Todo meu amor às vítimas e às pessoas  que as amam.

Lançamento, promoções e pesquisa

Quem me segue nas redes sociais já sabe: em 19 de março tem lançamento do livro em Porto Alegre! Sei que falta um tempinho, mas você já pode ir combinando com os amigos de irem lá comprar o livro, ganhar um autógrafo e uma beijoca. :)

Confirme presença no evento do Facebook!

convite poa

Também estou fazendo uma promoção de sorteio de livros. Eram três: essa semana um já foi sorteado entre os seguidores do perfil do blog no Twitter (@cem_homens).

Mas ainda há dois jeitos de ganhar o Cem homens em um ano: preenchendo esse formulário e/ou tuitando a frase “Quero ganhar o livro Cem homens em um ano que o @cem_homens está sorteando http://kingo.to/1eHz”.

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Lembro ainda que estou vendendo os livros pelo blog. O preço é R$ 28 (o mesmo das livrarias), com R$ 8 de frete para qualquer lugar do Brasil. É só clicar aqui.

Para comprar em outras lojas online ou pelo PagSeguro, clique aqui.

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Estou fazendo uma pesquisa sobre o comportamento de vocês na masturbação. Vou deixar mais uma semana no ar. Responde lá? É importante. E não esqueça de deixar seu e-mail, pode ser que eu tenha surpresas guardadas pra você. ;)

Para homens, clique aqui.

Para mulheres, clique aqui.

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E mais tarde tem post novo!

Dicas de segurança para homens

A Clara Averbuck indicou um tumblr (que ainda não li com cuidado) e eu cheguei nesse post ótimo (o texto é irônico, tá, gente?).

Dicas de segurança para homens

Homem, você teme pela própria segurança por causa da misandria*? Você precisa aceitar que a misandria acontece no mundo real e tomar algumas precauções.

Faça aulas de autodefesa. Elas custam só uns duzentos reais por mês.

Não saia de casa depois de escurecer, a não ser que você esteja com uma mulher te protegendo. Ao verem você acompanhado de outra mulher, misândricas tendem a não atacá-lo.

Preste atenção nas suas roupas. Se você estiver usando um fedora ou uma camiseta sexista, por exemplo, você basicamente está pedindo para ser atacado. Misândricas não conseguem se controlar quando veem um homem usando um fedora. É instintivo. Quando elas percebem, estão com um cadáver nas mãos. Seja um bom garoto e não as provoque, ok?

Nunca convide uma mulher para a sua casa. Misândricas irão interpretar isso como consentimento para violência física.

Beber aumenta os riscos de ser atacado por uma misândrica. Elas atacam homens bêbados porque suas inibições estão mais soltas em razão do álcool.

Fique sempre de olho na sua bebida. Misândricas são conhecidas por colocar drogas na bebida em festas e bares para deixar os homens inconscientes.

Se uma misândrica te atacar, fique quieto e apenas deixe ela terminar o que está fazendo. Se não, ela vai ficar com mais raiva e você pode ser morto, em vez de somente mutilado. Mas também, finja que está lutando contra aquilo, porque um monte de homens diz que não querem ser atacados por misândricas mas, lá no fundo, eles realmente gostam disso.

E lembre-se: acusar uma mulher de misandria abusiva é pior do que ser abusado por uma misândrica. Logo, antes de fazer acusações, tenha certeza de não ter sido apenas um problema de comunicação.

Aí um sujeito disse: “Eu já sigo todas essas instruções, basicamente porque é estúpido esperar que as pessoas parem de cometer crimes. Então é melhor prevenir.”

A autora do tumblr ficou indignada, e respondeu:

Sério, cara? Você nunca bebe? Você nunca sai à noite sem uma companhia feminina pra tomar conta de você? Nunca levou ninguém pra sua casa? Quando você é fisicamente atacado você tenta se defender ao mesmo tempo em que passivamente deixa a pessoa terminar para não ser morto? Você nunca usa roupas que alguém pode interpretar mal? sério?

Você já brigou antes? Porque se já, tipo, como vamos saber se você não está mentindo sobre ter sido atacado? É a sua palavra contra a dela. Isso é só recalque.

E se você já brigou antes, você registrou ocorrência? Chorou bastante depois? Porque alguém que esteve REALMENTE numa briga iria chorar muito. Além disso, você saberia todos os detalhes da briga e nunca esqueceria nada, tampouco contaria sobre o acontecido fora da ordem cronológica.

