Sou feminista e minha orientação sexual não é da sua conta

Dá para ver em diversos blogs e livros de feministas jovens: todo mundo tentando mostrar que “ei! você é feminista!”.  De fato, muita gente tem medo do feminismo e parte desse receio é por puro desconhecimento.

Eu entendo a tentativa de mostrar que feminismo não é o que o senso comum pensa. Porém, fico incomodada com a tentativa às vezes desesperada de convencer alguém de que a pessoa é feminista. Começam a dizer tudo o que é “ok” uma feminista fazer. E uma das coisas que me irritam mais profundamente é o “eu sou feminista, mas não sou lésbica”.

E se fosse?

Porque uma pessoa só aceitaria ser chamada de feminista se ela não fosse confundida com uma lésbica?

O que tem tão de errado assim em gostar de outras mulheres?

O que o resto do mundo tem a ver com a sua vida sexual?

Essa lesbofobia foi bastante utilizada pela mídia mainstream na segunda onda do feminismo. Foi uma ferramenta para afastar mulheres do movimento, como mostra bell hooks em Feminism is for everybody:

A imprensa conservadora constantemente representou mulheres feministas como odiadoras de homens. E, como de fato existiam sentimentos anti-homem no movimento, a imprensa destacou isso como um jeito de colocar o feminismo em descrédito.

Nessa caracterização de feministas como anti-homem estava a ideia de que todas as feministas eram lésbicas. Apelando para a homofobia, a imprensa mainstream intensificou o sentimento anti-feminista entre os homens.

Sim, isso foi feito lá na década de 1970 e até hoje os estereótipos da feminista sobrevivem. Somos todas peludas, pouco femininas… e lésbicas. A grande questão para mim é que, dentro do movimento, nós não deveríamos ficar repetindo que não somos assim.

Ser pouco feminina, peluda ou lésbica (ou tudo junto) significa fugir ao padrão do papel de gênero estabelecido pela sociedade sexista. Temos que ser fofas, adoráveis, bonitas e disponíveis sexualmente para os homens. Bonecas. Enfeitando o mundo e ao mesmo tempo servindo para dar prazer sexual aos marmanjos.

Não é exatamente isso que a gente combate? Não lutamos, entre várias outras coisas, para sermos indivíduos gozando totalmente dos nossos corpos e direitos? Isso inclui gostar de meninos ou meninas. Ou não gostar de sexo.

Parece que, apesar de o feminismo ser um movimento pela liberdade, ainda estamos presas à ideia de que precisamos ser aceitas pela sociedade. E, por isso, não podemos ser tomadas por lésbicas.

Perdi as contas de quantos e-mails e mensagens eu recebi me ACUSANDO de não gostar de homens. Acho que toda feminista online já leu isso. Eu entendo que machistinhas levantem a carta da lesbofobia. A intenção desses caras é xingar – e se ser chamada de lésbica é xingamento, isso mostra que a homofobia é uma realidade violenta e agressiva.

O que eu não entendo é que algumas feministas se sintam ofendidas com isso e/ou insistam em “esclarecer as coisas”. Essa necessidade de esclarecimento mostra que a discussão está muito, muito atrasada. Está na hora de andar pra frente. “Sou feminista, mas não sou lésbica”, “sou feminista, mas gosto de homem” são frases que nem devem ser mais ditas. Sou feminista e ponto.

Livro: “A culpa é das estrelas”

Estou lendo compulsivamente. Mesmo. A maior parte do meu tempo se volta para textos feministas, e por isso mesmo quero “dar uma respirada” e buscar  obras sobre outras coisas.

Foi assim que cheguei ao A culpa é das estrelas, de John Green. Ele figura na lista dos mais vendidos, uma grande amiga adorou, há diversas postagens no tumblr a respeito dele.

a culpa é das estrelas de john green

Sabia que a obra é voltada a jovens adultos, então imaginava mais ou menos como seria a fluidez do texto. Não tenho nada contra coisas feitas para adolescentes: assisto (e adoro) Awkward. e My Mad Fat Diary.

A história é a seguinte (e não vou dar spoiler, não se preocupem): uma adolescente chamada Hazel conhece Augustus. Ambos têm câncer e se encontram num grupo de apoio. Ela, claro, é boba, desajeitada e insegura. Ele, engraçado, divertido e seguro (claro). E eles se apaixonam – claro.

Até aí, ok, livros de amor são assim mesmo, apesar de já estar cansada de tantas mocinhas pobres, indefesas e à espera de um homem salvador que as tirará do buraco.

Logo no final do primeiro capítulo, Hazel decide ir à casa de Gus (Augustus) para assistir um filme, apesar de não conhecê-lo. Ela pega carona com ele após a reunião do grupo de apoio.

Pra mim, o problema começa aí.

