Revista Placar tenta humanizar o feminicida Bruno, condenado pelo assassinato de Eliza Samudio

Sou jornalista de formação. Com diploma, mas sem emprego. Também sou feminista autônoma. Mais importante que isso: sou humana e tenho um cérebro com sinapses nervosas funcionando mais ou menos perfeitamente. O suficiente para perceber quão equivocada, misógina e desrespeitosa é a capa da revista Placar de abril.

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Como todo mundo, pensei que fosse uma montagem, uma brincadeira de mau gosto. Primeiro, me certifiquei de que era real. Depois, fui até a banca e adquiri um exemplar. Eu queria saber se a condescendência com um assassino aparecia somente na capa ou se continuaria pelas páginas da revista.

“Me deixem jogar”, diz a chamada. Coitado! Alguém o está impedindo de exercer sua profissão! Não é essa a impressão que dá? Que ele está injustamente encarcerado, quando na verdade o devido processo legal foi respeitado, ele teve direito a todas as defesas, e mesmo assim foi condenado a 22 anos por ter possivelmente esquartejado Eliza Samudio?

Sim, porque ao contrário do que diz a capa, Eliza não morreu. Ela foi brutalmente assassinada. Em nenhum momento, durante toda a entrevista ou reportagem, Bruno é chamado do que ele realmente é: assassino.

Na verdade, o tempo todo a revista tenta humanizá-lo. Começa narrando o dia em que os repórteres chegaram à cadeia, dizendo que Bruno estava pregando o evangelho durante o banho de sol. Continua humanizando-o: conta como ele, “enxada em punho”, foi capinar um terreno. Bruno não está fazendo nenhum favor, não, Placar. A cada três dias trabalhados na cadeia (isso mesmo, na cadeia), a pena dele diminui em um dia. É apenas isso.

A reportagem deixa Bruno falar: reencontrou a fé, frequenta a igreja, tem saudade das filhas. E, aí, o primeiro vômito – assassino Bruno fala do filho que teve com Eliza, Bruninho. “O ex-goleiro quer ser um ídolo para Bruninho. ‘Vou conquistar o amor dele’.”

A revista Placar, outrora publicação indispensável na imprensa brasileira, dá espaço para um assassino condenado dizer que irá conquistar o amor de uma criança que ele não ligava quando estava solto (os problemas com Eliza eram justamente por causa de Bruninho) e cuja mãe ele ESQUARTEJOU.

É triste ver no quê o jornalismo brasileiro se transformou. Seria mesmo necessário fazer uma capa “polêmica” como essa? Nas redes sociais, inclusive no próprio Facebook da revista (isto é, página frequentada por fãs da Placar), a reação foi horrenda. As críticas se multiplicam. Hoje há muita gente que vive de clique de indignação, que acha bacanudo falar absurdos para fazer sucesso. Ainda assim, a reação das pessoas que não acompanham/compram a Placar só aconteceu ontem, dia 24, mais de 20 dias depois da edição chegar às bancas. Quer dizer: a capa com o assassino se fazendo de vítima só mostrou a irrelevância atual da Placar.

Triste, porque cresci com a revista ao meu redor. Lembro até hoje da reportagem sobre o trio Bebeto-Cocada-Sorato no Vasco, novinhos… Agora, a Placar está reduzida, segundo o expediente, a um único repórter e a um editor. Na chefia de redação está Maurício Barros, que também cuida da Runner’s (leia a absurda carta aos leitores no final desse post).

Se o jornalismo esportivo quisesse continuar sendo só de oba-oba, de festa, ainda assim seria reprovável. Há meandros e negociações que merecem investigação. Porém, ver um assassino na capa da revista é tripudiar sobre todas as mulheres que sofrem violência diária por parte dos companheiros. No Brasil, dez mulheres são assassinadas todos os dias, o sétimo maior índice do mundo.

Maurício Barros, chefe de redação da Placar, diz que fizeram bom jornalismo, citando os entraves burocráticos para entrevistar um encarcerado. Ora, qualquer estudante de jornalismo fazendo TCC sabe que precisa preencher papelada e falar com assessorias de imprensa para um trabalho como esse. Barros esqueceu-se que era preciso falar, também, com “o outro lado”: entrevistaram Bruno e os advogados dele, mas não há nenhuma palavra da acusação.

A tentativa da revista foi, de fato, humanizar o assassino. Fala-se da carreira; do trabalho no presídio; dos sonhos; da amizade com o cúmplice Macarrão, também condenado. Na última pergunta, o golpe final para quem tem o mínimo de empatia:

Você não mandou matar a Eliza?

