Você tem medo do quê?

Estou lendo Faça acontecer, da Sheryl Sandberg, chefe de operações do Facebook. Quando acabar eu escrevo sobre o livro. Por enquanto, vale muito ver essa palestra dela no TED – até já coloquei no Cem Homens, mas ela é tão boa que vale repetir. O livro vai no mesmo caminho, usando inclusive algumas das histórias que ela conta no vídeo.

Eu não estou me identificando super com o livro (estou na metade), até porque ela fala mais com mulheres que são casadas, têm ou querem ter filhos, fazem carreira no mundo corporativo.

É bem diferente de quem sou hoje: solteira, sem filhos e free lancer.

No primeiro capítulo, porém, Sandberg traz questionamentos que, aposto, muitas de nós conseguimos nos identificar. O título é “o abismo nas ambições de liderança: o que você faria se não tivesse medo?”.

A autora discorre sobre histórias de família e mostra estatísticas sobre a participação de homens e mulheres nas empresas e na economia familiar. Ela traz teorias sobre a quantidade de mulheres líderes – e não vou contar pra vocês quais conclusões ela chegou, se não eu basicamente estaria contando o livro todo.

Ainda que ela esteja falando de carreira no sentido mais formal, Sheryl aponta o que vemos acontecendo em muitas áreas: “o canal que abastece o mercado de trabalho qualificado está entupido de mulheres no nível da entrada, mas, quando esse mesmo canal abastece as posições de chefia, há um predomínio esmagador de homens”.

Segundo a autora,um dos motivos para isso é o que ela chama de “abismo na ambição de liderança”.

“A ambição profissional é algo esperado para os homens, mas opcional – ou, pior, às vezes até algo negativo – para as mulheres. “Ela é muito ambiciosa” não é um elogio em nossa cultura. Mulheres agressivas e que jogam duro transgridem regras tácitas da conduta social aceitável. Os homens são constantemente aplaudidos por ser ambiciosos, poderosos, bem sucedidos, ao passo que as mulheres com as mesmas características costumam pagar um preço social por isso. As realizações femininas custam caro.”

Muitas de nós não queremos pagar esse preço social. Se a gente foge desse papel de gênero da mulher dócil e maternal, a possibilidade de não gostarem da gente é bem grande. Talvez se a nossa autoestima não estivesse no outro poderia ser fácil dizer “ah, manda todo mundo pra muito longe”.

Infelizmente não é assim, e somos tão colocadas à prova o tempo todo que ficamos com aquela sensação horrível de que a qualquer momento seremos descobertas. Saberão que somos fraude.

Eu não sei você aí que está me lendo, mas isso é tão constante na minha vida que não sei nem precisar quando começou. Terá sido ainda no colégio, quando escolhiam minha redação como a melhor da turma e eu queria me esconder embaixo da mesa?

Repito esse comportamento o tempo todo. Recentemente fui entrevistada para um programa de televisão. Fiquei feliz de ser convidada. Tudo ia bem, com alguns receios, acredito que óbvios quando sua vida não é aparecer em vídeo.

Porém, quando foi chegando a hora da gravação e eu vi o estúdio sendo arrumado, eu quis sair correndo. Literalmente. De salto alto e tudo. Cheguei a pensar, durante alguns momentos, em como seria abrir a porta do camarim e simplesmente desaparecer.

Durante entrevistas eu costumo ficar calma. Tenho confiança no que estou falando e sei qual meu lugar ali. A cada momento de distração, porém, vinha o pânico que Sheryl Sandberg chama de “síndrome do impostor”.

O que eu estou fazendo aqui?

Por que essas pessoas estão me entrevistando?

Vão cortar essa resposta, lógico, porque foi ridícula!

Meu deus, eu sabia que iam perguntar isso, pelamordedeus alguém me tira daqui.

E, de novo, quis me esconder embaixo da mesa all over again.

A grande merda é que dessa vez a mesa era transparente, então não tinha como.

Meu pânico era tão grande que, ao final, escrevi na dedicatória do meu livro “estou aterrorizada, mas acho que essa parte já ficou óbvia”.

Uma amiga, sabendo de tudo, disse que achava legal que eu, apesar do medo, ia em frente. Não é totalmente verdade. Tenho projetos e mais projetos não engavetados, mas não também expostos pro mundo, por puro medo de não dar certo. Claro que às vezes há muita grana envolvida, ou precisamos sustentar a família. Fica mais difícil mesmo ir em frente.

Mas, e no meu caso (e, talvez, no seu), por qual razão eu posso me sentir tão aterrorizada se absolutamente ninguém depende de mim?

Como posso achar que sou uma fraude, que esse blog é uma idiotice, que meus textos (profissionais mesmo) são um equívoco, que meu livro é uma merda, que quem me entrevista na verdade está é sem nenhuma fonte e eu fui a última que ele procurou num momento de desespero?

Como? 

De um lado da balança, a culpa por ter ambição de liderança; do outro, a síndrome do impostor.

No meio, eu, meio que me segurando sei lá onde, buscando respostas que nunca irão chegar, querendo me esconder embaixo de mesas reais e imaginárias.

Sheryl Sandberg pergunta: o que você faria se não tivesse medo? Diz que ela escreveria o Faça acontecer, como de fato o fez. E você? O que você faria?

You can do (and enjoy) better

- Ele é legal, Nádia, gostei dele. Mas ele não é bonito.

Minha amiga de adolescência me falou o óbvio após conhecer um namorado por quem eu estava apaixonada e com quem fazia planos loucos de futuro. Eu, ali, com medo das pessoas não gostarem dele, e ela me sai com essa.

Ele era meu namorado, o maior amor da minha vida até aquele momento, e não um troféu para eu exibir nos bares da Vila Madalena. Eu sabia tudo o que nele não se enquadrava num padrão. Conhecia até do avesso. Evitarei dizer que seus defeitos foram o que me atraíram; não vou espalhar por aí que me apaixonei justamente porque ele tem 1m70 e eu ficava maior do que ele quando usava salto. Seria mentira.

Eu o amei porque a altura dele não é importante. Ele é.

Deveria ser óbvio pra todo mundo que se relacionar com alguém não tem nada a ver com a aparência física do outro. Ou com o dinheiro que ela tem no banco, ou orientação sexual, ou outros tantas regras imbecis que a sociedade nos impõe.

Mas, peraí: você É essa sociedade. Se você diz para sua melhor amiga que o namorado dela é legal mas é feio, você está assinando embaixo de todas as críticas que já te fizeram – e, creia, foram muitas. Até para supermodelos, que hoje vivem como enfeites do mundo: muitas relatam terem sido altamente zoadas na escola.

