Acredite e se conforme: eu não me importo

Já conheci e me envolvi com muito homem nessa vida. Tentei tratá-los  bem e muitas vezes, creio eu, isso passou a mensagem errada. Afinal, “se uma mulher está transando comigo, se importa e está por perto, ela quer namorar comigo, com certeza”.

Não. Simplesmente não.

Talvez eu trepasse com você porque você é gostoso, porque meus hormônios estavam me pirando, porque eu estava triste, porque eu não soube dizer não, porque foi cômodo, porque eu não estava fazendo nada e você também, porque eu estava na seca. E, também, porque talvez eu estivesse muito, muito, muito atraída por você e quis saber no que tudo isso ia dar.

Deixei pra trás algumas dessas “justificativas”. Aprendi a dizer não, por exemplo. Mas nem sempre o que me leva a transar com um cara é algo considerado nobre por essa sociedade que separa sexo de respeito. Pra mim, as coisas são indissociáveis.

E, talvez, lidar bem com sexo casual dê um nó na cabeça de alguns (muitos) homens. Criou-se a lenda de que a mulher só faz sexo para conseguir algo em troca: dinheiro, presentes, emprego, atenção. Nunca é simplesmente porque ela gosta.

Como sabem que eu não quero bens materiais, pronto – resta a teoria de que eu quero namorar com eles. Parece um tipo de prêmio. Só isso explica o motivo pelo qual vários caras com quem saí venham me avisar de que estão namorando; como se a partir daquele momento eles de repente ficassem off limits.

Sei que várias vezes é porque eles não querem “criar problemas” com a namorada, e a própria ideia de simplesmente falar com alguém ser uma espécie de traição me irrita. O fato de eu já ter transado ou ter desejado transar com um homem não quer dizer que eu serei inconveniente ou farei qualquer coisa contra a vontade dele. Mas, é claro, se ele pular a cerca a culpa seria minha, que me ofereci.

Perdi a conta das vezes em que fui avisada do início do relacionamento com outra mulher. Sempre fiquei com cara de ??, porque, com toda a honestidade do meu ser, na maioria das vezes eu estava cagando quilos.

Mas essa semana aconteceu algo ainda mais curioso. Converso há semanas com um moço. No início até rolou flerte, mas logo desencanamos dessa situação. Notei que ele era desses que param a conversa no meio e somem (vão dormir, tomar banho, fazer qualquer coisa cotidiana – e necessária – mas não avisam). Como tal atitude me irrita sobremaneira, perdi qualquer resquício de interesse sexual no moço. E, bom, era bem pouco até então.

Ainda assim, mandei um whatsapp só de “oi, tudo bem? voltou bem de viagem?” enquanto estava no trânsito, parada há uma hora na Marginal Pinheiros. “Voltei e estou quase namorando.”

What?

Eu nunca sequer beijei esse homem. Como ele, grande parte dos caras que resolveram me avisar do novo status não tinham relevância na minha vida. Alguns, claro, partiram meu coração ao ficarem com outra garota, ainda que meu sentimento por eles fosse, na verdade, apenas carência afetiva. Hoje encaro tudo diferente, mas não vou mentir e dizer que eu sempre ignorei todos eles.

Só que com esses caras havia alguma relação e envolvimento incontestável. Eram pessoas com quem eu falava cara a cara (e corpo a corpo). Aí sim faz sentido contar sobre eventuais mudanças no estado civil.

Fora isso, parece coisa de gente arrogante. E nem adianta dizer “tudo bem” e falar que nada mudou: eles juram que você está querendo sair por cima, como se fosse necessário fingir alguma coisa.

Não, eu simplesmente não me importo. Mas enquanto continuarmos nessa  cultura de “sexo oposto” e de “conquista”, isso vai continuar acontecendo. É uma eterna briga de egos. Se antes de verbalizarem o novo compromisso eu em diversas ocasiões já não me importava, tirar a informação da cartola sem nenhum contexto me faz é perder qualquer tipo de interesse. Não só por não querer compactuar com qualquer tipo de traição de um relacionamento monogâmico (os deuses sabem como já me envolvi com homens comprometidos), mas porque não há nada mais broxante do que a arrogância de imaginar que o outro está na sua mão. Parece que o controle entre ficar junto ou separado está nas mãos de uma pessoa só. Certamente não está na minha, mas é ainda mais certo de que não está na dele.

(no meu caso, na delessssssssss, com um plural quase infinito.)

(e eu imagino que mulheres também façam isso. mas minha experiência é  heterossexual.)

Sim, ela faz parte de mim

- Parabéns! Virou mocinha!, disse uma tia.

Eu, aos nove anos, não entendi nada. Fiquei com raiva da minha mãe. Por que ela espalhou pra todo mundo? Era algo íntimo! Eu estava sangrando, minha barriga doía e eu tinha de usar um quilo de absorvente (estávamos na década de 1980 e, bom, eles eram grossos e não tinham abas).