Sou firme no que eu falo. Não mandei matar a Eliza. No inquérito não há nenhuma prova, nenhuma escuta que prove que eu mandei matar a menina. Não tinha por que mandar matar a minha garota. Fui omisso e a corda arrebentou para o meu lado. (grifo meu.)

Tentaram de todo jeito humanizar o assassino Bruno. Que pena que não se pode fazer o mesmo por Eliza, desumanizada quando viva, desumanizada quando morta, e que não teve nem mesmo direito a um enterro digno.

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A nudez de Scarlett Johansson

Scarlett Johansson já provocou pelo menos três grandes polêmicas com o próprio corpo nos últimos anos. Primeiro, apareceu de biquini numa praia e aí descobriram suas celulites. Em 2011, vazaram fotos íntimas da atriz. Agora, a nudez de Scarlett no filme Sob a pele fez a internet enlouquecer.

Os comentários, como sempre, não foram bacanas. Chamaram-na de gorda. Disseram que os seios da atriz são caídos. Outros, no sexismo benevolente de cada dia, acharam que estavam a elogiando ao dizerem “eu comeria”.

Mas, afinal, por que a nudez de Scarlett Johansson provocou tanta celeuma? É inegável existir uma certa curiosidade em saber como são as celebridades sem roupa. Ontem, no entanto, o que vi foi um outro componente quase infantil na indignação das pessoas: elas se sentiram enganadas.

Afinal, Scarlett Johansson cresceu nas telas – e da garotinha de O Encantador de Cavalos, se tornou um “mulherão”. Desfilava no tapete vermelho com decotes e se tornou símbolo sexual. De repente, agora nua, as pessoas perceberam que ela é uma mulher real.

E isso as deixou iradas.

Porque Scarlett poderia, sim, ter se preparado para a nudez frontal no novo filme. Ela tem os meios para fazer cirurgia plástica, contratar personal, fazer todos os tratamentos de estética do mundo. O tempo todo as revistas femininas estão nos ensinando técnicas infalíveis para termos o corpo perfeito para o verão. No carnaval, vemos as madrinhas de bateria contando como ficaram sem comer e/ou malharam mil horas ao dia para estarem em forma no desfile da escola de samba.

Scarlett não fez nada disso. Poderia, mas não fez.

Nas três vezes em que seu corpo foi “descoberto”, Scarlett estava usando-o para fins próprios. Na primeira, estava na praia se curtindo. Na segunda, enviando fotos para um parceiro. Na terceira, trabalhando. Como ela ousa usar o corpo para fins próprios e não para a objetificação alheia?

Pra mim, reside aí a amargura das pessoas ao comentarem o corpo da atriz. Uma celebridade deixou bastante claro que não é uma boneca, não está à disposição, não existe para agradar os olhares dos outros.

Scarlett quebrou um paradigma, rasgou papéis de gênero, desafiou uma indústria. Sem abrir a boca, fez um statement político: o corpo é dela e ponto. Uma mulher teve a coragem de se libertar dessas amarras. Para quem não associa coragem a ser mulher, deve ter sido um susto e tanto.

(e ainda canta…)

 

Tinder Ostentação

Resolvi testar o Tinder. Não porque queria conhecer alguém, mas para escrever aqui. Nada contra – em princípio – o aplicativo: conheço gente que está apaixonada, namorando ou só trepando horrores com quem encontrou por lá. Também não vejo problema nenhum em conhecer gente online. Sem a internet, eu teria bem menos amigos e minha vida sexual teria sido mais sem graça.

Minha primeira birra com o Tinder é altamente subjetiva: preguiça pura. Preguiça de “oi, tudo bem?”, “o que você faz?”, e ir tentando descobrir, feito loteria, se a pessoa é bacana ou não. Superei isso e instalei o aplicativo.

Birra 2: a facilidade com a qual se descarta pessoas. Basta clicar num X ou num coração, baseando-nos apenas numa foto de perfil (pouca gente tem bio). Ok, você pode argumentar que na balada é a mesma coisa. Além de eu nunca ter gostado de conhecer gente na night, pelo menos ali a pessoa tem uma voz, um sorriso, um jeito de dançar.

Ok, talvez eu só tenha me tornado molenga.

Mas a birra número 3, ah, essa não dá para explicar ou superar. O Tinder é recheado daquelas pessoas que você deu unsubscribe no Facebook. Tinder é ostentação.

Todo mundo é perfeito, lindo, feliz, viajado, interessante. Parece-me que ainda está na moda dizer que tem grana para as mulheres se interessarem (1950, é você?), pois muitos moços tiram foto em carros, barcos e motos.

Quer um exemplo?

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Este moço aparentemente saiu em uma daquelas reportagens da NOVA sobre “solteiros cobiçados”, e achou por bem fazer essa montagem e colocar no perfil do Tinder. É ou não é para desistir da vida?

