Melhor. A cada ano

Sinto preguiça só de ver pela televisão as multidões em shows. Penso no trampo para chegar e sair do lugar, nos banheiros, nas filas, no aperto, nas pessoas grudadas em mim.

“Nossa, é muita vontade”, resmungo.

De fato. É muita vontade de ver sua banda favorita, de encontrar os amigos, de dançar, de ser feliz. Eu não acho que precisamos passar por desconforto para nada disso – mas infelizmente no Brasil é assim que os grandes shows rolam.

Quando as atrações do Lollapalooza foram anunciadas, eu fiquei tensa. Entre vários motivos, eu achava que não ia aguentar os três dias (nem um só, diga-se de passagem). Como todos sabem, há um ano e meio tive uma crise depressiva que me acompanhou durante meses. No Lolla do ano passado eu estava bem ruim ainda, e interagir socialmente era um suplício.

Poster do Pearl Jam no Lollapalooza Brasil 2013. Por Bradley W. Klausen

Poster do Pearl Jam no Lollapalooza Brasil 2013. Por Bradley W. Klausen. No verso, “we all have the power, deep down within… to raise up our light, it starts with a spin”

Eu não queria sair de casa. Arrumava as desculpas mais estapafúrdias para ficar trancada sozinha no apartamento. Se saísse, começava a me arrepender ainda no elevador. Em 95% das vezes eu não me dava ao trabalho nem de passar um batom. Chegava nos lugares e fechava a cara se algum desconhecido se aproximasse. E estou falando dos amigos dos meus amigos!

Agia assim porque não conseguia fazer diferente. Era tudo tão doloroso, tão difícil, tão cansativo. Voltava pra casa exausta. O cansaço, então, virava uma nova desculpa para não sair da próxima vez em que me convidassem.

Tais atitudes passaram a fazer parte de mim. Sempre fui ranzinza (sempre) e acabei me acostumando a pensar que aquilo tudo (a preguiça, o mau humor, a exaustão, a falta de vontade de conviver socialmente) fizesse parte da minha personalidade. A depressão deixa marcas profundas; e eu confundi a doença com a minha personalidade.

Fui melhorando, como vocês sabem. Saí mais. Claro que ainda tenho preguiça e várias vezes fico em casa quando meus amigos estão no bar. Normal, né? A falta de grana também é um problema sério. Mas antes eu precisava fazer um esforço pra enfrentar o mundo. Hoje acontece naturalmente. Eu quero, eu sinto vontade, eu até preciso sair de casa.

Mas o Lolla ainda parecia demais. Três dias.

Só comprei do último, claro, porque Pearl Jam não se perde. Fui na sexta-feira, dia do The Killers, e fiquei plantada na fila durante duas horas. O tempo foi suficiente para eu considerar mil vezes largar tudo, sair correndo, entrar num ônibus e voltar pra casa.

Fiquei. Pensei: “hoje, não. hoje quem manda aqui sou eu. meus amigos tão lá dentro, Brandon Flowers vai aparecer incrível no palco. Daqui eu não saio”.

Ainda bem. Nas horas e dias seguintes encontrei muita gente amada, gritei, dancei, pulei. Também fiz xixi me equilibrando no banheiro químico e até adotei uma técnica para segurar o hamburguer e o copo de coca cola sem deixar cair uma migalha.

Senti dores: meus pés incharam, o calcanhar parecia em brasas, não conseguia achar jeito para deitar sem que a lombar incomodasse.

Mas vivi intensamente os três dias, interagi socialmente com colegas de faculdade com quem nunca tive intimidade (e meu padrão de comportamento seria ficar com meus amigos de muitos anos), criei novas memórias.

Meu corpo reclamou do cansaço, mas aceitou a felicidade direitinho. Nos dias seguintes ainda tive um compromisso importante que me fez passar hooooooras dentro de um ônibus e uma noite inteira sem dormir. No fim, foram cinco dias muito intensos e movimentados.

Há um ano, eu teria chorado e desistido no meio. Não me daria nem ao trabalho de vender meu ingresso – a fadiga seria demais pra mim.

Hoje, estou quase pronta pra outro festival. Falta o dinheiro, uma gripe chata resolveu me incomodar, mas estou saudável. Falo isso aqui porque sei que muita gente que me lê está neste momento passando por dificuldades parecidas com as minhas de um ano atrás.

Com apoio, auxílio médico e terapia é possível se recuperar e viver feliz. Não é fácil, dá trabalho, de vez em quando rola medo de acontecer tudo de novo. Mas persista no tratamento. E aí, quem sabe, a gente se encontra num desses festivais. :)

***

Por falar em ser feliz, hoje tem exibição tripla de curtas no MIS, aqui em São Paulo.

Conheço um dos curtas, o “Uma Vida Inteira”, de Ricardo Santini e Bel RIbeiro. É baseado em “O Salto”, do Antonio Prata, um dos textos mais incríveis que já li. Pra completar, ainda tem a belíssima, competentíssima e  todos os íssimas bons do mundo Alice Braga.

Vamos lá?

Teaser do curta metragem – UMA VIDA INTEIRA from Bruno Autran on Vimeo.

Não adianta olhar pra fora

depressao 1

Ele começou a ficar estranho. Antes expansivo, passou a falar menos. Deu uma sumida dos eventos sociais. O olhar ficou triste, triste.

Rumores surgiram. “Desde que ele arranjou essa namorada, mudou!”, “Acho que ela não faz bem a ele”. Eu só ouvia. Meio de longe; não era íntima dele, tampouco conhecia a tal namorada.

Muitos meses se passaram. Escrevi sobre minha crise depressiva aqui. Quando ele descobriu que a Letícia era eu, me confessou: naquele período em que todos apostavam num problema externo para justificar seu ar melancólico, ele passava por uma fase depressiva. Foi feio. Ele realmente chegou ao fundo do poço.

