Não adianta olhar pra fora

depressao 1

Ele começou a ficar estranho. Antes expansivo, passou a falar menos. Deu uma sumida dos eventos sociais. O olhar ficou triste, triste.

Rumores surgiram. “Desde que ele arranjou essa namorada, mudou!”, “Acho que ela não faz bem a ele”. Eu só ouvia. Meio de longe; não era íntima dele, tampouco conhecia a tal namorada.

Muitos meses se passaram. Escrevi sobre minha crise depressiva aqui. Quando ele descobriu que a Letícia era eu, me confessou: naquele período em que todos apostavam num problema externo para justificar seu ar melancólico, ele passava por uma fase depressiva. Foi feio. Ele realmente chegou ao fundo do poço.

Quase ninguém sabe disso. Nossos amigos em comum devem até hoje culpar algo ou alguém, sem nunca terem chegado perto, sem nunca terem perguntado o que estava acontecendo.

Às vezes nem o próprio doente percebe. Com isso, demora tempo demais para procurar ajuda médica, e aceitar o diagnóstico é difícil. Imaginar que algo dentro de você mesmo não funciona direito é aterrorizante. Não há nada que você possa fazer. O problema simplesmente está lá. Dentro.

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, em 2030 a depressão será a doença mais incapacitante do mundo. Pesquisas indicam que 20% das pessoas (isto é, uma a cada cinco) passarão por uma crise depressiva. Muitas delas terão uma única vez: pode ser provocada por luto, término de relacionamento, desemprego.

Elas resolverão esse problema externo e/ou aprenderão a lidar com ele. Pode ser com terapia cognitivo-comportamental, com o desaparecimento do problema, com yoga, com remédios. Cada um sabe qual o melhor método para superar isso.

Outros, como eu, passarão por novas crises. Lembram que eu desconfiei estar entrando numa recaída? Era alarme falso, mas mesmo assim marquei médica. Conversando, ela me disse que 90% das pessoas que tiveram mais de uma crise depressiva continuarão passando por isso. Eu, que escrevo sobre depressão, estudo sobre o assunto e tento ter uma visão otimista sobre a doença, desabei.

Chorei feito boba, repetindo “eu não quero tomar remédio pra sempre” (eu não estou tomando agora). Mesmo conhecedora do meu diagnóstico há anos, ainda não me conformei com a ideia de depender de algo químico… para resolver um problema químico do meu cérebro. É muito difícil.

Então, mesmo que a minha vida estivesse, por fora, toda linda, isso não me faria ficar curada. Digo isso porque vejo muita gente apontando os outros e dizendo: “Quem? A Mariana tem depressão? Mas como? Ela tem um bom emprego, um namorado que a ama, uma família bacana, mora bem, tem um carrão” (e todos os outros padrões de felicidade que  a gente inventou socialmente).

É como se fosse uma cartela de bingo. Se você tiver um determinado pacote, você não pode ter depressão. O resto do mundo não te permite. Mesmo que o seu cérebro aja de maneira absolutamente contrária.

Essas pessoas doentes, então, escondem o que acontece com elas. Têm vergonha de assumir o problema. Evitam ir ao psiquiatra (porque é médico de doido), adiam a terapia (a minha vida está muito boa, pra quê eu preciso de terapeuta?), abandonam os remédios (eu não vou ser escrava de uma pílula).

Em casos mais graves e muito infelizes pra quem fica, a pessoa comete o suicídio. As especulações recomeçam: “mas ela parecia tão bem”, “que história mais esquisita”, ”nem dava para perceber nada”.

Dá pra perceber, sim. Mas não adianta olhar pra fora. Você tem que olhar pra dentro.

(este post faz parte da semana sobre depressão aqui no blog. vai até sábado.)

***

Hoje, às 18h30, eu participarei de um hangout com o pessoal do Meus 5 minutos, da Editora Globo. Fique de olho no Twitter e no Facebook para ver as instruções de como participar. Você já pode fazer perguntas aqui no mural do site no Facebook.

Do you know me?

“Você está estranha. Engraçada, sei lá. Toda elétrica” ela me disse, como se eu estivesse com a cabeça cheia de doce.

“Eu sou assim.”

Lembro da festa de fim de ano da empresa em que trabalhava há dois anos. As pessoas podiam jurar que eu estava bêbada, só porque eu dancei, ri, cantei, fiz piada. Algumas semanas antes estivemos em outra celebração, bem na época em que tomava uns oito remédios ao dia (depressão, menopausa, insulina, etc) e estava com o pé quebrado.

Aloka de tiara de chifres de rena, rindo descontroladamente das caretas das amigas. A única com uma cara mais normal é a @talitaribeiro <3

Aloka de tiara de chifres de rena, rindo descontroladamente das caretas das amigas. A única com uma cara mais normal é a @talitaribeiro <3

Todas essas pessoas – do meu ex-trabalho e, agora, uma amiga – sabem que de fato eu sou ranzinza e reclamona, mas elas também me viram numa fase difícil. Como me conheceram daquele jeito, descendo rabbit hole abaixo, presumiram que eu fosse triste, desanimada, estressada.

