Os novos livros vêm aí!

Sabem uma coisa que faço horrivelmente? Procrastino. Muito.

Mas tenho alguns livros na cabeça e PRECISO colocá-los num papel (sim, será em papel, sou velha, desculpem).

E eu queria fazer algo colaborativo, misturando as ideias de vocês com as minhas, trazendo à tona discussões que a gente acha importantes.

Tenho na cabeça TRÊS livros (risos). O primeiro livro não foi assim tão maneiro – inclusive por aquela capa medonha – porque eu era muito desconhecedora do mercado editorial. Errei, né? Agora quero fazer melhor.

Nenhum dos livros programados é sobre teoria feminista, ainda que, claro, o feminismo perpasse tudo o que eu escrevo, vivo, respiro.

Eu gostaria MUITO MESMO que vocês me dessem ideias, fizessem críticas ao primeiro livro (não vou xingar de volta, prometo!), me indicassem profissionais bacanas para diagramação/revisão/impressão, etc.

Eu não pretendo fazer financiamento coletivo, então tudo isso vai sair do meu bolso furado. Eu farei sem editora! Por favor me ajudem; só com indicações, ideias, críticas.

Meu pedido é super de coração e eu quero muito a ajuda de vocês. E que vocês, claro, comprem os livros quando eles saírem. 

(se você tiver vergonha de escrever aqui com seu perfil, pode ir lá no meu ask: ask.fm/nadialapa, onde dá para escrever de forma anônima). Também está rolando uma discussão no Facebook, nesse link: https://www.facebook.com/cemhomens/posts/729236970470710.

Vou deixar os comentários abertos nesse post também, mas eles são moderados, então demoram um pouco a entrarem no ar.

Muito obrigada!

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Gordelícias versus Magrelas

Hoje um moço escreveu num jornal de grande circulação sobre como gordinhas são “um desejo de consumo masculino” (pessoas? seres humanos? tá pensando que é quem, garota?), fez piada sobre quem come alface (revirei os olhos) e ainda chegou à brilhante conclusão de que gordas não leem Freud.

Quantos textos pseudo-elogiosos às gordas vocês já leram? Opinativos, claro, porque os “jornalísticos” são sempre dizendo como estamos à beira da morte. Dá para escrever tratados sobre os assuntos equivocados: a questão midiática, o fenômeno chubby chaser, a necessidade da mulher se ver por meio do olhar do homem…

Mas um ponto pouco mencionado quando esses textos são publicados é que eles nos dividem. É, nós, mulheres. De um lado, as gordelícias; do outro, as magrelas. Se você está ali no meio – é sarada, gostosa, toda a mídia já é pra você, mesmo. Se você é gorda/obesa, se fode aí.

O fato é que esse pensamento “quem gosta de osso é cachorro” e correlatos fazem com que exista uma rivalidade entre as mulheres. Nós somos criadas há milênios, e eu não estou sendo exagerada dessa vez, a nos odiarmos. A enxergarmos a outra como inimigas.

Colocam mulheres em caixinhas, mas nós não cabemos, magras ou gordas, em nenhuma delas. Porque somos múltiplas. E amigas, aliadas, companheiras. Nós todas lidamos com a opressão existente só por sermos mulheres. Fora isso, estamos contando moedas para sobreviver até o fim do mês (hoje já é 29, será que o cartão já fechou?), nos olhamos no espelho e nos sentimos horrendas, checamos o celular de vez em quando para ver se finalmente chegou a resposta do whatsapp.

Somos muito mais parecidas do que dizem por aí. Claro que temos nossas individualidades, mas as pressões sociais (“já casou?”, “não vai ter filho?”, “e os namoradinhos”) incidem sobre nós do mesmo jeito. O peso pode ser diferente; o problema, inescapável.

Eu sou gorda (não gordelícia) e não quero competir com nenhuma magra, magrela, nem com outras gordas. Eu não quero competir com ninguém, ainda mais com mulheres, que podem me entender tão bem. Os laços entre nós são muito frágeis, e textos como o de hoje ajudam a parti-los. Precisamos, na verdade, reforçá-los e, ao nos darmos conta que somos todas mulheres, esses laços se tornarão inquebrantáveis.

A problematização do sexo

Ontem desencavei um texto sobre Cinquenta Tons de Cinza, em razão do lançamento do trailer do filme. Eu o escrevi em 2012; mudei muita coisa no meu pensamento de lá pra cá, e hoje certamente seria ainda mais dura nas minhas críticas.

Na época da postagem, muita gente reclamou. Como não poderia deixar de ser, algumas dessas observações afloraram novamente. Fiquei pensando muito sobre sexo, prazer e consentimento a partir das discussões levantadas (quem eu quero enganar? eu só penso sobre isso!).

Hoje em dia, especialmente com o crescimento do feminismo liberal, não se pode problematizar o sexo. Tudo deve ser liberado, adorado, praticado. Se você apenas para um pouquinho e questiona qualquer aspecto do que está (não) está sendo discutido, um carimbo de SEX NEGATIVE é colocado na sua testa.

Problemático, isso. Eu sou muito a favor que cada um descubra em si mesmo o que gosta, o que pretende fazer, o que realmente lhe dá prazer, e por aí vai. Quem lê meu blog sabe que sou feroz defensora disso.