Quase ninguém sabe disso. Nossos amigos em comum devem até hoje culpar algo ou alguém, sem nunca terem chegado perto, sem nunca terem perguntado o que estava acontecendo.

Às vezes nem o próprio doente percebe. Com isso, demora tempo demais para procurar ajuda médica, e aceitar o diagnóstico é difícil. Imaginar que algo dentro de você mesmo não funciona direito é aterrorizante. Não há nada que você possa fazer. O problema simplesmente está lá. Dentro.

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, em 2030 a depressão será a doença mais incapacitante do mundo. Pesquisas indicam que 20% das pessoas (isto é, uma a cada cinco) passarão por uma crise depressiva. Muitas delas terão uma única vez: pode ser provocada por luto, término de relacionamento, desemprego.

Elas resolverão esse problema externo e/ou aprenderão a lidar com ele. Pode ser com terapia cognitivo-comportamental, com o desaparecimento do problema, com yoga, com remédios. Cada um sabe qual o melhor método para superar isso.

Outros, como eu, passarão por novas crises. Lembram que eu desconfiei estar entrando numa recaída? Era alarme falso, mas mesmo assim marquei médica. Conversando, ela me disse que 90% das pessoas que tiveram mais de uma crise depressiva continuarão passando por isso. Eu, que escrevo sobre depressão, estudo sobre o assunto e tento ter uma visão otimista sobre a doença, desabei.

Chorei feito boba, repetindo “eu não quero tomar remédio pra sempre” (eu não estou tomando agora). Mesmo conhecedora do meu diagnóstico há anos, ainda não me conformei com a ideia de depender de algo químico… para resolver um problema químico do meu cérebro. É muito difícil.

Então, mesmo que a minha vida estivesse, por fora, toda linda, isso não me faria ficar curada. Digo isso porque vejo muita gente apontando os outros e dizendo: “Quem? A Mariana tem depressão? Mas como? Ela tem um bom emprego, um namorado que a ama, uma família bacana, mora bem, tem um carrão” (e todos os outros padrões de felicidade que  a gente inventou socialmente).

É como se fosse uma cartela de bingo. Se você tiver um determinado pacote, você não pode ter depressão. O resto do mundo não te permite. Mesmo que o seu cérebro aja de maneira absolutamente contrária.

Essas pessoas doentes, então, escondem o que acontece com elas. Têm vergonha de assumir o problema. Evitam ir ao psiquiatra (porque é médico de doido), adiam a terapia (a minha vida está muito boa, pra quê eu preciso de terapeuta?), abandonam os remédios (eu não vou ser escrava de uma pílula).

Em casos mais graves e muito infelizes pra quem fica, a pessoa comete o suicídio. As especulações recomeçam: “mas ela parecia tão bem”, “que história mais esquisita”, ”nem dava para perceber nada”.

Dá pra perceber, sim. Mas não adianta olhar pra fora. Você tem que olhar pra dentro.

(este post faz parte da semana sobre depressão aqui no blog. vai até sábado.)

***

Hoje, às 18h30, eu participarei de um hangout com o pessoal do Meus 5 minutos, da Editora Globo. Fique de olho no Twitter e no Facebook para ver as instruções de como participar. Você já pode fazer perguntas aqui no mural do site no Facebook.

Do you know me?

“Você está estranha. Engraçada, sei lá. Toda elétrica” ela me disse, como se eu estivesse com a cabeça cheia de doce.

“Eu sou assim.”

Lembro da festa de fim de ano da empresa em que trabalhava há dois anos. As pessoas podiam jurar que eu estava bêbada, só porque eu dancei, ri, cantei, fiz piada. Algumas semanas antes estivemos em outra celebração, bem na época em que tomava uns oito remédios ao dia (depressão, menopausa, insulina, etc) e estava com o pé quebrado.

Aloka de tiara de chifres de rena, rindo descontroladamente das caretas das amigas. A única com uma cara mais normal é a @talitaribeiro <3

Aloka de tiara de chifres de rena, rindo descontroladamente das caretas das amigas. A única com uma cara mais normal é a @talitaribeiro <3

Todas essas pessoas – do meu ex-trabalho e, agora, uma amiga – sabem que de fato eu sou ranzinza e reclamona, mas elas também me viram numa fase difícil. Como me conheceram daquele jeito, descendo rabbit hole abaixo, presumiram que eu fosse triste, desanimada, estressada.

Penso em quantas pessoas também me conheceram em fases difíceis, quantos relacionamentos enterrei em tais épocas, tudo porque eu não estava no meu normal. E, apesar de nunca ter escondido minha condição, sei que é difícil realmente compreender o que sinto. Também não deve ser fácil tomar patada em cima de patada, sem descanso, sem sorriso no final (ou antes, também).

Ninguém tem a obrigação de ficar por perto e esperar que as coisas melhorem. Cada um sabe até onde consegue ir; às vezes a pessoa não gosta tanto assim da gente para suportar o mais ou menos longo período até a estabilização. Infelizmente não há como saber quando a crise irá acabar ou quais seus os efeitos colaterais. Algumas pessoas não querem pagar pra ver.

Aí eu mudei de tiara, mudei os amigos, e continuei sem conseguir parar de rir (a sequência dessas fotos é completamente louca, inclusive)

Aí eu mudei de tiara, mudei os amigos, e continuei sem conseguir parar de rir (a sequência dessas fotos é completamente louca, inclusive)

E a gente vai ficando sozinha, porque também temos o direito de não querer por perto quem não entende os períodos nebulosos, quem não tem paciência, quem não segura na sua mão e diz que tudo vai ficar bem.

Porque pode ser que não fique nunca. Pode ser que você desista antes. Pode ser que dure tanto tempo que você simplesmente nunca mais consiga imaginar que vai passar.

