Livro: Nu, de Botas, de Antonio Prata

Lembram da minha resolução de ano novo de ler dois livros por semana? Por enquanto está dando certo! Já li três: Amores Perfeitos (Gaiarsa), Você é minha mãe? (Alison Bechdel) e, hoje, Nu, de Botas, do Antonio Prata. Confesso que os dois primeiros foram iniciados em 2013, então eu estou trapaceando um pouco. Já a obra de Prata eu li toda hoje. Porque é uma delícia!

nu de botas

Eu namorava o livro há algumas semanas, desde que o vi a primeira vez na livraria. Eu adoro o autor; além de acompanhá-lo desde que (disfarça) ele escrevia na Capricho, li outros livros dele e a-m-o uma das crônicas, O Salto (leia aqui).

O Salto, aliás, virou um curta muito emocionante de Ricardo Santini e Bel Ribeiro, Uma Vida Inteira, que eu já assisti trezentas e cinquenta milhões de vezes, choro em todas e não me canso. E ainda é com a maravilhosa Alice Braga (veja o trailer aqui).

Esse nariz de cera é só para vocês saberem de onde eu parto. Eu não sou uma julgadora imparcial (desculpa te desapontar, mas ninguém é). Realmente gosto da obra de Antonio Prata e comprarei quantos livros ele lançar.

Nu, de Botas ainda tem um apelo incrível para mim: são histórias curtinhas sobre a infância de Prata, misturando ficção com lembranças autobiográficas. O humor está sempre presente, e é impossível não dar gargalhadas com algumas passagens.

Antonio Prata nasceu em 1977. Eu, dois anos mais tarde. Isso significa que nós víamos os mesmos programas de televisão (a crônica sobre o Bozo é das melhores do livro), tínhamos os mesmos brinquedos e somos pré-ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), o que não necessariamente é bom, mas tem influência no modo como vivíamos. Em Blowing in the wind, por exemplo, ele descreve a posição em que viajava de carro – “deitado no banco de trás, com as pernas esticadas por cima do encosto e a cabeça pendendo entre os bancos da frente, próxima ao freio de mão”. Impensável hoje em dia. Esta crônica, aliás, me trouxe uma certa frustração, porque já foi publicada antes – não consigo me lembrar onde e nem quando – enquanto as demais, pra mim, parecem inéditas.

Mas não é nada que manche a obra. Ela vai diminuindo o ritmo em direção ao final, fica menos engraçada, mas ainda é uma melhora impressionante em relação a Douglas e outras histórias, de 2001, quando o autor por vezes recorreu ao humor óbvio, quase escatológico, a fim de arrancar risadas – ou só a simpatia – do leitor.

Antonio Prata só melhora. O vendedor me disse que o livro bombou no Natal, e ele estava lá, na prateleira dos mais vendidos, com sua vitrolinha e o disquinho colorido da capa. Merece. Recomendo sem pestanejar.

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Meu livro feminista favorito

Leio sobre feminismo freneticamente. Blogs, artigos, livros. Sempre falo como entender teoria feminista foi libertador para mim. Como indivíduo, como  ser autônomo, como cidadã e, claro, como mulher.

Evidente que estudar teoria não é indispensável para todo mundo. Para mim, está sendo. Faço pós graduação em gênero e sexualidade, e os assuntos se confundem, se misturam, se complementam. Isso é muito excitante; me dá vontade de estudar mais e mais.

Participar de eventos, conversar com amigas militantes, trocar ideias no Twitter, tudo isso também faz parte do crescimento extraordinário que estou vivenciando.

E, na busca de novos livros, de novos pontos de vista, eu sempre fico pensando: qual o livro feminista mais marcante para mim?

Como escolher?

Como escolher?

É incrível que existam tantos livros escritos por mulheres e para mulheres sem ser com aquelas diquinhas bobas. A literatura, assim como acontece com muitas áreas do conhecimento, é eminentemente masculina. Ter autoras que contestam o status social, abalando estruturas, é formidável.

Mas é claro que há ideias com as quais não concordo e estilos que não me agradam. No Brasil, temos outro problema sério: poucas obras em português. Há muito trabalho presencial e acadêmico sendo feito por aqui, mas entendo que a linguagem utilizada por vezes é difícil para quem não está familiarizado com os termos. Para ser bem honesta, acho academicismos chatérrimos (e estou tentando escrever sobre feminismo de forma menos sisuda, explicando sempre os termos tão comuns entre militantes, mas pouco conhecidos pelo grande público).

Levando em conta tudo isso, meu livro favorito é O Segundo Sexo, da Simone de Beauvoir. Meio lugar comum, né?

Nem tanto.

