Começando do começo

Oi! :)

Eu sei, eu sei que estou sumida. Do Twitter (@nadialapa), nunca, mas aqui sei que ficou abandonadinho. Nem tem razão nenhuma; só estava vivendo outras coisas.

E, agora, nesta volta, eu quero muito, mas muito mesmo, falar sobre sexo. Como alguns de vocês sabem, eu faço pós graduação em educação sexual e tenho estudado e pensando muito acerca dos mitos e do desconhecimento geral acerca do sexo. Só ensinam tabus pra gente. Poucos são os sortudos que têm uma família bacana, que fala abertamente sobre o assunto, ou tiveram aula de educação sexual na escola. Eu, por exemplo, nunca tive.

Grande parte dos e-mails que recebo são com questões básicas, então decidi “começar do começo”. Vamos falar sobre sexo? Sobre corpos, sobre genitais, sobre prazer? Sem medos, tabus ou mentiras? Vamos nessa?

Neste post específico, deixarei os comentários abertos e também há um questionário no fim do texto. Eu quero saber sobre o que vocês têm mais dúvida, quais assuntos interessam mais, a experiência de vocês. Como sempre, aceito colaborações!

Vamos começar falando de orgasmo?

“O estudo de Kinsey de 1953 mostrou que apenas 70 e 77% das mulheres já haviam tido orgasmo, ou com masturbação ou com penetração. A satisfação sexual feminina não andou no mesmo ritmo que o ostensivo progresso da “revolução sexual”: o relatório Shere Hite de 1976 traz estatísticas de que somente 30% das mulheres têm orgasmos regularmente com penetração, sem estímulo clitoriano, outras 19% com tal estímulo, e 29% não gozam com penetração. Percentagem das que não se masturbam nunca: 15%, e 11,6% não têm orgasmos nunca, de jeito nenhum.

A pesquisa de Helen Kaplan em 1974 mostrou que de 8 a 10% das mulheres nunca têm orgasmo, e que 45% só gozam com penetração se tiverem estimulação clitoriana. Já no estudo de 1973 de Seymour Fischer, somente 30% das mulheres chegam ao orgasmo com penetração.

Os anos 1980 mostraram uma pequena mudança. Em 1980, Wendy Faulkner descobriu que só 40% das britânicas com 40 anos de idade já haviam se masturbado; por outro lado, na mesma idade, 90% dos homens já o tinham feito. Em um estudo de 1981, somente 47% das dinamarquesas haviam se masturbado até gozarem. No Reino Unido, um estudo de 1989 com 10 mil mulheres descobriu que 36% “raramente” ou “nunca” gozam com penetração, e que “a  maioria fingiu gozar para agradar os parceiros”. ¹

E você? Já gozou? Como você goza? Quão importante é o orgasmo numa relação sexual? Os parceiros com os quais você se relaciona se importam com isso? São essas perguntas que eu quero te fazer nesse questionário abaixo. Os comentários estão abertos para quaisquer dúvidas ou debates. E os números acima são apenas para te mostrar que, qualquer que seja a situação da sua vida sexual, há muito mais mulheres parecidas com você do que você imagina.

 ¹ Trecho de “O mito da beleza”, de Naomi Wolf, em tradução livre.

 

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Soft and only

Eu tento escrever esse texto há um ano. Exatamente um ano. É curioso – sempre consegui relatar qualquer coisa, boa ou ruim, que tenha acontecido na minha vida. Falo sobre a Ana há quase onze anos, anotei algumas palavras sobre a minha avó ainda no avião, mas sobre você, não. Penso sobre o motivo: nada do que eu falar, escrever ou gritar vai dar a dimensão exata de quem você era e do que você significou (e ainda significa) na minha vida. Tudo seria pouco, pedestre, pequeno. Você é gigante.

Os poetas bons e péssimos (“você gosta de poesia?”, na frente do CCBB, pertinho de onde a gente trabalhou) já tentaram expressar o amor. Eles caíram na esparrela de descrever o amor romântico, e esqueceram como amar, de verdade, é muito maior do que isso. E eu conheci o amor, aquele que não pede nada em troca, aquele que torce junto, aquele que cuida, quando te encontrei a primeira vez.

Primeira vez, mesmo, nos corredores do 11º andar da Rua da Candelária, quando o que poderia ser só mais um coleguismo de trabalho se transformou na maior amizade que eu já vivi.

Ninguém entendeu a conexão magnética e inquebrantável entre nós duas. “Vocês são insuportáveis juntas”, ouvimos muitas vezes. Eu começava a piada sem graça, você terminava. E ríamos juntas. Gargalhávamos. Dobrávamos as barrigas e perdíamos a respiração com a companhia uma da outra. Há alguns dias tento lembrar da nossa primeira vez no Outback, em que fizemos exatamente isso. O sorvete derretendo, o garçom nos achando loucas, e eu não tenho a menor ideia do motivo que nos fez rir tanto. Pra quem eu vou perguntar, agora?

Com quem eu vou falar “cadê a bolsa?” e a pessoa entender imediatamente? E rir, rir, rir. Rir. Porque você era pura alegria, mesmo quando o assunto não era assim tão feliz. Eu, de coração partido, procurei abrigo junto de você. Enchi o saco para você tirar umas cartas de tarô pra mim. Você pegou a caixinha, abriu todos os jogos, e em todos vinha a mesma resposta. “Ihhhhhhhhhhhhh, Nádia, por que você insiste nesse cara?”, você falava, me sacaneando. E eu jurando de pés juntos que sua mão estava ruim, que o meu amor era real e tudo ficaria bem. Tudo ficou bem, o amor era real, mas a sua mão estava certíssima. Como sempre esteve.

Fez piada até da última vez em que nos vimos. Eu sabia que era a última. Eu só não sabia como agir, e espero que você me perdoe por não ter dado algum sinal da dor que me consumia por dentro. Mesmo naquela situação, você não perdeu a chance de me zoar. Adorou a entrevista na Marília Gabriela, não perdeu, ficou acordada até tarde (“e você sabe como eu durmo cedo”), mas foi direto ao ponto: “Que cabelinho era aquele, hein? Parecia uma velhinha!”. E eu, sem graça, nem consegui responder qualquer coisa que fizesse sentido, porque eu, ao contrário de você, não consigo manter o bom humor ao ver a melhor pessoa da minha vida ir embora.

Porque você foi – e é – isso: a melhor pessoa da minha vida. Fui muito amada, sempre; tive e tenho amigos extraordinários; mas você, ah, você, nada se compara. Você esteve ao meu lado quando fingimos ser um casal homoafetivo para pegar uma promoção de celular; você dividiu jantares divertidos em várias cidades comigo; você cuidou da minha irmã quando ela já nem existia mais. E fizemos piada com isso, uma piada de mau gosto horrível, mas que continuávamos contando anos mais tarde – e rindo muito, claro.