No entanto, na minha opinião – que é apenas opinião, não tem força de lei – é preciso, sim, problematizar o sexo. É isso que se faz em estudos de sociologia, antropologia, sexualidade. Existem cursos, ensaios, artigos, sessões de psicodrama, compartilhamento de experiências, tudo, tudo, para problematizar o sexo.

Dizer que “se é consensual, tudo vale” é, ao meu ver, simplificar muito as coisas. Serve, em alguns casos, justamente naqueles que são simples. Porém, o ser humano é complexo e, muitas vezes, práticas sexuais não estão livres de um olhar mais minucioso só porque “as pessoas são livres”.

Primeiro de tudo, vamos encarar a realidade, gente. Eu sei que ela é dura: mas não somos livres. O que sabemos sobre sexo já chegou até nós de maneira enviesada. Há influência das leis, da igreja, da família, dos colegas de colégio, dos parceiros, da mídia. Você não está na Lagoa Azul. Ok?

Tendo isso em mente, fica fácil perceber que estas informações mudam conforme o lugar e a época em que você vive. Antigamente – e não faz muito tempo – uma mulher que se casasse após um estupro “livrava” seu agressor, posto que o que se defendia era a honra da mulher, não sua dignidade sexual. O tipo penal de estupro vem mudando legalmente e talvez mude em breve, segundo o novo Projeto de Código Penal (uma das mudanças – aterrorizante, aliás – é a diminuição da idade de vulnerabilidade, que cairia de 14 para 12 anos).

Evidente que muitas dessas “regras”, expressas ou tácitas, são inventadas. E quem está no poder é o patriarcado – e não interessa que nós sejamos felizes; isso inclui atrapalhar nossas vidas sexuais, inclusive transformando algumas ações inofensivas em doença, como aconteceu com a homossexualidade no passado (ainda proibida em diversos lugares do mundo).

Eu não quero falar nesse momento sobre parafilias (situações não tão usuais em que a pessoa sente prazer, como mamar numa lactante, sentir odor de gases ou, um bem mais comum, o voyeurismo). Mas não quero deixar de falar, nunca, sobre a questão de gênero.

Na relação entre um homem e uma mulher, sempre haverá um recorte de classe importante. O homem, socialmente, é superior à mulher. Não adianta o feminismo liberal dizer que basta a mulher se empoderar, sozinha, que este desnível vai acabar. Não, ele não vai. Analisando casos isolados, pode ser sim que um casal esteja no mesmo patamar, mas salvar UMA mulher (geralmente branca, com alto grau de instrução e dinheiro no banco) não significa que todas nós estejamos livres.

Porque não nascemos livres. Nós, mulheres, tendemos a aceitar certos comportamentos sexuais que não nos são agradáveis porque eles são tidos como padrões, padrões esses inventados… por homens. Achamos que estamos consentindo, mas apenas estamos sendo levadas por uma onda.

Problematizar o sexo é isso: entender os mecanismos que se impõem sobre o sexo, e não apenas sobre o coito, mas desde a relação inventada na infância. É conversar a respeito, estudar, e entender que a liberdade vai demorar a vir, mas virá. No entanto, isso somente vai acontecer quando pararmos de fingir que o que vivemos é ser livre. Não o somos. Seremos. Problematizemos, primeiro, para acharmos a solução e, então, sermos o que quisermos ser.

 

O caso “Impedimento” e a impossibilidade do jornalismo independente no…

Hoje ficamos sabendo de uma notícia triste: o site Impedimento, que há uma década cobria de maneira independente o futebol, acabou. Eu não era leitora deles, bem mais pela falta de interesse diário no assunto do que pela qualidade do que ali era publicado, que chegou até a ganhar prêmio.

No entanto, a “falência” do Impedimento desmascara um problema sério na internet brasileira: quem produz conteúdo de qualidade raramente é reconhecido. E eu estou falando de grana, sim, mas não apenas isso.

Primeiro, vamos ao “não apenas isso”, porque grana é a parte mais difícil de lidar. Recentemente tivemos, por exemplo, o festival YouPix, “o maior prêmio da internet brasileira”. Quem vocês veem lá? Entra ano, sai ano, são as mesmas figuras. Algumas delas, aliás, reconhecidas como bullies, que usam da grande influência (*suspiro*) e da enorme quantidade de seguidores para perseguir e escrachar pessoas comuns pelo simples prazer de fazê-lo.

A Campus Party, evento anual que cobra ingressos a R$ 300 dos campuseiros (segundo a organização, foram 8 mil participantes em 2014), conta com o patrocínio de empresas. Estas, por sua vez, enquadram os gastos com o evento em projetos de renúncia fiscal. E, na hora de convidar as pessoas, são incapazes de pagar uma passagem aérea – a não ser, claro, que você seja uma daquelas citadas no parágrafo anterior.

Tudo, no final, gira em torno do dinheiro.

E muita gente acha que ter blog muito lido ou com bastante repercussão dá grana. Não dá, na maior parte dos casos. Conheço quem esteja fazendo trabalho bacana e bem sucedido, mas em geral quem é bem remunerado por ser blogueiro profissional faz um trabalho lixo.

Além de fazerem piadas sobre minorias, com senso de relevância social zero, a técnica usada é postar vídeos catados na internet e postar várias vezes ao dia. Os cliques sobem, o anunciante acha bonito, e pagam o banner. Ou o blog é do amigo do social media, o social media manda presentes pro blogueiro, o blogueiro posta sem avisar que é patrocinado, e assim as coisas seguem.