Eis a narrativa:

Eu deveria estar nervosa – sentada no carro de um estranho, indo para a casa dele, perfeitamente ciente do fato de que meus pulmões de araque iriam dificultar quaisquer esforços para evitar avanços indesejados.

Eu vivo no mundo real (mais do que eu gostaria) e eu sei que mulheres temem pegar carona com estranhos. Porém, não me parece nada razoável que um livro voltado para adolescentes normatize isso.

Entendo que a ficção – e, infelizmente, obras baseadas em fatos reais também – deve ter personagens falhos. Joseph Campbell, na conhecidíssima jornada do herói, mostra muito bem como o herói/heroína precisam ter um quê de defeito, porque só assim eles se tornam humanos. Se forem perfeitos, o leitor/espectador não consegue se identificar com eles.

Da mesma forma, não sou contrária ao uso de personagens que estão beeeeeem distantes da perfeição, como vilões sanguinários e sem caráter.  No entanto, o A culpa é das estrelas não tem essa pegada. Pelo contrário. É visto como um livro fofo, de amor, de companheirismo.

Portanto, normatizar a cultura do estupro dessa maneira é no mínimo irresponsável (não, ele não a estupra).

Logo depois dessa carona cheia de medo, Hazel chega à casa de Gus e pensa: “talvez ele levasse uma garota nova todas as noites para ver um filme e se aproveitar dela”.

Cultura do estupro de novo. De novo. “Se aproveitar dela.”

Notem que a narradora é Hazel, e John Green transforma a personagem numa moça tão insegura quanto Anastasia, de Cinquenta Tons. O que há com as pessoas para insistirem em ler e se identificar com narrativas em que a mulher não tem força e é salva por um marmanjo?

Gus e Hazel começam a assistir V de Vingança. Ao final, ele pergunta o que ela havia achado do filme.

A resposta:

Sério. Era um filme do tipo que só agrada garotos. Não sei por que os meninos esperam que gostemos desses filmes. Nós, meninas, não temos expectativa nenhuma de que eles gostem dos nossos tipos de filme.

E isso tudo antes do fim do segundo capítulo. Simplesmente desisti. Como aguentar esse festival de estereótipos até o final? Além da caracterização clichê dos personagens, ainda rola essa separação entre “coisas de menino” e “coisas de menina”?

A culpa é das estrelas é extremamente bem sucedido no mercado. Vai até virar filme. Ótimo pro autor. Mas e pra nós, que continuamos consumindo narrativas que imbecilizam mulheres e normatizam a cultura do estupro?

***

UPDATE 

Falaram que eu devia acabar de ler o livro, porque só assim eu teria condições de realmente analisá-lo (como se quando você dissesse “putz, não gostei dessa nova música da banda X” você conhecesse a fundo o trabalho dela ou tivesse alguma formação na área). Então vou fazer isso. Gostaria de avisá-los, contudo, que não tenho qualquer especialização em crítica literária, então não adianta desqualificarem minha opinião baseando-se nisso.

Minhas sinapses nervosas funcionam perfeitamente e eu analiso criticamente a mídia, em especial quando se trata de sexismo. Portanto, sou completamente capaz de entender as mensagens que recebo, seja pela capa de revista, seja por um livro, seja num filme. A minha opinião e a minha percepção não são lei universal. Assim sendo, você pode ter a sua. Inclusive espero que você tenha a sua.

Aviso de antemão que os trechos abaixo são retirados literalmente da obra de John Green, e, como tentarei ler até o final, poderão conter spoilers.

O post será atualizado ao longo da leitura.

“”Eu tinha me sentado na beira da cama desarrumada dele. Não queria me insinuar, nem nada; é q me canso um pouco toda vez q fico muito tempo de pé.” – Hazel justificando que precisou SENTAR, mesmo ostentando um balão de oxigênio.

“Pensei em contar pra ela que estava saindo com um garoto também, ou pelo menos que tinha assistido a um filme com ele, só porque sabia que o fato de alguém como eu, tão descuidada da aparência, dos bons modos e baixinha, poder, mesmo que por um breve momento, despertar o interesse de um garoto causaria surpresa e espanto na Kaitlyn.” – Hazel, realmente super segura.

“Depois pegou um par de sapatos altíssimos, com várias tiras, à la prostituta.” – Hazel falando sobre um sapato que a amiga experimentou. Porque, claro, existem roupas “de prostituta”, “de periguete”, de “mulher que se dá ao respeito”…

(e isso tudo acima, mais o que está no post, acontece só nos três primeiros capítulos do livro…)

Desculpa, mas você precisa do feminismo

Texto originalmente publicado em 7 de maio de 2013 no Facebook, mas aqui coloquei links que não existem lá

feminist

Eu sei. Dói. Você leu em todos os lugares, as músicas te disseram, as capas de revistas afirmaram em letras garrafais: “você pode tudo”.

