“Você está estranha. Engraçada, sei lá. Toda elétrica” ela me disse, como se eu estivesse com a cabeça cheia de doce.
“Eu sou assim.”
Lembro da festa de fim de ano da empresa em que trabalhava há dois anos. As pessoas podiam jurar que eu estava bêbada, só porque eu dancei, ri, cantei, fiz piada. Algumas semanas antes estivemos em outra celebração, bem na época em que tomava uns oito remédios ao dia (depressão, menopausa, insulina, etc) e estava com o pé quebrado.

Aloka de tiara de chifres de rena, rindo descontroladamente das caretas das amigas. A única com uma cara mais normal é a @talitaribeiro <3
Todas essas pessoas – do meu ex-trabalho e, agora, uma amiga – sabem que de fato eu sou ranzinza e reclamona, mas elas também me viram numa fase difícil. Como me conheceram daquele jeito, descendo rabbit hole abaixo, presumiram que eu fosse triste, desanimada, estressada.
Penso em quantas pessoas também me conheceram em fases difíceis, quantos relacionamentos enterrei em tais épocas, tudo porque eu não estava no meu normal. E, apesar de nunca ter escondido minha condição, sei que é difícil realmente compreender o que sinto. Também não deve ser fácil tomar patada em cima de patada, sem descanso, sem sorriso no final (ou antes, também).
Ninguém tem a obrigação de ficar por perto e esperar que as coisas melhorem. Cada um sabe até onde consegue ir; às vezes a pessoa não gosta tanto assim da gente para suportar o mais ou menos longo período até a estabilização. Infelizmente não há como saber quando a crise irá acabar ou quais seus os efeitos colaterais. Algumas pessoas não querem pagar pra ver.

Aí eu mudei de tiara, mudei os amigos, e continuei sem conseguir parar de rir (a sequência dessas fotos é completamente louca, inclusive)
E a gente vai ficando sozinha, porque também temos o direito de não querer por perto quem não entende os períodos nebulosos, quem não tem paciência, quem não segura na sua mão e diz que tudo vai ficar bem.
Porque pode ser que não fique nunca. Pode ser que você desista antes. Pode ser que dure tanto tempo que você simplesmente nunca mais consiga imaginar que vai passar.
Para quem me conheceu ou conviveu comigo entre os últimos meses de 2011 e muitos meses de 2012 (período carinhosamente chamado de “o ano do coma”), eu posso ser vista como uma bruxa, briguenta, dramática, mal humorada, chata pra caralho. Eles não estão errados – foi assim que me mostrei pra eles. Eu não era eu, mas como eles haveriam de saber? O desconhecimento sobre depressão ainda é geral, e nem todo mundo tem interesse em pesquisar o assunto; é mais fácil achar que a pessoa É daquele jeito, e não que ela ESTÁ. E que vai passar.
A boa notícia é que alguns seguraram as pontas. Ficaram por perto apesar de mim mesma. Hoje me olham com surpresa dançando no supermercado, falando rápido ou tendo ideias. Semana passada uma amiga disse “que não dá nem pra comparar” a Nádia de hoje com a de um ano atrás. Não nos aprofundamos no assunto (estávamos ocupadas comendo a fries do Outback – restaurante que, pelo que li nas redes sociais nos últimos dias, é só “pra quem gosta de comida ruim” – risíssimos).
Mas fico feliz de ela ter permanecido, assim como vários outros amigos. Também me entristeço com quem foi embora. Sinto saudade às vezes. Mas me desgastaria demais dizer “ei, eu sou essa aqui, não aquela lá”, como quem clama por atenção. Se não conseguiram me amar quando eu estava no fundo do poço, por que eu os deixaria chegar perto agora que eu estou alive and kicking?
(este post é o primeiro da “semana sobre depressão”, que vai até sábado aqui no blog.)