A lógica dos blogs de moda/maquiagem é diferente. O dinheiro é altíssimo, impensável até, mas porque é consumo, consumo, consumo. Ainda que, muitas e muitas vezes, as blogueiras mal consigam escrever um post em português correto.

E onde ficam, então, os blogs independentes? Os que não querem vender e vender e vender (não só produtos, mas lifestyle – risos – também)? Morrem, como o Impedimento.

Afinal, por mais que esses blogueiros queiram muito continuar com o trabalho bem feito, eles têm contas a pagar. Não se paga a Eletropaulo com tapinhas nas costas. Nem com o livro que a editora manda uma vez na vida – e nunca mais, porque você não o resenhou (ela não ia te pagar pela resenha).

“Ah, mas e o ad sense?”, perguntam alguns. Mesmo na época em que eu escrevia aqui todos os dias e o blog bombava de acessos, eu ganhava centavos por dia. Não valia a pena; enfeiava o blog e no fim do mês não me pagava uma pizza. Se você tem outro emprego e o blog é um hobby, talvez valha a pena, mas se você estuda, apura, escreve, paga o facebook, quer fazer um layout maneiro, não é nada vantajoso.

Como resolver isso? Eu não sei. Não sei mesmo. Sou pouco empreendedora, como meus amigos sabem. Na verdade, acho que sofro de cagaço crônico, mas essa é uma encruzilhada que não sei que caminho tomar, mesmo. Com certeza há gente muito mais esperta pensando em métodos para tornar estes blogs lucrativos.

Há quem ganhe dando palestras, o que eu acho bastante válido quando a pessoa sabe mesmo sobre o que está falando. Eu nunca ganhei um real para participar de nenhum evento. E sei que participei de um deles em que, na mesa em que eu estava, eu era a única a não ganhar um chequinho. Porque eu sou só uma blogueira.

Talvez seja essa a mentalidade a ser mudada. Não são “só blogueiros”. São jornalistas, com ou sem diploma; são especialistas na sua área; são pessoas bem informadas; são escritoras e escritores que têm o dom de fazer você ler um texto até o final. Antes, a gente pagava pelo conteúdo, comprando jornais e revistas. Esse meio está quase morto. Outro nasceu no lugar, mas a verdade é que conteúdo bom não brota do chão. Alguém o produziu – e esse alguém precisa ganhar por isso.

Começando do começo

Oi! :)

Eu sei, eu sei que estou sumida. Do Twitter (@nadialapa), nunca, mas aqui sei que ficou abandonadinho. Nem tem razão nenhuma; só estava vivendo outras coisas.

E, agora, nesta volta, eu quero muito, mas muito mesmo, falar sobre sexo. Como alguns de vocês sabem, eu faço pós graduação em educação sexual e tenho estudado e pensando muito acerca dos mitos e do desconhecimento geral acerca do sexo. Só ensinam tabus pra gente. Poucos são os sortudos que têm uma família bacana, que fala abertamente sobre o assunto, ou tiveram aula de educação sexual na escola. Eu, por exemplo, nunca tive.

Grande parte dos e-mails que recebo são com questões básicas, então decidi “começar do começo”. Vamos falar sobre sexo? Sobre corpos, sobre genitais, sobre prazer? Sem medos, tabus ou mentiras? Vamos nessa?

Neste post específico, deixarei os comentários abertos e também há um questionário no fim do texto. Eu quero saber sobre o que vocês têm mais dúvida, quais assuntos interessam mais, a experiência de vocês. Como sempre, aceito colaborações!

Vamos começar falando de orgasmo?

“O estudo de Kinsey de 1953 mostrou que apenas 70 e 77% das mulheres já haviam tido orgasmo, ou com masturbação ou com penetração. A satisfação sexual feminina não andou no mesmo ritmo que o ostensivo progresso da “revolução sexual”: o relatório Shere Hite de 1976 traz estatísticas de que somente 30% das mulheres têm orgasmos regularmente com penetração, sem estímulo clitoriano, outras 19% com tal estímulo, e 29% não gozam com penetração. Percentagem das que não se masturbam nunca: 15%, e 11,6% não têm orgasmos nunca, de jeito nenhum.

A pesquisa de Helen Kaplan em 1974 mostrou que de 8 a 10% das mulheres nunca têm orgasmo, e que 45% só gozam com penetração se tiverem estimulação clitoriana. Já no estudo de 1973 de Seymour Fischer, somente 30% das mulheres chegam ao orgasmo com penetração.

Os anos 1980 mostraram uma pequena mudança. Em 1980, Wendy Faulkner descobriu que só 40% das britânicas com 40 anos de idade já haviam se masturbado; por outro lado, na mesma idade, 90% dos homens já o tinham feito. Em um estudo de 1981, somente 47% das dinamarquesas haviam se masturbado até gozarem. No Reino Unido, um estudo de 1989 com 10 mil mulheres descobriu que 36% “raramente” ou “nunca” gozam com penetração, e que “a  maioria fingiu gozar para agradar os parceiros”. ¹

E você? Já gozou? Como você goza? Quão importante é o orgasmo numa relação sexual? Os parceiros com os quais você se relaciona se importam com isso? São essas perguntas que eu quero te fazer nesse questionário abaixo. Os comentários estão abertos para quaisquer dúvidas ou debates. E os números acima são apenas para te mostrar que, qualquer que seja a situação da sua vida sexual, há muito mais mulheres parecidas com você do que você imagina.

 ¹ Trecho de “O mito da beleza”, de Naomi Wolf, em tradução livre.