Não havia motivos pra me congratular. Na verdade, eu senti até um pouco de vergonha. Eu ainda era criança. A partir de então, me preocupava a todo momento em que levantava. A olhadela rápida pra parte de trás da minha roupa; a pergunta às amigas se estava manchado. E esteve. Algumas vezes. A primeira foi no aniversário de um grande amigo. Eu estava de bermuda branca. A menstruação já havia parado; eu não sabia que ela podia simplesmente voltar algumas horas depois.

A irmã do aniversariante me puxou num canto. “Nádia, você está menstruada?” A pergunta era retórica. Uma mancha vermelha gigantesca ostentava para o mundo que eu “tinha virado mocinha”, apesar de ter uns 11, 12 anos de idade.

Liguei pra minha mãe, pedi pra ela me buscar, e fiquei quietinha numa cadeira isolada, sem falar com ninguém, mortificada. Todos os meses, sentia meus peitos crescerem a ponto de os sutiãs ficarem desconfortáveis e de eu ter de mudar a posição de dormir. De bruços, nem pensar!

Usava dois absorventes durante a noite, muitas vezes levantava para trocá-los, e ainda assim era comum ver a poça de sangue no lençol pela manhã. As dores, nem gosto de lembrar. Eram paralisantes. Um dia li na Capricho que a Ana Paula Arósio tomava a pílula de uso contínuo para não menstruar; ela não conseguia trabalhar durante a menstruação. Pensei: “meu deus, alguém é como eu!”.

Adulta, passei a ter uma relação de amor e ódio com o sangramento mensal. Ao mesmo tempo em que me incomodava com os efeitos colaterais, ficava feliz. Era sinal de que eu não estava grávida.

Fomos caminhando juntas: eu e a monstra (cá pra nós, se menstruar fosse visto como uma coisa boa, não teria esse apelido). Anos mais tarde, a porrada: eu estava na menopausa. Calores, fogachos, falta de lubrificação – tudo porque meus hormônios deram tilt e meu corpo resolveu que era hora de parar de funcionar direito. Sim, porque ainda que a menopausa seja o curso natural das coisas, ela veio duas décadas antes da hora.

Engordei – e a gordura se acumulou na região abdominal, coisa que foi novidade pra mim -, parei de transar porque minha libido tirou férias com prazo indeterminado, acordei na madrugada empapada de suor. Descobri nódulos nos seios e me deparei com a impossibilidade de engravidar. Eu nunca quis ter filhos, mas dizerem que você não pode, especialmente numa sociedade que santifica a maternidade, é muito doloroso.

Superei isso e não sinto a menor saudade da menstruação. E eu fiz as pazes com ela depois que li Cunt, da Inga Muscio. A obra aparece em várias listas de melhores livros feministas e uma leitora o indicou. Eu não o amei tanto quanto imaginei, mas mudei minha perspectiva sobre as respostas biológicas do meu corpo.

cunt

“Você precisa se assegurar que sua buceta [durante a menstruação] esteja impecavelmente limpa, usando um montão de sabonete e tomando banho várias vezes, porque garotas menstruadas tendem a deixar o ambiente fedido caso não sejam muito cuidadosas com a higiene pessoal.”

“Era vergonhoso sangrar; ser vista sangrando; deixar que os outros percebessem a parafernália usada para conter o sangramento; falar sobre o assunto; parecer que estava sangrando; pedir dispensa da educação física por causa das cólicas horríveis que muitas vezes acompanhavam o sangramento; demonstrar fragilidade, vulnerabilidade ou mudanças de humor porque em breve iria sangrar; ou demonstrar qualquer emoção além de desdém ou conformismo em relação ao sangue.”

“Ensinam as garotas que sangrar é uma coisa ruim, uma coisa embaraçosa, uma coisa secreta que devermos esconder e manter discreta, faça chuva ou faça sol.”

Inga ainda fala sobre cirurgias plásticas, orgasmo, duplo padrão moral, economia, prostituição. Um dia escrevo sobre o livro; não concordo – óbvio – com tudo o que está lá, mas ele me ajudou a me reconciliar com algumas coisas que são vistas como “erradas”, apesar de serem naturais.

Eu não acho que ter uma buceta me torna melhor do que as bilhões de outras pessoas que não têm órgãos sexuais iguais ao meu. No entanto, além de ter me atribuído papéis de gênero extremamente opressores mesmo antes de eu nascer (sim, as pessoas fizeram isso porque na ultrassonografia viram que eu tinha uma buceta, e não um pinto*), menstruar, ter a possibilidade de engravidar, entrar na menopausa, tudo isso me tornou uma pessoa diferente.

Negar essa experiência é violento. Socialmente tentam fazer com que sintamos culpa pelos ovários, útero, clitóris. Muita gente, aliás, ignora a existência desse último. Imagine, uma parte do corpo com a função única de dar prazer. Que audácia!

Empoderar-se passa por aceitar e amar seu corpo. Não foi minha buceta que me tornou mulher; há muito, muito, muito  mais coisa envolvida na construção da identidade. Porém, ela é parte de quem sou e ter esses órgãos me deram perspectiva diferente sobre as coisas. Meu poder não está diretamente ligado à buceta (meu útero nem tem uma “função”, por exemplo), mas ele não existe se eu não amar meu corpo do jeito que ele é. Minha buceta faz parte de mim, da minha história, do modo como o mundo olhou pra mim desde quando eu era um bebê. Reconciliar-me com ela, sim, faz parte do meu crescimento e empoderamento.