Eu jamais conheci uma pessoa que espalhava o amor por aí sem querer nada em troca, só porque o amor é bom, mesmo. E contigo eu aprendi que esse é o certo, ainda que até hoje eu não consiga colocar em prática da mesma forma que você. Eu ainda tinha tanto a aprender! Mas a sorte de tê-la por onze anos na minha vida vale por toda essa sensação de que irão arrancar meu coração de dentro do peito, ou que estão o pisoteando, ou que esse nó na garganta é tipo de marinheiro e eu nunca mais vou conseguir desatar.

Sinto coisas parecidas quando subo pra Santa, ou passo na frente da casa da Renata. Outro dia, passando mal num sábado de manhã chuvoso, procurei por uma farmácia na Rua das Laranjeiras e, na volta pra “casa”, passei na esquina onde você costumava me esperar. Exatamente no local em que você entrou em outro carro achando que era o meu – e, quando me contou, gargalhamos mais um monte!

Eu não consigo imaginar esse mundo sem você. Às vezes esqueço que você já se foi. Penso nas coisas que eu sei que você quase teve de abrir mão por minha causa. Imagino se você está em paz, de acordo com a sua crença. Penso em você todos os dias, mas nunca tinha conseguido escrever até hoje. Continua não estando aos pés da pessoa que você foi. Eu teria de virar uma Clarice, talvez.

Por enquanto, é o máximo que consigo fazer. Você foi a coisa mais preciosa da minha existência, e eu tenho um orgulho gigantesco de ter sido a sua amiga. Se almas gêmeas realmente existem, você foi a minha, e há um ano parece faltar um pedaço de mim. You’re not just like heaven. You’re heaven itself. Te amo pra sempre.

frá2

Vivendo alucinadamente (na verdade, não)

Algum tempo atrás eu escrevi uma retrospectiva aqui no blog. Lembro como alguns comentários diziam “você vive mais em um ano do que as pessoas vivem numa vida inteira”. Achei curioso; eu não tinha feito uma volta ao mundo, não tinha casado, nem tido filho. Nada dessas coisas, esses marcos grandiosos da nossa história.

Eu tinha me limitado ao básico: estágio-faculdade-vida doméstica. Ainda assim, pra alguns, eu havia vivido pra caramba. Talvez seja o jeito de eu escrever sobre o que me aconteceu. Será? Ou será o jeito que decidi viver?

Como vocês devem ter notado, eu sumi daqui por vários dias. Viajei e não tinha acesso à internet. E fui lá, viver. Não estava conhecendo uma vila perdida no mundo em que poucas pessoas têm acesso. Fui pra Manaus, mesmo, cidade que conheço de trás pra frente.

E, enquanto estive lá, trabalhei num bar. Isso não é exatamente novidade pra mim; eu já trabalhei em restaurante antes. É um caos: você não para um minuto e sempre está faltando alguma coisa. Do tipo não sair som do telão dois minutos antes do hino nacional naquele sofriiiiiiiiiiido Brasil x Chile, até lavar parede de banheiro e depois se estabacar no chão porque estava toda molhada. No fim do dia, pés inchados e com bolhas, lombar gritando de dor.

Tudo normal, cotidiano e sem graça, se você analisar bem. O que há de glamour em decorar em qual freezer está a Itaipava e em qual está a Brahma? Não há, se você não deixar.

Mas eu aprendi a ver a vida com outro olhar completamente diferente. Como vocês sabem, Manaus foi uma das cidades-sede da Copa do Mundo. E, por isso, havia muitos estrangeiros por lá. A maioria se concentrou no centro da cidade, no Largo de São Sebastião, onde não consegui ir por cansaço crônico.

O bar em que trabalhei fica numa área com menos atrativos turísticos, mas com um hotel bem em frente, então de vez em quando pingava um ou outro estrangeiro. E eu era a encarregada de atendê-los, porque os garçons não falam inglês.

Com alguns, meu papo foi direto e reto. Expliquei o cardápio, peguei os pedidos, apontei onde era o banheiro. A maioria, porém, queria mais. Eles estavam extremamente felizes de estarem ali. Queriam saber qual comida era típica. Acharam engraçado quando eu disse que no Brasil as pessoas não bebem na garrafa de 600 ml de cerveja direto no gargalo (“ok, vamos ser civilizados, então, nos traga copos”, me disse um).

Uma polonesa, cujo nome não consegui entender de jeito nenhum – apesar de ela ter repetido quatro ou cinco vezes -, fez questão de me procurar depois de pagar a conta, gritar “Nádia” e me dar um abraço. Depois, voltou para perguntar como se pronunciava “pastel”, que ela havia comido e adorado.

Vi croata trocando de camisa com brasileiro, canadense-meio-americano com uma blusa “Brasil rumo ao hexa”, americanos e brasileiros berrando “USA, USA” juntos. Foi divertido e enriquecedor.

Esse não é um texto para tecer elogios à Copa. Eu faço isso o tempo todo no Twitter. E tenho minhas críticas, claro, muitas, como a repressão policial que continua acontecendo ou as obras superfaturadas, mal feitas e inacabadas (vejam a grande tragédia de ontem em Belo Horizonte, ou os tapumes no aeroporto de Manaus).

Meu ponto aqui é que eu não preciso invejar as fotos das pessoas nas redes sociais em lugares distantes e exóticos. Claro que eu gostaria de viajar mais, de conhecer mais gente, de participar de eventos incríveis. Como eu não posso nesse momento (não tenho dinheiro nem pra descer pro Guarujá), o que me resta é viver a minha vida, do jeito que ela se apresenta, da melhor forma possível.

E, depois de tudo o que passei, eu reaprendi a fazer isso. Eu não poderia estar mais feliz.

A difícil gentileza com outras mulheres

Nesse último fim de semana eu fiz um curso sobre o qual falarei com detalhes aqui no blog – e que renderá mais incontáveis novas ideias. Foi sobre tantra. Falamos sobre sexo, pompoarismo, massagens. Vimos pinto, vimos buceta. E o mais importante, pra mim, foi outra coisa muito mais particular e subjetiva: o que vai dentro, lá dentro, das mulheres. O que é invisível.

Éramos um grupo somente de mulheres. No domingo, fizemos uma dinâmica em que fomos separadas em pequenos grupos com quatro pessoas. Sem ordem definida (o “querer” era o que nos movia), uma das mulheres entrava no semicírculo formado pelas outras três e começava a falar de si mesma. Era apenas sobre a parte estética, e enquanto falávamos, tínhamos que mostrar a parte do corpo sobre a qual estávamos, em geral, reclamando.