Sempre questionei esses padrões imbecis de beleza, mas confesso que me deixei levar por eles em diversas situações na vida. Tive vergonha (sim, vergonha, e agora morro por admitir isso) de apresentar parceiros com quem eu era feliz porque eles eram feios. Porque eu sabia que todo mundo ia falar “porra, Nádia, esse cara é horrível, você pode fazer melhor”. FAZER MELHOR.

O mais curioso é que eu não achava que eu podia “fazer melhor”. Porque aquela mesma carga pesada que eu jogava nos outros, eu jogava em mim mesma. Uma fase da minha vida que lembro com muita clareza é o ano de 1999. Eu tinha 19 anos, um namorado que não gostava de mim (não do mesmo jeito que eu, e isso acabava comigo), malhava, fazia direito na PUC-Rio e fui passar algumas semanas na Europa.

Sem dúvida aquela foi a melhor viagem da minha vida. Aprendi muito, conheci gente de outros lugares do mundo – algumas dessas pessoas continuam sendo minhas amigas -, me apaixonei perdidamente por Londres e por Edimburgo.

Mas eu não me sentia bem no meu próprio corpo. Como dito antes, eu estava num relacionamento péssimo, que hoje reconheço como quase abusivo. Na época, eu achava que “não podia fazer melhor”. Porque eu era feia. E gorda. GORDA.

Oi, Londres!

Oi, Londres!

Na foto não dá para ter ideia, então cortei outra aqui para vocês verem o tamanho *indecente* da minha saia (as fotos são analógicas, então perdoem os riscos):

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Sério. Essa saia era número 36 ou 38. Hoje, ela não passaria em uma das minhas coxas. (olhem que coisa curiosa: meu braço esquerdo é mais forte que o direito e eu carrego as coisas nesse lado, apesar de ser destra.)

Eu sei que eu não me enquadrava idealmente nos padrões de beleza – nunca me enquadrei, desde criança. Mas eu era jovem, estava sozinha na Europa, morava sozinha no Rio, fazia faculdade. Tanta coisa pra me divertir e ocupar minha mente – e eu perdia meu tempo ficando com vergonha das dobrinhas na minha barriga e tentando “dar um jeito” no cabelo.

Focava na aparência do corpo das modelos, e não no que meu corpo me proporcionava.

Felizmente as coisas foram mudando e eu adquiri outros valores. A sensação de inadequação, no entanto, não passou completamente. Porque, afinal, as pessoas continuam sendo cruéis. Continuam berrando “sua gorda” quando eu ando na rua, continuam fazendo piadas no Twitter e me chamando de Ferrero Rocher no lançamento do meu livro em São Paulo (eu estava com um vestido dourado).

Sem contar as capas de revistas e a dificuldade para comprar roupa, para falar de coisas simples de imaginar.

Jamais deixei de fazer algo. Transo de luz acesa, uso biquini na praia. Sempre fui tranquila com isso, mas ao mesmo tempo jamais acho que um cara está olhando pra mim, me paquerando. Penso sempre que tem alguém ATRÁS de mim, tipo em várias cenas de filme.

Porque quebrar paradigmas é difícil, especialmente quando somos bombardeadas por todos os lados com imagens e discursos de corpos perfeitos. Perfeição, pra mim, é sentir prazer com meu corpo. É focar no que ele me oferece, e não como ele aparece pro mundo*.

E, hoje, ele aparece pro mundo uns 40 quilos mais gordo do que na foto acima. As dobrinhas na barriga, quase imperceptíveis em 1999, agora são várias barrigas juntas, especialmente depois da menopausa. Não, eu não gosto delas, porque foi uma mudança muito radical em pouco tempo, mas eu não deixo de viver e ser feliz por causa da minha nova aparência.

Como disse, preciso focar no que meu corpo faz por mim – e não se ele serve para enfeitar o ambiente. Talvez amigos do então namorado também tenham dito “a Nádia é legal, mas não é bonita”.

Todos dando sua contribuição para uma existência mais miserável de todos nós, como se todas as outras dores já não fossem suficientes. Vamos parar com isso já?

*este não é um discurso para a pessoa deixar de ser saudável. acho que a escolha é de cada um, desde que não influencie ou ofereça riscos aos outros.

Jogo dos sete erros

Leiam esta reportagem da Folha (original aqui). Os grifos são meus:

Aluna de 13 anos de colégio particular denuncia assédio sexual praticado por colegas

A vítima tem 13 anos. Os agressores, 14. Todos são alunos de uma tradicional escola particular paulistana. No último mês, são o centro de um enredo que põe à prova o papel de pais, educadores e da própria instituição e que abre o debate sobre violência sexual entre adolescentes.

A garota, do oitavo ano, diz ter sido assediada sexualmente por três meninos do nono ano. Segundo ela, os meninos mandaram uma mensagem de celular falsa, em nome de um amigo dela, marcando um encontro para depois da aula de inglês.

Chegando lá, em uma praça perto do colégio, na zona oeste, ela conta ter sido cercada e agarrada contra a vontade pelos três. Conseguiu se desvencilhar e foi direto à escola fazer a denúncia.

A instituição suspendeu os meninos por sete dias e se viu na obrigação de debater o fato, já que versões aumentadas ganharam os corredores. Uma orientadora percorreu as turmas do quinto ao nono ano esclarecendo 500 alunos.

“É grave, mas não se trata de estupro”, informou a direção da escola. Para não expor os envolvidos, a Folha preservou o nome da instituição.

“Não houve violência física, mas desrespeito. Estamos trabalhando a questão e acreditamos ser possível reverter a situação dentro da escola”, disse a coordenação.

A família da garota decidiu não levar o caso à polícia. “Estamos tomando as decisões com o colégio”, diz a mãe da menina, que é professora na mesma instituição.

Os pais dos meninos não quiseram se manifestar. A garota também não quer mais tocar no assunto. Sua mãe diz respeitar a decisão, mas afirma: “Escolhemos viver a situação, e não esquecê-la. Estamos atentos às consequências e abertos ao diálogo”.

BRINCADEIRA BOBA (sim, esse grifo é meu pq né)

Há duas semanas, em outra escola particular na mesma zona oeste, dois meninos de 12 anos foram suspensos por terem feito “uma brincadeira” com alunas da mesma idade. “Eles chegam por trás, põem a mão no ombro das meninas fingindo que vão abraçar e descem até os seios”, descreve a orientadora. Só que uma reclamou. “Chegou com olhos cheios de lágrimas, disse que pegaram no seu peito.”

Um dos garotos assumiu e quis pedir desculpas à colega, que não aceitou. Os pais foram chamados e os meninos, afastados por um dia.

Situações como essas são, sim, violência sexual, segundo a psicóloga Renata Coimbra Libório, pesquisadora da Unesp. “Não precisa consumar o estupro. O toque sem consentimento é abuso.”

Tempos atrás, um aluno distribuiu na sua escola um vídeo em que ele fazia sexo consensual com uma colega de 13 anos. Ele foi separado da turma até a conclusão do semestre e, depois, convidado a se retirar do colégio.

