No meu, não

Se você é uma mulher hétero e ainda não aconteceu com você, esteja certa de que irá acontecer: você terá um parceiro que vai querer fazer carícias anais. Falando na linguagem popular – ele vai “querer comer seu cuzinho”.

As pessoas e situações são diferentes; acho que nem preciso repetir isso. Há quem vá adorar, até mesmo pedir por isso. Outras, vão gostar de vez em quando. Algumas irão experimentar e desistir no meio. Infelizmente, muitos homens são brutos e não têm a mais vaga ideia do que estão fazendo, porque acham que são atores pornôs, tornando o sexo anal extremamente desconfortável. E por aí vai.

Só que, mesmo que você curta a prática sempre ou de vez em quando, a insistência irrita. Você diz não, o cara diz “ah, só um pouquinho”, “eu coloco um gelzinho”, “só a cabecinha”. Incrível o uso de diminutivos! E, não se engane, essa insistência também faz parte da cultura do estupro…

passagem proibida

Mas, voltando: você não quer, está sem paciência, e manda um “só se eu puder fazer em você, também”.

OPA!

“No meu, não”, a maioria responde.

“Por que não?”

“Porque não!”

Alguns vão acompanhar o “porque não” com frases tipo “na minha bunda ninguém mexe” ou “tá pensando que eu sou viado?”.

Isso mesmo, senhoras e senhores: a resistência dos homens a qualquer carícia anal é homofobia pura (observação: alguns realmente já fizeram e não gostaram. assim como mulheres). Eles têm medo de serem confundidos com gays, e isso é muito triste. Triste por uma série de razões. A menos importante é que eles estão perdendo a oportunidade de, talvez, sentirem bastante prazer. Ao não quererem ser comparados com homossexuais, eles assumem que acham gays inferiores. Eles são melhores! Não dão o cu! (e olhe que nem estou falando de cinta, dildo. basta mencionar um beijo grego* ou um fio terra**)

Se eles acham tão degradante serem penetrados, por qual razão acham ok penetrar uma mulher? É o que eu já falei aqui algumas vezes: sexo precisa ser problematizado. Sem moralismo, mas levado a sério. Por que é socialmente aceitável que uma mulher seja penetrada, mas o homem não? Por que alguns homens nem sentem tanto prazer assim na prática, porém insistem nela, já que os dá uma sensação de poder e dominação sobre a mulher? Por que às vezes é mais confortável para a mulher que tal penetração ocorra de lado, só que ele insiste para que seja de quatro?

Muitas mulheres também pensam como esses homens. Morrem de medo de fazer alguma carícia anal no parceiro e pá! de repente ele se descobrir gay. Homossexuais são pessoas que se atraem por pessoas do mesmo gênero, apenas isso. Se tudo o que ele faz, e sente prazer, é com você (ou com outras mulheres, antes de você), ele não é gay. Talvez esse seja um dos motivos pelos quais os caras nem pedem para serem acariciados por trás: o medo do julgamento pela própria parceira.

Pois eu os aconselho a deixar os preconceitos no passado. O fato de você ter amigos gays, não sair batendo com lâmpada no rosto dos outros na Paulista, nada disso mostra que você não tenha uma homofobia internalizada aí.

Ninguém é pior ou melhor porque é ou não penetrado. Há homens (assim como mulheres) que curtem muito. Alguns têm orgasmos fortíssimos se, durante o sexo oral, a parceira fizer um fio terra. Outros morrem de vontade – e de medo – de pedir para serem penetrados com uma cinta.

E você? Qual sua experiência com isso tudo? Já tomou um chutão na cara ao tentar ir mais lá pra trás? Acha que um cara que pede carícia anal é gay? Me conta nos comentários.

* beijo grego é o sexo oral no ânus.

** fio terra é a introdução do dedo no ânus.

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As feministas malucas de internet e os homens (sempre sãos)

Quarta-feira eu participei de uma palestra/debate/conversa na Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (SP). Falei sobre feminismo, respondi perguntas, fiz oversharing sobre coisas da minha vida. O usual. (inclusive, me chama aí pra sua faculdade, também, eu adoro.)

No final, já do lado de fora da faculdade, um aluno veio me questionar sobre “o papel dos homens no feminismo”, pois eu havia falado durante a palestra sobre espaços exclusivos para mulheres. Confesso já não ter muita paciência para discutir “homens no feminismo”. Não que isso seja desimportante. É que nos últimos tempos o tema tem vindo muito à tona, e gastamos tempo e energia explicando nossos pontos de vista, que sequer são unânimes no movimento.

Então, explicarei o meu ponto de vista.