 

Soft and only

Eu tento escrever esse texto há um ano. Exatamente um ano. É curioso – sempre consegui relatar qualquer coisa, boa ou ruim, que tenha acontecido na minha vida. Falo sobre a Ana há quase onze anos, anotei algumas palavras sobre a minha avó ainda no avião, mas sobre você, não. Penso sobre o motivo: nada do que eu falar, escrever ou gritar vai dar a dimensão exata de quem você era e do que você significou (e ainda significa) na minha vida. Tudo seria pouco, pedestre, pequeno. Você é gigante.

Os poetas bons e péssimos (“você gosta de poesia?”, na frente do CCBB, pertinho de onde a gente trabalhou) já tentaram expressar o amor. Eles caíram na esparrela de descrever o amor romântico, e esqueceram como amar, de verdade, é muito maior do que isso. E eu conheci o amor, aquele que não pede nada em troca, aquele que torce junto, aquele que cuida, quando te encontrei a primeira vez.

Primeira vez, mesmo, nos corredores do 11º andar da Rua da Candelária, quando o que poderia ser só mais um coleguismo de trabalho se transformou na maior amizade que eu já vivi.

Ninguém entendeu a conexão magnética e inquebrantável entre nós duas. “Vocês são insuportáveis juntas”, ouvimos muitas vezes. Eu começava a piada sem graça, você terminava. E ríamos juntas. Gargalhávamos. Dobrávamos as barrigas e perdíamos a respiração com a companhia uma da outra. Há alguns dias tento lembrar da nossa primeira vez no Outback, em que fizemos exatamente isso. O sorvete derretendo, o garçom nos achando loucas, e eu não tenho a menor ideia do motivo que nos fez rir tanto. Pra quem eu vou perguntar, agora?

Com quem eu vou falar “cadê a bolsa?” e a pessoa entender imediatamente? E rir, rir, rir. Rir. Porque você era pura alegria, mesmo quando o assunto não era assim tão feliz. Eu, de coração partido, procurei abrigo junto de você. Enchi o saco para você tirar umas cartas de tarô pra mim. Você pegou a caixinha, abriu todos os jogos, e em todos vinha a mesma resposta. “Ihhhhhhhhhhhhh, Nádia, por que você insiste nesse cara?”, você falava, me sacaneando. E eu jurando de pés juntos que sua mão estava ruim, que o meu amor era real e tudo ficaria bem. Tudo ficou bem, o amor era real, mas a sua mão estava certíssima. Como sempre esteve.

Fez piada até da última vez em que nos vimos. Eu sabia que era a última. Eu só não sabia como agir, e espero que você me perdoe por não ter dado algum sinal da dor que me consumia por dentro. Mesmo naquela situação, você não perdeu a chance de me zoar. Adorou a entrevista na Marília Gabriela, não perdeu, ficou acordada até tarde (“e você sabe como eu durmo cedo”), mas foi direto ao ponto: “Que cabelinho era aquele, hein? Parecia uma velhinha!”. E eu, sem graça, nem consegui responder qualquer coisa que fizesse sentido, porque eu, ao contrário de você, não consigo manter o bom humor ao ver a melhor pessoa da minha vida ir embora.

Porque você foi – e é – isso: a melhor pessoa da minha vida. Fui muito amada, sempre; tive e tenho amigos extraordinários; mas você, ah, você, nada se compara. Você esteve ao meu lado quando fingimos ser um casal homoafetivo para pegar uma promoção de celular; você dividiu jantares divertidos em várias cidades comigo; você cuidou da minha irmã quando ela já nem existia mais. E fizemos piada com isso, uma piada de mau gosto horrível, mas que continuávamos contando anos mais tarde – e rindo muito, claro.

Eu jamais conheci uma pessoa que espalhava o amor por aí sem querer nada em troca, só porque o amor é bom, mesmo. E contigo eu aprendi que esse é o certo, ainda que até hoje eu não consiga colocar em prática da mesma forma que você. Eu ainda tinha tanto a aprender! Mas a sorte de tê-la por onze anos na minha vida vale por toda essa sensação de que irão arrancar meu coração de dentro do peito, ou que estão o pisoteando, ou que esse nó na garganta é tipo de marinheiro e eu nunca mais vou conseguir desatar.

Sinto coisas parecidas quando subo pra Santa, ou passo na frente da casa da Renata. Outro dia, passando mal num sábado de manhã chuvoso, procurei por uma farmácia na Rua das Laranjeiras e, na volta pra “casa”, passei na esquina onde você costumava me esperar. Exatamente no local em que você entrou em outro carro achando que era o meu – e, quando me contou, gargalhamos mais um monte!

Eu não consigo imaginar esse mundo sem você. Às vezes esqueço que você já se foi. Penso nas coisas que eu sei que você quase teve de abrir mão por minha causa. Imagino se você está em paz, de acordo com a sua crença. Penso em você todos os dias, mas nunca tinha conseguido escrever até hoje. Continua não estando aos pés da pessoa que você foi. Eu teria de virar uma Clarice, talvez.

