Meu amor se multiplica

Nos últimos dias voltou à tona um assunto antiiiiiiiiiiiigo: a suposta falta de amor romântico na minha vida. Segundo os críticos, o fato de eu me relacionar com vários caras impossibilita a construção de um sentimento de parceria e cumplicidade entre nós.

Partir do pressuposto de que relações casuais são necessariamente vazias é desonesto. Há homens na minha vida que, mesmo que tenhamos cometido o pecado capital de transarmos logo após nos conhecermos, fazem parte do meu cotidiano, me apoiam, me admiram e me fazem bem.

Por outro lado, conheço muitos casais em que esse mesmo tipo de lealdade e companheirismo não existe. Alguns apenas coabitam; outros traem como quem troca de roupa; há incontáveis que não percebem quando o parceiro está precisando de ajuda, mesmo estando tão próximos.

Ao mesmo tempo, há casais vivendo felizes, impulsionados pelo companheirismo que os fortalece.

Mas esses casais não precisam – e não são, grande parte das vezes – aqueles considerados “normais”, “aceitos pela sociedade”. São homossexuais. Pessoas que transformam o casal em “três”. Gente vivendo relacionamentos abertos – e honestos. Pessoas que só se encontram para transar.

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E, olha que bizarro: esses casais não precisam da benção de um padre ou da mediação de um juiz de paz. Possivelmente também não são aceitos com facilidade pelos familiares, amigos, colegas de trabalho. Ainda assim, vão em frente, seguem suas vidas, desafiam o status quo, a heteronormatividade, a mononormatividade, porque, no final, o que importa é o amor que eles sentem uns pelos outros.

Eu vivo exatamente dessa forma. Muita gente não vai entender, vai apontar o dedo na minha cara, vai dizer que tento resolver a minha dita falta de amor romântico com pintos e pintos e pintos.

A grande questão é que eu não quero amores românticos. Não desse jeito que aprendemos. Se amar alguém é querer ela só pra si, se é ter ciúme, se é vigiar cada passo, bom, eu não nasci pra isso mesmo.

Filio-me, como sempre, ao grande e saudoso Gaiarsa, que fala sobre como devemos mudar nosso jeito de amar.

“A outra alternativa é a de nos tornarmos um pouco mais capazes de nos amar – de começar a perceber que viver falando bonito de amor não tem nada que ver com sentir e vivenciar amor.

Veja como nosso amor é inimigo do amor. É isso mesmo – me acompanhe. Comecemos com o casamento. Se você é casado, qualquer outro homem pode ser seu rival, conquistar sua mulher, etc. Em relação a ela, ocorre o mesmo.

Se você é apenas namorado, dá tudo na mesma. Qualquer mulher pode seduzi-lo – e a atual teme ser substituída.

Ao começar a amar, você se vê, no mesmo ato, cercado de inimigos – por causa do amor.

Nosso amor exclui, entende? Amar uma pessoa é negar-se a quaisquer outros amores, e assim o amor, em vez de unir – como sempre se diz que ele faz -, separa.”

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Meu amor já foi assim: aprisionado. Porque, na verdade, ele queria se espalhar por aí, mas diziam “você só pode amar um, e ele só pode te amar de volta, mais ninguém”. Eu remoí sentimentos de culpa diversas vezes.

Eu não entendia. Queria mais – e queria verdadeiramente, não era só tesão. Mesmo quando era “só” desejo, pensava como era possível eu amar tanto alguém e querer me envolver sexualmente com um terceiro. Diziam que esta era a prova da não seriedade do sentimento. Mas como?

Foram anos até eu entender que meu amor se multiplica. Eu não preciso amar só uma pessoa. Isso vale para amizades, família. Causas e ideologias. No meu coração, cabe mais de um. Cabem vários. E, em vez de faltar amor, ele na verdade se torna ainda mais forte, pois não está mais acorrentado. Ele pode crescer, se espalhar, aconchegar. Meu amor é livre, intenso e imenso.

Eterno enquanto dure

Eu estava escrevendo outro post completamente diferente. Enquanto procurava um trecho de “Sexo – tudo o que ninguém fala sobre o tema” (pra variar; mas esse é dos meus favoritos, vocês sabem), cheguei a uma parte em que escrevi um nome muito familiar.