Para quem me conheceu ou conviveu comigo entre os últimos meses de 2011 e muitos meses de 2012 (período carinhosamente chamado de “o ano do coma”), eu posso ser vista como uma bruxa, briguenta, dramática, mal humorada, chata pra caralho. Eles não estão errados – foi assim que me mostrei pra eles. Eu não era eu, mas como eles haveriam de saber? O desconhecimento sobre depressão ainda é geral, e nem todo mundo tem interesse em pesquisar o assunto; é mais fácil achar que a pessoa É daquele jeito, e não que ela ESTÁ. E que vai passar.

A boa notícia é que alguns seguraram as pontas. Ficaram por perto apesar de mim mesma. Hoje me olham com surpresa dançando no supermercado, falando rápido ou tendo ideias. Semana passada uma amiga disse “que não dá nem pra comparar” a Nádia de hoje com a de um ano atrás. Não nos aprofundamos no assunto (estávamos ocupadas comendo a fries do Outback – restaurante que, pelo que li nas redes sociais nos últimos dias, é só “pra quem gosta de comida ruim” – risíssimos).

Mas fico feliz de ela ter permanecido, assim como vários outros amigos. Também me entristeço com quem foi embora. Sinto saudade às vezes. Mas me desgastaria demais dizer “ei, eu sou essa aqui, não aquela lá”, como quem clama por atenção. Se não conseguiram me amar quando eu estava no fundo do poço, por que eu os deixaria chegar perto agora que eu estou alive and kicking?

(este post é o primeiro da “semana sobre depressão”, que vai até sábado aqui no blog.)

 

Melancolia ou recaída?

Como vocês sabem, eu tenho depressão. Custei a aceitar isso – e às vezes ainda tenho dificuldade em fazê-lo. Minha primeira crise diagnosticada foi em 2010. No ano seguinte, sem tratamento, eu percebi os sinais chegando e fui adiando a ida à médica.

Tentei marcar, não conseguia, e como tudo na minha vida estava uma loucura, fui deixando pra depois. O resultado se mostrou o pior possível. Quando os problemas se acumularam, eu desmoronei. Vocês acompanharam tudo aqui.

Com a última – e séria – crise, eu finalmente compreendi que não adianta eu fugir, fingir que ela não existe. Eu tenho a doença. Ponto final. Sem discussão.

Só que eu ainda não aprendi a lidar com a tristeza e a melancolia. Todas as vezes em que fico pra baixo, o medo toma conta de mim e eu penso que é ela voltando. Começo a pirar, imaginando as semanas que terei pela frente. Logo sinto o chão se abrindo embaixo dos meus pés e isso me desespera. Eu não sou capaz de aguentar tudo de novo.

Mas e se for só tristeza, preocupação, insegurança, coisas que todo ser humano normal – depressivo ou não – sente? Se for porque realmente a vida está mudando e eu estou ansiosa (e um pouco medrosa)? Ao contrário do que as pessoas pensam, os antidepressivos não te deixam dopado; você continua vivendo e sentindo como qualquer outra pessoa.

É exaustivo ficar o tempo todo prestando atenção nas coisas. Se dormi, se comi, se fiz tudo o que havia programado pra aquele dia, se inventei desculpas para não sair de casa. A cada resposta, vou ficando mais ou menos em pânico.

Infelizmente, dessa vez, parece muito mais uma recaída do que tristeza. O bom de estar bem (porque estou) é conseguir perceber isso e ir atrás de virar o jogo. Nunca mais vou cair na besteira de adiar, de deixar pra lá, de achar que consigo sozinha, esperando algo de maravilhoso cair do céu e me tirar do buraco.

O chato é que os momentos tristes, que acontecerão sempre na minha vida e na de qualquer pessoa, vêm com esse gosto de fel, amargando tudo ao redor. Eu ainda não consigo identificar quando a tristeza é passageira ou quando ela quer se instalar de vez. Um dia eu aprendo. Só sei que dessa vez, não. Não tão cedo. Tô de olho em você.

Bullying e suicídio – parte I

Como grande parte de vocês deve ter visto, uma jovem canadense chamada Amanda Todd se matou após sofrer bullying. Para conhecer mais detalhes, leia o post de hoje da Lola. Vi muita gente compartilhando com indignação o caso. Falaram com pesar sobre a perda de uma garota tão jovem. Demonizaram quem praticou o bullying. Defender agressor é que não dá, né?

Mas eu não pude deixar de pensar no papel que desempenhamos nisso tudo. Não exatamente no caso Amanda – mas ela não é, infelizmente, a primeira pessoa a sofrer xingamentos e perseguições, tampouco a última a se matar.

Volta e meia novos casos surgem. Alguns despertam comoção popular, especialmente quando a vítima deixa algum vídeo no YouTube. Na semana seguinte, ninguém toca mais no assunto. Aparece outra pessoa denunciando bullying e ela é zoada. Dizem que é frescura. Aconselham que ela “deixe pra lá”, como se fosse fácil. Menosprezam tudo o que ela diz ou sente.

Ela dá todos os sinais de que não está aguentando. Ainda assim, as porradas continuam pelo lado do agressor, e pouco conforto é recebido para atenuar os machucados. Família, escola, amigos. Quase ninguém estende a mão, dá um abraço, aguenta as crises de choro.

E aí a vítima, sozinha, completa o ciclo. Novo suicídio, nova comoção das redes sociais, novo esquecimento. Nem sempre o fim é tão trágico. Mas me digam se não é uma calamidade que tantos adultos tenhamos problemas sérios de autoestima e amor próprio? Porque na semana passada eu recebi muitos, muitos relatos de gente que está aí, vivinha da silva, respirando, trabalhando, saindo, rindo… mas que por dentro carrega uma dor dilacerante (aliás, faltam três posts da semana da autoestima; eu não estou esquecida, só fiquei ocupada com outras coisas).