Enquanto meias, camisetas e sutiãs eram tirados, cada uma de nós trazia os medos, inseguranças e vergonhas à tona. Relatávamos, ainda que rapidamente, os traumas por termos sido zoadas na infância ou adolescência porque temos alguma parte do corpo fora do padrão: uma bunda pequena, um nariz muito grande, um cabelo “ruim”.

Durante a fala da companheira, nós não podíamos dizer nada, apenas escutar. Dava vontade; ouvir mulheres lindíssimas (dentro ou fora dos padrões, não importa; ainda assim, lindíssimas) reclamando dos próprios corpos, mencionando a vontade de se submeterem a cirurgias plásticas, relatando o medo de não encontrar um parceiro porque o corpo é “errado” e não contestar, dizendo quão maravilhosa ela na verdade é, foi difícil. Era o momento de ouvir e, por mais brega que isso seja, ouvir com o coração, mesmo, deixar as palavras entrarem pelos ouvidos e irem esquentando o corpo inteiro, até chegar ao coração.

Era impossível ouvir o que as mulheres dos outros grupos diziam. Falávamos mais ou menos baixo, e a ideia era dar toda a atenção àquela que estivesse na nossa frente, se expondo. Tirar a roupa era o de menos. Naquele momento, as mulheres estavam se despindo de coisas muito mais importantes, se colocando em uma posição super vulnerável. Ainda assim, comecei a perceber choros e soluços vindo dos outros cantos da sala. E da mulher à minha frente, também.

Eu tenho muita facilidade de falar sobre mim mesma. Faço isso há anos em blogs. Toda semana vou pra análise. Conto absurdos na mesa do boteco. Mas para algumas daquelas mulheres foi o momento de se libertar de amarras sociais apertadíssimas. Às vezes não se tem apoio familiar. O parceiro ouve pouco, não quer saber de “frescura de mulher”. Os amigos só aparecem quando você está pra cima.

Na dinâmica, era o momento de falar, falar, e ser efetivamente ouvida, sentida, compreendida. Ao final, a mulher que acabou de falar deveria fechar os olhos e as outras três deviam encostar nas partes do corpo dela que ela houvesse mencionado como as mais frágeis. A ideia é que passássemos energia e conforto por meio do toque (acredite em energia ou não, tocar alguém sem nenhuma intenção sexual é muito poderoso). Muitas mulheres desabavam justamente quando se sentiram cuidadas pelas outras. Nós não nos conhecíamos; era uma troca altruísta e humana de carinho e apoio.

Houve muito choro, muitos abraços e pouquíssimas palavras de encorajamento. Ouvia-se apenas soluços e respirações profundas. O momento era para silêncio.

Apesar de eu não ter chorado – e muita gente confundir isso comigo sendo “durona” – a minha mente estava dando um nó que estou carinhosamente tentando desatar. Ao ver aquelas mulheres desconhecidas se abrindo na minha frente, pensei em todas as mulheres da minha vida que eu não escuto. Mãe, amigas, minha irmã que já partiu. Com certeza elas têm/tinham muito mais a falar do que eu me dispus a escutar. Falamos sobre seriados, filmes, músicas, problemas cotidianos, mas temos imensa dificuldade em ir mais fundo. É fácil, também, dizer “deixa disso”, “imagina, sua barriga é linda”, ou coisas do tipo. A tentativa é de encorajar, mas isso acaba por menosprezar o sentimento que aquela pessoa tem consigo mesma e com o próprio corpo.

Quando saí de lá, pensei em quantas vezes achei charmoso/fofo/atraente um “defeitinho” de algum moço, mas não tive a mesma gentileza com uma mulher. Fui implacável com algumas delas, ainda que não tenha dito isso diretamente. Mas pensei, sim, especialmente na adolescência.

Eu estendi essa falta de gentileza a mim mesma. Fiz piada e falei mal de diversas partes do meu corpo ou de nuances da minha personalidade, sendo muito feroz comigo mesma. Nos últimos anos estou bem melhor com tudo. Foda-se se o meu olho é muito pequeno ou se a raiz do meu cabelo está aparecendo. Não fiz as pazes com a minha bunda ou com a minha barriga pós-menopausa, mas não ligo pras estrias, por exemplo, e aceito com tranquilidade as marcas de expressão que estão começando a surgir.

Mas isso é de cada uma de nós. Cada uma é influenciada por essa sociedade de merda de um jeito diferente. Temos bagagens diversas. Não dá para dizer que essa ou aquela reclamação é frescura; nosso papel deveria ser de apoiar e, caso possível, ajudar a pessoa a procurar saídas terapêuticas para resolver tais questões.

Pensei em quão pouco gentil eu fui, e em como eu posso mudar isso. Não vai ser fácil, mesmo, mas é necessário se eu quiser mudar alguma coisa na vida das pessoas. Também não é a solução definitiva: o mercado de cosméticos, cirurgias plásticas e afins está aí, fortíssimo, fazendo de tudo para que a gente se sinta uma merda e consuma mais e mais. Temos que atacar o sistema, sim (alô, feminismo!), mas não vai fazer mal se, no meio da revolução, pararmos para olhar melhor para as mulheres que estão ao nosso redor.

E ser mais gentil com elas. E conosco.

(sim, falarei mais sobre o curso, darei as informações de serviço, farei críticas e etc etc etc.)

Vinte anos para aprender a dizer “não”

Vai ter Copa, sim, vai ter muita Copa. Assim como teve muita Copa em 1994 (é teeeeeeetra!), quando eu estava começando a minha vida sexual. Sim, lá se vão vinte anos. Eu era “virgem” à época, mas como considero sexo algo muito maior que apenas penetração, posso dizer que eu estava começando as interações sexuais com fins libidinosos com um moço.

Já naquela época eu me achava muito dona do meu corpo. Só transei quando eu quis, por exemplo, e não cedi a qualquer pressão do parceiro, da sociedade, dos amigos. Eu estava no comando dos meus desejos. Ou, pelo menos, assim eu achava.

Nessas duas décadas o Brasil virou penta, tomou uma sova da França e eu transei pra caramba. Tive muitos parceiros e, claro, nem todos foram bacanas – na cama ou fora dela. Eu não tenho culpa por alguns serem completos imbecis; eles não vêm com letreiro na testa. Mas, já que estamos numa vibe Copa do Mundo nesse texto, da África do Sul para cá a minha percepção sobre o que é sexo e consentimento se transformou muito. Afinal, não dá para deixar o feminismo entrar na sua vida, estudar cultura do estupro, e olhar pro passado achando que tudo foi um mar de rosas.

