A terceirização da culpa

Várias pessoas me mandaram o link da coluna de domingo da Danuza Leão na Folha. Eu li, fiz alguns comentários no Twitter, mas sinceramente não ia escrever nada a respeito.

Afinal, todos os dias eu leio textos e comentários com o mesmo discurso: de que as mulheres precisam se preservar, que a culpa das agressões sexuais é da roupa que elas estão vestindo, que os hormônios fazem os homens enlouquecer e atacar mulheres nas ruas. Se eu for fazer um post a cada vez que vejo um absurdo desses, não farei outra coisa na vida.

Porque, infelizmente, esse é o discurso da maioria.

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Agressões sexuais acontecem em qualquer cidade, em qualquer classe social, com pessoas de qualquer idade. Não é um crime do OUTRO. Ele está bem próximo, ameaçando todos nós, o tempo todo. Pode acontecer com você, com a sua irmã, mãe, namorada. Ainda que as estatísticas sejam mais baixas de homens como vítimas, essa também é uma realidade que não deve ser esquecida ou menosprezada.

Portanto, se homens são também vítimas de estupro e outras agressões sexuais, como se pode em 2013 justificar tais crimes pela roupa curta?

André Forastieri, colunista do R7, fez isso ontem (copio só o último parágrafo abaixo):

Nada de moralismo aqui. A juventude que faça o que quiser com seus orifícios e protuberâncias. Mas se as moças dão pinta de puta, serão tratadas por muitos rapazes de acordo, sendo ou não. É melhor para as meninas valorizar algo mais que suas partes. Sou todo a favor do sex-appeal (surpresa!). Mas cresci interessado por moças que  seduzem com mais do que carne à mostra, e que fazem questão de ser tratadas de igual para igual. Ser amado por uma mulher assim, não há dinheiro que pague. Mesmo que seja por só uma noite…

Eu ainda não consegui entender duas coisas do texto do Forastieri. Ele diz que as moças hoje estão se vestindo de maneira sedutora, “mostrando as carnes”. Ele estava em coma nos últimos, sei lá, 50 anos?

Outra parte foi essa de “as moças serão tratadas como puta”. O que é tratar alguém como puta? Putas podem ser tratadas como indignas de respeito? Como funciona isso?

Ler tamanho desatino me fez ficar pensando porque as pessoas insistem em querer dizer como o outro deve se vestir ou se comportar. Ok, é controle, já falei isso mil vezes aqui no blog.

Mas me parece que tem algo ainda por trás de tudo isso. Assim como agressões sexuais podem acontecer com qualquer um de nós, muitos de nós também podemos ser os agressores. Ou vocês acham que os 17 casos de estupro denunciados todos os dias no Rio de Janeiro são perpetrados pelo mesmo louco estuprador? Os criminosos também são nossos amigos, colegas de faculdade, familiares, parceiros.

Repetindo o discurso de colocar a culpa na vítima, essas pessoas estão não apenas absolvendo os criminosos denunciados, mas a si mesmos.

“Se eu avancei mais do que devia, a culpa foi dela, que me provocou.”

“Se eu desrespeitei uma desconhecida na rua, a culpa foi dela, que estava com um decote com os peitos pulando pra fora.”

“Se eu constrangi uma colega de trabalho, a culpa foi dela, que fala abertamente sobre sexo e eu achei que estava me cantando.”

“Se eu passei a mão na garota no metrô, a culpa foi dela, que tem uma bunda grande e estava de calça colada e eu não me controlei. São meus hormônios.”

É a terceirização da culpa, como se não fossemos capazes de responder pelos nossos próprios atos. Vejam que não incluí nos exemplos acima a penetração à força, porque essas pessoas que repetem o discurso da culpabilização da vítima também dizem repudiar tal agressão.

Mas se elas justificam agressões “menores”, elas estão corroborando com uma cultura que nega o direito ao próprio corpo, com consequências terríveis para as vítimas.

Agredir verbalmente, desconfiar da vítima, passar a mão, penetrar com dedos, pênis ou qualquer outro objeto, tudo isso faz parte da mesma cultura. Esses atos são cometidos por alguém, não são uma simples reação ao comportamento da vítima. Chega de terceirizar a culpa.

Desculpa, mas você precisa do feminismo

Texto originalmente publicado em 7 de maio de 2013 no Facebook, mas aqui coloquei links que não existem lá

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Eu sei. Dói. Você leu em todos os lugares, as músicas te disseram, as capas de revistas afirmaram em letras garrafais: “você pode tudo”.

Mas era mentira.

A essa altura você já deve ter percebido. Está enfrentando transporte público lotado, escolhe coisas no supermercado pelo preço, espera ansiosamente pela promoção de passagem aérea.

Nem sinal daquelas prometidas condecorações e da sala com vista para a Marginal Pinheiros.

Você fez a lição de casa direitinho: estudou, passou no vestibular, se formou, fez pós, estudou inglês-francês-alemão, mas… nada.

Também disseram que não importa se você é homem ou mulher. “As oportunidades são iguais para todos, basta se esforçar.”

Namorou anos, não casou, conta nos dedos quantos caras beijou na vida e na primeira vez que transou com alguém com quem não tinha “compromisso”, logo colocaram o letreiro de “puta” na sua testa.

(na verdade, você nem transou, mas todo mundo acha que sim, então é isso que importa.)

Mesmo sendo um pouco cruel, eu preferia dizer que você é que é uma azarada. Que errou em alguma escolha de carreira, que é rodeada de amigos babacas, que a culpa é toda, individualmente, sua.

Se eu dissesse isso, eu estaria apagando a história:

- de 7 a cada 10 mulheres: elas serão agredidas ao longo da vida;
- das 500 pessoas que, só em fevereiro, denunciaram estupro à polícia do Rio de Janeiro;
- das 10 mulheres assassinadas por dia no Brasil;
- de todas as mulheres que, exercendo a mesma função que um funcionário homem, ganham 30% a menos;
- de 45% da força de trabalho brasileira que, só por serem mulheres, nunca chegarão a cargos de diretoria (mulheres ocupam apenas 7,9% desses cargos)¹;
- de 1 a cada 4 mulheres que será abusada sexualmente;
- das 2 milhões de mulheres que anualmente passam pela mutilação genital;
- das 140 milhões de crianças que casarão à força até 2020.

Eu queria dizer que você não precisa de feminismo. Queria muito. Eu só não posso.

(todas as estatísticas acima são de órgãos oficiais, como Secretarias de Segurança Pública, ONU, Banco Mundial, Unicef e IBGE.)

 ¹ Dado do Núcleo de Direito e Gênero da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas, segundo o livro Faça Acontecer, da Sheryl Sandberg.

Jogo dos sete erros

Leiam esta reportagem da Folha (original aqui). Os grifos são meus:

Aluna de 13 anos de colégio particular denuncia assédio sexual praticado por colegas

A vítima tem 13 anos. Os agressores, 14. Todos são alunos de uma tradicional escola particular paulistana. No último mês, são o centro de um enredo que põe à prova o papel de pais, educadores e da própria instituição e que abre o debate sobre violência sexual entre adolescentes.

A garota, do oitavo ano, diz ter sido assediada sexualmente por três meninos do nono ano. Segundo ela, os meninos mandaram uma mensagem de celular falsa, em nome de um amigo dela, marcando um encontro para depois da aula de inglês.

Chegando lá, em uma praça perto do colégio, na zona oeste, ela conta ter sido cercada e agarrada contra a vontade pelos três. Conseguiu se desvencilhar e foi direto à escola fazer a denúncia.

A instituição suspendeu os meninos por sete dias e se viu na obrigação de debater o fato, já que versões aumentadas ganharam os corredores. Uma orientadora percorreu as turmas do quinto ao nono ano esclarecendo 500 alunos.

“É grave, mas não se trata de estupro”, informou a direção da escola. Para não expor os envolvidos, a Folha preservou o nome da instituição.