Olá Nadia. Acompanho seu blog e fico feliz que aborde este tema. Há mais de dez anos sofro com os altos e baixos da depressão e sei bem como é. Tomo medicamento, frequento psiquiatra, tudo certinho, mas há dias – como hj – em que o simples fato de trocar de roupa vira uma tortura. Perdi amigos nessa jornada, de alguns tenho saudades até hj. Às vezes sinto que as pessoas realmente não compreendem como nos sentimos nos períodos nebulosos e eu mesma me canso, sabe? Acho que você conhece a vontade de querer se sentir “como as outras pessoas”… Pouquíssimas pessoas sabem da minha condição, pois não quer ser rotulada como “a depressiva” ou “olha ela usando essa desculpa de novo” :(
Continue escrevendo!
bjs
Eu conheci um “amigo” quando eu estava entrando na depressão. Ele me acompanhou na pior parte, mas logo que comecei a melhorar, tanto eu quanto ele ficamos ocupados (ele começou a trabalhar e estudar, eu entrei na faculdade) e ficamos uns meses sem nos ver. Saímos há algumas semanas, eu já de volta ao meu normal, que ele nunca chegou a conhecer de verdade.
Resultado: saiu falando por ai que eu estava dando em cima dele, porque estava toda animada e falando diferente.
Pois é. Nem sei o que comentar.
Ele preferia vc toda cagada, é isso? Que imbecil.
tem muito homem débil mental que pensa assim mesmo, se vc sorri ou é educada e atenciosa ele pensa que vc quer da pra ele.
Amo essa sequência de fotos, porque nesse dia nos divertimos muito, mesmo sem você beber e eu não saber dançar. Foram dias/ meses/ ano difíceis mesmo, mas que passam, para entrar uma nova estação, e, mesmo você estando assim, chatinha, eu me divertia tomando cafés contigo e, depois, jantando no outback e falando sobre sacanagem. Inclusive, fiquei com ciuminho dessa sua outra amiga e vc agora me deve uma ida ao restaurante q não tem comida boa…rs
Espero que a gente continue trocando carinho em forma de palavras, abraços ou o que mais você quiser compartilhar (ui!)
Te amo.
Bj
Oi, Nádia! Eu a acompanhei durante o período em que estava bem mal, no ano passado, e o fim do seu namoro. Só que fiquei bem quieta por aqui, por não ter palavras de conforto, mesmo como uma mera leitora. Por achar que dizer apenas “vai ficar tudo bem” fosse muito clichê e soasse tão idiota ou cômodo para mim, que estou longe e não lhe conheço pessoalmente. Inclusive, comecei a ler o “Demônio do Meio-dia” por indicação sua. Fiquei curiosíssima para saber mais a respeito dos altos e baixos da depressão. Eu me surpreendo a cada texto que você escreve, pois exala autoconfiança e aparece sempre muito humana na frente de nós, leitores, nessas idas e vindas, oscilações de humor, felicidades e infelicidades. Respeito-lhe infinitamente por ter enfrentado os trolls, os chatos de plantão, os e-mails lhe xingando de tudo quanto é nome só porque exerce livremente sua sexualidade e vontades. E estou aqui, mais uma vez, para parabenizá-la pela força que tem e pelo exemplo que representa, pelo menos para mim. Achei linda a declaração acima da sua amiga Talita. Fique bem sempre!!
Menina… será que você não é bipolar não? Digo isso porque, se for, os antidepressivos podem ocasionar uma “virada maníaca” e aí… bom, aí você nunca vai conseguir ficar com o humor (afetivo) equilibrado! Já li sobre vários diagnósticos errados, em que o psiquiatra dizia ser depressão (porque o bipolar de fato sofre de depressão), quando na verdade a pessoa tinha bipolaridade!