Casos de adolescentes que passam dos limites são frequentes e não acontecem só na escola, mas em festinhas e baladas, lembra a psicóloga Rosely Sayão, colunista da Folha. “A sexualidade desses jovens está muito exacerbada e eles não têm noção de respeito. Acham normal passar a mão nas meninas e beijar não sei quantas”, diz.

A fase dos 13 anos é a pior, segundo Sayão. É quando a efervescência hormonal se junta à hiperestimulação.

“Há estímulos o tempo todo, na TV e na música”, diz Neide Saisi, psicopedagoga e professora da PUC-SP.

Muitos desses estímulos não são positivos, segundo Antonio Carlos Egypto, psicólogo especialista em orientação sexual. Basta assistir a um programa de humor ou a peças publicitárias para perceber que “a imagem da mulher-objeto é usada de maneira escancarada”, diz ele.

“Os adolescentes falam que vão ‘pegar’ alguém. A gente só pega objetos”, complementa Sayão.

A desvalorização da mulher é reforçada pela família e pela escola mesmo sem saber, segundo Renata Libório: os pais valorizam o comportamento garanhão dos meninos e a escola pensa estar prevenindo a violência aconselhando as meninas a usar roupa larga e saia comprida.

“Por que não ensinar o menino a respeitar a menina, não importa a roupa que ela use?”, pergunta.

PREVENÇÃO

A prevenção da violência sexual nessa faixa etária depende de uma discussão sobre papéis e gêneros, segundo Egypto. E isso é responsabilidade da escola e da família. “Não tem só que discutir a prevenção de gravidez na adolescência. É preciso falar do prazer, de como conter os impulsos. Não podemos fingir que o desejo não existe.”

Dá para contar nos dedos as escolas particulares de São Paulo que têm projetos específicos de sexualidade, de acordo com Maria Helena Vilela, diretora do Instituto Kaplan, entidade que faz trabalhos em educação sexual.

O tema está previsto nos Parâmetros Curriculares Nacionais. “Não é o que acontece. A sexualidade deve estar em palestras e no dia a dia dos professores, na forma como tratam todos os temas.”

No Gracinha (Escola Nossa Senhora das Graças), a professora de ciências e a orientadora são responsáveis por falar com as turmas sobre sexo.

“Tenho uma aula por semana e falamos de sexo, internet e outros assuntos”, diz Nausica Riatto, orientadora do sexto ao nono ano. Ela considera que o colégio faz um trabalho de prevenção, mas, mesmo assim, todo ano acontece uma polêmica relacionada a sexo na escola, como casos de exibição de imagem na internet.

No Colégio Bandeirantes, a bióloga Estela Zanini coordena há 16 anos um programa de educação sexual que inclui aulas semanais. “Eles têm muita informação sobre sexo, o problema é que nem sempre essa informação é contextualizada, muitas vezes é cheia de preconceitos.”

O que falta talvez não seja educação sexual, mas o ensino de valores morais.

De acordo com a pedagoga Luciene Tognetta, pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral, o tema é alvo de um jogo de empurra entre escola e pais. “Não cabe só à família ensinar respeito e regras de convivência”, afirma.

Os pais deveriam passar valores ligados ao espaço privado. A escola deveria ensinar regras da vida pública. “É no relacionamento com pessoas de fora da família que desenvolvemos princípios éticos apurados e aprendemos a respeitar qualquer um.”

Para Tognetta, o ensino moral deve ser espalhado por todas as disciplinas e servir de vacina contra a violência.

“Ainda pensam que a moral é ensinada em aula de religião. É preciso debater, fazer com que o aluno pense nas suas atitudes. A escola tem esse dever.”

Mas a instituição sozinha não faz tudo, lembra Sayão. “A escola precisa de apoio, está acuada e impotente, e que apoio a sociedade tem dado? Não vejo ninguém como vítima ou culpado nesse caso. A sociedade é cúmplice dessa história.”

***

Essa reportagem é um show de equívocos. Não acho que seja má fé, como não acredito que todos os meus colegas jornalistas deliberadamente escolham fazer matérias sexistas. Compreender questões de gênero é trabalho diário – e o senso comum ainda é bem binarista e nada igualitário.

Ainda mais se você entrevista uma especialista na área da reportagem, e ela fala um monte de besteira. Ela é conhecida, tem livros publicados, dá palestras. Entender que ela talvez esteja falando bobagem é difícil mesmo.

Então, à exceção de alguns casos específicos, eu não acho que os jornalistas em geral sejam maldosos e que se importem pouco com direitos humanos ou de minorias. Isto dito, vamos à análise dos erros, na ordem dos grifos:

1) A adolescente foi agarrada contra a vontade e denunciou à escola. Logo, minimizar o que ela passou é, sim, criminoso;

2) “Não houve violência física, mas desrespeito. Estamos trabalhando a questão e acreditamos ser possível reverter a situação dentro da escola” – violência física é desrespeito. Não é a única forma de desrespeito, mas as coisas não são excludentes. Houve desrespeito, houve violência física. As duas coisas. E crimes não se revertem dentro da escola, até porque não há como voltar no tempo e apagar o que aconteceu à garota.

Vejo aqui o que acontece sempre, como foi duramente criticado no caso de Steubenville: existe uma necessidade enorme de “proteger” os agressores, todo mundo super preocupado com o que será do futuro desses jovens. E do futuro da vítima, quem cuida?

3) Brincadeira boba – eu não sei nem o que dizer desse chapéu (chapéu é essa palavrinha aí no meio do texto, meio solta, sabem? em cada redação/jornal é chamado de um jeito). Passar a mão nos peitos de uma pessoa (homem ou mulher) sem ser consensual é crime. “Pegar de surpresa”, como esses garotos estão fazendo, não muda o fato de que não foi consentido; a pessoa nem tem a oportunidade de dizer não.

E o que a escola fez com quem foi denunciado? Suspendeu por UM dia!!!

4) “A sexualidade desses jovens está muito exacerbada e eles não têm noção de respeito. Acham normal passar a mão nas meninas e beijar não sei quantas”, diz Rosely Sayão. Ai, mas que equívoco. QUE EQUÍVOCO.

Não existe isso de “sexualidade exacerbada”. Adolescentes pensam em sexo, muito. É assim desde sempre. Os jovens envolvidos no caso têm 13/14 anos. Há vinte anos, quando eu tinha essa idade, meus colegas falavam bastante de sexo, muitos transavam (ou faziam suas primeiras experiências que as pessoas não costumam chamar de sexo na nossa sociedade falocêntrica, mas que eram atos sexuais, como sexo oral ou masturbação mútua), algumas engravidavam.

E isso já faz vinte anos.

