Há alguns meses uma leitora me escreveu o e-mail abaixo. Eu ia fazer um guest post, mas acabei me enrolando (como sempre). Ela leu meu texto de ontem e me escreveu: “não disse que eu tinha razão?”.
Não, ela não tem. Ela tem razão de temer, mas ela (e nem eu e nem você) não pode deixar que pessoas erradas digam o que é certo. Tá confusa? Leia e você vai entender.
Eu tenho muitos conflitos com meu corpo. Não consigo ficar nua na frente de ninguém, nem da minha mãe, nem de amigas, nem de namorados. Tenho vergonha de meus seios, porque eles têm estrias e, quando me deito sem sutiã, caem para os lados (o direito, para a direita, e o esquerdo, para a esquerda). A única solução para isso é plástica e tratamentos estéticos para me livrar de estrias e celulite. Só que eu não sou rica. Enfim, estou juntando dinheiro para a plástica dos seios, mas o médico já me avisou que, para a plástica ficar boa, terei que emagrecer pelo menos 10kg, pois, no momento, eu peso 90kg…
Entrei na academia. Estou gostando muito e também faço dieta acompanhada por nutricionista. Parei de comer doces e de beber álcool ou refrigerante. Sinto falta da coca-cola e do brigadeiro. Chego a sonhar com chocolate, mas tenho que me manter firme. Faço as aulas de natação bem cedo e uso maiô de corpo inteiro com shortinho próprio para água, sabe? A maior parte dos meus colegas de piscina está na terceira idade e se veste de maneira muito mais à vontade do que eu… Além disso, no vestiário, as senhoras não têm a menor vergonha de trocar de roupa perto de mim, enquanto eu só me troco dentro do chuveiro, para ninguém ver. E olha que tenho menos de 30 anos e minhas colegas devem ter todas mais de 60.
Eu já perdi passeios à cachoeira e à praia por vergonha do corpo e já perdi ficantes por não querer transar. O que eu não quero é ficar nua, compreende? O que você me aconselha? Continuar emagrecendo e juntando dinheiro para a plástica (se tudo der certo e eu emagrecer, em janeiro, acho, já poderei fazer a plástica). Mas não são só os seios que me incomodam, mas também a barriga, as estrias, a celulite, o excesso de coxas…
Comecei um tratamento para estrias chamado carboxiterapia. Comprei um pacote de 10 sessões (custou MIL REAIS). Fui em 4 delas e te digo: a dor é terrível. Muito ruim mesmo. Fora que tudo o que ganho, invisto em tratamento, a academia e a poupança pra plástica. Abri mão, inclusive, de comprar um carro.
O que você acha, Letícia? Acha que, se o cara se interessar por mim vestida, ao me ver sem roupa ele vai se desinteressar? Sabe, eu acho tão superficial a preocupação excessiva com a aparência… eu nem sou exigente quanto aos caras com quem fico. Não sou exigente quanto ao físico deles, basta que sejam interessantes, inteligentes, divertidos. Por que tenho que me submeter a tanto sofrimento? Mas, o sofrimento de ser considerada feia é insuportável… e me impede de ter uma vida sexual saudável. Você acha que, se meu corpo ficar aceitável (nunca ficará belo) para o padrão de beleza, vou conseguir, ao menos, ficar nua na frente das pessoas (não só de homens, mas também de mulheres, pois não fico nua nem na frente de costureiras, amigas, etc)? Vou conseguir ter uma vida sexual saudável? Vou conseguir, ao menos, ir à praia de biquíni?
Bom, vamos por partes. Primeiro, as estrias. Elas não vão sumir. Não adianta fazer tratamento, pagar uma grana, etc, etc. Isso aí vai ficar com você (e comigo) pra sempre. Mas homens e mulheres têm estrias. Já vi váááários caras com estrias nos braços e na lombar, mas nunca vi nenhum deles achando que é um pecado mortal.
Mulheres têm em geral estrias nos seios, na parte interna das coxas, na lateral do bumbum e na lombar. Pronto. Fim. Podemos mudar de assunto? Não nesse post, digo, mas sim como cultura? É isso aí, temos estrias e não tem como fazê-las sumir. Acabou a discussão. Não há o que ser feito.
