A terceirização da culpa

Várias pessoas me mandaram o link da coluna de domingo da Danuza Leão na Folha. Eu li, fiz alguns comentários no Twitter, mas sinceramente não ia escrever nada a respeito.

Afinal, todos os dias eu leio textos e comentários com o mesmo discurso: de que as mulheres precisam se preservar, que a culpa das agressões sexuais é da roupa que elas estão vestindo, que os hormônios fazem os homens enlouquecer e atacar mulheres nas ruas. Se eu for fazer um post a cada vez que vejo um absurdo desses, não farei outra coisa na vida.

Porque, infelizmente, esse é o discurso da maioria.

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Agressões sexuais acontecem em qualquer cidade, em qualquer classe social, com pessoas de qualquer idade. Não é um crime do OUTRO. Ele está bem próximo, ameaçando todos nós, o tempo todo. Pode acontecer com você, com a sua irmã, mãe, namorada. Ainda que as estatísticas sejam mais baixas de homens como vítimas, essa também é uma realidade que não deve ser esquecida ou menosprezada.

Portanto, se homens são também vítimas de estupro e outras agressões sexuais, como se pode em 2013 justificar tais crimes pela roupa curta?

André Forastieri, colunista do R7, fez isso ontem (copio só o último parágrafo abaixo):

Nada de moralismo aqui. A juventude que faça o que quiser com seus orifícios e protuberâncias. Mas se as moças dão pinta de puta, serão tratadas por muitos rapazes de acordo, sendo ou não. É melhor para as meninas valorizar algo mais que suas partes. Sou todo a favor do sex-appeal (surpresa!). Mas cresci interessado por moças que  seduzem com mais do que carne à mostra, e que fazem questão de ser tratadas de igual para igual. Ser amado por uma mulher assim, não há dinheiro que pague. Mesmo que seja por só uma noite…

Eu ainda não consegui entender duas coisas do texto do Forastieri. Ele diz que as moças hoje estão se vestindo de maneira sedutora, “mostrando as carnes”. Ele estava em coma nos últimos, sei lá, 50 anos?

Outra parte foi essa de “as moças serão tratadas como puta”. O que é tratar alguém como puta? Putas podem ser tratadas como indignas de respeito? Como funciona isso?

Ler tamanho desatino me fez ficar pensando porque as pessoas insistem em querer dizer como o outro deve se vestir ou se comportar. Ok, é controle, já falei isso mil vezes aqui no blog.

Mas me parece que tem algo ainda por trás de tudo isso. Assim como agressões sexuais podem acontecer com qualquer um de nós, muitos de nós também podemos ser os agressores. Ou vocês acham que os 17 casos de estupro denunciados todos os dias no Rio de Janeiro são perpetrados pelo mesmo louco estuprador? Os criminosos também são nossos amigos, colegas de faculdade, familiares, parceiros.

Repetindo o discurso de colocar a culpa na vítima, essas pessoas estão não apenas absolvendo os criminosos denunciados, mas a si mesmos.

“Se eu avancei mais do que devia, a culpa foi dela, que me provocou.”

“Se eu desrespeitei uma desconhecida na rua, a culpa foi dela, que estava com um decote com os peitos pulando pra fora.”

“Se eu constrangi uma colega de trabalho, a culpa foi dela, que fala abertamente sobre sexo e eu achei que estava me cantando.”

“Se eu passei a mão na garota no metrô, a culpa foi dela, que tem uma bunda grande e estava de calça colada e eu não me controlei. São meus hormônios.”

É a terceirização da culpa, como se não fossemos capazes de responder pelos nossos próprios atos. Vejam que não incluí nos exemplos acima a penetração à força, porque essas pessoas que repetem o discurso da culpabilização da vítima também dizem repudiar tal agressão.

Mas se elas justificam agressões “menores”, elas estão corroborando com uma cultura que nega o direito ao próprio corpo, com consequências terríveis para as vítimas.

Agredir verbalmente, desconfiar da vítima, passar a mão, penetrar com dedos, pênis ou qualquer outro objeto, tudo isso faz parte da mesma cultura. Esses atos são cometidos por alguém, não são uma simples reação ao comportamento da vítima. Chega de terceirizar a culpa.

Desculpa, mas você precisa do feminismo

Texto originalmente publicado em 7 de maio de 2013 no Facebook, mas aqui coloquei links que não existem lá

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Eu sei. Dói. Você leu em todos os lugares, as músicas te disseram, as capas de revistas afirmaram em letras garrafais: “você pode tudo”.

Mas era mentira.

A essa altura você já deve ter percebido. Está enfrentando transporte público lotado, escolhe coisas no supermercado pelo preço, espera ansiosamente pela promoção de passagem aérea.

Nem sinal daquelas prometidas condecorações e da sala com vista para a Marginal Pinheiros.

Você fez a lição de casa direitinho: estudou, passou no vestibular, se formou, fez pós, estudou inglês-francês-alemão, mas… nada.

Também disseram que não importa se você é homem ou mulher. “As oportunidades são iguais para todos, basta se esforçar.”

Namorou anos, não casou, conta nos dedos quantos caras beijou na vida e na primeira vez que transou com alguém com quem não tinha “compromisso”, logo colocaram o letreiro de “puta” na sua testa.

(na verdade, você nem transou, mas todo mundo acha que sim, então é isso que importa.)

Mesmo sendo um pouco cruel, eu preferia dizer que você é que é uma azarada. Que errou em alguma escolha de carreira, que é rodeada de amigos babacas, que a culpa é toda, individualmente, sua.

Se eu dissesse isso, eu estaria apagando a história:

- de 7 a cada 10 mulheres: elas serão agredidas ao longo da vida;
- das 500 pessoas que, só em fevereiro, denunciaram estupro à polícia do Rio de Janeiro;
- das 10 mulheres assassinadas por dia no Brasil;
- de todas as mulheres que, exercendo a mesma função que um funcionário homem, ganham 30% a menos;
- de 45% da força de trabalho brasileira que, só por serem mulheres, nunca chegarão a cargos de diretoria (mulheres ocupam apenas 7,9% desses cargos)¹;
- de 1 a cada 4 mulheres que será abusada sexualmente;
- das 2 milhões de mulheres que anualmente passam pela mutilação genital;
- das 140 milhões de crianças que casarão à força até 2020.

Eu queria dizer que você não precisa de feminismo. Queria muito. Eu só não posso.

(todas as estatísticas acima são de órgãos oficiais, como Secretarias de Segurança Pública, ONU, Banco Mundial, Unicef e IBGE.)

 ¹ Dado do Núcleo de Direito e Gênero da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas, segundo o livro Faça Acontecer, da Sheryl Sandberg.

Jogo dos sete erros

Leiam esta reportagem da Folha (original aqui). Os grifos são meus:

Aluna de 13 anos de colégio particular denuncia assédio sexual praticado por colegas

A vítima tem 13 anos. Os agressores, 14. Todos são alunos de uma tradicional escola particular paulistana. No último mês, são o centro de um enredo que põe à prova o papel de pais, educadores e da própria instituição e que abre o debate sobre violência sexual entre adolescentes.

A garota, do oitavo ano, diz ter sido assediada sexualmente por três meninos do nono ano. Segundo ela, os meninos mandaram uma mensagem de celular falsa, em nome de um amigo dela, marcando um encontro para depois da aula de inglês.

Chegando lá, em uma praça perto do colégio, na zona oeste, ela conta ter sido cercada e agarrada contra a vontade pelos três. Conseguiu se desvencilhar e foi direto à escola fazer a denúncia.

