Você tem medo do quê?

Estou lendo Faça acontecer, da Sheryl Sandberg, chefe de operações do Facebook. Quando acabar eu escrevo sobre o livro. Por enquanto, vale muito ver essa palestra dela no TED – até já coloquei no Cem Homens, mas ela é tão boa que vale repetir. O livro vai no mesmo caminho, usando inclusive algumas das histórias que ela conta no vídeo.

Eu não estou me identificando super com o livro (estou na metade), até porque ela fala mais com mulheres que são casadas, têm ou querem ter filhos, fazem carreira no mundo corporativo.

É bem diferente de quem sou hoje: solteira, sem filhos e free lancer.

No primeiro capítulo, porém, Sandberg traz questionamentos que, aposto, muitas de nós conseguimos nos identificar. O título é “o abismo nas ambições de liderança: o que você faria se não tivesse medo?”.

A autora discorre sobre histórias de família e mostra estatísticas sobre a participação de homens e mulheres nas empresas e na economia familiar. Ela traz teorias sobre a quantidade de mulheres líderes – e não vou contar pra vocês quais conclusões ela chegou, se não eu basicamente estaria contando o livro todo.

Ainda que ela esteja falando de carreira no sentido mais formal, Sheryl aponta o que vemos acontecendo em muitas áreas: “o canal que abastece o mercado de trabalho qualificado está entupido de mulheres no nível da entrada, mas, quando esse mesmo canal abastece as posições de chefia, há um predomínio esmagador de homens”.

Segundo a autora,um dos motivos para isso é o que ela chama de “abismo na ambição de liderança”.

“A ambição profissional é algo esperado para os homens, mas opcional – ou, pior, às vezes até algo negativo – para as mulheres. “Ela é muito ambiciosa” não é um elogio em nossa cultura. Mulheres agressivas e que jogam duro transgridem regras tácitas da conduta social aceitável. Os homens são constantemente aplaudidos por ser ambiciosos, poderosos, bem sucedidos, ao passo que as mulheres com as mesmas características costumam pagar um preço social por isso. As realizações femininas custam caro.”

Muitas de nós não queremos pagar esse preço social. Se a gente foge desse papel de gênero da mulher dócil e maternal, a possibilidade de não gostarem da gente é bem grande. Talvez se a nossa autoestima não estivesse no outro poderia ser fácil dizer “ah, manda todo mundo pra muito longe”.

Infelizmente não é assim, e somos tão colocadas à prova o tempo todo que ficamos com aquela sensação horrível de que a qualquer momento seremos descobertas. Saberão que somos fraude.

Eu não sei você aí que está me lendo, mas isso é tão constante na minha vida que não sei nem precisar quando começou. Terá sido ainda no colégio, quando escolhiam minha redação como a melhor da turma e eu queria me esconder embaixo da mesa?

Repito esse comportamento o tempo todo. Recentemente fui entrevistada para um programa de televisão. Fiquei feliz de ser convidada. Tudo ia bem, com alguns receios, acredito que óbvios quando sua vida não é aparecer em vídeo.

Porém, quando foi chegando a hora da gravação e eu vi o estúdio sendo arrumado, eu quis sair correndo. Literalmente. De salto alto e tudo. Cheguei a pensar, durante alguns momentos, em como seria abrir a porta do camarim e simplesmente desaparecer.

Durante entrevistas eu costumo ficar calma. Tenho confiança no que estou falando e sei qual meu lugar ali. A cada momento de distração, porém, vinha o pânico que Sheryl Sandberg chama de “síndrome do impostor”.

O que eu estou fazendo aqui?

Por que essas pessoas estão me entrevistando?

Vão cortar essa resposta, lógico, porque foi ridícula!

Meu deus, eu sabia que iam perguntar isso, pelamordedeus alguém me tira daqui.

E, de novo, quis me esconder embaixo da mesa all over again.

A grande merda é que dessa vez a mesa era transparente, então não tinha como.

Meu pânico era tão grande que, ao final, escrevi na dedicatória do meu livro “estou aterrorizada, mas acho que essa parte já ficou óbvia”.

Uma amiga, sabendo de tudo, disse que achava legal que eu, apesar do medo, ia em frente. Não é totalmente verdade. Tenho projetos e mais projetos não engavetados, mas não também expostos pro mundo, por puro medo de não dar certo. Claro que às vezes há muita grana envolvida, ou precisamos sustentar a família. Fica mais difícil mesmo ir em frente.

Mas, e no meu caso (e, talvez, no seu), por qual razão eu posso me sentir tão aterrorizada se absolutamente ninguém depende de mim?

Como posso achar que sou uma fraude, que esse blog é uma idiotice, que meus textos (profissionais mesmo) são um equívoco, que meu livro é uma merda, que quem me entrevista na verdade está é sem nenhuma fonte e eu fui a última que ele procurou num momento de desespero?

Como? 

De um lado da balança, a culpa por ter ambição de liderança; do outro, a síndrome do impostor.

No meio, eu, meio que me segurando sei lá onde, buscando respostas que nunca irão chegar, querendo me esconder embaixo de mesas reais e imaginárias.

Sheryl Sandberg pergunta: o que você faria se não tivesse medo? Diz que ela escreveria o Faça acontecer, como de fato o fez. E você? O que você faria?

You can do (and enjoy) better

- Ele é legal, Nádia, gostei dele. Mas ele não é bonito.

Minha amiga de adolescência me falou o óbvio após conhecer um namorado por quem eu estava apaixonada e com quem fazia planos loucos de futuro. Eu, ali, com medo das pessoas não gostarem dele, e ela me sai com essa.