“Não houve violência física, mas desrespeito. Estamos trabalhando a questão e acreditamos ser possível reverter a situação dentro da escola”, disse a coordenação.

A família da garota decidiu não levar o caso à polícia. “Estamos tomando as decisões com o colégio”, diz a mãe da menina, que é professora na mesma instituição.

Os pais dos meninos não quiseram se manifestar. A garota também não quer mais tocar no assunto. Sua mãe diz respeitar a decisão, mas afirma: “Escolhemos viver a situação, e não esquecê-la. Estamos atentos às consequências e abertos ao diálogo”.

BRINCADEIRA BOBA (sim, esse grifo é meu pq né)

Há duas semanas, em outra escola particular na mesma zona oeste, dois meninos de 12 anos foram suspensos por terem feito “uma brincadeira” com alunas da mesma idade. “Eles chegam por trás, põem a mão no ombro das meninas fingindo que vão abraçar e descem até os seios”, descreve a orientadora. Só que uma reclamou. “Chegou com olhos cheios de lágrimas, disse que pegaram no seu peito.”

Um dos garotos assumiu e quis pedir desculpas à colega, que não aceitou. Os pais foram chamados e os meninos, afastados por um dia.

Situações como essas são, sim, violência sexual, segundo a psicóloga Renata Coimbra Libório, pesquisadora da Unesp. “Não precisa consumar o estupro. O toque sem consentimento é abuso.”

Tempos atrás, um aluno distribuiu na sua escola um vídeo em que ele fazia sexo consensual com uma colega de 13 anos. Ele foi separado da turma até a conclusão do semestre e, depois, convidado a se retirar do colégio.

Casos de adolescentes que passam dos limites são frequentes e não acontecem só na escola, mas em festinhas e baladas, lembra a psicóloga Rosely Sayão, colunista da Folha. “A sexualidade desses jovens está muito exacerbada e eles não têm noção de respeito. Acham normal passar a mão nas meninas e beijar não sei quantas”, diz.

A fase dos 13 anos é a pior, segundo Sayão. É quando a efervescência hormonal se junta à hiperestimulação.

“Há estímulos o tempo todo, na TV e na música”, diz Neide Saisi, psicopedagoga e professora da PUC-SP.

Muitos desses estímulos não são positivos, segundo Antonio Carlos Egypto, psicólogo especialista em orientação sexual. Basta assistir a um programa de humor ou a peças publicitárias para perceber que “a imagem da mulher-objeto é usada de maneira escancarada”, diz ele.

“Os adolescentes falam que vão ‘pegar’ alguém. A gente só pega objetos”, complementa Sayão.

A desvalorização da mulher é reforçada pela família e pela escola mesmo sem saber, segundo Renata Libório: os pais valorizam o comportamento garanhão dos meninos e a escola pensa estar prevenindo a violência aconselhando as meninas a usar roupa larga e saia comprida.

“Por que não ensinar o menino a respeitar a menina, não importa a roupa que ela use?”, pergunta.

PREVENÇÃO

A prevenção da violência sexual nessa faixa etária depende de uma discussão sobre papéis e gêneros, segundo Egypto. E isso é responsabilidade da escola e da família. “Não tem só que discutir a prevenção de gravidez na adolescência. É preciso falar do prazer, de como conter os impulsos. Não podemos fingir que o desejo não existe.”

Dá para contar nos dedos as escolas particulares de São Paulo que têm projetos específicos de sexualidade, de acordo com Maria Helena Vilela, diretora do Instituto Kaplan, entidade que faz trabalhos em educação sexual.

O tema está previsto nos Parâmetros Curriculares Nacionais. “Não é o que acontece. A sexualidade deve estar em palestras e no dia a dia dos professores, na forma como tratam todos os temas.”

No Gracinha (Escola Nossa Senhora das Graças), a professora de ciências e a orientadora são responsáveis por falar com as turmas sobre sexo.

“Tenho uma aula por semana e falamos de sexo, internet e outros assuntos”, diz Nausica Riatto, orientadora do sexto ao nono ano. Ela considera que o colégio faz um trabalho de prevenção, mas, mesmo assim, todo ano acontece uma polêmica relacionada a sexo na escola, como casos de exibição de imagem na internet.

No Colégio Bandeirantes, a bióloga Estela Zanini coordena há 16 anos um programa de educação sexual que inclui aulas semanais. “Eles têm muita informação sobre sexo, o problema é que nem sempre essa informação é contextualizada, muitas vezes é cheia de preconceitos.”

O que falta talvez não seja educação sexual, mas o ensino de valores morais.

De acordo com a pedagoga Luciene Tognetta, pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral, o tema é alvo de um jogo de empurra entre escola e pais. “Não cabe só à família ensinar respeito e regras de convivência”, afirma.

Os pais deveriam passar valores ligados ao espaço privado. A escola deveria ensinar regras da vida pública. “É no relacionamento com pessoas de fora da família que desenvolvemos princípios éticos apurados e aprendemos a respeitar qualquer um.”

Para Tognetta, o ensino moral deve ser espalhado por todas as disciplinas e servir de vacina contra a violência.

“Ainda pensam que a moral é ensinada em aula de religião. É preciso debater, fazer com que o aluno pense nas suas atitudes. A escola tem esse dever.”

Mas a instituição sozinha não faz tudo, lembra Sayão. “A escola precisa de apoio, está acuada e impotente, e que apoio a sociedade tem dado? Não vejo ninguém como vítima ou culpado nesse caso. A sociedade é cúmplice dessa história.”

***

Essa reportagem é um show de equívocos. Não acho que seja má fé, como não acredito que todos os meus colegas jornalistas deliberadamente escolham fazer matérias sexistas. Compreender questões de gênero é trabalho diário – e o senso comum ainda é bem binarista e nada igualitário.

Ainda mais se você entrevista uma especialista na área da reportagem, e ela fala um monte de besteira. Ela é conhecida, tem livros publicados, dá palestras. Entender que ela talvez esteja falando bobagem é difícil mesmo.

Então, à exceção de alguns casos específicos, eu não acho que os jornalistas em geral sejam maldosos e que se importem pouco com direitos humanos ou de minorias. Isto dito, vamos à análise dos erros, na ordem dos grifos:

1) A adolescente foi agarrada contra a vontade e denunciou à escola. Logo, minimizar o que ela passou é, sim, criminoso;

2) “Não houve violência física, mas desrespeito. Estamos trabalhando a questão e acreditamos ser possível reverter a situação dentro da escola” – violência física é desrespeito. Não é a única forma de desrespeito, mas as coisas não são excludentes. Houve desrespeito, houve violência física. As duas coisas. E crimes não se revertem dentro da escola, até porque não há como voltar no tempo e apagar o que aconteceu à garota.

Vejo aqui o que acontece sempre, como foi duramente criticado no caso de Steubenville: existe uma necessidade enorme de “proteger” os agressores, todo mundo super preocupado com o que será do futuro desses jovens. E do futuro da vítima, quem cuida?

3) Brincadeira boba – eu não sei nem o que dizer desse chapéu (chapéu é essa palavrinha aí no meio do texto, meio solta, sabem? em cada redação/jornal é chamado de um jeito). Passar a mão nos peitos de uma pessoa (homem ou mulher) sem ser consensual é crime. “Pegar de surpresa”, como esses garotos estão fazendo, não muda o fato de que não foi consentido; a pessoa nem tem a oportunidade de dizer não.

E o que a escola fez com quem foi denunciado? Suspendeu por UM dia!!!

4) “A sexualidade desses jovens está muito exacerbada e eles não têm noção de respeito. Acham normal passar a mão nas meninas e beijar não sei quantas”, diz Rosely Sayão. Ai, mas que equívoco. QUE EQUÍVOCO.