*papéis de gênero também oprimem homens, mas em outra escala. não simplifiquemos em demasia as coisas. 

Back to basics

Estou lendo “Cinquenta Tons de Cinza”. Sim, estou fazendo isso comigo mesma. Tanta gente veio esbravejar nesse post, dizendo que eu não poderia opinar sobre um livro que não li, que resolvi mudar o panorama. Mas tá difícil, tá difícil.

Quando acabar, claro, tentarei escrever a respeito aqui no Cem Homens (promessas, vãs promessas). Muito mais do que o conteúdo em si, me interessa como as pessoas receberam e veem o livro. E, bom, há algo que creio ser péssimo sendo dito por aí: pra Christian e Ana, é muito fácil ter orgasmo.

Ela goza em sonho, com chicotada no clitóris, com meros sussurros. Ela chega ao orgasmo na primeira vez que transa! Ela sequer se masturbava, mas ainda assim goza repetidamente.

O livro tem muito mais equívocos que esse, porém a sugestão de que gozar é simples assim me incomoda sobremaneira. Porque não o é. Sexo é construção. Assim como quando crianças nos mandavam tirar a mão o tempo todo de perto dos nossos órgãos sexuais, assim como a igreja tentou nos convencer que deveríamos transar só para reprodução, assim como aprendemos desde sempre que devemos “segurar a portinha da felicidade” para não ficarmos “mal faladas”, temos de ressignificar o sexo e o que ele representa pra nós.

Temos de transformar algo sujo, feio e reprovável socialmente em amor, prazer, libertação, alegria. Pra isso, é necessário romper com padrões culturais. Muitas vezes, essa quebra choca familiares, parceiros, amigos. Os riscos são altos demais para alguns.

Ao mesmo tempo somos bombardeados com mensagens sexuais de todos os lados. Além dos próprios hormônios, vemos o sexo ser usado até para vender sabão pra máquina de lavar roupa. Amigos começam a contar peripécias sexuais, atrizes gritam alto em filmes pornôs, a revista feminina lacra páginas de sexo (se fossem livres, não precisavam lacrar, just saying).

É como se fosse tentar saltar sobre um vão. De um lado, somos crianças e adolescentes que não podemos pensar/falar/questionar sobre sexo. Do outro, viramos adultos bem resolvidos, bem comidos, sem grilos de qualquer espécie.

Nessa fase, então, devemos ser verdadeiros sabichões na cama. E temos que gozar como nos pornôs ou como no Cinquenta Tons. AI DE VOCÊ SE CONFESSAR QUE NUNCA CHEGOU AO ORGASMO!

O problema é que você não está sozinha. Com penetração, por exemplo, 85% das mulheres não gozam. Ainda ficam insistindo na história de que o orgasmo clitoriano é “infantil”, e que o vaginal é muito mais forte. Pra completar, nos últimos anos ainda se criou uma aura mística sobre a ejaculação feminina.

Quer dizer: além de gozar – que já é muito difícil -, você precisa gozar com penetração (sem usar brinquedos, o pinto do cara é que tem que ser incrível – e você tem que ser hétero, claro) E ejacular.

Se não acontecer tudo isso, muita gente fica com a sensação de quem está perdendo algo. Por isso também buscam enlouquecidamente novas práticas, como já aconteceu com o swing e agora acontece com o BDSM.

Eu sou super a favor de experimentações, mas considero que é preciso preencher primeiro aquele vão que nos obrigam a saltar. Faz-se necessário quebrar paradigmas antes de construir novos.

Antes de se lançar no desconhecido, melhor seria se pudéssemos ir montando os alicerces da nossa própria sexualidade. Isso passa por nos conhecermos, nos tocarmos, nos olharmos pelados no espelho por todos os ângulos (todos mesmo, incluindo vagina), usarmos brinquedos.

Além da parte prática, precisamos falar mais sinceramente sobre sexo. Gaiarsa costumava dizer que seria bom que os homens fizessem com suas mulheres o que eles contavam no boteco.

Em público, ou as pessoas não fazem sexo ou fazem o melhor sexo do mundo. Os paus estão sempre duros, as bucetas sempre molhadas. Ninguém sente desconforto, dor, vergonha. Todos trepamos até o amanhecer, sem cansaço ou sono. E, a julgar pela Anastasia Steele, gozamos muito, demais, sempre.

A vida real não é assim. Inspire-se com livros de ficção, com filmes pornôs, com blogs eróticos, caso essa seja sua praia. Mas entenda que a construção da sexualidade é trabalho muito mais árduo do que se depilar ou comprar calcinha bonita.

Volte ao básico. Descubra-se. Aproveite seu corpo. Livre-se das neuras. Jogue fora tudo de ruim que te falaram sobre sexo. É difícil, eu sei. Mas posso garantir: a recompensa é muito prazerosa.