A obra sequer aparece entre os dez mais nas listas de “melhores livros feministas” de publicações especializadas. Talvez porque muitas dessas publicações são de língua inglesa – e Beauvoir escrevia em francês. Claro que há traduções, mas vejo essa preferência por livros originalmente editados em inglês.

Faço questão de ir conhecendo as obras que aparecem nessas tais listas, mas nenhum dos livros chegou aos pés nem mesmo da introdução de O Segundo Sexo. 

Publicado em 1949, o livro traz muitas questões contemporâneas. Acho que porque Beauvoir era genial, mesmo, e porque ainda estamos muito atrasados no que se refere à igualdade de gênero.

É da autora francesa a famosa frase “não se nasce mulher, torna-se mulher”, que em poucas palavras resume a dificuldade em identificar-se como mulher numa sociedade machista.

O livro é enorme e pode desanimar alguns leitores. O bom é que dá para ir lendo aos poucos. Cada capítulo traz pensamentos sobre áreas que se interseccionam, mas é possível ir percorrendo-os quase de maneira independente.

Simone de Beauvoir faz análise sobre biologia, história, sexualidade, maternidade, casamento, amor, velhice. Nem sempre a linguagem é simples, mas cada parágrafo jorra conhecimento com palavras fortes e empoderadoras.

Infelizmente o livro está esgotadíssimo, sendo possível comprá-lo por preços em geral amargos na Estante Virtual. Também está disponível para download na internet (atenção, são dois volumes!). A Fabiane Lima (@fabianelima) imprimiu e falou que saiu por um bom valor, caso você não curta ler no computador.

Eu havia lido online, mas como tenho apego a livros de papel, comprei uma versão em inglês. Rabisquei tudo e utilizo ideias e citações para tudo: na minha prova da pós, há dez dias, usei pensamentos de Beauvoir em duas das três questões. Esse é o meu nível de amor por essa linda.

simone de beauvoir 2

Claro que cada um vai se identificar mais com um tipo de livro, dependendo da própria bagagem, estilo, inquietações, classe social. bell hooks, por exemplo, fala bastante do papel da mulher negra, enquanto Naomi Wolf, no clássico O Mito da Beleza, analisa a pressão pela aparência. Jessica Valenti é uma leitura mais fácil, menos analítica, com ótimas observações sobre mídia e sobre cultura do estupro.

Recomendo todas, mas acredito que se há um livro que possa dar um panorama geral (mas não superficial) sobre a mulher, contextualizando historica e sociologicamente, esse livro é O Segundo Sexo.

***

Perguntei no Facebook quais livros feministas eram os favoritos da galera (aproveita e diz lá qual o seu). As respostas foram:

- O Segundo Sexo;

- Um teto todo seu, da Virginia Woolf;

- Como ser mulher, da Caitlin Moran;

- Fogo, da Anaïs Nin;

- Feminist theory: from margin to center, da bell hooks;

- O mito da Beleza; da Naomi Wolf;

- A dominação masculina, do Bourdieu;

- O Complexo de Cinderela, de Colette Dowling;

- A mulher no terceiro milênio, da Rose Marie Muraro;

- Mrs. Dalloway, da Virginia Woolf.

E o pessoal continua respondendo lá. :)

Gostaria de dizer que eu não conheço parte desses livros, então estou apenas repassando a informação. Vários estão disponíveis online. 

Livro: “A culpa é das estrelas”

Estou lendo compulsivamente. Mesmo. A maior parte do meu tempo se volta para textos feministas, e por isso mesmo quero “dar uma respirada” e buscar  obras sobre outras coisas.

Foi assim que cheguei ao A culpa é das estrelas, de John Green. Ele figura na lista dos mais vendidos, uma grande amiga adorou, há diversas postagens no tumblr a respeito dele.

a culpa é das estrelas de john green

Foto de Melina Souza (http://melinasouza.com/)

Sabia que a obra é voltada a jovens adultos, então imaginava mais ou menos como seria a fluidez do texto. Não tenho nada contra coisas feitas para adolescentes: assisto (e adoro) Awkward. e My Mad Fat Diary.

A história é a seguinte (e não vou dar spoiler, não se preocupem): uma adolescente chamada Hazel conhece Augustus. Ambos têm câncer e se encontram num grupo de apoio. Ela, claro, é boba, desajeitada e insegura. Ele, engraçado, divertido e seguro (claro). E eles se apaixonam – claro.

Até aí, ok, livros de amor são assim mesmo, apesar de já estar cansada de tantas mocinhas pobres, indefesas e à espera de um homem salvador que as tirará do buraco.