Você já mentiu sobre algo na vida? Porque se já o fez, você provavelmente está mentindo agora também.

E, a não ser que você siga todas essas regras, e seu passado seja limpíssimo, e você ainda esteja disposto a ser analisado publicamente, seu caso será arquivado e sua agressora ficará livre.

Mas não importa: você nunca vai poder falar sobre o caso, porque você estaria caluniando a suposta agressora.

*pra quem não está familiarizado com os termos: misândricas são mulheres que não gostam de homens. é o equivalente ao misógino (homens que não gostam de mulheres, as maltratam, agridem, etc). o misógino é o machista elevado à décima potência. 

Feminismo para principiantes: Trabalhar fora

Depois de queimarem sutiãs, agora sou obrigada a trabalhar fora. 

Há várias versões disso aí em cima. Todas colocando no feminismo uma conta que não é dele. Vamos voltar à questão das ondas. Na segunda onda, uma das lutas era para a mulher poder trabalhar fora.

Isso já acontecia nas camadas pobres da população. As mulheres das classes mais baixas eram responsáveis por todo ou parte do orçamento doméstico, simplesmente porque era necessário. Era impossível sustentar todo mundo com o salário de um provedor só (e, em muitos casos, eram mães solteiras).

Logo, essa luta foi de um feminismo de classe média. Talvez hoje seja difícil enxergar isso; afinal, você fazer ou não faculdade sequer foi uma discussão em casa. Seus pais a incentivam (até obrigam) a estudar.

Há trinta, quarenta anos, a situação era diferente. As mulheres de classes abastadas eram só donas de casa, e dependiam do marido para comprar qualquer coisa. Assim, os maridos-provedores podiam controlar tudo. Tudo. Você quer comprar uma saia nova? Um maço de cigarro? Peça o dinheiro do marido. Ele pode achar que você não precisa de uma saia nova. E aí você… bom, você não faz nada. Ou briga. E fica presa ao casamento porque não consegue se sustentar sozinha. A prova disso é a tal “revolução feminista no sertão”. Agora, com as mulheres sendo responsáveis pelos cartões do bolsa família, houve mudança significativa na vida dessas mulheres.

“Ah, mas eu preferia não trabalhar, ou trabalhar meio período.” – O feminismo não é contra isso. Ele te deu essa escolha. Mas o que talvez você queira seja ganhar na mega-sena, e não ser sustentada por um homem. Você também pode mudar seus hábitos e viver de maneira frugal, optando por um emprego menos estressante ou que exija menos horas de trabalho. Caso sua profissão seja tão horrível assim, é possível que o problema não esteja na grana; esteja na escolha de carreira.

De todo modo, esse não é um problema criado pelo feminismo, mas sim pela sociedade de consumo em que vivemos. Todas as pessoas da casa têm que trabalhar porque viver é caro. Não foi o feminismo que te obrigou a sair de casa. Ele só te deu essa opção.

PS: Nunca houve a queima de sutiãs. Por favor, parem de repetir isso. 

Se toca!

No último post eu falei sobre masturbação. Deixei um espaço para as pessoas fazerem comentários. Tristemente diversas mulheres relataram a dificuldade em se tocar; muitas, já adultas, ainda têm sentimento de culpa com a prática. Algumas revelaram só começarem a praticar bem depois dos 20 anos de idade, mesmo que a vida sexual propriamente dita (falo de interação íntima com outra pessoa) tenha acontecido anos antes.

Tudo porque prazer é pecado.

Literalmente.

Até hoje, 2013, a prática é considerada pecaminosa por diversas religiões. Talvez sua família nem seja religiosa, mas não podemos negar a influência cultural do cristianismo nas nossas vidas.

masturbate

Para dar suporte a todas essas ideias, criou-se um monte de mitos acerca da masturbação. Que é coisa de gente solitária e meio maluca, que faz crescer pelos nas mãos, que machuca.

A não ser que você passe o dia inteiro se masturbando, nada de errado vai acontecer com você. Sei como é difícil se livrar dessa paranoia de que alguém vai descobrir que você se toca, e aí você será ridicularizada, julgada, zoada. É, paranoia.

Ria, leitor. Você não sabe do que está rindo.

