Estou lendo Faça acontecer, da Sheryl Sandberg, chefe de operações do Facebook. Quando acabar eu escrevo sobre o livro. Por enquanto, vale muito ver essa palestra dela no TED – até já coloquei no Cem Homens, mas ela é tão boa que vale repetir. O livro vai no mesmo caminho, usando inclusive algumas das histórias que ela conta no vídeo.
Eu não estou me identificando super com o livro (estou na metade), até porque ela fala mais com mulheres que são casadas, têm ou querem ter filhos, fazem carreira no mundo corporativo.
É bem diferente de quem sou hoje: solteira, sem filhos e free lancer.
No primeiro capítulo, porém, Sandberg traz questionamentos que, aposto, muitas de nós conseguimos nos identificar. O título é “o abismo nas ambições de liderança: o que você faria se não tivesse medo?”.
A autora discorre sobre histórias de família e mostra estatísticas sobre a participação de homens e mulheres nas empresas e na economia familiar. Ela traz teorias sobre a quantidade de mulheres líderes – e não vou contar pra vocês quais conclusões ela chegou, se não eu basicamente estaria contando o livro todo.
Ainda que ela esteja falando de carreira no sentido mais formal, Sheryl aponta o que vemos acontecendo em muitas áreas: “o canal que abastece o mercado de trabalho qualificado está entupido de mulheres no nível da entrada, mas, quando esse mesmo canal abastece as posições de chefia, há um predomínio esmagador de homens”.
Segundo a autora,um dos motivos para isso é o que ela chama de “abismo na ambição de liderança”.
“A ambição profissional é algo esperado para os homens, mas opcional – ou, pior, às vezes até algo negativo – para as mulheres. “Ela é muito ambiciosa” não é um elogio em nossa cultura. Mulheres agressivas e que jogam duro transgridem regras tácitas da conduta social aceitável. Os homens são constantemente aplaudidos por ser ambiciosos, poderosos, bem sucedidos, ao passo que as mulheres com as mesmas características costumam pagar um preço social por isso. As realizações femininas custam caro.”
Muitas de nós não queremos pagar esse preço social. Se a gente foge desse papel de gênero da mulher dócil e maternal, a possibilidade de não gostarem da gente é bem grande. Talvez se a nossa autoestima não estivesse no outro poderia ser fácil dizer “ah, manda todo mundo pra muito longe”.
Infelizmente não é assim, e somos tão colocadas à prova o tempo todo que ficamos com aquela sensação horrível de que a qualquer momento seremos descobertas. Saberão que somos fraude.
Eu não sei você aí que está me lendo, mas isso é tão constante na minha vida que não sei nem precisar quando começou. Terá sido ainda no colégio, quando escolhiam minha redação como a melhor da turma e eu queria me esconder embaixo da mesa?
Repito esse comportamento o tempo todo. Recentemente fui entrevistada para um programa de televisão. Fiquei feliz de ser convidada. Tudo ia bem, com alguns receios, acredito que óbvios quando sua vida não é aparecer em vídeo.
Porém, quando foi chegando a hora da gravação e eu vi o estúdio sendo arrumado, eu quis sair correndo. Literalmente. De salto alto e tudo. Cheguei a pensar, durante alguns momentos, em como seria abrir a porta do camarim e simplesmente desaparecer.
Durante entrevistas eu costumo ficar calma. Tenho confiança no que estou falando e sei qual meu lugar ali. A cada momento de distração, porém, vinha o pânico que Sheryl Sandberg chama de “síndrome do impostor”.
O que eu estou fazendo aqui?
Por que essas pessoas estão me entrevistando?
Vão cortar essa resposta, lógico, porque foi ridícula!
Meu deus, eu sabia que iam perguntar isso, pelamordedeus alguém me tira daqui.
E, de novo, quis me esconder embaixo da mesa all over again.
A grande merda é que dessa vez a mesa era transparente, então não tinha como.
Meu pânico era tão grande que, ao final, escrevi na dedicatória do meu livro “estou aterrorizada, mas acho que essa parte já ficou óbvia”.
Uma amiga, sabendo de tudo, disse que achava legal que eu, apesar do medo, ia em frente. Não é totalmente verdade. Tenho projetos e mais projetos não engavetados, mas não também expostos pro mundo, por puro medo de não dar certo. Claro que às vezes há muita grana envolvida, ou precisamos sustentar a família. Fica mais difícil mesmo ir em frente.
Mas, e no meu caso (e, talvez, no seu), por qual razão eu posso me sentir tão aterrorizada se absolutamente ninguém depende de mim?
Como posso achar que sou uma fraude, que esse blog é uma idiotice, que meus textos (profissionais mesmo) são um equívoco, que meu livro é uma merda, que quem me entrevista na verdade está é sem nenhuma fonte e eu fui a última que ele procurou num momento de desespero?
Como?
De um lado da balança, a culpa por ter ambição de liderança; do outro, a síndrome do impostor.
No meio, eu, meio que me segurando sei lá onde, buscando respostas que nunca irão chegar, querendo me esconder embaixo de mesas reais e imaginárias.
Sheryl Sandberg pergunta: o que você faria se não tivesse medo? Diz que ela escreveria o Faça acontecer, como de fato o fez. E você? O que você faria?