Penso em quantas pessoas também me conheceram em fases difíceis, quantos relacionamentos enterrei em tais épocas, tudo porque eu não estava no meu normal. E, apesar de nunca ter escondido minha condição, sei que é difícil realmente compreender o que sinto. Também não deve ser fácil tomar patada em cima de patada, sem descanso, sem sorriso no final (ou antes, também).

Ninguém tem a obrigação de ficar por perto e esperar que as coisas melhorem. Cada um sabe até onde consegue ir; às vezes a pessoa não gosta tanto assim da gente para suportar o mais ou menos longo período até a estabilização. Infelizmente não há como saber quando a crise irá acabar ou quais seus os efeitos colaterais. Algumas pessoas não querem pagar pra ver.

Aí eu mudei de tiara, mudei os amigos, e continuei sem conseguir parar de rir (a sequência dessas fotos é completamente louca, inclusive)

Aí eu mudei de tiara, mudei os amigos, e continuei sem conseguir parar de rir (a sequência dessas fotos é completamente louca, inclusive)

E a gente vai ficando sozinha, porque também temos o direito de não querer por perto quem não entende os períodos nebulosos, quem não tem paciência, quem não segura na sua mão e diz que tudo vai ficar bem.

Porque pode ser que não fique nunca. Pode ser que você desista antes. Pode ser que dure tanto tempo que você simplesmente nunca mais consiga imaginar que vai passar.

Para quem me conheceu ou conviveu comigo entre os últimos meses de 2011 e muitos meses de 2012 (período carinhosamente chamado de “o ano do coma”), eu posso ser vista como uma bruxa, briguenta, dramática, mal humorada, chata pra caralho. Eles não estão errados – foi assim que me mostrei pra eles. Eu não era eu, mas como eles haveriam de saber? O desconhecimento sobre depressão ainda é geral, e nem todo mundo tem interesse em pesquisar o assunto; é mais fácil achar que a pessoa É daquele jeito, e não que ela ESTÁ. E que vai passar.

A boa notícia é que alguns seguraram as pontas. Ficaram por perto apesar de mim mesma. Hoje me olham com surpresa dançando no supermercado, falando rápido ou tendo ideias. Semana passada uma amiga disse “que não dá nem pra comparar” a Nádia de hoje com a de um ano atrás. Não nos aprofundamos no assunto (estávamos ocupadas comendo a fries do Outback – restaurante que, pelo que li nas redes sociais nos últimos dias, é só “pra quem gosta de comida ruim” – risíssimos).

Mas fico feliz de ela ter permanecido, assim como vários outros amigos. Também me entristeço com quem foi embora. Sinto saudade às vezes. Mas me desgastaria demais dizer “ei, eu sou essa aqui, não aquela lá”, como quem clama por atenção. Se não conseguiram me amar quando eu estava no fundo do poço, por que eu os deixaria chegar perto agora que eu estou alive and kicking?

(este post é o primeiro da “semana sobre depressão”, que vai até sábado aqui no blog.)

 

Vá com calma

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A gente entende tudo errado. Primeiro nos ensinam a ignorar nossos órgãos sexuais. “Tira a mão daí!”, “é sujo, é fedido”, “o que você está fazendo trancado no banheiro?”. Depois, quando consideramos começar a vida sexual, as dúvidas: “oral é sexo?” “Se eu fizer anal, continuo virgem?” “Ela não sangrou na nossa primeira transa, acho que não era mais virgem.” “Será que tive um orgasmo?”

A menstruação atrasa dois segundos e pronto, o desespero toma conta. Não apenas porque, de fato, ter filhos é decisão que muda a vida, mas também porque há o estigma da “vergonha”: todo mundo vai saber que você é sexualmente ativa.

Com todo esse clima de má informação, a culpa e o medo têm lugar fértil para crescer. Entende-se o sexo como necessariamente um relacionamento heterossexual. E só vale se houver penetração, hein?! Mais carga de ansiedade: o pau precisa estar sempre duro, sempre ereto, sempre a postos. Se não estiver, ferrou. O homem se envergonha; a mulher acha que fez algo errado, que o corpo dela não atraiu o parceiro.

Como consequência, a relação sexual heterossexual, na maioria das vezes, não passa de uma meteção desenfreada. Isso é tão certo que até chamamos carícias e sexo oral de “preliminares” quando deveriam acontecer, na verdade, o tempo todo. Antes, durante, depois. Mas aí o cara pensa: e se eu tirar o pinto de dentro dela para chupá-la e ele amolecer? E se daí não levantar mais? Como eu fico?