A instituição suspendeu os meninos por sete dias e se viu na obrigação de debater o fato, já que versões aumentadas ganharam os corredores. Uma orientadora percorreu as turmas do quinto ao nono ano esclarecendo 500 alunos.

“É grave, mas não se trata de estupro”, informou a direção da escola. Para não expor os envolvidos, a Folha preservou o nome da instituição.

“Não houve violência física, mas desrespeito. Estamos trabalhando a questão e acreditamos ser possível reverter a situação dentro da escola”, disse a coordenação.

A família da garota decidiu não levar o caso à polícia. “Estamos tomando as decisões com o colégio”, diz a mãe da menina, que é professora na mesma instituição.

Os pais dos meninos não quiseram se manifestar. A garota também não quer mais tocar no assunto. Sua mãe diz respeitar a decisão, mas afirma: “Escolhemos viver a situação, e não esquecê-la. Estamos atentos às consequências e abertos ao diálogo”.

BRINCADEIRA BOBA (sim, esse grifo é meu pq né)

Há duas semanas, em outra escola particular na mesma zona oeste, dois meninos de 12 anos foram suspensos por terem feito “uma brincadeira” com alunas da mesma idade. “Eles chegam por trás, põem a mão no ombro das meninas fingindo que vão abraçar e descem até os seios”, descreve a orientadora. Só que uma reclamou. “Chegou com olhos cheios de lágrimas, disse que pegaram no seu peito.”

Um dos garotos assumiu e quis pedir desculpas à colega, que não aceitou. Os pais foram chamados e os meninos, afastados por um dia.

Situações como essas são, sim, violência sexual, segundo a psicóloga Renata Coimbra Libório, pesquisadora da Unesp. “Não precisa consumar o estupro. O toque sem consentimento é abuso.”

Tempos atrás, um aluno distribuiu na sua escola um vídeo em que ele fazia sexo consensual com uma colega de 13 anos. Ele foi separado da turma até a conclusão do semestre e, depois, convidado a se retirar do colégio.

Casos de adolescentes que passam dos limites são frequentes e não acontecem só na escola, mas em festinhas e baladas, lembra a psicóloga Rosely Sayão, colunista da Folha. “A sexualidade desses jovens está muito exacerbada e eles não têm noção de respeito. Acham normal passar a mão nas meninas e beijar não sei quantas”, diz.

A fase dos 13 anos é a pior, segundo Sayão. É quando a efervescência hormonal se junta à hiperestimulação.

“Há estímulos o tempo todo, na TV e na música”, diz Neide Saisi, psicopedagoga e professora da PUC-SP.

Muitos desses estímulos não são positivos, segundo Antonio Carlos Egypto, psicólogo especialista em orientação sexual. Basta assistir a um programa de humor ou a peças publicitárias para perceber que “a imagem da mulher-objeto é usada de maneira escancarada”, diz ele.

“Os adolescentes falam que vão ‘pegar’ alguém. A gente só pega objetos”, complementa Sayão.

A desvalorização da mulher é reforçada pela família e pela escola mesmo sem saber, segundo Renata Libório: os pais valorizam o comportamento garanhão dos meninos e a escola pensa estar prevenindo a violência aconselhando as meninas a usar roupa larga e saia comprida.

“Por que não ensinar o menino a respeitar a menina, não importa a roupa que ela use?”, pergunta.

PREVENÇÃO

A prevenção da violência sexual nessa faixa etária depende de uma discussão sobre papéis e gêneros, segundo Egypto. E isso é responsabilidade da escola e da família. “Não tem só que discutir a prevenção de gravidez na adolescência. É preciso falar do prazer, de como conter os impulsos. Não podemos fingir que o desejo não existe.”

Dá para contar nos dedos as escolas particulares de São Paulo que têm projetos específicos de sexualidade, de acordo com Maria Helena Vilela, diretora do Instituto Kaplan, entidade que faz trabalhos em educação sexual.

O tema está previsto nos Parâmetros Curriculares Nacionais. “Não é o que acontece. A sexualidade deve estar em palestras e no dia a dia dos professores, na forma como tratam todos os temas.”

No Gracinha (Escola Nossa Senhora das Graças), a professora de ciências e a orientadora são responsáveis por falar com as turmas sobre sexo.

“Tenho uma aula por semana e falamos de sexo, internet e outros assuntos”, diz Nausica Riatto, orientadora do sexto ao nono ano. Ela considera que o colégio faz um trabalho de prevenção, mas, mesmo assim, todo ano acontece uma polêmica relacionada a sexo na escola, como casos de exibição de imagem na internet.

No Colégio Bandeirantes, a bióloga Estela Zanini coordena há 16 anos um programa de educação sexual que inclui aulas semanais. “Eles têm muita informação sobre sexo, o problema é que nem sempre essa informação é contextualizada, muitas vezes é cheia de preconceitos.”

O que falta talvez não seja educação sexual, mas o ensino de valores morais.

De acordo com a pedagoga Luciene Tognetta, pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral, o tema é alvo de um jogo de empurra entre escola e pais. “Não cabe só à família ensinar respeito e regras de convivência”, afirma.

Os pais deveriam passar valores ligados ao espaço privado. A escola deveria ensinar regras da vida pública. “É no relacionamento com pessoas de fora da família que desenvolvemos princípios éticos apurados e aprendemos a respeitar qualquer um.”

Para Tognetta, o ensino moral deve ser espalhado por todas as disciplinas e servir de vacina contra a violência.

“Ainda pensam que a moral é ensinada em aula de religião. É preciso debater, fazer com que o aluno pense nas suas atitudes. A escola tem esse dever.”

Mas a instituição sozinha não faz tudo, lembra Sayão. “A escola precisa de apoio, está acuada e impotente, e que apoio a sociedade tem dado? Não vejo ninguém como vítima ou culpado nesse caso. A sociedade é cúmplice dessa história.”

***

Essa reportagem é um show de equívocos. Não acho que seja má fé, como não acredito que todos os meus colegas jornalistas deliberadamente escolham fazer matérias sexistas. Compreender questões de gênero é trabalho diário – e o senso comum ainda é bem binarista e nada igualitário.

Ainda mais se você entrevista uma especialista na área da reportagem, e ela fala um monte de besteira. Ela é conhecida, tem livros publicados, dá palestras. Entender que ela talvez esteja falando bobagem é difícil mesmo.

Então, à exceção de alguns casos específicos, eu não acho que os jornalistas em geral sejam maldosos e que se importem pouco com direitos humanos ou de minorias. Isto dito, vamos à análise dos erros, na ordem dos grifos:

1) A adolescente foi agarrada contra a vontade e denunciou à escola. Logo, minimizar o que ela passou é, sim, criminoso;

2) “Não houve violência física, mas desrespeito. Estamos trabalhando a questão e acreditamos ser possível reverter a situação dentro da escola” – violência física é desrespeito. Não é a única forma de desrespeito, mas as coisas não são excludentes. Houve desrespeito, houve violência física. As duas coisas. E crimes não se revertem dentro da escola, até porque não há como voltar no tempo e apagar o que aconteceu à garota.

Vejo aqui o que acontece sempre, como foi duramente criticado no caso de Steubenville: existe uma necessidade enorme de “proteger” os agressores, todo mundo super preocupado com o que será do futuro desses jovens. E do futuro da vítima, quem cuida?

3) Brincadeira boba – eu não sei nem o que dizer desse chapéu (chapéu é essa palavrinha aí no meio do texto, meio solta, sabem? em cada redação/jornal é chamado de um jeito). Passar a mão nos peitos de uma pessoa (homem ou mulher) sem ser consensual é crime. “Pegar de surpresa”, como esses garotos estão fazendo, não muda o fato de que não foi consentido; a pessoa nem tem a oportunidade de dizer não.