Ele era meu namorado, o maior amor da minha vida até aquele momento, e não um troféu para eu exibir nos bares da Vila Madalena. Eu sabia tudo o que nele não se enquadrava num padrão. Conhecia até do avesso. Evitarei dizer que seus defeitos foram o que me atraíram; não vou espalhar por aí que me apaixonei justamente porque ele tem 1m70 e eu ficava maior do que ele quando usava salto. Seria mentira.

Eu o amei porque a altura dele não é importante. Ele é.

Deveria ser óbvio pra todo mundo que se relacionar com alguém não tem nada a ver com a aparência física do outro. Ou com o dinheiro que ela tem no banco, ou orientação sexual, ou outros tantas regras imbecis que a sociedade nos impõe.

Mas, peraí: você É essa sociedade. Se você diz para sua melhor amiga que o namorado dela é legal mas é feio, você está assinando embaixo de todas as críticas que já te fizeram – e, creia, foram muitas. Até para supermodelos, que hoje vivem como enfeites do mundo: muitas relatam terem sido altamente zoadas na escola.

Sempre questionei esses padrões imbecis de beleza, mas confesso que me deixei levar por eles em diversas situações na vida. Tive vergonha (sim, vergonha, e agora morro por admitir isso) de apresentar parceiros com quem eu era feliz porque eles eram feios. Porque eu sabia que todo mundo ia falar “porra, Nádia, esse cara é horrível, você pode fazer melhor”. FAZER MELHOR.

O mais curioso é que eu não achava que eu podia “fazer melhor”. Porque aquela mesma carga pesada que eu jogava nos outros, eu jogava em mim mesma. Uma fase da minha vida que lembro com muita clareza é o ano de 1999. Eu tinha 19 anos, um namorado que não gostava de mim (não do mesmo jeito que eu, e isso acabava comigo), malhava, fazia direito na PUC-Rio e fui passar algumas semanas na Europa.

Sem dúvida aquela foi a melhor viagem da minha vida. Aprendi muito, conheci gente de outros lugares do mundo – algumas dessas pessoas continuam sendo minhas amigas -, me apaixonei perdidamente por Londres e por Edimburgo.

Mas eu não me sentia bem no meu próprio corpo. Como dito antes, eu estava num relacionamento péssimo, que hoje reconheço como quase abusivo. Na época, eu achava que “não podia fazer melhor”. Porque eu era feia. E gorda. GORDA.

Oi, Londres!

Oi, Londres!

Na foto não dá para ter ideia, então cortei outra aqui para vocês verem o tamanho *indecente* da minha saia (as fotos são analógicas, então perdoem os riscos):

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Sério. Essa saia era número 36 ou 38. Hoje, ela não passaria em uma das minhas coxas. (olhem que coisa curiosa: meu braço esquerdo é mais forte que o direito e eu carrego as coisas nesse lado, apesar de ser destra.)

Eu sei que eu não me enquadrava idealmente nos padrões de beleza – nunca me enquadrei, desde criança. Mas eu era jovem, estava sozinha na Europa, morava sozinha no Rio, fazia faculdade. Tanta coisa pra me divertir e ocupar minha mente – e eu perdia meu tempo ficando com vergonha das dobrinhas na minha barriga e tentando “dar um jeito” no cabelo.

Focava na aparência do corpo das modelos, e não no que meu corpo me proporcionava.

Felizmente as coisas foram mudando e eu adquiri outros valores. A sensação de inadequação, no entanto, não passou completamente. Porque, afinal, as pessoas continuam sendo cruéis. Continuam berrando “sua gorda” quando eu ando na rua, continuam fazendo piadas no Twitter e me chamando de Ferrero Rocher no lançamento do meu livro em São Paulo (eu estava com um vestido dourado).

Sem contar as capas de revistas e a dificuldade para comprar roupa, para falar de coisas simples de imaginar.

Jamais deixei de fazer algo. Transo de luz acesa, uso biquini na praia. Sempre fui tranquila com isso, mas ao mesmo tempo jamais acho que um cara está olhando pra mim, me paquerando. Penso sempre que tem alguém ATRÁS de mim, tipo em várias cenas de filme.

Porque quebrar paradigmas é difícil, especialmente quando somos bombardeadas por todos os lados com imagens e discursos de corpos perfeitos. Perfeição, pra mim, é sentir prazer com meu corpo. É focar no que ele me oferece, e não como ele aparece pro mundo*.

E, hoje, ele aparece pro mundo uns 40 quilos mais gordo do que na foto acima. As dobrinhas na barriga, quase imperceptíveis em 1999, agora são várias barrigas juntas, especialmente depois da menopausa. Não, eu não gosto delas, porque foi uma mudança muito radical em pouco tempo, mas eu não deixo de viver e ser feliz por causa da minha nova aparência.

Como disse, preciso focar no que meu corpo faz por mim – e não se ele serve para enfeitar o ambiente. Talvez amigos do então namorado também tenham dito “a Nádia é legal, mas não é bonita”.

Todos dando sua contribuição para uma existência mais miserável de todos nós, como se todas as outras dores já não fossem suficientes. Vamos parar com isso já?

*este não é um discurso para a pessoa deixar de ser saudável. acho que a escolha é de cada um, desde que não influencie ou ofereça riscos aos outros.

O que você tem a ver com a gordura alheia?

Já relatei aqui alguns causos de xingamento que sofri por ser gorda.  É muito chato, inconveniente e desnecessário. No entanto, o que realmente me incomoda é quando esse comportamento vem fantasiado de “preocupação com a saúde”.

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Eu sei que, de fato, algumas pessoas querem me ver bem e feliz. Mas e quando é um colega de trabalho com quem você não tem a menor intimidade que vem te falar algo? Ou aquela pessoa que você não encontra há dez anos – e assim que ela te vê, fala: “nossa, você engordou! conheço uma médica/dieta/simpatia ótima”?