Por enquanto, é o máximo que consigo fazer. Você foi a coisa mais preciosa da minha existência, e eu tenho um orgulho gigantesco de ter sido a sua amiga. Se almas gêmeas realmente existem, você foi a minha, e há um ano parece faltar um pedaço de mim. You’re not just like heaven. You’re heaven itself. Te amo pra sempre.

frá2

Vivendo alucinadamente (na verdade, não)

Algum tempo atrás eu escrevi uma retrospectiva aqui no blog. Lembro como alguns comentários diziam “você vive mais em um ano do que as pessoas vivem numa vida inteira”. Achei curioso; eu não tinha feito uma volta ao mundo, não tinha casado, nem tido filho. Nada dessas coisas, esses marcos grandiosos da nossa história.

Eu tinha me limitado ao básico: estágio-faculdade-vida doméstica. Ainda assim, pra alguns, eu havia vivido pra caramba. Talvez seja o jeito de eu escrever sobre o que me aconteceu. Será? Ou será o jeito que decidi viver?

Como vocês devem ter notado, eu sumi daqui por vários dias. Viajei e não tinha acesso à internet. E fui lá, viver. Não estava conhecendo uma vila perdida no mundo em que poucas pessoas têm acesso. Fui pra Manaus, mesmo, cidade que conheço de trás pra frente.

E, enquanto estive lá, trabalhei num bar. Isso não é exatamente novidade pra mim; eu já trabalhei em restaurante antes. É um caos: você não para um minuto e sempre está faltando alguma coisa. Do tipo não sair som do telão dois minutos antes do hino nacional naquele sofriiiiiiiiiiido Brasil x Chile, até lavar parede de banheiro e depois se estabacar no chão porque estava toda molhada. No fim do dia, pés inchados e com bolhas, lombar gritando de dor.

Tudo normal, cotidiano e sem graça, se você analisar bem. O que há de glamour em decorar em qual freezer está a Itaipava e em qual está a Brahma? Não há, se você não deixar.

Mas eu aprendi a ver a vida com outro olhar completamente diferente. Como vocês sabem, Manaus foi uma das cidades-sede da Copa do Mundo. E, por isso, havia muitos estrangeiros por lá. A maioria se concentrou no centro da cidade, no Largo de São Sebastião, onde não consegui ir por cansaço crônico.

O bar em que trabalhei fica numa área com menos atrativos turísticos, mas com um hotel bem em frente, então de vez em quando pingava um ou outro estrangeiro. E eu era a encarregada de atendê-los, porque os garçons não falam inglês.

Com alguns, meu papo foi direto e reto. Expliquei o cardápio, peguei os pedidos, apontei onde era o banheiro. A maioria, porém, queria mais. Eles estavam extremamente felizes de estarem ali. Queriam saber qual comida era típica. Acharam engraçado quando eu disse que no Brasil as pessoas não bebem na garrafa de 600 ml de cerveja direto no gargalo (“ok, vamos ser civilizados, então, nos traga copos”, me disse um).

Uma polonesa, cujo nome não consegui entender de jeito nenhum – apesar de ela ter repetido quatro ou cinco vezes -, fez questão de me procurar depois de pagar a conta, gritar “Nádia” e me dar um abraço. Depois, voltou para perguntar como se pronunciava “pastel”, que ela havia comido e adorado.

Vi croata trocando de camisa com brasileiro, canadense-meio-americano com uma blusa “Brasil rumo ao hexa”, americanos e brasileiros berrando “USA, USA” juntos. Foi divertido e enriquecedor.

Esse não é um texto para tecer elogios à Copa. Eu faço isso o tempo todo no Twitter. E tenho minhas críticas, claro, muitas, como a repressão policial que continua acontecendo ou as obras superfaturadas, mal feitas e inacabadas (vejam a grande tragédia de ontem em Belo Horizonte, ou os tapumes no aeroporto de Manaus).

Meu ponto aqui é que eu não preciso invejar as fotos das pessoas nas redes sociais em lugares distantes e exóticos. Claro que eu gostaria de viajar mais, de conhecer mais gente, de participar de eventos incríveis. Como eu não posso nesse momento (não tenho dinheiro nem pra descer pro Guarujá), o que me resta é viver a minha vida, do jeito que ela se apresenta, da melhor forma possível.

E, depois de tudo o que passei, eu reaprendi a fazer isso. Eu não poderia estar mais feliz.

A difícil gentileza com outras mulheres

Nesse último fim de semana eu fiz um curso sobre o qual falarei com detalhes aqui no blog – e que renderá mais incontáveis novas ideias. Foi sobre tantra. Falamos sobre sexo, pompoarismo, massagens. Vimos pinto, vimos buceta. E o mais importante, pra mim, foi outra coisa muito mais particular e subjetiva: o que vai dentro, lá dentro, das mulheres. O que é invisível.

Éramos um grupo somente de mulheres. No domingo, fizemos uma dinâmica em que fomos separadas em pequenos grupos com quatro pessoas. Sem ordem definida (o “querer” era o que nos movia), uma das mulheres entrava no semicírculo formado pelas outras três e começava a falar de si mesma. Era apenas sobre a parte estética, e enquanto falávamos, tínhamos que mostrar a parte do corpo sobre a qual estávamos, em geral, reclamando.

Enquanto meias, camisetas e sutiãs eram tirados, cada uma de nós trazia os medos, inseguranças e vergonhas à tona. Relatávamos, ainda que rapidamente, os traumas por termos sido zoadas na infância ou adolescência porque temos alguma parte do corpo fora do padrão: uma bunda pequena, um nariz muito grande, um cabelo “ruim”.

