
Eu não saí do armário. Já havia saído de lá há muito tempo. O que eu fiz ontem foi quebrar o armário em pedacinhos. Não sobrou nada. Só as memórias permanecem, e são elas que conto aqui para vocês.
Jamais tive vergonha de pensar, falar ou fazer sexo. Claro que, mais nova, me senti “desvalorizada” quando transei no primeiro encontro e nunca mais fui procurada. Quando criei a Letícia, porém, eu era uma adulta e não tinha mais grandes questões sobre sexualidade. Exceto uma.
Assim, não tive problema algum em conhecer pessoalmente diversos leitores ou em admitir para meus amigos que eu era a Letícia. Quem dizia que eu me escondia estava muito equivocado – eles só não me conheciam. Eles é que eram desinformados.
No entanto, eu sabia de todas as consequências que assumir o personagem teriam na minha vida profissional. O mundo ainda é infelizmente povoado de pessoas hipócritas e com um falso moralismo exacerbado. Não sou ingênua de achar que um bispo ou um deputado conservador, por exemplo, me concederiam entrevista sabendo que eu escrevo aqui.
Só que há algumas semanas as coisas mudaram muito de figura. Fui me recuperando da crise depressiva e pensei muito sobre quem eu era e o que desejo fazer da minha vida. Como vocês sabem, também trabalhei com direito e larguei tudo para fazer jornalismo. Eu não gostava do que fazia, e resolvi buscar um trabalho que me desse prazer.
Teria sido fácil continuar trabalhando na consultoria tributária. Meus amigos que continuam por lá ganham muito mais que eu. Alguns estão super bem de vida. Eu penso nisso? Claro. Considero como seria minha vida se eu não tivesse preocupação com grana? Evidente que sim.
Mas eu não gostava, não era feliz, não me sentia desafiada, não tinha tesão. Larguei tudo e tive apoio financeiro da minha família. Então, com as elucubrações deste início de ano, eu me dei conta que eu não tinha nenhuma carreira para colocar em risco (risos da desempregada). Mais do que isso: eu gosto muito de ler a respeito, discutir, conhecer e escrever sobre sexo.
Então resolvi que essa é a minha carreira. Que é exatamente isso que eu quero fazer. Não necessariamente com o blog, mas eu posso fazer um mestrado, uma pós no exterior, sei lá. Quando entro numa livraria vou direto para a área de psicologia e de sexualidade. Todos os filmes/livros/documentários/vídeos do YouTube que estão na minha lista de “coisas a fazer” são sobre o tema.
Isso já foi deveras libertador. Eu realmente assumi a Letícia; não para o mundo, mas para mim mesma. É isso que eu faço. Ponto. Estudo sexualidade.
Só que havia outro problema, aquele que mencionei lá em cima como “problema da minha sexualidade”. Venho de uma família conservadora, como disse no blog algumas vezes. Alguns meses atrás liguei para uma pessoa muito próxima e contei sobre o Cem Homens. A notícia foi bem recebida, mas ainda faltava a minha mãe.
Como vivo longe de casa desde os 17 anos, há muito sobre a minha vida que ninguém sabe. Não tenho de entrar em discussões sobre machismo, liberdade sexual ou de orientação sexual. Eles pensam coisas contrárias a mim, eu fico chateada, mas não tenho de me confrontar com ninguém no almoço de domingo, quando normalmente as mulheres vão para cozinha lavar a louça e os homens ficam sentados bebendo cerveja. Sei que é isso que acontece na maioria das casas brasileiras.
Por morar longe, tive oportunidade de fazer o que me desse na telha. Posso sair a qualquer hora, para qualquer lugar; posso receber quem eu quiser em casa; posso sumir durante dias e não dar satisfação a ninguém.
Eu tenho um problema, todavia. Eu continuo dependendo financeiramente da minha família. E, mais importante que isso, eu gostaria que minha mãe sentisse orgulho de mim, e nenhuma vergonha.