Não existe isso de “sexualidade exacerbada”. Adolescentes pensam em sexo, muito. É assim desde sempre. Os jovens envolvidos no caso têm 13/14 anos. Há vinte anos, quando eu tinha essa idade, meus colegas falavam bastante de sexo, muitos transavam (ou faziam suas primeiras experiências que as pessoas não costumam chamar de sexo na nossa sociedade falocêntrica, mas que eram atos sexuais, como sexo oral ou masturbação mútua), algumas engravidavam.

E isso já faz vinte anos.

O que rola é que as pessoas (pais e escola) preferem olhar para os adolescentes como se fossem crianças, como se ainda fosse cedo demais para falar de certos assuntos, e eles acabam se engajando em atividades sexuais sem educação apropriada para tanto. Eu não falo apenas do uso de camisinha ou de anticoncepcional, mas de tudo o que se refere a sexo, como questões do duplo padrão moral, consensualidade, coerção.

Há muito julgamento, o que leva à vergonha e à desinformação. Adolescentes irão transar, é fato. Resta saber qual educação darão a eles.

5) “A fase dos 13 anos é a pior, segundo Sayão. É quando a efervescência hormonal se junta à hiperestimulação.” PIOR.FASE. (agora tenho problemas em escrever assim, porque as falas do Grey, em Cinquenta Tons, às vezes são pontuadas desse jeito.)

O que ela quer dizer com isso? Que aos 13 temos uma descarga absurda de hormônios, incontrolável mesmo, e depois tudo se estabiliza?? Essa fase, que não acontece igual pra todo mundo, é de descobertas, de experimentações, de curiosidade natural e saudável. Desde que, mais uma vez, seja feito com consciência e com todos de acordo. Mas é difícil pensar nisso quando especialistas insistem na carta do “incontrolável”, como se bichos fossemos!

Um outro especialista ainda fala em “conter impulsos”. Olha…

6) “O que falta talvez não seja educação sexual, mas o ensino de valores morais.”

Risíssimos.

Falta, sim, educação sexual. Qualquer especialista sério vai dizer isso, qualquer estudante vai dizer isso, qualquer pai vai admitir (pra si mesmo) isso.

E o que são valores morais? Em que ano estamos? Que educação estamos discutindo?

7) ”A escola precisa de apoio, está acuada e impotente, e que apoio a sociedade tem dado? Não vejo ninguém como vítima ou culpado nesse caso. A sociedade é cúmplice dessa história.”

Sayão, mais uma vez. Como ela não vê ninguém como vítima ou culpado? Garotos se unem para abusar de uma garota e tudo bem? Além da questão óbvia de gênero, eles estavam em maior número e utilizaram de um método para enganar a vítima.

Claro que não estou tirando a culpa da sociedade. Falo disso sempre aqui no blog: é preciso acontecer uma mudança estrutural, quebrar paradigmas, mandar os papéis de gênero pra muito longe, eliminarmos a violência.

E entender que abuso não tem nada a ver com sexo, com impulsos carnais, com hormônios, com a aparência da vítima. Misturar as coisas é desonesto e suja o sexo, que é das coisas mais sublimes que nós, seres humanos, experimentamos.

O desrespeito nunca termina

A história da agressão de Gerald Thomas à Nicole Bahls teve desdobramentos inesperados para mim. A reação sexista e opressora era esperada, mas ao mesmo tempo vi muita gente discutindo a sério a cultura do estupro.

Por outro lado, as tentativas de justificar o que aconteceu transformam o caso numa agressão sem fim. Agora, além de lidarmos com o abuso físico sofrido por Nicole, temos de ver muita gente, capitaneada pela velha mídia, menosprezando o acontecido. O problema é que a agressão não aconteceu num vácuo. O tempo todo e no mundo inteiro pessoas são abusadas, estupradas e ameaçadas.

Quando falamos de Gerald Thomas e Nicole Bahls, não estamos nos restringindo a esse caso. Todos os textos sérios que li a respeito tratavam da cultura, de como certas atitudes consideradas não criminosas e até aceitáveis fazem parte de um panorama maior – e, juntas, normatizam a ideia de que não somos donos dos nossos próprios corpos.

Nem de longe se trata de falso moralismo. Para quem não me conhece, este blog nasceu com relatos dos meus encontros sexuais. Eu tenho um livro publicado a respeito. Falo a respeito e faço sexo com naturalidade, além de advogar pela liberdade individual e pleno exercício dos nossos corpos, com um parceiro, com mil, com nenhum; com ou sem amor; com estranhos ou com pessoas íntimas. Pra mim, só há três regras: que seja seguro, que seja prazeroso, que seja consensual. Esse consentimento deve ser ostensivo. Não deve ser ausência de não e sim um “quero” com toda a força que o desejo tem.

Por mim, discutiríamos sexo sem pudores e sem a hipocrisia social obrigatória. Contudo, o que aconteceu ali não foi sexo. Foi um toque agressivo na região genital da moça, por si só já suficiente para caracterizar o crime de estupro de acordo com a lei vigente. É a primeira vez em que uso a figura do estupro para me referir ao que aconteceu (estou falando da tipificação penal, não da cultura, porque desta última falei bastante).

É importante dizer isso porque muitos estão falando que é necessário haver penetração para o crime acontecer. A lei mudou em 2009 e, ao menos isso, abandonamos pelo menos legalmente a perspectiva falocêntrica do estupro. Antes, era necessário que houvesse penetração de um pênis numa vagina. Por conseguinte, o uso de objetos ou a penetração anal caracterizavam outro crime, diminuindo a importância da agressão.

Entendo que quem não trabalha com direito desconheça o tipo penal. Vejo a repetição do “não houve penetração” como mera má informação em alguns casos. Em outros, especialmente quando é um jornalista, entendo como uma atitude desonesta.

Assim como foi desonesto o programa Pânico de ontem. Começou com uma patética manifestação feminista fake. Não havia feministas ontem na porta da emissora de tv, assim como não houve ameaça ao diretor do programa. O que aconteceu foi uma manifestação pacífica, online, por meio de blogs e páginas do Facebook. Contratar meia dúzia de atrizes para fingir que havia ali uma manifestação é muito reprovável.

Muitos telespectadores acreditam sem pestanejar no que assistem. Ao criar o “protesto”, a produção do programa se deu uma importância que não existe, além de tentar reiterar a ideia de que nós, feministas, somos apenas umas mulheres sem ter o que fazer e que reclamam por tudo. Basta ver as perguntas toscas feitas pelo Vesgo: “desde que horas você está aqui?”. Na cabeça de muita gente deve ter ecoado o “estão lá o dia inteiro e a pia deve estar cheia de louça pra lavar”.

Isso já seria suficiente para mostrar o desrespeito com que somos tratadas. Eu sei que as bundas em profusão e as humilhações contumazes no programa já demonstram isso. Mas não é a discussão do momento (sim, feminismo também trata da cultura da objetificação dos corpos e da exploração comercial dos mesmos).

O desrespeito continuou com a presença do psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg no longuíssimo VT sobre o caso. Ele falou em projeção e sobre como nossa sensibilidade é a responsável por acharmos que aquilo foi uma brincadeira (como se fosse possível) ou uma agressão. Esse papo de projeção como justificativa pra tudo é patético, pois tira o foco do ato e o coloca na reação do outro.

Ele mencionou repressão sexual, e este é outro discurso que não cabe aqui. Eu sou totalmente a favor de pegarem na minha buceta, inclusive gosto muito, desde que eu tenha permitido. O consentimento, aliás, é necessário para qualquer toque e até mesmo para falar com alguém fora das circunstâncias meramente sociais. Para piorar as coisas, ele ainda disse que Nicole é irresistível. Como escrevi no post anterior, não somos irracionais, movidos por uma força incontrolável que nos faz usar do corpo alheio sem permissão para tanto.