Abraços,
Carol, já que você é tão interessada por bipolaridade, deveria entender melhor o que é uma fase maníaca…
E eu entendo sim. É que a bipolaridade tipo 2 não tem a chamada “mania” e sim a hipomania, que é quando a pessoa passa a maior parte do tempo depressiva e em alguns momentos ela se sente um pouco melhor, quer falar mais, etc… Mas logo depois, surge a depressão de novo! É complicado… E é o meu caso, inclusive! Só comentei porque sei de pessoas que passaram tanto tempo tratando da depressão quando na verdade precisavam de um outro tipo de medicamento. Mas vai saber né?! Ninguém entende direito o que a gente passa e, vou te confessar que nem eu sei o que sinto às vezes!
Carol
Concordo com a Nádia e entendo perfeitamente o diagnostico de “biplano tipo 2″. Existe um medicamento “da moda” que faz com que seu laboratório esteja ganhando milhões. Justamente por “alargar” o diagnostico de bipolaridade. Cuidado com seu tratamento.
Bjs
Bettina
Retificando: “bipolar tipo II ou III”
Infelizmente é fácil encontrar gente que acha que o seu problema é de verdade, mas o problema do outro não. Tratar a bipolaridade não é questão de escolha, eu não posso decidir que vou me curar só com terapia, porque é uma doença crônica (pense numa pessoa epilética, por exemplo). E sim, existem outros tipos de bipolaridade. É algo que antes eu não percebia em mim e hoje percebo, mas mesmo assim não consigo controlar quando acontece. Assim, os estabilizadores de humor me ajudam a não ficar oscilando e sofrendo tanto por coisas tão pequenas! Meu comentário inicial não teve a intenção de invalidar tudo o que a Nádia passou, eu não quis parecer alguém que sabia mais dela do que ela mesma. Só comentei porque o início do texto dela me chamou atenção, me identifiquei, pois as pessoas percebem muito minhas mudanças de humor.
Sabe o que ficou chato, Carol? O texto é justamente sobre como isso não é oscilação de humor. Eu sou essa pessoa de agora; não aquela lá da época que a pessoa me conheceu. Não estou falando de uma mudança de um mês pra cá, mas de um ano.
Enfim, eu entendi o que você quis dizer, mas é chato esse diagnóstico online. É CLARO que a possibilidade de eu ser bipolar já foi levantada pelos médicos. E eu não sou. Sempre deixei bem aberto qual é o meu diagnóstico.
Isso que você escreveu é o que eu sinto. Estou em depressão tem quase 10 anos, e eu sinto que minha personalidade ficou perdida, e eu virei uma pessoa mal humorada e sem energia. Eu queria que as pessoas entendessem, mas 10 anos é um longo período e as pessoas estão convencidas de que eu sou isso. Eu ainda espero sair dessa, estou direcionando minha vida pra isso, mas não tem sido fácil. Parabéns pelo blog.
Samara, realmente 10 anos é muito tempo. Que tipo de tratamento você está fazendo?
Já passei por vários, mas hoje faço terapia com um profissional que também é psiquiatra e me receita remédios quando preciso. Mas não tomo nenhum agora. Faço terapia a um ano, e acho que está me mostrando padrões de comportamento que me fazem mal. O difícil é mudar atitudes que estão com a gente desde a infância. O que eu mais quero é aproveitar a vida, me sentir bem comigo mesma, e refazer a imagem que as pessoas tem de mim.
Samara, a terapia demora, mesmo. Mas você vai melhorar. Persista!
Obrigada!
Como assim só tem comida ruim no outback, heim redes sociais ? Meu deus, o que é aquela batata assada com queijo derretendo e… Opa, esse é um post sobre depressão, não é mesmo ? hahah
Nádia, a tua recuperação é visível, e tua alegria contagia, é muito bom te ver feliz e brincalhona, te acompanho desde meados de 2011, e também tenho depressão, então, me identifico demais com o que tu escreve!
Beijão !
HAHAHAHA #vaigordinha eu também pensei em comentar sobre isso, tava aqui conjecturando o comentário “é bom, mas é ruim” ou “é ruim, mas é bom”.