Lembro da primeira vez que li aquele parágrafo. Chorei. Gaiarsa descrevia exatamente meus sentimentos à época. Durante meses, todas as vezes em que chegava ao tal trecho, chorava de novo. Mas aí já rolava uma dor no coração, pois eu ainda sentia tudo aquilo… só não era mais recíproco.

Hoje a sensação foi outra, tão, tão, tão diferente.

Eis o trecho:

“É muito bom ver você. Fico contente quando estou ao seu lado. Quase tudo que você diz me interessa. Gosto de cada parte de você, dos olhos, dos lábios, do rosto, dos ombros e também da sua xoxota (e de seu pinto). Gosto demais de estar em contato com sua pele. Quando nos abraçamos, sinto que nos envolvemos de todo, com cuidado, com sensibilidade – você me sentindo e eu sentindo você. Ficar deitada nua a seu lado – também nu -, bem juntinho, é uma das melhores coisas da vida. Beijinhos seus em série no meu pescoço, nas minhas orelhas ou na minha nuca me dão arrepios no corpo inteiro.

Também vibro quando você corre a mão com jeito seja lá onde for. Nunca senti nada parecido com mais ninguém. Aqui, porém, cuidado. A marca dos amores verdadeiros é essa sensação de que nunca senti nada igual. Usei o plural intencionalmente, pois nos é dado sentir assim com mais de uma pessoa – e aí a afirmação desperta protestos.

Então vamos falar do amor único – na verdade, com a sensação/emoção de nunca ter sentido nada igual. Com a sensação de eternidade, outra coisa delicadamente ambígua. Único e eterno vão juntos e graças a Deus podem acontecer muitas vezes, seja entre os mesmos dois, seja entre cada um deles e outros parceiros. Não confunda “sensação de eternidade” com duração eterna!”

(ai, Gaiarsa, como você consegue ser tão lindo?)

Lembro de uma vez em que cheguei na casa do moço e esse livro estava na mesinha de cabeceira. Por alguns milésimos de segundo pensei que eu tinha levado (e esquecido) o livro pra lá. Era dele. “Peguei para dar uma relida”, ele falou. Meu coração explodia de tanto amor e tanta admiração. A gente combinava em tantos níveis que era difícil imaginar que tudo acabaria. A tal sensação de eternidade mencionada pelo Gaiarsa.

Acabou, como vocês sabem, e eu sofri bastantão. Então, na primeira vez em que li o trecho acima, eu estava apaixonada, e pensei em como tudo aquilo ali de cima descrevia tão bem as sensações que eu tinha com o então namorado.

Depois, reli já com o coração partido, e doía pensar em tudo o que havíamos perdido. Hoje, quase um ano depois da briga do século, foquei no “pois nos é dado sentir assim com mais de uma pessoa”. Ainda não aconteceu, mas vai. Sempre vai. Não estou com pressa, não tenho ansiedade, não procuro por isso. Mas vai.

Now you’re just somebody that I used to know

Logo no início do livro About a Boy (que virou o filme estrelado por Hugh Grant e a ótima Toni Collete), de Nick Hornby, o personagem Marcus pergunta à mãe se ela terminou um namoro.

Com a resposta positiva, o garoto se perde nos próprios pensamentos. “Ele não pensava que um dia se acostumaria com isso. Ele gostava de Roger [o até então namorado da mãe], e eles três saíram algumas vezes; agora, aparentemente, eles nunca mais se veriam. Marcus chegou a dividir um sanitário com Roger, quando os dois estavam apertados para fazer xixi depois de uma viagem de carro. Você imagina que, se você já urinou com alguém, você deve de alguma forma manter contato com essa pessoa.”

Li o livro há muitos anos, mas essa parte sempre volta à minha mente todas as vezes em que um namoro termina. Dificilmente as coisas fluem com naturalidade. Na maioria dos casos, o término de uma relação gera dor, mágoa, revolta… tristeza. Mesmo quando ambos sabem que não dá mais certo, mesmo quando ambos não sentem mais amor, mesmo quando ambos tomam a decisão.

São muitos planos interrompidos. Por vezes separar-se de um parceiro amoroso significa também deixar para trás outras pessoas por quem temos carinho: parentes e amigos do ex; até o cachorro da casa. Terminar o namoro/casamento implica mudar hábitos.