 ***

Por coincidência, Regina Navarro Lins escreveu essa semana sobre orgasmo da mulher. Vale muito a pena ler.

Obrigada, obrigada e obrigada

Na terça-feira eu estive em Porto Alegre para a noite de autógrafos do meu livro. Os três eventos (em São Paulo, Rio e Porto Alegre) foram completamente diferentes. Em São Paulo, a Livraria da Vila lotou. Houve um debate antes com a presença das queridas Clara Averbuck (@claraaverbuck), Mayara Medeiros (@mayyymedeiros) e Ariane Freitas (@lovemaltine).

Eu, que estava preocupadíssima de ninguém aparecer, fiquei surpresa com a quantidade de gente. Ficou lotado e foi uma delícia. Naquela noite – que também era meu aniversário – eu tive o primeiro contato com gente que eu só conhecia pelos comentários aqui no blog ou por algumas poucas conversas no Twitter. Eu me senti o máximo. Muitos amigos da minha “vida real” também compareceram e esperaram pacientemente na fila que só acabou depois das dez da noite. Eu fiquei satisfeita, feliz, recompensada. E me senti muito, muito amada.

O problema é que vicia. Um mês depois eu estava no Rio. Infelizmente não deu tempo de avisar todo mundo, pois as coisas foram resolvidas em cima da hora. Também fui agredida no ônibus a caminho da cidade, então meu humor não estava dos melhores. Minha autoestima estava um lixo e eu sentia dor no olho. Mesmo assim, conversar com a galera foi extremamente gratificante.

Essa semana foi a vez de Porto Alegre. Lá não encheu como nas outras cidades (São Paulo é campeã no quesito), mas eu conheci pessoalmente tanta gente querida com quem falo todos os dias no Twitter. Também sempre tem uma galera que JURA ler o blog, porém dizem que não comentam. Comentem! Eu passo a conhecer vocês melhor assim.

Nos três lugares fiquei emocionada com coisas que me disseram. Várias pessoas contaram ter mudado a perspectiva da vida, de autoestima, de feminismo, de sexo, de depressão por meio do blog.

Jamais imaginei ter esse alcance. Pra mim, o blog ia ser só mais um dos que eu ia abandonar em algumas semanas e ninguém ia ler. Mesmo que hoje a quantidade de acessos seja muito inferior àquela de quando eu publicava as narrativas sexuais, o feedback é muito profundo e positivo.

Fico muito honrada em fazer parte da vida de vocês dessa forma. Gostaria de reiterar que esse crescimento não foi só das leitoras; eu também mudei muito com o Cem Homens. Repensei “verdades absolutas”, me interessei por questões teóricas, sofri na pele com agressões.

Logo, estamos passando por essas mudanças juntas. E eu só tenho a agradecer por me permitirem tudo isso.

As noites de autógrafos para divulgação do livro estão encerradas. Por mim eu visitaria todas as cidades – ah, ok, pelo menos as capitais – mas não há condições financeiras isso acontecer. Eu AMO encontrar vocês. Conversar aqui no blog é demais, incrível… ver vocês, conhecer o rosto, abraçar, sentir o cheiro… é muito, muito emocionante.

O próximo livro está a caminho. Vai ser um caminho bem longo e eu nem sei quando chegará ao fim. Provavelmente precisarei de apoio de vocês porque minha maior vontade é publicá-lo de maneira independente, com um dinheirinho extra para fazer noites de autógrafo em mais cidades. Definitivamente viciei nessa bagaça.

Gostaria de agradecer muito, muito, muito todo mundo que compareceu no Rio, em Sampa e em Porto Alegre. Vocês fizeram minha vida mais feliz. Que venha o próximo livro.

A vítima de estupro perfeita

Ontem saiu a condenação dos estupradores de Steubenville. Se você está por fora, o que aconteceu foi o seguinte: uma adolescente de 16 anos foi a uma festa, bebeu e, inconsciente, foi estuprada por dois caras.

Os dois acusados, agora condenados, faziam parte do time de futebol local, um verdadeiro orgulho para os moradores da cidade. Assim, o caso ficou escondido, até que o anonymous denunciou, alguns repórteres seguiram a pista, e o resultado foi a condenação dos responsáveis.

Triste foi o que se disse durante o julgamento e após o veredito. Tentou-se culpar a vítima, falou-se quão incríveis os criminosos são, lamentou-se que a vida DELES tenha acabado, questionou-se se a garota estava mesmo inconsciente (você pode ler vários absurdos aqui, em inglês).

Ao ler tudo isso, pensei nos casos que temos aqui no Brasil. Lembrei do New Hit, cujo julgamento acontecerá em setembro. Quantas vezes você leu/ouviu que as meninas não deviam ter entrado  no ônibus? Que alguma coisa elas queriam? E quando uma moça foi atacada no metrô de São Paulo por um cara que colocou o pinto pra fora? Ela desmaiou, e vi várias pessoas dizendo que “pessoas não desmaiam nessas situações”. Lembram da jovem estudante de direito da PUC de SP que se matou em dezembro? “Ela bebeu demais na festa, deu porque quis e daí ficou com vergonha.”