O aluno disse que eu fui cuidadosa ao falar dos homens, mas que na internet às vezes as mulheres parecem meio raivosas. “Por que não somos, na internet, como somos em eventos presenciais?”, ele me perguntou.

Eu o questionei sobre quantos eventos presenciais ele foi. Porque em todos que eu fui, os homens foram muitíssimo bem recebidos. Tive poucos episódios de irritação com perguntas sem noção ou comentários machistas. Em geral, eles escutam, aprendem, repensam. Acho super válido.

Na internet, infelizmente, as coisas são diferentes. Porque nós, mulheres, também somos tratadas de forma diferente. Ontem o Think Olga tuitou: “Em 2006, pesquisadores da Universidade de Maryland criaram perfis falsos em salas de bate-papo. Aqueles com nomes femininos receberam, em média, 100 mensagens violentas e de cunho sexual por dia. Já os masculinos, apenas 3,7.”. 

Notem: a pesquisa abordou apenas nomes femininos/masculinos, e a misoginia se fez presente. Quando se é feminista na internet, a situação piora muito. Também ontem criou-se a hashtag #FeministsAreUgly. Há alguns dias, #WomenAgainstFeminism (com vários perfis fake recém criados tuitando freneticamente).

A contraofensiva dos machistas, misóginos e apenas babacas mesmo irrita. Tem vezes que são tão patéticos que dá vontade de rir. Mas há ocasiões em que se torna impossível achar graça. O bullying virtual contra feministas é intenso. Mas a vida real é ainda pior. Neste momento, por exemplo, estamos lidando com um serial killer feminicida em Goiânia. Não há um dia em que não tenhamos notícias medonhas sobre violência contra a mulher, repressão sexual, estupros.

Além do publicado pela grande mídia, a “feminista de internet” conhece casos de garotas e mulheres que escrevem para ela. Participamos de grupos em que histórias horrendas são contadas. Manter o bom humor depois disso é bem difícil.

E por que deveríamos ser dóceis? “Assim vocês agregariam mais pessoas”, me respondeu o moço e me respondem muitas pessoas. Não acho que seja necessariamente por aí. As pessoas esperam docilidade porque esta é uma característica dita feminina. Ninguém gosta de mulheres que falem mais alto. Que gritem. Que se imponham. Esse é o papel do homem, certo?

Pois é. Por isso, os replies e comentários recebidos são em grande parte demandando algo. Querem explicações, mas querem pra ontem. Têm preguiça de ler um texto, dar um google, ou apenas serem educados. Faz parte do entitlement masculino: eles acham que temos que mastigar tudo para eles. E aqui entra o meu ponto de vista, o mesmo sobre o qual falei para o aluno lá em Rio Preto:

No meu feminismo, homens são bem vindos como aliados. Mas eles têm 90% dos cargos eletivos, 90% das diretorias de empresas. Eles têm espaços e grana para discutirem o assunto entre si, caso decidam “desconstruir a masculinidade” (tá na moda) e acabarem com o machismo, já que aparentemente eles estão se sentindo pressionados com a existência dele (oprimidos, não, nunca. por favor não repitam isso jamais).

No entanto, para a maioria dos homens, acabar com o machismo seria acabar com privilégios, e eles não querem isso. Por que abririam mão dos salários maiores, do livre acesso ao corpo da mulher e do espaço público? Por que dividiriam o bolo conosco? É bacana ver homens na plateia de eventos feministas, mas estes ainda são minoria.

Meu feminismo, então, é para lutar pelas mulheres. Pelos homens, que lutem eles. Eu quero empoderar mulheres para que elas percebam quão inteiras elas são. Que são gente. Que têm direitos. Que são fortes. Que não precisam de mais ninguém. Que a aprovação masculina não é necessária. Que as outras mulheres são iguais a ela. Que elas não estão sozinhas.

Meu tempo, meu esforço, meus textos e meus estudos intensos são com esse fim. Caso os homens decidam ter um pouco de humildade e chegarem numa boa para conversar, sem impor pontos de vista sobre um assunto que eles desconhecem e não sentem na pele, eu serei toda ouvidos. Enquanto isso não acontecer, vou continuar sendo uma feminista maluca de internet.

Leia também: O papel dos homens no feminismo.

Lambe-lambe, chupa-chupa e água e sabão: dois métodos fáceis, baratos e infalíveis para melhorar sua vida sexual

agua sabao espuma

Polêmicas, polêmicas e mais polêmicas incidem sobre dois temas: depilação e sexo oral. As pessoas não superam! De vez em quando começa uma discussão interminááááável sobre se o sexo oral é melhor ou pior com pelos, ou sobre como há pessoas (que têm pelos, inclusive) que morrem de nojo dos pentelhos alheios.