O apresentador do programa também não foi honesto quando disse que a imprensa estava perseguindo a produção. Pelo contrário: a velha mídia (jornais e sites de grandes conglomerados) trataram tudo como brincadeira. Claro! O que seria da mídia sem o jornalismo punheteiro? Além disso, pintaram Gerald Thomas como gênio e excêntrico, enquanto Nicole seria apenas a gostosa da vez. Se alguém ainda tem dificuldade de enxergar pra que lado a balança pende nesta relação…

Depois de um programa todo roteirizado para fazer chacota da moça e endeusar o diretor de teatro, o tiro saiu pela culatra. Emilio pergunta à Nicole se ela achava que era uma brincadeira. A resposta foi positiva mas, quando o apresentador já estava encerrando a transmissão, Nicole aproveita o microfone aberto e diz “se fosse na rua, eu teria feito um barraco”.

“Então por que ela não fez ali?”, perguntam muitos. A resposta não é fácil, tampouco objetiva. Só ela pode dizer o que sentiu. E não, eu não estou falando de uma declaração à imprensa, mas sobre o que ela sente no âmago. Talvez ela não tenha consciência do que lhe aconteceu.

Afirmar isso não é vitimizar a mulher, mas negar é, certamente, ignorar as relações de poder e a história de abuso (não só sexual) dos corpos de quem faz parte de minorias.

A discussão ultrapassa o fato acontecido na última semana, pois ele fala sobre nós. Uma a cada seis mulheres sofrerá abuso sexual consumado ou tentado durante a vida. Provavelmente essa estatística ainda está baixa, pois tais crimes em geral não são reportados. Uma a cada seis. Os números são suficientes para enxergarmos que isso faz parte de uma cultura em que a mulher só existe para servir ao homem.

Como venho afirmando há muito, apenas repetindo o que as feministas que vieram antes de mim já estão cansadas de saber: tomar o poder sobre o próprio corpo é essencial para a liberdade e empoderamento de todas nós.

O caso Pistorius e o discurso de crime passional

Uma das mais famosas frases de defesa do feminismo (como se precisássemos disso) é “o feminismo nunca matou ninguém, o machismo mata todos os dias”. O assassinato de mulheres pelo próprio parceiro é o ponto final de histórias de violência que muitas vezes se prolongam por décadas.

Segundo dados da ONU, 70% das mulheres sofrem algum tipo de violência durante a vida. Tal número representa duas a cada três mulheres.

Às vezes a gente vê isso acontecendo, reconhece as marcas de agressão física, percebe que alguém está correndo risco, mas não fazemos nada. Aqui no Brasil temos aquele ditado de “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”. Recusamos ajuda durante, e depois, quando o crime escalou para algo irreversível – o assassinato -, temos a atitude de culpar a vítima.

“Ah, ela ficou lá porque quis”, “se ela tivesse terminado”, “alguma ela aprontou”. E perdoamos o assassino: “ele estava descontrolado”, “agiu sob violenta emoção”, “ele a amava demais”.

O caso Pistorius é emblemático nesse sentido. Como observou Jessica Valenti nesse texto (em inglês), “apenas um dia após atirar em Steenkamp [a namorada do atleta] quatro vezes, Pistorius tem sido descrito como “calmo e positivo” e “inspirador”. Ela? É chamada de “loura de pernas longas”".

Se você não está familiarizado com o crime, um pequeno resumo: Pistorius é aquele atleta que correu nas Olimpíadas de Londres de 2012 com próteses nas duas pernas. Todo mundo aplaudiu, achou o máximo, se inspirou na história do homem que, apesar de tudo, não desistiu do esporte.

pistorius

 

Um vencedor, dissemos.

Esse mesmo homem matou a tiros a namorada na última quinta-feira. Primeiro, a notícia foi a de que ela teria entrado sorrateiramente na casa do atleta para surpreendê-lo e ele a confundiu com um ladrão.

Os fatos foram se desenrolando e, até agora, o que se sabe é que a modelo Reeva Steenkamp foi morta no banheiro da suíte. Os últimos detalhes revelados indicam que ambos estavam deitados na cama (a posição dos lençóis mostra que havia duas pessoas deitadas). Reeva e Pistorius vestiam roupas de dormir e chegaram ao condomínio do atleta às 18h do dia anterior. Duas horas antes do assassinato, a polícia e os seguranças do condomínio foram chamados porque os vizinhos ouviram uma briga entre o casal.

Agora, surgiu na cena um bastão de críquete coberto de sangue – além de Reeva ter ferimentos no crânio. Um dos tiros atingiu o quadril da modelo, que teria se escondido no banheiro – e os outros três tiros foram na cabeça de Reeva. Machucados na mão dela indicam que ela teria tentado “proteger” a própria cabeça.

A história é toda horrenda e assustadora. Mas ela nos aponta coisas que insistimos em não enxergar. A primeira delas é que violência doméstica acontece em qualquer classe social. Em segundo lugar, que pessoas “acima de qualquer suspeita” na vida social podem ser, na verdade, criminosos frios e agressivos. Em terceiro, que esses crimes poderiam ter sido evitados – no caso de Pistorius e Reeva, a polícia já havia sido chamada outras vezes à casa do atleta em razão de distúrbios entre os dois.

Quarto e muito, muito importante: a cobertura midiática de crimes como esse insiste em culpabilizar (ou apagar) a vítima, costumeiramente mostrando o agressor como um cara bacana, “que ama demais”. Foi assim no caso Eloá e no de Ângela Diniz. Nesse último, o assassino Doca Street matou a companheira para “proteger sua honra” e “sob violenta emoção”. E chegou a ser absolvido no primeiro julgamento (e condenado depois a 15 anos de prisão).

Chega de romantizar crimes contra mulheres.

Não há nada romântico em matar alguém.

Isso não é “crime passional”. É violência de gênero. É ainda mais grave do que um latrocínio (roubo seguido de morte), porque essas pessoas confiaram nos parceiros e decidiram levar uma vida com eles.

Traduzo um trecho do texto de Jessica Valenti sobre o caso Pistorius porque é perfeito e aponta exatamente o que falei acima:

A conversa sobre assassinatos decorrentes de violência doméstica não passa de um conto de fadas – uma narrativa criada para fazer a loucura ter sentido. Afinal de contas, é mais confortável pensar que Belcher [um americano que deu nove tiros na esposa recentemente] tinha algum problema mental do que admitir que alguém que nós admiramos tanto era um agressor violento e controlador. É mais fácil pensar que Pistorius acidentalmente atirou em Steenkamp do que admitir que o assassinato era o final previsível para o relacionamento violento.

Por isso nós culpamos as mulheres mortas pela violência impensável cometida contra elas. Fazemos isso em parte por causa da misoginia, mas também porque isso dá uma falsa sensação de segurança. Dias após ser morta, a mulher de Belcher foi criticada por chegar tarde em casa (que abuso!), acusada de tentar deixar o marido e “levar o dinheiro dele”. Pelas descrições sexuais de Steenkamp, tenho certeza que logo alguém vai sugerir que ela de alguma forma “pediu por isso” – ela estava provocando ciúme em Pistorius ou paquerando demais. Nós precisamos acreditar que essas mulheres tiveram alguma culpa na violência, porque se não isso poderia acontecer com qualquer uma de nós. (Nós não somos “como elas”!)

News flash: você é exatamente como elas. Você é mulher. E só isso já dá automaticamente passe livre para alguém cometer violências contra você. Precisamos mudar o discurso. Imediatamente.

UPDATE: Se você ainda não se convenceu a respeito da forma como se trata a vítima de uma agressão misógina, veja a capa do The Sun abaixo. Inacreditável. Ah, caso você leia em inglês, não deixe esse texto aqui passar.

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Respeito à mulher. Entre nesse bloco

A dica foi da leitora Maria Fernanda, que é de Salvador. A Secretaria Estadual de Políticas para as Mulheres da Bahia criou uma campanha para evitar os abusos no carnaval. Muito bacana, até porque diz diretamente: é crime. Com outdoors, banners e camisetas, a Secretaria quer acabar com aquelas coisas que a gente vê à força na televisão.