Logo no final do primeiro capítulo, Hazel decide ir à casa de Gus (Augustus) para assistir um filme, apesar de não conhecê-lo. Ela pega carona com ele após a reunião do grupo de apoio.

Pra mim, o problema começa aí.

Eis a narrativa:

Eu deveria estar nervosa – sentada no carro de um estranho, indo para a casa dele, perfeitamente ciente do fato de que meus pulmões de araque iriam dificultar quaisquer esforços para evitar avanços indesejados.

Eu vivo no mundo real (mais do que eu gostaria) e eu sei que mulheres temem pegar carona com estranhos. Porém, não me parece nada razoável que um livro voltado para adolescentes normatize isso.

Entendo que a ficção – e, infelizmente, obras baseadas em fatos reais também – deve ter personagens falhos. Joseph Campbell, na conhecidíssima jornada do herói, mostra muito bem como o herói/heroína precisam ter um quê de defeito, porque só assim eles se tornam humanos. Se forem perfeitos, o leitor/espectador não consegue se identificar com eles.

Da mesma forma, não sou contrária ao uso de personagens que estão beeeeeem distantes da perfeição, como vilões sanguinários e sem caráter.  No entanto, o A culpa é das estrelas não tem essa pegada. Pelo contrário. É visto como um livro fofo, de amor, de companheirismo.

Portanto, normatizar a cultura do estupro dessa maneira é no mínimo irresponsável (não, ele não a estupra).

Logo depois dessa carona cheia de medo, Hazel chega à casa de Gus e pensa: “talvez ele levasse uma garota nova todas as noites para ver um filme e se aproveitar dela”.

Cultura do estupro de novo. De novo. “Se aproveitar dela.”

Notem que a narradora é Hazel, e John Green transforma a personagem numa moça tão insegura quanto Anastasia, de Cinquenta Tons. O que há com as pessoas para insistirem em ler e se identificar com narrativas em que a mulher não tem força e é salva por um marmanjo?

Gus e Hazel começam a assistir V de Vingança. Ao final, ele pergunta o que ela havia achado do filme.

A resposta:

Sério. Era um filme do tipo que só agrada garotos. Não sei por que os meninos esperam que gostemos desses filmes. Nós, meninas, não temos expectativa nenhuma de que eles gostem dos nossos tipos de filme.

E isso tudo antes do fim do segundo capítulo. Simplesmente desisti. Como aguentar esse festival de estereótipos até o final? Além da caracterização clichê dos personagens, ainda rola essa separação entre “coisas de menino” e “coisas de menina”?

A culpa é das estrelas é extremamente bem sucedido no mercado. Vai até virar filme. Ótimo pro autor. Mas e pra nós, que continuamos consumindo narrativas que imbecilizam mulheres e normatizam a cultura do estupro?

***

UPDATE 

Falaram que eu devia acabar de ler o livro, porque só assim eu teria condições de realmente analisá-lo (como se quando você dissesse “putz, não gostei dessa nova música da banda X” você conhecesse a fundo o trabalho dela ou tivesse alguma formação na área). Então vou fazer isso. Gostaria de avisá-los, contudo, que não tenho qualquer especialização em crítica literária, então não adianta desqualificarem minha opinião baseando-se nisso.

Minhas sinapses nervosas funcionam perfeitamente e eu analiso criticamente a mídia, em especial quando se trata de sexismo. Portanto, sou completamente capaz de entender as mensagens que recebo, seja pela capa de revista, seja por um livro, seja num filme. A minha opinião e a minha percepção não são lei universal. Assim sendo, você pode ter a sua. Inclusive espero que você tenha a sua.

Aviso de antemão que os trechos abaixo são retirados literalmente da obra de John Green, e, como tentarei ler até o final, poderão conter spoilers.

O post será atualizado ao longo da leitura.

“”Eu tinha me sentado na beira da cama desarrumada dele. Não queria me insinuar, nem nada; é q me canso um pouco toda vez q fico muito tempo de pé.” – Hazel justificando que precisou SENTAR, mesmo ostentando um balão de oxigênio.

“Pensei em contar pra ela que estava saindo com um garoto também, ou pelo menos que tinha assistido a um filme com ele, só porque sabia que o fato de alguém como eu, tão descuidada da aparência, dos bons modos e baixinha, poder, mesmo que por um breve momento, despertar o interesse de um garoto causaria surpresa e espanto na Kaitlyn.” – Hazel, realmente super segura.