Durante meus vinte anos (!!!!) de vida sexual, sempre estive no lado de quem fica em pânico por causa dos próprios pelos ao sair com alguém pela primeira vez. Nos homens com quem interagi, vi de tudo: totalmente depilados e florestas amazônicas. Particularmente, gosto quando o moço apara de vez em quando, mesmo deixando os pelos grandes, para evitar o famoso “fiapo de manga”, isto é, que um pelo se solte durante o oral e se perca dentro da boca. É como o cabelo da cabeça: a gente não apara de vez em quando para evitar a queda? Com os pubianos acontece a mesma coisa.

Nojo, porém, nunca senti. Digo, dos pelos. De algumas virilhas, sim. Porque não sei se vocês sabem, mas há rapazes acostumados a lavarem o pinto na pia antes de transarem. Só o pinto. Na pia. E, se não aparam os pelos de vez em quando, lá você encontra o fiapo de manga, grosso e enroladinho, na bancada quando for escovar os dentes. Não tenho nojo mesmo assim, porémcontudotodavia seria BACANA se houvesse uma água e sabão também na virilha – e no ânus. Afinal, virilha é como axila; e o odor pode até mesmo ser parecido.

Em uma aula na pós de educação sexual, chegamos a esse tema da higiene. Como eu disse, a polêmiczzzzzz sempre existe. A professora, ótima, bem humorada e engraçadérrima, deu a solução: “água e sabão, gente, água e sabão“. Pronto. É o que basta, mesmo.

O resto é frescura, manipulação midiática para comprarmos sabonetes dos mais diversos tipos, desodorantes vaginais, clareadores; sofrermos em sessões de tortura na depilação; e, pior dos piores, adiarmos a foda! Quem nunca adiou uma transa porque não estava depilada “apropriadamente” que atire a primeira pedra.

Eu não consigo lembrar se foi a mesma professora espirituosa – já tive algumas – mas também se falou sobre lubrificação feminina. Como reverter isso? Como tornar o sexo mais prazeroso para a mulher?

Esse fim de semana eu estava conversando com um cara e ele me contou que, ao perceber que a parceira está sem lubrificação, ele finge que goza (?) e termina o ato. Eu só exclamei um NÃÃÃÃÃÃÃÃO!!!!!!, e pedi para ele mudar o roteiro. É normal a lubrificação feminina diminuir durante o sexo, especialmente na penetração. Por quê? Hein?! Me digam!

Simples: porque o estímulo é necessário o tempo inteiro. E um pinto entrando e saindo freneticamente nem sempre é excitante. Pra algumas de nós, não é nada excitante, cá pra nós. Às vezes demora demais, a posição incomoda, a camisinha arde*, o pensamento vai para outro lugar. Não para, não para, não para não! Quero dizer, para o que você estiver fazendo – a meteção -, e tenta outra coisa.

No caso, o “lambe-lambe, chupa-chupa” indicado pela professora. Se não houver nenhum problema de saúde com a moça, ela vai ficar lubrificada de novo. E de novo. Eu, por exemplo, sofri com isso por causa da menopausa. Algumas pílulas anticoncepcionais também influenciam. Mas, com certeza, não é apenas o mero surgimento do “príncipe”, como Gaiarsa chama o pinto duro, que vai fazer a mulher ficar molhada a noite inteira. (ok, às vezes molha, sim, admito, mas não durante horas. e não se o pinto duro vier numa foto não solicitada via whatsapp no meio de uma conversa sobre outro assunto totalmente diferente. ainda mais se ele estiver meio-mole-meio-duro.)

Higiene e boa vontade, com a lembrança, sempre, de que você está interagindo com outro ser humano: só isso já pode melhorar, demais a sua vida sexual.

*se a camisa arde, não deixe de usá-la. teste outras marcas e veja se você tem alergia ao látex. há muitos produtos bacanas no mercado hoje em dia e vocês podem fazer uma degustação ótima de preservativos! 

Sobre a carta aberta e a Revista Fórum

Post publicado no Facebook em 03 de agosto de 2014. 

Há algumas semanas eu estava em um debate sobre livros eróticos e um gay da audiência questionou-nos acerca da pouca produção literária em que pessoas LGBT fossem personagens.

O único homem da mesa, com livro publicado e blogueiro de diversos lugares, em vez de reconhecer a invisibilidade apontada, disse “é, nunca pensei nisso, posso escrever um post como se fosse um gay”.

Eu não acreditei. Quem já foi a alguma mesa em que estive sabe que as minhas caretas demonstram com extrema fidelidade o que vai na minha cabeça.

Como assim ele queria escrever um texto “fingindo” ser gay, em vez de usar seu espaço para dar visibilidade a uma pessoa LGBT expor o próprio ponto de vista?