O que rola é que as pessoas (pais e escola) preferem olhar para os adolescentes como se fossem crianças, como se ainda fosse cedo demais para falar de certos assuntos, e eles acabam se engajando em atividades sexuais sem educação apropriada para tanto. Eu não falo apenas do uso de camisinha ou de anticoncepcional, mas de tudo o que se refere a sexo, como questões do duplo padrão moral, consensualidade, coerção.

Há muito julgamento, o que leva à vergonha e à desinformação. Adolescentes irão transar, é fato. Resta saber qual educação darão a eles.

5) “A fase dos 13 anos é a pior, segundo Sayão. É quando a efervescência hormonal se junta à hiperestimulação.” PIOR.FASE. (agora tenho problemas em escrever assim, porque as falas do Grey, em Cinquenta Tons, às vezes são pontuadas desse jeito.)

O que ela quer dizer com isso? Que aos 13 temos uma descarga absurda de hormônios, incontrolável mesmo, e depois tudo se estabiliza?? Essa fase, que não acontece igual pra todo mundo, é de descobertas, de experimentações, de curiosidade natural e saudável. Desde que, mais uma vez, seja feito com consciência e com todos de acordo. Mas é difícil pensar nisso quando especialistas insistem na carta do “incontrolável”, como se bichos fossemos!

Um outro especialista ainda fala em “conter impulsos”. Olha…

6) “O que falta talvez não seja educação sexual, mas o ensino de valores morais.”

Risíssimos.

Falta, sim, educação sexual. Qualquer especialista sério vai dizer isso, qualquer estudante vai dizer isso, qualquer pai vai admitir (pra si mesmo) isso.

E o que são valores morais? Em que ano estamos? Que educação estamos discutindo?

7) ”A escola precisa de apoio, está acuada e impotente, e que apoio a sociedade tem dado? Não vejo ninguém como vítima ou culpado nesse caso. A sociedade é cúmplice dessa história.”

Sayão, mais uma vez. Como ela não vê ninguém como vítima ou culpado? Garotos se unem para abusar de uma garota e tudo bem? Além da questão óbvia de gênero, eles estavam em maior número e utilizaram de um método para enganar a vítima.

Claro que não estou tirando a culpa da sociedade. Falo disso sempre aqui no blog: é preciso acontecer uma mudança estrutural, quebrar paradigmas, mandar os papéis de gênero pra muito longe, eliminarmos a violência.

E entender que abuso não tem nada a ver com sexo, com impulsos carnais, com hormônios, com a aparência da vítima. Misturar as coisas é desonesto e suja o sexo, que é das coisas mais sublimes que nós, seres humanos, experimentamos.

“Meu marido não deixava eu me masturbar”

A masturbação feminina é ainda tabu. Absurdo, não? Mas é a realidade. Quando ainda vivendo no mesmo teto que os pais, adolescentes são levadas a ver a prática como suja e reprovável. Muitas carregam tal ideia mesmo adultas – várias nunca se tocaram.

Seria bem bacana se um parceiro ajudasse no caminho do descobrimento do próprio corpo e do prazer. Infelizmente, há namorados e maridos que ainda acham que têm pinto de ouro, com mil funções, e que se a parceira se tocar é sinal de que seu pinto espetacular não está fazendo tudo certinho.

Você pode até estar fazendo tudo super gostoso, mas imaginar que as coisas (penetração e masturbação) são excludentes é, no mínimo, idiota. O que dizer quando o parceiro não só reprova, mas PROÍBE a esposa de se tocar? Foi o que aconteceu com uma leitora, cuja história compartilho abaixo. Ela deu permissão para publicar seu relato.

masturbacao

Eu nunca tinha me masturbado. Tinha pouco mais de vinte anos, era mãe e nunca havia me tocado. Não sei por qual motivo, talvez porque eu tinha aquela imagem de que era feio, sujo e tudo que colocavam na nossa cabeça.

Eu tinha orgasmos com meu então marido na época, mas não era sempre, e os hormônios da gravidez me deixaram ainda mais sedenta por sexo. Meu parceiro gostava muito de sexo, mas o fato de nem sempre gozar começou a me incomodar. Eu queria aquela onda percorrendo meu corpo, eu queria aquela perda de controle por alguns segundos, eu achava que a sensação do meu orgasmo era igual ao dele, e queria sentir o êxtase que ele sentia sempre.

Eu morava em uma cidade e ele em outra, então só nos víamos nos fins de semana. Um dia eu estava sozinha em casa, soltaram um link no Orkut, na época, de um filme pornô (eu nunca tinha visto, como já era de se imaginar), senti algo formigando e comecei a me tocar. E, nossa, gozei. Como nunca tinha gozado.

O sentimento era de que aquele orgasmo era completamente diferente. Bom, e é. Gozar sozinha, com a descoberta do meu corpo, das minhas sensações… Era o MEU orgasmo. Só meu. Eu podia gemer, me contorcer, podia até chorar e gritar. Era meu.

Passei a me masturbar todo dia. E junto com a descoberta do orgasmo veio a aceitação do meu corpo, que eu achava feio por causa da gravidez recente. Eu comecei a achar bonitas as curvas, o seio inchado por causa do leite, as coxas mais grossas, o quadril mais largo. Creio que ali me descobri mulher, me sentia mais segura.

Era o bebê dormir e eu “me namorar”. Todo dia…

Quando vieram as férias do meu então marido, nós viajamos e OBA, SEXO TODO DIA!! Mas não gozar sempre ainda me deixava incomodada. E um dia, eu em cima dele, vendo que ele ia gozar, resolvi gozar também. Se não pelo pau dele, pelos meus dedos. Gozamos juntos (música da vitória).

Alguns dias depois eu tive uma cistite e meu marido resolveu culpar a masturbação. Na vez seguinte em que fizemos sexo, eu vi que eu não ia gozar e resolvi me tocar. Ele me repreendeu. Disse que eu tinha ficado doente por aquilo. E que não era pra fazer mais!

Detalhe: meu ex marido é médico, bem esclarecido e sabe bem que não era nada daquilo. Mas parecia que ele queria tomar o controle.

Ele então começou a segurar minhas mãos quando transávamos. Se eu estivesse de costas pra ele, era ainda pior. Ele torcia meus braços pra trás de uma forma que até machucava, pra eu não me tocar. Hoje eu sei que aquilo era violência, eu não era um animal a ser domado, não era crime. Algumas vezes ele chegou a bater nas minhas mãos e o costume de torcer meus braços pra trás virou uma constante até na rua, na frente dos outros, ele me carregando como um animal e ainda achando que era bonitinho. Sim, eu sei, agora eu sei, que eu era vítima de violência.

Ele ainda me deu alguns orgasmos, mas no geral ele gozava e eu ia pro banheiro me masturbar escondida. Veja bem, eu me masturbava pensando nele, ainda com o cheiro dele, amando ele, mas não podia o fazer na frente do cara.
Triste, não?