E o que a escola fez com quem foi denunciado? Suspendeu por UM dia!!!

4) “A sexualidade desses jovens está muito exacerbada e eles não têm noção de respeito. Acham normal passar a mão nas meninas e beijar não sei quantas”, diz Rosely Sayão. Ai, mas que equívoco. QUE EQUÍVOCO.

Não existe isso de “sexualidade exacerbada”. Adolescentes pensam em sexo, muito. É assim desde sempre. Os jovens envolvidos no caso têm 13/14 anos. Há vinte anos, quando eu tinha essa idade, meus colegas falavam bastante de sexo, muitos transavam (ou faziam suas primeiras experiências que as pessoas não costumam chamar de sexo na nossa sociedade falocêntrica, mas que eram atos sexuais, como sexo oral ou masturbação mútua), algumas engravidavam.

E isso já faz vinte anos.

O que rola é que as pessoas (pais e escola) preferem olhar para os adolescentes como se fossem crianças, como se ainda fosse cedo demais para falar de certos assuntos, e eles acabam se engajando em atividades sexuais sem educação apropriada para tanto. Eu não falo apenas do uso de camisinha ou de anticoncepcional, mas de tudo o que se refere a sexo, como questões do duplo padrão moral, consensualidade, coerção.

Há muito julgamento, o que leva à vergonha e à desinformação. Adolescentes irão transar, é fato. Resta saber qual educação darão a eles.

5) “A fase dos 13 anos é a pior, segundo Sayão. É quando a efervescência hormonal se junta à hiperestimulação.” PIOR.FASE. (agora tenho problemas em escrever assim, porque as falas do Grey, em Cinquenta Tons, às vezes são pontuadas desse jeito.)

O que ela quer dizer com isso? Que aos 13 temos uma descarga absurda de hormônios, incontrolável mesmo, e depois tudo se estabiliza?? Essa fase, que não acontece igual pra todo mundo, é de descobertas, de experimentações, de curiosidade natural e saudável. Desde que, mais uma vez, seja feito com consciência e com todos de acordo. Mas é difícil pensar nisso quando especialistas insistem na carta do “incontrolável”, como se bichos fossemos!

Um outro especialista ainda fala em “conter impulsos”. Olha…

6) “O que falta talvez não seja educação sexual, mas o ensino de valores morais.”

Risíssimos.

Falta, sim, educação sexual. Qualquer especialista sério vai dizer isso, qualquer estudante vai dizer isso, qualquer pai vai admitir (pra si mesmo) isso.

E o que são valores morais? Em que ano estamos? Que educação estamos discutindo?

7) ”A escola precisa de apoio, está acuada e impotente, e que apoio a sociedade tem dado? Não vejo ninguém como vítima ou culpado nesse caso. A sociedade é cúmplice dessa história.”

Sayão, mais uma vez. Como ela não vê ninguém como vítima ou culpado? Garotos se unem para abusar de uma garota e tudo bem? Além da questão óbvia de gênero, eles estavam em maior número e utilizaram de um método para enganar a vítima.

Claro que não estou tirando a culpa da sociedade. Falo disso sempre aqui no blog: é preciso acontecer uma mudança estrutural, quebrar paradigmas, mandar os papéis de gênero pra muito longe, eliminarmos a violência.

E entender que abuso não tem nada a ver com sexo, com impulsos carnais, com hormônios, com a aparência da vítima. Misturar as coisas é desonesto e suja o sexo, que é das coisas mais sublimes que nós, seres humanos, experimentamos.

O desrespeito nunca termina

A história da agressão de Gerald Thomas à Nicole Bahls teve desdobramentos inesperados para mim. A reação sexista e opressora era esperada, mas ao mesmo tempo vi muita gente discutindo a sério a cultura do estupro.

Por outro lado, as tentativas de justificar o que aconteceu transformam o caso numa agressão sem fim. Agora, além de lidarmos com o abuso físico sofrido por Nicole, temos de ver muita gente, capitaneada pela velha mídia, menosprezando o acontecido. O problema é que a agressão não aconteceu num vácuo. O tempo todo e no mundo inteiro pessoas são abusadas, estupradas e ameaçadas.

Quando falamos de Gerald Thomas e Nicole Bahls, não estamos nos restringindo a esse caso. Todos os textos sérios que li a respeito tratavam da cultura, de como certas atitudes consideradas não criminosas e até aceitáveis fazem parte de um panorama maior – e, juntas, normatizam a ideia de que não somos donos dos nossos próprios corpos.

Nem de longe se trata de falso moralismo. Para quem não me conhece, este blog nasceu com relatos dos meus encontros sexuais. Eu tenho um livro publicado a respeito. Falo a respeito e faço sexo com naturalidade, além de advogar pela liberdade individual e pleno exercício dos nossos corpos, com um parceiro, com mil, com nenhum; com ou sem amor; com estranhos ou com pessoas íntimas. Pra mim, só há três regras: que seja seguro, que seja prazeroso, que seja consensual. Esse consentimento deve ser ostensivo. Não deve ser ausência de não e sim um “quero” com toda a força que o desejo tem.

Por mim, discutiríamos sexo sem pudores e sem a hipocrisia social obrigatória. Contudo, o que aconteceu ali não foi sexo. Foi um toque agressivo na região genital da moça, por si só já suficiente para caracterizar o crime de estupro de acordo com a lei vigente. É a primeira vez em que uso a figura do estupro para me referir ao que aconteceu (estou falando da tipificação penal, não da cultura, porque desta última falei bastante).

É importante dizer isso porque muitos estão falando que é necessário haver penetração para o crime acontecer. A lei mudou em 2009 e, ao menos isso, abandonamos pelo menos legalmente a perspectiva falocêntrica do estupro. Antes, era necessário que houvesse penetração de um pênis numa vagina. Por conseguinte, o uso de objetos ou a penetração anal caracterizavam outro crime, diminuindo a importância da agressão.

Entendo que quem não trabalha com direito desconheça o tipo penal. Vejo a repetição do “não houve penetração” como mera má informação em alguns casos. Em outros, especialmente quando é um jornalista, entendo como uma atitude desonesta.

Assim como foi desonesto o programa Pânico de ontem. Começou com uma patética manifestação feminista fake. Não havia feministas ontem na porta da emissora de tv, assim como não houve ameaça ao diretor do programa. O que aconteceu foi uma manifestação pacífica, online, por meio de blogs e páginas do Facebook. Contratar meia dúzia de atrizes para fingir que havia ali uma manifestação é muito reprovável.

Muitos telespectadores acreditam sem pestanejar no que assistem. Ao criar o “protesto”, a produção do programa se deu uma importância que não existe, além de tentar reiterar a ideia de que nós, feministas, somos apenas umas mulheres sem ter o que fazer e que reclamam por tudo. Basta ver as perguntas toscas feitas pelo Vesgo: “desde que horas você está aqui?”. Na cabeça de muita gente deve ter ecoado o “estão lá o dia inteiro e a pia deve estar cheia de louça pra lavar”.

Isso já seria suficiente para mostrar o desrespeito com que somos tratadas. Eu sei que as bundas em profusão e as humilhações contumazes no programa já demonstram isso. Mas não é a discussão do momento (sim, feminismo também trata da cultura da objetificação dos corpos e da exploração comercial dos mesmos).

O desrespeito continuou com a presença do psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg no longuíssimo VT sobre o caso. Ele falou em projeção e sobre como nossa sensibilidade é a responsável por acharmos que aquilo foi uma brincadeira (como se fosse possível) ou uma agressão. Esse papo de projeção como justificativa pra tudo é patético, pois tira o foco do ato e o coloca na reação do outro.