“Depois pegou um par de sapatos altíssimos, com várias tiras, à la prostituta.” – Hazel falando sobre um sapato que a amiga experimentou. Porque, claro, existem roupas “de prostituta”, “de periguete”, de “mulher que se dá ao respeito”…

(e isso tudo acima, mais o que está no post, acontece só nos três primeiros capítulos do livro…)

Trocando a capa

A autora Maureen Johnson escreveu um excelente texto sobre mulheres e literatura. Infelizmente é em inglês e um pouco longo, mas eu recomendo demais a leitura.

Ela conta como vê o papel da mulher no mundo literário. A crítica ao baixo número de autoras e à escolha de autores homens nas aulas de literatura são recorrentes no meio feminista.

Livros escritos por mulheres são vistos como vazios, frívolos, bobos. Maureen diz que até as capas são diferentes, dependendo do gênero do autor*.

Ela então propôs aos seguidores no Twitter que eles criassem capas diferentes para livros. Se o autor fosse homem, deveriam criar uma capa “feminina” (mil aspas pra esse papel de gênero ridículo). E vice versa.

O resultado é meio assustador, de tão real e certeiro.

Vejam alguns exemplos:

Vocês podem ver outros exemplos aqui no Huffington Post.

*sim, eu faço um mea culpa sobre a capa do meu próprio livro. nunca escondi isso de ninguém. comprem bastante que é para fazermos uma segunda edição e eu mudar isso. 

 

Você tem medo do quê?

Estou lendo Faça acontecer, da Sheryl Sandberg, chefe de operações do Facebook. Quando acabar eu escrevo sobre o livro. Por enquanto, vale muito ver essa palestra dela no TED – até já coloquei no Cem Homens, mas ela é tão boa que vale repetir. O livro vai no mesmo caminho, usando inclusive algumas das histórias que ela conta no vídeo.

Eu não estou me identificando super com o livro (estou na metade), até porque ela fala mais com mulheres que são casadas, têm ou querem ter filhos, fazem carreira no mundo corporativo.

É bem diferente de quem sou hoje: solteira, sem filhos e free lancer.

No primeiro capítulo, porém, Sandberg traz questionamentos que, aposto, muitas de nós conseguimos nos identificar. O título é “o abismo nas ambições de liderança: o que você faria se não tivesse medo?”.

A autora discorre sobre histórias de família e mostra estatísticas sobre a participação de homens e mulheres nas empresas e na economia familiar. Ela traz teorias sobre a quantidade de mulheres líderes – e não vou contar pra vocês quais conclusões ela chegou, se não eu basicamente estaria contando o livro todo.

Ainda que ela esteja falando de carreira no sentido mais formal, Sheryl aponta o que vemos acontecendo em muitas áreas: “o canal que abastece o mercado de trabalho qualificado está entupido de mulheres no nível da entrada, mas, quando esse mesmo canal abastece as posições de chefia, há um predomínio esmagador de homens”.

Segundo a autora,um dos motivos para isso é o que ela chama de “abismo na ambição de liderança”.

“A ambição profissional é algo esperado para os homens, mas opcional – ou, pior, às vezes até algo negativo – para as mulheres. “Ela é muito ambiciosa” não é um elogio em nossa cultura. Mulheres agressivas e que jogam duro transgridem regras tácitas da conduta social aceitável. Os homens são constantemente aplaudidos por ser ambiciosos, poderosos, bem sucedidos, ao passo que as mulheres com as mesmas características costumam pagar um preço social por isso. As realizações femininas custam caro.”

Muitas de nós não queremos pagar esse preço social. Se a gente foge desse papel de gênero da mulher dócil e maternal, a possibilidade de não gostarem da gente é bem grande. Talvez se a nossa autoestima não estivesse no outro poderia ser fácil dizer “ah, manda todo mundo pra muito longe”.

Infelizmente não é assim, e somos tão colocadas à prova o tempo todo que ficamos com aquela sensação horrível de que a qualquer momento seremos descobertas. Saberão que somos fraude.

Eu não sei você aí que está me lendo, mas isso é tão constante na minha vida que não sei nem precisar quando começou. Terá sido ainda no colégio, quando escolhiam minha redação como a melhor da turma e eu queria me esconder embaixo da mesa?

Repito esse comportamento o tempo todo. Recentemente fui entrevistada para um programa de televisão. Fiquei feliz de ser convidada. Tudo ia bem, com alguns receios, acredito que óbvios quando sua vida não é aparecer em vídeo.

Porém, quando foi chegando a hora da gravação e eu vi o estúdio sendo arrumado, eu quis sair correndo. Literalmente. De salto alto e tudo. Cheguei a pensar, durante alguns momentos, em como seria abrir a porta do camarim e simplesmente desaparecer.

Durante entrevistas eu costumo ficar calma. Tenho confiança no que estou falando e sei qual meu lugar ali. A cada momento de distração, porém, vinha o pânico que Sheryl Sandberg chama de “síndrome do impostor”.