Segue a íntegra da notícia:

Este ano a Secretaria Estadual de Políticas para as Mulheres (SPM) participa do Carnaval de Salvador com a campanha Respeito à mulher. Entre nesse blocoA campanha é uma grande sensibilização para a questão da violência contra a mulher, que no carnaval é disfarçada pela folia e aceita com naturalidade por aqueles que praticam e presenciam atos que ferem a integridade física e moral das foliãs durante a festa. A SPM quer estimular toda população a se comprometer com um carnaval sem violência e com respeito às mulheres para que a nossa maior festa seja de alegria e paz para todos e todas.

A peça principal da campanha é um jingle (ouça aqui) de um minuto, que promete animar a galera com uma mensagem simples, divertida e sensibilizadora. Ainda serão veiculados busdoor, outdoor, peças para redes sociais, ventarola, adesivo, blimp (balão), entre outras. Também teremos banner, camiseta, e-mail marketing e anúncios nos principais sites, tudo isso nas estratégias de propagação da cultura de paz durante a folia. Divulgue, entre nesse time você também. Porque neste Carnaval, toda mulher merece respeito.

Veja nossas principais peças da campanha Repeito à mulher. Entre nesse bloco:

OBS: Para ver todas as peças, clique aqui.

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Estupros têm um propósito

Atenção: esse texto fala sobre estupro, com algumas descrições que podem incomodar. 

Eu não falei no blog sobre o estupro na Índia, tampouco da garota vítima de vários monstros nos Estados Unidos, menos ainda da jovem que se suicidou aqui em São Paulo.

Não que eu estivesse indiferente a esses assuntos. Às vezes não dá tempo. Na maior parte delas, no entanto, a dor é tamanha que é impossível conseguir escrever qualquer coisa.

No caso da estagiária de direito, meu coração se partiu em mil pedaços. Eu também já fui  estudante de direito e ela morava no mesmo bairro que eu. A Ana Paula, minha amiga (@anapalonso), viu como fiquei ao saber da notícia: enjoadíssima, com ânsia de vômito.

Há uns dois meses dei uma entrevista pra TV PUC e cheguei antes do horário combinado. Fiquei sentada na praça de alimentação, observando as garotas que tentavam se equilibrar no salto alto depois de passarem o dia pra lá e pra cá. Eu me vi nelas. Eu já fui igualzinha. Eu poderia ser a Viviane, empolgadíssima por estar estagiando no maior escritório de advocacia do país.

Eu também já senti o desespero de não querer mais viver; eu fui agredida (não sexualmente) e me senti impotente. Por tudo isso, não fui e não sou capaz de escrever sobre Viviane.

E nem sobre o caso da Índia e nem sobre o estupro coletivo nos EUA. É tudo tão cruel, tão desumano, tão aterrorizante, que tem horas que a gente não consegue. Por isso, traduzo mais um texto da Soraya Schemaly, publicado no Huffington Post, a respeito dos dois casos.

Estupros têm um propósito 

A mesma pequena parte de mim que ainda quer acreditar em fadas quis acreditar que eu seria capaz de não pensar ou escrever sobre estupro ao menos por algumas semanas. Mas é  impossível. Não com leis na Califórnia dizendo que mulheres solteiras não podem ser estupradas. Ou enquanto uma garota de 16 anos, inconsciente, é estuprada por vários jogadores de futebol – e o assunto “divide” uma comunidade dedicada ao time. Definitivamente não dá para deixar passar quando detalhes sobre o estupro da jovem de 23 anos em Délhi, envolvendo estripação, falência múltipla de órgãos e a consequente morte,  vêm à tona e provocam protestos ao redor do mundo.

Não importa onde você estiver no mundo, o resultado do estupro - ”date rape,” “gang-rape,” “easy rape,” “emergency rape,” “war rape” – é o mesmo: opressão. As mulheres não são livres para viverem sem a ameaça constante de agressão e violência ou sem serem tratadas como objeto e propriedade.

soraya

Da última vez que chequei, existiam pelo menos quatro “capitais do estupro” no mundo. Você sabe no que isso nos transforma? Em “subúrbios do estupro”. Garotas e mulheres não são idiotas. Pelo contrário. Nós entendemos perfeitamente: devemos “ter cuidado”. Não faça algo que vá fazer você “se arrepender”. “Fique em casa”. “E daí se acontecer?” Nós não sentimos qualquer segurança de que nossa integridade física vai ser respeitada. Que nosso consentimento importa. Nós não podemos aproveitar os espaços públicos com a segurança que os homens têm.

Nossas tentativas de buscar igualdade e oportunidade são inibidas, não só pelo estupro em si, mas pela falta de consciência dos outros a respeito disso. O estupro é útil, mesmo quando acontece contra garotos e homens: ele sustenta um sistema que recompensa dominância física e sustenta a hegemonia dos homens.

Quando precisamente uma garota ou uma mulher NÃO pensa “poderia ser eu”? Qual adolescente nos Estados Unidos não pensa um pouco mais sobre ir ou não a festas? Ou mesmo a respeito de dormir? Quando se torna muito aterrorizante pensar nos fatos ou quando é mais fácil se alinhar aos poderosos e dominantes, culpe a vítima, na esperança de “ser protegida”.

Hoje em dia, mais garotas, pelo menos por um momento, pensam que podem ser drogadas e estupradas por uma autointitulada “Gangue do Estupro”, como a de Steubenville, Ohio. Caso você tenha perdido as últimas do caso, o estupro continua gerando choque e repugnância. Se não fosse a obstinação da blogueira Alexandra Goddard e a exposição do Anonymous, o estupro – que durou uma noite inteira – de uma garota inconsciente, literalmente arrastada e periodicamente violada, urinada e fotografada teria caído no limbo.

Tudo isso aconteceu enquanto 50 outros garotos e garotas estavam presentes – todos sabendo especificamente o que estava rolando. E, ESSE é o ponto, não é? Um aviso para as garotas que poderiam ajudá-los. Não é só o que aconteceu, nem as variações do que acontece todo dia, mas a ideia de que poderia acontecer. Em todo o mundo.

Se assumimos o risco – tipo, vivendo – e somos estupradas, as pessoas ficam confortáveis em dizer que estávamos “provocando”, mesmo se você for uma garota de 11 anos, como aquela que foi estuprada no Texas por pelo menos 18 caras; ou garotos molestados por padres. E, sim, eu sei que garotos e homens são estuprados. Eles sofrem tremendamente. Quase sempre, eles não têm apoio, não conseguem a ajuda que precisam e vivem o resto dos dias com grande sofrimento. Mas, isso também têm relação com o que foi dito antes, porque quando garotos e homens são estuprados, eles não são só agredidos, mas também dizem que os fizeram de “mulherzinhas”, demonstrando como eles não têm valor.

Isso é uma mensagem, também, aliás. E, sim, eu estou escrevendo em termos binários de sexo, porque eles são essenciais nesse sistema opressor. As chances de abuso aumentam entre pessoas que “não se enquadram”. Esses são ainda mais ameaçados.

Há alguma demonstração maior de que estupros são sobre poder e dominação – e não sobre sexo – do que os estupros coletivos sobre os quais estamos falando abertamente agora? No final, que diferença faz se o estupro envolve canos enferrujados na Índia, ratos enfiados em vaginas na Síria, violência diária contra garotas na França ou drogas para incapacitar garotas nos Estados Unidos? Eu não consigo enxergar por qual razão não se faz essa comparação quando elas são tão gritantes.

Estritamente falando, ignorar a relação de um estupro coletivo na Índia com um nos EUA – ou na França – deixa de fora informação contextual importante – social, cultural, legal e judicial. Há profundas conexões nas formas como os agressores são educados – em casa, na escola, na igreja, nos esportes – a denegrir o feminino e as mulheres como o caminho para glorificar sua masculinidade, para demonstrar sua dominância e superioridade, provando a insignificância de garotas e mulheres.