A quantidade de homens seminus é impressionante. Será que eles tão pedindo para serem estuprados? Sem brincadeiras agora, acho que conheci todas as academias de São Paulo só pelos selfies que eles tiram enquanto treinam. A mensagem subliminar disso é “eu me cuido” e, portanto, “quero uma moça que se cuide também”, isto é, seja magra. 

É incrível: todos os homens são super aventureiros. Fazem stand up paddle, snowboard, escalam, participam de maratonas. Enquanto isso, meus amigos da vida real e os caras com quem eu já saí/saio não veem a hora de fazer um friozinho para se enfiarem embaixo das cobertas e fazerem maratonas – de seriados. Onde foram parar essas pessoas imperfeitas, que não são capa de revista, mas que fazem a gente rir e são felizes conosco, não apenas porque estão dando de mamar a um leão (tem um monte de foto disso também)?

“Nádia, não seja romântica, as pessoas só estão ali pra trepar.” É, eu fiquei sabendo disso também.

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Nada contra trepar, inclusive, hello, olhem quem eu sou. Mas precisa dessa mensagem copia + cola, sem nem um “oi, tudo bem?”. É grosseiro, é objetificador, é desumanizante.

Nem tudo é horrível no Tinder, porém. Como disse antes, tenho amigos e amigas que estão felizes com o aplicativo (para qualquer que seja a intenção deles e delas). Eu conheci um cara incrível: pró-feminismo, interessante, inteligente, com muita história de vida e projetos humanitários. Pessoalmente, porém, não rolou o tal clique, de nenhum dos lados. Mas foi bom saber que no meio daquele supermercado de gente ainda há quem faça realmente diferença no mundo.

A ostentação de barrigas saradas, de helicópteros (juro!), viagens internacionais e conversíveis, contudo, me fez ver que o Tinder não é para mim. Se você tiver um melhor humor que eu e um pouco mais de sorte, talvez você curta. Boa sorte e cuide-se.

Nunca diga para você o que você não diria para a sua melhor amiga

Sempre disse como nunca fui leitora de revistas femininas. Eu não conseguia me identificar com as garotas retratadas ali. Estava pouco ligando pro meu cabelo, pra maquiagem ou pro gatinho da balada.

Minha irmã, por outro lado, sempre foi muito vaidosa e comprava tais revistas. Eu acabava dando uma espiada. Em alguma delas, não sei qual, tinha uma frase de livro de autoajuda que nunca saiu da minha cabeça. E lá se vão bem uns vinte anos:

- Nunca diga para você o que você não diria para a sua melhor amiga.

Ali, sim, eu me reconheci. Porque eu até tentava ter a autoestima no lugar, mas as mensagens que eu recebia de todos os lugares é de que havia algo de errado comigo. Quando eu tinha uns 11 anos, meu pai passou as férias inteiras reclamando do meu cabelo. Até hoje não sei o que o incomodava tanto (talvez fosse a minha mera existência). Um dia ele chegou ao hotel com um vidro de óleo de babosa para eu passar no cabelo. Com toda a sinceridade do meu ser, eu realmente não consigo enxergar qual era a grande questão. Duas décadas depois, ainda penso nisso.

Esse é só um exemplo. No colégio, comecei a engordar na puberdade e alguns garotos diziam que eu devia ser garota propaganda da companhia de gás da cidade, porque eu parecia uma botija. Mais uma vez: eu estava longe de parecer uma botija; aliás, eu devia ter uns 50 quilos a menos do que tenho hoje.

As mensagens horríveis vinham de perto (família) e de longe (pessoas que apenas estudavam no mesmo colégio que eu). Vinham da mídia: lembro perfeitamente de um comercial sobre “gordurinhas localizadas” em que aparecia uma dobrinha perto da axila da modelo – e eu me olhava no espelho, preocupada se eu também tinha aquilo (hoje, é preciso ter até a virilha sarada!).

Com tal enxurrada de coisas negativas, é evidente que eu me olhava no espelho e dizia coisas horríveis, como faz a moça no comercial da Avon que tantas blogueiras feministas já escreveram muito bem a respeito. Eu nem precisava do espelho. Se um garoto bonitinho olhasse na minha direção na balada, eu achava que era pra alguém ao meu lado, mesmo que simplesmente não houvesse ninguém ali.

“Nossa, é pra mim que ele está olhando, e agora?” E agora? Não foi nem uma e nem duas vezes em que me submeti a relações/relacionamentos bizonhos porque eu me sentia grata por um cara bonito estar comigo. Eu, a menina com celulite na bunda, cabelo que precisa de óleo de babosa, a que poderia ser confundida com uma botija de gás.