Eu tenho problemas “especiais” nisso tudo. A análise me fez olhar para os meus términos de maneira diferente – e muito dolorosa. Tenho questões dificílimas com separações. Elas trazem de volta sentimentos do passado que me atormentam. É horrível.

Vocês acompanharam o término do meu último namoro. Quase um Big Brother. Daí essa madrugada, pouco antes de eu dormir, uma pessoa que nós dois conhecemos tuitou algo. Por um milésimo de segundo eu me imaginei comentando sobre aquilo com ele. Imediatamente me toquei que isso jamais irá acontecer, pois a gente não se fala.

De vez em quando esses flashes acontecem. No início eram super frequentes. Na verdade, eles vinham acompanhados de imensa, gigantesca vontade de falar com ele. Eu precisava comentar. A saudade era grande demais. Eu não conseguia imaginar como seria minha vida sem aquela ligação intelectual que tínhamos. Era difícil olhar pra frente e pensar em nunca mais falar com ele sobre livros, reportagens, filmes.

Mas o tempo passa, novos interesses surgem, outros amigos entram em cena. A vontade vai passando… (de vez em quando ela aparece, sem aviso, mas a razão prevalece.) Amanhã tem Planeta Terra e é impossível para mim não lembrar que depois do festival no ano passado eu fui pra casa dele, transamos, dormimos, combinamos um jantar comemorativo para dali a um mês. Nunca aconteceu.

Fica uma tristeza, claro, mas o que me dói em algumas histórias é exatamente o que angustiava o Marcus. Como assim você dividiu tantas coisas e, agora, você sequer fala com a pessoa? Não tem nas redes sociais, não pode dar um telefonema no dia do aniversário, não compartilha conquistas. Zero.

Penso na estranheza de encontrar por acaso uma dessas pessoas do passado com quem compartilhei muito mais que um banheiro e que hoje não sei nem por onde andam. Imagine olhar para quem já esteve tão dentro dos seus pensamentos, lembrar de como a pessoa chora, goza, caminha, fala, gesticula…. e não saber sequer se pode dizer “oi”?

Eu sei que muitas vezes, após o término, é necessário rolar um afastamento. Os sentimentos ficam confusos, e deixar por perto alguém que gostávamos tanto (e que talvez tenha nos magoado profundamente) é “perigoso”. Mas afastar-se para sempre? Trocar número de telefone, como diz a música abaixo? Apagar das redes sociais (mea culpa: faço isso)?

De repente, a pessoa com quem você planejava tantas coisas e compartilhava a vida vira só alguém que você conheceu um dia. Jamais me acostumarei com isso.

De novo. Dessa vez, pra sempre

Ainda lembro de você ansioso, pernas tremendo, sacola com um livro no colo. Você olhava para cima no Paulista 900, na tal escadaria palco de tantas manifestações políticas e algumas linhas de chegada de 31 de dezembro.

Parei por dois segundos e te observei. Você não foi com aqueles óculos medonhos de hipster. A pele muito branca, a quase pancinha. Eu, num momento muito fugaz e que não sai da cabeça, fui muito muito muito feliz.

Você estava nos meus braços, mas algo – não sei ainda o quê – deu errado. Lembro com igual perfeição dos ataques histéricos, do choro, de todas as vezes em que você largou da minha mão e saiu quase correndo.

Jurei que a despedida com beijos imensos fosse a despedida. Mas nem parece que a vida puxa meu tapete, e sim que eu vivo em cima de um tapete voador. Depois de tudo o que aconteceu aqui e aí, eu vi naquela noite de novembro sua mão estendida pra mim de novo.

Eu não queria. Xinguei. Esperneei. Joguei pro alto todas as mágoas. Merda no ventilador, como eu mesma digo. E a sua mão ali, me esperando.

Foi nela em que me agarrei numa noite mais escura que todas as noites escuras. Foi segurando em você que eu vi o dia raiar de novo. E outro dia de novo, dessa vez de uma maneira bem menos poética.

Você queria saber que tal de amor é esse. É romântico? E se for? Ah, já não deu certo uma vez. Mas eu não sou mais a mesma, você não é mais o menino da camiseta do Gato Félix.