Você fica bem, meu caro, você fica bem. Mas precisamos mudar o jeito falocêntrico que vemos o sexo. Muita gente sequer admite usar brinquedos eróticos na cama; eles significariam que o cara “não é capaz de fazer a própria mulher gozar”. Sexo é muito mais que orgasmo. Além de todo o prazer envolvido em simplesmente estar com alguém, beijando, abraçando, acariciando, a mulher ainda fica em estado orgástico durante muito tempo (o homem também poderia conseguir, mas daí precisaria fazer alguns exercícios tântricos).

Privilegiando a penetração e o orgasmo, perdemos muito do prazer do sexo. Gaiarsa, como sempre, me ajuda nisso aqui:

Outro mau costume do macho é seu interesse pelo fim desde o começo. Leia com calma, leitor, é isso mesmo. Agrados, carícias, conversas são deixados de lado logo que o caminho ou as circunstâncias se fizerem favoráveis para a penetração/finalização.

Nessa pressa vai muito do medo que a ereção afrouxe. É preciso aproveitar a presença do príncipe.

Ansioso desde o começo, ele vai ficando cada vez mais aflito e acelerando o ritmo. Parece mais interessado em se livrar de um estado insuportável do que em sentir muito prazer ou se sentir feliz! Mais interessado em cumprir sua obrigação ou se livrar dela…

Alguns enfeitam o encontro com as famosas preliminares, mas, uma vez lá, é quase universal o galope desenfreado – o cilindro e o pistão das antigas locomotivas – cada vez mais rápido.

É o famoso pau-britadeira. Rápido, quase feroz. Ao chegar mais perto do orgasmo, soltamos grunhidos e prendemos a respiração – mesmo comportamento de quando estamos em estado de tensão. E, após o gozo, a sensação de “alívio”. Isso é a explosão da ansiedade, e não do sexo. Mas isso é tema de outro post. Por agora, eu pergunto, aproveitando o fim de semana que se aproxima e citando Gaiarsa (de novo): “se é tão bom, porque tanta pressa em acabar?”.

Dois anos de blog

Semana passada, após uma reunião de trabalho, o grupo conversava animadamente sobre trabalhar com o que gosta. Eu respondi “eu trabalho com prazer. Em todos os aspectos possíveis”.

Porque sexo, pra mim, é assunto muito sério, mas extremamente divertido de fazer, estudar e falar a respeito. Sempre fui aquela amiga pra quem as pessoas contam detalhes muito íntimos. Desde 2001, quando tive meu primeiro blog, escrevo com naturalidade sobre o assunto.

Começar a escrever o Cem Homens, então, veio fácil. A reação a ele, porém, nem tanto. Eu não esperava qualquer repercussão: nem positiva, nem negativa. Tive as duas, como uma avalanche. Às vezes me senti soterrada e pensei diversas vezes em parar.

A certeza de que não havia nada errado no que eu fazia (nem transar com quantos homens fosse, tampouco escrever sobre os encontros) e o apoio recebido de amigos reais e virtuais fez com que eu não desistisse.

E cá estou, dois anos depois.

Podendo dizer, no final de uma reunião, que todos os meus projetos têm o sexo como tema. Ainda ganhei um bônus: por causa da reação bizarra das pessoas ao exercício pleno da minha sexualidade, descobri o feminismo. Não apenas como todo mundo diz, “um movimento pela igualdade entre homens e mulheres”, mas muito mais profundo, sentido, estudado, repensado, analisado.

O sexo também mudou de cara. Passou de um prazer pessoal para um estudo sobre a coletividade. Nada de dicas passo a passo do “oral perfeito”, e sim como vivemos, sentimos e enxergamos o sexo num mundo ainda conservador e pouco aberto às diferenças individuais.

Ganhei ainda mais. Expus aqui minha ida ao fundo do poço. Tive muito medo de que algumas pessoas (bem específicas) descobrissem minha identidade. Mesmo que eu deteste essa ideia cristã de que o sofrimento nos faz crescer, eu devo admitir a minha incrível evolução como ser humano naquela fase. Com o apoio recebido de vocês, inclusive de maneira presencial, vi que não estava sozinha no mundo. E pude, então, escolher o momento de dizer àquelas pessoas bem específicas mencionadas acima quem eu era.

Esperei a porrada. Tomei a porrada. Mas, forte e já de pé, reconstruí laços com elas. Ou “ela”, pra ser ainda mais específica. Nunca tive uma relação tão honesta com a minha mãe como a que tenho hoje.

Também costurei outras ligações. Experimentei o maior amor do mundo que, pelo menos por um tempo, foi recíproco. Trouxe para a minha vida novas amizades; algumas delas, tenho certeza, durarão para sempre. Lancei um livro e pude abraçar dezenas de leitores e leitoras. Com alguns deles ainda dividi uns bons petiscos em pés sujos de Botafogo. Em um mês estarei em Porto Alegre para abraçar mais alguns (leitores; petiscos eu prefiro continuar comendo, mesmo).