Mas era mentira.

A essa altura você já deve ter percebido. Está enfrentando transporte público lotado, escolhe coisas no supermercado pelo preço, espera ansiosamente pela promoção de passagem aérea.

Nem sinal daquelas prometidas condecorações e da sala com vista para a Marginal Pinheiros.

Você fez a lição de casa direitinho: estudou, passou no vestibular, se formou, fez pós, estudou inglês-francês-alemão, mas… nada.

Também disseram que não importa se você é homem ou mulher. “As oportunidades são iguais para todos, basta se esforçar.”

Namorou anos, não casou, conta nos dedos quantos caras beijou na vida e na primeira vez que transou com alguém com quem não tinha “compromisso”, logo colocaram o letreiro de “puta” na sua testa.

(na verdade, você nem transou, mas todo mundo acha que sim, então é isso que importa.)

Mesmo sendo um pouco cruel, eu preferia dizer que você é que é uma azarada. Que errou em alguma escolha de carreira, que é rodeada de amigos babacas, que a culpa é toda, individualmente, sua.

Se eu dissesse isso, eu estaria apagando a história:

- de 7 a cada 10 mulheres: elas serão agredidas ao longo da vida;
- das 500 pessoas que, só em fevereiro, denunciaram estupro à polícia do Rio de Janeiro;
- das 10 mulheres assassinadas por dia no Brasil;
- de todas as mulheres que, exercendo a mesma função que um funcionário homem, ganham 30% a menos;
- de 45% da força de trabalho brasileira que, só por serem mulheres, nunca chegarão a cargos de diretoria (mulheres ocupam apenas 7,9% desses cargos)¹;
- de 1 a cada 4 mulheres que será abusada sexualmente;
- das 2 milhões de mulheres que anualmente passam pela mutilação genital;
- das 140 milhões de crianças que casarão à força até 2020.

Eu queria dizer que você não precisa de feminismo. Queria muito. Eu só não posso.

(todas as estatísticas acima são de órgãos oficiais, como Secretarias de Segurança Pública, ONU, Banco Mundial, Unicef e IBGE.)

 ¹ Dado do Núcleo de Direito e Gênero da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas, segundo o livro Faça Acontecer, da Sheryl Sandberg.

Trocando a capa

A autora Maureen Johnson escreveu um excelente texto sobre mulheres e literatura. Infelizmente é em inglês e um pouco longo, mas eu recomendo demais a leitura.

Ela conta como vê o papel da mulher no mundo literário. A crítica ao baixo número de autoras e à escolha de autores homens nas aulas de literatura são recorrentes no meio feminista.

Livros escritos por mulheres são vistos como vazios, frívolos, bobos. Maureen diz que até as capas são diferentes, dependendo do gênero do autor*.

Ela então propôs aos seguidores no Twitter que eles criassem capas diferentes para livros. Se o autor fosse homem, deveriam criar uma capa “feminina” (mil aspas pra esse papel de gênero ridículo). E vice versa.

O resultado é meio assustador, de tão real e certeiro.

Vejam alguns exemplos:

Vocês podem ver outros exemplos aqui no Huffington Post.

*sim, eu faço um mea culpa sobre a capa do meu próprio livro. nunca escondi isso de ninguém. comprem bastante que é para fazermos uma segunda edição e eu mudar isso. 

 

A cultura do estupro gritando – e ninguém ouve

Como a essa altura vocês já devem saber, Gerald Thomas tentou colocar as mãos por dentro do vestido da Nicole Bahls durante um evento no Rio. Era noite de lançamento de um livro dele e a Livraria da Travessa estava lotada. Repórteres, cinegrafistas, funcionários da loja, clientes.

Pelas notícias, ninguém fez nada. Nas imagens dá para ver que o colega de trabalho de Nicole no Pânico continuou a entrevista como se nada tivesse acontecendo. Enquanto isso, Thomas enfiava a mão entre as pernas de Nicole e ela tentava se desvencilhar.

nicole bahls

 Veja/leia mais aqui. 

Sempre rolam os xingamentos à mulher, claro. São os usuais: que ela estava pedindo, que ela estava gostando, que o trabalho dela é esse mesmo, que a roupa era justa. Vocês estão cansados de saber quais as justificativas injustificáveis para o assédio e a agressão sexual.

Mas duas coisas me chamam a atenção nesse caso. A primeira é ninguém ter feito nada. Acharem normal. Acharem aceitável. Se a agressão tivesse sido com uma atriz considerada recatada, as pessoas reagiriam da mesma forma?

Duvido. Indignar-se-iam, aposto. Muita gente nas redes sociais se posicionou e apontou o comportamento de Gerald Thomas como agressão, mas a imprensa tratou como algo que “Nicole não esperava”, mostrando o assunto como mero constrangimento.