Ele mencionou repressão sexual, e este é outro discurso que não cabe aqui. Eu sou totalmente a favor de pegarem na minha buceta, inclusive gosto muito, desde que eu tenha permitido. O consentimento, aliás, é necessário para qualquer toque e até mesmo para falar com alguém fora das circunstâncias meramente sociais. Para piorar as coisas, ele ainda disse que Nicole é irresistível. Como escrevi no post anterior, não somos irracionais, movidos por uma força incontrolável que nos faz usar do corpo alheio sem permissão para tanto.

O apresentador do programa também não foi honesto quando disse que a imprensa estava perseguindo a produção. Pelo contrário: a velha mídia (jornais e sites de grandes conglomerados) trataram tudo como brincadeira. Claro! O que seria da mídia sem o jornalismo punheteiro? Além disso, pintaram Gerald Thomas como gênio e excêntrico, enquanto Nicole seria apenas a gostosa da vez. Se alguém ainda tem dificuldade de enxergar pra que lado a balança pende nesta relação…

Depois de um programa todo roteirizado para fazer chacota da moça e endeusar o diretor de teatro, o tiro saiu pela culatra. Emilio pergunta à Nicole se ela achava que era uma brincadeira. A resposta foi positiva mas, quando o apresentador já estava encerrando a transmissão, Nicole aproveita o microfone aberto e diz “se fosse na rua, eu teria feito um barraco”.

“Então por que ela não fez ali?”, perguntam muitos. A resposta não é fácil, tampouco objetiva. Só ela pode dizer o que sentiu. E não, eu não estou falando de uma declaração à imprensa, mas sobre o que ela sente no âmago. Talvez ela não tenha consciência do que lhe aconteceu.

Afirmar isso não é vitimizar a mulher, mas negar é, certamente, ignorar as relações de poder e a história de abuso (não só sexual) dos corpos de quem faz parte de minorias.

A discussão ultrapassa o fato acontecido na última semana, pois ele fala sobre nós. Uma a cada seis mulheres sofrerá abuso sexual consumado ou tentado durante a vida. Provavelmente essa estatística ainda está baixa, pois tais crimes em geral não são reportados. Uma a cada seis. Os números são suficientes para enxergarmos que isso faz parte de uma cultura em que a mulher só existe para servir ao homem.

Como venho afirmando há muito, apenas repetindo o que as feministas que vieram antes de mim já estão cansadas de saber: tomar o poder sobre o próprio corpo é essencial para a liberdade e empoderamento de todas nós.

A cultura do estupro gritando – e ninguém ouve

Como a essa altura vocês já devem saber, Gerald Thomas tentou colocar as mãos por dentro do vestido da Nicole Bahls durante um evento no Rio. Era noite de lançamento de um livro dele e a Livraria da Travessa estava lotada. Repórteres, cinegrafistas, funcionários da loja, clientes.

Pelas notícias, ninguém fez nada. Nas imagens dá para ver que o colega de trabalho de Nicole no Pânico continuou a entrevista como se nada tivesse acontecendo. Enquanto isso, Thomas enfiava a mão entre as pernas de Nicole e ela tentava se desvencilhar.

nicole bahls

 Veja/leia mais aqui. 

Sempre rolam os xingamentos à mulher, claro. São os usuais: que ela estava pedindo, que ela estava gostando, que o trabalho dela é esse mesmo, que a roupa era justa. Vocês estão cansados de saber quais as justificativas injustificáveis para o assédio e a agressão sexual.

Mas duas coisas me chamam a atenção nesse caso. A primeira é ninguém ter feito nada. Acharem normal. Acharem aceitável. Se a agressão tivesse sido com uma atriz considerada recatada, as pessoas reagiriam da mesma forma?

Duvido. Indignar-se-iam, aposto. Muita gente nas redes sociais se posicionou e apontou o comportamento de Gerald Thomas como agressão, mas a imprensa tratou como algo que “Nicole não esperava”, mostrando o assunto como mero constrangimento.

Se a mulher geralmente já é tratada como “coisa”, como um objeto para deleite masculino, quando ela tem seu corpo e sua sexualidade transformada em um produto vendável, tudo só piora. Nicole faz sucesso porque tem um corpão, segundo os padrões de beleza atuais. Ela aparece de biquini na televisão, tira fotos “sensuais”, usa roupas curtas e provocantes. Como ela “provocou” (apenas sendo quem ela é), ela merece ser apalpada por um estranho.

Porém, não existe isso de “provocar”. Gerald Thomas não é um animal irracional. Ele – e eu e você – deve esperar o consentimento do outro para poder tocar em seu corpo. Nicole Bahls claramente disse “não”, ao tentar tirar as mãos de Thomas. Parece que não é suficiente, como não é suficiente quando viramos o rosto para evitar o beijo do desconhecido na balada.

Criou-se a ideia de que o homem deve insistir e insistir, enquanto a mulher tenta guardar algo. O “não” é visto como “talvez”. No entanto, se a mulher transforma o talvez em um “deixa pra lá”, ela na verdade não está consentindo. Não é um “sim” entusiasmado, intenso, certeiro, como deve ser em qualquer relação. É um “sim” por convenção social, por achar que ele já fez demais, que agora merece o contato sexual, que é melhor ceder e se livrar logo. Isso não é consentimento, é coerção.

O pior é que esses caras não se veem como agressores, uma vez que todo mundo encara tais comportamentos como “normais”. Brad Perry tem uma frase ótima em Yes Means Yes*: “estes homens acreditam piamente que “não” significa “insista”, e nunca se veem como estupradores, apesar de admitirem o padrão de ignorar e suprimir a resistência verbal e física”.

A segunda coisa que me incomoda no caso é terem dito “mas porque ela não fez algo?”. Infelizmente, a maior parte das pessoas que sofre algum tipo de agressão (não só sexual) não faz alguma coisa. Ser vítima é costumeiramente confundido com “ser frágil”. É difícil encarar polícia, legista, imprensa, opinião pública. No caso desse post, o cara estava agredindo na frente de todos – e ninguém fez nada.

Se fosse você a vítima, você não pensaria que a errada é você por não estar gostando, já que todo mundo está achando muito normal?

Lisa Jervis discorre sobre isso no mesmo livro: “estou falando de uma construção cultural nojenta, destrutiva, que encoraja as mulheres a culparem a vítima, a se odiarem, a se culparem, a se responsabilizarem pelo comportamento criminoso dos outros, a temerem seus próprios desejos e a desconfiarem dos seus próprios instintos”.

Se o corpo da mulher é ainda visto como “de todos”, como acontece no caso daquelas que usam a sexualidade para “vender”, fica ainda mais difícil ter noção de que o corpo lhes pertence. Que é só seu. Que ninguém, ninguém pode tocá-lo sem consentimento.

Acabarmos com a cultura do estupro é um processo social, coletivo, mas também individual. Nós temos que encarar nossos corpos como nossos e de mais ninguém, além de repensarmos o sexo, transformando-o no que realmente é: prazeroso e consensual. Qualquer coisa fora disso é agressão.

*Yes Means Yes é um livro de Jessica Valenti e Jaclyn Friedman sobre a cultura do estupro. É uma coletânea de artigos muito interessante e que recomendo muito. O texto de Brad Perry se chama Hooking up with healthy sexuality: the lessons boys learn (and don’t learn) about sexuality, and why a sex-positive prevention paradigm can benefit everyone involved. 

A vítima de estupro perfeita

Ontem saiu a condenação dos estupradores de Steubenville. Se você está por fora, o que aconteceu foi o seguinte: uma adolescente de 16 anos foi a uma festa, bebeu e, inconsciente, foi estuprada por dois caras.