Os casos são muitos. Incontáveis, infelizmente. Muda o nome da vítima, o endereço, mas a reação das pessoas continua a mesma, seja em Steubenville, seja em São Paulo.

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Então percebi que, para a denúncia de agressão sexual ser “aceita”, você precisa ser a vítima de estupro perfeita. Se você não seguir os passos seguintes, você com certeza está mentindo, querendo acabar com a vida de alguém, “sua vadia”.

1) Seja bastante pudica, de preferência virgem. Não, nada de ter vida sexual. Se for rodada feito eu ou garota de programa, então, já deu o direito pra qualquer pessoa abusar de você. Mesmo se você nunca sequer tiver beijado na boca, se liga: não pode dar mole pro agressor. Porque aí vão dizer que ele “entendeu errado seus sinais, ele achou que você estava querendo, etc”.

2) Vista uma burca. Caso você esteja de saia curta, decote ou barriga de fora, já sabe. “Ela fez isso pra provocar”, dirão várias pessoas. Não, você não estava de short porque estava calor, porque é confortável, porque você foi andar de bicicleta no parque. Nada disso. Você fez isso para despertar os instintos alheios. Porque, como vocês sabem, a urgência de estuprar é instintiva… é natural.

3) Não beba nada. Cu de bêbado não tem dono, ué. Você nunca ouviu isso? Ah, por favor, né? Se você encheu a cara, nada mais justo do que alguém tirar sua roupa, enfiar coisas em você, fazer um vídeo e postar na internet. Tava querendo o quê? Ah, você não bebe álcool? Então favor ficar de olho o tempo todo pra checar se sua coca cola foi aberta na sua frente. Nada de pedir um suco na rua se você não puder acompanhar todo o processo – vai que alguém coloca um remedinho ali dentro e você toma. Bem feito. Não pode relaxar nunca, ô garota.

4) Reaja ostensivamente. Se você for atacada, é necessário reagir de modo que ninguém desconfie da agressão, isto é, faça escândalo, grite, arranhe ou morda o agressor, faça com que ele te dê porrada para ficar a marca. Porque você sabe… se você entrar em choque, se deixar ele terminar a agressão pra acabar logo, se desmaiar… vão dizer que na verdade foi consensual.

5) Denuncie logo em seguida. Você tem que juntar seus pedaços físicos e emocionais e ir correndo pra uma delegacia. Esqueça que você passará por constrangimentos, que lidar com um estupro é das coisas mais difíceis da vida, que isso significará outra pessoa encostando no seu corpo, tão fragilizado após a agressão. Se você demorar alguns dias para denunciar, vão falar “ih, tem algo estranho aí”.

6) Certifique-se que seu estuprador não seja alguém com carreira, trabalho ou fãs. Como é que você vai escolher seu estuprador? Sei lá. Dá teu jeito. Afinal, se você não fizer isso, será vista como alguém que “quer acabar com a vida e o futuro do pobre estuprador”.

É inacreditável. Desde sempre tomamos cuidados bizarros para não sermos atacadas. Somos ensinadas a não sermos estupradas, mas ninguém ensina a não estuprarem. E mesmo que a gente siga tudo direitinho (não recebemos estranhos em casa, não andamos em ruas escuras ou desertas, não vamos ao bar sozinhas), ainda assim teremos todos os nossos passos escrutinados para a opinião pública julgar.

Como a leitora Fernanda disse no Twitter ontem, “proibir” a mulher de fazer todas essas coisas (beber, sair, dançar, usar a roupa que estiver a fim, transar com quem bem entender) com a ameaça constante de estupro é uma questão de poder.

“Ande na linha, se não algo de muito ruim vai acontecer com você.”

No fim disso tudo, vê-se que estupro não é sobre sexo. É sobre controle, poder, dominação.

O que você tem a ver com a gordura alheia?

Já relatei aqui alguns causos de xingamento que sofri por ser gorda.  É muito chato, inconveniente e desnecessário. No entanto, o que realmente me incomoda é quando esse comportamento vem fantasiado de “preocupação com a saúde”.

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Eu sei que, de fato, algumas pessoas querem me ver bem e feliz. Mas e quando é um colega de trabalho com quem você não tem a menor intimidade que vem te falar algo? Ou aquela pessoa que você não encontra há dez anos – e assim que ela te vê, fala: “nossa, você engordou! conheço uma médica/dieta/simpatia ótima”?

Criou-se no imaginário coletivo a ideia de que todo gordo é doente e todo magro é saudável. Não é verdade. Minha avó mora num hospital há um ano e meio. Todas as vezes que me contam que algum jovem morreu subitamente por lá, faço questão de perguntar se era gordo. A maioria não é. Mas, se fossem, já consigo imaginar a cara dos conhecidos dizendo: “é uma pena, mas ele se descuidou, né?”, Na cabeça das pessoas, “cuidar-se” é ser magro.