Daí a leitora diz que faz atividade física e dieta com acompanhamento de nutricionista. E que está gostando de nadar. Ótimo. Atividade física é importante para uma vida saudável. Ainda que ela não tenha começado com esse fim (mas sim com o de emagrecer por pura pressão social da magreza), os ganhos são indiscutíveis. Sobre a dieta… bom, eu tenho minhas dúvidas sobre a eficiência de dietas com restrições tão ferrenhas (sonhar com chocolate?). De qualquer forma, ela está sendo acompanhada por um profissional.
Chegamos, então, aos gastos. Ela diz que gasta todo seu dinheiro em tratamentos estéticos. Deixou de comprar um carro, que, dependendo da cidade onde ela mora, significaria um grande conforto. Se ela conseguiria economizar a ponto de comprar um carro, ela também poderia pegar essa grana e ir viajar. Conhecer outras culturas, aprender uma nova língua, fazer pós graduação.
Eu realmente não vejo problemas em tratamentos estéticos e/ou cirurgias plásticas. Já vi casos em que diminuir o seio foi libertador. Mas há muitas coisas envolvidas nisso aí: existe um risco que não pode ser desprezado, o pós operatório é bastante chato e doloroso… e, muito importante: mudar fisicamente não é garantia de felicidade.
Acontece constantemente. A pessoa diz “se eu fosse magra eu faria tal coisa”. Nada te impede de fazer qualquer coisa. Ir à praia ou ao clube; usar blusa sem mangas; ficar pelada na frente do parceiro. Nada disso é proibido para quem está “fora de forma”. Só quem impede você de fazer isso… é você mesma.
É urgente tomar as rédeas da própria vida e fazer aquilo que se quer.
Ela conta sobre um tratamento estético chamado carboxiterapia. E que dói. Procurei no Google a respeito e todos os textos reafirmam: é doloroso. Dizem que funciona – a pele fica mais lisinha e com menos celulite. Mas dura apenas alguns meses. Depois volta tudo. Durante quanto tempo você (a leitora acima e você aí que está me lendo) está disposta a gastar uma grana e sentir dor? Porque isso seria eterno! Vi num blog uma garota comentando já ter feito QUARENTA E CINCO sessões! Gente!
Imagina quanta dor ela sofreu, e quanto tempo e dinheiro ela gastou. Eu sei que muita gente aproveita os descontos dos sites de compras coletivas, mas ainda assim. Tais sites vendem viagens também, sabe?
No final, a leitora me pergunta se eu acho que ela conseguirá, depois de tantas mudanças, ter uma vida sexual bacana. Eu espero estar errada, mas eu acho que não. Porque ela mesma diz que seu corpo nunca ficará belo, somente “aceitável para os padrões de beleza”. Quem dita tais padrões? As revistas femininas? Ora, sejamos menos ingênuas. Tudo isso faz parte de um negócio extremamente lucrativo!
Além de render bilhões, deixar as pessoas sempre preocupadas com a aparência (e desgostosas de si mesmas) é uma forma de controle. Se você não reconhece a força que tem – porque se sente inadequada -, como vai lutar pra mudar o status quo? Vai continuar sendo sempre massa de manobra.
Eu não sou contra a vaidade. Pintei meu cabelo durante anos e voltarei assim que tiver grana e paciência (tenho muito, muito cabelo, e fazer luzes significa passar a tarde inteira no salão). Adoro esmaltes. Acho maquiagem incrível.
Mas eu não vou gastar todo meu dinheiro nisso. Não vou viver obsessivamente buscando técnicas para “melhorar” minha aparência. Não vou sentir dor.
Então, no final, é importante se perguntar:
- Eu tenho condições financeiras de fazer isso?
- Está me machucando?
- Eu poderia aproveitar melhor o tempo que estou gastando em tratamentos estética?
- Pra quem eu estou fazendo isso?
- Eu estou deixando de fazer coisas na minha vida por me sentir fisicamente inadequada?
Se você disse “sim” à última pergunta, eu aconselharia que você buscasse ajuda terapêutica profissional. Nenhum tratamento estético vai te fazer se enxergar como você realmente é.
O post de hoje (e o de ontem, e o de amanhã…) fazem parte da “semana da autoestima” do Cem Homens. :)