Durante a fala da companheira, nós não podíamos dizer nada, apenas escutar. Dava vontade; ouvir mulheres lindíssimas (dentro ou fora dos padrões, não importa; ainda assim, lindíssimas) reclamando dos próprios corpos, mencionando a vontade de se submeterem a cirurgias plásticas, relatando o medo de não encontrar um parceiro porque o corpo é “errado” e não contestar, dizendo quão maravilhosa ela na verdade é, foi difícil. Era o momento de ouvir e, por mais brega que isso seja, ouvir com o coração, mesmo, deixar as palavras entrarem pelos ouvidos e irem esquentando o corpo inteiro, até chegar ao coração.

Era impossível ouvir o que as mulheres dos outros grupos diziam. Falávamos mais ou menos baixo, e a ideia era dar toda a atenção àquela que estivesse na nossa frente, se expondo. Tirar a roupa era o de menos. Naquele momento, as mulheres estavam se despindo de coisas muito mais importantes, se colocando em uma posição super vulnerável. Ainda assim, comecei a perceber choros e soluços vindo dos outros cantos da sala. E da mulher à minha frente, também.

Eu tenho muita facilidade de falar sobre mim mesma. Faço isso há anos em blogs. Toda semana vou pra análise. Conto absurdos na mesa do boteco. Mas para algumas daquelas mulheres foi o momento de se libertar de amarras sociais apertadíssimas. Às vezes não se tem apoio familiar. O parceiro ouve pouco, não quer saber de “frescura de mulher”. Os amigos só aparecem quando você está pra cima.

Na dinâmica, era o momento de falar, falar, e ser efetivamente ouvida, sentida, compreendida. Ao final, a mulher que acabou de falar deveria fechar os olhos e as outras três deviam encostar nas partes do corpo dela que ela houvesse mencionado como as mais frágeis. A ideia é que passássemos energia e conforto por meio do toque (acredite em energia ou não, tocar alguém sem nenhuma intenção sexual é muito poderoso). Muitas mulheres desabavam justamente quando se sentiram cuidadas pelas outras. Nós não nos conhecíamos; era uma troca altruísta e humana de carinho e apoio.

Houve muito choro, muitos abraços e pouquíssimas palavras de encorajamento. Ouvia-se apenas soluços e respirações profundas. O momento era para silêncio.

Apesar de eu não ter chorado – e muita gente confundir isso comigo sendo “durona” – a minha mente estava dando um nó que estou carinhosamente tentando desatar. Ao ver aquelas mulheres desconhecidas se abrindo na minha frente, pensei em todas as mulheres da minha vida que eu não escuto. Mãe, amigas, minha irmã que já partiu. Com certeza elas têm/tinham muito mais a falar do que eu me dispus a escutar. Falamos sobre seriados, filmes, músicas, problemas cotidianos, mas temos imensa dificuldade em ir mais fundo. É fácil, também, dizer “deixa disso”, “imagina, sua barriga é linda”, ou coisas do tipo. A tentativa é de encorajar, mas isso acaba por menosprezar o sentimento que aquela pessoa tem consigo mesma e com o próprio corpo.

Quando saí de lá, pensei em quantas vezes achei charmoso/fofo/atraente um “defeitinho” de algum moço, mas não tive a mesma gentileza com uma mulher. Fui implacável com algumas delas, ainda que não tenha dito isso diretamente. Mas pensei, sim, especialmente na adolescência.

Eu estendi essa falta de gentileza a mim mesma. Fiz piada e falei mal de diversas partes do meu corpo ou de nuances da minha personalidade, sendo muito feroz comigo mesma. Nos últimos anos estou bem melhor com tudo. Foda-se se o meu olho é muito pequeno ou se a raiz do meu cabelo está aparecendo. Não fiz as pazes com a minha bunda ou com a minha barriga pós-menopausa, mas não ligo pras estrias, por exemplo, e aceito com tranquilidade as marcas de expressão que estão começando a surgir.

Mas isso é de cada uma de nós. Cada uma é influenciada por essa sociedade de merda de um jeito diferente. Temos bagagens diversas. Não dá para dizer que essa ou aquela reclamação é frescura; nosso papel deveria ser de apoiar e, caso possível, ajudar a pessoa a procurar saídas terapêuticas para resolver tais questões.

Pensei em quão pouco gentil eu fui, e em como eu posso mudar isso. Não vai ser fácil, mesmo, mas é necessário se eu quiser mudar alguma coisa na vida das pessoas. Também não é a solução definitiva: o mercado de cosméticos, cirurgias plásticas e afins está aí, fortíssimo, fazendo de tudo para que a gente se sinta uma merda e consuma mais e mais. Temos que atacar o sistema, sim (alô, feminismo!), mas não vai fazer mal se, no meio da revolução, pararmos para olhar melhor para as mulheres que estão ao nosso redor.

E ser mais gentil com elas. E conosco.

(sim, falarei mais sobre o curso, darei as informações de serviço, farei críticas e etc etc etc.)

Vinte anos para aprender a dizer “não”

Vai ter Copa, sim, vai ter muita Copa. Assim como teve muita Copa em 1994 (é teeeeeeetra!), quando eu estava começando a minha vida sexual. Sim, lá se vão vinte anos. Eu era “virgem” à época, mas como considero sexo algo muito maior que apenas penetração, posso dizer que eu estava começando as interações sexuais com fins libidinosos com um moço.

Já naquela época eu me achava muito dona do meu corpo. Só transei quando eu quis, por exemplo, e não cedi a qualquer pressão do parceiro, da sociedade, dos amigos. Eu estava no comando dos meus desejos. Ou, pelo menos, assim eu achava.