Logo, grande parte das pessoas continua vivendo apesar de. Só porque não houve morte, a dor é menos importante? Porque a pessoa conseguiu ser um adulto funcional, então tudo bem xingar, ofender, zoar? Já que o xingamento é direcionado a um adulto, “que deveria ser forte”, ele é menos ofensivo?

Falo da minha experiência. Cada um sente de um jeito e outra pessoa na mesma situação teria reagido de maneira diversa. Como contei aqui há uma semana, eu fui sacaneada na escola e também entre familiares. Criei uma casca grossa. Claro que isso teve consequências na minha autoestima, confiança  e no meu relacionamento interpessoal. Mas, ok, virei um ~adulto funcional~.

Comecei o blog em fevereiro de 2011 e sofri todo tipo de agressão psicológica que vocês podem imaginar. Fui atingida, óbvio. Não vou entrar em pormenores porque já falei a respeito muitas vezes. Isso, juntando com mais um monte de outros problemas, me fez cair em crise depressiva.

Quem lia o blog acompanhou tudo isso. Jamais escondi a minha condição. Escrevi durante toda a crise. Expus o problema no Twitter. E, em 31 de dezembro, tentei me matar. Eu dei todos os sinais. Talvez não aqui no blog (apesar de eu ter falado especificamente sobre ideação suicida), mas com certeza quem estava próximo de mim soube de tudo.

Tanto isso é verdade que meus amigos perceberam o que tinha acontecido – e foram eles que avisaram a minha própria família. Eu me despedi. Eu disse o que estava fazendo. Naquele dia já não era um pedido de ajuda (as pessoas têm mania de dizerem isso sobre quem tenta e não consegue morrer). Eu realmente achei que estava tudo acabado. Só quis dizer tchau e expressar como algumas pessoas eram muito amadas. Quis agradecer; não queria que elas carregassem uma culpa que não era delas.

Mas com certeza era de algumas pessoas. Além da própria existência em si mesma, claro, pois nós, como diria Bukowski, “pedimos mais da vida do que há”.

Falei abertamente sobre a tentativa. Escrevi a respeito. Mencionei em muitas conversas. Muita gente que acompanhou todo o processo da queda no abismo ficou sabendo. Nunca me deram um telefonema. Jamais pediram desculpa por não estarem por perto.

Se eu tivesse morrido, teriam elas emitido comentários pesarosos sobre mim? “Tão jovem! Tinha acabado de se formar, estava mudando de carreira! Tanta coisa pra viver!”

Diriam? Mandariam flores? Encontrariam minha mãe na rua e falariam de mim com os olhos marejados?

Aposto que sim.

Porque socialmente isso é esperado. Você não ~pode~ simplesmente não ligar pra morte de alguém, ainda que você não tenha ligado pra ela em vida. Que monstros nos tornamos? Vestimos mesmo essa capa da hipocrisia?

O que eu vi foi um monte de gente continuando a me dar porrada. Eu estava me recuperando do pior momento que eu já vivi. Mas, como era um ~adulto funcional~, acharam que estava na hora de tentarem quebrar minhas pernas mais uma vez. Novos xingamentos, novos julgamentos. Pedras. Muitas.

Ignoraram o fato de eu estar em recuperação. Eu estava me tratando. Fazendo análise, tomando remédio, me esforçando de maneira absurda. Nada disso importava. O que importava para algumas pessoas era continuar batendo. Se já não tinham respeito por mim quando eu conseguia ficar de pé, quando eu estava caída pareceu ainda mais fácil. E bateram. Continuam batendo. Nenhuma humanidade, nenhuma simpatia, nada.

Hoje algumas dessas pessoas que me agrediram e continuam agredindo tiveram a cara de pau de se dizerem indignados com o caso Amanda Todd. Gente que também xinga, pratica bullying, menospreza a dor alheia. Indignadíssimos! Mas ninguém conhecia a Amanda. Porém, com certeza tem alguém por perto de você (mesmo que virtualmente, como eu estive durante meses) totalmente desamparado. O que você está fazendo para ajudar? O que você fez para empurrar a pessoa cada vez mais pro buraco? A culpa também pode ser sua.

***

JURO que o clima vai melhorar aqui no blog. Tenho mil coisas começadas e estou muito animada com.. a vida! Mas alguns assuntos sérios acabam furando a fila. :)

***

Uma estudante de jornalismo me procurou para ajudá-la com fontes para uma entrevista. Eis o recadinho dela:

“Olá. Meu nome é Mariana. Sou repórter da revista Jenipapo, produzida por estudantes de Jornalismo da Universidade Católica de Brasília. Estou escrevendo uma reportagem que vai abordar o mercado erótico para mulheres e a vida sexual das mulheres. Gostaria de saber quem toparia ser entrevistada. Gostaria de saber  quais de vocês são casadas e se frequentam sex shops ou casas de swing. Quem topar falar sobre o assunto, favor entrar em contato pelo email: mariana.avilapalhares@gmail.com. Caso solicitado pela fonte, o nome verdadeiro das entrevistadas pode ser mantido em sigilo.”

Rock and roll, amigas – e eu voltando a ser eu

Lembro de mim mesma há quase um ano, netbook no colo, roubando wifi do vizinho, cartão de crédito na mão. Dedos nervosos. Naquele mesmo dia eu deveria estar em São Paulo, comemorando a aprovação na banca de TCC, feliz. Eu estava em Manaus porque tentava me recuperar de uma crise depressiva. A situação estava tão catastrófica que abandonei a minha banca (foi adiada e tudo deu certo depois).

A ansiedade era a de comprar ingresso para a primeira edição do Lollapalooza. Queria ver de perto (bom, nem tão de perto assim) os moços do Foster the People. Apesar da internet capenga, comprei.