Criou-se no imaginário coletivo a ideia de que todo gordo é doente e todo magro é saudável. Não é verdade. Minha avó mora num hospital há um ano e meio. Todas as vezes que me contam que algum jovem morreu subitamente por lá, faço questão de perguntar se era gordo. A maioria não é. Mas, se fossem, já consigo imaginar a cara dos conhecidos dizendo: “é uma pena, mas ele se descuidou, né?”, Na cabeça das pessoas, “cuidar-se” é ser magro.

Cuidar-se é cuidar do que se come, sim, mas é também fazer exercícios, evitar o cigarro, beber pouco, ter um trabalho que não lhe consuma… há tantas variáveis! E só de olhar pra um gordo você não consegue identificar se ele “se cuida”.

Ainda que ele decidisse não “se cuidar”, o problema é dele. Só dele. Mesmo. É a vida dele que ele põe em risco. Pessoas que bebem e dirigem, por exemplo, ameaçam a integridade física alheia. Quem fuma, também. Mas você não vê as pessoas apontando o dedo umas pras outras assim que acendem um cigarro.

Evidentemente alguns gordos (e magros) têm problemas de saúde ou simplesmente querem dar uma emagrecida. Se você de fato está preocupado com o bem estar de outra pessoa, é bom se ligar no seguinte:

1) Qual sua relação com a pessoa? Como disse antes, é muito chato alguém com quem não temos a menor intimidade vir dizer como devemos nos alimentar, o tanto que devemos nos exercitar, etc, etc. Você não pode apontar “defeitos” na vida do outro caso você não seja alguém próximo, como familiares, parceiros, amigos íntimos.

2) O gordo não é burro. Ok, passou na fase 1? É bem próximo da pessoa com quem você está preocupado? Ótimo. Tenha em mente que é bem provável que o gordo teve acesso às mesmas informações que você. Logo, você não precisa ensiná-lo nada, adotar tom paternalista e condescendente. Você não é mais esperto porque é magro.

3) Dê uma força (e de verdade, não só o blá blá blá). Já aconteceu comigo – e provavelmente com você: pessoa tenta mudar a alimentação. Quando chega em casa, tem um montão de guloseima na geladeira. Como decidir pela alface quando tem brigadeiro de colher à disposição? Impossível. O mesmo vale para convites de rodízio de pizza, comida japonesa, churrasco, ou qualquer outra coisa.

Se você de fato quer a saúde de uma pessoa, mas ela não tem grana pra pagar a academia, considere fazê-lo (lembre-se: a pessoa que você está ajudando é bem próxima). Vá junto ao médico. Procure indicações de nutricionistas bacanas. Saia pra caminhar/correr/andar de bicicleta com a pessoa.

4) Aliás, esqueça o blá blá blá. Se a pessoa admitiu que é melhor mudar certos hábitos e está tentando fazer reeducação alimentar, você não deve ficar apontando cada vez que ela abrir um chocolate. A não ser que ela esteja realmente correndo risco de vida, ela é 100% responsável pelos próprios atos. É bem provável que outras pessoas já estejam enchendo o saco e que ela mesma tenha plena consciência de que seria melhor não “cair em tentação”, mas as consequências serão sofridas por ela. Ela decide.

5) Deixe que a iniciativa seja do outro. Você pode conversar, mas espere o momento da pessoa. Não force a barra. Claro que se você é íntimo e desconfia de que a pessoa tenha um transtorno alimentar, a coisa muda de figura.

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Eu sei que pra grande parte das pessoas é muito difícil imaginar que o outro não quer seus conselhos ou ser como você. Outro dia li o texto de uma ex-gorda em que ela falava quão horrorosa era a vida dela antes do emagrecimento (pior gordofóbico é ex-gordo, disparado. um dia escrevo sobre isso). 

A experiência dela foi essa. Ela acha que tudo de ruim que lhe aconteceu foi por causa do peso. Nem todo mundo sente igual. Eu sou gorda e já fui uns 40 quilos mais magra – e não era mais feliz na época do que sou agora. Também nunca deixei de fazer qualquer coisa em razão do meu peso. Eu fodo de luz acesa, vou à praia de biquini, danço…tenho dificuldade em, sei lá, subir uma ladeira ou fazer uma trilha íngreme, mas isso tem muito a ver com meu sedentarismo (magros também experimentam o mesmo problema).

Pra muitas pessoas, ser feliz sendo gordo e não se importando com a opinião alheia é um absurdo. Como assim você não é bonita (porque gorda no máximo tem “um rostinho bonito e seria uma gata se emagrecesse”), mas mesmo assim é autoconfiante? Que loucura!!! É, pois é. 

Sei também que tem quem deseje controlar o corpo do outro. Fazer decisões sobre como ele aparentar. Parece que se seu parceiro/irmão/filho não for magro, você falhou.

Breaking news: this ain’t about you.

Caso você deseje auxiliar na mudança de estilo de vida, respeite o tempo e as vontades de quem aquela vida pertence. 

Com o pé no acelerador

Quando cheguei aos estúdios do Futura para participar do Conexão Futura, o Carpinejar já estava no pequeno camarim. Nunca havíamos nos visto, mas nos “conhecíamos”. Em três minutos de conversa, ele me perguntou se eu gostava de mim (ou algo do tipo, não lembro direito).

Respondi “agora sim, mas precisei lutar e blábláblá who cares”. Eu fiquei tentando justificar o fato de eu gostar de mim mesma. Deveria ser o contrário: caso a pessoa não esteja satisfeita consigo, ela deve tentar explicar (a um terapeuta) e resolver a situação.

Eu, não. Estava ali, balbuciando coisas idiotas, como se me achar bacana merecesse pena capital.