Eu percebi muito recentemente que me forcei na cama em inúmeras ocasiões. Não fui forçada pelos parceiros do ponto de vista “clássico” da violência. Nenhum me bateu, me amarrou ou me ameaçou. Todos estavam fazendo o que achavam que era normal; e eu aceitei por achar a mesma coisa: eu estava ali para dar prazer pra eles, não para mim.

E isso é grave.

Demasiadamente grave.

Porque por mais que o orgasmo não seja a coisa mais legal do sexo, tampouco a mais importante, é imprescindível que as pessoas envolvidas estejam de fato cuidando umas das outras. Parece viajante demais e você precisa de exemplos mais objetivos? Vamos lá:

- eu tenho alergia ao látex e durante aaaaaanos a indústria só fabricou/vendeu no Brasil camisinhas super grossas e desconfortáveis. Como faço sexo seguro, era o jeito. Porém, com aquela penetração incessante (o tal “pau britadeira”), era certo que eu ficaria assada. Ainda assim, eu continuava. Ardia, mas eu continuava. No outro dia, urinar era um suplício! Mas eu tinha que continuar! Tinha que. Tinha que.

- às vezes dá para perceber no início da interação que a parada vai ser uma droga. A química não acontece, o cara faz algum comentário tosco, ou o gato comeu a língua dele. Pior: mal começou e ele já saca a camisinha e sai penetrando. E eu lá, aceitando, mesmo achando as preliminares a coisa mais gostosa do mundo.

- uma vez especificamente, lá pela Copa da Coreia do Sul e do Japão, eu conheci um rapaz, ficamos, foi ruim, e ele insistiu em transar. Ele insistiu tanto que eu pensei “ai, vou logo dar pra esse cara para ele parar de torrar a paciência e também para não ferir os sentimentos dele”. Transei. Semanas depois, descobri que ele contou para todo mundo do grupo de amigos, e ainda inventou coisas. Ah, o sexo foi horrível.

Eu poderia continuar dando exemplos e mais exemplos. Mas eu quero mesmo é falar sobre superação, ainda que tenha demorado 20 anos. Não acho que deva demorar tanto para todo mundo; gostaria que todas as mulheres já começassem suas vidas sexuais tendo completa noção do que é consentimento de verdade. Eu não tinha, por isso me meti nessas furadas. De novo, eu não teria me dado conta disso tudo sem o feminismo e sem o compartilhamento de histórias com amigas e leitoras.

Como eu percebi que mudei? Na prática. Mencionei ontem que a Letícia está alive and kicking, e os homens continuam vindo sem letreiro na testa… Então, posso até desviar de uma ou outra furada, mas escapar de todas? Não acho que seja possível.

Vou me manter nos três exemplos, porque este post já está longuíssimo. Conheci um cara bacana, inteligente, e sexualmente atraente. Eu quis muito ir para a cama com ele. O problema é que na cama, bem, ele só lembrou que eu tenho buceta na hora de enfiar o pinto dentro dela. Ele SEQUER TOCOU em mim. Fica batendo aquela esperança que em algum momento ele vai perceber que – oi – um dedinho e uma linguinha vão bem, obrigada, mas nada. Nada. Não havia o que eu pudesse fazer além de me vestir e ir embora. Antes, porém, falei que o sexo foi ruim, que ele era egoísta, e que bucetas não são buracos. Que há uma pessoa acoplada nelas. (e, sobre essa noite, vou escrever outro post só sobre a resposta que ele me deu.)

E aí tiveram mais dois. Como mencionei, tenho alergia à camisinha. Por isso, eu sempre carrego comigo a marca que não me deixa ardida. Quando peguei o preservativo, o moço respondeu que não ia usar, pois ele preferia uma mais larguinha que ele havia trazido. “As outras apertam”, ele disse. Olhei bem pro pinto dele… e, bom, não, amigo, baixa a bola, vai. Em outros tempos, eu ficaria desconfortável (porque usaria a camisinha de látex que ele prefere) em nome do prazer dele. Dessa vez, disse não. Havia mais um montão de coisas que podíamos fazer sem ser penetração, mas ele ficou batendo na tecla de que só usaria a própria camisinha. Um beijo, então, gato, nos vemos nunca mais.

Por último, durmo com um moço. Antes disso, abortamos a “operação sexo” porque ele estava muito cansado. Entendo super. Pensei “opa, teremos sexo matinal, o melhor de todos”. Que ingênua. No outro dia, ele continuava muito cansado. O pau, claro, ficou duro com sexo oral. Eu quis partir para a penetração, ele, com preguiça, queria que eu ficasse lá fazendo cosplay de bomba de sucção. Ia durar pra sempre, conheço o tipo. Falei “temos um impasse”, coloquei minhas roupas, voltei pra casa, tomei um banho e saí com meus amigos para almoçar. Foi muito mais prazeroso do que continuar lá fazendo as vontades do reizinho. Aliás, comemos a sobremesa num restaurante ótimo, o Santa Filomena, na Tijuca, sobre o qual também farei um post exclusivo, de tão legal que achei (não é jabá).

Contando assim, friamente, pode parecer que fui grossa e um pouco dura demais com os moços. Hum, não. Eu só finalmente percebi – e coloquei em prática – que o consentimento deve estar em qualquer ação sexual. Em tudo. Não só na hora que você decide transar com alguém, mas também no durante e no depois. Qualquer coisa fora disso é agressão. Nem sempre os caras percebem que eles estão fazendo algo contra a nossa vontade, porque o mundo os ensinou que eles têm direito aos nossos corpos. Em contrapartida, também fui ensinada que devo estar disponível. Sendo gorda, então, devo ainda dar graças à deusa por ter alguém que me queira, mesmo que o sexo seja ruim e não me traga qualquer prazer.

Foram 20 anos. Cinco Copas do Mundo. Mas eu aprendi.

(vai ter Copa, sim. Soy Celeste!)

uruguai

 

She is back

Voltei.

Dava para terminar o post só com a palavra acima. Volteiiiiiiiii, e agora é pra ficar. Bom, na verdade não tenho certeza disso.

Nesses 20 dias fora, minha vida deu algumas reviravoltas. Nada muito substancial, mas o suficiente para mudar minha cabeça em relação a um montão de coisas. Nesse período, eu me formei na especialização em gênero e sexualidade da UERJ*; falei sobre sexualidade da mulher na mídia na minha antiga faculdade, a Cásper Líbero; sobre a representação da mulher na mídia em Manaus, minha terra natal, a convite da Secretaria Executiva de Políticas para as Mulheres; e sobre cultura do estupro na UERJ.