Eu não sabia ainda que eles iriam se apresentar no Cine Joia em uma das Lolla Parties. Comprei entrada para aquela noite também. Só que eu não tinha companhia (nem pro Lolla, nem pro show no Joia). A depressão levou muitos dos  meus “amigos”. Falei no Twitter minha condição de forever alone, e uma linda moça de batom vermelho na foto do avatar disse que ia.

Nunca havia falado com ela. Começamos a conversar e eu soube que partilhávamos muitas afinidades. Combinei de encontrá-la algumas horas antes do show para conversarmos. Eu estava desconfortável. Não com o fato de não a conhecer, mas porque naquela época, cinco meses depois de cair num buraco, eu ainda não fazia as coisas com prazer. Eu me forçava a tudo. Tudo: tomar banho, ler, conversar com as pessoas.

E ali, no Joia, achei que todo mundo estivesse vendo como eu estava mal vestida, como minhas olheiras eram gigantes, como eu dançava esquisito. Ainda assim me diverti.

Dois dias mais tarde era o momento do show no Jockey. Encontrei de novo a moça de batom vermelho, àquela altura já alçada à categoria de “minha neguinha” – era a Heleninha Lizo, que escreveu alguns dos textos que vocês leram no Cem +1. Além dela, tive a sempre incrível companhia de Vicky, amiga que eu também conheci por blog, mas isso já tem uma década.

Eu ainda estava meio esquisitona. Uma leitora me reconheceu na fila do refrigerante e eu quis morrer de vergonha. Daí choveu demais no show do MGMT. Adoro chuva. Lembro de olhar na direção da Marginal Pinheiros e ver os relâmpagos rasgando o céu. O som estava horrível e a banda parecia entediada. Eu, molhada da cabeça aos pés, nem ligava. Só queria dançar, rir, me divertir, curtir minhas negas, fazer piada do moço que parecia ter oitenta anos de idade, todo preocupado com a capa de chuva que havia esquecido sei lá com quem.

E a gente ainda viu esse moço aí, o rebolativo Ed Macfarlane, vocalista do Friendly Fires

Ainda vi Friendly Fires, Arctic Monkeys e, é claro, o Foster. Na volta pra casa, enquanto esperava o ônibus, quis chorar. Depois de horas sem que a depressão aparecesse, ela veio feito avalanche. Eu segurei o choro.

Afinal, eu estava feliz e ela não ia me dominar de novo. Não mesmo.

Quando olho pra trás, reconheço sendo aquela semana o reinício da minha vida. Eu consigo lembrar de tudo o que aconteceu. Fiz piadas, gargalhei até a barriga doer, dancei meio Coisinha de Jesus. Eu fui feliz. 8 de abril de 2012. Eu fui feliz.

Hoje, ao ficar novamente com dedos nervosos para comprar ingresso para o Lolla do ano que vem, as imagens daquele domingo me vieram à mente. Infelizmente só pude comprar ingresso pra um dos dias – espero que não esgotem até o fim do mês e eu consiga comprar dos demais (aceito doações, obrigada).

Mas eu nem preciso esperar até março do ano que vem para ser feliz ali, naquele mesmo local. Sábado tem Planeta Terra. Na edição 2012 do meu ex festival favorito nem tem nenhuma banda que eu ame loucamente, mas estarei de novo na companhia da minha querida Vicky. Heleninha dessa vez está longe, muitos e muitos quilômetros de distância.

Claro que sentirei muita falta dela, mas o melhor de tudo ela já me deu: apareceu na minha vida e, com a ajuda dela (e de muitas outras pessoas), eu recomecei a viver. Sábado irei celebrar tudo isso com a Vicky, relembrando os momentos em que finalmente voltei a ser feliz.

***

(obrigada por tudo.)

Agrediu? Não diga que foi piada. Cresça

Existe um moço muitíssimo importante na minha vida que já me aturou muito. Eu também já tive de lidar com muita bobagem dele. Ano passado tive uma madrugada horrenda durante minha crise depressiva e ele ficou horas comigo ao telefone tentando me acalmar (ele não mora aqui).

Sequer lembro direito o que conversamos, mas sei que ele moveu mundos e fundos pra alguém “me salvar”. Bom, salvou.

Até que essa semana eu tive uma recaída bem fodidinha. Foram três dias toda cagada, sem querer levantar da cama ou resolver qualquer coisa. Tomei dois banhos só. Me alimentei de pizza, pipoca, coca cola e brownie. Tive taquicardia, crise de choro e toda a merda que vem junto com uma crise.

E fiz drama. Ah, como fiz drama.

Este moço, por estar próximo demais de mim (ainda que virtualmente), teve de aturar. “Você não me ama”, “você vai me abandonar como todo mundo”, “você nunca vem pra São Paulo pra me ver”. Resmunguei demais.

Ele, sem paciência, disse que eu tinha que parar de “parecer depressiva”.

Para o mundo.

PARECER depressiva?

Que porra é essa?

Eu sou depressiva e nunca escondi isso de ninguém, especialmente dele. Pelo contrário, aliás: a gente se reaproximou justamente quando ele leu aqui no blog que eu estava mal.

Fiquei irada.

Reclamei no Twitter algo como “a próxima pessoa que disser que ‘pareço depressiva’ vai tomar um soco na cara”. Completei dizendo que eu não era “bipolar de Twitter”, como muita gente por aí se vangloria, sem saber quão horrível é ter um transtorno do tipo.

Eis que imediatamente recebo um reply de uma garota que jamais havia interagido antes:

“parece depressiva”

Hã? Eu demorei a entender um pouco o que estava acontecendo. Podia ser um desses haters imbecis que querem qualquer motivo mínimo para zoarem os outros, mas não. Era gente-como-a-gente. Ou não, porque eu jamais faria isso.

Respondi:

“A sua sorte é que você está longe e não vai tomar o soco prometido.”