Os dois acusados, agora condenados, faziam parte do time de futebol local, um verdadeiro orgulho para os moradores da cidade. Assim, o caso ficou escondido, até que o anonymous denunciou, alguns repórteres seguiram a pista, e o resultado foi a condenação dos responsáveis.

Triste foi o que se disse durante o julgamento e após o veredito. Tentou-se culpar a vítima, falou-se quão incríveis os criminosos são, lamentou-se que a vida DELES tenha acabado, questionou-se se a garota estava mesmo inconsciente (você pode ler vários absurdos aqui, em inglês).

Ao ler tudo isso, pensei nos casos que temos aqui no Brasil. Lembrei do New Hit, cujo julgamento acontecerá em setembro. Quantas vezes você leu/ouviu que as meninas não deviam ter entrado  no ônibus? Que alguma coisa elas queriam? E quando uma moça foi atacada no metrô de São Paulo por um cara que colocou o pinto pra fora? Ela desmaiou, e vi várias pessoas dizendo que “pessoas não desmaiam nessas situações”. Lembram da jovem estudante de direito da PUC de SP que se matou em dezembro? “Ela bebeu demais na festa, deu porque quis e daí ficou com vergonha.”

Os casos são muitos. Incontáveis, infelizmente. Muda o nome da vítima, o endereço, mas a reação das pessoas continua a mesma, seja em Steubenville, seja em São Paulo.

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Então percebi que, para a denúncia de agressão sexual ser “aceita”, você precisa ser a vítima de estupro perfeita. Se você não seguir os passos seguintes, você com certeza está mentindo, querendo acabar com a vida de alguém, “sua vadia”.

1) Seja bastante pudica, de preferência virgem. Não, nada de ter vida sexual. Se for rodada feito eu ou garota de programa, então, já deu o direito pra qualquer pessoa abusar de você. Mesmo se você nunca sequer tiver beijado na boca, se liga: não pode dar mole pro agressor. Porque aí vão dizer que ele “entendeu errado seus sinais, ele achou que você estava querendo, etc”.

2) Vista uma burca. Caso você esteja de saia curta, decote ou barriga de fora, já sabe. “Ela fez isso pra provocar”, dirão várias pessoas. Não, você não estava de short porque estava calor, porque é confortável, porque você foi andar de bicicleta no parque. Nada disso. Você fez isso para despertar os instintos alheios. Porque, como vocês sabem, a urgência de estuprar é instintiva… é natural.

3) Não beba nada. Cu de bêbado não tem dono, ué. Você nunca ouviu isso? Ah, por favor, né? Se você encheu a cara, nada mais justo do que alguém tirar sua roupa, enfiar coisas em você, fazer um vídeo e postar na internet. Tava querendo o quê? Ah, você não bebe álcool? Então favor ficar de olho o tempo todo pra checar se sua coca cola foi aberta na sua frente. Nada de pedir um suco na rua se você não puder acompanhar todo o processo – vai que alguém coloca um remedinho ali dentro e você toma. Bem feito. Não pode relaxar nunca, ô garota.

4) Reaja ostensivamente. Se você for atacada, é necessário reagir de modo que ninguém desconfie da agressão, isto é, faça escândalo, grite, arranhe ou morda o agressor, faça com que ele te dê porrada para ficar a marca. Porque você sabe… se você entrar em choque, se deixar ele terminar a agressão pra acabar logo, se desmaiar… vão dizer que na verdade foi consensual.

5) Denuncie logo em seguida. Você tem que juntar seus pedaços físicos e emocionais e ir correndo pra uma delegacia. Esqueça que você passará por constrangimentos, que lidar com um estupro é das coisas mais difíceis da vida, que isso significará outra pessoa encostando no seu corpo, tão fragilizado após a agressão. Se você demorar alguns dias para denunciar, vão falar “ih, tem algo estranho aí”.

6) Certifique-se que seu estuprador não seja alguém com carreira, trabalho ou fãs. Como é que você vai escolher seu estuprador? Sei lá. Dá teu jeito. Afinal, se você não fizer isso, será vista como alguém que “quer acabar com a vida e o futuro do pobre estuprador”.

É inacreditável. Desde sempre tomamos cuidados bizarros para não sermos atacadas. Somos ensinadas a não sermos estupradas, mas ninguém ensina a não estuprarem. E mesmo que a gente siga tudo direitinho (não recebemos estranhos em casa, não andamos em ruas escuras ou desertas, não vamos ao bar sozinhas), ainda assim teremos todos os nossos passos escrutinados para a opinião pública julgar.

Como a leitora Fernanda disse no Twitter ontem, “proibir” a mulher de fazer todas essas coisas (beber, sair, dançar, usar a roupa que estiver a fim, transar com quem bem entender) com a ameaça constante de estupro é uma questão de poder.

“Ande na linha, se não algo de muito ruim vai acontecer com você.”

No fim disso tudo, vê-se que estupro não é sobre sexo. É sobre controle, poder, dominação.

Estupros têm um propósito

Atenção: esse texto fala sobre estupro, com algumas descrições que podem incomodar. 

Eu não falei no blog sobre o estupro na Índia, tampouco da garota vítima de vários monstros nos Estados Unidos, menos ainda da jovem que se suicidou aqui em São Paulo.

Não que eu estivesse indiferente a esses assuntos. Às vezes não dá tempo. Na maior parte delas, no entanto, a dor é tamanha que é impossível conseguir escrever qualquer coisa.

No caso da estagiária de direito, meu coração se partiu em mil pedaços. Eu também já fui  estudante de direito e ela morava no mesmo bairro que eu. A Ana Paula, minha amiga (@anapalonso), viu como fiquei ao saber da notícia: enjoadíssima, com ânsia de vômito.

Há uns dois meses dei uma entrevista pra TV PUC e cheguei antes do horário combinado. Fiquei sentada na praça de alimentação, observando as garotas que tentavam se equilibrar no salto alto depois de passarem o dia pra lá e pra cá. Eu me vi nelas. Eu já fui igualzinha. Eu poderia ser a Viviane, empolgadíssima por estar estagiando no maior escritório de advocacia do país.

Eu também já senti o desespero de não querer mais viver; eu fui agredida (não sexualmente) e me senti impotente. Por tudo isso, não fui e não sou capaz de escrever sobre Viviane.

E nem sobre o caso da Índia e nem sobre o estupro coletivo nos EUA. É tudo tão cruel, tão desumano, tão aterrorizante, que tem horas que a gente não consegue. Por isso, traduzo mais um texto da Soraya Schemaly, publicado no Huffington Post, a respeito dos dois casos.

Estupros têm um propósito 

A mesma pequena parte de mim que ainda quer acreditar em fadas quis acreditar que eu seria capaz de não pensar ou escrever sobre estupro ao menos por algumas semanas. Mas é  impossível. Não com leis na Califórnia dizendo que mulheres solteiras não podem ser estupradas. Ou enquanto uma garota de 16 anos, inconsciente, é estuprada por vários jogadores de futebol – e o assunto “divide” uma comunidade dedicada ao time. Definitivamente não dá para deixar passar quando detalhes sobre o estupro da jovem de 23 anos em Délhi, envolvendo estripação, falência múltipla de órgãos e a consequente morte,  vêm à tona e provocam protestos ao redor do mundo.