Fiquei absurdada, de verdade.

Antes eu não reconhecia a invisibilidade LGBT. Ou de qualquer outra minoria, até mesmo a das mulheres. Como eu vivia sozinha, estudava, sou branca e tenho algum dinheiro, eu não sentia o peso da opressão de gênero.

Mentira: sentia, sim, só não sabia que tinha esse nome. Mas, como já disse Rosa Luxemburgo, “quem não se movimenta, não sente as correntes que o prendem”. Eu comecei a me movimentar – com o blog, com pseudônimo, e de repente aquelas correntes apertaram forte em todas as partes do meu corpo.

A partir daí passei a notar as correntes nos corpos alheios. Correntes diferentes, algumas quase invisíveis para mim, ainda hoje, mas elas existem. Elas estão lá, prendendo-as, impedindo-as de serem livres, de serem felizes, de serem humanas em toda a plenitude abarcada por este termo.

Aprendi como é importante que as pessoas falem, elas mesmas, sobre as correntes que lhes aprisionam. Descobri que o nome disso é “visibilidade” e “representação” e é imprescindível porque há outras com as mesmas correntes com urgência em verem que não estão sozinhas.

Por isso, insisto e bato na tecla de quem deve falar sobre feminismo e a luta das mulheres devem ser as mulheres. O local de fala é de qualquer uma de nós, porque vivenciamos diariamente a tentativa até agora inócua de nos livrarmos das correntes.

Alguns homens escolhem estudar gênero na academia, isto é, na universidade. Fazem pós graduações, mestrados, doutorados. Outros, trabalham ativamente na desconstrução da masculinidade, ou em programas de equidade de gênero.

Esses homens, todavia, estão de olhos e ouvidos bem abertos para as demandas das mulheres – aquelas, as protagonistas. E, por isso, não vejo qualquer problema em ver esses homens na academia, estudar com eles, aprender com eles. Desde que o trabalho deles, antes de quererem me ensinar algo, tenha obrigatoriamente passado por escutar as mulheres.

Por isso, repudio com veemência a resposta da Revista Fórum à Carta Aberta assinada por dezenas de coletivos feministas contra a existência da coluna “Outrofobia”, veiculada pela publicação e assinada por Alex Castro.

Falou-se, em defesa do escritor, num tal de “webfeminismo”, como se ainda houvesse esta diferença entre militância virtual e presencial; como se alguns desses coletivos não fizessem os dois trabalhos; como se a internet não fosse o ambiente revolucionário em que as minorias conseguem, finalmente, ser escutadas. O feminismo aproveita-se do potencial de engajamento da internet – e seria burro se não o fizesse.

Pularam na internet textos e tuítes defendendo a revista e o escritor, como se ambos já não estivessem em posição privilegiada. O mais grave, porém, é ignorar o fato de que dezenas de coletivos feministas assinam a carta. Dezenas. Mas são só mulheres, não é mesmo? O que elas podem saber sobre feminismo que o articulista também não saiba?

É importante notar, ainda, que alguns desses coletivos signatários da Carta são de correntes ideológicas distintas, inclusive com histórico de debates calorosos. Ainda assim, tais coletivos uniram-se em torno de um tema: a insatisfação com a coluna. Não se trata apenas de dar lugar a um homem para falar de assunto que é tão caro às mulheres, mas a um homem que não se enquadra na exceção acima, a do conhecimento acadêmico acerca do tema.

Outra defensora do articulista pergunta quantas dessas pessoas signatárias já se ofereceram para trabalhar de graça, assim como o colunista o fez (o que, numa conexão que minhas sinapses nervosas não conseguiram captar, justifica o espaço dado ao escritor).

Eu não saberia responder. Mas posso dizer, de cabeça, o nome de muitas mulheres que militam de graça, algumas até gastando dinheiro do próprio bolso. Se as outras não quiserem dar um passo à frente, dou eu mesma: jamais recebi qualquer dinheiro pelas publicações no meu blog (repercutidas por outros veículos, inclusive) e escrevi durante meses, sem remuneração, em outra publicação de esquerda, a CartaCapital.

Também é curioso defender que mulheres se ofereçam, de graça, para escrever para tais veículos. Não ganhar dinheiro num sistema capitalista apenas e tão somente deixa as coisas como estão. Não somos minoria porque estamos em menor número de pessoas no planeta, pelo contrário, mas porque não somos donas dos meios de produção. Oferecer trabalho sem contrapartida financeira para uma mulher é manter-nos com o 1% da riqueza mundial, como já o é hoje.

Revistas de esquerda, no mínimo, deveriam reconhecer o fenômeno da feminização da pobreza, da invisibilidade das minorias, e dar a nós o espaço – e o dinheiro – que nos é devido.