Tudo isso enquanto simultaneamente se constrói ideais inatingíveis de “pureza feminina”. Na Índia, onde o estupro é um aspecto arraigado na cultura misógina com a implacável violência contra garotas e mulheres, foi necessária a morte desta garota para finalmente fazer as pessoas acordarem.

No entanto, apesar do fato de ser um dos piores lugares do mundo para uma mulher ou garota, a Índia não detém o monopólio de ensinar mulheres a “se submeter” ao estupro ou a serem apontadas como culpadas. Ou violência contra a mulher. Só ficou mais óbvio. A massa de pessoas e o ódio evidente finalmente tornou impossível para que eles ignorassem a misoginia.

Como queríamos. Mesmo que eu genuinamente tenha vontade de pensar que globalmente nós estamos num momento estratégico de reflexão a respeito da violência contra a mulher, tenho grandes dúvidas.

Como Jessica Valenti aponta, nós temos um “problema de estupro”, mas teimamos em admitir isso. Nas últimas semanas, com a cobertura da imprensa, lia-se nas entrelinhas que “nós somos melhores que eles”, e que a misoginia e o patriarcado na Índia são coisas de lá. Assim, ficou a ideia de que “nós estamos bem”, e que as mulheres não tem nada a reclamar nos Estados Unidos.

O estupro é, na verdade, parte de um sistema de violência complexo e muito maior. Fingir que Steubenville é algo fora do comum, ou que os rapazes envolvidos é que estão fora do padrão, é de alguma forma ficar em conluio com os estupradores. E balançar a cabeça e apontar o dedo para a Índia é desonesto, racista, colonialista e hipócrita.

Lauren Wolfe, diretora do Women Under Siege Project, criou um “Basta de cultura do estupro em 2013″. Como ela e outros dizem, o primeiro passo para acabar com o estupro é parar de culpar a vítima, e focar nos estupradores e na cultura que os produz. Ela não está falando só do Congo, da Síria ou do Egito. Rapazes que drogam uma garota e depois a estupram, a sequestram, estupram de novo, fotografam, fotografam o estupro, urinam na garota e depois fazem vídeos tirando onda, fazem isso porque eles se sentem protegidos e no direito de fazê-lo. (Escrevi essa frase deliberadamente porque estou cansada de ver “ela foi estuprada”, como se ela tivesse alguma participação no próprio estupro ou que não houve um agressor.)

estupro

Esses rapazes não foram ensinados, como adultos, que tais ações são crimes contra a humanidade moralmente repugnantes. Porque nós rimos de estupro e zoamos quem reclama. As garotas que testemunharam esses eventos não falam porque elas acham que serão as próximas ou sabem que não acreditarão nelas. Elas aprenderam a internalizar isso.

Afinal, nós ensinamos nossas crianças que é aceitável para os garotos serem protegidos de xingamentos e punição após estuprarem, e eles vão para faculdades onde há “fábricas de estupro” e nas fraternidades os jovens brincam de “quem você estupraria”.

Os homens são incomparavelmente os maiores estupradores – de garotas, de garotos, de mulheres, ou de outros homens. A natureza de gênero deste crime é incontestável. Mas homens não nascem para estuprar. E, enquanto eu entendo que a maioria dos homens não andam por aí se achando os todo-poderosos, ou que eles têm o direito de estuprar, muitos deles pensam isso, sim. Eles se sentem no direito de fazê-lo. Tirar esse “privilégio cultural” deles não desumaniza ou oprime homens. Isso apenas liberta as mulheres e as pessoas que “não se adequam”.

Hoje fui eu – II

Depois de ser agredida, de tentar conversar com um funcionário da Auto Viação 1001, estava na hora do óbvio: procurar os entes públicos para registrar tudo.

Primeiro, fui ao escritório da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) para fazer uma denúncia. Eu não queria que eles resolvessem nada; apenas queria registrar a denúncia.

A funcionária, muito solícita (só que ao contrário), me deu um papel com o link do site da ANTT, por onde eu devia fazer o relato. Calma aí: eu estava DENTRO de um escritório deles. Eu precisaria sair dali, usar a internet e “falar” com um e-mail.

E se eu não usasse a internet? E se eu não soubesse escrever? O que estava fazendo aquela funcionária ali? Entregando papelzinho mal cortado?

“Se tivesse um fiscal nosso dentro do ônibus, a gente podia multá-los.” Quando é que tem um fiscal da ANTT dentro do ônibus, gente?

Tudo o que me restava era pegar o tal papelzinho e ir à Delegacia de Polícia. Aliás, aqui fica uma dica: muita gente acha que se registra ocorrência na Polícia Militar, mas é na Polícia Civil, tá? Vejo esse erro acontecendo com frequência – inclusive o motorista do táxi me levou ao lugar errado.

Por falar nisso, um pequeno desvio no assunto: eu procurei o posto da polícia militar no próprio Tietê. Fui lá perguntar qual a delegacia mais próxima. Eles perguntaram o que havia acontecido e contei rapidamente.

A informação que me deram foi “aaaaaaaaaaaah, você vai ter que passar no oftalmologista antes, porque nem vão te encaminhar na DP para o IML direto, não vão nem registrar sua ocorrência sem um laudo do oftalmo”. E eles, claro, não tinham indicação de onde poderia ir fazer consulta com um oftalmologista.

Ignorei a sugestão deles e fui à Delegacia de Polícia. Chegando lá, o escrivão estava ocupado e eu fui muitíssimo bem atendida por um outro funcionário. Ele era educado, simpático, gentil.

Quando chegou o momento de registrar a ocorrência, o escrivão tinha comportamento totalmente diferente. Passou mais tempo tentando achar o “Ponte Vila Maria” no sistema (hoje descobri que o nome oficial dela é “Jânio Quadros”) do que ouvindo a história.

A Alice (@aliceviralata), que eu não conhecia sem ser de Twitter, foi lá me dar uma força e viu tudo. O escrivão nem olhava na minha cara. Ele me entregou a guia para eu ir ao IML (isto é, nada do que os PMs haviam me falado estava correto) e ainda me deu o endereço de um IML que já estava fechado naquele horário.

O escrivão complementou com um “você tem seis meses para representar”. Oi? Representar? Que é isso? Eu, Nádia Lapa, por ser bacharel em direito, entendi o que ele estava falando. Mas fiquei pensando em todas as pessoas que não têm acesso a esses jargões jurídicos e ficariam com a informação incompleta ao saírem dali.

Com o IML de Santana já fechado, seguimos para o IML central, nas redondezas do Hospital das Clínicas, com atendimento 24 horas.

A única vez que havia estado num IML foi quando minha irmã morreu e eu precisei liberar o corpo. Era um IML que nem existe mais, ali na Lapa, no Rio de Janeiro. O clima do IML Clínicas era um pouquinho melhor, mas não muito.

Estava vazio e o atendente logo pegou minha ficha. Disse, num grunhido, para eu esperar. Dois minutos depois, fala para eu entrar. O cartaz colado à parede é bem claro: é proibido entrar com acompanhantes.

Ok, eu estava com um machucado no olho (e com uma dor gigante na alma), mas imagino quem foi agredido sexualmente e/ou por um parceiro. A pessoa está em frangalhos e ninguém pode entrar com ela para falar com um médico?

Isso me lembra um casal choroso na secretaria da faculdade no fim do ano passado. O filho deles, aluno, se matou. E a mãe disse “agora ele só virou um número”. Só a secretária da faculdade ofereceu uma cadeira, água, falou com ela calmamente.

Pro resto, você é só mais um. Repito: eu estava arrasada, por motivos que conto no terceiro post dessa série, mas eu não tinha machucados graves ou tinha sido agredida por alguém que eu amasse. Esse não é o tratamento que você dá a quem precisa de acolhimento.

Entrei no consultório, o médico perguntou meu nome, eu disse “Nádia”. “Não, o nome completo.”

(não rolou nem um “boa noite”.)

A “consulta” não demorou nem três minutos. Sentado em sua cadeira, ele disse “é, estou vendo que você tem uma vermelhidão no olho, mas não consigo dizer se foi feita com um crachá”.