Você está rindo dos delírios de perseguição de todos os alienados do mundo, e de todos nós quando Melanie Klein nos dias que sofremos todos de ansiedade persecutória.

Veja. Nunca fui surpreendido em atividades eróticas, ninguém – mãe, pai ou quem quer que fosse – me condenou ou castigou por nada disso. Mas eu me comportava e sentia como se todos estivessem me vigiando o tempo todo e como se pudessem a qualquer momento me ridicularizar, condenar, desprezar ou excluir por causa da masturbação. (Gaiarsa, em Sexo – Tudo o que ninguém fala sobre o tema)

Apesar de incutirem nas nossas cabeças que tocar-se é feio e reprovável, a criança percebe que é prazeroso mexer nos órgãos genitais. É uma “coceirinha” gostosa; só depois, mais velhos e com mais informações, temos noção do que se trata.

Só que quando os pais percebem a gente mexendo lá por baixo, o tapa na mão vem certeiro. “Tira a mão daí, é sujo!” Até agora não entendo se o que é sujo é a minha buceta ou se é a minha mão. É como se a masturbação – que àquela altura não passa de uma brincadeira – maculasse a pureza da criança.

Porém, é biológico: seu corpo responde assim aos estímulos. A nossa reação a eles vai mudando ao longo do tempo, porque aprendemos a implicação dos atos (e experimentamos a culpa, inclusive).

Família e escola, de maneira geral, ignoram o assunto. Se você for pego se masturbando, é possível e quase provável que seus pais finjam que não viram. Isso se você ainda for criança. Na adolescência, os rapazes se tocarem é normal – e, de certa forma, até estimulado.

Quando eu era adolescente, por exemplo, era bastante comum os garotos terem pilhas de Playboys e afins no banheiro. Ninguém estranharia o pote de hidratante e o papel toalha constantemente no quarto (por favor, gente, usem lubrificante íntimo).

Com as moças, porém, as coisas são diferentes. Vejo mulheres adultas, que trabalham fora, estão na faculdade, com vergonha de terem vibrador em casa. Morrem de medo de serem descobertas, como se guardassem, sei lá, a arma utilizada numa chacina.

Mas é seu corpo. Você é quem manda nele – não é a igreja, seus pais, seu namorado. Os grilos existem e não são exclusividade sua; tudo faz parte da falta de educação sexual. Só que o mundo não vai mudar num estalar de dedos, então você é quem tem que mudar o jeito como se relaciona consigo mesma.

Fique tranquila: não machuca, é gostoso e faz bem. Experimente. E, lembre-se: seu corpo, a qualquer momento, é fonte inesgotável de prazer.

Masturbação: como nos comportamos?

Estava olhando os posts antigos, tentando recolocá-los no ar, e vi como eu falei de três assuntos com frequência aqui no blog: virgindade, masturbação e xingamentos. Estes últimos não serão mais publicados (exceto quando disserem a respeito a algo maior que eu mesma), mas os outros… apesar de eu sempre falar sobre primeira vez e sobre a relação da mulher com a própria buceta, sempre recebo e-mails sobre os temas.

Parece que as dúvidas sempre estão se multiplicando.

Hoje cheguei a um sobre masturbação. Eu não entendia quase nada sobre sexualidade e feminismo, então o texto chega a ser bobo. Ele passa por cima do fato de que nós temos um relacionamento esquisitíssimo com nossos órgãos sexuais. Na entrevista ao Futura (você viu?) a sexóloga Carmita Abdo fala sobre a diferença entre quem tem pênis e quem tem buceta ao longo da infância e adolescência.

Quem tem pênis precisa pegar nele para urinar. Ele está lá, exposto, à vista. No caso da buça, no entanto, acontece o contrário. A gente senta, faz xixi, se limpa com o papel higiênico. Não tocamos nela nem nesse momento. No banho, idem. Nos últimos anos ainda criaram os “sabonetes íntimos”, que é pra a gente achar mesmo que a buça é um órgão descolado do resto do corpo e precisa de um “tratamento especial” (porque *fede* mais).

Porém, se continuarmos tendo essa relação conturbada com nossa própria buceta, fica difícil sermos plenamente felizes na cama. Como você vai curtir sexo oral, se você acha que você fede e que ela é feia?

Masturbar-se é saudável, não tem contraindicações (não engravida, não passa DST…) e ainda te deixa feliz. Infelizmente, os índices de mulheres que fazem isso regularmente são baixíssimos.