Como este post já está demasiadamente (mesmo) longo, gostaria apenas de lembrar, na imagem, o conhecimento do articulista acerca do assunto que ele pretende tratar em sua coluna, com o aval da Revista Fórum e de seu editor, Renato Rovai.

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Swing, essa minha eterna dúvida do vai-não-vai

Pessoas,

Não aguento mais pedir desculpa, mas a verdade é que minha vida está numa encruzilhada tremenda. Tive (não por obrigação, mas por mim mesma) que decidir algumas coisas sobre meu futuro profissional e me perdi no que precisava/queria/pretendia escrever no Cem Homens.

Como eu já mencionei antes, este blog não é um blog feminista. É o meu blog, em que falo sobre mim e as coisas que me interessam. Muitas dúvidas me assolam, mas tenho certeza absolutíssima sobre algo: eu quero falar para e sobre mulheres e sobre sexo. Não é à toa que faço uma pós graduação em educação sexual, né?!

Tenho dito nas redes sociais que a Letícia (personagem inicial deste espaço) está voltando, mas eu não irei voltar a escrever narrativas sexuais; pelo menos não aqui (quem sabe num próximo livro, bem mais explícito que o primeiro?).

Mas eu estou vivendo muitas coisas, sim. Algumas horríveis, outras surreais, muitas irritantes e poucas realmente dignas de “10, nota 10!“. Que pena, mas eu sei que se você é solteira e periguete como eu também deve passar pelo mesmo.

Decisões sobre a vida profissional quase tomadas, chegou a hora de voltar a cuidar do bloguinho. E isso significa interagir mais e mais com vocês. Já fiz um questionário antes – ele ainda está no ar e, se você puder, eu agradeço demais se você puder respondê-lo (clique aqui).

Agora, outro, sobre swing. Muitas amigas vêm me perguntar se eu já fui a uma casa de swing, como é, o que eu indico. Fico com cara de boba, porque apesar de já ter aprontado muito, eu nunca fui em uma. Inacreditável, não? Pretendo corrigir em breve essa falha de caráter, mas antes de ir, peço a ajuda de vocês. Você já foi? Pretende ir? O que foi mais legal? Sou tão novata no assunto que cheguei a perguntar ontem no Twitter com que roupa as pessoas vão!!

Então, aí vai mais um questionário. A ideia é colocar um por semana aqui. Me dá mais alguns segundos da sua atenção e responde pra mim? Obrigada!

Os novos livros vêm aí!

Sabem uma coisa que faço horrivelmente? Procrastino. Muito.

Mas tenho alguns livros na cabeça e PRECISO colocá-los num papel (sim, será em papel, sou velha, desculpem).

E eu queria fazer algo colaborativo, misturando as ideias de vocês com as minhas, trazendo à tona discussões que a gente acha importantes.

Tenho na cabeça TRÊS livros (risos). O primeiro livro não foi assim tão maneiro – inclusive por aquela capa medonha – porque eu era muito desconhecedora do mercado editorial. Errei, né? Agora quero fazer melhor.

Nenhum dos livros programados é sobre teoria feminista, ainda que, claro, o feminismo perpasse tudo o que eu escrevo, vivo, respiro.

Eu gostaria MUITO MESMO que vocês me dessem ideias, fizessem críticas ao primeiro livro (não vou xingar de volta, prometo!), me indicassem profissionais bacanas para diagramação/revisão/impressão, etc.

Eu não pretendo fazer financiamento coletivo, então tudo isso vai sair do meu bolso furado. Eu farei sem editora! Por favor me ajudem; só com indicações, ideias, críticas.

Meu pedido é super de coração e eu quero muito a ajuda de vocês. E que vocês, claro, comprem os livros quando eles saírem. 

(se você tiver vergonha de escrever aqui com seu perfil, pode ir lá no meu ask: ask.fm/nadialapa, onde dá para escrever de forma anônima). Também está rolando uma discussão no Facebook, nesse link: https://www.facebook.com/cemhomens/posts/729236970470710.

Vou deixar os comentários abertos nesse post também, mas eles são moderados, então demoram um pouco a entrarem no ar.

Muito obrigada!

Gordelícias versus Magrelas

Hoje um moço escreveu num jornal de grande circulação sobre como gordinhas são “um desejo de consumo masculino” (pessoas? seres humanos? tá pensando que é quem, garota?), fez piada sobre quem come alface (revirei os olhos) e ainda chegou à brilhante conclusão de que gordas não leem Freud.