Tais encontros, com gente tão diferente, me fizeram pensar muito a respeito da militância, dos meus estudos, da minha participação social. Por mais louca que seja a mudança pela qual passei de 2011 para cá, eu a abracei forte e o feedback que as pessoas me dão nesses eventos é sempre muito positivo, empoderador e surpreendente.

Eu realmente não posso negar que maio foi um mês intenso. Além de obrigações assumidas por puro prazer, revi gente amada, conheci pessoas novas e recebi uma visita há muito aguardada: Letícia voltou.

E quando ela aparece é feito avalanche. Não há como ficar imune; ela impregna tudo o que faço, penso, desejo. Principalmente desejo.

Isso não quer dizer que voltarei a escrever aquelas narrativas do início do blog. Significa que estou mais feliz, mais aberta, mais plena. Deixo que digo, que pensem, que falem, mas eu sou melhor comigo mesma quando minha vida sexual está correndo bem (apesar das bizarrices da vida de uma mulher solteira que, olha, não são poucas).

Isto posto, voltarei a escrever aqui no blog. Sobre tudo: sexo de um ponto de vista pessoal; sexo do ponto de vista educacional (você sabia que eu também faço pós graduação em educação sexual? faço sim!); feminismo; empoderamento; mimimi; séries de TV; música; tudo!

Então, não atualizarei mais nenhum blog além desse. Eles continuam no ar e talvez eu volte um dia. Por enquanto, tenho outras coisas para preencher meu tempo, inclusive a procura por um emprego. Mas quero terminar o livro que já está escrito na minha cabeça, estudar demais, demais, demais, e beijar umas bocas por aí. Demais, também.

A fanpage daqui do blog será atualizada com conteúdos sobre sexo e sexualidade (e um pouco de feminismo, claro, porque isso perpassa tudo o que faço na vida). A do Feministas em Construção, sobre feminismo, apesar de o blog em si não ser mais atualizado em breve. A ideia é alimentar a fanpage com notícias relacionadas a feminismo, links bacanas de outros lugares e trechos de obras feministas.

No meu twitter pessoal, o @nadialapa, esperem apenas absurdos. Não quero fazer nenhuma militância por lá (mais uma vez: é impossível não falar de feminismo, porque isso perpassa tudo o que faço na vida). Vou deixar essa parte no @femconstrucao.

Os comentários permanecerão fechados. Notei, também, que não tenho mesmo saúde para lidar com eles. Nunca tive; insisti porque faço tonterias de vez em quando. Da mesma forma, estou muito longe de querer me envolver em polêmicas online. Claro que de vez em quando o sangue sobe, a cabeça dói, e é preciso expurgar as coisas ruins. Porém, esses encontros presenciais, a academia (que tanto desprezei no passado) e o contato com professores que metem a mão na massa me fizeram perceber quão inútil é discutir com tumbleristas.

O que eu quero, mesmo, é fazer desse aqui um blog bacana, leve e ao mesmo tempo sério, com informação importante, checada, estudada. Quero participar cada vez mais de eventos presenciais, seja compondo uma mesa, seja assistindo a experiência de outras pessoas. Quero dar voos mais altos ainda na academia. Quero viver mais e mais intensamente, como foi no passado e que por uma doença e depois por um medo (justificável, mas inútil, como a maioria dos medos) eu deixei de viver.

Eu voltei. Não só a esse blog, mas a viver do jeito que eu quero, gosto e sonho.

*todo mundo me pergunta sobre a especialização em gênero e sexualidade. Eu fiz aqui, ó, e ano que vem terá turma nova. Fiquem de olho no edital. 

Farewell, so long

Sábado eu falei algumas coisas no Twitter que deixaram as pessoas encafifadas e surpresas. Não vou repetir tudo aqui. As postagens estão online e é só lá olhar.

Mas eu basicamente disse que nunca ganhei dinheiro com a militância ou com os blogs. Com o livro, ganho cerca de 2 reais a cada exemplar vendido. Jamais recebi cachê para falar em qualquer evento, mesmo que ele tenha patrocínios, como a Casa TPM. Em eventos feministas, claro, nem há que se falar em remuneração; todos são feitos com trabalho voluntário, em locais emprestados, com muitas militantes tirando grana do próprio bolso.

E eu nunca recebi qualquer centavo pelo blog da Carta Capital.

Foi esse o motivo de eu ter deixado o blog. E fiquei calada durante esses meses todos porque achei que devia algum tipo de respeito aos demais blogueiros (também não remunerados) e a algumas pessoas da redação que sempre foram muito doces comigo.

Porém, cheguei também à conclusão neste fim de semana que eu não quero mais participar de nada disso. Continuo feminista e levantarei essa bandeira para sempre. A cada autora nova que descubro, fico ainda mais encantada e querendo aprender sem parar. O que este blog e o feminismo fizeram por mim desde 2011 é impressionante. Sou muito grata a todas as pessoas que me acompanharam nessa jornada.

Acredito, também, que não existe empoderamento sem dinheiro numa sociedade capitalista. Não adianta você querer quebrar com os paradigmas de corpo, beleza, sexualidade, se no fim do mês a Eletropaulo vier cortar sua luz.

Penso ser no mínimo contraditório que ano passado tantas críticas recaíram sobre a Mídia Ninja e o Fora do Eixo por eles não pagarem seus colaboradores, e ser exatamente dessa maneira que alguns grandes grupos de mídia estejam funcionando. Repito: sem pagar quem escrevia algumas vezes por semana, sempre com os textos atingindo milhares de compartilhamentos, fomentando discussões e gerando cliques – isto é, dinheiro.

Fizeram algumas perguntas.

Por que eu aceitei?

Sem ordem de importância:

1) Porque achava que tínhamos de ocupar espaço;

2) Porque havia promessa de voos maiores;

3) Porque havia promessa de remuneração “assim que as coisas melhorassem”.

Vou poupá-los de alguns meandros da negociação, porque não interessa, mesmo.

Por que eu só falei agora?

Porque eu quis.

Porque eu resolvi romper com tudo isso. Inclusive com este blog. Com a internet. Com o jornalismo. Com a tentativa de fazer algo diferente. Enquanto eu estudo, produzo conteúdo, entro em discussões, tem gente vendendo curso sem qualquer embasamento teórico ou vivência. Como eu não tenho a expertise – ou esperteza – dessas pessoas, prefiro simplesmente me retirar.

Não compactuo com grande parte do que está aí e, portanto, vou me distanciar e procurar trabalho em outros lugares (continuo desempregada), outras coisas, porque não quero mais servir de escada pra ninguém e já tá bom de facada nas costas.