Não importa onde você estiver no mundo, o resultado do estupro - ”date rape,” “gang-rape,” “easy rape,” “emergency rape,” “war rape” – é o mesmo: opressão. As mulheres não são livres para viverem sem a ameaça constante de agressão e violência ou sem serem tratadas como objeto e propriedade.

soraya

Da última vez que chequei, existiam pelo menos quatro “capitais do estupro” no mundo. Você sabe no que isso nos transforma? Em “subúrbios do estupro”. Garotas e mulheres não são idiotas. Pelo contrário. Nós entendemos perfeitamente: devemos “ter cuidado”. Não faça algo que vá fazer você “se arrepender”. “Fique em casa”. “E daí se acontecer?” Nós não sentimos qualquer segurança de que nossa integridade física vai ser respeitada. Que nosso consentimento importa. Nós não podemos aproveitar os espaços públicos com a segurança que os homens têm.

Nossas tentativas de buscar igualdade e oportunidade são inibidas, não só pelo estupro em si, mas pela falta de consciência dos outros a respeito disso. O estupro é útil, mesmo quando acontece contra garotos e homens: ele sustenta um sistema que recompensa dominância física e sustenta a hegemonia dos homens.

Quando precisamente uma garota ou uma mulher NÃO pensa “poderia ser eu”? Qual adolescente nos Estados Unidos não pensa um pouco mais sobre ir ou não a festas? Ou mesmo a respeito de dormir? Quando se torna muito aterrorizante pensar nos fatos ou quando é mais fácil se alinhar aos poderosos e dominantes, culpe a vítima, na esperança de “ser protegida”.

Hoje em dia, mais garotas, pelo menos por um momento, pensam que podem ser drogadas e estupradas por uma autointitulada “Gangue do Estupro”, como a de Steubenville, Ohio. Caso você tenha perdido as últimas do caso, o estupro continua gerando choque e repugnância. Se não fosse a obstinação da blogueira Alexandra Goddard e a exposição do Anonymous, o estupro – que durou uma noite inteira – de uma garota inconsciente, literalmente arrastada e periodicamente violada, urinada e fotografada teria caído no limbo.

Tudo isso aconteceu enquanto 50 outros garotos e garotas estavam presentes – todos sabendo especificamente o que estava rolando. E, ESSE é o ponto, não é? Um aviso para as garotas que poderiam ajudá-los. Não é só o que aconteceu, nem as variações do que acontece todo dia, mas a ideia de que poderia acontecer. Em todo o mundo.

Se assumimos o risco – tipo, vivendo – e somos estupradas, as pessoas ficam confortáveis em dizer que estávamos “provocando”, mesmo se você for uma garota de 11 anos, como aquela que foi estuprada no Texas por pelo menos 18 caras; ou garotos molestados por padres. E, sim, eu sei que garotos e homens são estuprados. Eles sofrem tremendamente. Quase sempre, eles não têm apoio, não conseguem a ajuda que precisam e vivem o resto dos dias com grande sofrimento. Mas, isso também têm relação com o que foi dito antes, porque quando garotos e homens são estuprados, eles não são só agredidos, mas também dizem que os fizeram de “mulherzinhas”, demonstrando como eles não têm valor.

Isso é uma mensagem, também, aliás. E, sim, eu estou escrevendo em termos binários de sexo, porque eles são essenciais nesse sistema opressor. As chances de abuso aumentam entre pessoas que “não se enquadram”. Esses são ainda mais ameaçados.

Há alguma demonstração maior de que estupros são sobre poder e dominação – e não sobre sexo – do que os estupros coletivos sobre os quais estamos falando abertamente agora? No final, que diferença faz se o estupro envolve canos enferrujados na Índia, ratos enfiados em vaginas na Síria, violência diária contra garotas na França ou drogas para incapacitar garotas nos Estados Unidos? Eu não consigo enxergar por qual razão não se faz essa comparação quando elas são tão gritantes.

Estritamente falando, ignorar a relação de um estupro coletivo na Índia com um nos EUA – ou na França – deixa de fora informação contextual importante – social, cultural, legal e judicial. Há profundas conexões nas formas como os agressores são educados – em casa, na escola, na igreja, nos esportes – a denegrir o feminino e as mulheres como o caminho para glorificar sua masculinidade, para demonstrar sua dominância e superioridade, provando a insignificância de garotas e mulheres.

Tudo isso enquanto simultaneamente se constrói ideais inatingíveis de “pureza feminina”. Na Índia, onde o estupro é um aspecto arraigado na cultura misógina com a implacável violência contra garotas e mulheres, foi necessária a morte desta garota para finalmente fazer as pessoas acordarem.

No entanto, apesar do fato de ser um dos piores lugares do mundo para uma mulher ou garota, a Índia não detém o monopólio de ensinar mulheres a “se submeter” ao estupro ou a serem apontadas como culpadas. Ou violência contra a mulher. Só ficou mais óbvio. A massa de pessoas e o ódio evidente finalmente tornou impossível para que eles ignorassem a misoginia.

Como queríamos. Mesmo que eu genuinamente tenha vontade de pensar que globalmente nós estamos num momento estratégico de reflexão a respeito da violência contra a mulher, tenho grandes dúvidas.

Como Jessica Valenti aponta, nós temos um “problema de estupro”, mas teimamos em admitir isso. Nas últimas semanas, com a cobertura da imprensa, lia-se nas entrelinhas que “nós somos melhores que eles”, e que a misoginia e o patriarcado na Índia são coisas de lá. Assim, ficou a ideia de que “nós estamos bem”, e que as mulheres não tem nada a reclamar nos Estados Unidos.

O estupro é, na verdade, parte de um sistema de violência complexo e muito maior. Fingir que Steubenville é algo fora do comum, ou que os rapazes envolvidos é que estão fora do padrão, é de alguma forma ficar em conluio com os estupradores. E balançar a cabeça e apontar o dedo para a Índia é desonesto, racista, colonialista e hipócrita.

Lauren Wolfe, diretora do Women Under Siege Project, criou um “Basta de cultura do estupro em 2013″. Como ela e outros dizem, o primeiro passo para acabar com o estupro é parar de culpar a vítima, e focar nos estupradores e na cultura que os produz. Ela não está falando só do Congo, da Síria ou do Egito. Rapazes que drogam uma garota e depois a estupram, a sequestram, estupram de novo, fotografam, fotografam o estupro, urinam na garota e depois fazem vídeos tirando onda, fazem isso porque eles se sentem protegidos e no direito de fazê-lo. (Escrevi essa frase deliberadamente porque estou cansada de ver “ela foi estuprada”, como se ela tivesse alguma participação no próprio estupro ou que não houve um agressor.)

estupro

Esses rapazes não foram ensinados, como adultos, que tais ações são crimes contra a humanidade moralmente repugnantes. Porque nós rimos de estupro e zoamos quem reclama. As garotas que testemunharam esses eventos não falam porque elas acham que serão as próximas ou sabem que não acreditarão nelas. Elas aprenderam a internalizar isso.

Afinal, nós ensinamos nossas crianças que é aceitável para os garotos serem protegidos de xingamentos e punição após estuprarem, e eles vão para faculdades onde há “fábricas de estupro” e nas fraternidades os jovens brincam de “quem você estupraria”.

Os homens são incomparavelmente os maiores estupradores – de garotas, de garotos, de mulheres, ou de outros homens. A natureza de gênero deste crime é incontestável. Mas homens não nascem para estuprar. E, enquanto eu entendo que a maioria dos homens não andam por aí se achando os todo-poderosos, ou que eles têm o direito de estuprar, muitos deles pensam isso, sim. Eles se sentem no direito de fazê-lo. Tirar esse “privilégio cultural” deles não desumaniza ou oprime homens. Isso apenas liberta as mulheres e as pessoas que “não se adequam”.