Quantos textos pseudo-elogiosos às gordas vocês já leram? Opinativos, claro, porque os “jornalísticos” são sempre dizendo como estamos à beira da morte. Dá para escrever tratados sobre os assuntos equivocados: a questão midiática, o fenômeno chubby chaser, a necessidade da mulher se ver por meio do olhar do homem…

Mas um ponto pouco mencionado quando esses textos são publicados é que eles nos dividem. É, nós, mulheres. De um lado, as gordelícias; do outro, as magrelas. Se você está ali no meio – é sarada, gostosa, toda a mídia já é pra você, mesmo. Se você é gorda/obesa, se fode aí.

O fato é que esse pensamento “quem gosta de osso é cachorro” e correlatos fazem com que exista uma rivalidade entre as mulheres. Nós somos criadas há milênios, e eu não estou sendo exagerada dessa vez, a nos odiarmos. A enxergarmos a outra como inimigas.

Colocam mulheres em caixinhas, mas nós não cabemos, magras ou gordas, em nenhuma delas. Porque somos múltiplas. E amigas, aliadas, companheiras. Nós todas lidamos com a opressão existente só por sermos mulheres. Fora isso, estamos contando moedas para sobreviver até o fim do mês (hoje já é 29, será que o cartão já fechou?), nos olhamos no espelho e nos sentimos horrendas, checamos o celular de vez em quando para ver se finalmente chegou a resposta do whatsapp.

Somos muito mais parecidas do que dizem por aí. Claro que temos nossas individualidades, mas as pressões sociais (“já casou?”, “não vai ter filho?”, “e os namoradinhos”) incidem sobre nós do mesmo jeito. O peso pode ser diferente; o problema, inescapável.

Eu sou gorda (não gordelícia) e não quero competir com nenhuma magra, magrela, nem com outras gordas. Eu não quero competir com ninguém, ainda mais com mulheres, que podem me entender tão bem. Os laços entre nós são muito frágeis, e textos como o de hoje ajudam a parti-los. Precisamos, na verdade, reforçá-los e, ao nos darmos conta que somos todas mulheres, esses laços se tornarão inquebrantáveis.

A problematização do sexo

Ontem desencavei um texto sobre Cinquenta Tons de Cinza, em razão do lançamento do trailer do filme. Eu o escrevi em 2012; mudei muita coisa no meu pensamento de lá pra cá, e hoje certamente seria ainda mais dura nas minhas críticas.

Na época da postagem, muita gente reclamou. Como não poderia deixar de ser, algumas dessas observações afloraram novamente. Fiquei pensando muito sobre sexo, prazer e consentimento a partir das discussões levantadas (quem eu quero enganar? eu só penso sobre isso!).

Hoje em dia, especialmente com o crescimento do feminismo liberal, não se pode problematizar o sexo. Tudo deve ser liberado, adorado, praticado. Se você apenas para um pouquinho e questiona qualquer aspecto do que está (não) está sendo discutido, um carimbo de SEX NEGATIVE é colocado na sua testa.

Problemático, isso. Eu sou muito a favor que cada um descubra em si mesmo o que gosta, o que pretende fazer, o que realmente lhe dá prazer, e por aí vai. Quem lê meu blog sabe que sou feroz defensora disso.

No entanto, na minha opinião – que é apenas opinião, não tem força de lei – é preciso, sim, problematizar o sexo. É isso que se faz em estudos de sociologia, antropologia, sexualidade. Existem cursos, ensaios, artigos, sessões de psicodrama, compartilhamento de experiências, tudo, tudo, para problematizar o sexo.

Dizer que “se é consensual, tudo vale” é, ao meu ver, simplificar muito as coisas. Serve, em alguns casos, justamente naqueles que são simples. Porém, o ser humano é complexo e, muitas vezes, práticas sexuais não estão livres de um olhar mais minucioso só porque “as pessoas são livres”.

Primeiro de tudo, vamos encarar a realidade, gente. Eu sei que ela é dura: mas não somos livres. O que sabemos sobre sexo já chegou até nós de maneira enviesada. Há influência das leis, da igreja, da família, dos colegas de colégio, dos parceiros, da mídia. Você não está na Lagoa Azul. Ok?

Tendo isso em mente, fica fácil perceber que estas informações mudam conforme o lugar e a época em que você vive. Antigamente – e não faz muito tempo – uma mulher que se casasse após um estupro “livrava” seu agressor, posto que o que se defendia era a honra da mulher, não sua dignidade sexual. O tipo penal de estupro vem mudando legalmente e talvez mude em breve, segundo o novo Projeto de Código Penal (uma das mudanças – aterrorizante, aliás – é a diminuição da idade de vulnerabilidade, que cairia de 14 para 12 anos).

Evidente que muitas dessas “regras”, expressas ou tácitas, são inventadas. E quem está no poder é o patriarcado – e não interessa que nós sejamos felizes; isso inclui atrapalhar nossas vidas sexuais, inclusive transformando algumas ações inofensivas em doença, como aconteceu com a homossexualidade no passado (ainda proibida em diversos lugares do mundo).