Se a mulher geralmente já é tratada como “coisa”, como um objeto para deleite masculino, quando ela tem seu corpo e sua sexualidade transformada em um produto vendável, tudo só piora. Nicole faz sucesso porque tem um corpão, segundo os padrões de beleza atuais. Ela aparece de biquini na televisão, tira fotos “sensuais”, usa roupas curtas e provocantes. Como ela “provocou” (apenas sendo quem ela é), ela merece ser apalpada por um estranho.

Porém, não existe isso de “provocar”. Gerald Thomas não é um animal irracional. Ele – e eu e você – deve esperar o consentimento do outro para poder tocar em seu corpo. Nicole Bahls claramente disse “não”, ao tentar tirar as mãos de Thomas. Parece que não é suficiente, como não é suficiente quando viramos o rosto para evitar o beijo do desconhecido na balada.

Criou-se a ideia de que o homem deve insistir e insistir, enquanto a mulher tenta guardar algo. O “não” é visto como “talvez”. No entanto, se a mulher transforma o talvez em um “deixa pra lá”, ela na verdade não está consentindo. Não é um “sim” entusiasmado, intenso, certeiro, como deve ser em qualquer relação. É um “sim” por convenção social, por achar que ele já fez demais, que agora merece o contato sexual, que é melhor ceder e se livrar logo. Isso não é consentimento, é coerção.

O pior é que esses caras não se veem como agressores, uma vez que todo mundo encara tais comportamentos como “normais”. Brad Perry tem uma frase ótima em Yes Means Yes*: “estes homens acreditam piamente que “não” significa “insista”, e nunca se veem como estupradores, apesar de admitirem o padrão de ignorar e suprimir a resistência verbal e física”.

A segunda coisa que me incomoda no caso é terem dito “mas porque ela não fez algo?”. Infelizmente, a maior parte das pessoas que sofre algum tipo de agressão (não só sexual) não faz alguma coisa. Ser vítima é costumeiramente confundido com “ser frágil”. É difícil encarar polícia, legista, imprensa, opinião pública. No caso desse post, o cara estava agredindo na frente de todos – e ninguém fez nada.

Se fosse você a vítima, você não pensaria que a errada é você por não estar gostando, já que todo mundo está achando muito normal?

Lisa Jervis discorre sobre isso no mesmo livro: “estou falando de uma construção cultural nojenta, destrutiva, que encoraja as mulheres a culparem a vítima, a se odiarem, a se culparem, a se responsabilizarem pelo comportamento criminoso dos outros, a temerem seus próprios desejos e a desconfiarem dos seus próprios instintos”.

Se o corpo da mulher é ainda visto como “de todos”, como acontece no caso daquelas que usam a sexualidade para “vender”, fica ainda mais difícil ter noção de que o corpo lhes pertence. Que é só seu. Que ninguém, ninguém pode tocá-lo sem consentimento.

Acabarmos com a cultura do estupro é um processo social, coletivo, mas também individual. Nós temos que encarar nossos corpos como nossos e de mais ninguém, além de repensarmos o sexo, transformando-o no que realmente é: prazeroso e consensual. Qualquer coisa fora disso é agressão.

*Yes Means Yes é um livro de Jessica Valenti e Jaclyn Friedman sobre a cultura do estupro. É uma coletânea de artigos muito interessante e que recomendo muito. O texto de Brad Perry se chama Hooking up with healthy sexuality: the lessons boys learn (and don’t learn) about sexuality, and why a sex-positive prevention paradigm can benefit everyone involved. 

Margaret Thatcher e o feminismo

Hoje aquela organização que a mídia insiste em chamar de feminista (mesmo elas já tendo afirmado que não são) fez uma homenagem a Margaret Tatcher, ex-primeira ministra britânica que morreu ontem.

O desconhecimento histórico de tal organização é gritante, mas vi algumas pessoas dizendo que ter uma mulher como líder de um país já seria suficiente para celebrarmos, uma vez que isso é tão difícil de acontecer.

A justificativa não me convence. Pode parecer bacana se olharmos apenas superficialmente, mas não adianta termos uma mulher em posição de poder político se ela não usar isso a favor dos direitos das mulheres.

No Brasil, temos a presidenta Dilma. E ela permitiu que Feliciano presidisse a Comissão de Direitos Humanos e Minorias, só para citar um exemplo rápido e bastante em voga hoje. Com Tatcher as coisas não foram diferentes. Traduzo um post curto e de fácil compreensão publicado pelo The F Word, também britânico. O original você encontra aqui.

