Ele começou a ficar estranho. Antes expansivo, passou a falar menos. Deu uma sumida dos eventos sociais. O olhar ficou triste, triste.
Rumores surgiram. “Desde que ele arranjou essa namorada, mudou!”, “Acho que ela não faz bem a ele”. Eu só ouvia. Meio de longe; não era íntima dele, tampouco conhecia a tal namorada.
Muitos meses se passaram. Escrevi sobre minha crise depressiva aqui. Quando ele descobriu que a Letícia era eu, me confessou: naquele período em que todos apostavam num problema externo para justificar seu ar melancólico, ele passava por uma fase depressiva. Foi feio. Ele realmente chegou ao fundo do poço.
Quase ninguém sabe disso. Nossos amigos em comum devem até hoje culpar algo ou alguém, sem nunca terem chegado perto, sem nunca terem perguntado o que estava acontecendo.
Às vezes nem o próprio doente percebe. Com isso, demora tempo demais para procurar ajuda médica, e aceitar o diagnóstico é difícil. Imaginar que algo dentro de você mesmo não funciona direito é aterrorizante. Não há nada que você possa fazer. O problema simplesmente está lá. Dentro.
Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, em 2030 a depressão será a doença mais incapacitante do mundo. Pesquisas indicam que 20% das pessoas (isto é, uma a cada cinco) passarão por uma crise depressiva. Muitas delas terão uma única vez: pode ser provocada por luto, término de relacionamento, desemprego.
Elas resolverão esse problema externo e/ou aprenderão a lidar com ele. Pode ser com terapia cognitivo-comportamental, com o desaparecimento do problema, com yoga, com remédios. Cada um sabe qual o melhor método para superar isso.
Outros, como eu, passarão por novas crises. Lembram que eu desconfiei estar entrando numa recaída? Era alarme falso, mas mesmo assim marquei médica. Conversando, ela me disse que 90% das pessoas que tiveram mais de uma crise depressiva continuarão passando por isso. Eu, que escrevo sobre depressão, estudo sobre o assunto e tento ter uma visão otimista sobre a doença, desabei.
Chorei feito boba, repetindo “eu não quero tomar remédio pra sempre” (eu não estou tomando agora). Mesmo conhecedora do meu diagnóstico há anos, ainda não me conformei com a ideia de depender de algo químico… para resolver um problema químico do meu cérebro. É muito difícil.
Então, mesmo que a minha vida estivesse, por fora, toda linda, isso não me faria ficar curada. Digo isso porque vejo muita gente apontando os outros e dizendo: “Quem? A Mariana tem depressão? Mas como? Ela tem um bom emprego, um namorado que a ama, uma família bacana, mora bem, tem um carrão” (e todos os outros padrões de felicidade que a gente inventou socialmente).
É como se fosse uma cartela de bingo. Se você tiver um determinado pacote, você não pode ter depressão. O resto do mundo não te permite. Mesmo que o seu cérebro aja de maneira absolutamente contrária.
Essas pessoas doentes, então, escondem o que acontece com elas. Têm vergonha de assumir o problema. Evitam ir ao psiquiatra (porque é médico de doido), adiam a terapia (a minha vida está muito boa, pra quê eu preciso de terapeuta?), abandonam os remédios (eu não vou ser escrava de uma pílula).
Em casos mais graves e muito infelizes pra quem fica, a pessoa comete o suicídio. As especulações recomeçam: “mas ela parecia tão bem”, “que história mais esquisita”, ”nem dava para perceber nada”.
Dá pra perceber, sim. Mas não adianta olhar pra fora. Você tem que olhar pra dentro.
(este post faz parte da semana sobre depressão aqui no blog. vai até sábado.)
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Hoje, às 18h30, eu participarei de um hangout com o pessoal do Meus 5 minutos, da Editora Globo. Fique de olho no Twitter e no Facebook para ver as instruções de como participar. Você já pode fazer perguntas aqui no mural do site no Facebook.