Nessas duas décadas o Brasil virou penta, tomou uma sova da França e eu transei pra caramba. Tive muitos parceiros e, claro, nem todos foram bacanas – na cama ou fora dela. Eu não tenho culpa por alguns serem completos imbecis; eles não vêm com letreiro na testa. Mas, já que estamos numa vibe Copa do Mundo nesse texto, da África do Sul para cá a minha percepção sobre o que é sexo e consentimento se transformou muito. Afinal, não dá para deixar o feminismo entrar na sua vida, estudar cultura do estupro, e olhar pro passado achando que tudo foi um mar de rosas.

Eu percebi muito recentemente que me forcei na cama em inúmeras ocasiões. Não fui forçada pelos parceiros do ponto de vista “clássico” da violência. Nenhum me bateu, me amarrou ou me ameaçou. Todos estavam fazendo o que achavam que era normal; e eu aceitei por achar a mesma coisa: eu estava ali para dar prazer pra eles, não para mim.

E isso é grave.

Demasiadamente grave.

Porque por mais que o orgasmo não seja a coisa mais legal do sexo, tampouco a mais importante, é imprescindível que as pessoas envolvidas estejam de fato cuidando umas das outras. Parece viajante demais e você precisa de exemplos mais objetivos? Vamos lá:

- eu tenho alergia ao látex e durante aaaaaanos a indústria só fabricou/vendeu no Brasil camisinhas super grossas e desconfortáveis. Como faço sexo seguro, era o jeito. Porém, com aquela penetração incessante (o tal “pau britadeira”), era certo que eu ficaria assada. Ainda assim, eu continuava. Ardia, mas eu continuava. No outro dia, urinar era um suplício! Mas eu tinha que continuar! Tinha que. Tinha que.

- às vezes dá para perceber no início da interação que a parada vai ser uma droga. A química não acontece, o cara faz algum comentário tosco, ou o gato comeu a língua dele. Pior: mal começou e ele já saca a camisinha e sai penetrando. E eu lá, aceitando, mesmo achando as preliminares a coisa mais gostosa do mundo.

- uma vez especificamente, lá pela Copa da Coreia do Sul e do Japão, eu conheci um rapaz, ficamos, foi ruim, e ele insistiu em transar. Ele insistiu tanto que eu pensei “ai, vou logo dar pra esse cara para ele parar de torrar a paciência e também para não ferir os sentimentos dele”. Transei. Semanas depois, descobri que ele contou para todo mundo do grupo de amigos, e ainda inventou coisas. Ah, o sexo foi horrível.

Eu poderia continuar dando exemplos e mais exemplos. Mas eu quero mesmo é falar sobre superação, ainda que tenha demorado 20 anos. Não acho que deva demorar tanto para todo mundo; gostaria que todas as mulheres já começassem suas vidas sexuais tendo completa noção do que é consentimento de verdade. Eu não tinha, por isso me meti nessas furadas. De novo, eu não teria me dado conta disso tudo sem o feminismo e sem o compartilhamento de histórias com amigas e leitoras.

Como eu percebi que mudei? Na prática. Mencionei ontem que a Letícia está alive and kicking, e os homens continuam vindo sem letreiro na testa… Então, posso até desviar de uma ou outra furada, mas escapar de todas? Não acho que seja possível.

Vou me manter nos três exemplos, porque este post já está longuíssimo. Conheci um cara bacana, inteligente, e sexualmente atraente. Eu quis muito ir para a cama com ele. O problema é que na cama, bem, ele só lembrou que eu tenho buceta na hora de enfiar o pinto dentro dela. Ele SEQUER TOCOU em mim. Fica batendo aquela esperança que em algum momento ele vai perceber que – oi – um dedinho e uma linguinha vão bem, obrigada, mas nada. Nada. Não havia o que eu pudesse fazer além de me vestir e ir embora. Antes, porém, falei que o sexo foi ruim, que ele era egoísta, e que bucetas não são buracos. Que há uma pessoa acoplada nelas. (e, sobre essa noite, vou escrever outro post só sobre a resposta que ele me deu.)

E aí tiveram mais dois. Como mencionei, tenho alergia à camisinha. Por isso, eu sempre carrego comigo a marca que não me deixa ardida. Quando peguei o preservativo, o moço respondeu que não ia usar, pois ele preferia uma mais larguinha que ele havia trazido. “As outras apertam”, ele disse. Olhei bem pro pinto dele… e, bom, não, amigo, baixa a bola, vai. Em outros tempos, eu ficaria desconfortável (porque usaria a camisinha de látex que ele prefere) em nome do prazer dele. Dessa vez, disse não. Havia mais um montão de coisas que podíamos fazer sem ser penetração, mas ele ficou batendo na tecla de que só usaria a própria camisinha. Um beijo, então, gato, nos vemos nunca mais.

Por último, durmo com um moço. Antes disso, abortamos a “operação sexo” porque ele estava muito cansado. Entendo super. Pensei “opa, teremos sexo matinal, o melhor de todos”. Que ingênua. No outro dia, ele continuava muito cansado. O pau, claro, ficou duro com sexo oral. Eu quis partir para a penetração, ele, com preguiça, queria que eu ficasse lá fazendo cosplay de bomba de sucção. Ia durar pra sempre, conheço o tipo. Falei “temos um impasse”, coloquei minhas roupas, voltei pra casa, tomei um banho e saí com meus amigos para almoçar. Foi muito mais prazeroso do que continuar lá fazendo as vontades do reizinho. Aliás, comemos a sobremesa num restaurante ótimo, o Santa Filomena, na Tijuca, sobre o qual também farei um post exclusivo, de tão legal que achei (não é jabá).