E, no fim, o que importa? E se somos só amigos? E se eu quero aquela merda de aliança de Star Wars ridícula? E se você morar pra sempre aí e eu morar pra sempre aqui e meus cupcakes forem sempre mais bonitos que os seus? E se? E se?

Eu não sei nomear. Não tenho rótulo. Não consigo sequer entender se eu troquei tudo, se me apeguei ao sentimento porque eu não aguentava mais sentir dor.

Mas meu coração esquenta a cada puxão de orelha, a cada bolinha verde no whatsapp com seu nome, até quando você me apoia numa tatuagem bizarra. Sorrio sozinha feito imbecil quando você fala pros seus amigos me perguntarem pelo Eddie (meu cachorro) como se ele fosse gente.

Eu não sei o que vai acontecer daqui pra frente. Mas dessa vez eu não tenho medo. Tanto sentimento assim normalmente me faz ficar toda cagada e fugir, bater, xingar. Agora é tão imenso e tão certo que não sei nem mais o que pensar.

Numa madrugada dessas eu te mandei uma das minhas mensagens ininteligíveis: toco medo de tanto q eu te amo pq num toco medo. Dá cá sua mão. Eu não tenho mais medo de te amar. E o resultado disso só podia ser um: eu te amo.

Vem, babe. I’m waiting. 

 

 

Tão sexy quanto uma porta

Há exatos quatro anos eu era completamente apaixonada por um moço. Longa história. Dei uma resumida e contei para uma amiga neste feriado. Lembrei do texto que escrevi à época.

E publico aqui pra vocês. Isso é tão “eu”.

Ah, o moço nunca-jamais-em-tempo-algum me beijou na boca. Life sucks sometimes.

Tão sexy quanto uma porta

Escrito em 15 de maio de 2008

Você acha que tudo já passou, que tudo está bem, que nada te abalará.

Toca o telefone.

- Já tinha até te mandado e mail te xingando pelo bolo.
- Desce logo aí, tô aqui perto do Frans, logo depois da esquininha.
- Não vou, não.
- Desce logo.
- Tá.

Abre o primeiro portão. Fecha. Abre o segundo portão. Fecha.

Despreocupada, afinal ele só está na esquina.

Você demorou pra descer, ele ficou impaciente e foi pra perto do seu prédio. Você, sem óculos, demora alguns milésimos de segundo pra reconhecer.

Chega mais perto.

Vê.

E a perna dá uma tremida.

Abraço.

onde-vc-quer-sentar? no-mesmo-lugar-que-da-outra-vez? vocês-já-foram-atendidos? uma-coca-light-com-gelo-e-sem-limão.

Manda mensagem pra grande amiga dizendo o problemão em que você se meteu.

E o olhar, ah, o olhar. Quase se acostumou, já, mas tem horas que dá frio na barriga.

Fodeu.

“Alguém me socorre e some com esse menino da minha frente”, vc pensa.

Ele está ali, não adianta fingir que ignora. Tá na sua cara que você adora.

Sai correndo, como se isso fosse resolver o problema.

- Não precisa me acompanhar até em casa.
- Não precisa ou você não quer?
- Os dois.

De que adiantou o diálogo?

Ele vem do mesmo jeito.

Tchau.

Abre o primeiro portão. Fecha. Abre o segundo portão. Fecha.

E você, que achou que tudo passou, que tudo está bem e que nada te abalará, percebe os joelhos ainda tremendo.

Pena que são só os seus.

Ciúme, essa coisa idiota sem nenhuma relação com o amor

Nós já nos apaixonamos mutuamente, brigamos em demasia, paramos de nos falar, voltamos a nos falar, brigamos mais um pouco, nos amamos mais um montão. Chegamos à conclusão (ok, mais ele do que eu) de que não é possível termos um relacionamento amoroso. Pelo menos não do jeito que as pessoas imaginam que isso seja.

Ele mora em outra cidade e sente imensa necessidade de controle. Eu, idem. Resultado: uma árdua luta por poder que jamais chegará ao fim. Decidimos, mesmo sem palavras, que está-bom-do-jeito-que-está. Falamos o dia inteiro no Facebook, contamos coisas íntimas um pro outro, fazemos planos de futuro, mesmo os que nunca se concretizarão. Semana passada, por exemplo, escolhemos as estantes da casa que teremos quando casarmos.