Eu não quero falar nesse momento sobre parafilias (situações não tão usuais em que a pessoa sente prazer, como mamar numa lactante, sentir odor de gases ou, um bem mais comum, o voyeurismo). Mas não quero deixar de falar, nunca, sobre a questão de gênero.

Na relação entre um homem e uma mulher, sempre haverá um recorte de classe importante. O homem, socialmente, é superior à mulher. Não adianta o feminismo liberal dizer que basta a mulher se empoderar, sozinha, que este desnível vai acabar. Não, ele não vai. Analisando casos isolados, pode ser sim que um casal esteja no mesmo patamar, mas salvar UMA mulher (geralmente branca, com alto grau de instrução e dinheiro no banco) não significa que todas nós estejamos livres.

Porque não nascemos livres. Nós, mulheres, tendemos a aceitar certos comportamentos sexuais que não nos são agradáveis porque eles são tidos como padrões, padrões esses inventados… por homens. Achamos que estamos consentindo, mas apenas estamos sendo levadas por uma onda.

Problematizar o sexo é isso: entender os mecanismos que se impõem sobre o sexo, e não apenas sobre o coito, mas desde a relação inventada na infância. É conversar a respeito, estudar, e entender que a liberdade vai demorar a vir, mas virá. No entanto, isso somente vai acontecer quando pararmos de fingir que o que vivemos é ser livre. Não o somos. Seremos. Problematizemos, primeiro, para acharmos a solução e, então, sermos o que quisermos ser.

 

O caso “Impedimento” e a impossibilidade do jornalismo independente no…

Hoje ficamos sabendo de uma notícia triste: o site Impedimento, que há uma década cobria de maneira independente o futebol, acabou. Eu não era leitora deles, bem mais pela falta de interesse diário no assunto do que pela qualidade do que ali era publicado, que chegou até a ganhar prêmio.

No entanto, a “falência” do Impedimento desmascara um problema sério na internet brasileira: quem produz conteúdo de qualidade raramente é reconhecido. E eu estou falando de grana, sim, mas não apenas isso.

Primeiro, vamos ao “não apenas isso”, porque grana é a parte mais difícil de lidar. Recentemente tivemos, por exemplo, o festival YouPix, “o maior prêmio da internet brasileira”. Quem vocês veem lá? Entra ano, sai ano, são as mesmas figuras. Algumas delas, aliás, reconhecidas como bullies, que usam da grande influência (*suspiro*) e da enorme quantidade de seguidores para perseguir e escrachar pessoas comuns pelo simples prazer de fazê-lo.

A Campus Party, evento anual que cobra ingressos a R$ 300 dos campuseiros (segundo a organização, foram 8 mil participantes em 2014), conta com o patrocínio de empresas. Estas, por sua vez, enquadram os gastos com o evento em projetos de renúncia fiscal. E, na hora de convidar as pessoas, são incapazes de pagar uma passagem aérea – a não ser, claro, que você seja uma daquelas citadas no parágrafo anterior.

Tudo, no final, gira em torno do dinheiro.

E muita gente acha que ter blog muito lido ou com bastante repercussão dá grana. Não dá, na maior parte dos casos. Conheço quem esteja fazendo trabalho bacana e bem sucedido, mas em geral quem é bem remunerado por ser blogueiro profissional faz um trabalho lixo.

Além de fazerem piadas sobre minorias, com senso de relevância social zero, a técnica usada é postar vídeos catados na internet e postar várias vezes ao dia. Os cliques sobem, o anunciante acha bonito, e pagam o banner. Ou o blog é do amigo do social media, o social media manda presentes pro blogueiro, o blogueiro posta sem avisar que é patrocinado, e assim as coisas seguem.

A lógica dos blogs de moda/maquiagem é diferente. O dinheiro é altíssimo, impensável até, mas porque é consumo, consumo, consumo. Ainda que, muitas e muitas vezes, as blogueiras mal consigam escrever um post em português correto.

E onde ficam, então, os blogs independentes? Os que não querem vender e vender e vender (não só produtos, mas lifestyle – risos – também)? Morrem, como o Impedimento.

Afinal, por mais que esses blogueiros queiram muito continuar com o trabalho bem feito, eles têm contas a pagar. Não se paga a Eletropaulo com tapinhas nas costas. Nem com o livro que a editora manda uma vez na vida – e nunca mais, porque você não o resenhou (ela não ia te pagar pela resenha).