Parabéns por ter saído dessa, Nadja.
Bjs
Teu exemplo é muito bom pra pessoas que ainda estão nessa fase e tem esperanças de um dia melhorar. Além do mais, você escreve muito bem sobre um assunto que nem consigo conversar…
Vou me meter..sem querer querendo…
eu tb não conseguia nem falar… minha mãe me julgava pacas, quando eu queria falar algo, mas no dia q eu consegui me expor eu melhorei e muitoooo..
Nádia !!!
só quem já passou sabe o que é ser julgado e vc sabe muito bem o que é isso..
Essa semana eu escutei:caramba, como vc tem trauma, engraçado, as pessoas só querem ver seu lado bom, ninguém sabe o que vc passou para chegar onde chegou…
Esses últimos anos tem sido péssimos para minha pessoa, e estou convivendo a +-7 anos com a palavra depressão, sindrome do pânico, TOC e etc… a +- 2 anos mesmo com vários problemas sigo em frente sem is remédios, os amigos de verdade entenderam, e aos que não entenderam só desejo que eles nunca passem por isso..
Foco, força e fé sempre!!!
beijos milllll
ah vim aqui de novo só para dar uma ideia…
vc podia marcar um encontro com seus seguidores no restaurante de comida ruim rs rs !!!
bjs
Olá,
eu acho muito interessante abordar esses temas sobre depressão há um ano foi um período muito ruim para mim tb; sou uma pessoa divertida e animada, e, obviamente, eu não fiquei assim nesse período. Só quem tem/teve depressão sabe como é, uma doença horrível em que você fica presa no próprio corpo e não sente vontade de fazer nada. Tive sorte pois meus amigos e familiares me ajudaram muito, foi fundamental para o meu tratamento. Infelizmente, não são todos que recebem isso.
Eu acompanhei você durante seu pior período, que também foi o meu pior período. E de certa maneira, aquilo me trouxe uma esperança, uma sensação de que tudo passa, e que a depressão é um filtro. Pois as pessoas que foram escrotas comigo nesse período, não servem pra mim nos meu melhores momentos também. Que às vezes a gente só precisa de um abraço, um colo, um ouvido.
Eu perdi amigos e carinho de alguns familiares com a depressão, mas ganhei outros amigos, muito mais valiosos. Gente que me conheceu no pior estágio, e que estava ali, disposto, pra me ouvir chorar, ou conversar comigo em inglês, porque sabia que eu tinha vergonha de falar as coisas na frente de outros.
Enfim, foi mais um desabafo que qualquer coisa.
Eu só espero que você continue bem, e cada dia melhor.
E agradeço por partilhar suas dores e alegrias. Sou sua fã incondicional.
Não me sobrou ninguém. :-(
“Alive and kicking”! Ótimo de ler isso, querida Nádia! =]
Quem não esperou, se deu mal!! Afinal de contas, ninguém é feliz o tempo todo! E amigos ficam ao nosso lado nos bons e maus momentos. :)
Sei muito bem como se sente. Eu fui ao extremo, cheguei a ser agressiva, masculinizada, do tipo que até mendigo muda de calçada. Não sobrou ninguém. Ninguém mesmo. Nem aqueles que eu suportei toda a melancolia e psicose, sim psicose. Fiquei eu e Deus. E meus familiares que não tinham outra escolha e que mesmo muitas vezes não me compreendendo, queriam o meu bem de verdade. Sei que afastei muita gente e faço isso até hoje. Consciente ou não. Tenho dificuldades ainda em me socializar. Mas finalmente estou encontrando a luz e me preparando para adentrar novamente a sociedade. E muito empolgada para os novos desafios! Muito bom começar a enxergar a vida de um outro ângulo. Muito bom entender e perdoar. Muito bom olhar para o céu e se sentir parte do universo. Um grande beijo!