Passei muitos anos depreciando tudo que era “meu”. Não só aspectos físicos, mas qualquer elogio que me fizessem. Eu sempre menosprezava. Roupa, maquiagem, cor do esmalte. Até hoje fico passada quando elogiam um texto meu. Isso, que é o meu fazer, é o meu trabalho, que deveria ser meu ganha pão, ainda assim eu fico com vergonha do elogio.

Eu não me sinto merecedora. Como a Sheryl Sandberg diz no “Faça Acontecer”, fico imaginando que a qualquer momento vão descobrir que eu sou uma fraude.

De um tempo para cá, relembrei a frase de autoajuda lida numa revista qualquer. “Não diga a si mesma o que você não diria pra sua melhor amiga.” E, clichê ou não (bem clichê, ok), ela me serviu.

Em janeiro fui ao casamento de uma grande amiga. Fiz cabelo e unhas no salão, me maquiei sozinha, mas escolhi o vestido que queria e os acessórios também. Eu continuava a tal moça em forma de botija, porém. Não podia estar bonita, não podia, gordos não são bonitos. Ainda assim, logo que me viu, o noivo disse “tu tá linda” (ele é gaúcho).

Eu não agradeci, mas não desmereci. Fiquei feliz, porque sei que foi uma gentileza e penso ter sido genuína. Meu próximo passo é começar a agradecer e realmente acreditar no que as pessoas boas dizem, e abandonar o que as cruéis querem que eu aceite – e aí incluo a publicidade, criada para fazer com que nos sintamos umas merdas e consumamos mais e mais e mais e mais.

Eu não vou me xingar como a moça do comercial da Avon. Eu vou me esforçar para não deixar nem por um minuto que esses pensamentos passem pela minha cabeça. Eu não vou agradecer aos deuses pela atenção mínima que um carinha me der. Eu não deixaria que uma grande amiga se sabotasse desse jeito. Pra quê vou fazer isso comigo mesma?

Blue Sunday

How does it feel
to treat me like you do

Estenderam a canga na grama. Enquanto ela comia um sanduíche e bebia guaraná, falaram sobre amenidades. Quais shows queriam ver, como tinha sido o aniversário no sábado, a que horas ele pegaria o avião na manhã seguinte.

Foram relaxando. Primeiro, sentaram esticando as pernas. Depois, foram descendo o tronco, até ficarem deitados. Olhando pro céu e de vez em quando virando de lado, apoiando-se nos próprios braços, falaram de coisas mais importantes e íntimas.

Ela contou por alto a briga de minutos antes. Ele, preciso, cirúrgico, objetivo, disse:

- Isso parece um relacionamento abusivo.

O abusivo ficou ecoando na cabeça dela. Abusivo, abusivo, abusivo. Claro que ela já havia pensado nisso. Só era muito difícil acreditar. Como poderia? “Comigo, não”, juraria há algumas semanas. “Faço análise, estudo relacionamentos, e não tenho mais idade para cair nessas furadas.”

A teoria é só teoria. Na prática, ela sabia, sim, sabia, que nada daquilo era normal. Tinha certeza de que ser deixada sozinha durante horas na casa dele, longe de tudo, não era aceitável. Mas ela aceitou; não sabe dizer bem o motivo. Essa parte ainda não conseguiu entender.

Foi mais difícil ainda entender o “você é maravilhosa” sussurrado no ouvido para, 24 horas depois, escutar, daquela mesma boca, “eu não quero mais ficar com você”.

Um jogo de morde-e-assopra, de sai-daqui-volta-aqui-eu-não-quis-te-machucar. Se não quisesse, cuidaria para que não machucasse. Quis. Quis mesmo. Ela, no meio de tudo, sem saber o que pensar. Uma pessoa que você conhece há tanto tempo seria capaz de fazer isso? Alguém com quem você trocou confidências e dividiu a cama?

Claro que seria. É exatamente esse o perfil de um relacionamento abusivo. Ela estava cansada de saber; só não queria enxergar – era doloroso demais. Logo ela, tão empoderada, que dá tantos conselhos. Ela deveria ter saído fora antes. Ela preferiu achar que ele não fosse capaz.

Deu oito horas, eles levantaram e se despediram com um abraço carinhoso. Ele seguiu para o Arcade Fire. Ela, para o New Order. Silenciosamente, no meio de milhares de pessoas, ela prometeu a si mesma que nunca mais iria deixar que um abuso se repetisse. Mas, lá dentro, ela sabe que não há como se proteger totalmente. O lance é correr assim que os primeiros sinais aparecerem. Tomara que ela os enxergue.