Na última pesquisa feita aqui no blog (você já respondeu? sai do ar essa semana), perguntei se as pessoas usavam brinquedos eróticos. Incrível: 67% não tem. É muita gente.

Fiquei surpresa, claro, no entanto o que mais me chamou a atenção foram as razões pelas quais as pessoas não têm:

5% acham desnecessários;

8% responderam que não têm, simplesmente porque não.

6% não têm porque… o parceiro não curte (???).

Quero analisar melhor esses números, mas isso me levou à ideia de fazer uma nova pesquisa, dessa vez sobre masturbação.

E separei dois formulários, um para homens e outro para mulheres*. Quero entender como vocês se comportam em relação a isso. Me respondam? :)

Para mulheres, CLIQUE AQUI. 

Para homens, CLIQUE AQUI.

*eu sei que há mulheres com pinto e homens com buceta. 

Meu amor se multiplica

Nos últimos dias voltou à tona um assunto antiiiiiiiiiiiigo: a suposta falta de amor romântico na minha vida. Segundo os críticos, o fato de eu me relacionar com vários caras impossibilita a construção de um sentimento de parceria e cumplicidade entre nós.

Partir do pressuposto de que relações casuais são necessariamente vazias é desonesto. Há homens na minha vida que, mesmo que tenhamos cometido o pecado capital de transarmos logo após nos conhecermos, fazem parte do meu cotidiano, me apoiam, me admiram e me fazem bem.

Por outro lado, conheço muitos casais em que esse mesmo tipo de lealdade e companheirismo não existe. Alguns apenas coabitam; outros traem como quem troca de roupa; há incontáveis que não percebem quando o parceiro está precisando de ajuda, mesmo estando tão próximos.

Ao mesmo tempo, há casais vivendo felizes, impulsionados pelo companheirismo que os fortalece.

Mas esses casais não precisam – e não são, grande parte das vezes – aqueles considerados “normais”, “aceitos pela sociedade”. São homossexuais. Pessoas que transformam o casal em “três”. Gente vivendo relacionamentos abertos – e honestos. Pessoas que só se encontram para transar.

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E, olha que bizarro: esses casais não precisam da benção de um padre ou da mediação de um juiz de paz. Possivelmente também não são aceitos com facilidade pelos familiares, amigos, colegas de trabalho. Ainda assim, vão em frente, seguem suas vidas, desafiam o status quo, a heteronormatividade, a mononormatividade, porque, no final, o que importa é o amor que eles sentem uns pelos outros.

Eu vivo exatamente dessa forma. Muita gente não vai entender, vai apontar o dedo na minha cara, vai dizer que tento resolver a minha dita falta de amor romântico com pintos e pintos e pintos.

A grande questão é que eu não quero amores românticos. Não desse jeito que aprendemos. Se amar alguém é querer ela só pra si, se é ter ciúme, se é vigiar cada passo, bom, eu não nasci pra isso mesmo.

Filio-me, como sempre, ao grande e saudoso Gaiarsa, que fala sobre como devemos mudar nosso jeito de amar.

“A outra alternativa é a de nos tornarmos um pouco mais capazes de nos amar – de começar a perceber que viver falando bonito de amor não tem nada que ver com sentir e vivenciar amor.

Veja como nosso amor é inimigo do amor. É isso mesmo – me acompanhe. Comecemos com o casamento. Se você é casado, qualquer outro homem pode ser seu rival, conquistar sua mulher, etc. Em relação a ela, ocorre o mesmo.

Se você é apenas namorado, dá tudo na mesma. Qualquer mulher pode seduzi-lo – e a atual teme ser substituída.

Ao começar a amar, você se vê, no mesmo ato, cercado de inimigos – por causa do amor.

Nosso amor exclui, entende? Amar uma pessoa é negar-se a quaisquer outros amores, e assim o amor, em vez de unir – como sempre se diz que ele faz -, separa.”

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Meu amor já foi assim: aprisionado. Porque, na verdade, ele queria se espalhar por aí, mas diziam “você só pode amar um, e ele só pode te amar de volta, mais ninguém”. Eu remoí sentimentos de culpa diversas vezes.

Eu não entendia. Queria mais – e queria verdadeiramente, não era só tesão. Mesmo quando era “só” desejo, pensava como era possível eu amar tanto alguém e querer me envolver sexualmente com um terceiro. Diziam que esta era a prova da não seriedade do sentimento. Mas como?