Por fim me livrei daquilo, depois de 4 anos sendo contida dos meus orgasmos, 4 anos com as mãos presas.

Já separada, ganhei um vibrador de uma amiga, meu primeiro namorado após o divórcio adorava me ver me tocar, e tenho todos os orgasmos que eu quero ter.

Não sei que tipo de homem meu ex-marido é pra achar um crime a mulher se masturbar. Porque depois dele tive vários homens que nunca me repreenderam, nunca me seguraram, nunca me privaram dos meus próprios orgasmos.

Meu ex namorado, de quem ainda sou muito amiga, sempre elogiava minhas bochechas vermelhas, meu sorriso bobo, a pele arrepiada e o ar de cansada que eu ficava após uma boa siririca.

Meu ex namorado, de quem ainda sou muito amiga, sempre elogiava minhas bochechas vermelhas, meu sorriso bobo, a pele arrepiada e o ar de cansada que eu ficava após uma boa siririca.

E recomendo a todas que se toquem, se comam, se libertem, com a frase que ele mais dizia pra mim: “Porque você permite que alguém te ‘coma’ sem culpa, mas fica com receio de se experimentar? Te garanto que seu gosto é uma delícia”.

Quer ter seu relato/dúvida publicado aqui no blog? Escreva para [email protected] ATENÇÃO: não publico contos eróticos.

A migalhização da vida

Vejo algumas amigas achando muito normal indicar textos (ou escrevê-los) para publicações indubitavelmente machistas. Quando o serviço é pago, eu entendo. Todos temos contas vencendo em breve e escritor/jornalista está sempre tentando complementar a renda. Ainda que eu queira bastantão me livrar da sociedade de consumo, não vou ser hipócrita e dizer que não curto minha máquina de lavar roupa, uma boa refeição ou viajar de primeira classe (long, long time ago, I can still remeeeeeeember).

No entanto, não consigo compreender quando esse tal trabalho e/ou indicação não é remunerado. “Ah, precisamos ocupar novos espaços, falar sobre feminismo/direitos humanos/whatever com mais gente, pessoas que nunca pensaram a respeito.”

Hum. Não.

Justificam as atitudes dizendo que tal publicação tem mais leitores, mais cliques e, portanto, mais relevância. Penso que é mais fácil ligar a relevância a números frios: seguidores no Twitter, tiragem, compartilhamentos no Facebook. Impossível menosprezar isso. Porém, é preciso pensar em quantas daquelas pessoas de fato leem o texto, quantas sentem o que está sendo escrito, quantas mudarão suas vidas (ao menos um pouco, bem pouco) a partir daquilo. Criou-se uma comunidade bacana? Ou continuou tudo exatamente igual, com comunidades de babacas que apenas toleram sua permanência ali? Que, na verdade, nunca leram qualquer coisa sobre feminismo/direitos humanos além daquele texto e de uma ou outra migalha que jogam pra eles?

Fico pensando em quantas feministas tiveram essa ânsia em escrever em outros blogs também feministas ou se dispuseram a fazer um texto de graça para uma ONG. Isso vale para qualquer militância – falo do feminismo porque é o meio em que estou inserida.

Por vezes eu me associei a pessoas que depois descobri não serem muito legais. Eu o fiz por ingenuidade, burrice, desconhecimento. Contudo, quando os holofotes estão acesos, fica difícil justificar certas alianças.

Jogam migalhas e muitos ficam ali, à espera, com a boca aberta, aceitando com gosto farelos de pão.

Não seria mais produtivo se as pessoas se unissem com quem têm interesses em comum e, aí, gerassem esses tantos cliques, esses tantos seguidores no Twitter e assim sucessivamente?

O maior problema é que esse comportamento de migalhização da vida também acontece no mundo real. Ficamos (quem nunca?) aceitando qualquer tipo de atenção, carinho ou reconhecimento. Parece que só nos sentimos valorosos se o outro nos valorizar, mesmo que este outro sequer  seja relevante.

Agir assim segue criando angústia cada vez maior, pois se dependemos do olhar do outro para nos enxergarmos, ficaremos eternamente nessa busca – e jamais iremos nos sentir satisfeitos.

Comentei o assunto no Twitter e o Luiz Flávio, que lê este blog, fez comentário certeiro: “a ânsia de ser aceito pelo status quo é terrível assim. Ser aceito por um sistema falido tem mais importância que combatê-lo”.

Dispensar as migalhas e perceber que se merece mais não é dizer que merecemos absolutamente tudo – dinheiro, um apartamento com vista para o Ibirapuera ou para o mar de Ipanema (ou os dois, três, mil!), a família mais amorosa do planeta, os amigos mais interessantes, um helicóptero para se livrar dos engarrafamentos. Vivemos num mundo difícil; os problemas se acumulam, muitos obstáculos precisam ser transpostos todos os dias, a todo momento.

Dispensar as migalhas é entender que não se precisa de tão pouco. É lutar por pães inteiros. E recheados.

Macaxeira, mandioca e aipim

Sexta-feira eu estava no boteco com três amigos. Uma estudante de psicologia novinha, uma repórter de esportes de 28 anos, um advogado que estudou com a mesma professora que eu – em outra faculdade e em outra época.

Olhei ao redor, pensei em como eles são diferentes. Sequer nasceram na mesma cidade! Fisicamente também não se parecem. Em comum, eu. Sim, eu. Os três são leitores do blog e se conheceram por minha causa. Uma coisa “chega aí que estou no bar”, e de repente estávamos os quatro confessando coisas e rindo à beça.

Eles não sabem, mas fiquei pensando em como todas essas pessoas de alguma forma vão deixando pedacinhos delas em mim. Nos últimos dois anos, com o blog, eu fui juntando cada vez mais referências, cada vez mais amor, cada vez mais satisfação.

Jamais imaginei que o blog teria esse impacto na minha vida e na de outros. Nem estou falando sobre número de acessos. Não. Mas sim sobre a relevância que ele adquiriu pra tanta gente, que se deslocam para me ver, pra me dar um abraço, pra bater papo comigo. E, como bônus, acabam conhecendo outras pessoas e novas redes fortíssimas de amizade começam. As interações nos antigos lives que fazíamos aqui no blog, assim como os papos no Twitter, também têm esse poder.

E isso é incrível.

Enquanto eu catava a cebola na carne seca salgadíssima e passava na farofa, pensava em tudo o que mudou na minha vida recentemente. Eu sou outra pessoa. Minha aparência continua a mesma, à exceção das duas tatuagens, uma delas completando um ano agora.

Por dentro, porém, é impossível comparar. Há um ano eu estava péssima de saúde, sem achar o menor sentido na vida, sem ter paixão por qualquer coisa. O sentido da vida ainda me parece nebuloso. Talvez essa névoa nunca se dissipe, mas pelo menos hoje eu penso que é preciso “pagar pra ver”.