Tell me how does it feel
When your heart grows cold (grows cold, grows cold)

O medo – e a necessidade – de fazer exame de DSTs

Na Erotika Fair, que aconteceu esse último fim de semana em São Paulo, havia um stand da Secretaria de Estado da Saúde fazendo testes rápidos de HIV e sífilis. Ele estava bem escondidinho, longe da grande movimentação das lojas, com seus dildos coloridos, bonecas infláveis e mulheres seminuas (sempre mulheres, sempre mulheres).

Passei na frente com uma amiga, fiquei curiosa… e apreensiva ao mesmo tempo. Jogue a primeira pedra quem não fica ao menos nervosa na hora de pegar o resultado do exame de HIV. Eu nem vou pedir para jogarem pedras aquelas pessoas que nunca fizeram o teste. Segundo o Ministério da Saúde, em pesquisa de 2012, 135 mil brasileiros têm o vírus e não sabem.

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Acredito que este panorama se deva não apenas à falta de informação, mas ainda à ideia preconceituosa de que essa é uma doença “do outro”. Se a pessoa tem parceiro/a fixo/a, a tendência é se achar imune à contaminação, mesmo sem o uso do preservativo. É uma grande bobagem; basta acompanhar o aumento espantoso dos casos de HIV em mulheres da terceira idade.

As pessoas da minha geração têm um pouco mais de medo. Nós vimos muitos heróis morrerem de AIDS, como Cazuza, Freddie Mercury, Renato Russo. Hoje, não temos casos super reconhecidos de gente definhando por causa do vírus. Criou-se o mito de que AIDS não mata mais. Mito, mesmo: 1,7 milhões de pessoas morrem a cada ano por causa da doença.

O que acontece hoje é que, diagnosticando a presença do vírus nos estágios iniciais, dá para começar o tratamento e reduzir muito – quase zerar – a carga viral. Não é fácil ou confortável, mas não é uma sentença de morte, como era há vinte anos.

Eu, mesmo dizendo a todos os ginecologistas como minha vida sexual pode ser bem agitada, raramente saio do consultório com um pedido de exame de sangue para DSTs. Por que isso acontece? Qual o papel dos médicos nisso tudo, também? Eu sempre peço. Estou agora mesmo com uma requisição para um monte de exames, incluindo HIV e hepatite.

Mas com HIV eu não preciso mais me preocupar. Fiquei super tensa na hora de decidir se faria o teste rápido ou não lá na feira. Fui ligeiramente zoada pela minha amiga, mas não houve uma vez sequer que eu não tenha ficado nervosa.

O teste rápido é bem simples. Basta uma picadinha no dedo, como quando a gente vai medir glicose. Meia hora depois, o resultado. Na sala de espera para passar com a enfermeira e ela entregar o papelzinho de “negativo”, meu coração parecia uma bateria de escola de samba. Da Mangueira, por favor, pois apenas é a melhor.

Deu tudo certo e, apesar de todas as pragas rogadas na época que eu era Letícia, meus exames foram perfeitos. Isso mostra, mais uma vez, que DST não é doença de “gente promíscua”. É de qualquer um de nós e, por isso mesmo, temos que vencer o medo, fazer os exames (e pedir, se o médico não fizer isso), e vivermos em paz, sabendo que não somos um risco para nós mesmos e nem para os demais.

Faça os exames para DST. Cuide-se.

Ser mulher é ser sobrevivente

Post publicado no Facebook. Você já curte a página? Curte lá!

Escreverei longamente sobre o assunto, mas não poderia deixar passar esse momento. Todos vocês devem saber da pesquisa do Ipea sobre estupro e percepção sobre a violência contra a mulher.

Os dados chocaram quem não está diretamente ligado ao movimento feminista. Nós, feministas, batemos na mesma tecla o tempo todo: não estamos exagerando (infelizmente); a violência contra mulheres é epidêmica, é aterrorizante. E não é uma epidemia que começou hoje.

Segundo as descobertas do Ipea,

- 527 mil estupros acontecem no Brasil a cada ano, sendo que apenas 10% dos casos chegam ao conhecimento da polícia. Isso significa um estupro POR MINUTO no país.

- Dos casos registrados, 89% são cometidos contra mulheres; 70% contra crianças e adolescentes.

- 70% dos agressores são conhecidos da vítima, isto é, são familiares, amigos, chefes, e por aí vai. Gente que você deixa entrar na sua casa. Gente que deveria te defender. Gente que deveria te apoiar. Gente que aproveita que você baixou a guarda (porque ser mulher é ter a guarda levantada o tempo inteiro) e te violenta.

Um número que me assustou foi os 65% que acham que uma mulher MERECE ser ATACADA de acordo com a roupa que ela esteja vestindo. É muita gente. Olhe para os lados. Aí, pertinho de você, no trabalho ou na escola, quase 3 a cada 4 pessoas acha razoável, aceitável e, por que não?, aconselhável AGREDIR uma mulher em razão da roupa que ela veste.