Foram anos até eu entender que meu amor se multiplica. Eu não preciso amar só uma pessoa. Isso vale para amizades, família. Causas e ideologias. No meu coração, cabe mais de um. Cabem vários. E, em vez de faltar amor, ele na verdade se torna ainda mais forte, pois não está mais acorrentado. Ele pode crescer, se espalhar, aconchegar. Meu amor é livre, intenso e imenso.

Aplicativo mostra impacto de bebida sobre visual das mulheres

Vocês já devem ter visto a *notícia*, mas vamos lá:

aplicativo

O governo da Escócia aprimorou um aplicativo de smartphone que mostra como o consumo de álcool afeta o visual das mulheres ao longo de um período de dez anos.

O app faz uma simulação dos efeitos do álcool sobre uma foto que tenha sido fornecida pela usuária do telefone. A simulação se baseia no fato de a mulher beber acima do recomendado pelo governo escocês durante o período.

Chamado de Drinking Mirror (“Espelho da bebida”, em tradução livre), o aplicativo já havia sido lançado no ano passado, mas agora mostra os efeitos da bebida por um período maior.

Ele faz parte de uma campanha do governo escocês voltada a convencer as mulheres a beberem menos.

A campanha tem como alvo especificamente mulheres com idades entre 31 e 44 anos.

Álcool e mortes

A estimativa oficial é de que uma em cada 30 mortes de mulheres na Escócia tenha alguma relação com o álcool.

Além disso, acredita-se que uma em cada três mulheres beba mais do que o recomendado semanalmente – 14 unidades (cada unidade equivale a 8g ou 10 ml de álcool puro, que é a quantidade média que um adulto é capaz de processar em uma hora, em média).

A campanha pede às mulheres que diminuam a quantidade de álcool que tomam por semana, ficando longe das bebidas algumas noites na semana.

As informações são da BBC Brasil.

Só tenho três coisas a perguntar:

1) Por que diabos esse aplicativo é voltado a MULHERES?

2) Por que diabos, dentre todos os outros problemas que o álcool pode causar, as pessoas estão mirando na aparência física?

3) Porque diabos as mulheres estão proibidas de envelhecer e engordar? (lembrando que, no decorrer de dez anos, isso é provável que aconteça, mesmo que ela não beba uma gota de álcool.)

Para quem lê em inglês, aqui está o site da campanha (logo, é sério, não uma brinks de internet) e um texto da CNN.

Por enquanto o aplicativo só está disponível para Android, mas você pode fazer o teste na internet mesmo. E ainda pode compartilhar no Facebook! WHAT.THE.FUCK.

Estupros têm um propósito

Atenção: esse texto fala sobre estupro, com algumas descrições que podem incomodar. 

Eu não falei no blog sobre o estupro na Índia, tampouco da garota vítima de vários monstros nos Estados Unidos, menos ainda da jovem que se suicidou aqui em São Paulo.

Não que eu estivesse indiferente a esses assuntos. Às vezes não dá tempo. Na maior parte delas, no entanto, a dor é tamanha que é impossível conseguir escrever qualquer coisa.

No caso da estagiária de direito, meu coração se partiu em mil pedaços. Eu também já fui  estudante de direito e ela morava no mesmo bairro que eu. A Ana Paula, minha amiga (@anapalonso), viu como fiquei ao saber da notícia: enjoadíssima, com ânsia de vômito.

Há uns dois meses dei uma entrevista pra TV PUC e cheguei antes do horário combinado. Fiquei sentada na praça de alimentação, observando as garotas que tentavam se equilibrar no salto alto depois de passarem o dia pra lá e pra cá. Eu me vi nelas. Eu já fui igualzinha. Eu poderia ser a Viviane, empolgadíssima por estar estagiando no maior escritório de advocacia do país.

Eu também já senti o desespero de não querer mais viver; eu fui agredida (não sexualmente) e me senti impotente. Por tudo isso, não fui e não sou capaz de escrever sobre Viviane.

E nem sobre o caso da Índia e nem sobre o estupro coletivo nos EUA. É tudo tão cruel, tão desumano, tão aterrorizante, que tem horas que a gente não consegue. Por isso, traduzo mais um texto da Soraya Schemaly, publicado no Huffington Post, a respeito dos dois casos.