Ela não se satisfez e copiou duas seguidoras minhas reclamando que eu queria bater nela virtualmente, e ainda disse “pessoa com depressão não tem vontade de bater em outras! brinks.”. Eu a bloqueei e deixei pra lá. Como as meninas (por quem nutro muita estima) foram interpelá-la pela ~brincadeira~ sem graça, a moça respondeu:

“ai, gente, sério? eu não vou ficar pedindo desculpa e de mimimi pq alguem se ofendeu c/isso.”

Depois se vangloriou:

“vou te confessar, fiquei excitada com a minha primeira treta no twitter! \o/ demorou taaaanto. e o melhor: foi sem querer!”

Já tem um tempo que eu não levo mais as agressões pro lado pessoal, como fazia outrora. Eu sinceramente não penso que é comigo, Letícia. Talvez seja um jeito de me preservar, talvez seja porque eu tenho taaaaaaaaanto a resolver na minha vida pessoal e com meus amigos e familiares que não faz sentido me importar com o que desconhecidos falam de mim.

Porém, eu não consigo ficar totalmente alheia porque sei que gente que faz isso comigo também age assim com todo mundo. E eu recebo diariamente e-mails e comentários de pessoas que sofreram bullying. Na família, na escola, do namorado, de desconhecidos.

E eu posso imaginar quanto essas coisas machucam e prejudicam o pleno desenvolvimento da autoestima. Mas o comportamento dessa moça mostra como certas mentes são apenas desequilibradas. Elas querem que você se sinta mal. Elas se gabam de fazer o mal.

Eu não estou dizendo que não devemos menosprezar as críticas que nos fazem. Às vezes elas nos fazem perceber atos que nem nos tocamos de quão prejudiciais são. Mas o meu conselho é que levemos a sério os conselhos recebidos por quem nos quer bem, que nos pega pela mão com delicadeza e tenta nos ajudar a superar algum defeito que porventura tenhamos.

De resto, trata-se apenas de perversão. Esqueça a ideia “sexual” que lhe vêm à cabeça ao pensar no termo. Já conversei com a minha psicanalista a respeito, mas basta uma rápida lida na wikipedia:

Os perversos sugam recursos e energias de outras pessoas para se manter existindo

Um perverso procura estabelecer relações mais intimas com aqueles que se assemelham com ele ou por quem ele tem inveja.

Cuidado com quem você se relaciona. Cuidado com quem você deixa chegar perto. Alguns só querem te apunhalar. Too bad for them que daqui eles não se aproximam mais.

“Sou bipolar, que legal!”

As pessoas falam muito de que todo mundo está sendo diagnosticado com algum problema de ordem mental. Esbravejam. Dizem que é um absurdo, “onde nós vamos parar”, “será mesmo que precisamos tanto de remédios”.

Eu não sou médica, não tenho estatísticas em mãos. Tudo o que sei é a partir da minha própria experiência e da observação. Evidente que tenho interesse pelo tema e também leio tudo o que cai na minha mão a respeito.

Não sei se todos nós um dia vamos ser diagnosticados com um distúrbio do tipo. O que sei é que iremos passar por momentos difíceis, como a perda de um ente querido ou dificuldades que nos deixam insones. Então, qual o problema de temporariamente se tomar um remédio que nos faça sentir melhor? Se você tiver uma doença diagnosticável por exames de sangue ou raio X, você não vai se medicar?

Então, o que vejo é as pessoas esbravejando contra algo que elas desconhecem. Um médico sério não vai sair passando remédio para quem não precisa. Eu, por exemplo, tenho imensa dificuldade de dormir. Imensa. Não importa a fase da minha vida, não importa a que horas acordei, não importa se trabalhei pra caramba o dia inteiro. Simplesmente não pego no sono. E, depois que finalmente durmo, acordo o tempo todo.

Fiz exames. Passei uma noite com eletrodos no meu corpo inteiro no Instituto do Sono para tentar identificar o motivo. Uma amiga, por exemplo, descobriu durante esse exame que tem “síndrome das pernas inquietas”. Ela movimenta os membros inferiores involuntariamente durante o sono – e isso faz com que ela acorde diversas vezes e fique exausta no dia seguinte.

Meu pai também já fez esse exame. Ele tinha mais de 50 anos de idade quando um médico notou a necessidade de ele se submeter à polissonografia. Descobriu-se que ele tem apneia do sono, que é quando a pessoa para de respirar enquanto dorme. Pela falta de oxigenação no cérebro, há quem morra por causa desse problema.

No meu caso, não há questão física nenhuma para que eu não durma direito. Mesmo assim, enquanto pessoas saudáveis passam entre 20 e 25% da noite na fase REM (a mais profunda, quando a gente sonha), eu fico apenas 5%. Com remédio. Isto é, meu sono é uma merda completa. Eu não tenho apneia, apesar de um desvio nasal. Eu não mexo as pernas. Nada. Não é possível saber fisicamente por qual razão eu passo muito mais tempo na fase de vigília do que na fase profunda do sono.

Daí voltamos aos médicos sérios. Tive duas psiquiatras na vida (fui em mais dois, mas não gostei e fugi). Ambas começaram o tratamento me passando remédio para dormir, tarja preta e etc. Alprazolam, vulgo Frontal. Uma caixa de 30 comprimidos de 1mg custa em torno de 40 reais. Quer dizer: uma noite de sono profundo por pouco mais de 1 real ao dia.

Só que o alprazolam vicia.

As duas médicas suspenderam o remédio quando completei três meses de uso. Não me deram outra receita. Passamos então para um indutor de sono, que faz com que eu pelo menos comece a dormir. Hoje tomo Zolpidem. Em uma das últimas consultas, reclamei que nem sempre o indutor me fazia dormir. Ela me receitou outra caixa de Frontal, mas já avisou que não vai passar de novo.

