Feminismo para principiantes: Trabalhar fora

Depois de queimarem sutiãs, agora sou obrigada a trabalhar fora. 

Há várias versões disso aí em cima. Todas colocando no feminismo uma conta que não é dele. Vamos voltar à questão das ondas. Na segunda onda, uma das lutas era para a mulher poder trabalhar fora.

Isso já acontecia nas camadas pobres da população. As mulheres das classes mais baixas eram responsáveis por todo ou parte do orçamento doméstico, simplesmente porque era necessário. Era impossível sustentar todo mundo com o salário de um provedor só (e, em muitos casos, eram mães solteiras).

Logo, essa luta foi de um feminismo de classe média. Talvez hoje seja difícil enxergar isso; afinal, você fazer ou não faculdade sequer foi uma discussão em casa. Seus pais a incentivam (até obrigam) a estudar.

Há trinta, quarenta anos, a situação era diferente. As mulheres de classes abastadas eram só donas de casa, e dependiam do marido para comprar qualquer coisa. Assim, os maridos-provedores podiam controlar tudo. Tudo. Você quer comprar uma saia nova? Um maço de cigarro? Peça o dinheiro do marido. Ele pode achar que você não precisa de uma saia nova. E aí você… bom, você não faz nada. Ou briga. E fica presa ao casamento porque não consegue se sustentar sozinha. A prova disso é a tal “revolução feminista no sertão”. Agora, com as mulheres sendo responsáveis pelos cartões do bolsa família, houve mudança significativa na vida dessas mulheres.

“Ah, mas eu preferia não trabalhar, ou trabalhar meio período.” – O feminismo não é contra isso. Ele te deu essa escolha. Mas o que talvez você queira seja ganhar na mega-sena, e não ser sustentada por um homem. Você também pode mudar seus hábitos e viver de maneira frugal, optando por um emprego menos estressante ou que exija menos horas de trabalho. Caso sua profissão seja tão horrível assim, é possível que o problema não esteja na grana; esteja na escolha de carreira.

De todo modo, esse não é um problema criado pelo feminismo, mas sim pela sociedade de consumo em que vivemos. Todas as pessoas da casa têm que trabalhar porque viver é caro. Não foi o feminismo que te obrigou a sair de casa. Ele só te deu essa opção.

PS: Nunca houve a queima de sutiãs. Por favor, parem de repetir isso. 

18 pensamentos em “Feminismo para principiantes: Trabalhar fora

  1. Oi, Nádia Adorei o artigo!
    Será que você poderia me explicar por que todo mundo fala dessa queima de sutiãs, e o que de fato aconteceu?
    Tenho dúvidas sobre esse assunto!

    Beijos!

  2. Vale lembrar que a inserção das mulheres (de classe média) – por mais tenha havido de fato a reivindicação feminina para tal durante a segunda onda – só ocorreu pois, economicamente falando, foi necessário (eu diria conveniente) o emprego da mão-de-obra feminina, que era (e ainda é) mais barata e precarizada que a masculina.

  3. Muito bem colocada a questão de classe. Para as classes mais humildes, nunca houve a opção de não trabalhar.

    Viajando em países mais pobres pude observar muito mais mulheres trabalhando que homens. Imagino que isso tenha a ver com o fato delas se tornarem responsáveis pela família (filhos e idosos) enquanto aos homens é facultada a opção de emigrar ou de abandoná-los.

    Outro ponto que deve ser questionado é se as mulheres que questionam a necessidade de trabalhar não estão sobrecarregadas pela dupla jornada (trabalho na rua e doméstico) e atirando contra o problema errado.

      • Paradigma caseiro é o da louça na pia. Esposa nem trabalha fora, hoje, mas mesmo assim me debato com a questão da partilha de responsabilidades quanto aos chamados “afazeres domésticos”: certamente não são obrigação exclusiva da ~patroa~…

  4. Vejo isso na minha família. Minha avó quando era adolescente trabalhava e ajudava a família. Depois que casou, meu avô não deixou mais que ela trabalhasse fora, o máximo que ela podia fazer de vez em quando era vender algumas costuras. E ainda assim ele não gostava, e permitia em poucas situações. E veja bem, ele não era rico, passavam sempre por vários perrengues. Era claramente uma forma de manter o controle sobre a vida dela, e sobre toda a casa. Há uns 15 anos ela recebeu uma herança, e foi a melhor coisa que aconteceu na vida dela. Foi uma quantia relativamente pequena, coisa de dez mil reais, mas permitiu que ela fizesse coisas simples sem ter que pedir ao meu avô, como dar presentes aos netos, almoçar fora sozinha e bobagens assim. É muito cruel essa forma de dominação. E não está nada ultrapassada. Eu tenho uma amiga muito próxima que teve que brigar com o pai pra fazer faculdade. Ele cedeu, mas nunca deu um real para apoiá-la, quem a ajudava era a mãe.
    É tão difícil entender que as pessoas têm que ter liberdade pra escolher?