O que eu estou fazendo aqui?

Por que essas pessoas estão me entrevistando?

Vão cortar essa resposta, lógico, porque foi ridícula!

Meu deus, eu sabia que iam perguntar isso, pelamordedeus alguém me tira daqui.

E, de novo, quis me esconder embaixo da mesa all over again.

A grande merda é que dessa vez a mesa era transparente, então não tinha como.

Meu pânico era tão grande que, ao final, escrevi na dedicatória do meu livro “estou aterrorizada, mas acho que essa parte já ficou óbvia”.

Uma amiga, sabendo de tudo, disse que achava legal que eu, apesar do medo, ia em frente. Não é totalmente verdade. Tenho projetos e mais projetos não engavetados, mas não também expostos pro mundo, por puro medo de não dar certo. Claro que às vezes há muita grana envolvida, ou precisamos sustentar a família. Fica mais difícil mesmo ir em frente.

Mas, e no meu caso (e, talvez, no seu), por qual razão eu posso me sentir tão aterrorizada se absolutamente ninguém depende de mim?

Como posso achar que sou uma fraude, que esse blog é uma idiotice, que meus textos (profissionais mesmo) são um equívoco, que meu livro é uma merda, que quem me entrevista na verdade está é sem nenhuma fonte e eu fui a última que ele procurou num momento de desespero?

Como? 

De um lado da balança, a culpa por ter ambição de liderança; do outro, a síndrome do impostor.

No meio, eu, meio que me segurando sei lá onde, buscando respostas que nunca irão chegar, querendo me esconder embaixo de mesas reais e imaginárias.

Sheryl Sandberg pergunta: o que você faria se não tivesse medo? Diz que ela escreveria o Faça acontecer, como de fato o fez. E você? O que você faria?

Chegue mais perto do feminismo

Ando lendo vários livros feministas. A intenção é resenhar todos eles aqui no blog. Falta tempo e foco. O último que comecei é o Feminism is for everybody, da bell hooks. Ainda não cheguei à metade, então não posso dizer se indico ou não.

Porém, a introdução é tão perfeita e tão linda que eu faço questão de traduzir e compartilhar com vocês. Fiquei realmente emocionada durante a leitura. Espero que gostem.

fem-everybody

Chegue mais perto do feminismo

Em todos os lugares que vou eu digo orgulhosa, a quem pergunta, que eu sou escritora, teórica feminista e crítica cultural. Digo que escrevo sobre filmes e cultura popular, analisando a mensagem no meio. A maior parte das pessoas acha isso excitante e quer saber mais.

Todo mundo vai ao cinema, vê televisão, lê revistas, e todo mundo pensa sobre as mensagem recebidas e imagens vistas. Eu encontro com pessoas diversas, e elas compreendem facilmente o que faço como crítica cultural e minha paixão por escrever (muitas dessas pessoas também querem escrever – e algumas o fazem).

Mas teoria feminista… este é o ponto em que o interesse acaba. Pelo contrário: eu acabo ouvindo sobre o sobre como feminismo não presta e sobre as feministas más; como “elas” odeiam os homens; como “elas” querem ir contra a natureza – e contra deus; como “elas” são todas lésbicas; como “elas” estão tomando todos os empregos e tornando o mundo um lugar difícil para os homens brancos, que não têm mais chance.

Quando eu pergunto a essas mesmas pessoas sobre os livros ou revistas feministas que elas leem; quando eu as questiono sobre as palestras feministas que elas já escutaram; ou sobre ativistas feministas que elas conhecem; elas respondem de um jeito que deixa claro que tudo o que elas sabem sobre feminismo chegou até elas de maneira indireta. Percebo que elas não se aproximaram do movimento feminista para saber o que realmente acontece, qual é de fato a luta.

Basicamente elas pensam que feminismo é um monte de mulher raivosa querendo ser como os homens. Elas sequer pensam que o feminismo trata de direitos das mulheres. Quando eu falo sobre o feminismo que eu conheço – bem de perto – elas ouvem, mas quando a conversa acaba, dizem rapidamente que eu sou diferente, que não sou como as feministas “de verdade” que odeiam homens, que são raivosas.

Eu reitero que sou tão real e tão radical quanto uma feminista pode ser, e os desafio a chegar mais perto do feminismo para perceber que é muito diferente do que elas imaginam.