Com a dica de uma leitora do blog, me inscrevi no processo seletivo de uma pós em gênero e sexualidade. Quase não fui fazer prova. Aquela parte de mim super pessimista tomou conta dos meus pensamentos: “você não vai passar mesmo! pra quê ir estudar de novo? você já tem dois diplomas e nenhum emprego!”.

Fui, fiz, passei. A cada vez em que penso na superação pessoal de passar da letargia completa à pós graduação no tema que eu mais amo, eu me emociono. Continuo sem grana para coisas básicas. Essa é a próxima parte que quero resolver na vida. Agora, tenho certeza, sou capaz de criar, construir, sonhar.

Há um ano isso parecia impossível.

Foi com ajuda terapêutica, apoio de quem me ama e esses pedaços de amor que me dão a cada encontro (real ou virtual) é que consegui superar a depressão. Dessa vez. Eu sei que ela vai voltar.

Agora estou em Manaus, e desde que cheguei não paro de pensar nas diferenças culturais entre as três cidades em que morei. Em como meu sotaque é impregnado de expressões regionais. Mando um “égua” assustado na mesma frase em que digo “mano”. Na seguinte, falo “aí, maluco”. Eu sou todas essas cidades, todas essas pessoas. Eu sou tudo isso. E eu adoro a mistura que se formou. Ainda falta muito para eu estar totalmente satisfeita comigo; na verdade, nem acho que isso irá acontecer. Mas eu amo quem estou me tornando.

Muito obrigada.

Esqueça o pornô

Há algumas semanas eu recebi um e-mail cujo assunto se repete desde que comecei o blog.

Eis um trecho da dúvida que acomete muitas pessoas:

Resolvi entrar em contato pois me interessei bastante no seu relato sobre ter feito sexo a três com dois homens mais de uma vez. Li que eles não interagiam entre si, mas você poderia me contar com mais detalhes como foi?

Pergunto pois sempre quis muito fazer sexo assim, mas meu sonho mesmo era que fossem dois homens bissexuais, para que eles interagissem comigo e entre si. Porém, toparia fazer mesmo com dois héteros, mas a unica referência que eu tenho de um ménage são os filmes pornôs. Eu acho péssimo como neles a mulher as vezes parece uma boneca inflável no meio dos dois homens, fica mecânico nos filmes.

A leitora tem razão. Nos pornôs mainstream hétero (isto é, sem ser os feministas ou amadores), o foco está no homem. Literalmente. Mostram o pinto sempre ereto e enooooooooooorme, a ejaculação fortíssima, a ausência de sexo oral na mulher, a penetração feita com facilidade, mesmo que seja anal e, como dito antes, o pinto seja gigantesco.

Eu tenho muitas restrições aos filmes pornôs feitos dessa maneira. Não tô nem aí se não tem “historinha”. Vivem dizendo que mulheres precisam de um roteiro, um contexto, diálogos bem trabalhados para se excitarem. Obviamente não tem algo que deixem bilhões de nós com vontade de fazer sexo. No entanto, eu me excito só com aqueles videozinhos pequenos de poucos minutos – ou até segundos – que rolam no Tumblr.

Sem diálogo, sem roteiro super bem elaborado, sem historinha. Sexo em estado puro – mas verossímil. Eu não sou uma mulher peitudíssima (quero dizer, sou, mas é diferente), com piercing no umbigo, unhas postiças pintadas com francesinha, cabelo loiro liso e berros descontrolados na hora do orgasmo. Que nem sempre vem, é bom apontar.

Portanto, fica difícil se identificar com os atores e atrizes. Eu não sou daquele jeito, meus parceiros não são daquele jeito. A situação piora quando analiso cenas como a descrita pela leitora. A mulher como boneca inflável. Como sentir tesão se a ideia é de que, se fosse eu, seria jogada pra lá e pra cá como um objeto? Onde estaria minha participação isso? E os meus desejos? E os eventuais desconforto e dor?

O problema é que as pessoas encaram o pornô como representação da realidade. Perdi a conta das vezes em que perguntaram: “fez dupla penetração?” quando mencionei curtir mais de um cara durante o sexo.

Não, nunca fiz, nem tenho tesão na prática. Mas não rolou porque a situação não nos levou a isso. Nem sempre os dois caras estão excitados e eretos ao mesmo tempo, só para citar uma das coisas que de fato acontecem.

Além de ambos precisarem estar com bastante vontade, EU também precisaria querer. Eles teriam que respeitar meu desejo (e sempre respeitaram), assim como teriam de aceitar caso eu quisesse parar no meio.

Foi o que respondi à leitora: que só poderia rolar o que todo mundo concordasse. Ela ficou aliviada: “Fiquei feliz em saber que a DP nem foi necessária. Ter que fazer algo assim era um grande receio meu.”.

Ninguém tem que fazer nada no sexo. Pode ser que um parceiro não curta algumas das suas preferências, e aí vale colocar na balança se está sendo bacana continuar com alguém com quem você não se satisfaz sexualmente. Porém, tudo, absolutamente tudo deve ser consensual. Essa é a primeira regra. E uma das outras é: esqueça o pornô.

O desrespeito nunca termina

A história da agressão de Gerald Thomas à Nicole Bahls teve desdobramentos inesperados para mim. A reação sexista e opressora era esperada, mas ao mesmo tempo vi muita gente discutindo a sério a cultura do estupro.

Por outro lado, as tentativas de justificar o que aconteceu transformam o caso numa agressão sem fim. Agora, além de lidarmos com o abuso físico sofrido por Nicole, temos de ver muita gente, capitaneada pela velha mídia, menosprezando o acontecido. O problema é que a agressão não aconteceu num vácuo. O tempo todo e no mundo inteiro pessoas são abusadas, estupradas e ameaçadas.

Quando falamos de Gerald Thomas e Nicole Bahls, não estamos nos restringindo a esse caso. Todos os textos sérios que li a respeito tratavam da cultura, de como certas atitudes consideradas não criminosas e até aceitáveis fazem parte de um panorama maior – e, juntas, normatizam a ideia de que não somos donos dos nossos próprios corpos.

Nem de longe se trata de falso moralismo. Para quem não me conhece, este blog nasceu com relatos dos meus encontros sexuais. Eu tenho um livro publicado a respeito. Falo a respeito e faço sexo com naturalidade, além de advogar pela liberdade individual e pleno exercício dos nossos corpos, com um parceiro, com mil, com nenhum; com ou sem amor; com estranhos ou com pessoas íntimas. Pra mim, só há três regras: que seja seguro, que seja prazeroso, que seja consensual. Esse consentimento deve ser ostensivo. Não deve ser ausência de não e sim um “quero” com toda a força que o desejo tem.