Muito obrigada por todo o apoio. Agradeço a todas e todos que compraram meu livro, mesmo com aquela capa equivocada, clichê e sexista. Em breve lançarei um livro novo, baratinho, na Amazon, sem editora, e espero que vocês me apoiem nisso também. E, dependendo pra onde a maré me levar, ano que vem tem obra nova em papel. Mas esse blog aqui (e todos os outros, inclusive tumblrs) entrará em hiato por tempo indeterminado. As fanpages do Cem Homens e do Feministas em Construção continuarão no ar e com atualizações esporádicas.

Um beijo e força.

O maravilhoso discurso de Gabourey Sidibe sobre gordofobia e autoestima

O nome pode parecer estranho pra você, mas com certeza você a conhece. Gabourey Sidibe é a protagonista de Preciosa (Precious), um dos filmes mais tristes do mundo. Ela também participou lindamente de The Big C, série maravilhosa com a Laura Linney.

Mas, convenhamos, seja honesta, você provavelmente lembra dela como “aquela negra gorda, imensa, baleia”. E foi sobre isso, sobre os estereótipos, sobre a maldade humana, que Gabourey falou em seu discurso na festa da Ms. Foundation, onde também se comemorou o aniversário de 80 anos de Gloria Steinem, feminista histórica.

A minha querida amiga e aniversariante do mês Mariana Laudeauser (@mlaudeauser) traduziu o discurso. Aí vai:

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Estou muito feliz de estar aqui. Muito, muito feliz. Bom, vamos lá. Oi. Uma das primeiras coisas que as pessoas geralmente me perguntam é: “Gabourey, como você é tão confiante?”. Odeio isso. Sempre me perguntei se é a primeira coisa que perguntam pra Rihanna quando encontram com ela. “RiRi! Como você é tão confiante?” Não. Não, não. Mas comigo? Todas as vezes me perguntam com aquela mesma incredulidade. “Você parece tão confiante! Como é isso?”

Quando eu tinha 10 anos, na quinta série, minha professora, Srta. Lowe, anunciou que minha turma teria uma festinha de fim de ano, pouco antes do feriado de Natal. Ela pediu que todos trouxessem lanches ou bebidas para a festa da turma. Ela também disse que poderíamos cozinhar algo, se quiséssemos. Eu fiquei tão feliz.

Imediatamente decidi que faria biscoitos de gengibre e todos iriam adorar. Contei para minha mãe e pedi dinheiro para comprar os ingredientes. Ela achava que eu deveria comprar biscoitos prontos na loja, mas eu disse a ela “Esses biscoitos não tem amor suficiente neles!”. Eu tinha que fazer esses biscoitos.

Então comprei a massa e forminhas em forma de árvores de Natal e sinos, e fiz uma fornada para treinar, e deu muito errado. Ainda bem que era pra praticar. Estavam horríveis. E na noite antes da festa, fiz outra fornada de biscoitos. E estavam horríveis também, mas tinham aparência bem melhor. Guardei cuidadosamente em saquinhos plásticos para levar para a escola no dia seguinte.

Quando cheguei na escola naquela manhã, mal podia esperar pela festa. Estava tão orgulhosa daqueles biscoitos e todo o esforço que fiz para prepará-los; comecei a pensar que talvez não fosse ser a primeira mulher negra presidente – talvez também fosse uma chef celebridade! Quer dizer, por que me limitar?

A festa estava marcada para acontecer uma hora antes das aulas terminarem e eu esperei ansiosamente durante o dia todo. Finalmente, era hora da festa. A professora perguntou o que todos trouxeram e eu orgulhosamente anunciei que tinha feito os biscoitos para a turma. Acho que senti mais orgulho ainda sabendo que todos os outros só compraram as coisas. Eu fui a única que fez algo, porque obviamente, eu era um pouco mais esperta do que os outros.

Então, quando a festa começou, andei pela sala, oferecendo biscoitos para todo mundo. Ninguém aceitou. Ninguém. Ninguém exceto Nicholas, que foi o primeiro pra quem eu ofereci. Mas depois que outros colegas endireitaram ele, ele veio atrás de mim e me devolveu o biscoito. Andei por toda a sala oferecendo os biscoitos para os colegas até que voltei para a minha carteira com a mesma quantidade de biscoitos. Sentei sozinha, comendo aqueles biscoitos nojentos que levei horas pra fazer, sem ajuda de ninguém. Coloquei pedacinhos de chocolate neles, por isso estavam nojentos. Não estava surpresa.

Só esqueci por um momento que a turma toda me odiava. Eu tive zero amigos da quarta até a sexta série. Pra quem diabos eu estava fazendo aqueles biscoitos? Eu fiquei tão empolgada para cozinhar que esqueci que todos me odiavam. Por que não gostavam de mim? Eu era gorda, sim. Eu tinha pele escura e cabelo esquisito, sim. Mas a verdade é que, isso não é uma história sobre bullying, ou cor, ou peso. Eles me odiavam porque… Eu era uma babaca.

Sim. Eu era mandona, uma babaca mandona. Veja, lembra quando eu falei que pensava que era mais esperta que todo mundo? Bom, eu pensava mesmo! E falava para eles, todo santo dia! Aquelas crianças não podiam pensar em falar algo sem que eu cortasse lembrando que era mais esperta, engraçada e inteligente do que eles. Sempre fui sarcástica – chamava de defeito de nascença. E vamos ser sinceros, crianças não entendem sarcasmo. Elas não gostam. Elas nunca sabiam do que eu estava falando. E quando eles diziam “Espera… hã?”, eu respondia “Meu Deus, Alicia, vai ler um livro!”. Eu sei.

Meus colegas sempre me perguntavam se eu era adotada por gente branca. Eu dizia. “Não, meus pais fizeram faculdade”. Eu sei que era rude, mas eu ainda tenho muito orgulho disso. Para ser sincera, na minha vizinhança, nem todos os pais tiveram oportunidade de fazer faculdade. A maioria dos pais dos meus colegas os tiveram quando eram adolescentes. Meus pais me tiveram aos 30 anos. Meu pai nasceu no Senegal. O pai dele foi prefeito da capital, Dakar, e meu pai frequentemente levava eu e meu irmão com ele para visitar a África, enquanto a maioria dos meus colegas nunca foi além do Lower East Side.

Minha mãe era professora de ensino médio, por isso estudava lá, mas minha mãe também tinha uma voz linda, então quando eu tinha nove anos ela pediu demissão e foi cantar no metrô. Ela ganhou mais dinheiro cantando por gorjetas do que como professora! E rapidamente ela se tornava a versão underground de Whitney Houston. Ela era a pessoa mais forte, inteligente e talentosa que eu já tinha conhecido. Até hoje, eu quero ser igual a ela mais do que qualquer outra pessoa.