Como, então, ela poderia não se envergonhar de uma filha “puta”, se é assim que muitas pessoas me veem?
Só que eu cansei. Cansei de não poder compartilhar com ela os convites para escrever um livro. Cansei de não pedir a opinião dela sobre um projeto pro Cem Homens. Cansei de não contar para ela sobre os e-mails incríveis que vocês mandam.
E também não posso negar a importância – ainda que não seja bacana – de estar cansada de ser ameaçada.
Porque algumas pessoas, que sabiam da minha identidade, me ameaçavam. Diziam que iam espalhar para todo mundo, colocavam minha foto no Twitter, etc, etc, etc. Li coisas horrorosas nos comentários aqui no blog. Sofri com alguns deles. Chorei. Tive medo, sim (regozijai-vos).
O que as pessoas não contavam é que quando eu era criança ainda e me perguntavam o que eu queria ser quando crescer eu dizia “minha mãe”. Nada de médica, astronauta ou bailarina. Eu, brincando de barbie e playmobil, respondia, sempre: “quero ser igual à minha mãe”.
Ela também não era médica, astronauta ou bailarina. Era dona de casa. Sentava conosco para nos ajudar nos trabalhos da escola, cuidava para que estivéssemos sempre saudáveis, recortava o jornal e nos mostrava notícias sobre doenças e drogas (lembrem que isso foi há mais de vinte anos, não havia internet).
Se ela era uma mãe “comum”, então por qual razão eu queria ser como ela?
Essa mesma mulher casou-se com um homem de classe social muuuuuuuuito inferior à dela em plena década de 1970. Quinze anos mais tarde, com três filhos e sem emprego, se separou desse mesmo homem porque não aceitou mais ser só uma “dona de casa”. Estávamos em 1989, e a tal “tradicional sociedade” da época xingou. Julgou. Dentro da própria família vimos narizes torcidos para a “mulher divorciada”.
Tiveram mais trabalho (e torceram bem mais que o nariz) ainda ao descobrirem que ela namorava um homem oito anos mais novo. Passamos diversos perrengues financeiros, mas ela se manteve fiel, sempre, às suas escolhas.
Ali, sem saber, ela me mostrou o que é ser mulher. E não “mulher por ter órgão sexual de mulher”, mas mulher como cidadã, como ser humano, como pessoa. Além de ter plantado em mim a sementinha do feminismo. À época (eu tinha dez anos), eu brigava com todo mundo que falasse qualquer coisinha a respeito dela.
Depois, quando perdemos a minha irmã, entramos com uma ação judicial contra os responsáveis pelo “acidente” que a vitimou. Muita gente disse que não daria em nada. E, bom, ganhamos em duas instâncias já.
Teve gente que disse que eu precisei de coragem para me revelar por aqui. Não. Coragem é estar frente a frente com quem sabia do risco que minha irmã corria, mas mesmo assim permitiu que aquele voo acontecesse – e que, em juízo, disse que nós queríamos dinheiro. Coragem é aturar isso ou tantos outros desdobramentos desse caso.
Coragem é ligar para minha mãe, a única pessoa que importa nisso tudo, e contá-la sobre a Letícia, mesmo morrendo de medo da reação dela. Conversamos, expliquei tudo. Evidentemente houve surpresa, questionamentos.
Mas ela lembrou de todas as vezes em que foi chamada de puta (só por ter se separado!) e “continuou vivendo”. Disse que, se eu não estou prejudicando ninguém e continuo sendo a pessoa de caráter que sempre fui, ela me apoia incondicionalmente.
Esta é a minha mãe. É a mulher que agradeço todos os dias por ter na minha vida. Discutimos ao longo dessas três décadas, sim. Muito. Discordamos mais ainda. Mas é nela que tenho meu suporte e por quem nutro o maior amor do mundo.
E, felizmente, meus desejos de infância se tornaram realidade: no que realmente importa, eu me tornei a minha mãe.