Estupros têm um propósito 

A mesma pequena parte de mim que ainda quer acreditar em fadas quis acreditar que eu seria capaz de não pensar ou escrever sobre estupro ao menos por algumas semanas. Mas é  impossível. Não com leis na Califórnia dizendo que mulheres solteiras não podem ser estupradas. Ou enquanto uma garota de 16 anos, inconsciente, é estuprada por vários jogadores de futebol – e o assunto “divide” uma comunidade dedicada ao time. Definitivamente não dá para deixar passar quando detalhes sobre o estupro da jovem de 23 anos em Délhi, envolvendo estripação, falência múltipla de órgãos e a consequente morte,  vêm à tona e provocam protestos ao redor do mundo.

Não importa onde você estiver no mundo, o resultado do estupro - ”date rape,” “gang-rape,” “easy rape,” “emergency rape,” “war rape” – é o mesmo: opressão. As mulheres não são livres para viverem sem a ameaça constante de agressão e violência ou sem serem tratadas como objeto e propriedade.

soraya

Da última vez que chequei, existiam pelo menos quatro “capitais do estupro” no mundo. Você sabe no que isso nos transforma? Em “subúrbios do estupro”. Garotas e mulheres não são idiotas. Pelo contrário. Nós entendemos perfeitamente: devemos “ter cuidado”. Não faça algo que vá fazer você “se arrepender”. “Fique em casa”. “E daí se acontecer?” Nós não sentimos qualquer segurança de que nossa integridade física vai ser respeitada. Que nosso consentimento importa. Nós não podemos aproveitar os espaços públicos com a segurança que os homens têm.

Nossas tentativas de buscar igualdade e oportunidade são inibidas, não só pelo estupro em si, mas pela falta de consciência dos outros a respeito disso. O estupro é útil, mesmo quando acontece contra garotos e homens: ele sustenta um sistema que recompensa dominância física e sustenta a hegemonia dos homens.

Quando precisamente uma garota ou uma mulher NÃO pensa “poderia ser eu”? Qual adolescente nos Estados Unidos não pensa um pouco mais sobre ir ou não a festas? Ou mesmo a respeito de dormir? Quando se torna muito aterrorizante pensar nos fatos ou quando é mais fácil se alinhar aos poderosos e dominantes, culpe a vítima, na esperança de “ser protegida”.

Hoje em dia, mais garotas, pelo menos por um momento, pensam que podem ser drogadas e estupradas por uma autointitulada “Gangue do Estupro”, como a de Steubenville, Ohio. Caso você tenha perdido as últimas do caso, o estupro continua gerando choque e repugnância. Se não fosse a obstinação da blogueira Alexandra Goddard e a exposição do Anonymous, o estupro – que durou uma noite inteira – de uma garota inconsciente, literalmente arrastada e periodicamente violada, urinada e fotografada teria caído no limbo.

Tudo isso aconteceu enquanto 50 outros garotos e garotas estavam presentes – todos sabendo especificamente o que estava rolando. E, ESSE é o ponto, não é? Um aviso para as garotas que poderiam ajudá-los. Não é só o que aconteceu, nem as variações do que acontece todo dia, mas a ideia de que poderia acontecer. Em todo o mundo.

Se assumimos o risco – tipo, vivendo – e somos estupradas, as pessoas ficam confortáveis em dizer que estávamos “provocando”, mesmo se você for uma garota de 11 anos, como aquela que foi estuprada no Texas por pelo menos 18 caras; ou garotos molestados por padres. E, sim, eu sei que garotos e homens são estuprados. Eles sofrem tremendamente. Quase sempre, eles não têm apoio, não conseguem a ajuda que precisam e vivem o resto dos dias com grande sofrimento. Mas, isso também têm relação com o que foi dito antes, porque quando garotos e homens são estuprados, eles não são só agredidos, mas também dizem que os fizeram de “mulherzinhas”, demonstrando como eles não têm valor.

Isso é uma mensagem, também, aliás. E, sim, eu estou escrevendo em termos binários de sexo, porque eles são essenciais nesse sistema opressor. As chances de abuso aumentam entre pessoas que “não se enquadram”. Esses são ainda mais ameaçados.