É muita gente. É muita misoginia. É muito perigo para todas nós. E aí, o que a gente faz? A pergunta é honesta. Quando mais da metade da população se acha dona do corpo alheio, a ponto de agredi-lo, há como mudar esse panorama? Eu não sei; e isso me desespera.

Ser mulher é ser sobrevivente.

 

Projeto Cartas para o Futuro

Minha amiga talentosa, criativa, humana e maravilhosa Talita Ribeiro criou o projeto Cartas para o Futuro há alguns meses. Ela, ao contrário de mim, TIRA os projetos do papel e os transforma em realidade. Quer saber mais sobre esse lindo projeto? Lê o que a Tali escreveu – e participe!

Texto originalmente publicado em A vida quer.

Y. tem 7 anos e se nega a sorrir para fotos, porque tem vergonha de seus dentes. N., também aos 7, repete que seu cabelo “é ruim” e por isso não vai ao cabeleireiro. Ambas são moradoras da periferia, em uma cidade na zona leste de São Paulo, e começaram cedo a limitar suas vidas por conta das imperfeições que acham que têm. E isso só tende a piorar. Afinal, elas não têm dinheiro para usar as roupas e acessórios da moda, não têm acesso a cursos de inglês ou espanhol, dificilmente viajarão nas férias ou mesmo irão ao cinema… Elas crescerão à margem de uma sociedade que as julga pelo que aparentam, que diz o tempo todo o que elas devem ter e fazer para serem legais, sem notar o quanto isso é opressivo para quem não tem as mesmas oportunidades e condições das meninas do outro lado da ponte.

Foi pensando em Y., N. e na menina que eu fui um dia, na Brasilândia, que decidi criar o projeto Cartas para o Futuro, que visa ajudar garotas da periferia a terem mais confiança, em sua capacidade, talento, sonhos e, principalmente, no poder de transformar a sua própria realidade. Isso tudo por meio de uma rede de mulheres que apoie essas meninas, através de cartas direcionadas a cada uma, compartilhando histórias, conselhos e carinho. Outro ponto importante é incentivar o relacionamento entre essas mulheres e as garotas, através de um grupo fechado no Facebook, aproveitando para divulgar informações relevantes de cunho cultural, social, esportivo… O projeto prevê a realização de eventos focados no formação dessas meninas, com palestras sobre sexualidade, carreira, feminismo, auto-estima e outros temas, oferecendo também serviços básicos, como cabeleireiro, dentista, manicure-pedicure, doação de livros, bazar de roupas e o que mais conseguirmos agregar.

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Felizmente, ao compartilhar a ideia, conquistei apoios importantes para a execução do projeto. O primeiro foi do pessoal da Otagai, com quem tive o prazer de trabalhar no ano passado, e que ajudou a pensar na nossa atuação nas redes sociais. Depois, meu marido Marco Gomes me apresentou Eduardo Lyra, criador do Instituto Gerando Falcões, que fez a ponte com a diretora da Escola Estadual Professora Lacy Lenski Lopes, em Poá, onde iremos atuar a partir da próxima semana. A princípio, trabalharemos com 150 a 180 garotas da nona série do fundamental e do primeiro ano do ensino médio. A escolha das séries foi feita depois de conversar com as professoras e as coordenadoras da escola. Para começar o diálogo com as garotas e traçar o perfil de cada uma, além de cruzar com as informações sobre as mulheres da rede, contamos com o apoio do Instituto de Pesquisa Data Popular, do meu amigo Renato Meirelles. Já para juntar as mulheres e planejar em conjunto as próximas ações, a Samantha Shiraishi, minha comadre aqui do blog, levou a ideia para o Centro Ruth Cardoso, que topou realizar encontros em seu espaço, além de apresentar o projeto para toda a sua rede.

Apesar das boas parcerias que fechamos até aqui, nada disso fará sentido sem mulheres que topem compartilhar um pouquinho do seu tempo e palavras com as garotas de Poá e, porque não, do Brasil. A ideia não é concentrar o projeto no grupo que estamos formando em São Paulo, mas replicá-lo por todo o país. Desenhamos as pesquisas de tal forma, que possam ser utilizadas em outras tantas escolas cheias de garotas brilhantes e inseguras. Quero crer que essa é a primeira de muitas ações, que vão ajudar a escrever novas histórias para as mulheres do Brasil.