E eu pensando: não é pra isso que o IML serve? Para ver o ferimento e dar um laudo? Não que eles pudessem dar a autoria ou coisa do tipo – pra isso existe inquérito – mas para anotar no papelzinho “vermelhidão no olho” eu nem precisaria ir lá. O escrivão seria capaz disso.

Ele, então, me mandou procurar um oftalmo. Sei lá que horas era, só sei que eu estava exausta, com vontade de chorar, com fome, com vontade de tomar banho. E eu ainda tinha que ir atrás de um oftalmo.

Estávamos ao lado do Hospital das Clínicas, e eu quis saber se eles tinham atendimento oftalmológico de emergência. “Não sei”, respondeu a múmia do IML.

“Você tem plano de saúde?”

“Tenho.”

“Melhor procurar um do plano.”

WHATTHEFUCK.

Olha, amiga, se você for uma fodida sem grana para gastar com o plano de saúde porque ele custa tipo METADE DE UM SALÁRIO MÍNIMO, se fode mais um pouco porque o cara que trabalha no serviço público não sabe indicar um MÉDICO do serviço público que fica DO OUTRO LADO DA RUA.

Pois tentei a sorte, atravessei a rua – Alice puxando minha mala de rodinhas -, cheguei ao Instituto Central do Hospital das Clínicas.

Tudo muito feio, velho, quebrado, mas lá dentro tive um atendimento espetacular pelo Dr. Leandro Zacharias. Foi profissional, correto, prestou atenção no que eu disse, me explicou onde estava meu ferimento, passou remédio.

Finalmente, no fim de um dos piores dias da minha vida, tive um atendimento decente, como ser humano, como uma mulher que foi covardemente agredida. Infelizmente ele não pôde me dar a cópia do prontuário, mas indicou que eu procurasse a assistente social para que ela conseguisse uma para mim.

Eu não tinha mais forças. A exaustão tomou conta de mim e, com um ponto de táxi bem na frente do hospital, vim pra casa. Mas vou voltar lá, até porque meu olho continua doendo.

Depois de horas sendo jogada pra lá e pra cá, fiquei pensando se eu não tivesse grana para pagar o táxi, se eu não soubesse ler, se eu não conhecesse meus direitos. Eu teria desistido. Eu teria “deixado pra lá”, porque ia me sentir muito pequenininha frente a uma empresa do tamanho da 1001. É isso que acontece com um monte de mulher agredida todos os dias. É o que acontece conosco, como consumidores, todos os dias.

Essas dificuldades burocráticas servem para a gente desistir. Anos atrás eu teria desistido – como desisti de processar a pousada de Paraty onde roubaram meu celular e a dona duvidou da minha palavra.

Hoje, porém, sou outra pessoa. Sou feminista, escrevo sobre agressão a mulheres, digo que temos de lutar contra agressores (não só violência física), então não posso simplesmente me acomodar.

E é disso – e da ajuda recebida – que falo no próximo post: como essa agressão mudou minha perspectiva sobre o mundo.

Hoje fui eu – I

Em 11 de dezembro peguei um ônibus da Auto Viação 1001 para ir ao Rio de Janeiro pro lançamento do livro. Antes de chegarmos à Ponte da Vila Maria, ainda na Marginal Tietê, o ônibus quebrou.

Paramos num lugar sem acostamento. Um carro da CET guinchou o ônibus por alguns metros até um local mais “seguro” e continuamos esperando o resgate chegar. Vários minutos se passaram, apesar do local ser a cinco (isso, cinco) quilômetros da rodoviária.

O ar condicionado não funcionava, o calor estava insuportável, nenhum funcionário da empresa dava qualquer informação sobre o encaminhamento das coisas. Pessoas começaram a subir a mureta que separa as vias da Marginal, correndo riscos sérios de acidente.

Vendo aquela situação e preocupada com o horário em que chegaríamos ao Rio, fui até outros passageiros que estavam sentados na escada (o ônibus era de dois andares e meu assento era na parte inferior). Perguntei se elas tinham alguma informação, disseram que não, mas falaram que o motorista estava na cabine.

Até então eu só tinha visto um motorista, que àquela altura estava no meio da pista tentando desviar os outros carros. Esqueci que sempre vão dois funcionários na cabine.

Passei por um corredorzinho estreito e baixo para chegar até a cabine. Havia um senhor com uniforme e crachá da empresa falando ao telefone. Ouvi uma parte da conversa e ele falava, justamente, sobre o envio de mecânicos ou outro ônibus para a gente mudar de carro.

Quando abordo um estranho, sou extremamente educada; fruto da minha educação (chamo minha mãe de “senhora” até hoje) e dos sete anos em colégio militar. Com os indispensáveis “por favor” e afins, questionei se ele tinha alguma previsão de quando sairíamos dali.

O motorista sequer virou para me responder. “A gente está tentando resolver”, disse. Eu retruquei: “Alguma previsão?”.

Ele se irritou – e naquele momento eu estava calmíssima. Disse para que eu fosse falar com o motorista principal. “Ele está no meio da pista da Marginal, senhor, eu não vou lá correr o risco de ser atropelada para perguntar isso, se o senhor está aqui.”

“Mas eu não estou trabalhando, estou só tentando ajudar”, ele respondeu, com uma desfaçatez que poucas vezes vi na vida.

“O senhor está sentado numa cabine do ônibus, com um uniforme da empresa e estava falando com alguém da 1001. O senhor, pra mim, é a empresa.”

Ele insistia, aos berros, que não era nada da empresa. Eis que o tal outro motorista aparece. Educadamente, disse que o novo ônibus já estava a caminho. Eu agradeci a informação e ia voltar pro meu lugar, mas antes disse que, chegando ao Rio, faria uma reclamação formal contra o outro motorista, “pois esse não é o jeito correto de tratar uma cliente” (mal eu sabia o que ainda estaria por vir).

Talvez eu não fizesse reclamação nenhuma. Aliás, é provável que eu deixasse pra lá, como faço quase sempre. Mas, ainda assim, perguntei diretamente ao motorista grosseiro qual o nome dele.

E aí.

E aí.

“Ah, você quer saber meu nome? Tá aqui meu nome!!!”, ele berrou, enquanto tirava o crachá pendurado no bolso esquerdo e o enfiava no meu olho. Não, ele não JOGOU o crachá. Ele me deu uma porrada na cara com o crachá na mão. 

Ele agiu com tanta força que eu caí no chão. Eu sou gorda e não é fácil me derrubar, mas  ele, que é da minha altura, me jogou no chão. Comecei a gritar que estava sendo agredida para chamar a atenção dos demais passageiros (que, como disse, estavam pendurados na mureta), mas ninguém fez NADA.

NADA.

Absolutamente nada. Nem os passageiros, nem o outro motorista, ninguém. Fiquei sozinha na cabine. Liguei para a Polícia Militar três vezes, tuitei um monte pedindo ajuda (e algumas pessoas, de fato, me ajudaram, mas já chego lá), falei com a empresa de ônibus por Twitter. Disse onde estava, o nome do agressor, linha do ônibus, mas eles não mandaram ninguém me buscar.

A parte vermelha é onde o CRACHÁ acertou

Mais de uma hora depois o outro ônibus chega. Rapidamente transferem todas as malas do ônibus quebrado para o outro, inclusive a minha. Falam que preciso seguir viagem. Em que mundo paralelo as pessoas imaginam que eu ficarei seis horas dentro do mesmo local que um cara que me agrediu fisicamente?

Disse que não ia. Segurei a bolsa do motorista agressor (afinal, eu estava na cabine e as coisas dele estavam lá) e falei que só devolveria quando me entregassem minha mala e me garantissem transporte de volta à rodoviária. Estávamos na pista expressa da Marginal – eu simplesmente não tinha como sair dali sozinha.