Tatcher e a liberação da mulher

“Margaret Thatcher era feminista?” Junto com “uma feminista pode usar salto alto?”, esta é uma das questões favoritas da mídia. Assim como a segunda pergunta (igualmente cansativa), há uma resposta curta e outra longa.

A resposta curta? Definitivamente “não”, segundo a própria “dama de ferro”:

As feministas me odeiam, não é mesmo? E eu não as culpo. Afinal, eu odeio o feminismo. É um veneno.

A resposta longa? Bom, também é um “não”, mas temos a explicação.

Margaret Thatcher de fato foi a primeira mulher a ocupar o cargo de primeira ministra. Ela chegou ao topo em uma sociedade sexista e dominada pelos homens. Ela provou, alguns dizem, que mulheres e homens são iguais.

Contudo, para chegar onde chegou, Tatcher seguiu a linha do patriarcado. E ela fez isso sem parar pra pensar por um segundo nas outras mulheres.

Ela pode ter inspirado e aumentado a confiança de algumas mulheres individualmente. O ponto principal aqui é que o feminismo – ao contrário da ideologia de Tatcher – não é individualista. Feminismo busca a libertação de todas as mulheres.

Libertação para todas as mulheres não se alcança quando uma única mulher rica toma  posição de poder.

Libertação para todas as mulheres não se alcança por meio de políticas econômicas que aumentam o desnível social, pobreza e desemprego, além de aniquilar comunidades inteiras.

Libertação para todas as mulheres não se alcança atacando o direito de organização dos trabalhadores.

Libertação para todas as mulheres não se alcança com a demonização da comunidade gay.

Libertação para todas as mulheres não se alcança criticando e se negando a apoiar aquelas que tiveram filhos.

Libertação para todas as mulheres não se alcança por meio do racismo e apoio a ditadores sanguinários.

Tatcher pode ter sido bem sucedida como indivíduo, mas suas ações ajudaram a dar base às opressões estruturais que pioram as vidas das mulheres tanto no Reino Unido quanto no resto do mundo. Ela falhou em apoiar as mulheres mesmo diretamente, pois empregou apenas uma mulher em seu gabinete em onze anos como primeira ministra.

Margaret Tatcher não é um ícone feminista. Aliás, ela é a perfeita personificação de como é importante lutarmos pela liberdade, pela criação de uma nova sociedade que permita que todos os gêneros sejam livres de qualquer forma de opressão. E não lutar para que mulheres já privilegiadas ganhem “igualdade” com seus companheiros homens.

***

O Huffington Post publicou um texto com ideias diferentes do acima. É em inglês.

Ann Friedman também escreveu a respeito do tema (em inglês).

Há meses eu escrevi não sobre a primeira ministra, mas sobre a tal organização que hoje a homenageia.

A vítima de estupro perfeita

Ontem saiu a condenação dos estupradores de Steubenville. Se você está por fora, o que aconteceu foi o seguinte: uma adolescente de 16 anos foi a uma festa, bebeu e, inconsciente, foi estuprada por dois caras.

Os dois acusados, agora condenados, faziam parte do time de futebol local, um verdadeiro orgulho para os moradores da cidade. Assim, o caso ficou escondido, até que o anonymous denunciou, alguns repórteres seguiram a pista, e o resultado foi a condenação dos responsáveis.

Triste foi o que se disse durante o julgamento e após o veredito. Tentou-se culpar a vítima, falou-se quão incríveis os criminosos são, lamentou-se que a vida DELES tenha acabado, questionou-se se a garota estava mesmo inconsciente (você pode ler vários absurdos aqui, em inglês).

Ao ler tudo isso, pensei nos casos que temos aqui no Brasil. Lembrei do New Hit, cujo julgamento acontecerá em setembro. Quantas vezes você leu/ouviu que as meninas não deviam ter entrado  no ônibus? Que alguma coisa elas queriam? E quando uma moça foi atacada no metrô de São Paulo por um cara que colocou o pinto pra fora? Ela desmaiou, e vi várias pessoas dizendo que “pessoas não desmaiam nessas situações”. Lembram da jovem estudante de direito da PUC de SP que se matou em dezembro? “Ela bebeu demais na festa, deu porque quis e daí ficou com vergonha.”

Os casos são muitos. Incontáveis, infelizmente. Muda o nome da vítima, o endereço, mas a reação das pessoas continua a mesma, seja em Steubenville, seja em São Paulo.

rape 1

Então percebi que, para a denúncia de agressão sexual ser “aceita”, você precisa ser a vítima de estupro perfeita. Se você não seguir os passos seguintes, você com certeza está mentindo, querendo acabar com a vida de alguém, “sua vadia”.

1) Seja bastante pudica, de preferência virgem. Não, nada de ter vida sexual. Se for rodada feito eu ou garota de programa, então, já deu o direito pra qualquer pessoa abusar de você. Mesmo se você nunca sequer tiver beijado na boca, se liga: não pode dar mole pro agressor. Porque aí vão dizer que ele “entendeu errado seus sinais, ele achou que você estava querendo, etc”.