Cuidar-se é cuidar do que se come, sim, mas é também fazer exercícios, evitar o cigarro, beber pouco, ter um trabalho que não lhe consuma… há tantas variáveis! E só de olhar pra um gordo você não consegue identificar se ele “se cuida”.

Ainda que ele decidisse não “se cuidar”, o problema é dele. Só dele. Mesmo. É a vida dele que ele põe em risco. Pessoas que bebem e dirigem, por exemplo, ameaçam a integridade física alheia. Quem fuma, também. Mas você não vê as pessoas apontando o dedo umas pras outras assim que acendem um cigarro.

Evidentemente alguns gordos (e magros) têm problemas de saúde ou simplesmente querem dar uma emagrecida. Se você de fato está preocupado com o bem estar de outra pessoa, é bom se ligar no seguinte:

1) Qual sua relação com a pessoa? Como disse antes, é muito chato alguém com quem não temos a menor intimidade vir dizer como devemos nos alimentar, o tanto que devemos nos exercitar, etc, etc. Você não pode apontar “defeitos” na vida do outro caso você não seja alguém próximo, como familiares, parceiros, amigos íntimos.

2) O gordo não é burro. Ok, passou na fase 1? É bem próximo da pessoa com quem você está preocupado? Ótimo. Tenha em mente que é bem provável que o gordo teve acesso às mesmas informações que você. Logo, você não precisa ensiná-lo nada, adotar tom paternalista e condescendente. Você não é mais esperto porque é magro.

3) Dê uma força (e de verdade, não só o blá blá blá). Já aconteceu comigo – e provavelmente com você: pessoa tenta mudar a alimentação. Quando chega em casa, tem um montão de guloseima na geladeira. Como decidir pela alface quando tem brigadeiro de colher à disposição? Impossível. O mesmo vale para convites de rodízio de pizza, comida japonesa, churrasco, ou qualquer outra coisa.

Se você de fato quer a saúde de uma pessoa, mas ela não tem grana pra pagar a academia, considere fazê-lo (lembre-se: a pessoa que você está ajudando é bem próxima). Vá junto ao médico. Procure indicações de nutricionistas bacanas. Saia pra caminhar/correr/andar de bicicleta com a pessoa.

4) Aliás, esqueça o blá blá blá. Se a pessoa admitiu que é melhor mudar certos hábitos e está tentando fazer reeducação alimentar, você não deve ficar apontando cada vez que ela abrir um chocolate. A não ser que ela esteja realmente correndo risco de vida, ela é 100% responsável pelos próprios atos. É bem provável que outras pessoas já estejam enchendo o saco e que ela mesma tenha plena consciência de que seria melhor não “cair em tentação”, mas as consequências serão sofridas por ela. Ela decide.

5) Deixe que a iniciativa seja do outro. Você pode conversar, mas espere o momento da pessoa. Não force a barra. Claro que se você é íntimo e desconfia de que a pessoa tenha um transtorno alimentar, a coisa muda de figura.

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Eu sei que pra grande parte das pessoas é muito difícil imaginar que o outro não quer seus conselhos ou ser como você. Outro dia li o texto de uma ex-gorda em que ela falava quão horrorosa era a vida dela antes do emagrecimento (pior gordofóbico é ex-gordo, disparado. um dia escrevo sobre isso). 

A experiência dela foi essa. Ela acha que tudo de ruim que lhe aconteceu foi por causa do peso. Nem todo mundo sente igual. Eu sou gorda e já fui uns 40 quilos mais magra – e não era mais feliz na época do que sou agora. Também nunca deixei de fazer qualquer coisa em razão do meu peso. Eu fodo de luz acesa, vou à praia de biquini, danço…tenho dificuldade em, sei lá, subir uma ladeira ou fazer uma trilha íngreme, mas isso tem muito a ver com meu sedentarismo (magros também experimentam o mesmo problema).

Pra muitas pessoas, ser feliz sendo gordo e não se importando com a opinião alheia é um absurdo. Como assim você não é bonita (porque gorda no máximo tem “um rostinho bonito e seria uma gata se emagrecesse”), mas mesmo assim é autoconfiante? Que loucura!!! É, pois é. 

Sei também que tem quem deseje controlar o corpo do outro. Fazer decisões sobre como ele aparentar. Parece que se seu parceiro/irmão/filho não for magro, você falhou.

Breaking news: this ain’t about you.

Caso você deseje auxiliar na mudança de estilo de vida, respeite o tempo e as vontades de quem aquela vida pertence. 

E-mail da leitora: A vontade (e a pressão) do ménage

Sempre tenho a impressão de que vocês sabem exatamente qual a resposta certa quando me mandam e-mails com dúvidas. Mas entendo que às vezes a gente precisa ouvir do outro – e por isso coloco aqui no blog a mensagem recebida há alguns dias (com a permissão da leitora).

Tenho 19 anos e uma vida sexual até que bem ativa, se levarmos em consideração que vejo meu namorado quase todo final de semana.

Recentemente encontrei seu texto sobre o ménage, e é uma coisa que eu e meu namorado estamos discutindo ultimamente. Por favor, posso desabafar aqui? E você tenta me ajudar?