(…)

Eu quis que essas pessoas tivessem uma resposta à pergunta “o que é feminismo?” que não se baseasse nem no medo e nem na fantasia. Queria que elas tivessem essa simples definição para ler de novo e mais uma vez: “Feminismo é um movimento para acabar com o sexismo, com a exploração sexista, e com a opressão”. Eu amo essa definição, usada pela primeira vez há mais de dez anos no meu livro Feminist Theory: From Margin to Center. Eu a adoro porque ela diz claramente que o movimento não é anti-homem. Ela deixa claro que o problema é o sexismo.

bell hooks 1

E essa clareza nos faz lembrar que todos nós, mulheres e homens, fomos condicionados socialmente desde o berço para aceitarmos pensamentos e ações sexistas. Como consequência, mulheres podem ser tão sexistas quanto os homens.

Mesmo que isso não justifique a dominação masculina, isso significa que seria ingênuo e errôneo as feministas verem o movimento simplesmente como sendo mulheres contra homens. Para acabar com o patriarcado (outro jeito de nomear o sexismo institucionalizado), nós precisamos ser claros de que todos nós somos sujeitos na perpetuação do sexismo até que mudemos nossas mentes e corações; até que nós deixemos de lado nossos pensamentos e ações sexistas e coloquemos no lugar pensamentos e ações feministas.

Os homens, como um grupo, se beneficiam mais do patriarcado, em razão da ideia de que eles são superiores às mulheres e por isso devem mandar em nós. Mas esses benefícios têm um preço. Em troca de tudo de bom que eles recebem do patriarcado, eles são obrigados a dominar as mulheres, explorar e oprimir, usando violência se eles quiserem manter o patriarcado intacto.

Muitos homens acham difícil se enquadrar nesse sistema. Muitos homens se incomodam com a raiva e o medo das mulheres, pela violência dos homens contras as mulheres, mesmo os homens que cometem tais violências. Mas eles temem perder seus benefícios.

Eles não estão certos sobre o que acontecerá no mundo que eles conhecem intimamente se o patriarcado acabar. Então eles preferem apoiar passivamente a dominação masculina mesmo sabendo em suas mentes e corações que isso é errado.

O tempo todo homens me dizem que não têm a menor ideia do que as feministas querem. Eu acredito neles. Eu acredito na capacidade deles de mudar e crescer. Também acredito que se eles soubessem mais a respeito do feminismo, eles não mais o temeriam, pois veriam no movimento a esperança de também se libertarem da pressão patriarcal.

(…)

Sem esse livro, não há como “falar” com o grande número de pessoas que são diariamente bombardeadas com o backlash antifeminista, pessoas a quem se ensina a odiar e a resistir a um movimento que eles conhecem tão pouco.

Deveriam existir um monte de panfletos e livros feministas fáceis de ler, nos mostrando tudo sobre feminismo. Meu livro seria só mais uma voz apaixonada falando a respeito. Deveriam existir outdoors, anúncios em revistas, em ônibus, metrôs, trens; comerciais de televisão espalhando a verdade, fazendo com que o mundo nos conheça melhor. Nós não estamos lá ainda.

Mas é isso que nós devemos fazer para espalhar o feminismo, para deixar o movimento entrar na cabeça e no coração de todo mundo. A mudança feminista já tocou nossas vidas de um jeito positivo. Ainda assim, nós perdemos isso de vista quando tudo o que ouvimos sobre ele é negativo.

(…)

Imagine viver num mundo onde não ha dominação, onde homens e mulheres não são parecidos ou mesmo sempre iguais, mas em que há uma interação mútua. Imagine viver num mundo onde cada um pode ser quem é, um mundo de paz e possibilidades.

A revolução feminista sozinha não vai criar esse mundo; precisamos acabar com o racismo, o elitismo de classes, o imperialismo. Mas ela tornará possível que sejamos homens e mulheres capazes de criar uma comunidade de companheirismo, de vivermos juntos, realizando nossos sonhos de liberdade e justiça, vivendo a verdade de que todos “fomos criados igualmente”.

Chegue mais perto. Veja como o feminismo pode tocar e mudar sua vida e a de todas nós. Chegue mais perto e veja direto da fonte sobre o que o feminismo trata. Chegue mais perto e você verá: feminismo é para todo mundo.

***

Por falar nisso, criei um ask.fm para perguntas sobre feminismo.

Se quiser perguntar algo, clique aqui. Algumas perguntas virarão post na seção “feminismo para principiantes” aqui do blog.

Os 100 melhores livros feministas

A notícia é um pouco velha, mas só fucei agora. Há um ano a revista Ms fez uma lista dos melhores livros feministas. Infelizmente grande parte não existe em português, mas quem lê em inglês já consegue comprar vários em formato e-book. (UPDATE: Aqui tem mais uma lista, dessa vez com 50 livros feministas. Claro que há livros que aparecem nas duas.)