2) Vista uma burca. Caso você esteja de saia curta, decote ou barriga de fora, já sabe. “Ela fez isso pra provocar”, dirão várias pessoas. Não, você não estava de short porque estava calor, porque é confortável, porque você foi andar de bicicleta no parque. Nada disso. Você fez isso para despertar os instintos alheios. Porque, como vocês sabem, a urgência de estuprar é instintiva… é natural.

3) Não beba nada. Cu de bêbado não tem dono, ué. Você nunca ouviu isso? Ah, por favor, né? Se você encheu a cara, nada mais justo do que alguém tirar sua roupa, enfiar coisas em você, fazer um vídeo e postar na internet. Tava querendo o quê? Ah, você não bebe álcool? Então favor ficar de olho o tempo todo pra checar se sua coca cola foi aberta na sua frente. Nada de pedir um suco na rua se você não puder acompanhar todo o processo – vai que alguém coloca um remedinho ali dentro e você toma. Bem feito. Não pode relaxar nunca, ô garota.

4) Reaja ostensivamente. Se você for atacada, é necessário reagir de modo que ninguém desconfie da agressão, isto é, faça escândalo, grite, arranhe ou morda o agressor, faça com que ele te dê porrada para ficar a marca. Porque você sabe… se você entrar em choque, se deixar ele terminar a agressão pra acabar logo, se desmaiar… vão dizer que na verdade foi consensual.

5) Denuncie logo em seguida. Você tem que juntar seus pedaços físicos e emocionais e ir correndo pra uma delegacia. Esqueça que você passará por constrangimentos, que lidar com um estupro é das coisas mais difíceis da vida, que isso significará outra pessoa encostando no seu corpo, tão fragilizado após a agressão. Se você demorar alguns dias para denunciar, vão falar “ih, tem algo estranho aí”.

6) Certifique-se que seu estuprador não seja alguém com carreira, trabalho ou fãs. Como é que você vai escolher seu estuprador? Sei lá. Dá teu jeito. Afinal, se você não fizer isso, será vista como alguém que “quer acabar com a vida e o futuro do pobre estuprador”.

É inacreditável. Desde sempre tomamos cuidados bizarros para não sermos atacadas. Somos ensinadas a não sermos estupradas, mas ninguém ensina a não estuprarem. E mesmo que a gente siga tudo direitinho (não recebemos estranhos em casa, não andamos em ruas escuras ou desertas, não vamos ao bar sozinhas), ainda assim teremos todos os nossos passos escrutinados para a opinião pública julgar.

Como a leitora Fernanda disse no Twitter ontem, “proibir” a mulher de fazer todas essas coisas (beber, sair, dançar, usar a roupa que estiver a fim, transar com quem bem entender) com a ameaça constante de estupro é uma questão de poder.

“Ande na linha, se não algo de muito ruim vai acontecer com você.”

No fim disso tudo, vê-se que estupro não é sobre sexo. É sobre controle, poder, dominação.

Sexismo universitário

Fiz duas faculdades. Isto é, durante dois momentos na minha vida eu fui um ser que poderia ser zoado, humilhado e – pasmem – abusado (como se ser mulher, por si só, já não fosse “desculpa” pra isso).

Felizmente na Cásper Líbero, onde fui bixete em 2008 (aliás, que porra de nome é esse? BIXETE. demorei um tempo pra me acostumar), o trote não é degradante. É idiota, como eu, Nádia, acho que todos o são. Detesto participar de gincanas e afins, então andar pela Paulista toda suja e fedida não é exatamente a minha ideia de diversão.

Mas nunca me obrigaram a nada e, pelo que sei, alguns dos meus colegas se divertiram. Podemos ter uma longa discussão sobre o pedágio (recolher dinheiro para a cerveja), mas não é essa a intenção do post.

Lá na PUC, onze anos antes, eu já não me recordo direito. Com certeza a coisa era mais “organizada”. E um pouco aterrorizante. Lembro de mim mesma desesperada procurando camiseta hering de determinada cor, pois todos os dias os veteranos iam à nossa sala, fechavam as portas, e diziam qual cor deveríamos usar no dia seguinte. Era “a semana do arco íris”. Só não consigo precisar se eu fui pra faculdade toda colorida porque queria “me enturmar” ou se por medo.

Isso acontecia todo dia. As imagens estão meio nebulosas na memória, mas é desconfortavelmente claro que os veteranos chamavam algumas mulheres para a frente da sala e mandavam fazer dancinhas. Digo que é desconfortável porque, se fosse hoje, eu ia fazer um auê. Na época, eu só era uma garota de 17 anos, recém chegada à cidade, com um puta medão de tudo.