Ele é mais velho que eu, tem 24 anos, e já fez ménage com duas garotas. Estamos juntos há pouco mais de 4 meses, mas antes mesmo de começarmos o namoro eu já havia lhe confidenciado que fantasiava com o ménage com dois homens, e que um dia iria fazer com alguém. De uns tempos pra cá ele começou a dar essa ideia, falou que quando eu quisesse ele conseguiria arrumar o outro cara, que já tinha até quem fosse em mente. Enquanto eu falo que ainda tenho receio e medo, com muitas dúvidas e um pouco de trava, ele me incentiva falando que vai ser gostoso, que vou aproveitar e adorar, que o negócio é não pensar muito (não concordo, não gosto de fazer as coisas sem pensar, ainda mais um ménage!!); ele fala que se eu não quiser na hora ou não estiver gostando, os dois vão respeitar e parar, mas será mesmo? Tipo, é complicado pro homem se conter quando já está a ponto de bala, imagina dois?? Ou será que é mais fácil do que imagino?

Vê? São muitas dúvidas!!
Como fica a situação depois? Depois da transa, há troca de carícias entre os três, ou devo ficar assim só com meu namorado? Eu tenho tendência a ficar muito sensível depois, e ficar assim no meio de dois homens me dá muita insegurança… E se for um amigo dele, vamos nos encontrar em outras ocasiões, e como fica o clima? Meu namorado falou que as coisas em público e entre quatro paredes são diferentes… Quer dizer, se o outro cara quiser me abraçar ou me dar um beijo, tudo bem se eu não quiser? E, se eu me recusar a fazer isso, o que eles vão pensar? “Porra, a mina transou com a gente, mas recusa um beijo” algo assim..

Eu sinceramente estou morrendo de tesão pela ideia, claro! E quero muito realizar, um dia… A única coisa que eu tenho certeza é de que não vou fazer nada que eu não tenha certeza!!! Mas meu namorado meio que fica forçando quando a gente entra nesse assunto… Recentemente discutimos sobre isso, ele falou que um dia vai fazer isso de surpresa comigo, pra que eu perca o medo. Não gostei, mesmo! Falei que se ele fizesse isso, seria capaz de eu ter uma crise de choro e ficar ultra magoada com ele, pensando até em terminar o namoro pela falta de respeito. O pior é que quando eu falo isso, ele fica naquela manha “Tá bom, não toco mais nesse assunto, não falamos mais nisso, nunca vamos fazer isso e ponto final, você nunca vai estar preparada” e etc etc.

Vocês bem sabem da minha predileção pela prática do sexo a três. O que vocês não sabem é que eu, quando tinha a idade da leitora, não sentia a menor vontade de fazer isso. Um pouco mais velha, bateu a curiosidade. Fiquei cheia de grilos, como ela. Não fui em frente. Anos se passaram sem que eu sequer pensasse no assunto.

Até que eu fiz e gostei. E gosto. Portanto, a primeira coisa que é preciso pensar é que não é necessário ter pressa. Tampouco ficar adiando pra sempre, mas a leitora não tem nem 20 anos! As coisas devem acontecer quando estamos preparados pra ela (ou, pelo menos, achamos que estamos).

Faço questão de repetir uma frase usada pela leitora: ” é complicado pro homem se conter quando já está a ponto de bala, imagina dois?”. Homem não é bicho; se ele “não se contém”, ele é um criminoso. A maioria de nós – homens e mulheres – temos desejos sexuais, mas não saímos por aí agarrando ninguém à força. Criou-se essa ideia de que homens são naturalmente “tarados”, no sentido ruim da coisa, para justificar a violência sexual.

A primeira coisa que uma mulher que deseja fazer sexo a três precisa é de SEGURANÇA. Ela precisa ter certeza de que não terá que fazer nada contra sua vontade. Nada mesmo. E que, caso um dos participantes insista ou tente obrigá-la, terá alguém no quarto para defendê-la.

Se a leitora ainda tem dúvidas sobre isso, eu sinceramente acho que não é o momento de se envolver numa situação dessas. É pra ser prazerosa. Ficar ansiosa e um pouco nervosa é normal. Amedrontada, jamais.

Outra coisa que me incomodou no posicionamento do namorado da leitora é ele dizer que vai fazer de surpresa e ficar insistindo no assunto, culpando-a como se ela tivesse algo de errado por não estar preparada ainda.

O modo como vivemos nossa sexualidade é muito íntimo e subjetivo. Não é o parceiro que deve impor algo. Claro que quando estamos num relacionamento nós nos adaptamos, mas nada deve ser feito com coerção.

Sobre o “depois” do ménage, não há regra. Tudo depende do momento, de com quem você está fazendo, de qual sua relação com aquelas pessoas. Mas se você não está preparada para encarar o outro num evento social, talvez seja melhor repensar a escolha do terceiro. Encontrar alguém online, sem nenhuma ligação com o casal, pode ser uma boa saída.