Com todos os percalços e obstáculos dos últimos dois anos, posso dizer que não há qualquer sombra de arrependimento. E que sou feliz. Sou feliz.

Novos projetos estão a caminho e espero que eles deem certo. Comecei a escrever outro livro, a ser lançado no início de 2014. Eu, que antes era uma estudante de jornalismo e ainda me acostumava a me autointitular “repórter”, agora estou tentando me acostumar com o “escritora”. Nada disso seria possível se eu não tivesse criado a Letícia e vocês não estivessem aqui sempre, me empurrando pra frente e me ajudando a caminhar.

Muito obrigada. Sou só amor por vocês. E vida longa ao Cem Homens.

Feminismo para principiantes: “Feminista até pagar menos na balada”

Esse é um dos discursos que mais me cansa na “cruzada contra o feminismo”. Até dei um looooooooongo suspiro antes de começar a escrever esse post.

Dentre todos os problemas que as mulheres passam, REALMENTE exigir que se pague mais na balada deve estar em posição de destaque (contém ironia).

Poxa, gente, vamos usar alguns argumentos menos patéticos?

Mas vamos lá. Mande esse link sempre que alguém vier com esse suuuuuuuper argumento.

Você sabe porque mulheres pagam menos em algumas baladas? Você acha que tem alguma coisa a ver com privilégio? “Nossa, olha, elas pagam metade, como estão ricas!”

É como aquelas festas em que as mulheres podem entrar antes e, enquanto elas estão lá dentro, antes dos caras chegarem, rola open bar. Mulher, nesses casos, é isca. Isca. Objeto.

Para o empresário dono da balada, não interessa ter um lugar lotado de homem hétero e com poucas mulheres. Eles provavelmente vão brigar entre si pela atenção das garotas, que possivelmente serão agredidas (terão o cabelo puxado, não conseguirão ir ao banheiro sem “pagar pedágio”, não poderão dançar uma música inteira em paz). Logo, o lugar não será atraente para as mulheres que, apesar de às vezes quererem, sim, ir a um a boate com muitos caras, não querem ser puxadas ou encurraladas.

Vocês nunca foram numa night em que só deixam entrar casais num determinado momento e/ou a mesma quantidade de homens e mulheres? É para evitar brigas e tumultos.

Assim, oferecer open bar para as mulheres e/ou cobrar menos para a entrada delas não é uma coisa que estão DANDO para as mulheres. É tão somente uma forma de atrai-las e, por conseguinte, fazer com que os caras imaginem que ali eles terão mais chance de “sair do zero a zero”. O open bar serve para embebedá-las e deixá-las “mais facinhas”. É só isso. E é bem nojento, convenhamos.

Na verdade, é o contrário do que dizem por aí. Dizem que é algo bom para as mulheres, quando o fato é que isso só é bom para os homens e para o empresário. Tratar as mulheres como isca é machismo, meus caros.

***

Leia outro post do feminismo para principiantes: trabalhar fora.

Se você tem alguma pergunta sobre feminismo, aqui tem o ask.fm de Feminismo para Principiantes. Sua pergunta pode virar um post aqui no blog. Vai lá. :)

O caso Pistorius e o discurso de crime passional

Uma das mais famosas frases de defesa do feminismo (como se precisássemos disso) é “o feminismo nunca matou ninguém, o machismo mata todos os dias”. O assassinato de mulheres pelo próprio parceiro é o ponto final de histórias de violência que muitas vezes se prolongam por décadas.

Segundo dados da ONU, 70% das mulheres sofrem algum tipo de violência durante a vida. Tal número representa duas a cada três mulheres.

Às vezes a gente vê isso acontecendo, reconhece as marcas de agressão física, percebe que alguém está correndo risco, mas não fazemos nada. Aqui no Brasil temos aquele ditado de “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”. Recusamos ajuda durante, e depois, quando o crime escalou para algo irreversível – o assassinato -, temos a atitude de culpar a vítima.

“Ah, ela ficou lá porque quis”, “se ela tivesse terminado”, “alguma ela aprontou”. E perdoamos o assassino: “ele estava descontrolado”, “agiu sob violenta emoção”, “ele a amava demais”.

O caso Pistorius é emblemático nesse sentido. Como observou Jessica Valenti nesse texto (em inglês), “apenas um dia após atirar em Steenkamp [a namorada do atleta] quatro vezes, Pistorius tem sido descrito como “calmo e positivo” e “inspirador”. Ela? É chamada de “loura de pernas longas”".