Como eu tinha aparência regular (não era bonita, mas também não era gorda ou “esquisita” – motivos suficientes para virar chacota), passei por aqueles dias sem chamar a atenção. Eu e alguns amigos fomos à reitoria pedir para nos avisarem quando seria o trote.

As aulas aconteciam todos os dias, não havia essa “semana de integração” que vejo em outras faculdades. Então a gente ia pra PUC, sem nunca saber se era aquele o dia em que nos sujariam, nos fariam andar pelas escadas como “elefantinhos”, nos fariam dançar na boca da garrafa. Tudo isso era feito com a anuência da reitoria – que marcava os trotes (eram muitos cursos e, então, a coisa devia ser “organizada” para o campus não virar uma balbúrdia caso todo mundo resolvesse fazer no mesmo dia). Eles então nos avisaram e naquele dia faltei aula.

Toda essa imensa introdução é só para apresentar um guest post. Vocês devem ter lido sobre os absurdos do trote em São Carlos, a reação feminista, a reação completamente desnecessária de quem participava do trote, a reação da mídia. Há textos muito bons sobre o que aconteceu (você encontra vários links nesse post da Lola e aqui está uma mensagem oficial do grupo feminista responsável pela manifestação, com fotos).

A cobertura séria é importantíssima e o trote da Poli já está sendo questionado pela grande mídia, como o Estadão e o R7 (citando a Feminista Cansada, gente!)

Mas como é pra quem está lá dentro? Como é pra quem vê esses absurdos acontecendo ano após ano?

Uma leitora resolveu contar. Ela estudou na USP São Carlos e hoje é pesquisadora da instituição. Pediu para não ter seu nome revelado.

O campus da USP-São Carlos é lindo! De todos os campi da universidade, é um dos mais arborizados, se levarmos em conta que fica no centro da cidade. Um campus majoritariamente para Ciências Exatas. E como “engenharia é coisa de homem”, assim como Física, Química e Matemática, há poucas mulheres. Em salas de 50 alunos, duas mulheres. Às vezes, três.

E é nesse panorama que ocorre todos os anos, na primeira semana de aula, a “Semana do Bixo”. O dia mais tradicional é a terça-feira, quando acontece a Apelidação, ritual de apelidação dos bixos, comandado pelo centro acadêmico. Também organizam um concurso para eleger a caloura mais bonita. O comando é do concurso é do Grupo de Apoio à Putaria (GAP) – uma paródia ao antigo Grupo de Apoio à Pesquisa, órgão de financiamento – que é formado por membros do curso de engenharia, com intuito de promover festas entre as repúblicas.

Aqui ainda existem as repúblicas tradicionais. Conseguir uma vaga para morar nelas custa caro, mais que alugar um apartamento de um quarto, e acontece mediante um “teste”: nada mais que um trote de humilhação. A maioria dessas repúblicas é para garotos, mas existem algumas para as mulheres. O trote é sempre às 13h. O pessoal já começa a beber de manhã.

O campus é muito peculiar: vende-se bebidas alcoólicas no centro acadêmico, com conhecimento da Prefeitura e Diretorias. Isso porque não vou entrar no âmbito da maconha. Assim, quando começa o “Miss Bixete”, a maioria já está bêbada. As calouras, geralmente na faixa dos 17 anos, são “convidadas” a desfilar, não são obrigadas, mas os veteranos e também as veteranas deixam claro que quem não participa fica taxado de antissocial e acaba excluído. Entre as concorrentes estão infiltradas prostitutas (digo infiltradas porque é tradicional usar uma camiseta do curso, assim você vê o pessoal de camiseta e logo deduz que são bixos), que dançam, rebolam no palco, tiram a camiseta, como forma de induzir o mesmo comportamento às “novatas”.

O pessoal brada: “se ela fez, você também tem que fazer, ou não vai ganhar o concurso”. A passarela parece com a de um desfile convencional, mas obviamente não tem cadeiras, o pessoal fica com a barriga encostada ali e – chega a doer dizer isso – passam as mãos nas meninas durante o desfile. Quando eu cheguei aqui, no ano 2000, a festa já era tradicional. Se você ficou curioso para saber se me passaram a mão, se eu tirei a camiseta, a resposta é não. E sabe o motivo? Porque eu sou gorda! Gordas nojentas não concorrem. E foi assim me livrei de uma boa!!! Quem ganha? A mais bonita, gostosa e “assanhada”. É assim que essas garotas ficam conhecidas por toda sua vida acadêmica.