E vamos muito bem assim, obrigada. Só que não falamos sobre nossas vidas amorosas. Eu, falastrona, acabo contando uma coisa ou outra. Ele, nunca. Mesmo que eu peça. Até que em uma noite dessas ele parou de falar no chat do Facebook por alguns segundos.

Quando voltou, jogou a ~bomba~:

- Acabei de receber uma booty call.

Espumei do lado de cá da tela. Fiquei procurando dentro da minha cabeça onde havia surgido aquele ciúme. Eu saio com outros caras e sou partidária do relacionamento aberto (quando conversamos a respeito, inclusive, sempre dizemos que se tivéssemos um relacionamento “rotulado”, certamente poderíamos beijar-transar com outras pessoas).

Fiquei sem entender a minha própria reação. Quando ele começou a revelar algumas preferências sexuais que ele compartilha com a tal moça que ligou pra ele, me enfureci. Confessei meu ciúme e deixei ele falando sozinho.

Enquanto ele estava lá, em outra cidade, transando e sendo feliz, eu estava aqui pensando a respeito do meu ciúme. Infelizmente devo dizer que não é novidade na minha vida. Até bem pouco tempo atrás eu poderia me descrever como uma mulher ciumenta.

Mas as coisas mudaram. Eu mudei. Ter ciúme não tem nenhum sentido depois de tudo o que vivi, li e pensei. Não combina mais com a pessoa que me tornei.

Porque eu finalmente me dei conta de que ciúme não tem qualquer relação com quantidade de amor. É bem comum acharmos estranho quando nosso par não demonstra o tal “sentimento”. Pensamos logo que ele não nos ama ou que não se importa.

Não é verdade. O ciúme ocorre quando somos inseguros com a gente mesmo (“ele é areia demais pro meu caminhãozinho, já que sou feia/gorda/burra/etc”). Ou por acharmos que o outro “nos pertence”. “Se ele é meu, então não pode se envolver com mais ninguém.”

Pensar em proibir, reclamar e fazer escândalo é uma guerra inútil. Nossos parceiros irão, sim, conhecer outras pessoas. Irão sentir desejo por essas pessoas. Transarão com essas pessoas. E serão felizes com essas pessoas.

Por que temos tanto medo que isso aconteça? Se nosso amado nos “trocar” por outra, vai doer, sim, mas você quer que ele fique com você por obrigação?

No final percebi quão imbecil eu estava sendo. O moço bonito de pernocas delícia continua sendo ~meu~ nos momentos em que sempre foi: a gente segue conversando o dia inteiro. Sei que posso ligar quando sentir saudade do sotaque e das gírias horríveis que ele usa.

O que eu quero dele é que ele continue prestando atenção no que eu digo. Esses dias ele disse que havia jantado bem. Eu perguntei o que havia sido, e ele “você não ia gostar”. Ele lembrou que eu não como frutos do mar – e eu sequer recordava já ter dito isso pra ele algum dia.

Quero que ele continue me apoiando nos meus projetos, me admirando em uma coisa ou outra, me elogiando de vez em quando pra aquecer meu coração. Eu continuo tendo tudo isso. E nós vamos ter isso com outras pessoas, também.

Eu não preciso “tê-lo” como um prêmio, como um objeto. Eu só quero (sequer preciso!) ele na minha vida porque ela se torna mais colorida com ele por perto.

PS: Enquanto fazia a procura de imagens para esse post, coloquei “jealousy” e “ciúme” na busca. Basicamente apareceram ilustrações de duas mulheres disputando um homem. Ciúme não tem a ver com gênero. Não é sentimento de “mulherzinha”. É sentimento de GENTE insegura e possessiva. Independente de gênero. 

Armário quebrado

Eu não saí do armário. Já havia saído de lá há muito tempo. O que eu fiz ontem foi quebrar o armário em pedacinhos. Não sobrou nada. Só as memórias permanecem, e são elas que conto aqui para vocês.

Jamais tive vergonha de pensar, falar ou fazer sexo. Claro que, mais nova, me senti “desvalorizada” quando transei no primeiro encontro e nunca mais fui procurada. Quando criei a Letícia, porém, eu era uma adulta e não tinha mais grandes questões sobre sexualidade. Exceto uma.

