Na época em que eu relatava meus encontros sexuais aqui no blog recebi toda sorte de xingamentos. Uma das “preocupações” das pessoas que jamais conheci era a minha saúde.
“Com tanto homem assim”, era “óbvio” que eu ia pegar alguma doença sexualmente transmissível. O assunto voltou à baila depois do post sobre namorar uma garota de programa.
Nós, as putas, seríamos responsáveis por todo o mal em forma de vírus, fungos e bactérias do mundo. Os moralistas e punheteiros de plantão (nada contra punheta. acho lindo. mas quem SÓ faz isso deve ter problemas) acham que a abstinência sexual os protege de doenças. Bom, a igreja também prega isso – e com esse pensamento se evitam políticas públicas sérias de prevenção.
Daí você pode dizer que uma pessoa que transou com mais de três parceiros no último ano não pode doar sangue. São padrões instituídos, mesmo. Assim como os tatuados também não podem. Moralismo barato ou só cuidado excessivo e necessário?
Não sei dizer.
Só sei contar sobre a minha experiência – personalíssima e divertida pra caramba. Segundo estatísticas, eu tenho uma vida sexual mais movimentada que a média. SEMPRE tive. Não foi algo que surgiu na minha cabeça em 2011 e eu resolvi sair dando por aí.
Não. Sempre, sempre, sempre fui liberada sexualmente. Agora um pouco mais, porque também eu era eivada de machismo.
Pois bem. Eu, euzinha, nunca tive nenhuma DST. Nenhuma. Não tenho HPV, um mal que atingirá de 50 a 80% da população feminina do mundo e é o grande responsável pelo número de casos de câncer do colo do útero.
Já tive, como quase todas nós, candidíase. Você pode nunca ter chegado perto de alguma atividade sexual e pegar cândida. É um fungo, super comum, por exemplo, no verão, por causa do uso das roupas de banho úmidas. A coceira e o odor indicam; você usa um remédio por três dias, fica sem transar nesse período e pronto. Assunto resolvido.
Por que eu, com tamanha variedade de parceiros, nunca fiquei doente? Simples: piranha que é piranha sabe disso. E se liga, se cuida. Eu não transo sem camisinha. Não vou mentir e dizer que nunca aconteceu. Já, já aconteceu, e eu fiquei em pânico depois. Faço exames regularmente, vou à ginecologista, incluo o anti HIV quando vou colher sangue para ver, sei lá, meus hormônios.
Mas eu sei que as pessoas “automaticamente” pensam em doença quando veem uma pessoa mais “dada”. Será que é automático mesmo? Será que as estatísticas realmente mostram que quem transa mais, tem mais chance de contrair doenças? Se formos analisar só o número, friamente, sim. Mas são pessoas, que se comportam de maneiras diferentes – e dispensam ou não o uso de camisinha. Tem gente, inclusive, que tem TESÃO em transar sem proteção não pelo prazer no ato sexual, mas sim pela possibilidade de pegar HIV. Uma espécie de roleta russa dos anos 2000.
Isso tudo ficou muito claro pra mim há alguns anos. Eu transei com um cara comprometido. Noivo. Usamos camisinha o tempo inteiro. Alguns dias mais tarde ele me procurou porque estava com gonorreia. Além de querer me avisar, ele fez um tipo de acusação, como se tivesse contraído a bactéria na nossa relação. Eu não sei com quantas outras pessoas ele havia transado nos últimos tempos, mas sei que ele não usava camisinha com a noiva.
Ah, mas a noiva, aquele ser quase virginal, não poderia ter uma doença tão mundana, né?
Bom, o que eu sei é que EU não tinha.
O que vejo acontecendo é que as pessoas com um suposto relacionamento monogâmico deixam a camisinha de lado. Além do risco das puladas de cerca, o casal tende a fazer isso sem fazer exames e sem considerar a janela imunológica. Um olha para a cara do outro, diz que não tem vontade de sair com mais ninguém, que já estão “há tanto tempo juntos” e simplesmente para de usar preservativo. “No pelo é mais gostoso”, repete-se por aí.
Eu, que comecei a minha vida sexual há zilhões de anos, até concordo que há uma década havia uma enorme diferença entre transar com camisinha ou sem. “É como chupar bala com papel”, diziam. De fato, ainda mais para uma mulher alérgica, não era a coisa mais legal do mundo. Mas as camisinhas mudaram, ficaram mais fininhas, mais seguras e essa sensação melhorou muito. E, cá pra nós, é o que tem pra hoje.
Só que por uma espécie de conveniência os casais ignoram os riscos de contrair alguma doença. Tem homem que acha uma afronta a mulher pedir que ele vá ao médico. Peniscopia? Quem já fez? A mulher vai sempre ao ginecologista, mas e os rapazes?
Um tempo desses fiz uma enquete aqui voltada às mulheres perguntando se elas carregavam camisinhas. Não tenho acesso agora ao resultado, mas grande parte delas disse que isso era obrigação masculina ou que tinham vergonha de andar com preservativos na bolsa. “Coisa de puta.”
Como resultado, uma em cada dez jovens atendidas no SUS tem DST (leia mais aqui, no ótimo blog da minha amiga Mariana Perroni). Conheço mulheres que contraíram HPV com o primeiro parceiro sexual. Aos 20 e poucos anos estavam às voltas com cauterização do colo do útero. Outras viram o sonho de se tornar mãe indo por água abaixo porque já havia evoluído para um câncer.
Elas se acharam acima do bem e do mal porque eram “mulheres direitas”. Daí os homens não necessariamente “direitos” saem com essas moças “acima de qualquer suspeita” e também deixam a camisinha de lado. E assim as doenças são transmitidas.
A não ser que a pessoa esteja num estágio avançado de algumas DSTs, como a gente vê nos livros de biologia, nós não temos como saber se ela está infectada. Por isso, camisinha, sempre. Falso moralismo, nunca.