Se você não está familiarizado com o crime, um pequeno resumo: Pistorius é aquele atleta que correu nas Olimpíadas de Londres de 2012 com próteses nas duas pernas. Todo mundo aplaudiu, achou o máximo, se inspirou na história do homem que, apesar de tudo, não desistiu do esporte.

pistorius

 

Um vencedor, dissemos.

Esse mesmo homem matou a tiros a namorada na última quinta-feira. Primeiro, a notícia foi a de que ela teria entrado sorrateiramente na casa do atleta para surpreendê-lo e ele a confundiu com um ladrão.

Os fatos foram se desenrolando e, até agora, o que se sabe é que a modelo Reeva Steenkamp foi morta no banheiro da suíte. Os últimos detalhes revelados indicam que ambos estavam deitados na cama (a posição dos lençóis mostra que havia duas pessoas deitadas). Reeva e Pistorius vestiam roupas de dormir e chegaram ao condomínio do atleta às 18h do dia anterior. Duas horas antes do assassinato, a polícia e os seguranças do condomínio foram chamados porque os vizinhos ouviram uma briga entre o casal.

Agora, surgiu na cena um bastão de críquete coberto de sangue – além de Reeva ter ferimentos no crânio. Um dos tiros atingiu o quadril da modelo, que teria se escondido no banheiro – e os outros três tiros foram na cabeça de Reeva. Machucados na mão dela indicam que ela teria tentado “proteger” a própria cabeça.

A história é toda horrenda e assustadora. Mas ela nos aponta coisas que insistimos em não enxergar. A primeira delas é que violência doméstica acontece em qualquer classe social. Em segundo lugar, que pessoas “acima de qualquer suspeita” na vida social podem ser, na verdade, criminosos frios e agressivos. Em terceiro, que esses crimes poderiam ter sido evitados – no caso de Pistorius e Reeva, a polícia já havia sido chamada outras vezes à casa do atleta em razão de distúrbios entre os dois.

Quarto e muito, muito importante: a cobertura midiática de crimes como esse insiste em culpabilizar (ou apagar) a vítima, costumeiramente mostrando o agressor como um cara bacana, “que ama demais”. Foi assim no caso Eloá e no de Ângela Diniz. Nesse último, o assassino Doca Street matou a companheira para “proteger sua honra” e “sob violenta emoção”. E chegou a ser absolvido no primeiro julgamento (e condenado depois a 15 anos de prisão).

Chega de romantizar crimes contra mulheres.

Não há nada romântico em matar alguém.

Isso não é “crime passional”. É violência de gênero. É ainda mais grave do que um latrocínio (roubo seguido de morte), porque essas pessoas confiaram nos parceiros e decidiram levar uma vida com eles.

Traduzo um trecho do texto de Jessica Valenti sobre o caso Pistorius porque é perfeito e aponta exatamente o que falei acima:

A conversa sobre assassinatos decorrentes de violência doméstica não passa de um conto de fadas – uma narrativa criada para fazer a loucura ter sentido. Afinal de contas, é mais confortável pensar que Belcher [um americano que deu nove tiros na esposa recentemente] tinha algum problema mental do que admitir que alguém que nós admiramos tanto era um agressor violento e controlador. É mais fácil pensar que Pistorius acidentalmente atirou em Steenkamp do que admitir que o assassinato era o final previsível para o relacionamento violento.

Por isso nós culpamos as mulheres mortas pela violência impensável cometida contra elas. Fazemos isso em parte por causa da misoginia, mas também porque isso dá uma falsa sensação de segurança. Dias após ser morta, a mulher de Belcher foi criticada por chegar tarde em casa (que abuso!), acusada de tentar deixar o marido e “levar o dinheiro dele”. Pelas descrições sexuais de Steenkamp, tenho certeza que logo alguém vai sugerir que ela de alguma forma “pediu por isso” – ela estava provocando ciúme em Pistorius ou paquerando demais. Nós precisamos acreditar que essas mulheres tiveram alguma culpa na violência, porque se não isso poderia acontecer com qualquer uma de nós. (Nós não somos “como elas”!)

News flash: você é exatamente como elas. Você é mulher. E só isso já dá automaticamente passe livre para alguém cometer violências contra você. Precisamos mudar o discurso. Imediatamente.

UPDATE: Se você ainda não se convenceu a respeito da forma como se trata a vítima de uma agressão misógina, veja a capa do The Sun abaixo. Inacreditável. Ah, caso você leia em inglês, não deixe esse texto aqui passar.

thesun

Melancolia ou recaída?

Como vocês sabem, eu tenho depressão. Custei a aceitar isso – e às vezes ainda tenho dificuldade em fazê-lo. Minha primeira crise diagnosticada foi em 2010. No ano seguinte, sem tratamento, eu percebi os sinais chegando e fui adiando a ida à médica.

Tentei marcar, não conseguia, e como tudo na minha vida estava uma loucura, fui deixando pra depois. O resultado se mostrou o pior possível. Quando os problemas se acumularam, eu desmoronei. Vocês acompanharam tudo aqui.