Para participar escrevendo cartas ou trabalhando nos eventos, você precisa responder a esse questionário. As respostas serão utilizadas apenas para direcionar melhor as cartas e ações do projeto. Você também pode nos ajudar a divulgar essa ideia, convidando outras mulheres a fazer parte da rede Cartas para o Futuro, seja através do seu blog, redes sociais, e-mails…

O selinho do projeto, feito pela talentosa designer Helaine Oliveira, pode ser copiado e utilizado para isso também Se estiver em São Paulo e quiser participar da primeira reunião presencial, segue o convite:

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Se não puder participar presencialmente do encontro, nós faremos um hangout da conversa, amanhã a partir das 18h, em um link a ser divulgado aqui também. Se tiver qualquer dúvida ou sugestão para o projeto, é só comentar! Desde já, muito obrigada por se interessar por esse sonho.

Homens costumam dizer que o estuprador e o agressor é sempre o outro. Quem é “o outro”?

Em qualquer texto que qualquer feminista escreva sobre o comportamento dos homens, vai vir alguém (homem) dizendo “eu não faço isso”.

Pode ser sobre um assunto menos importante, como só abrir a porta do carro para mulheres bonitas*. “Eu, não, eu faço isso com todo mundo, sou gentil!”

A revolta fica ainda mais óbvia quando falamos sobre assuntos difíceis de lidar, como estupro, assédio sexual, violência doméstica.

“Esses homens têm que ser castrados/mortos/trucidados/nãosãohomens/sãoanimais”, exclamam, furiosamente.

Fica impossível não imaginar, afinal, onde estão esses caras que agridem, que estupram, que assediam. Se todos dizem que não o são, quem são?

São seus amigos, seus parceiros de boteco, seus pais, seus irmãos, seus chefes, seus padrinhos de casamento. Ou você.

Sim, agressores de mulheres não têm uma cara, uma classe, um jeito específico. É mais fácil imaginar o maníaco do parque, serial killer (e estuprador) de mulheres, com aquele olhar bizarro e amedrontador. Eu não sou esse cara! Eu não sou esse cara!, bradam os comentaristas em qualquer post.

Quem é?

Alguém é. E não são poucos. Segundo estatísticas da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR), uma mulher é agredida a cada 12 segundos no Brasil. No Rio de Janeiro, são registrados 17 casos de estupro ao dia (lembrando que crimes sexuais têm subnotificação absurda). Para quem está chocado com o caso da garota de oito anos que morreu na “lua de mel” com o “marido” de 40 anos, a ONU aponta que até 2020 teremos 120 milhões (é, milhões) de child brides, garotas que são vendidas para o casamento.

Quem são esses homens?

É impossível que seja um só cara. Imaginem um estuprador que todos os dias ataca as 15 vítimas de violência sexual que procuram atendimento no Hospital Pérola Byington, na zona central de São Paulo. Só um cara. Irreal, não? Eles são muitos, e estão por aí, misturados com a gente, em todos os lugares. Por isso também o assédio na rua é tão agressivo; uma mulher não sabe quando aquela “cantada” vai virar coisa pior. Torna-se duplamente agressivo quando comentaristas dizem que estamos inventando, que é frescura, que somos puritanas.

Escrevo sobre sexo, sexualidade e feminismo há dois anos no blog Cem Homens. Todos os dias recebo e-mails de mulheres que foram violentadas física, sexual e emocionalmente. Todos os dias, mesmo. Não é jeito de falar. Todos os dias. Em cada post publicado com relato de vítima, há nos comentários várias outras mulheres narrando coisas semelhantes. Posso contar numa mão quantas dessas histórias têm como criminoso um cara desconhecido. Um “maníaco do parque”.

As narrativas envolvem quase sempre amigos, namorados, maridos, pais, padrastos, primos. A violência nem sempre é óbvia; os agressores dificilmente colocam uma arma na cabeça dessas mulheres. Grande parte das vezes, a ação começa consensual, e em determinado momento, a mulher não quer mais se engajar naquilo. Seja porque perdeu o tesão, seja porque é uma prática que não curte, seja porque ela simplesmente não quis mais. E o cara insiste, insiste, insiste e a mulher se sente obrigada a ir em frente.

Há muitos relatos, também, de homens que tiram a camisinha durante o coito, sem avisar a parceira. Outros, “aproveitaram” que a mulher dormia para passar a mão no corpo dela – alguns chegam ao absurdo de penetrá-la. Se formos falar de bebida, então, os relatos se multiplicam em progressão geométrica. “Dar um vinhozinho para amolecer a garota” é prática constante, até estimulada. Pois bem: isso é estupro.

Portanto, minha intenção no post de hoje é fazer com que algum homem, pelo menos uns dois ou três, percebam que o problema não é “o outro”. Talvez seja você, se você pratica algum dos atos acima (insiste, assedia, passa a mão em desconhecidas ou mulheres adormecidas, embebeda garotas ou se aproveita do estado alcoolico dela). Possivelmente “o outro” é algum cara que você conhece. Pode ser o homem sentado na baia ao lado. E que você precisa, sim, fazer algo.