Depois de uma discussão quase interminável, em que os passageiros gritavam me chamando de louca, histérica, etc, o outro motorista, até então educado, disse com todas as letras que eu havia autoinfligido as marcas no meu rosto. Ele chegou a tirar os óculos, coçar os olhos e dizer “viu? tá vermelho”.

Naquele momento havia vários funcionários da 1001 ao redor (os mecânicos, quem chegou dirigindo os ônibus – porque chegaram dois ao mesmo tempo). Eu ouvia eles conversando ao telefone falando “ela diz que ele agrediu, mas ele diz que não”.

Eu berrava, revoltada, que eles não tinham que julgar nada – eu estava machucada e queria ir embora dali. Eu entrei não machucada no ônibus. Se eu estava com um ferimento naquela hora, a empresa é responsável. Ponto. Direito do consumidor for dummies.

Eles então me levaram (de ônibus!!) de volta à rodoviária, enquanto o agressor seguiu viagem com o grupo. Sim: um motorista é acusado de ser violento e a empresa deixa que ele continue trabalhando, sem sequer averiguar o ocorrido.

Chegando à rodoviária, procurei o responsável pela loja da 1001 e relatei os fatos. Ele nem mesmo me chamou para entrar na loja, sentar, beber uma água. Não. Ele me atendeu de pé no corredor, do lado de fora da loja.

Me deu o nome completo do agressor, a matrícula dele na empresa, tirou foto do meu olho – àquela altura ainda mais vermelho e super dolorido -, pegou meu telefone. Disse que no mesmo dia a pessoa responsável, que fica no Rio, me ligaria. Estou esperando até hoje.

Ele não me ofereceu qualquer coisa que pudesse me dar conforto: nem táxi de volta pra casa, nem uma nova passagem, nada. Bom, ele não me deu água, né, gente? Só se ofereceu para reembolsar a passagem da viagem que não fiz porque – olha que coisa! – o motorista me bateu.

Mas para isso eu precisava entregar o bilhete e ele sequer entregaria em dinheiro o valor correspondente; o reembolso seria feito no cartão de crédito, método que utilizei para pagamento.

Não aceitei, porque tudo isso comprova que eu embarquei naquele ônibus e que a 1001 é responsável pela minha segurança lá dentro.

Das redes sociais da empresa, só recebi uma mensagem no mínimo patética:

Nossa, que bom que vocês não dão curso de “como agredir uma passageira com um crachá!

Eles disseram que entrariam em contato comigo até hoje, dia 21 de dezembro. Acho que esperavam pelo fim do mundo e pensaram que iam se safar dessa. Não rolou. Now it´s my turn.

(como este post está muito longo, deixarei para o próximo o modo como fui tratada nos diversos serviços públicos para registrar ocorrência e fazer exames.)

Hipocrisia social obrigatória

Essa madrugada soube das fotos e vídeos íntimos de uma jovem que estavam rolando no Facebook. Agora já tiraram do ar, mas eu cheguei a ver. Pior: li os comentários.

Algumas pessoas defendiam a garota, mas basta dar uma olhada no Twitter para ver onde as pessoas chegam para xingar alguém.

“Vazamento” de vídeos e fotos eróticas não é novidade. Com a internet, a coisa se espalha rapidamente. No momento seguinte está todo mundo falando a respeito. O nome da garota tá nos trending topics desde ontem. Aí eu pergunto: por que não está o nome do cara?

Por que em tudo que se refere a sexo a mulher é sempre xingada e julgada, e o cara sai como o COMEDOR, mesmo que tenha feito a cretinice de expor a intimidade do casal?

Foi assim com aquela assessora de Brasília que acabou na capa da Playboy. Ela foi demitida. O cara que estava com ela no vídeo continuou exercendo as funções como se nada tivesse acontecido.

Bom, na verdade, nada aconteceu. O que está errado é darem tamanha importância à sex tape, porque sexo… bom, há sete bilhões de pessoas no mundo. Poucas delas foram geradas com o auxílio dos médicos. Quer dizer: fazemos sexo sim. Pensamos em sexo o tempo inteiro. Queremos que nossas vidas sexuais sejam melhores. Então porque mesmo que nos incomodamos tanto com a vida sexual alheia?

É o que Gaiarsa chama de “hipocrisia social obrigatória”. Todo mundo fode. Quem não fode, quer foder (claro que existem exceções, mas…). O psiquiatra fala sobre “a infinita estupidez humana e sua arte suprema de manter a si mesmo e aos próximos eternamente infelizes. Todos vigiando a todos para que ninguém faça o que todos gostariam de fazer – principalmente amar, rir, dançar, cantar. Só na hora certa, no lugar certo!”.

Eu incluiria um “sem câmeras envolvidas” à última frase acima. Porque isso acontece direto. Lembro ter contado em uma das minhas histórias que tirei algumas fotos. Coloquei a observação: “fique sempre com a câmera”.

Sei que é completamente maluco a gente não poder confiar no cara com quem partilhamos a intimidade. Nem estou falando de amor, mas de respeito. Você imagina que, se está transando com alguém e vocês decidem fazer vídeos e fotos, aquilo ficará restrito ao casal. Pra vocês curtirem, para se lembrarem de bons momentos, para se excitarem.

Infelizmente, não é assim que funciona. Esse material é bastante usado por ex parceiros vingativos e babacas. Se ele (o homem) soubesse que teria o mesmo tratamento ora dispensado às mulheres, ele jamais jogaria o conteúdo online. Jamais.

Mas não estou sugerindo que passemos a tratar os homens da mesma maneira, e sim que passemos a ver o sexo como algo natural e saudável. Não há nada de errado em trepar, em fazer caras e bocas para a câmera, em fazer boquete.

Todos nós fazemos. 

Sexo não tem qualquer relação com caráter; alguém transar muito ou pouco, com diversos parceiros ou só com um; ser celibatário ou ser rodado; nada disso interfere em questões morais.

A exposição e a reação das pessoas ao último caso, sim, dizem respeito ao caráter. Porque se você SABE (não precisa ter mais do que dois neurônios pra isso) que a atitude do ex foi deplorável, mas compartilhou as fotos, você é um (a) babaca, também. Você também pode pensar “e se fosse comigo?” e evitar falar sobre detalhes da anatomia da garota.

Quem compartilha/xinga/zoa é tão criminoso quanto o cara que está nos vídeos.

Ao final disso tudo a garota ficará devastada. Você quer mesmo ser responsável por fazer alguém se sentir mal? De repente acontece uma tragédia, como aconteceu com a Amanda Todd, e todo mundo fica com cara de tristinho dizendo “o bullying tem que parar”. Isso que muita gente está fazendo É bullying!

Mesmo contrariada (porque no meu mundo de faz de conta eu não deveria ter que falar isso), dou algumas dicas para o mesmo não acontecer com você. As pessoas não deixarão de tirar fotos peladas, mas infelizmente é necessário tomar algumas precauções:

  • Nunca, jamais, em tempo algum tire fotos/faça vídeos em que você possa ser identificada facilmente. O rosto, claro, não deve aparecer, mas tatuagens, por exemplo, mostram logo quem você é.
  • Fique com a câmera quando acabarem a brincadeira. Aí você escolhe quais fotos quer compartilhar.
  • Não deixe que as fotos ou vídeo sejam feitos no celular. Isso permite que o cara envie os arquivos imediatamente, sem você ver.
  • Se for fazer uma suruba/ménage, peça aos participantes para deixarem os celulares e câmeras em outro cômodo. É mais difícil controlar se alguém está fotografando com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo (sem contar que esse é um momento para relaxar, não para ficar grilada).
  • Caso vá compartilhar as fotos e vídeos, não envie do seu e-mail pessoal. Crie um outro, totalmente fake, para se resguardar.
  • Não saia com babacas. Sei que essa parte é a mais difícil, porque muitas vezes isso não vem escrito na testa deles, mas observe. Se ele é babaca com outras pessoas, ele será babaca com você.

Divirtam-se. E se cuidem, sempre.