E se fosse com você?

Neste post não vou nem falar sobre o poder da mulher sobre o próprio corpo. Há muitos bons textos sobre o assunto por aí. Trata-se de uma reflexão a partir da minha experiência.

Nunca quis ter filhos. Quando criança achava que engravidaria, “porque é assim que as coisas são”. Com o passar dos anos, vi que não era a minha. E, por isso mesmo, sempre tive pânico de uma gravidez indesejada.

Tomava pílula, usava camisinha e ainda assim desconfiava de um mísero atraso na menstruação. Se ela não viesse naqueles sete dias de pausa do anticoncepcional, eu surtava. Engravidar significaria, entre outras coisas, voltar a morar em Manaus – coisa que eu prefiro que não aconteça.

É evidente que em alguns momentos desconfiei que uma gravidez pudesse ter acontecido. Quem nunca tomou a pílula do dia seguinte, se deparou com uma camisinha estourada ou se empolgou e sequer usou preservativo que atire a primeira pedra.

Por duas ou três vezes tive receio de estar grávida. Não havia indício nenhum. Numa delas, lembro da moça do laboratório perguntando há quanto tempo eu não menstruava. Meu ciclo estava normal, mas eu havia lido que muitas mulheres continuam menstruando, mesmo gestantes. Ela ficou me olhando com cara de ????, mas colheu meu sangue.

Até sair o resultado, porém, eu cismei estar grávida. Chorava. Via diversas gestantes na rua e me imaginava com aquele barrigão. Pensava nas mudanças que uma gravidez acarretaria na minha vida e na do meu então namorado. Em nenhum momento pensei na possibilidade de abortar. Jamais vi gravidez como algo horroroso, que “estraga” a vida de uma pessoa. Conheço mulheres que tiveram filho na adolescência e, por mais que à época parecesse o fim do mundo, hoje são muito felizes com a prole – hoje os filhos já estão até na adolescência.

Mesmo tendo consciência disso tudo e sabendo que minha família jamais me abandonaria, eu não queria ter um filho. Desejei fortemente que o exame desse negativo. Enquanto o resultado não saía, perambulei pelas ruas do Rio de Janeiro apreensiva. Foram, sei lá, um ou dois dias apenas. Bem pouco tempo, mesmo.

E, naquele período, vivi um turbilhão de emoções. Oscilava entre o desespero completo, o medo absoluto… até que comecei a amar um bebê que jurava estar dentro de mim. Que, àquela altura, não seria uma criança, claro. Seria quase nada.

Até que fui buscar o resultado. Quem pegou foi uma amiga. Fiquei esperando no saguão do laboratório, e ela voltou com um risinho nos lábios. Eu estava sendo patética, gelada, nervosa. Negativo. Fiquei aliviada.

Foi a única vez que cheguei a fazer um exame de sangue para verificar se estava esperando um bebê. Houve outras ocasiões em que me virei com o teste da farmácia. Sempre negativo.

Hoje, enquanto pensava sobre o julgamento de amanhã (quarta, 11) no STF sobre a interrupção da gravidez em caso de anencefalia, fiquei relembrando das sensações que tive enquanto achei – por algumas horas – que esperava um filho.

Repito: foram algumas horas, mas eu passei por uma montanha russa de emoções.

Daí imaginei como teria sido se eu tivesse, de fato, engravidado. Teria mudado minha vida inteira. Meu namorado e eu largaríamos a faculdade para voltar pra Manaus (ele também é de lá). “Enfrentaríamos” nossas famílias (convenhamos, dar essa notícia quando nãos e está casado-ganhando-dinheiro é muito difícil). Com o passar das semanas, estaríamos celebrando a vinda de um bebê.

Mas poderia ser que, aos três meses de gestação, eu descobrisse que aquela criança na verdade não tinha cérebro. E aí? Pela lei vigente hoje no Brasil, eu teria que continuar com a gravidez. Vocês conseguem imaginar isso? Carregar dentro de si um feto que jamais viverá?

Passar meses encontrando as pessoas na rua que te parabenizarão pela vinda de uma criança que você sabe que não tem como sobreviver? Fazer exames médicos, correr risco de vida, passar por uma cirurgia para “colocar no mundo” um bebê que não tem a menor chance de sobrevivência? E, caso chegasse a parir, ter de registrar no cartório, dar um nome a um bebê, e depois enterrá-lo?

Vocês têm noção do que isso deve significar para uma mãe?

Eu não consigo sequer imaginar o tamanho dessa dor. Como disse, eu amei a possibilidade de ter um filho. E foram apenas algumas horas. Pensem como seria se fossem três meses. Imaginem o corpo mudando, os hormônios enlouquecendo, a menstruação faltando. Para, mesmo com tudo isso, você não poder fazer o chá de bebê, decorar o quartinho, comprar fraldas. Nada.

Do ponto de vista meramente legal, lembrem-se que o Código Penal, que criminaliza o aborto, é de 1940. Na época era impossível precisar se um feto era anencéfalo. Nem ultrassonografia existia à época.

Quanto à questão religiosa, sou de criação católica e durante muitos anos me declarei espírita. Para quem tem essas crenças, o aborto não é “permitido”. Mas este é um aspecto religioso que não pode influenciar na legislação do nosso país que, em tese, é laico. Além disso, temos de respeitar quem crê em outras coisas – até mesmo em nada. Se você não acha bacana abortar, pois acredita que isso já estava escrito no seu destino e que já há um espírito destinado a passar pelo abortamento, então não aborte.

Também é ridículo dizer que uma mulher que aborta é assassina. Então quando doamos órgãos de quem teve morte cerebral nós estamos matando essa pessoa? A medicina tem meios, hoje, de identificar quando não há mais possibilidade de sobrevivência. O mesmo vale para quem diz “ah, então vamos abandonar um ente querido que tem uma doença fatal?”. Aquela pessoa já viveu, respirou, sorriu. Nós sempre temos esperança de uma reviravolta. E, quando nos damos conta de que não há jeito, fazemos de tudo para manter a pessoa confortável, dando todos os cuidados paliativos para que a morte seja o mais “tranquila possível”.

No caso de uma gravidez de anencéfalo, não se trata de “morte”, simplesmente porque não há vida. Por mais triste e doloroso que isso seja. Não se pode é prolongar essa dor ainda mais, por meses, gerando traumas pessoais e familiares que podem ser evitados. Espero que nesta quarta o STF reconheça o direito da mulher a interromper a gravidez. Chega de torturar mulheres.