Posso dar zilhões de justificativas para agir dessa maneira. Nenhuma será mera “desculpinha”. São coisas que internalizei ao longo dos anos, pela cultura em que estou inserida, pelas merdas que já me falaram na vida. Nada disso é novidade para quem estuda um pouquinho do feminismo: acaba-se com a autoestima da mulher para que ela, assim, não revolucione e fique quietinha (sim, isso também tem consequências na vida de alguns homens, mas tem muito a ver com a criação cristã).

Eu consegui superar algumas dessas ideias imbecis. Como disse ao Carpinejar, foi difícil, foi um processo, mas eu consegui (cá estou eu me justificando de novo).

Porém ainda há arestas a serem aparadas. Em vários momentos da minha vida eu estive prestes a conseguir algo incrível e parei antes. Parei. Congelei. E perdi oportunidades. Abandonei algumas. Isso aconteceu muitas vezes e já foi assunto na análise. Eu não me acho merecedora. Tudo pode se resumir a essa frase: eu não sinto como se merecesse o sucesso/a grana.

Pra vocês terem uma ideia, fui procurada em maio/junho de 2011 pela primeira editora que se interessou pela Letícia. Eu só escrevi o livro, mesmo, mais de um ano depois. Claro que tive a crise depressiva nesse meio tempo; é fato, porém, que eu teria enrolado do mesmo jeito se nada tivesse acontecido.

Eu não merecia um livro publicado e uma noite de autógrafos com aquele tantão de gente. 

Escrevê-lo foi, portanto, uma superação.

Agora estou de novo às voltas com o “não merecimento”. Tenho vários projetos para esse ano. Um deles também começou a se desenhar em 2011, mas tomou força nos últimos meses. É uma parada bacana e que, caso dê certo, vai me mostrar outras habilidades minhas e vai render alguma grana. Eu estou feliz com a oportunidade, me sinto desafiada e excitada.

Mas hoje recebi um ultimato. Um ultimato sutil, mais porque o tempo passa e prazos precisam ser cumpridos. E eu, de novo, entrei em pânico. Como assim existe a possibilidade real de eu ser bem sucedida?

Comentei sobre isso no Twitter e no meu Facebook pessoal. Minha amiga Larissa indicou, então, uma palestra de Sheryl Sandberg, COO do Facebook, sobre como nós, mulheres, não estamos no topo de empresas ou não somos líderes na política, apesar de representarmos 50% da população.

São várias razões, e a palestrante deixa claro que seria impossível abordá-las naquele momento, pois são questões sociais. Ela então resolveu focar no que podemos fazer individualmente para mudar esse panorama. Sheryl fala sobre a vida doméstica e maternidade, assuntos super pertinentes mas que não me tocam diretamente porque não é minha realidade.

Mas ela conta casos sobre mulheres e chega à conclusão: “O problema dessas histórias é que elas mostram o que os dados mostram: as mulheres subestimam sistematicamente suas habilidades”.

Nesse momento, então, ela me dá um tapa na cara: “E o mais importante, os homens atribuem seu sucesso a eles mesmos, e as mulheres o atribuem a fatores externos. Se você perguntar aos homens por que eles fizeram um bom trabalho, eles dirão, “Sou demais. Obviamente. Por que você está perguntando?” Se você perguntar o mesmo às mulheres, elas dirão que alguém as ajudou,que elas tiveram sorte, que trabalharam duro. Por que isso importa? Cara, importa muito porque ninguém chega ao escritório principal sentando ao lado, não à mesa. E ninguém é promovido se não acreditar que merece o sucesso, ou se não entender o próprio sucesso.”.

Eu faço isso direto. Digo que consegui um determinado emprego “porque não teve dinâmica de grupo, se não eu não teria passado”. Eu era muito boa naquele trabalho. Muito boa. Mas falo até hoje que “faltou” essa parte no processo seletivo, mesmo tendo feito mil provas, passado por entrevista, trabalhado muito.

Também digo que conquistei algumas coisas “porque tive ajuda”. Ser grato é super legal, mas, porra, se eu não tivesse metido a cara, tomado porrada e trabalhado até de madrugada essas coisas não teriam acontecido. Que BOM que eu tive ajuda, porque imaginem quão dolorosa a vida seria se não tivéssemos com quem contar. Ter apoio não desmerece o meu próprio esforço.

Pena que eu ainda não consigo internalizar isso.

No final da palestra, Sheryl fala para não tirarmos o pé do acelerador. Estou tentando fazer isso, mas, nossa, como é difícil. Just in case, hoje passarei o dia trabalhando no meu projeto. Nesse mesmo que me dá medo. E, quando der certo, serei grata às pessoas que trabalharem comigo, mas finalmente aceitarei que é uma conquista minha. Minha. Eu mereço.

(escrevi esse post pra ver se me convenço. espero que eu te convença também.)

Aplicativo mostra impacto de bebida sobre visual das mulheres

Vocês já devem ter visto a *notícia*, mas vamos lá:

aplicativo

O governo da Escócia aprimorou um aplicativo de smartphone que mostra como o consumo de álcool afeta o visual das mulheres ao longo de um período de dez anos.

O app faz uma simulação dos efeitos do álcool sobre uma foto que tenha sido fornecida pela usuária do telefone. A simulação se baseia no fato de a mulher beber acima do recomendado pelo governo escocês durante o período.

Chamado de Drinking Mirror (“Espelho da bebida”, em tradução livre), o aplicativo já havia sido lançado no ano passado, mas agora mostra os efeitos da bebida por um período maior.

Ele faz parte de uma campanha do governo escocês voltada a convencer as mulheres a beberem menos.

A campanha tem como alvo especificamente mulheres com idades entre 31 e 44 anos.

Álcool e mortes

A estimativa oficial é de que uma em cada 30 mortes de mulheres na Escócia tenha alguma relação com o álcool.

Além disso, acredita-se que uma em cada três mulheres beba mais do que o recomendado semanalmente – 14 unidades (cada unidade equivale a 8g ou 10 ml de álcool puro, que é a quantidade média que um adulto é capaz de processar em uma hora, em média).