Assim, não tive problema algum em conhecer pessoalmente diversos leitores ou em admitir para meus amigos que eu era a Letícia. Quem dizia que eu me escondia estava muito equivocado – eles só não me conheciam. Eles é que eram desinformados.

No entanto, eu sabia de todas as consequências que assumir o personagem teriam na minha vida profissional. O mundo ainda é infelizmente povoado de pessoas hipócritas e com um falso moralismo exacerbado. Não sou ingênua de achar que um bispo ou um deputado conservador, por exemplo, me concederiam entrevista sabendo que eu escrevo aqui.

Só que há algumas semanas as coisas mudaram muito de figura. Fui me recuperando da crise depressiva e pensei muito sobre quem eu era e o que desejo fazer da minha vida. Como vocês sabem, também trabalhei com direito e larguei tudo para fazer jornalismo. Eu não gostava do que fazia, e resolvi buscar um trabalho que me desse prazer.

Teria sido fácil continuar trabalhando na consultoria tributária. Meus amigos que continuam por lá ganham muito mais que eu. Alguns estão super bem de vida. Eu penso nisso? Claro. Considero como seria minha vida se eu não tivesse preocupação com grana? Evidente que sim.

Mas eu não gostava, não era feliz, não me sentia desafiada, não tinha tesão. Larguei tudo e tive apoio financeiro da minha família. Então, com as elucubrações deste início de ano, eu me dei conta que eu não tinha nenhuma carreira para colocar em risco (risos da desempregada). Mais do que isso: eu gosto muito de ler a respeito, discutir, conhecer e escrever sobre sexo.

Então resolvi que essa é a minha carreira. Que é exatamente isso que eu quero fazer.   Não necessariamente com o blog, mas eu posso fazer um mestrado, uma pós no exterior, sei lá. Quando entro numa livraria vou direto para a área de psicologia e de sexualidade. Todos os filmes/livros/documentários/vídeos do YouTube que estão na minha lista de “coisas a fazer” são sobre o tema.

Isso já foi deveras libertador. Eu realmente assumi a Letícia; não para o mundo, mas para mim mesma. É isso que eu faço. Ponto. Estudo sexualidade.

Só que havia outro problema, aquele que mencionei lá em cima como “problema da minha sexualidade”. Venho de uma família conservadora, como disse no blog algumas vezes. Alguns meses atrás liguei para uma pessoa muito próxima e contei sobre o Cem Homens. A notícia foi bem recebida, mas ainda faltava a minha mãe.

Como vivo longe de casa desde os 17 anos, há muito sobre a minha vida que ninguém sabe. Não tenho de entrar em discussões sobre machismo, liberdade sexual ou de orientação sexual. Eles pensam coisas contrárias a mim, eu fico chateada, mas não tenho de me confrontar com ninguém no almoço de domingo, quando normalmente as mulheres vão para cozinha lavar a louça e os homens ficam sentados bebendo cerveja. Sei que é isso que acontece na maioria das casas brasileiras.

Por morar longe, tive oportunidade de fazer o que me desse na telha. Posso sair a qualquer hora, para qualquer lugar; posso receber quem eu quiser em casa; posso sumir durante dias e não dar satisfação a ninguém.

Eu tenho um problema, todavia. Eu continuo dependendo financeiramente da minha família. E, mais importante que isso, eu gostaria que minha mãe sentisse orgulho de mim, e nenhuma vergonha.

Como, então, ela poderia não se envergonhar de uma filha “puta”, se é assim que muitas pessoas me veem?

Só que eu cansei. Cansei de não poder compartilhar com ela os convites para escrever um livro. Cansei de não pedir a opinião dela sobre um projeto pro Cem Homens. Cansei de não contar para ela sobre os e-mails incríveis que vocês mandam.

E também não posso negar a importância – ainda que não seja bacana – de estar cansada de ser ameaçada.

Porque algumas pessoas, que sabiam da minha identidade, me ameaçavam. Diziam que iam espalhar para todo mundo, colocavam minha foto no Twitter, etc, etc, etc. Li coisas horrorosas nos comentários aqui no blog. Sofri com alguns deles. Chorei. Tive medo, sim (regozijai-vos).