Evito ao máximo tomá-lo. Comprei a caixa nova há duas semanas e só abri ontem, quando não conseguia dormir de jeito nenhum. Depois do Frontal consegui pegar no sono. Acordei 10 horas depois, com uma ressaca horrível. É: remédio para dormir (os “de verdade”) pode dar ressaca. Você passa o dia inteiro meio zoado, e não raro precisa dormir de novo à tarde. É um dia perdido.

Eu ODEIO ter de tomar Frontal pra dormir. Eu ODEIO tomar Rivotril quando o calo aperta. Eu ODEIO ter de gastar 130 reais com Cymbalta todo mês. Eu ODEIO ter de observar cada tristezinha pra saber se não é a merda da depressão chegando perto de novo.

É uma vida de merda. Eu garanto a vocês.

Eu me divirto? Sim, claro. Danço, sorrio, produzo, escrevo, saio com os amigos. Faço tudo “normal”, mas sempre estou de olho a tudo – desde a minha falta de vontade de arrumar a casa até há quantas noites não durmo direito.

Tenho de constantemente ficar observando os possíveis sintomas de uma nova crise. E, ao pensar que talvez ela esteja voltando, entro em desespero. Porque eu não quero sentir aquilo tudo de novo. Nunca mais.

Essa introdução gigantesca é só para falar mal de quem se diz “bipolar, depressivo, borderline” para fazer gracinha. Colocam na bio do Twitter. Eu levantei a hipótese de ser bipolar com a minha médica, pois eu fui da merda completa para o florescimento de ideias e risos soltos. Tive medo de que estivesse passando pela fase de “euforia”. Ela me explicou direitinho como é a fase eufórica de um bipolar, e definitivamente eu não me enquadrava. O que eu estava passando é pela fase “normal” da Letícia. Eu tenho ideias. Eu sorrio. Eu produzo. Eu sou essa pessoa – com fases soturnas da depressão (que, mais uma vez, espero que nunca mais volte).

Esse povo que se diz bipolar quer, na verdade, justificar sua falta de tato ao lidar com o mundo. Oscilações de humor são normais no nosso cotidiano. Acordamos putos, porque queríamos ficar mais tempo na cama. Ficamos felizes porque, ao chegarmos no trabalho, conseguimos algo que há tempos esperávamos. Almoçamos com amigos, e daí ficamos mais felizes ainda. Só que à tarde recebemos um telefonema contando algo bem ruim. Ou então, na volta pra casa, pegamos duas horas de engarrafamento. Quem não oscilaria de humor? Bipolaridade não é oscilação de humor, é um distúrbio que deve ser tratado.

Não justifiquem suas grosserias com bipolaridade ou coisa do tipo. Quando eu estava em crise depressiva eu não era agressiva, por exemplo. Eu não conseguia nem reagir a qualquer agressão que me fizessem. Era como se eu estivesse numa situação de quase-morte (cada pessoa reage de um jeito, claro).

Fazer piada com bipolaridade ou qualquer outro distúrbio mental é cruel com quem de fato sofre com essas doenças. Assim, quando um de nós diz ao mundo pelo quê está passando (e é difícil, juro!), não é levado a sério. Acham que é frescura, que é brincadeira, que somos mais um que coloca esse tipo de informação na bio do Twitter.

Se informem mais. Se você realmente é bipolar, depressivo ou tem outro distúrbio qualquer, há médicos extremamente competentes que podem te ajudar. Se não é, pare de tentar justificar seus comportamentos antissociais com uma doença. Distúrbios mentais, felizmente, podem ser controlados e medicados. Babaquice e preconceito, não.

PS: já vi que tem um montão de erros no texto, mais do que o comum. Tava muito puta e escrevi sem reler. E continuo puta e não vou ajeitar agora. Só daqui a pouco. Tchau!

Uma rápida “visita”

Nunca mais falei sobre a depressão aqui. Estava até pensando em escrever um post sobre a análise – e como estou mudando com poucas sessões. Ia fazer isso ontem. Mas algo deu errado dentro da minha mente e eu não consegui.

Desconheço os gatilhos que fazem aquela maldita reaparecer. Estou tomando os remédios direitinho, indo à psicanalista toda semana, me divertindo. Mesmo assim ela está por aqui, esperando o melhor momento para tomar conta de tudo.

Ontem, ao que parece, ela se sentiu confortável para me dar um grande susto. Passei a semana doente, com uma sinusite que fazia cada espirro parecer que minha caixa craniana inteira ia sair pelo meu nariz. Mesmo assim fui ao cinema na terça, fui comer pizza na quarta, jantei na casa de uma amiga na quinta.

Mas eu notei que não estava dando conta de escrever, de produzir, de deixar as coisas mais ou menos arrumadas por aqui, de pagar contas (tenho uma relação esquisitíssima com dinheiro e esse tem sido o assunto na análise). Fiz muitos planos para os próximos meses. Minha cabeça fervilha de ideias.

Só que esses projetos são a médio prazo e eu não sei se eles vão dar certo. Comecei a ter medo. Eu meio que deixei outras coisas de lado para me focar nos tais projetos. E se der tudo errado? E se não der grana? E se eu for uma fraude?

Com o pânico, começo a olhar para o que sou hoje – e, pior: para o que eu fui há alguns meses. De medo para pânico, de pânico para desespero. Notar que ela ainda está por aqui é absolutamente aterrorizante.

E se ela voltar com tudo? E se eu quiser morrer de novo? E se eu não conseguir tomar banho? E se eu tiver crises de choro?

E se.

Sempre esse “e se” me deixando apreensiva. É difícil. Muito difícil segurar a onda, mesmo. Mas, como estou me cuidando, depois de um dia absolutamente inútil (ontem) hoje eu acordei ótima. Estou ouvindo Mika, arrumando a casa, brincando com o cachorro e escrevendo.