A campanha pede às mulheres que diminuam a quantidade de álcool que tomam por semana, ficando longe das bebidas algumas noites na semana.

As informações são da BBC Brasil.

Só tenho três coisas a perguntar:

1) Por que diabos esse aplicativo é voltado a MULHERES?

2) Por que diabos, dentre todos os outros problemas que o álcool pode causar, as pessoas estão mirando na aparência física?

3) Porque diabos as mulheres estão proibidas de envelhecer e engordar? (lembrando que, no decorrer de dez anos, isso é provável que aconteça, mesmo que ela não beba uma gota de álcool.)

Para quem lê em inglês, aqui está o site da campanha (logo, é sério, não uma brinks de internet) e um texto da CNN.

Por enquanto o aplicativo só está disponível para Android, mas você pode fazer o teste na internet mesmo. E ainda pode compartilhar no Facebook! WHAT.THE.FUCK.

Here we go again

Na reportagem sobre sexo da revista TPM (da qual fui fonte), há uma estatística assustadora: segundo o Prosex, só 6% das mulheres se masturbam regularmente. Lembrei disso hoje porque ontem participei do Conexão Futura – e uma das entrevistadas era a doutora Camita Abdo, coordenadora, justamente, do Prosex.

Outro dia conversava sobre o assunto com um casal de amigos e a gente ficou se questionando sobre quantas vezes seriam esse “regularmente” (o assunto vai virar outro post). Eu então confessei que uma prova incontestável de que eu não estou bem é a quantidade de vezes em que penso/falo/desejo sexo. Incluindo aí a masturbação.

Penso, então, em 2012, o ano do coma*. Eu definitivamente não estava bem. O processo de recuperação da crise depressiva foi difícil e doloroso. E a decepção amorosa pela qual passei me deixou… cagona. É. Todo aquele sexo e alegria de 2011, quando esse blog surgiu, desapareceu no ano seguinte.

Quando a Letícia “nasceu”, muita gente disse que eu devia ter algum problema para querer tantos caras. Não tenho dúvidas que há quem use o sexo para esquecer frustrações (quem nunca, ainda que momentaneamente?), mas não era o meu caso. Se estou mal, não consigo ter tesão.

Esse foi meu panorama em 2012. No sex at all. Bom, quase isso. Sem dar maiores detalhes, basta vocês saberem que 2012 inteeeeeeeiro foi menos florido que o “pior” mês de 2011. Além disso, todos os caras com quem interagi sexualmente eram figurinhas repetidas. Sem riscos.

Flertei pouco, e sempre com caras impossíveis. Escolhi a dedo moços comprometidos, rapazes complicados, moradores de outras cidades. Tive DRs longas, chorei ao telefone, “fiquei de mal”. Toda a parte ruim de relacionamentos eu topei. Transar, que é bom demais, nada. Eu tinha de manter uma distância segura.

Afinal, e se eu me envolvesse demais de novo? E se ele – quem quer que tomasse esse posto – me abandonasse? O que aconteceria com minha saúde mental caso eu precisasse de ajuda e ele me virasse as costas?

Achei que não aguentaria. Para evitar a decepção, tomei a atitude (ou a falta de) de me fechar. Total e completamente. Medo, cagaço, fraqueza. Chamem do que quiserem. Estarão certos.

Mas 2013 chegou e eu, cheia de planos, comecei a mudar. Ou, melhor, comecei a trazer a Letícia de volta à vida. Ela é uma parte de mim que adoro! Ela me deixa mais divertida, mais solta, mais engraçada. E fácil. ;)

Voltei, aos poucos, a paquerar. Ainda está meio difícil, porque no primeiro sinal de babaquice alheia todas as luzes de atenção se acendem. Dá um medinho. A rejeição, por exemplo, me faz pensar duas vezes em tentar outra vez; antes, eu levava na esportiva.

Mas apenas sentir que ela está aqui dentro, pulsando a cada vez que vejo um moço barbudo e penso nele passando o rosto nas minhas costas, já me deixa feliz.

Aos poucos, voltei a escrever, a sair, a ler, a achar graça nas coisas. Eu estou melhorando a última parte que faltava, e a parte que me faz tão “eu”. Cem homens é pouco.

*eu não estive em coma propriamente dito. vai tudo bem com a minha saúde física, o problema foi a prostração que vivi entre novembro de 2011 e outubro de 2012. 

***

Vejam o Conexão Futura de ontem! YAY!

Atirando para todos os lados – e acertando na sua autoestima

A imprensa funciona assim: se falar que uma celebridade X diz que é possível ter prazer anal, mesmo que todos nós já saibamos disso, ela vai dar isso na home para gerar muito clique. E vai gerar.

Para algumas publicações (não todas), vale também o famoso “jabá”. Compra-se espaço em revistas, jornais, sites, blogs – e daí você de repente tem um novo “look” que você “precisa compor”. PRECISA.

E gera grana.

Tudo bem óbvio, não?

Infelizmente nem sempre a gente percebe os meandros desse jogo, pois a mesma corporação é dona de diversas empresas e marcas. Então, uma companhia pode te dizer que o odor da sua menstruação (ou da sua buça) é insuportável e te vender absorventes perfumados. Você acha que é suficiente, mas aí eles vêm com o sabonete íntimo. E por aí vai.

Como diria a agora já velha frase de Jerry Maguire: “Show me the money”.

É pela grana que fazem você se sentir assim, feia, bizonha e mal vestida.

Mas e quando a mesma empresa/publicação se contradiz?