Por mim, discutiríamos sexo sem pudores e sem a hipocrisia social obrigatória. Contudo, o que aconteceu ali não foi sexo. Foi um toque agressivo na região genital da moça, por si só já suficiente para caracterizar o crime de estupro de acordo com a lei vigente. É a primeira vez em que uso a figura do estupro para me referir ao que aconteceu (estou falando da tipificação penal, não da cultura, porque desta última falei bastante).

É importante dizer isso porque muitos estão falando que é necessário haver penetração para o crime acontecer. A lei mudou em 2009 e, ao menos isso, abandonamos pelo menos legalmente a perspectiva falocêntrica do estupro. Antes, era necessário que houvesse penetração de um pênis numa vagina. Por conseguinte, o uso de objetos ou a penetração anal caracterizavam outro crime, diminuindo a importância da agressão.

Entendo que quem não trabalha com direito desconheça o tipo penal. Vejo a repetição do “não houve penetração” como mera má informação em alguns casos. Em outros, especialmente quando é um jornalista, entendo como uma atitude desonesta.

Assim como foi desonesto o programa Pânico de ontem. Começou com uma patética manifestação feminista fake. Não havia feministas ontem na porta da emissora de tv, assim como não houve ameaça ao diretor do programa. O que aconteceu foi uma manifestação pacífica, online, por meio de blogs e páginas do Facebook. Contratar meia dúzia de atrizes para fingir que havia ali uma manifestação é muito reprovável.

Muitos telespectadores acreditam sem pestanejar no que assistem. Ao criar o “protesto”, a produção do programa se deu uma importância que não existe, além de tentar reiterar a ideia de que nós, feministas, somos apenas umas mulheres sem ter o que fazer e que reclamam por tudo. Basta ver as perguntas toscas feitas pelo Vesgo: “desde que horas você está aqui?”. Na cabeça de muita gente deve ter ecoado o “estão lá o dia inteiro e a pia deve estar cheia de louça pra lavar”.

Isso já seria suficiente para mostrar o desrespeito com que somos tratadas. Eu sei que as bundas em profusão e as humilhações contumazes no programa já demonstram isso. Mas não é a discussão do momento (sim, feminismo também trata da cultura da objetificação dos corpos e da exploração comercial dos mesmos).

O desrespeito continuou com a presença do psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg no longuíssimo VT sobre o caso. Ele falou em projeção e sobre como nossa sensibilidade é a responsável por acharmos que aquilo foi uma brincadeira (como se fosse possível) ou uma agressão. Esse papo de projeção como justificativa pra tudo é patético, pois tira o foco do ato e o coloca na reação do outro.

Ele mencionou repressão sexual, e este é outro discurso que não cabe aqui. Eu sou totalmente a favor de pegarem na minha buceta, inclusive gosto muito, desde que eu tenha permitido. O consentimento, aliás, é necessário para qualquer toque e até mesmo para falar com alguém fora das circunstâncias meramente sociais. Para piorar as coisas, ele ainda disse que Nicole é irresistível. Como escrevi no post anterior, não somos irracionais, movidos por uma força incontrolável que nos faz usar do corpo alheio sem permissão para tanto.

O apresentador do programa também não foi honesto quando disse que a imprensa estava perseguindo a produção. Pelo contrário: a velha mídia (jornais e sites de grandes conglomerados) trataram tudo como brincadeira. Claro! O que seria da mídia sem o jornalismo punheteiro? Além disso, pintaram Gerald Thomas como gênio e excêntrico, enquanto Nicole seria apenas a gostosa da vez. Se alguém ainda tem dificuldade de enxergar pra que lado a balança pende nesta relação…

Depois de um programa todo roteirizado para fazer chacota da moça e endeusar o diretor de teatro, o tiro saiu pela culatra. Emilio pergunta à Nicole se ela achava que era uma brincadeira. A resposta foi positiva mas, quando o apresentador já estava encerrando a transmissão, Nicole aproveita o microfone aberto e diz “se fosse na rua, eu teria feito um barraco”.

“Então por que ela não fez ali?”, perguntam muitos. A resposta não é fácil, tampouco objetiva. Só ela pode dizer o que sentiu. E não, eu não estou falando de uma declaração à imprensa, mas sobre o que ela sente no âmago. Talvez ela não tenha consciência do que lhe aconteceu.

Afirmar isso não é vitimizar a mulher, mas negar é, certamente, ignorar as relações de poder e a história de abuso (não só sexual) dos corpos de quem faz parte de minorias.

A discussão ultrapassa o fato acontecido na última semana, pois ele fala sobre nós. Uma a cada seis mulheres sofrerá abuso sexual consumado ou tentado durante a vida. Provavelmente essa estatística ainda está baixa, pois tais crimes em geral não são reportados. Uma a cada seis. Os números são suficientes para enxergarmos que isso faz parte de uma cultura em que a mulher só existe para servir ao homem.

Como venho afirmando há muito, apenas repetindo o que as feministas que vieram antes de mim já estão cansadas de saber: tomar o poder sobre o próprio corpo é essencial para a liberdade e empoderamento de todas nós.

A cultura do estupro gritando – e ninguém ouve

Como a essa altura vocês já devem saber, Gerald Thomas tentou colocar as mãos por dentro do vestido da Nicole Bahls durante um evento no Rio. Era noite de lançamento de um livro dele e a Livraria da Travessa estava lotada. Repórteres, cinegrafistas, funcionários da loja, clientes.

Pelas notícias, ninguém fez nada. Nas imagens dá para ver que o colega de trabalho de Nicole no Pânico continuou a entrevista como se nada tivesse acontecendo. Enquanto isso, Thomas enfiava a mão entre as pernas de Nicole e ela tentava se desvencilhar.

nicole bahls

 Veja/leia mais aqui. 

Sempre rolam os xingamentos à mulher, claro. São os usuais: que ela estava pedindo, que ela estava gostando, que o trabalho dela é esse mesmo, que a roupa era justa. Vocês estão cansados de saber quais as justificativas injustificáveis para o assédio e a agressão sexual.

Mas duas coisas me chamam a atenção nesse caso. A primeira é ninguém ter feito nada. Acharem normal. Acharem aceitável. Se a agressão tivesse sido com uma atriz considerada recatada, as pessoas reagiriam da mesma forma?

Duvido. Indignar-se-iam, aposto. Muita gente nas redes sociais se posicionou e apontou o comportamento de Gerald Thomas como agressão, mas a imprensa tratou como algo que “Nicole não esperava”, mostrando o assunto como mero constrangimento.

Se a mulher geralmente já é tratada como “coisa”, como um objeto para deleite masculino, quando ela tem seu corpo e sua sexualidade transformada em um produto vendável, tudo só piora. Nicole faz sucesso porque tem um corpão, segundo os padrões de beleza atuais. Ela aparece de biquini na televisão, tira fotos “sensuais”, usa roupas curtas e provocantes. Como ela “provocou” (apenas sendo quem ela é), ela merece ser apalpada por um estranho.