Com a última – e séria – crise, eu finalmente compreendi que não adianta eu fugir, fingir que ela não existe. Eu tenho a doença. Ponto final. Sem discussão.

Só que eu ainda não aprendi a lidar com a tristeza e a melancolia. Todas as vezes em que fico pra baixo, o medo toma conta de mim e eu penso que é ela voltando. Começo a pirar, imaginando as semanas que terei pela frente. Logo sinto o chão se abrindo embaixo dos meus pés e isso me desespera. Eu não sou capaz de aguentar tudo de novo.

Mas e se for só tristeza, preocupação, insegurança, coisas que todo ser humano normal – depressivo ou não – sente? Se for porque realmente a vida está mudando e eu estou ansiosa (e um pouco medrosa)? Ao contrário do que as pessoas pensam, os antidepressivos não te deixam dopado; você continua vivendo e sentindo como qualquer outra pessoa.

É exaustivo ficar o tempo todo prestando atenção nas coisas. Se dormi, se comi, se fiz tudo o que havia programado pra aquele dia, se inventei desculpas para não sair de casa. A cada resposta, vou ficando mais ou menos em pânico.

Infelizmente, dessa vez, parece muito mais uma recaída do que tristeza. O bom de estar bem (porque estou) é conseguir perceber isso e ir atrás de virar o jogo. Nunca mais vou cair na besteira de adiar, de deixar pra lá, de achar que consigo sozinha, esperando algo de maravilhoso cair do céu e me tirar do buraco.

O chato é que os momentos tristes, que acontecerão sempre na minha vida e na de qualquer pessoa, vêm com esse gosto de fel, amargando tudo ao redor. Eu ainda não consigo identificar quando a tristeza é passageira ou quando ela quer se instalar de vez. Um dia eu aprendo. Só sei que dessa vez, não. Não tão cedo. Tô de olho em você.

Apoie o blogueiro

Compartilhei o ótimo texto da Aline Valek sobre o horrendo comercial de lâminas de barbear na página do Cem Homens no Facebook. Até agora ele teve 66 compartilhamentos. Mencionei o número no Twitter e ela ficou surpresa. Não deveria; as observações de Aline são excelentes.

Na verdade, acho que ele poderia ser compartilhado ainda mais vezes (outras pessoas indicaram, então o número com certeza é maior). Depois de entrar na fanpage, fui dar uma olhadinha no grupo do blog, também no Facebook. Grande parte dos links que a galera coloca lá são de absurdos; posts horríveis, fotos/montagens preconceituosas, páginas absurdas.

Entendo a vontade de ouvir a opinião do outro, de não se sentir sozinha nesse mar de merda no qual nadamos. No entanto, a discrepância entre o número de compartilhamentos de algo bacana versus algo ruim sempre me deixou encafifada.

Vejo gente muito, muito boa com poucos seguidores no Twitter, enquanto o Rafinha Bastos (pasmem!) ultrapassou os 5 milhões de seguidores. Sei que isso acontece porque o cara é conhecido, está na velha mídia, etc.

Por outro lado, há sim blogueiros péssimos com muitos seguidores, com fan pages bombantes, com zilhões de acessos diários sem seus blogs. Como isso acontece? Bom, o número de acessos é meio fácil de explicar. Eles normalmente colocam vários posts de vídeos/fotos/piadinhas por dia, ficam chamando direto no Twitter, as pessoas clicam, e aí o número vai crescendo.

E quando uma empresa busca blogs para anunciar, é nesses que elas vão. Claro. Medem relevância por números. Não sei se é a estratégia mais inteligente, mas não sou especialista e é assim que a banda toca.

Assim, para a maioria de nós, escrever no blog ou alimentar o conteúdo de tumblrs e fanpages é um trabalho totalmente não remunerado. Fazemos porque gostamos, porque acreditamos, porque nos faz bem.

Então, que tal apoiar mais esses blogueiros que você curte? Sempre vejo nos blogs gringos o botãozinho de doação, coisa não muito comum por aqui. Por que será que isso acontece? A gente acha que o blogueiro não está fazendo mais do que a obrigação? (pergunta honesta; eu nunca doei para blogs ou para quem, sei lá, faz um serviço que eu uso online, como a Wikipedia ou quem faz plugin de wordpress.)

Se doar é um pouco demais pra você, compre o livro dos blogueiros que você gosta. Isso inclui o meu, claro, mas a Lola e a Clara, por exemplo, lançaram livros ano passado. Não pense que porque lançamentos livros nós estamos ricas. Um autor ganha de 5 a 15% do valor de capa, e as tiragens no Brasil são de mais ou menos 2 mil exemplares.