  5. achar que as mulheres trabalharem fora é culpa do feminismo é de uma ignorância sem tamanho. primeiro porque acho errado o significado que as pessoas dão ao trabalho.. principalmente no Brasil, onde todo mundo acha que o importante é bater cartão – não é resultado, não é propósito, etc.. segundo porque considero que um dos grandes marcos da inserção das mulheres no mercado de trabalho foram as duas grandes guerras. alguns países europeus ficaram arrasados e se não fossem as mulheres saírem de casa e ocuparem cargos “masculinos” como motoristas, por exemplo, a sociedade inteira teria problemas. Depois, quando os homens que sobreviveram voltaram da guerra, a mudança era irreversível, afinal qual mulher ia querer voltar à situação de submissão que vc descreveu? Se alguém quer se fazer de vítima e culpar os outros pelo fato de TER que trabalhar fora, que culpem os caras que iniciaram a guerra, ou sei lá quem, mas não o feminismo..

  6. E quando dizem que a mulher é feminista até chegar a conta, como se fosse crime aceitar qualquer tipo de gentileza para ser independente. Preguiça sem fim… zzzzzz

  7. é incrível quando a gente pára pra pensar que isso é uma mudança de pouco tempo… minha tia, nem completou 50 anos ainda, mas quando jovem era bonita e trabalhadora, até casar e ser proibida. Mesmo o marido também não sendo rico, hoje ela vive pra ele, quando vem visitar meus avós (mora em outra cidade) é por poucos dias pois o marido não sabe nem cozinhar sozinho, é um filho bebê praticamente! A gente se acostumou mal, nossa geração acha que isso é um direito e quase uma obrigação, chegando a reclamar às vezes, porém é preciso lembrar que a luta foi há pouco tempo, está fresca ainda na geração passada e devemos valorizar essa conquista, pois ela trouxe liberdade e não obrigação. Como bem dito no post, a obrigação de ter $ é pela sociedade em que vivemos, o capitalismo, não pela luta do feminismo pela liberdade e igualdade.

    • Escuto isso desde pequena e concordo plenamente. Acho que não há nada no mundo mais gratificante pra alguém do que ser efetivamente dono do próprio nariz. E sim, graças às lutas de muitas feministas temos a OPÇÃO de trabalhar fora e garantir nosso sustento. Mas, a quem interessar possa, ainda existe a opção de ser sustentada e dominada, coisa que ainda existe bastante por aí. O problema é que a mulherada quer ser dona de si, ter grana e ser respeitada sem mover uma palha. Aí é como disse a Nádia, só ganhando na loteria mesmo…

      • O problema talvez esteja quando vem os filhos. Duas amigas minhas, uma com três e outra com dois filhos nao agüentaram o tranco. Debateram muito com o marido e decidiram trabalhar em casa. O que é um trabalhão, nada gratificante e sofrido (ok crianças sao belezinhas mas 24 horas com elas e nenhum papo de adulto, desculpem-me mas é dose). Nao tomaram essa decisão por ser mais felizes, mas porque nao agüentaram o estres da dupla jornada. Apesar de estarem casadas com rapazes bons, elas mesmas me confessam que se sentem um pouco humilhadas toda vez que querem comprar alguma coisa. pedir dinheiro pro marido. Um homem raramente tem que tomar essa decisão. Eu mesma nao me vejo com filhos, nao quero me ver angustiada em duas jornadas e ter que escolher. O que vcs acham disso tudo?

        • Olha, eu não sei pq que quando a mulher para de trabalhar e quer comprar algo tem que PEDIR pro marido. Existe cartão de crédito, basta ela ter um, não existe isso de “pedir até o $ do absorvente”. Eu trabalhei muito anos atrás, passei 5 anos sem trabalho formal, para estudar, e nunca precisei pedir nada ao meu marido. Não foi um acerto entre nós? Então ele confia no meu discernimento sobre como vou gastar, faço as compras de casa, compro pra mim, pras crianças… ele paga a conta sem perguntar, sem controles. Não entendo como um marido que se diz “legal” vai regular cada tostão.

  8. Pingback: Feminismo para principiantes: "Feminista até pagar menos na balada" | Cem Homens

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