A cultura do estupro

Quando se fala em “cultura do estupro” muita gente torce o nariz. Dizem que isso é conversa de feminazi, que ninguém apoia tal crime, que as coisas não são tão graves como pintamos.

Bem que eu gostaria que tudo isso fosse coisa das nossas cabeças. Sobre não apoiar o estupro, vocês têm certeza que não o fazem? Quantas vezes você já falou/leu/ouviu um “vai virar mulherzinha na cadeia”, achando que é razoável um criminoso – não importa o potencial ofensivo do crime cometido – ser punido com estupro?

Culpar a vítima é também uma forma de diminuir a gravidade da lesão. “Quem mandou ela estar ali”, “não devia ter enchido a cara”, “ela provocou”, “eu conheço o cara, ele não faria isso”.

Infelizmente tais comentários não ocorrem só aqui no Brasil. Com as eleições americanas, alguns candidatos falaram absurdos a respeito do tema. Sei que tem gente achando que isso não nos diz respeito; pra mim, no entanto, a agressão a qualquer ser humano em qualquer lugar do mundo é da minha conta, sim. Evidente que não dá para acolher/resolver tudo, mas discutir a respeito é preciso para entendermos como as coisas funcionam. O patriarcado não se limita às fronteiras de um país.

Entre as bobagens ditas lá no hemisfério norte rolou, por exemplo, a sugestão de que se a mulher quiser, o corpo dela “shuts down”, isto é, ela não engravidaria de um estuprador. Só com a força do pensamento, entendem? Felizmente o senhor que disse tamanha asneira foi derrotado nas urnas.

Com o assunto em pauta, a Soraya Chemaly, colunista do Huffington Post, fez uma lista com 50 fatos sobre estupro. Em todos há link para reportagens e estatísticas. É impressionante. (aliás, se você lê em inglês, vale muito a pena acompanhá-la. recentemente traduzi um texto dela sobre feminismo.)

A lista é bastante grande e muitas coisas têm muito a ver com a realidade americana. Então escolhi alguns dos pontos para traduzir. Cá estão:

1. Estimativa por baixo do número de mulheres estupradas por ano, de acordo com o Departamento de Justiça (lá nos EUA): 300 mil.

2. Estimativa mais alta do número de mulheres estupradas por ano, de acordo com o CDC (Centro de Prevenção de Doenças): 1 milhão e 300 mil.

3. Porcentagem de estupros não denunciados: 54%.

4. Chances de uma mulher ser estuprada nos EUA: 1 a cada 5.

5. Número de mulheres que anualmente engravidam do estuprador: 32 mil.

6. Número de estados em que o estuprador pode brigar na justiça pela guarda da criança e por direitos de visitação: 31 (inacreditável. ainda bem que isso não rola aqui.)

7. Chances do corpo da mulher “shuts down”: 0 em 3.2 bilhões.

8. Porcentagem de mulheres que sofreram algum tipo de abuso sexual no Alaska: 37% (isso dá 1 em cada 3 mulheres!!!)

9. O New York Times sobre um caso de estupro: “Disseram que ela estava vestida como uma mulher mais velha”. (quer dizer, culpando a vítima… e a roupa dela.)

10. Idade de mulher estuprada no Central Park em setembro de 2012: 73.

11. Porcentagem de vítimas de abuso sexual menores de 12 anos: 15%.

12. Porcentagem de homens estuprados: 3%.

13. Porcentagem de estupradores que não foram presos: 97%.

14. Porcentagem de estupros que os estudantes universitários acham que são falsos: 50%.

15. Porcentagem de falsa comunicação de crime de estupro, segundo pesquisa: 2 a 8%.

16. Número de mulheres estupradas no conflito na Bósnia na década de 90: mais de 60 mil.

17. Número de mulheres estupradas POR HORA no Congo durante a guerra: 48.

18. País em que a mulher estuprada é presa por causa do estupro (sim, você leu direito): Afeganistão.

19. Idade da garota marroquina que se suicidou por ser obrigada a casar com seu estuprador: 16.

20. Número de “noivas crianças” (menores de 18 anos) que são obrigadas a se casar no mundo, por dia: 25 mil.

21. Idades das garotas obrigadas a casar com um cara de 59 anos num culto lá nos EUA: 8, 14 e 15.

22. Estado em que um médico está sendo processado por fazer aborto em uma garota de 10 anos vítima de incesto: Kansas.

23. País em que os médicos (e não o estuprador) foram excomungados por fazerem um aborto necessário (a garota corria risco de vida) numa garota de nove anos vítima de incesto: Brasil.

24. País em que um candidato queria criminalizar todos os tipos de aborto, inclusive os de gravidez decorrente de estupro, porque estupro é “só mais um método de concepção”:  EUA.

Depois da lista com 50 itens, a autora faz alguns comentários. Traduzi uma parte que achei interessante:

“Estupros acontecem em todos os lugares. A aceitação, tolerância, negação e ignorância sobre o estupro no mundo todo são usadas, no melhor dos casos, para restringir os direitos reprodutivos das mulheres, impedindo a igualdade da mulher. Nos piores, o estupro é usado estrategicamente e com violência como arma de guerra e ferramenta de opressão ativa. Deixar a realidade sobre estupro nas sombras com certeza foi um grande desserviço e fez com que os estupradores e seus defensores tenham se safado. Então, mesmo que não seja legal de digerir essas informações sobre estupro, isso é necessário.”

Ela então cita uma frase da Jessica Valenti em outro post que eu gostaria de traduzir, mas ainda não tive tempo: “Todos os dias, a seriedade, a violência e o potencial criminoso do estupro são distorcidos de um jeito que fica mais difícil para as vítimas denunciarem, bem como para os militantes contra a violência trabalharem. Ao mesmo tempo, o mundo vira um lugar melhor para quem culpa a vítima e para os próprios estupradores”.

Sei que é um assunto indigesto e que muita gente finge não acontecer. Estupro não é sexo; estupro é violência, é disputa de poder. Acontece em todo lugar, com todas nós, o tempo todo. Precisamos apoiar quem sofreu abusos e punir quem os cometeu.

Também é necessário repetirmos, quantas vezes forem necessárias, que o parceiro não é dono do corpo da mulher – não existem as tais “obrigações maritais” que tanto se fala. Sexo nunca pode ser obrigação. Sexo é prazer, é consensual, é para todos os envolvidos. Qualquer coisa fora disso é violência.

Não é não

Quem lê o blog desde o início deve lembrar do número 15. Foi uma experiência péssima, extremamente dolorosa e que me tirou a alegria por algumas semanas.

A história está contada no Cem homens em um ano e uma leitora aqui do blog que já comprou o livro conversou comigo hoje a respeito de uma história parecidíssima.

Ela conheceu um cara na balada. Segundo ela, o papo era bacana, ele era educado, interessante e ela sentiu tesão. Foi para a cama com ele. Enquanto transavam, ele deu um tapa forte no rosto dela. Ela não curte; e pediu para ele parar. Não adiantou, e ele bateu nela mais algumas vezes, até finalmente atendê-la.

Sei que muita gente gosta dessa vibe mais selvagem, mas qualquer coisa no sexo deve ser consensual. Qualquer coisa. Sei que existe um certo script. No entanto, se você fez algo que é geralmente considerado gostoso (o sexo oral, por exemplo) e o parceiro não curtiu, não faça. A pessoa pode se sentir desconfortável, preferir ter mais intimidade… ou simplesmente não gostar. Estatísticas servem para dar um panorama. Contudo, não atendem a individualidade e subjetividade.

Se o que você quer fazer é considerado um fetiche, há que se ter mais cuidado ainda. Gosta de puxar cabelo e dar tapa na cara? De asfixia erótica? Sexo anal (eu sei que não é fetiche, mas é uma coisa delicada)? Fio terra?