Não foi dessa vez que ela me pegou. E espero que perceba que aqui não é lugar pra ela.

Happy new life

Eu sei de todos os clichês de “o ano só começa depois do carnaval”. Eu curto um clichê, mas nesse caso… não é o caso. Detesto carnaval, então pra mim tanto faz. Como não trabalho com horário marcado, o feriado também é indiferente. O fato de o meu “ano” só estar começando hoje é uma engraçada coincidência.

Tive o pior réveillon da minha vida. O 31 de dezembro foi um daqueles dias que você não quer esquecer, por mais doloroso que seja. É preciso relembrar como a vida que eu conhecia simplesmente desmoronou. Caiu sobre a minha cabeça. O chão se abriu. Sim, eu fiquei meio solta no ar. Tudo mudou. Minhas certezas ruíram. Eu me despedacei por completo.

Nesses primeiros dois meses de 2012 foi como se eu estivesse readquirindo forças pra sobreviver. Precisava arranjar novos amigos, reatar laços, buscar trabalho, respirar. Respirar. Apenas respirar. Não quero construir novas certezas – segundo a minha terapeuta, é melhor não ser tão rígida; assim, I can bend, but I won’t break.

Fui juntando os pedaços que se espalharam em 31 de dezembro. Colei um, colei outro, dispensei muitos. Joguei fora, queimei, sei lá. Use o verbo de “luto” que você quiser. Não foi – e continua não sendo – nada fácil. Na verdade, tá difícil pra caralho.

Resolvi facilitar um pouco as coisas e entrei em um avião com destino à felici OPS! ao Rio de Janeiro. Fiz uma espécie de retiro nada espiritual. Vim ser amada. Vim reencontrar (e encontrar pela primeira vez!) amigos queridos e que me ajudaram muito durante minha crise. Vim tomar um pouco de sol.

Fiz questão de chegar no Santos Dumont. Escolhi o horário a dedo: queria ver o sol ainda no céu. Confesso que a demora dessa coisa de ter de ir até Campinas me deixou de mau humor. Estava meio com sono. Até que, 15 minutos antes de aterrissarmos, eu vi uma pontinha de areia branca e o mar azul, azul. Fiquei hipnotizada. Fui acompanhando onde aquilo ia dar. Tentava reconhecer o local. Não consegui.

Até que chegamos na altura do Recreio. Ali eu já sabia onde estava, mas não era, ainda, onde queria chegar. Vi a Grajaú-Jacarepaguá, o Maracanã com as obras pelo visto muito atrasadas, o Túnel Rebouças… e ele. Ele. Ele, que me fazia ficar horas o observando da janela quando criança. Ele. Num dia de sol como ontem, ele parecia uma pontinha luminosa em cima de um morro. De braços abertos, sempre, mas ainda de costas pra mim.

Daí passamos pela sua esquerda. Olhei cada prédio que fez parte da minha vida. Quando o avião fez aquela voltinha na Enseada de Botafogo, dei um suspiro profundo (perguntei no Twitter, repito a questão aqui: alguém no mundo consegue não perder um pouco do fôlego a cada vez que passa por ali?). Ele estava de frente pra mim. Vi Niterói: o museu, o caminho, a ponte. Não consegui enxergar o Dedo de Deus – estava tudo nublado pros lados de lá. O sol refletia em tons de dourado na Baía. Ilha Fiscal. Decidi ir lá na minha temporada carioca; em anos morando aqui, nunca visitei o lugar. Finalmente aquela sensação de que iríamos pousar em pleno mar.

Eu estava em casa.

Não vou dizer que uma felicidade imensa tomou conta de mim. Achei que fosse acontecer, mas eu só pensei “ok, tô aqui, essa cidade é um desbunde, mas e agora?”. Sempre ouvi dizer que “a tosse acompanha o tuberculoso onde ele for”. E se a minha tentativa de renascer sob as águas de março fosse em vão?

Mas daí uma alma gêmea foi me buscar no aeroporto. E a minha alma gêmea, minha irmãzinha do coração, me recebeu em casa com lasanha, coca zero na geladeira e cama feita.

Conversamos, conversamos, conversamos. Falamos sobre coisas que aconteceram nos últimos meses, jogamos umas cartas para ver o que vai acontecer daqui pra frente. Exausta, fui dormir cedinho. Procurei meu remédio na mala e encontrei o pacote que achei na minha soleira ontem.

Dentro de uma bela embalagem das Livrarias Catarinense, um livro igualzinho ao que eu havia recebido da minha irmã, anos atrás, quando também passei por uma má fase. O mesmo. Fiquei emocionada. Junto, um bilhete:

Estou ao seu lado de coração e desejo que você se restabeleça logo e seja muito feliz!

Você é uma mulher fantástica e eu sou muito grata de poder “ler” você. 

Beijo grande,

Sheila

Já caindo pelas tabelas de tanto sono, lembrei de quanto amor recebi nos últimos meses. Eu precisava. MUITO! Me sentia sozinha, abandonada e mimimimimimimimimimi.

Pensei em todos vocês que simplesmente me amaram recentemente, mesmo eu estando completamente cagada. Dormi profundamente.

Acordei cedíssimo e vi no espelho uma moça loira e descabelada; meio cosplay de Elba Ramalho e Shakira. A maquiagem mal tirada acentuava ainda mais minhas olheiras. Mas eu gostei do que vi. Pela primeira vez em muito tempo, eu gostei do que vi.

Eu estou renascendo, graças a mim – é claro -, à minha médica, aos meus remédios e a muitos de vocês. Obrigada, obrigada, obrigada. Agora é hora de ser feliz. E nada melhor para isso do que estar numa cidade que eu amo. Uma moça querida mandou uma mensagem dizendo que o Rio está mais lindo comigo aqui. Pode ser. Prefiro acreditar que sim.

Amo vocês.