Faça as contas: num livro de 30 reais, o autor fica com 1,50 a 4,50 reais. Se ele vender tudinho, na melhor das hipóteses, ele ganha 9 mil reais. Ao fim de um ano, mais ou menos (o que dá 750 reais por mês). Ainda incide imposto de renda sobre isso.

Então, o meu pedido de hoje é muito mais simples: curta, compartilhe, comente. Dê feedback sobre algo que você leu e gostou. Mostre pros amigos. Siga no Twitter (o Twitter do Cem Homens, por exemplo, tem só 400 seguidores).

Escrever blog não é fácil. Requer tempo, pesquisa, conhecimento. Só procurar imagem leva séculos (estou em greve, então nesse post não vai ter nenhuma!). Temos que pagar servidor, alguém para fazer layout… e aguentar um monte de gente chata e agressiva.

Se você puder, então, comentar mais, compartilhar os textos que você acha bacana, dizer pro blogueiro do que você gostou, acho que todos nós agradecemos. Eu sei que eu vou ficar feliz. Os botões tão aí embaixo, é fácil fazer isso. Apoie o blogueiro. ;)

Posts velhos e resultado de promoção!

Oi!

Hoje não tem post novo…Mas tem post antigo voltando ao ar e resultado de promoção!

Como vocês sabem, eu ia sortear três livros meus. Um deles já foi para a Francielen (sorteio do twitter).

O segundo livro era para quem retuitasse um link. Eis o resultado:

sorteio link 1

(já tentei mil vezes deixar a imagem maior, mas o wordpress está de brinks comigo hoje, então é a Ana Gomes, twitter @meninaano). 

O terceiro livro foi para a Renata Cartaxo, que era para quem preenchesse uma planilha. O sorteio foi feito pelo random.org e o número dela saiu.

Ana e Renata têm até amanhã, 13h, para me responder com seus endereços. Caso não o façam, o sorteio será repetido.

Obrigada pela participação, e mês que vem tem mais sorteio aqui no blog (mas é de outra coisa). Se você quiser comprar o livro, ele está à venda aqui.

***

Posts voltando ao ar:

Relato de um leitor sobre o namoro com uma garota de programa

Há quase um ano, eu chegava ao Rio de Janeiro e finalmente me sentia melhor depois de uma crise depressiva

Sexo oral: prazer de quem? 

Gostar de pinto me faz uma pseudofeminista (e o trashing por trás disso tudo)

Há um bom tempo eu não procuro saber o que falam de mim nas redes sociais, tampouco participo de grupos feministas. Fiz isso para me preservar; de fato algumas coisas eram pesadas demais para eu carregar.

Foi uma ótima decisão. Agora produzo muito mais, me estresso menos e não  me chateio. Junto com essa mudança de comportamento, veio também a certeza de que eu preciso fazer algo de fato (e de direito) contra algumas dessas pessoas. Todo mundo sabe, porque já disse aqui mil vezes no Twitter também, que o grupo do Blogueiras Feministas é um dos lugares em que as agressões correm soltas.

E de lá já saí há meses.

O problema é que nem sempre é possível se blindar. Hoje, logo ao acordar, vi uma discussão no twitter em que falavam mal de mim. Uma das pessoas na conversa já faz isso de forma recorrente. O problema – e foi assim que fiquei sabendo – é que uma “amiga” minha estava no meio.

Tudo começou porque a Clara Averbuck escreveu um post em que ela me linka. Duas mulheres disseram que gostaram do texto da Clara, mas que não divulgariam justamente por causa dessa indicação feita a mim.

Acabo de ler um texto sobre feminismo bacana, mas como cita pseudo feminista falocentrada, não posso citar, sorry.

o texto é bom. Mas não posso endossar algo que indica um treco desses, hahaha

A pseudofeminista falocentrada, no caso, sou eu. :)

Daí ela resolve “explicar” o ponto dela:

ué, é simples: a vida da pessoa gira em torno de homens, do que eles fazem, do que eles não fazem, dos canos que leva…

É uma walking Sabrina, sem tirar nem por.

tá tudo certo, não vejo problema nisso, mas não me chame de feminismo ou de liberação da mulher,pq eu vejo o mesmo romantismo.

disfarçado sob a roupagem de “só quero sexo”. Mas o falocentriscmo tá ali. A importância dada a ter um homem tá presente.

né? hahaha, é doído até, não rio porque deve ser sofrido. Mas que não tem nada de feminismo, ah não tem.

Tudo isso foi escrito por uma pessoa que já deixou claro no passado que não gosta de mim. O problema todo – e que me machucou – é que ela estava conversando com a tal “minha amiga”.

Fiquei chateada porque, apesar de não nos vermos nunca, nos respeitávamos (ou eu pelo menos achava isso), compartilhávamos confidências, fazíamos planos (ela estava incluída em um dos meus projetos).

Daí essa mesma pessoa, que sabe que não, minha vida não gira em torno de homens, concorda, ri, faz graça… sobre mim.