“Ah, mas e o ad sense?”, perguntam alguns. Mesmo na época em que eu escrevia aqui todos os dias e o blog bombava de acessos, eu ganhava centavos por dia. Não valia a pena; enfeiava o blog e no fim do mês não me pagava uma pizza. Se você tem outro emprego e o blog é um hobby, talvez valha a pena, mas se você estuda, apura, escreve, paga o facebook, quer fazer um layout maneiro, não é nada vantajoso.

Como resolver isso? Eu não sei. Não sei mesmo. Sou pouco empreendedora, como meus amigos sabem. Na verdade, acho que sofro de cagaço crônico, mas essa é uma encruzilhada que não sei que caminho tomar, mesmo. Com certeza há gente muito mais esperta pensando em métodos para tornar estes blogs lucrativos.

Há quem ganhe dando palestras, o que eu acho bastante válido quando a pessoa sabe mesmo sobre o que está falando. Eu nunca ganhei um real para participar de nenhum evento. E sei que participei de um deles em que, na mesa em que eu estava, eu era a única a não ganhar um chequinho. Porque eu sou só uma blogueira.

Talvez seja essa a mentalidade a ser mudada. Não são “só blogueiros”. São jornalistas, com ou sem diploma; são especialistas na sua área; são pessoas bem informadas; são escritoras e escritores que têm o dom de fazer você ler um texto até o final. Antes, a gente pagava pelo conteúdo, comprando jornais e revistas. Esse meio está quase morto. Outro nasceu no lugar, mas a verdade é que conteúdo bom não brota do chão. Alguém o produziu – e esse alguém precisa ganhar por isso.

Começando do começo

Oi! :)

Eu sei, eu sei que estou sumida. Do Twitter (@nadialapa), nunca, mas aqui sei que ficou abandonadinho. Nem tem razão nenhuma; só estava vivendo outras coisas.

E, agora, nesta volta, eu quero muito, mas muito mesmo, falar sobre sexo. Como alguns de vocês sabem, eu faço pós graduação em educação sexual e tenho estudado e pensando muito acerca dos mitos e do desconhecimento geral acerca do sexo. Só ensinam tabus pra gente. Poucos são os sortudos que têm uma família bacana, que fala abertamente sobre o assunto, ou tiveram aula de educação sexual na escola. Eu, por exemplo, nunca tive.

Grande parte dos e-mails que recebo são com questões básicas, então decidi “começar do começo”. Vamos falar sobre sexo? Sobre corpos, sobre genitais, sobre prazer? Sem medos, tabus ou mentiras? Vamos nessa?

Neste post específico, deixarei os comentários abertos e também há um questionário no fim do texto. Eu quero saber sobre o que vocês têm mais dúvida, quais assuntos interessam mais, a experiência de vocês. Como sempre, aceito colaborações!

Vamos começar falando de orgasmo?

“O estudo de Kinsey de 1953 mostrou que apenas 70 e 77% das mulheres já haviam tido orgasmo, ou com masturbação ou com penetração. A satisfação sexual feminina não andou no mesmo ritmo que o ostensivo progresso da “revolução sexual”: o relatório Shere Hite de 1976 traz estatísticas de que somente 30% das mulheres têm orgasmos regularmente com penetração, sem estímulo clitoriano, outras 19% com tal estímulo, e 29% não gozam com penetração. Percentagem das que não se masturbam nunca: 15%, e 11,6% não têm orgasmos nunca, de jeito nenhum.

A pesquisa de Helen Kaplan em 1974 mostrou que de 8 a 10% das mulheres nunca têm orgasmo, e que 45% só gozam com penetração se tiverem estimulação clitoriana. Já no estudo de 1973 de Seymour Fischer, somente 30% das mulheres chegam ao orgasmo com penetração.

Os anos 1980 mostraram uma pequena mudança. Em 1980, Wendy Faulkner descobriu que só 40% das britânicas com 40 anos de idade já haviam se masturbado; por outro lado, na mesma idade, 90% dos homens já o tinham feito. Em um estudo de 1981, somente 47% das dinamarquesas haviam se masturbado até gozarem. No Reino Unido, um estudo de 1989 com 10 mil mulheres descobriu que 36% “raramente” ou “nunca” gozam com penetração, e que “a  maioria fingiu gozar para agradar os parceiros”. ¹

E você? Já gozou? Como você goza? Quão importante é o orgasmo numa relação sexual? Os parceiros com os quais você se relaciona se importam com isso? São essas perguntas que eu quero te fazer nesse questionário abaixo. Os comentários estão abertos para quaisquer dúvidas ou debates. E os números acima são apenas para te mostrar que, qualquer que seja a situação da sua vida sexual, há muito mais mulheres parecidas com você do que você imagina.

 ¹ Trecho de “O mito da beleza”, de Naomi Wolf, em tradução livre.