Foi o que aconteceu nos Estados Unidos. A revista Seventeen (tipo uma Capricho) fez uma campanha de “ame seu corpo”, o Body Peace Treaty. Noventa mil garotas assinaram. Entre os tópicos, estão as promessas de:

  • Aceitar as mudanças pelas quais meus corpo está passando. Vou celebrar minha nova forma e curvas. Vou arrasar!
  • Não deixar meu tamanho me definir. É muito melhor focar em quão incrível eu fico com meus jeans do que no número da etiqueta.
  • Lembrar sempre que o que eu vejo na TV e em propagandas não é real – rola photoshop, dieta, grana e malhação para ficar com aquela aparência.
  • Pensar que o sol vai surgir amanhã, mesmo que eu tenha comido muitas fatias de pizza ou tomado um sorvete hoje à noite.

A lista de coisas fofas e ounnnnnnn está aqui (em inglês).

Então pensamos “nossa, que bacana uma revista voltada às adolescentes fazer isso. É realmente muita pressão social, em especial nessa época, quando nossos corpos ainda estão se desenvolvendo, nossa autoestima fica abalada, etc, etc, etc”.

Só que não.

A mesma revista é a patrocinadora da nova edição de The Biggest Loser (Perder para ganhar, no Brasil), aquele reality show em que as pessoas fazem dietas super restritas e exercícios físicos pesados. A 14ª  temporada do programa será com… adolescentes!

Ué, não era para a pessoa se sentir bem no próprio corpo?

Vejam: eu sou gorda, todo mundo sabe disso, e não sou do time “seja gordo e não se importe com a saúde”. Quero dizer, essa é uma decisão individual e sei que, quando se é adolescente, fica mais difícil pensar na vida dali a algumas décadas e em como seu corpo estará.

Porém, o patrocínio de um programa como esse, em que os participantes são ridicularizados e culpabilizados de maneira cruel pela gordura (como se fosse um crime capital), não me parece uma iniciativa coerente com quem pretende fazer uma campanha de “ame seu corpo”.

Com a parceria, uma das competidoras, Sunny Chandrasekar, irá atualizar um blog na Seventeen sobre sua participação em The Biggest Loser. No vídeo de inscrição, a jovem diz o motivo pelo qual gostaria de ser escolhida:

“Eu quero me amar… o que é difícil pra mim, com esse peso. Em segundo lugar, quero estar incrível na minha festa de formatura.” Quer dizer: nada de amor próprio se você for gorda, nenhuma chance de estar bonita na formatura se não emagrecer.

A mãe de Sunny também fala na entrevista: “O meu maior arrependimento na vida… é ter deixado minha filha entrar nesse ciclo de ganho de peso”.

A incoerência da revista se explica de um jeito: fazer a campanha de “body positivity” pega bem, é boa mídia espontânea, tem efeito bacana depois de serem acusados de exagerar no photoshop. Gera venda de revista.

Por outro lado, patrocinar um programa de TV é fazer propaganda. Gera venda de revista.

Quanto a “querer dinheiro”, eles são bem coerentes. Nada contra ganhar dinheiro – como digo sempre, a Eletropaulo precisa ser paga. Mas cuidado com certas “filosofias de vida” que você vê na TV, em revistas, em livros, em blogs (inclusive aqui).

Pense, repense, conteste, considere os motivos por trás de cada coisa. E, ao final, escolha o seu melhor caminho.

Ai, mas antes era melhor que agora. Só que não

Caiu na minha timeline um link concordando com o post abaixo. Se você quiser ver o original, clique aqui, mas reproduzo a imagem:

Adolescentes anos 90 VS Adolescentes anos 2010

Não. Eu não sou nenhum falso moralista de redes sociais, mas não consigo ver com bons olhos essa “evolução“.

Eu com 14 anos estava preocupado se o Pikachu ia ou não evoluir (acho que por isso acabei com blogueiro, enfim). Acho triste que a molequegem vai se perdendo, pra mim é tudo culpa do Mark Zuckerberg…”

Nem precisa forçar as sinapses nervosas para perceber que, quando alguém começa uma frase com “não sou moralista, mas” (e seus correlatos, como “não sou machista/racista, mas…”), vem moralismo logo em seguida.

Se eu já me irrito quando cagam regra sobre a sexualidade de mulheres adultas, fico ainda mais indignada quando os alvos são garotas na adolescência. Esses blogueiros parece que passaram dos vinte anos e de repente, não mais que de repente, sabem tudo da vida e se arvoram no direito de criar conceitos sobre todos os assuntos.

E, tudo bem, o cara está lá no blog dele, contando clique. Deixa ele falar qualquer coisa. Mas, por favor, parem para pensar dois segundos antes de engolirem qualquer besteira.

1) Por qual razão são garotas nas imagens, e não garotos? A “sexualização” (sic) só aconteceu com quem tem buceta? Os garotos antes jogavam, sei lá, botão, e agora ficam vendo pornografia online e pedindo pra essas garotas se mostrarem pra eles.

2) É impossível precisar qual a idade das garotas acima. Aparentemente a *molecona* é bem mais nova. Mas pode ser o contrário. A *sexy* pode ter bem mais idade do que o post falso moralista pretende mostrar.

3) Ter vida sexual ativa não quer dizer abandonar todo o resto da vida que é considerado “lúdico” por essa galera. O que mais tem é adulto soltando pipa, jogando videogame e coisas do tipo.

4) Não existe SEXUALIZAÇÃO PRECOCE, existe EROTIZAÇÃO precoce. Fiz um post há algum tempo falando sobre a diferença (desculpem, não está editado, mas o link está aqui). Bebês dentro da barriga da mãe têm ereção. Sexualidade é natural. Como a gente trata o sexo é que talvez não seja.

5) As coisas no passado não eram diferentes. Por favor, não falem sobre o que não conhecem. Ou melhor, conhecem, mas convenientemente esqueceram só para “provar um ponto”. Vejam abaixo a roupa usada pela Xuxa em um programa infantil.

