Sinto preguiça só de ver pela televisão as multidões em shows. Penso no trampo para chegar e sair do lugar, nos banheiros, nas filas, no aperto, nas pessoas grudadas em mim.
“Nossa, é muita vontade”, resmungo.
De fato. É muita vontade de ver sua banda favorita, de encontrar os amigos, de dançar, de ser feliz. Eu não acho que precisamos passar por desconforto para nada disso – mas infelizmente no Brasil é assim que os grandes shows rolam.
Quando as atrações do Lollapalooza foram anunciadas, eu fiquei tensa. Entre vários motivos, eu achava que não ia aguentar os três dias (nem um só, diga-se de passagem). Como todos sabem, há um ano e meio tive uma crise depressiva que me acompanhou durante meses. No Lolla do ano passado eu estava bem ruim ainda, e interagir socialmente era um suplício.

Poster do Pearl Jam no Lollapalooza Brasil 2013. Por Bradley W. Klausen. No verso, “we all have the power, deep down within… to raise up our light, it starts with a spin”
Eu não queria sair de casa. Arrumava as desculpas mais estapafúrdias para ficar trancada sozinha no apartamento. Se saísse, começava a me arrepender ainda no elevador. Em 95% das vezes eu não me dava ao trabalho nem de passar um batom. Chegava nos lugares e fechava a cara se algum desconhecido se aproximasse. E estou falando dos amigos dos meus amigos!
Agia assim porque não conseguia fazer diferente. Era tudo tão doloroso, tão difícil, tão cansativo. Voltava pra casa exausta. O cansaço, então, virava uma nova desculpa para não sair da próxima vez em que me convidassem.
Tais atitudes passaram a fazer parte de mim. Sempre fui ranzinza (sempre) e acabei me acostumando a pensar que aquilo tudo (a preguiça, o mau humor, a exaustão, a falta de vontade de conviver socialmente) fizesse parte da minha personalidade. A depressão deixa marcas profundas; e eu confundi a doença com a minha personalidade.
Fui melhorando, como vocês sabem. Saí mais. Claro que ainda tenho preguiça e várias vezes fico em casa quando meus amigos estão no bar. Normal, né? A falta de grana também é um problema sério. Mas antes eu precisava fazer um esforço pra enfrentar o mundo. Hoje acontece naturalmente. Eu quero, eu sinto vontade, eu até preciso sair de casa.
Mas o Lolla ainda parecia demais. Três dias.
Só comprei do último, claro, porque Pearl Jam não se perde. Fui na sexta-feira, dia do The Killers, e fiquei plantada na fila durante duas horas. O tempo foi suficiente para eu considerar mil vezes largar tudo, sair correndo, entrar num ônibus e voltar pra casa.
Fiquei. Pensei: “hoje, não. hoje quem manda aqui sou eu. meus amigos tão lá dentro, Brandon Flowers vai aparecer incrível no palco. Daqui eu não saio”.
Ainda bem. Nas horas e dias seguintes encontrei muita gente amada, gritei, dancei, pulei. Também fiz xixi me equilibrando no banheiro químico e até adotei uma técnica para segurar o hamburguer e o copo de coca cola sem deixar cair uma migalha.
Senti dores: meus pés incharam, o calcanhar parecia em brasas, não conseguia achar jeito para deitar sem que a lombar incomodasse.
Mas vivi intensamente os três dias, interagi socialmente com colegas de faculdade com quem nunca tive intimidade (e meu padrão de comportamento seria ficar com meus amigos de muitos anos), criei novas memórias.
Meu corpo reclamou do cansaço, mas aceitou a felicidade direitinho. Nos dias seguintes ainda tive um compromisso importante que me fez passar hooooooras dentro de um ônibus e uma noite inteira sem dormir. No fim, foram cinco dias muito intensos e movimentados.
Há um ano, eu teria chorado e desistido no meio. Não me daria nem ao trabalho de vender meu ingresso – a fadiga seria demais pra mim.
Hoje, estou quase pronta pra outro festival. Falta o dinheiro, uma gripe chata resolveu me incomodar, mas estou saudável. Falo isso aqui porque sei que muita gente que me lê está neste momento passando por dificuldades parecidas com as minhas de um ano atrás.
Com apoio, auxílio médico e terapia é possível se recuperar e viver feliz. Não é fácil, dá trabalho, de vez em quando rola medo de acontecer tudo de novo. Mas persista no tratamento. E aí, quem sabe, a gente se encontra num desses festivais. :)
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Por falar em ser feliz, hoje tem exibição tripla de curtas no MIS, aqui em São Paulo.
Conheço um dos curtas, o “Uma Vida Inteira”, de Ricardo Santini e Bel RIbeiro. É baseado em “O Salto”, do Antonio Prata, um dos textos mais incríveis que já li. Pra completar, ainda tem a belíssima, competentíssima e todos os íssimas bons do mundo Alice Braga.
Teaser do curta metragem – UMA VIDA INTEIRA from Bruno Autran on Vimeo.