Tenha certeza de uma coisa: você conhece não uma, nem duas mulheres que foram estupradas. Uma a cada cinco mulheres já sofreu violência. Faça as contas. São muitas mulheres, e o problema está, também, sinto dizer (sinto mesmo), em você.

 *a questão cavalheirismo versus gentileza é um assunto muito desimportante, ao contrário do que pregam os antifeministas. Feministas reconhecemos que gentileza é ótimo, agradecemos, mas cavalheirismo nos trata como imbecis e incapazes. Portanto, passamos.

Post publicado originalmente na Carta Capital, em 13/09/2013

BBB, de novo, todo ano

Esqueça que é o BBB, se você acha o programa “alienante”. Foque apenas no que acontece lá dentro, espelho da sociedade, e como essa mesma sociedade se enxerga ali.

Esqueça o BBB.

Foque em todas as 17 vítimas que, a cada dia, procuram a polícia no Rio de Janeiro para denunciar estupro. Foque em todos os relatos de abuso publicados em blogs feministas. Foque na sua amiga, essa aí, sentada ao seu lado no trabalho, que “teve que” transar com o parceiro porque é a obrigação dela. Foque nas pessoas.

Porque por mais que as redes sociais se inflamem e as torcidas se xinguem, quem está ali dentro daquela casa é gente. Como eu e você. E a forma como você enxerga a violência física, verbal, psicológica ou sexual que acontece com aquelas pessoas é exatamente a mesma forma como você enxergaria se acontecesse ao seu lado.

E isso é assustador, porque não é possível que as pessoas achem normal que alguém faça qualquer coisa com alguém desacordado. Eu sempre achei estúpidas aquelas brincadeiras de pintar o rosto de alguém, passar pasta de dente, tirar fotos fazendo gracinhas, imagine se quaisquer dos atos tiver uma conotação sexual.

“Ah, foi só um beijo/selinho/sei lá qual justificativa estúpida deram.” Na nossa cultura, um beijo significa muito, especialmente para quem já disse, repetidamente, que não queria aquele tipo de interação. A pessoa violentada tende a sentir nojo, se sentir suja, e culpar-se. Quando vocês todos a culpam junto, o foco sai de quem sempre devia estar: o abusador. O holofote tem que ser nele. Sempre nele. Para as vítimas, devemos dar apoio, compreensão, ajuda terapêutica (aparentemente tem um psiquiatra aí que é melhor ninguém procurar…), amor. Não importa se foi um selinho; um olhar já é capaz de acabar com a autoestima de uma mulher, que passa a vida inteira procurando em si mesma qual o seu problema. Uma dica: a culpa não está em você, está nessa sociedade misógina, suja, patriarcal e que trata os corpos das mulheres como de domínio público. A culpa não é sua.

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Em tópicos, para facilitar:

- “Ela bebeu voluntariamente.” De fato. Como 99% das pessoas que você conhece. Eu não bebo e, toda vez que conto isso, me olham como se eu fosse extraterrestre. “Mas por quê? Nem um vinhozinho? Aconteceu alguma coisa para você não gostar?”

Todo mundo bebe e isso é, inclusive, incentivado nas festas do programa, para que as pessoas dancem gritando U-HU em músicas miadas e ~se libertem~. É um comportamento socialmente aceito e não é crime. Ela (ou você) beber não dá direito de ninguém tocar no seu corpo.

- “Ela se insinuou.” Eu não vejo o programa, mas tem muita gente dizendo que ela estava há dias negando as ~investidas~ de Marcelo. Ela poderia até ter se insinuado. Dicona: mulheres são criadas para se insinuarem para os homens e depois negarem. Isso também faz parte da cultura do estupro. A caça e o caçador. Se insinuar não é o mesmo que dar consentimento. Insinuar-se é flerte. Preciso explicar a diferença entre flertar e beijar/trepar?

- “Ela deu abertura.” Taí um conceito que não consigo entender. Que diacho é dar abertura? Existir? Porque eu vejo muita mulher nas ruas não dando abertura para nada e mesmo assim sendo assediadas por estranhos… E essa abertura é irrevogável? Vale pra sempre? Ex-namorados têm direito aos nossos corpos porque um dia nós os deixamos que eles nos tocassem? É assim que funciona?

Não, não é assim que funciona.

Eu queria resumir esse texto a uma frase só: você não é obrigada a nada, não importa quais atitudes você tomou antes.

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Ano passado escrevi pra caramba sobre o caso Monique, também no BBB. Você lê os textos aqui.