Fazer nebulização e trocar fraldas? Nada divertido. Mesmo

Você já respondeu a pesquisa do blog? Vai lá, é rapidinho! 

O assunto já foi discutido aqui mesmo, no Cem + 1, em vários blogs feministas. E, no domingo, no Sakamoto.

Sim, estou falando das diferenciações de gênero para brinquedos (que na verdade é uma ponta de um iceberg). No sábado recebi um e-mail muito engraçado, ainda que um pouco assustador, de um leitor, o André.

Aqui está:

Neste período de fim de ano, fiquei em casa e meu filho de um ano e nove meses ficou comigo. Passar o dia inteiro com uma criança, que não para, é exaustivo, e por isso, agradeço a ele por gostar de ver desenhos na televisão.

Há o canal Disconery Kids (45 – Net) e os anúncios deste canal me surpreenderam de uma forma negativa que não imaginava. O machismo é incutido na cabeça das meninas desde cedo, e de forma muito forte.

Nenhum dos brinquedos das meninas tem ambiência fora de casa, nenhum, elas sempre têm que brincar em casa no quarto. Todas as bonecas são brinquedos de cuidado, isto é, todas necessitam de algum cuidado, como se isso fosse brincadeira divertida.

Há um brinquedo que é um tanque de lavar roupa e um pequeno varal. A boneca que mais me assustou é uma que chamo de boneca doente, pois ela vem com termômetro, injeção, band-aid e, como se não fosse suficiente, um nebulizador.

Porra, na boa, é ter uma mente muito fodida, para achar que ficar com uma boneca no colo fazendo nebulização é divertido. Há bonecas que sujam as fraldas, de verdade, obrigando a mamãe da boneca a trocá-las. As meninas nos brinquedos para ambos os sexos são sempre acessórios: enfermeiras, ajudantes. Nunca protagonistas.

Enquanto isso, nos brinquedos dos meninos, sempre são ambientados fora de casa. Sempre são heróis que devem salvar o mundo. Sempre são coisas divertidas como velocidade, aventura e atos heróicos. Alguns até perigosos…

Os desenhos vão pelo mesmo caminho. As meninas estão sempre em menor número e são sempre vistas como para ficar no forte cuidando dos animais e da ordem. Quando são protagonistas, nos poucos desenhos que tem, são temperamentais e resolvem os problemas com sorte e ajuda de meninos.

Fiquei assustadíssima com essa história de bonecas que precisam de nebulização. Só podia ser brinks, né, galera? Sério mesmo.

Pois nesse link do Maganize Luiza tem as tais bonecas “Baby Alive”. Se liga:

Boneca Baby Alive Cuida de Mim - Uma boneca que precisa de amor e de cuidados para se sentir melhor! Ela faz xixi e toma remédio, por isso a menina deve trocar suas fraldas e medir a temperatura. E vem com tudo o que ela precisa para cuidar do seu bebê: termômetro, eletroscópio, curativos adesivos, cobertor, mamadeira e colher.

Outra: E a menina precisa cuidar dela: trocar a fralda suja, dar comida ou mamadeira, brincar e colocar para dormir. Por isso vem com todos os acessórios necessários: fralda, mamadeira, colher, prato, pacotinhos de comida, vestido e babador.

Ao final: Incrível como essas bonecas parecem tão reais! Sua filha vai simplesmente se encantar, pois elas fazem tudo o que as meninas gostam. Agora a brincadeira de casinha vai parecer que é verdade!

“Elas fazem tudo o que as meninas gostam.” A primeira vez que troquei a fralda de uma criança que havia feito cocô, serião, eu quase vomitei em cima do bebê. O xixi eu achava tranquilo, de boa, mas eu não tinha a menor noção de quão fedido e feio é o cocô de um bebê. Então, como disse o leitor: é ter uma mente muito fodida pensar que isso é divertido!

Eu não quero ter filhos e não os terei, mas acho que nem quem adora, ama, venera a própria prole acha DIVERTIDO fazer nebulização na criança. Por favor.

Ontem conversei com um amigo sobre o e-mail e ele disse “imagina, Nádia, tem muito desenho que tem mulher protagonista, tipo as Garotas Super Poderosas”. Eu só apontei pra mim mesma e disse “Docinho!”, porque esse era meu apelido numa época – o tal “temperamental” que o leitor fala no e-mail. Não vou nem entrar na seara dos videogames, se não esse post não acaba!

Nessa mesma semana vi um retuite na minha timeline sobre coisa parecida. Vejam vocês mesmas:

Pra quem não entende inglês, a parte azul é, claro, para os meninos.

“Minha brilhantemente azul biblioteca” (claro, garotos são brilhantes.)

Eles aprendem sobre aviões, carros, escavadoras, barcos.

Elas, por outro lado, têm uma biblioteca “perfeitamente rosa” (porque perfeição é nosso nome do meio!).

Ótimo que elas aprendam a contar, o alfabeto, todos nós precisamos disso um dia. Mas “coisas de casa”? “O que vestir”? “Animais bebês”? Parem, galera, simplesmente parem.

Muita gente disse que o texto do Sakamoto era “óbvio”. Irão achar o mesmo sobre esse aqui, mas é preciso repensarmos sim os papéis de gênero o tempo todo, simplesmente porque há muitos que ainda acham “fofo” dar de presente uma boneca (além de tudo caríssima) que faz cocô. E que só meninas podem ganhá-la.

Isso tudo transforma a gente (mulheres) e nos faz repetir mentalmente, meio sem querer: “ah, sou eu que tenho que fazer isso, mesmo”. Lá estamos nós, adultas, tirando a mesa e lavando a louça enquanto os homens ficam no sofá bebendo cerveja e vendo futebol. Ei! Eu também gosto de futebol. Me dá uma coca gelada e arruma um espacinho pra mim aí.

O Sakamoto menciona no texto uma imagem que circulou no Facebook sobre quais brinquedos eram para meninas e quais eram para meninos. Para usar o brinquedo, você usa sua genitália? Se a resposta for sim, não é para crianças. Se for não, então é para meninos e meninas. É simples assim.

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