E a abertura do Fantástico em 1987, o “programa dominical da família brasileira”? Lembram?

Refresquem a memória:

(Agradeço se alguém me explicar que diabos um monte de gente seminua representa na abertura de um jornal. Sério mesmo. Quase duas décadas sem entender essa porra.)

6) As garotas se “exibem” por uma série de motivos. Algumas, porque gostam mesmo, são exibicionistas, se sentem delícia e têm tesão nisso (e tesão não acontece só depois dos 18 anos, ok?). Outras, porque acham que assim serão amadas/desejadas/terão atenção. Há mais um grupo que acredita que é esta a função delas no mundo: ser enfeite. Querem mudar isso? Parem de falar do feminismo como se fosse a peste negra, o ebola,   a gripe espanhola. Ele serve – entre zilhões de outras coisas – como forma de empoderamento.

7) As pessoas fazem sexo. Por isso existem sete bilhões de pessoas no mundo. E somos frutos de relações sexuais com o fim de reprodução (ainda que por descuido).

8) Se você acha errado expor o corpo de adolescentes dessa maneira, por qual razão mesmo você expôs? Pra julgar a garota? Pra gerar clique? Pra se mostrar superior por estar “denunciando” algo? Risíssimos.

9) A garota se insinuar sexualmente não dá direito de ninguém, absolutamente ninguém, tocar o corpo dela. Caso ela tenha menos de 14 anos, a violência é presumida e ponto final: é estupro.

10) Pare de cagar regra na sexualidade alheia. Cuide da sua. Com certeza há algo a ser resolvido aí.

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Recomendo também a leitura deste post meu sobre o assunto e sobre como os pais nunca acham que os filhos já pensam em/fazem sexo. 

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Eu, Clara Averbuck e Mariana Bandarra estamos com um projeto novo. Será bem engraçado, multimídia, interessante e, claro, feminista. O “Agora é que são elas” reestreia ano que vem, mas a fanpage está na no ar. Curte lá! 

Você não é prato do dia

Durante o feriado rolou mais uma propaganda bizarra da Axe. Nós já sabemos que eles coisificam as mulheres, como se fossemos objetos, mesmo. Nem estou falando de “objeto sexual”, não, mas sim de uma coisa, um enfeite, um peso de porta.

Além de sermos colecionáveis, agora também estamos num cardápio. A “gracinha” no Facebook era a seguinte (infelizmente não salvei e já saiu do ar): “homem não tem agenda de telefone, tem cardápio”.

Feio demais uma empresa se posicionar dessa maneira. É aquilo que já conversamos: essas peças publicitárias passam por um montão de gente até chegar ao público. Ninguém percebe como são equivocadas?

No entanto, é preciso dizer: apesar de ser tosquíssima, a peça representa, sim, o pensamento de parte da população. Muitas das leitoras do blog chegaram aqui por meio de um texto difamatório postado em um outro blog em que o autor SEMPRE chamava as mulheres de “lanchinho”.

Pra ele, a agenda telefônica é, sim, um cardápio.

Muita gente vê o parceiro de sexo casual como uma coisa. Quem leu meu livro viu como eu trato meus moços. Mesmo que seja apenas sexo (e isso já é muita coisa), eles não se transformam em pintos voadores. Não há nada de errado em não pretender namorar com quem você está transando, desde que as intenções estejam muito claras.

Quantas vezes eu fiz sexo só pelo “eu não estou fazendo nada, você também”? Zilhões. Nem por isso eu tratei os caras com descaso, sem me preocupar com o prazer deles. Como diria Gaiarsa (sempre ele, esse lindo): “não esqueça que se trata de uma relação. Que você não está sozinho, que ela [a parceira] está até que bem próxima”.

No entanto, não posso deixar de admitir, com um certo pesar, que provavelmente fui tratada com um “lanchinho”. Que fui coisificada. Tratada como um buraco. Ou como uma bomba de sucção.

Porque antigamente eu pensava “homem é assim mesmo”. Não é o que dizem por aí? Também tinha problemas de autoestima e imaginava que o máximo que iria “conseguir” era aquilo. Que eu não merecia mais. Se eu quisesse, era aquilo. E que me desse por satisfeita!

Os anos foram passando, eu fui crescendo e amadurecendo. Percebi que, mesmo que eu não seja a Gisele Bündchen ou não tenha sido premiada com o Nobel de Literatura, ainda assim eu mereço ser tratada com respeito. Porque eu sou gente, não uma boneca inflável.

Faço sexo casual, adoro e pretendo continuar fazendo. O que mudou foi a qualidade das pessoas com quem me envolvo. Evidentemente às vezes não dá para perceber de cara que ele vai me tratar mal. Se eu tivesse uma bola de cristal…

Mas eu aprendi a dizer “basta” e a interromper certas relações se elas forem de alguma forma prejudiciais à minha sanidade física ou mental. Isso inclui, é claro, ser tratada como uma coisa.

Portanto, reclamemos, sim, de peças publicitárias patéticas e machistas como as da Axe. Mas precisamos nos posicionar também no cotidiano, seja nas relações da “vida real”, seja em como nos comportamos na internet. Como algumas de vocês leram aquele blog da “mulher lanchinho” durante tanto tempo? É porque era com a “outra”? Vale dar uma relida no post de ontem para perceber que a outra também é você. Seguir gente machistinha no Twitter, compartilhar texto de site/blog desrespeitoso, curtir página que faz piada com minoria: tudo isso é corroborar com o comportamento misógino e preconceituoso de quem trata outras pessoas como inferiores.

Nossa publicidade tem que mudar, sim, mas a mudança deve ser muito mais profunda que isso. É uma mudança estrutural, difícil, pesada. Mas ela tem que ser feita. Comece por você.