Ainda que minha vida de fato fosse do jeito que as pessoas pintam, elas não têm o direito de fazer julgamento de valor a respeito. Elas sabem disso. Não estou falando de gente ignorante. Também jamais disse que transar com vários caras fosse uma “luta feminista”, mas sim que o feminismo permitiu (mais ou menos, ainda) que eu fizesse o que bem entendesse com meu corpo.

No livro da bell hooks que citei mais cedo, há a seguinte frase: “Se as mulheres não têm o direito de escolher o que acontece com nossos próprios corpos, nós nos arriscamos a abrir mão de direitos sobre qualquer outra área das nossas vidas”. É simplesmente isso: o corpo é meu e eu posso/quero/faço. O feminismo me deu isso, e não o contrário.

De todo modo, eu não vou pedir desculpa por gostar de homem e de sexo. Assumo isso (até escrevi um livro, vejam só). Mas uma amiga dizer que tudo o que faço se resume a isso é demais pra minha cabeça. Doeu. Eu não preciso repetir aqui o que um monte de gente já sabe. Eu não sou unidimensional.

Gosto de pinto. Gosto de barba roçando no meu pescoço. Gosto de perceber o sorriso safado na hora do flerte. Gosto de ver os olhos se fechando e o corpo tremendo na hora do gozo. Gosto, não: amo.

Isso não me faz mais ou menos feminista do que qualquer outra pessoa.

O curioso é uma so-called feminista fazer slut shaming com outra feminista, e ainda tirar a minha carteirinha e me chamar de pseudo. Mas qual é a novidade? É assim que ela se refere à Lola, por exemplo:

a pessoa que escreveu o texto me bloqueou depois de uma briga, hahaha! Ela endossa o texto da pseudo e da outra, com 4 letras

Num único tuíte, ela caçoa de três feministas: eu (pseudo), a Clara (a pessoa sem nome que escreveu o texto) e a Lola, que vira “a outra, com 4 letras”.

Num único tuíte.

Minha chateação com tudo isso se deve, é claro, por ter uma “amiga” envolvida na conversa. Contei o acontecido a uma amiga feminista, e ela me indicou um texto excelente sobre trashing no meio feminista. O texto é enorme e em inglês, mas com ajuda eu vou traduzi-lo e postá-lo aqui no blog.

O curioso é que ele foi publicado em 1976 na Ms. Magazine, e é assinado por uma feminista militante dos Estados Unidos. Ela conta como foi banida e agredida verbalmente em círculos feministas. Ao ler o texto, resolvi escrever esse post. Porque ele é sobre mim, mas sobre todas as feministas que vejo sendo acuadas o tempo todo por gente que se diz feminista.

Falo em meu nome, apenas, mas posso citar de cara as perseguições à Lola e à Clara, já expressas nesse post, e à Jarid Arraes. Há outras mulheres que não sei se gostariam de ser citadas aqui.

E por que essas pessoas atacam? A resposta eu deixo com Anselma Dell’Olio, num trecho da palestra “Divisão e autodestruição do Movimento Feminista”, citado no texto da Ms:

E por que elas atacam? Geralmente por duas coisas. Realizações ou conquistas de qualquer tipo parecem ser o pior crime: faça qualquer coisa que outras mulheres secretamente ou não pensam que poderiam fazer igual – e… é o suficiente. Por outro lado, se você for incisiva e tem o que é geralmente descrito como “personalidade forte”, isto é, não se enquadra no estereótipo de “mulher feminina”, está acabado. 

Se você está na primeira categoria (uma pessoa que conquista coisas), você é automaticamente rotulada como oportunista, mercenária implacável, doida pra fazer grana e fama em cima dos corpos das militantes altruístas que enterraram as próprias habilidades e sacrificaram suas ambições para a glória do feminismo. 

Produtividade parece ser imperdoável – mas se você tem a desgraça de ser sincera e articulada, você é também acusada de ser controladora, elitista, fascista e, o pior: se identifica com os homens.”

A autora diz que muitas das militantes que foram “trashed” (e ela se inclui nesse bolo) simplesmente se afastaram do movimento. Eu vejo isso acontecendo repetidamente por aqui. Algumas desistem; outras, como eu, continuam escrevendo, produzindo, mas se afastam de grupos e passam a falar com o público não-militante.

É triste. Mais triste ainda quando o ataque te pega de surpresa, como aconteceu comigo hoje (estou falando da minha até poucas horas atrás amiga). Dá vontade de desistir, de acabar com a porra toda, de apagar os rastros online e voltar a, sei lá, advogar.

Esses pensamentos sempre voltarão à minha mente quando coisas parecidas acontecerem comigo ou com outras militantes. Eu não sei até quando a gente aguenta. Só sei que, se a gente desistir, alguém vai ter vencido. E não vai ser o feminismo.