E no próprio relacionamento, como fica? Seu namorado vai querer algo “em troca”? E o ciúme? Você se sentirá à vontade para gozar com outro cara na frente dele?

É muito legal ter um parceiro com quem a gente pode conversar sobre essas coisas abertamente, sem julgamentos ou vergonha. Porém, esse mesmo parceiro deve respeitar o nosso tempo, o nosso momento, os nossos grilos. Claro que não podemos antecipar 100% o que irá acontecer, mas se estamos seguras do que fazemos, a coisa flui melhor. E aí, só aí, sem pressões, sem medos e sem insegurança, é que podemos viver plenamente nossa sexualidade.

8 de março

Oi. :)

Queria escrever coisas relevantes e lindas hoje. Mas não rolou até agora, então deixo vocês com coisas relevantes escritas e feitas por outras pessoas (links abaixo da imagem).

Primeiro, tenho orgulho e felicidade de fazer parte de uma promoção da Feito Brasil, marca de cosméticos veganos e ecologicamente corretíssima. Essa é uma promoção REALMENTE de Dia Internacional das Mulheres: além de produtos da marca, você pode ganhar uma boneca Pagu e um bottom feminista criados pela Elisa Riemer. E meu livro autografado. O kit de sabonetes é da campanha contra o câncer de mama. Quer dizer, é tudo lindo e perfeito!

Para concorrer, você tem que enviar por e-mail uma história sobre uma mulher da sua vida que lhe inspira. Não é o máximo? O regulamento você encontra aqui. Corram! É só esse fim de semana.

feito brasil

Agora, os links.

Eu posso ter esquecido de algum, porque tenho dezenas de abas abertas nesse momento, mas sintam-se à vontade para indicar textos nos comentários.

Mais um texto ótimo do Matheus Pichonelli, dessa vez sobre o Dia de Princesa (que se você ainda não notou, é hoje). E ainda tem colaboração da minha querida Tory Oliveira.

A Lola deu um presente pra todo mundo: fez um post com links de livros feministas. Vários em pdf.

Diversas feministas bacanas fizeram um post coletivo aqui.

Eu mesma, sobre o motivo de eu não gostar de flores no 8 de março.

O Sakamoto e o desejo por uma sociedade menos idiota.

Bom, indiquem textos bacanas nos comentários! E eu vou atualizando a lista conforme for me livrando da avalanche de abas abertas.

Que mulher é essa?

Ainda nem chegamos ao 8 de março e as agências já nos impressionaram com peças publicitárias equivocadas. Teve desde loja de armarinhos tentando fazer piada com um assassino esquartejador de mulheres até empresa gigante do setor automotivo dando dicas bizarras, comparando hidratante a óleo de motor.

Há muito a se discutir sobre o que temos visto, em especial numa semana emblemática como a de 8 de março. Mas a minha grande dúvida agora é: que mulheres são essas?

Com quem esses publicitários estão falando?

Ao falarem da mulher como um ser naturalmente frágil, fofo, amoroso, vaidoso, fútil e imbecilizado, os responsáveis por essas campanhas colocam todas nós num mesmo padrão, como se esse tipo de coisa existisse. Somos bilhões no mundo – algumas de nós têm as características acima, outras passam longe.

E isso não tem nada a ver com o gênero. Também há homens frágeis, fofos, amorosos, vaidosos, fúteis…

Meu ponto não é discutir papéis de gênero nesse post. Quero, na verdade, descobrir onde estão essas mulheres que se identificam com as propagandas. Ou que os publicitários pensam que se identificam.

Porque na minha vida eu sempre fui rodeada de mulheres fortíssimas. Várias machistas, sim. Somos fruto do que vivemos, afinal. Mas nenhuma delas, NENHUMA MESMO, precisa de dicas como essa:

Nunca devo atravessar um trecho alagado quando a água estiver acima dos faróis.

Verdade: Além de estragar a “chapinha” de seu cabelo, muita água também estraga seu carro. Quando se deparar com um trecho alagado, espere alguém passar: sempre há um afobadinho com pressa. Verifique a altura da água e, se for seguro, acelere suavemente de forma constante e não mude de marcha.

Todas as mulheres que conheço sabem que não podem entrar numa enchente. Nenhuma precisa de comparações entre cabelo e motor do carro.

Os publicitários estão nos tratando como idiotas há muito tempo. Não precisa ser feminista para perceber como esses conceitos estão errados. Olhe em volta: quantas mulheres que você conhece se enquadram nesse público alvo que querem atingir?

Quantas são “frágeis” e “precisam de proteção”, como se não conseguissem dar conta da vida sozinhas?

As mulheres que conheci entraram em várias lutas, muitas vezes criaram seus filhos sozinhas, são profissionais competentíssimas, viajam o mundo acompanhadas só de uma mochila.

Quem são essas mulheres com sérios problemas cognitivos que as propagandas retratam?

A pergunta é honesta. Eu realmente não consigo entender.

***

Hoje é um dia muito triste para a história do Brasil. Marcos Feliciano foi eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias. O jornalista da Carta Capital Matheus Pichonelli escreveu sobre essa tragédia.