Ah! Claro que nessa lista faltam títulos que nunca foram lançados em inglês – a Ms é uma revista americana.

1. Feminism is For Everybody: Passionate Politics, de bell hooks

Tem por encomenda na Cultura (R$ 39,50). Na Amazon sai por US$ 10.88, e aparentemente não tem em formato digital.

 

2. Cunt: A Declaration of Independence, de Inga Muscio

Uma leitora aqui do blog já leu e disse que é ótimo. Até pedi pra minha amiga Larissa comprar lá nos EUA, mas não tinha onde ela procurou. Irei encomendar com certeza!

É, encomendar, porque não tem no Brasil. Pela Cultura sai por R$ 42,20 e na Amazon (YAY) tem versão para o kindle por US$ 9.66. (aliás, alguém me dá um kindle?)

Eu nem tenho esse livro e já amo: o prefácio é da Betty Dodson, a mesma mulher incrível que desenhou o desenho que tatuei semana passada!

3. Sister Outsider: Essays and Speeches, de Audre Lorde

Pra variar, nada de versão em português. Só em inglês, comprando por encomenda na Cultura (R$ 48). Versão Kindle por US$ 10.97.

4. A Room of One’s Own, de Virginia Woolf

Eu procurei aqui na internet se tem versão em português, mas não achei. Se alguém souber o nome da tradução, por favor me avise. Eu espero que tenha, porque o livro é de 1928!!! Nele, Virginia Woolf analisa o papel da mulher na literatura – àquela época, mulheres escritoras eram raridade. É, pois é.

A boa notícia é que é fácil encontrar o original. Essa edição da Penguin, por exemplo, sai a R$ 18 na Saraiva. Tem versão digital na Cultura por R$ 13,63! Como o livro é bem antigo, pode ser que você encontre algum pdf perdido na internet.

UPDATE: a bela Elza (@elzadume) me falou o nome em português. É Um teto todo seu, infelizmente esgotado. Mas você pode ler em pdf! Aqui tem um link.

5. Nickel and Dimed, de Barbara Ehrenreich

A autora tem vários livros em português, mas acho que este ainda não foi traduzido. Como ele fala da economia norteamericana, não sei se é muito interessante para nós. Talvez eu preferisse algum dos outros livros da lista; de qualquer forma, isso depende muito de que área do feminismo você quer estudar.

O livro em inglês pode ser comprado por encomenda na Cultura. Custa R$ 42,40.

6. Backlash: o Contra-Ataque na Guerra Não Declarada às Mulheres, de Susan Faludi

Faça uma dancinha! \o/

Tem edição em português, FINALMENTE!!!

O bizarro é que tem livraria vendendo a menos de R$ 10 e outras por mais de R$ 50. Eu até tentei comprar agora pela Cia dos Livros (porque está R$ 8,42), mas deu erro direto. Achei estranho. Dá uma procurada na sua livraria favorita e de confiança. Na Saraiva e na  Cultura não tem (pelo menos não online).

7.Female Chauvinist Pigs: Women and the Rise of Raunch Culture, de Ariel Levy

Fiquei muito interessada nesse. Segundo a Ms, o livro “mostra os modos como as mulheres de hoje estão se transformando em objetos sexuais, e a autora não está impressionada. Ela mastiga o falso empoderamento baseado em auto-objetificação e oferece alternativas feministas”. Bacana, né?

A má notícia é que o livro não tem tradução para português. Na Cultura você pode escolher entre a versão digital por R$ 31,25 e a em papel por R$ 42,20 (por encomenda, com prazo de importação de seis semanas). Se você tem um Kindle, melhor baixar da Amazon por US$ 9.24.

 8. Ain’t I a Woman: Black Women and Feminism, de bell hooks

A autoria é a mesma do livro número 1, notaram? Infelizmente não tem em português – e na verdade nem tem à venda no Brasil, pelo menos não nas maiores livrarias. A obra trata das mulheres negras e o feminismo, questão muito importante. Por aqui temos o mesmo problema: há diversas críticas aos coletivos feministas como sendo voltados para as mulheres brancas. Não sei se a crítica é válida, só sei que ela acontece.

Bom, o jeito é importar. Na Amazon, o livro sai por US$ 24.92.

9. Feminist Theory: From Margin to Center, de bell hooks

Olha bell hooks aí de novo, gente! Fiquei bem interessada – é legal ter um livro de teoria feminista olhando para o século XXI (a obra é de 2000). Infelizmente só é possível comprar via importação. Na Cultura, o livro custa R$ 57,70. Na Amazon, US$ 22.