O que as pessoas não contavam é que quando eu era criança ainda e me perguntavam o que eu queria ser quando crescer eu dizia “minha mãe”. Nada de médica, astronauta ou bailarina. Eu, brincando de barbie e playmobil, respondia, sempre: “quero ser igual à minha mãe”.

Ela também não era médica, astronauta ou bailarina. Era dona de casa. Sentava conosco para nos ajudar nos trabalhos da escola, cuidava para que estivéssemos sempre saudáveis, recortava o jornal e nos mostrava notícias sobre doenças e drogas (lembrem que isso foi há mais de vinte anos, não havia internet).

Se ela era uma mãe “comum”, então por qual razão eu queria ser como ela?

Essa mesma mulher casou-se com um homem de classe social muuuuuuuuito inferior à dela em plena década de 1970. Quinze anos mais tarde, com três filhos e sem emprego, se separou desse mesmo homem porque não aceitou mais ser só uma “dona de casa”. Estávamos em 1989, e a tal “tradicional sociedade” da época xingou. Julgou. Dentro da própria família vimos narizes torcidos para a “mulher divorciada”.

Tiveram mais trabalho (e torceram bem mais que o nariz) ainda ao descobrirem que ela namorava um homem oito anos mais novo. Passamos diversos perrengues financeiros, mas ela se manteve fiel, sempre, às suas escolhas.

Ali, sem saber, ela me mostrou o que é ser mulher. E não “mulher por ter órgão sexual de mulher”, mas mulher como cidadã, como ser humano, como pessoa. Além de ter plantado em mim a sementinha do feminismo. À época (eu tinha dez anos), eu brigava com todo mundo que falasse qualquer coisinha a respeito dela.

Depois, quando perdemos a minha irmã, entramos com uma ação judicial contra os responsáveis pelo “acidente” que a vitimou. Muita gente disse que não daria em nada. E, bom, ganhamos em duas instâncias já.

Teve gente que disse que eu precisei de coragem para me revelar por aqui. Não. Coragem é estar frente a frente com quem sabia do risco que minha irmã corria, mas mesmo assim permitiu que aquele voo acontecesse – e que, em juízo, disse que nós queríamos dinheiro. Coragem é aturar isso ou tantos outros desdobramentos desse caso.

Coragem é ligar para minha mãe, a única pessoa que importa nisso tudo, e contá-la sobre a Letícia, mesmo morrendo de medo da reação dela. Conversamos, expliquei tudo. Evidentemente houve surpresa, questionamentos.

Mas ela lembrou de todas as vezes em que foi chamada de puta (só por ter se separado!) e “continuou vivendo”. Disse que, se eu não estou prejudicando ninguém e continuo sendo a pessoa de caráter que sempre fui, ela me apoia incondicionalmente.

Esta é a minha mãe. É a mulher que agradeço todos os dias por ter na minha vida. Discutimos ao longo dessas três décadas, sim. Muito. Discordamos mais ainda. Mas é nela que tenho meu suporte e por quem nutro o maior amor do mundo.

E, felizmente, meus desejos de infância se tornaram realidade: no que realmente importa, eu me tornei a minha mãe.

Feliz todos aniversários, meu amor

Vou tentar escrever esse post deixando de lado todas as mágoas, tristezas, tropeços e tudo o que hoje me parece impossível perdoar. Vamos ver se eu consigo (escrever o post. Perdoar acho mais difícil).

Lembro com perfeição da sua cara de sono naquela madrugada de seis de novembro. Seus olhos ficam meio inchadinhos. Vi o esforço que você fez para estar de pé cinco da manhã, depois de eu me esbaldar com Julian Casablancas e cia ltda. Você, de pé, na porta de casa. Eu, estropiada, suja, cansada.

No quarto, meu presente em cima da cama. Chocolate, livro, um bilhete que hoje já nem existe mais – fiz questão de jogar fora, achando que assim me livraria das lembranças daquele dia. E de todos os outros, aliás. Que tonta. Você ainda ficou me devendo o documentário da banda que, três dias antes, tínhamos visto no Morumbi.