A questão é, eu era esnobe. Eu achava que era melhor que os outros na minha turma e deixava isso bem claro. Por isso eles não gostavam de mim. Eu acho que o motivo pra eu pensar tão bem de mim mesma o tempo todo era por ninguém mais achar. Eu percebi que era inteligente porque minha mãe gritava com meu irmão mais velho, “sua irmã vai te passar na escola. Você vai ficar para trás e ela se vai formar primeiro que você”. Mas ela nunca me disse “você é inteligente”. O que ela me dizia era, “você é muito gorda”.

Eu recebia a mensagem que não era bonita e, provavelmente, não era normal, mas eu era inteligente! Por que não diziam logo isso? “Você é inteligente”. Não é tão difícil assim. Meu pai gritava com meu irmão “Gabourey faz o dever de casa sozinha! Por que você não consegue?”, mas ele nunca me disse “Parabéns”. O que ele dizia era: “Você precisa perder peso para eu sentir orgulho de você”. Eu sei.

Então faziam piada de mim na escola, e em casa também, meu irmão mais velho me odiava, meu pai não me entendia, e minha mãe, que também foi gorda na minha idade, me entendia perfeitamente… mas ela me traía porque ela tinha muito medo do que ela sabia que estava por vir. Então eu nunca me senti segura quando estava em casa. E minha resposta a isso era sempre comer mais, porque nada diz “você me magoou. Foda-se” como comer um biscoito delicioso. Biscoitos nunca me magoaram.

“Gabourey, como você é tão confiante?” Não é fácil. É difícil se arrumar para premiações e tapetes vermelhos quando eu sei que vão fazer piada comigo por causa do meu peso. Há sempre uma grande chance se eu usar roxo, de ser comparada ao Barney. Se usar branco, um peru congelado. E se usar vermelho, pareço uma jarra de suco de morango. O Twitter vai explodir com comentários maldosos sobre como o último terremoto foi causado por mim correndo atrás de um carrinho de cachorro quente ou algo assim. E “Dieta ou Morte?” (ela mostra o dedo do meio). É com isso que eu lido toda vez que coloco um vestido. É com isso que eu lido toda vez que alguém tira uma foto minha. Às vezes, quando sou entrevistada por uma repórter de moda, eu consigo ver nos olhos dela “Como ela consegue ser assim? Por que ela é tão confiante? Como ela lida com aquele corpo? Ai meu deus, vou pegar gordura!”.

O que eu diria é, minha mãe mudou comigo e meu irmão para a casa da minha tia. O nome dela é Dorothy Pitman Hughes, ela é feminista, ativista, e amiga de longa data da Gloria Steinem. Todo dia, eu tinha que levantar e ir para a escola onde todos faziam piada de mim, e tinha que ir pra casa onde todos faziam piada de mim.

Todos os dias era difícil continuar, não importa em que direção eu fosse. E na saída de casa, eu achava força. De manhã, saindo para o mundo, eu passava por um retrato da minha tia e Gloria juntas. Estavam lado a lado, uma com lindo cabelo comprido e a outra com o cabelo afro mais lindo e redondo que já tinha visto, ambas com os punhos para o alto. Poderosas. Confiantes.

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E todos os dias eu saía de casa e levantava o punho para a foto também. E marchava para a batalha (ela começa a chorar). Na época, eu não sabia que estava sendo inspirada. Na volta para casa, subindo as escadas, eu levantava o punho de novo e continuava a marchar para mais batalhas. (ela tira um lenço do decote e limpa os olhos). É para isso que peitos servem! Não sabia que estava sendo inspirada, mas estava. Se elas se sentiam daquele jeito, talvez eu pudesse também! Eu só queria ser legal daquele jeito. Isso me deu forças.

Então, tudo bem, estamos de volta na quinta série, e eu tinha acabado de ser rejeitada por 28 crianças de uma vez só. E estava sentada sozinha na minha carteira, com um saquinho vazio, migalhas no meu colo, e estava nessa festa ótima que tinha esperado a semana inteira. Esperei a semana toda por uma festa que nem tinha sido convidada. E por algum motivo eu levantei, sentei na carteira e festejei até não poder mais. Eu ria alto quando algo engraçado acontecia. E quando a srta. Lowe colocava música, eu era a primeira a levantar e dançar. Eu dancei, comi salgadinhos, bebi refrigerante e me diverti, embora ninguém me quisesse lá.

E sabe por quê? Eu te disse – eu era uma babaca! Eu queria aquela festa! E o que eu quero ganha do que 28 pessoas querem que eu faça, especialmente quando eles querem que vá embora. Eu me diverti muito. De verdade. E se de alguma forma estraguei a festa dos meus colegas, isso é problema deles.

“Como você é tão confiante?” “Eu sou uma babaca!” Certo? É minha diversão, minha vida, apesar do que pensem de mim. Eu vivo minha vida porque eu me atrevo. Eu me atrevo a aparecer quando todos os outros podem esconder a cara e os corpos com vergonha. Eu apareço porque sou babaca e quero me divertir. E minha mãe e meu pai me amam. Eles querem a melhor vida para mim, mas não sabiam com verbalizar. E eu entendo, de verdade. Eles foram melhores pais pra mim do que eles mesmos tiveram.

Sou grata a eles e a minha turma da quinta série, pois se eles não tivessem me feito chorar, eu não estaria chorando agora. (enxuga lágrimas) Se não tivessem me dito que eu era lixo, eu não aprenderia a mostrar para as pessoas que eu sou talentosa. E se todos tivessem sempre rido das minhas piadas, eu não teria aprendido a ser tão engraçada. Se não tivessem me dito que eu era feia, eu nunca teria procurado minha beleza. E se não tivessem tentado me quebrar, eu não saberia que sou inquebrável. Então quando me pergunta como eu sou tão confiante, eu sei o que realmente está me perguntando: como alguém como eu poderia ser confiante? Vai perguntar pra Rihanna, babaca!

Revista Placar tenta humanizar o feminicida Bruno, condenado pelo assassinato de Eliza Samudio

Sou jornalista de formação. Com diploma, mas sem emprego. Também sou feminista autônoma. Mais importante que isso: sou humana e tenho um cérebro com sinapses nervosas funcionando mais ou menos perfeitamente. O suficiente para perceber quão equivocada, misógina e desrespeitosa é a capa da revista Placar de abril.

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Como todo mundo, pensei que fosse uma montagem, uma brincadeira de mau gosto. Primeiro, me certifiquei de que era real. Depois, fui até a banca e adquiri um exemplar. Eu queria saber se a condescendência com um assassino aparecia somente na capa ou se continuaria pelas páginas da revista.

“Me deixem jogar”, diz a chamada. Coitado! Alguém o está impedindo de exercer sua profissão! Não é essa a impressão que dá? Que ele está injustamente encarcerado, quando na verdade o devido processo legal foi respeitado, ele teve direito a todas as defesas, e mesmo assim foi condenado a 22 anos por ter possivelmente esquartejado Eliza Samudio?