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Eu não estou mais vendendo livros aqui no blog. No entanto, como muita gente estava esperando o cartão liberar/a grana entrar, resolvi dar uma última chance aos retardatários. :)

Se você quer comprar o livro com dedicatória, peço que preencha o formulário abaixo. De acordo com o número de pedidos, talvez eu faça uma nova encomenda à editora. Por favor só preencham se realmente tiverem interesse. 

Houve quem emitiu o boleto e não efetuou o pagamento, e isso me deixou no preju. Lembro que o livro está à venda em livrarias físicas e online (o link está aqui).

ATENÇÃO: Isso é uma mera possibilidade, que dependerá do interesse das pessoas. E o envio provavelmente demorará um pouco. Obrigada.

https://docs.google.com/spreadsheet/viewform?formkey=dFdXRGpzRmVtdXNHYVZsM2FoUWtUaGc6MQ

Gorda e brilha muito!

Eu quis comprar uma roupa nova para usar no lançamento do livro. Queria fugir de lojas de departamento e usar algo mais bacana. Na sexta-feira fui ao Shopping Morumbi. No sábado, corri até a Domingos de Morais, na Vila Mariana, onde há lojas com numeração maior.

Olhei, experimentei, mas nada me deu realmente vontade de levar. Fiquei assustada com o preço: nenhum vestido, por mais simples que fosse, saía por menos de 200 reais. Acho que me acostumei demais com Renner e C&A.

Na última loja em que fui até consegui comprar umas blusinhas. Como depois passei na Shoestock e comprei um sapato incrível, já havia decidido ir ao lançamento com ele, uma das blusas novas e uma saia que eu tenho.

Eu estava perto do Shopping Ibirapuera, e resolvi dar uma última chance às lojas com roupa de gordo. Eu procurava uma jaquetinha/casaquinho para compor o look (o uso da palavra “look” foi uma piada, ok? tenho horror quando falam isso a sério). Depois de rodar e rodar e meus pés estarem gritando de dor, vasculhava uma arara de vestidos e achei um de paetê.

Pedi para experimentar, mas não considerava usá-lo na segunda-feira. O preço estava razoável perto do que eu havia visto antes e poderia servir para um evento qualquer. O que eu havia escolhido, meio salmão, só tinha um tamanho que ficou grande em mim. Experimentei mais um, menor e em tons de cobre, mas fiquei encafifada com o brilho.

A vendedora ainda disse: “ah, o que saiu no catálogo é mais brilhoso ainda, esse aí está discreto”. Ela me mostrou a foto. E trouxe o tal vestido dourado (era o mesmo modelo, as cores das lantejoulas é que eram diferentes).

Coloquei e me senti meio ridícula. Ao mesmo tempo, pensei em tantos outros vestidos iguaizinhos que eu vi em “loja de gente normal”. Considerei usá-lo no lançamento. Liguei para uma amiga e perguntei se ela achava over. A resposta foi positiva.

Passei vários minutos decidindo se compraria ou não. Acabei decidindo levá-lo, com a garantia que poderia trocar caso me arrependesse por motivos de: vergonha de sair toda brilhosa.

Porque eu sou mais discreta. Amo roupa preta e branca, especialmente se for de bolinhas. Uso um brilhinho no máximo na blusa (e prefiro paetê preto).

Só que, enquanto eu me olhava no espelho do provador, pensei em todos os “não pode” ditos para gordos. Lembrei das roupas medonhas que vi naqueles dois dias. Cheguei a experimentar alguns vestidos pretos que ficariam ótimos… num velório! Sério: nenhum decote bacana, gola fechada até em cima, como se tivéssemos que esconder até o colo. Ok, eu preciso que a alça seja mais larguinha para eu poder usar sutiã. Algumas de nós não curtem mostrar os braços (magras também têm questões com isso). Eu tô nem aí e inclusive fiz uma tatuagem e adoro deixar à mostra.

Mas eu não preciso me vestir feito uma velha ou como alguém que decidiu sair enrolada num lençol. Poxa, custa usar a mesma estampa das roupas de ~gente magra~ e fazer uns vestidos/blusas/saias para quem é gorda?

Ah, mas é porque listras horizontais engordam, porque não se pode chamar a atenção para determinadas partes do corpo, e não pode isso, não pode aquilo. E dá-lhe vestido com estampa igual às de sofá barato.

Pensei em tudo isso. Lembrei da semana da autoestima aqui do blog. Comecei a me achar uma hipócrita: fico o tempo todo dizendo para as pessoas se amarem e serem livres, mas estava com medo de parecer ridícula com um vestido dourado, porque sempre me disseram para ser mais discreta.

Também lembrei de um twitt da Deborah. Ela dizia que precisamos de mulheres “fora do padrão” que sejam seguras. Se eu fosse de preto, como era minha intenção, eu estaria passando a imagem de segurança? Talvez algumas pessoas dissessem que eu estava elegante e eu não tivesse que ler certas piadas na internet sobre a minha indumentária, mas essa sou eu?

Sempre foi. Mas, agora, aos 33 anos, eu ainda sou aquela mulher? Depois de tudo o que passei, eu ainda sou aquela que está sempre voando abaixo do radar?

Eu gosto muito de roupa preta, sempre gostei, mesmo quando era quarenta quilos mais magra. Porém, hoje não se trata muito de escolha: os vestidos mais bonitinhos que cabem em mim são sempre pretos. Por que não ir toda brilhosa, sim, e mostrar que nós também podemos nos vestir com o que está na moda?

E, bom, resolvi tirar mais um “não pode” da minha lista e o resultado foi aquele que vocês viram na segunda-feira. Teve gente que não gostou, teve quem fizesse piada. Sempre vai ter. O importante é o que eu vou fazer com isso… Demorou, mas finalmente não tenho só o discurso de quem não se importa. Hoje eu tenho a atitude.