Há alguma demonstração maior de que estupros são sobre poder e dominação – e não sobre sexo – do que os estupros coletivos sobre os quais estamos falando abertamente agora? No final, que diferença faz se o estupro envolve canos enferrujados na Índia, ratos enfiados em vaginas na Síria, violência diária contra garotas na França ou drogas para incapacitar garotas nos Estados Unidos? Eu não consigo enxergar por qual razão não se faz essa comparação quando elas são tão gritantes.

Estritamente falando, ignorar a relação de um estupro coletivo na Índia com um nos EUA – ou na França – deixa de fora informação contextual importante – social, cultural, legal e judicial. Há profundas conexões nas formas como os agressores são educados – em casa, na escola, na igreja, nos esportes – a denegrir o feminino e as mulheres como o caminho para glorificar sua masculinidade, para demonstrar sua dominância e superioridade, provando a insignificância de garotas e mulheres.

Tudo isso enquanto simultaneamente se constrói ideais inatingíveis de “pureza feminina”. Na Índia, onde o estupro é um aspecto arraigado na cultura misógina com a implacável violência contra garotas e mulheres, foi necessária a morte desta garota para finalmente fazer as pessoas acordarem.

No entanto, apesar do fato de ser um dos piores lugares do mundo para uma mulher ou garota, a Índia não detém o monopólio de ensinar mulheres a “se submeter” ao estupro ou a serem apontadas como culpadas. Ou violência contra a mulher. Só ficou mais óbvio. A massa de pessoas e o ódio evidente finalmente tornou impossível para que eles ignorassem a misoginia.

Como queríamos. Mesmo que eu genuinamente tenha vontade de pensar que globalmente nós estamos num momento estratégico de reflexão a respeito da violência contra a mulher, tenho grandes dúvidas.

Como Jessica Valenti aponta, nós temos um “problema de estupro”, mas teimamos em admitir isso. Nas últimas semanas, com a cobertura da imprensa, lia-se nas entrelinhas que “nós somos melhores que eles”, e que a misoginia e o patriarcado na Índia são coisas de lá. Assim, ficou a ideia de que “nós estamos bem”, e que as mulheres não tem nada a reclamar nos Estados Unidos.

O estupro é, na verdade, parte de um sistema de violência complexo e muito maior. Fingir que Steubenville é algo fora do comum, ou que os rapazes envolvidos é que estão fora do padrão, é de alguma forma ficar em conluio com os estupradores. E balançar a cabeça e apontar o dedo para a Índia é desonesto, racista, colonialista e hipócrita.

Lauren Wolfe, diretora do Women Under Siege Project, criou um “Basta de cultura do estupro em 2013″. Como ela e outros dizem, o primeiro passo para acabar com o estupro é parar de culpar a vítima, e focar nos estupradores e na cultura que os produz. Ela não está falando só do Congo, da Síria ou do Egito. Rapazes que drogam uma garota e depois a estupram, a sequestram, estupram de novo, fotografam, fotografam o estupro, urinam na garota e depois fazem vídeos tirando onda, fazem isso porque eles se sentem protegidos e no direito de fazê-lo. (Escrevi essa frase deliberadamente porque estou cansada de ver “ela foi estuprada”, como se ela tivesse alguma participação no próprio estupro ou que não houve um agressor.)

estupro

Esses rapazes não foram ensinados, como adultos, que tais ações são crimes contra a humanidade moralmente repugnantes. Porque nós rimos de estupro e zoamos quem reclama. As garotas que testemunharam esses eventos não falam porque elas acham que serão as próximas ou sabem que não acreditarão nelas. Elas aprenderam a internalizar isso.

Afinal, nós ensinamos nossas crianças que é aceitável para os garotos serem protegidos de xingamentos e punição após estuprarem, e eles vão para faculdades onde há “fábricas de estupro” e nas fraternidades os jovens brincam de “quem você estupraria”.

Os homens são incomparavelmente os maiores estupradores – de garotas, de garotos, de mulheres, ou de outros homens. A natureza de gênero deste crime é incontestável. Mas homens não nascem para estuprar. E, enquanto eu entendo que a maioria dos homens não andam por aí se achando os todo-poderosos, ou que eles têm o direito de estuprar, muitos deles pensam isso, sim. Eles se sentem no direito de fazê-lo. Tirar esse “privilégio cultural” deles não desumaniza ou oprime homens. Isso apenas liberta as mulheres e as pessoas que “não se adequam”.