Sim, porque ao contrário do que diz a capa, Eliza não morreu. Ela foi brutalmente assassinada. Em nenhum momento, durante toda a entrevista ou reportagem, Bruno é chamado do que ele realmente é: assassino.

Na verdade, o tempo todo a revista tenta humanizá-lo. Começa narrando o dia em que os repórteres chegaram à cadeia, dizendo que Bruno estava pregando o evangelho durante o banho de sol. Continua humanizando-o: conta como ele, “enxada em punho”, foi capinar um terreno. Bruno não está fazendo nenhum favor, não, Placar. A cada três dias trabalhados na cadeia (isso mesmo, na cadeia), a pena dele diminui em um dia. É apenas isso.

A reportagem deixa Bruno falar: reencontrou a fé, frequenta a igreja, tem saudade das filhas. E, aí, o primeiro vômito – assassino Bruno fala do filho que teve com Eliza, Bruninho. “O ex-goleiro quer ser um ídolo para Bruninho. ‘Vou conquistar o amor dele’.”

A revista Placar, outrora publicação indispensável na imprensa brasileira, dá espaço para um assassino condenado dizer que irá conquistar o amor de uma criança que ele não ligava quando estava solto (os problemas com Eliza eram justamente por causa de Bruninho) e cuja mãe ele ESQUARTEJOU.

É triste ver no quê o jornalismo brasileiro se transformou. Seria mesmo necessário fazer uma capa “polêmica” como essa? Nas redes sociais, inclusive no próprio Facebook da revista (isto é, página frequentada por fãs da Placar), a reação foi horrenda. As críticas se multiplicam. Hoje há muita gente que vive de clique de indignação, que acha bacanudo falar absurdos para fazer sucesso. Ainda assim, a reação das pessoas que não acompanham/compram a Placar só aconteceu ontem, dia 24, mais de 20 dias depois da edição chegar às bancas. Quer dizer: a capa com o assassino se fazendo de vítima só mostrou a irrelevância atual da Placar.

Triste, porque cresci com a revista ao meu redor. Lembro até hoje da reportagem sobre o trio Bebeto-Cocada-Sorato no Vasco, novinhos… Agora, a Placar está reduzida, segundo o expediente, a um único repórter e a um editor. Na chefia de redação está Maurício Barros, que também cuida da Runner’s (leia a absurda carta aos leitores no final desse post).

Se o jornalismo esportivo quisesse continuar sendo só de oba-oba, de festa, ainda assim seria reprovável. Há meandros e negociações que merecem investigação. Porém, ver um assassino na capa da revista é tripudiar sobre todas as mulheres que sofrem violência diária por parte dos companheiros. No Brasil, dez mulheres são assassinadas todos os dias, o sétimo maior índice do mundo.

Maurício Barros, chefe de redação da Placar, diz que fizeram bom jornalismo, citando os entraves burocráticos para entrevistar um encarcerado. Ora, qualquer estudante de jornalismo fazendo TCC sabe que precisa preencher papelada e falar com assessorias de imprensa para um trabalho como esse. Barros esqueceu-se que era preciso falar, também, com “o outro lado”: entrevistaram Bruno e os advogados dele, mas não há nenhuma palavra da acusação.

A tentativa da revista foi, de fato, humanizar o assassino. Fala-se da carreira; do trabalho no presídio; dos sonhos; da amizade com o cúmplice Macarrão, também condenado. Na última pergunta, o golpe final para quem tem o mínimo de empatia:

Você não mandou matar a Eliza?

Sou firme no que eu falo. Não mandei matar a Eliza. No inquérito não há nenhuma prova, nenhuma escuta que prove que eu mandei matar a menina. Não tinha por que mandar matar a minha garota. Fui omisso e a corda arrebentou para o meu lado. (grifo meu.)

Tentaram de todo jeito humanizar o assassino Bruno. Que pena que não se pode fazer o mesmo por Eliza, desumanizada quando viva, desumanizada quando morta, e que não teve nem mesmo direito a um enterro digno.

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A nudez de Scarlett Johansson

Scarlett Johansson já provocou pelo menos três grandes polêmicas com o próprio corpo nos últimos anos. Primeiro, apareceu de biquini numa praia e aí descobriram suas celulites. Em 2011, vazaram fotos íntimas da atriz. Agora, a nudez de Scarlett no filme Sob a pele fez a internet enlouquecer.

Os comentários, como sempre, não foram bacanas. Chamaram-na de gorda. Disseram que os seios da atriz são caídos. Outros, no sexismo benevolente de cada dia, acharam que estavam a elogiando ao dizerem “eu comeria”.

Mas, afinal, por que a nudez de Scarlett Johansson provocou tanta celeuma? É inegável existir uma certa curiosidade em saber como são as celebridades sem roupa. Ontem, no entanto, o que vi foi um outro componente quase infantil na indignação das pessoas: elas se sentiram enganadas.

Afinal, Scarlett Johansson cresceu nas telas – e da garotinha de O Encantador de Cavalos, se tornou um “mulherão”. Desfilava no tapete vermelho com decotes e se tornou símbolo sexual. De repente, agora nua, as pessoas perceberam que ela é uma mulher real.

E isso as deixou iradas.

Porque Scarlett poderia, sim, ter se preparado para a nudez frontal no novo filme. Ela tem os meios para fazer cirurgia plástica, contratar personal, fazer todos os tratamentos de estética do mundo. O tempo todo as revistas femininas estão nos ensinando técnicas infalíveis para termos o corpo perfeito para o verão. No carnaval, vemos as madrinhas de bateria contando como ficaram sem comer e/ou malharam mil horas ao dia para estarem em forma no desfile da escola de samba.

Scarlett não fez nada disso. Poderia, mas não fez.

Nas três vezes em que seu corpo foi “descoberto”, Scarlett estava usando-o para fins próprios. Na primeira, estava na praia se curtindo. Na segunda, enviando fotos para um parceiro. Na terceira, trabalhando. Como ela ousa usar o corpo para fins próprios e não para a objetificação alheia?

Pra mim, reside aí a amargura das pessoas ao comentarem o corpo da atriz. Uma celebridade deixou bastante claro que não é uma boneca, não está à disposição, não existe para agradar os olhares dos outros.

Scarlett quebrou um paradigma, rasgou papéis de gênero, desafiou uma indústria. Sem abrir a boca, fez um statement político: o corpo é dela e ponto. Uma mulher teve a coragem de se libertar dessas amarras. Para quem não associa coragem a ser mulher, deve ter sido um susto e tanto.

(e ainda canta…)