Não é preciso conversar verbalmente sobre tudo ou assinar um contrato. Tampouco ficar perguntando toda hora se a pessoa está gostando. Basta prestar atenção na reação de quem está com você na cama.

A leitora disse que, além dos tapas, o carinha evidentemente não estava preocupado com o prazer dela. Triste e muito comum. Ainda tem muita gente fazendo do sexo uma masturbação acompanhada. Entenderam tudo errado.

O fato é que a leitora se sentiu mal com o acontecido. Pra variar, achou ser dela a culpa. Chegou em casa, leu meu texto do número 15, viu que a história não é exclusivamente dela (porque muitos passamos por isso já) e resolveu conversar com amigos próximos.

Eles disseram que a culpa era dela, que não deveria ter transado de primeira. Pra variar.

(pausa para o suspiro de cansaço.)

Quem diz tamanha bobagem ignora os índices de violência contra mulheres. Segundo qualquer pesquisa, as mulheres são muito mais agredidas dentro de casa. Companheiros de anos e familiares são os responsáveis pela maior parte dos casos de agressão. É o que mostra essa pesquisa do Instituto Perseu Abramo: o agressor, em 80% dos casos reportados, é o marido ou namorado.

Se falarmos de estupro, as coisas não mudam de figura. Um levantamento de 2005 feito por Cecília de Mello e Souza e Leila Adesse, por meio da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, mostrou que a maioria das crianças estupradas/abusadas sexualmente eram vítimas de alguém conhecido. Um dado estarrecedor: o pai biológico aparece como responsável em 21,7% dos casos analisados:

Daí vocês podem perguntar por qual razão muda essa relação conhecido x desconhecido   nos casos de estupro das mulheres adultas. Quando criança, quem denuncia  não é a própria, mas sim os familiares.

Na idade adulta, cabe à mulher (ou a homem, porque eles também são estuprados) fazer a denúncia. Isso significa expor ao policial, ao médico legista, à família e ao mundo que algo horroroso aconteceu. Não é fácil. Grande parte dos estupros não aparece em estatísticas, simplesmente porque não há denúncia deles à polícia.

Além disso, muitas mulheres são estupradas pelo próprio parceiro. Sim, eles ainda acham que sexo está entre as “obrigações maritais”. A vítima sequer reconhece isso como estupro.

Ano passado estive a trabalho no evento de divulgação da pesquisa sobre violência doméstica do Instituto Avon/Ipsos. A pesquisa é feita a cada dois anos, e na edição 2011 apareceu 6% das mulheres dizendo que foram estupradas pelo companheiro.

Horrível, né? Mas na pesquisa anterior, de 2009, isso não aparecia. Não porque não acontecia, mas simplesmente porque as mulheres não reconheciam o estupro do companheiro como crime. Pra elas, sexo é isso.

Logo, dizer que a culpa é da leitora porque não devia ir pra cama com um desconhecido é uma balela. É um jeito de reprimir a sexualidade da mulher. Claro que temos que nos preocupar com a violência. Evidente. Mas vou dizer pra vocês: a maioria absoluta dos caras com quem saí eram “desconhecidos”, e nenhum nunca me agrediu fisicamente (verbalmente, sim).

Eu posso imaginar como a leitora está se sentindo. Eu já estive na pele dela. Mas temos sempre, sempre, sempre que lembrar: a culpa NUNCA é da vítima.

***

Vamos falar de coisa boa?

Amanhã é o lançamento do meu livro!
Antes dos autógrafos haverá um debate entre mim, a Clara Averbuck e a May Medeiros.

Vamos lá?

De quem é esse corpo?

Eu já fui assaltada algumas vezes. Lembro perfeitamente das últimas duas. Na penúltima, eu estava naquela alça da 23 de maio pro Paraíso. Vidro meio aberto. Celular no colo. Um garoto parou ao lado da porta e disse:

- Estou com várias outras pessoas. Me dá o celular em três segundos. 3, 2…

Entreguei.

A última vez foi na Paulista. Eu estava sentada com minha linda amiga Adriana num dos bares da Joaquim Eugênio. A conta havia acabado de chegar. Achei estranho o cara se aproximando de bicicleta e olhando muito pra nota de 50 reais que eu estava colocando na pastinha da conta.

Recolhi o dinheiro.

Não deu tempo de avisar a Adriana, e o cara – de bicicleta – pegou o celular dela e saiu pedalando.

Em todas as vezes em que fui assaltada, eu me culpei. Na primeira situação descrita acima, eu sei que aquela região é super perigosa. E não devia estar de vidro aberto. E nem com o celular no colo!

Mas… peraí. O celular era meu (nem tinha acabado de pagar…), o carro era meu, e era três da tarde. A culpa foi minha, mesmo, ou do assaltante?

Quando conto as histórias de assalto, sempre deixo claro “eu sei que dei mole”. Todos concordam. “É, ali é foda”, respondem. “Essa gangue da bicicleta também já roubou a mãe de uma amiga minha”, dizem.

Todos tiram a culpa do ladrão e colocam em quem foi roubado. Mas ninguém, ninguém, absolutamente ninguém questiona se o roubo realmente aconteceu. Se eu tinha mesmo um celular. Eu disse que aconteceu, elas acreditam.

E aí acontece um crime sexual.

Começam a culpabilização da vítima. Tomando o caso ocorrido recentemente em Santos.

A vítima tem 17 anos e estava em uma boate.

O que ela estava fazendo numa boate? Ela é menor de idade!!!

Todo mundo de repente, não mais que de repente, esquece de todas as vezes em que saiu beeeeeeeeeeeeem antes de completar 18 anos.

Ela bebeu.

Mas não é proibido vender bebida alcoolica para menores? Ah, bebeu e deve ter ficado fácil!

Então tá. Tem uma moça aqui chamada Hipocrisia te mandando um beijão.

Ela teria – segundo os donos da boate – se “engraçado” com o segurança (acusado do crime) para entrar na área VIP. 

Sabia! Ficou dando mole pro segurança pra conseguir as coisas… Ele entendeu errado.

Tadinho do segurança com dificuldade de cognição! Mais uma vez, dona Hipocrisia mandando um abraço, pois muita gente usa de charme para conseguir as coisas. Homens e mulheres. E “dar o cu” não entra nessa troca.

Pois bem. Já culparam a vítima, ela deu mole, ela não devia ter bebido, blá blá blá.

Mas a coisa fica pior: em crimes sexuais SEMPRE se questiona se o estupro realmente aconteceu. Sempre. Ninguém jamais duvidou que meus celulares/colares/dinheiro tivessem sido roubados, mas é quase um padrão duvidar da veracidade do relato de abuso.

Mesmo que, como no caso de Santos, a vítima tenha sido encontrada desacordada num banheiro, com as calças abaixadas, queixo machucado, seios arranhados. O laudo do IML mostrou que ela foi violentada sim, com conjunção carnal e também no ânus. Quer dizer, o cara a violentou pela frente e por trás, mas tem gente que ainda o defende.

Eu escrevi sobre isso outro dia: às vezes nos preocupamos mais com o patrimônio do que com nossos corpos. É como se ele fosse do mundo, como se ninguém estivesse levando nada embora, como se ele não nos pertencesse.

Há muito a ser mudado na cabeça das pessoas acerca de crimes sexuais. Sobre crimes em geral, devemos parar de culpar a vítima. E sobre abuso, temos que parar de achar que alguém (qualquer pessoa, e aí incluo namorados e maridos) têm poder sobre nossos corpos. Não têm. Só quem decide o que vamos fazer somos nós mesmas.