Porém, não existe isso de “provocar”. Gerald Thomas não é um animal irracional. Ele – e eu e você – deve esperar o consentimento do outro para poder tocar em seu corpo. Nicole Bahls claramente disse “não”, ao tentar tirar as mãos de Thomas. Parece que não é suficiente, como não é suficiente quando viramos o rosto para evitar o beijo do desconhecido na balada.

Criou-se a ideia de que o homem deve insistir e insistir, enquanto a mulher tenta guardar algo. O “não” é visto como “talvez”. No entanto, se a mulher transforma o talvez em um “deixa pra lá”, ela na verdade não está consentindo. Não é um “sim” entusiasmado, intenso, certeiro, como deve ser em qualquer relação. É um “sim” por convenção social, por achar que ele já fez demais, que agora merece o contato sexual, que é melhor ceder e se livrar logo. Isso não é consentimento, é coerção.

O pior é que esses caras não se veem como agressores, uma vez que todo mundo encara tais comportamentos como “normais”. Brad Perry tem uma frase ótima em Yes Means Yes*: “estes homens acreditam piamente que “não” significa “insista”, e nunca se veem como estupradores, apesar de admitirem o padrão de ignorar e suprimir a resistência verbal e física”.

A segunda coisa que me incomoda no caso é terem dito “mas porque ela não fez algo?”. Infelizmente, a maior parte das pessoas que sofre algum tipo de agressão (não só sexual) não faz alguma coisa. Ser vítima é costumeiramente confundido com “ser frágil”. É difícil encarar polícia, legista, imprensa, opinião pública. No caso desse post, o cara estava agredindo na frente de todos – e ninguém fez nada.

Se fosse você a vítima, você não pensaria que a errada é você por não estar gostando, já que todo mundo está achando muito normal?

Lisa Jervis discorre sobre isso no mesmo livro: “estou falando de uma construção cultural nojenta, destrutiva, que encoraja as mulheres a culparem a vítima, a se odiarem, a se culparem, a se responsabilizarem pelo comportamento criminoso dos outros, a temerem seus próprios desejos e a desconfiarem dos seus próprios instintos”.

Se o corpo da mulher é ainda visto como “de todos”, como acontece no caso daquelas que usam a sexualidade para “vender”, fica ainda mais difícil ter noção de que o corpo lhes pertence. Que é só seu. Que ninguém, ninguém pode tocá-lo sem consentimento.

Acabarmos com a cultura do estupro é um processo social, coletivo, mas também individual. Nós temos que encarar nossos corpos como nossos e de mais ninguém, além de repensarmos o sexo, transformando-o no que realmente é: prazeroso e consensual. Qualquer coisa fora disso é agressão.

*Yes Means Yes é um livro de Jessica Valenti e Jaclyn Friedman sobre a cultura do estupro. É uma coletânea de artigos muito interessante e que recomendo muito. O texto de Brad Perry se chama Hooking up with healthy sexuality: the lessons boys learn (and don’t learn) about sexuality, and why a sex-positive prevention paradigm can benefit everyone involved. 

Margaret Thatcher e o feminismo

Hoje aquela organização que a mídia insiste em chamar de feminista (mesmo elas já tendo afirmado que não são) fez uma homenagem a Margaret Tatcher, ex-primeira ministra britânica que morreu ontem.

O desconhecimento histórico de tal organização é gritante, mas vi algumas pessoas dizendo que ter uma mulher como líder de um país já seria suficiente para celebrarmos, uma vez que isso é tão difícil de acontecer.

A justificativa não me convence. Pode parecer bacana se olharmos apenas superficialmente, mas não adianta termos uma mulher em posição de poder político se ela não usar isso a favor dos direitos das mulheres.

No Brasil, temos a presidenta Dilma. E ela permitiu que Feliciano presidisse a Comissão de Direitos Humanos e Minorias, só para citar um exemplo rápido e bastante em voga hoje. Com Tatcher as coisas não foram diferentes. Traduzo um post curto e de fácil compreensão publicado pelo The F Word, também britânico. O original você encontra aqui.

Tatcher e a liberação da mulher

“Margaret Thatcher era feminista?” Junto com “uma feminista pode usar salto alto?”, esta é uma das questões favoritas da mídia. Assim como a segunda pergunta (igualmente cansativa), há uma resposta curta e outra longa.

A resposta curta? Definitivamente “não”, segundo a própria “dama de ferro”:

As feministas me odeiam, não é mesmo? E eu não as culpo. Afinal, eu odeio o feminismo. É um veneno.

A resposta longa? Bom, também é um “não”, mas temos a explicação.

Margaret Thatcher de fato foi a primeira mulher a ocupar o cargo de primeira ministra. Ela chegou ao topo em uma sociedade sexista e dominada pelos homens. Ela provou, alguns dizem, que mulheres e homens são iguais.

Contudo, para chegar onde chegou, Tatcher seguiu a linha do patriarcado. E ela fez isso sem parar pra pensar por um segundo nas outras mulheres.

Ela pode ter inspirado e aumentado a confiança de algumas mulheres individualmente. O ponto principal aqui é que o feminismo – ao contrário da ideologia de Tatcher – não é individualista. Feminismo busca a libertação de todas as mulheres.

Libertação para todas as mulheres não se alcança quando uma única mulher rica toma  posição de poder.

Libertação para todas as mulheres não se alcança por meio de políticas econômicas que aumentam o desnível social, pobreza e desemprego, além de aniquilar comunidades inteiras.

Libertação para todas as mulheres não se alcança atacando o direito de organização dos trabalhadores.

Libertação para todas as mulheres não se alcança com a demonização da comunidade gay.

Libertação para todas as mulheres não se alcança criticando e se negando a apoiar aquelas que tiveram filhos.

Libertação para todas as mulheres não se alcança por meio do racismo e apoio a ditadores sanguinários.

Tatcher pode ter sido bem sucedida como indivíduo, mas suas ações ajudaram a dar base às opressões estruturais que pioram as vidas das mulheres tanto no Reino Unido quanto no resto do mundo. Ela falhou em apoiar as mulheres mesmo diretamente, pois empregou apenas uma mulher em seu gabinete em onze anos como primeira ministra.

Margaret Tatcher não é um ícone feminista. Aliás, ela é a perfeita personificação de como é importante lutarmos pela liberdade, pela criação de uma nova sociedade que permita que todos os gêneros sejam livres de qualquer forma de opressão. E não lutar para que mulheres já privilegiadas ganhem “igualdade” com seus companheiros homens.

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O Huffington Post publicou um texto com ideias diferentes do acima. É em inglês.

Ann Friedman também escreveu a respeito do tema (em inglês).

Há meses eu escrevi não sobre a primeira ministra, mas sobre a tal organização que hoje a homenageia.