O CAASO (Centro Acadêmico Armando de Salles Oliveira) teve uma papel muito importante em defesa dos alunos durante a ditadura. Esses alunos que lutaram por seu direito à liberdade, hoje são engenheiros renomados, químicos citados por ganhadores de prêmios Nobel, físicos eleitos para a Academia de Ciências do Vaticano. São essas as pessoas que gerenciam o campus hoje e que toleram esse tipo de trote em nome dos tempos passados.

A leitora aponta a conivência da reitoria, coisa que vi pouca gente fazer. Colocam a culpa nos veteranos. Eles são culpados, sim, mas como uma universidade permite que esse tipo de coisa aconteça anualmente nas suas dependências? Como é que ela não pune quem organiza? Onde estão os responsáveis, aqueles com real poder de fazer alguma coisa?

Isso está rolando há tanto tempo que há até “hinos”. Fiquei estarrecida quando vi a letra. Eles também foram enviados pela leitora.

Hino do GAP
Foi na beira da piscina
Que o GAP se formou
Grupo de apoio a putaria
Tamo aí pra baixaria
É o CAASO que chegou
Lá na beira da estrada
Na fazenda dos Canchin
Tem uma escola sem vergonha
Que se chama federal
Se peluda fosse flor
federal era jardim
Eu vou raspar os teus pelinhos
Vou raspar os teus pelinhos
Se você só der pra mim
Fui estudar lá no CAASO
Pra virar trabalhador
Hoje estou quase jubilado
Passa o dia chapado
Batucando o meu tambor

Hino da Biologia (ritmo: hino nacional)
Perna peluda um que já foi símbolo
Da escola lá na beira da estrada
De dia passeava pela granja
De noite era muito mal amada
Seu odor, insuportável
Bem ao longe se sentia o cheiro forte
O seu rosto, abominável
Seu sorriso era mais feio que a morte
Oh federupa, xupa, xupa, salve, salve!!!
Mulher de fogo eterno, haja pinto
Para apagar o fogo da danada
De bar em bar vai dando suas voltas
Ninguém segura mais essa tarada
Devassa não dispensa uma orgia
As sextas no CAASO vai à luta
Veras que a franga faz biologia
Sua safada!!!
És a vergonha do Brasil oh depravada
Mulher da biologia está sempre no cio
Baixaria Brasil!!!

Isso tudo é nauseante. A pergunta é: como podemos tolerar isso durante tanto tempo? Como a universidade não se posiciona a respeito? Sim, somos todos responsáveis pelos nossos atos. Não quero que os universitários saiam dessa numa boa, mas já passou da hora das reitorias fazerem algo para coibir a violência (sexista ou não) dentro dos seus campi.

Feminismo para principiantes: “Feminista até pagar menos na balada”

Esse é um dos discursos que mais me cansa na “cruzada contra o feminismo”. Até dei um looooooooongo suspiro antes de começar a escrever esse post.

Dentre todos os problemas que as mulheres passam, REALMENTE exigir que se pague mais na balada deve estar em posição de destaque (contém ironia).

Poxa, gente, vamos usar alguns argumentos menos patéticos?

Mas vamos lá. Mande esse link sempre que alguém vier com esse suuuuuuuper argumento.

Você sabe porque mulheres pagam menos em algumas baladas? Você acha que tem alguma coisa a ver com privilégio? “Nossa, olha, elas pagam metade, como estão ricas!”

É como aquelas festas em que as mulheres podem entrar antes e, enquanto elas estão lá dentro, antes dos caras chegarem, rola open bar. Mulher, nesses casos, é isca. Isca. Objeto.

Para o empresário dono da balada, não interessa ter um lugar lotado de homem hétero e com poucas mulheres. Eles provavelmente vão brigar entre si pela atenção das garotas, que possivelmente serão agredidas (terão o cabelo puxado, não conseguirão ir ao banheiro sem “pagar pedágio”, não poderão dançar uma música inteira em paz). Logo, o lugar não será atraente para as mulheres que, apesar de às vezes quererem, sim, ir a um a boate com muitos caras, não querem ser puxadas ou encurraladas.

Vocês nunca foram numa night em que só deixam entrar casais num determinado momento e/ou a mesma quantidade de homens e mulheres? É para evitar brigas e tumultos.

Assim, oferecer open bar para as mulheres e/ou cobrar menos para a entrada delas não é uma coisa que estão DANDO para as mulheres. É tão somente uma forma de atrai-las e, por conseguinte, fazer com que os caras imaginem que ali eles terão mais chance de “sair do zero a zero”. O open bar serve para embebedá-las e deixá-las “mais facinhas”. É só isso. E é bem nojento, convenhamos.

Na verdade, é o contrário do que dizem por aí. Dizem que é algo bom para as mulheres, quando o fato é que isso só é bom para os homens e para o empresário. Tratar as mulheres como isca é machismo, meus caros.

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Leia outro post do feminismo para principiantes: trabalhar fora.

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