Contando assim, friamente, pode parecer que fui grossa e um pouco dura demais com os moços. Hum, não. Eu só finalmente percebi – e coloquei em prática – que o consentimento deve estar em qualquer ação sexual. Em tudo. Não só na hora que você decide transar com alguém, mas também no durante e no depois. Qualquer coisa fora disso é agressão. Nem sempre os caras percebem que eles estão fazendo algo contra a nossa vontade, porque o mundo os ensinou que eles têm direito aos nossos corpos. Em contrapartida, também fui ensinada que devo estar disponível. Sendo gorda, então, devo ainda dar graças à deusa por ter alguém que me queira, mesmo que o sexo seja ruim e não me traga qualquer prazer.

Foram 20 anos. Cinco Copas do Mundo. Mas eu aprendi.

(vai ter Copa, sim. Soy Celeste!)

uruguai

 

She is back

Voltei.

Dava para terminar o post só com a palavra acima. Volteiiiiiiiii, e agora é pra ficar. Bom, na verdade não tenho certeza disso.

Nesses 20 dias fora, minha vida deu algumas reviravoltas. Nada muito substancial, mas o suficiente para mudar minha cabeça em relação a um montão de coisas. Nesse período, eu me formei na especialização em gênero e sexualidade da UERJ*; falei sobre sexualidade da mulher na mídia na minha antiga faculdade, a Cásper Líbero; sobre a representação da mulher na mídia em Manaus, minha terra natal, a convite da Secretaria Executiva de Políticas para as Mulheres; e sobre cultura do estupro na UERJ.

Tais encontros, com gente tão diferente, me fizeram pensar muito a respeito da militância, dos meus estudos, da minha participação social. Por mais louca que seja a mudança pela qual passei de 2011 para cá, eu a abracei forte e o feedback que as pessoas me dão nesses eventos é sempre muito positivo, empoderador e surpreendente.

Eu realmente não posso negar que maio foi um mês intenso. Além de obrigações assumidas por puro prazer, revi gente amada, conheci pessoas novas e recebi uma visita há muito aguardada: Letícia voltou.

E quando ela aparece é feito avalanche. Não há como ficar imune; ela impregna tudo o que faço, penso, desejo. Principalmente desejo.

Isso não quer dizer que voltarei a escrever aquelas narrativas do início do blog. Significa que estou mais feliz, mais aberta, mais plena. Deixo que digo, que pensem, que falem, mas eu sou melhor comigo mesma quando minha vida sexual está correndo bem (apesar das bizarrices da vida de uma mulher solteira que, olha, não são poucas).

Isto posto, voltarei a escrever aqui no blog. Sobre tudo: sexo de um ponto de vista pessoal; sexo do ponto de vista educacional (você sabia que eu também faço pós graduação em educação sexual? faço sim!); feminismo; empoderamento; mimimi; séries de TV; música; tudo!

Então, não atualizarei mais nenhum blog além desse. Eles continuam no ar e talvez eu volte um dia. Por enquanto, tenho outras coisas para preencher meu tempo, inclusive a procura por um emprego. Mas quero terminar o livro que já está escrito na minha cabeça, estudar demais, demais, demais, e beijar umas bocas por aí. Demais, também.

A fanpage daqui do blog será atualizada com conteúdos sobre sexo e sexualidade (e um pouco de feminismo, claro, porque isso perpassa tudo o que faço na vida). A do Feministas em Construção, sobre feminismo, apesar de o blog em si não ser mais atualizado em breve. A ideia é alimentar a fanpage com notícias relacionadas a feminismo, links bacanas de outros lugares e trechos de obras feministas.

No meu twitter pessoal, o @nadialapa, esperem apenas absurdos. Não quero fazer nenhuma militância por lá (mais uma vez: é impossível não falar de feminismo, porque isso perpassa tudo o que faço na vida). Vou deixar essa parte no @femconstrucao.

Os comentários permanecerão fechados. Notei, também, que não tenho mesmo saúde para lidar com eles. Nunca tive; insisti porque faço tonterias de vez em quando. Da mesma forma, estou muito longe de querer me envolver em polêmicas online. Claro que de vez em quando o sangue sobe, a cabeça dói, e é preciso expurgar as coisas ruins. Porém, esses encontros presenciais, a academia (que tanto desprezei no passado) e o contato com professores que metem a mão na massa me fizeram perceber quão inútil é discutir com tumbleristas.

O que eu quero, mesmo, é fazer desse aqui um blog bacana, leve e ao mesmo tempo sério, com informação importante, checada, estudada. Quero participar cada vez mais de eventos presenciais, seja compondo uma mesa, seja assistindo a experiência de outras pessoas. Quero dar voos mais altos ainda na academia. Quero viver mais e mais intensamente, como foi no passado e que por uma doença e depois por um medo (justificável, mas inútil, como a maioria dos medos) eu deixei de viver.

Eu voltei. Não só a esse blog, mas a viver do jeito que eu quero, gosto e sonho.

*todo mundo me pergunta sobre a especialização em gênero e sexualidade. Eu fiz aqui, ó, e ano que vem terá turma nova. Fiquem de olho no edital.