Dormimos, nos amamos, escolhemos o restaurante praquele almoço e pra um jantar em cinco de dezembro que nunca aconteceu. Assim como jamais faremos a “troca” dos feriados. Combinamos que você, folião convicto, estaria livre, leve e solto no Rio de Janeiro durante esses dias momescos. Eu, então, escolheria pra onde iríamos em outro feriado. Mais uma coisa que você ficou me devendo.

Com tantos planos, eu nunca imaginei que nessa sexta-feira ensolarada eu não iria acordar ao teu lado e te encher de beijos pelo seu aniversário. Nem fiz planos para o 17 de fevereiro de 2012. Achei que seria sua, você seria meu, e seríamos felizes só por existirmos na vida um do outro.

Mas as coisas mudaram e você está, de fato, livre, leve e solto no Rio de Janeiro. Eu passarei o carnaval do jeito que imaginei: em casa, vendo DVD, escrevendo, lendo. Mas, quando a festa acabar, você estará mais velho e cada vez mais longe de mim.

Ontem as cartas do tarô e as linhas da minha mão mostraram que provavelmente ano que vem, neste mesmo dia, eu não lembrarei sequer de mandar um SMS para dar os parabéns. Então, deixo aqui meu desejo para que você tenha todos os aniversários mais felizes do mundo. Espero que seu dia seja tão incrível como foi o meu seis de novembro. Quero que, em 17 de fevereiro ou não, você sinta a felicidade que eu sempre senti a cada sorriso seu. Te amo pra sempre, meu amor. Feliz aniversário.

Angústia

- Eu te amo.

- Eu também te amo.

Parei por dois segundos naquele último domingo enquanto recolhia as roupas jogadas ao lado da cama e procurava a calcinha perdida em algum lugar entre o lençol e o edredom.

- Você não sente uma profunda angústia?

Ele me olhou de um jeito que jamais consegui compreender. Não sei se também sentia o mesmo e se surpreendeu com a revelação; não sei se simplesmente se espantou por tudo ser tão profundo do lado de cá.

Jamais saberei.

Hoje, quase três meses depois, consigo ainda sentir meu coração sendo quase esmagado. Angústia. Naquela época, era um terrível medo de que eu nunca mais o visse pela manhã ou que ele não me dissesse “você dormiu mais rápido que eu, senti quando sua cabeça finalmente relaxou em cima do meu braço”.

Angústia pelo pânico de perceber a própria vida virando do avesso. Eu, que sempre disse não precisar de um par romântico para ser feliz (e continuo achando isso, aliás), andava pela Fradique Coutinho imaginando em qual daqueles prédios ficava o apartamento que havíamos gostado num anúncio na internet.

A cada vez que chegava atrasada ao encontro e o encontrava de sorriso aberto, sem reclamar dos muitos minutos sozinho, já com a minha coca zero no copo (com gelo e sem limão; ele jamais errou), eu estremecia. Lá vinha a angústia de novo. Quando ele esquecia de pedir a minha bebida ao garçom, eu ainda resmungava. “Desculpa, me distraí”, ele respondia. Sem um traço de mau humor. Mais angústia.

E assim foi a cada pedido bizarro meu que ele atendeu; a cada plano maluco de viagens que eu provavelmente jamais farei; a cada link incrível de textos incríveis sobre sexualidade que ele me mandava. Angústia, angústia e mais angústia.

Angústia pelo medo do dia que eu sabia que inevitavelmente viria. Na manhã daquela quarta-feira não perguntei qual era a minha escova de dentes. Finalmente havia aprendido onde ele a guardava no armário do banheiro. Depois de lavar o rosto,  resolvi me livrar de mais um símbolo da minha angústia. Não a recoloquei no lugar. Joguei-a no lixo, e fiquei olhando pra ela durante um tempão, como se simbolizasse o fim daquilo tudo.

Eu poderia dizer que de nada adiantou, que a imagem dela com as cerdas viradas para cima dentro da lixeira ainda está colada na minha retina. Eu não estaria mentindo. Mas é ainda pior: semanas depois, remexendo nas gavetas do meu banheiro, encontrei a escova dele, jamais usada.

E, numa simples Aquafresh Tooth and Tongue de cabo azul a angústia do medo de perdê-lo se transformou na angústia da certeza de tê-lo perdido.