10. The Purity Myth: How America’s Obsession with Virginity is Hurting Young Women, de Jessica Valenti

A autora tem outros livros feministas que me interessam há tempos, como o Full Frontal Feminism (13º na lista da Ms), o Yes Means Yes (11º) e o He’s a stud, she’s a slut. Ainda nem li e Jessica Valenti já é das minhas autoras feministas favoritas, porque ela trata de coisas de hoje. O décimo lugar na lista, então, é exatamente sobre o que eu estudo: O mito da pureza – como a obsessão americana com a virgindade está machucando jovens mulheres.

Pra variar a obra tem que ser encomendada. Sai por R$ 47,90 na Cultura. Quem tem Kindle se dá bem: versão digital sai por US$ 9.99 na Amazon.

***

Estes são os 10 mais.

Incrível como estamos atrasados na produção sobre feminismo, né? Há muitos blogs e muita gente traduzindo textos gringos, mas, pelo que sei, há pouquíssima produção nacional. Uma pena. Pior: esses livros sequer têm versões em português.

Mas na lista há livros que sim, eba!, são encontrados em português, como O Segundo Sexo (12º lugar), da Simone de Beauvoir. O que é chatíssimo é que o livro está esgotado há tempos. Você consegue encontrar em sebos, quase sempre com preços abusivos.

Eu não trago só más notícias! Aqui você encontra ele em pdf pra ler no computador ou imprimir. Outras obras bem conhecidas por aqui que também têm versões em português são Os Monólogos da Vagina, de Eve Ensler (17º), e O mito da beleza, de Naomi Wolf (19º).

O resto da lista você encontra aqui. Eu vou fazer uma listinha de “quero muito”. E se você já leu algum desses livros (ou outros que não estão na lista), que tal compartilhar com a gente? :)

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Os links da Saraiva e da Cultura acima são do programa de afiliados. Assim, caso vocês comprem livros por meio desses links eu ganho uma porcentagem da venda (bem pequena, mas né?). Não foi por isso que escolhi as duas livrarias, porém. Eu realmente compro em ambas e confio no sistema de entrega. Também busquei os menores preços de todos os livros e indiquei quando achei mais barato.

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Por falar em livro, outubro começa amanhã e é o mês que irei lançar o MEU livro. Ai, ai, que ansiedade/nervoso/vontade de morrer/vergonha/etc/etc/etc. Se você tem interesse num evento de lançamento em São Paulo, por favor indique nos comentários sua vontade  e o e-mail pelo qual eu consigo entrar em contato com você. Também vale me mandar uma mensagem em cemmaisum@gmail.com (quem já entrou em contato, inclusive pelo Facebook, não precisa reconfirmar).

Cinquenta tons de backlash

ATENÇÂO: Se você ainda não leu Cinquenta Tons de Cinza e pretende fazê-lo, pule este post. O texto tem spoiler.

Eu não li Cinquenta Tons de Cinza. E nem lerei. Não tenho tempo ou dinheiro para gastar. Em geral não curto literatura erótica; mesmo assim acho que existem obras bem bacanas que me acrescentariam muito mais, se eu quisesse enveredar pelo tema (Anaïs Nin e Catherine Millet são exemplos).

No início achei que a trilogia fosse apenas equivocada. Com a chegada da obra ao Brasil e com o boom nas vendas, a imprensa começou a falar muito sobre a história de Anastasia e Christian. E aí algo começou a me incomodar: passaram a falar como se TODA mulher quisesse um relacionamento daquele, como se qualquer mulher no universo quisesse, na verdade, ser submissa.

Só que não existe “todo mundo” quando se fala sobre sexo (no início do blog eu generalizava demais e era criticada. Hoje sei como isso era danoso). Eu, Letícia, não tenho qualquer tesão em sentir dor ou em alguém mandando em mim. Tampouco tenho vergonha de abrir um livro erótico na frente de qualquer um. Leio no ônibus, no café, onde for. Então não, nem toda mulher se enquadra nisso aí.

Minha antipatia não ultrapassava a questão da generalização feita pela imprensa. Até eu entender mais sobre o livro, mesmo que, juro, eu não tenha procurado informações. Daí bateu o desespero.

Pra ser bem objetiva, coloco em tópicos a razão do meu descontentamento com Cinquenta Tons de Cinza e o motivo pelo qual eu acho que é um retrocesso:

1) Anastasia é virgem e boboca. Christian é sedutor e milionário. Daí eles se encontram e, em tese, se apaixonam. Ok. Contos de fadas da Disney all over again? Vamos mesmo incutir na cabeça das mulheres que ela pode ser ~esquisita~ e que vai vir um homem e vai salvá-la?

Ou vamos mostrar que tudo bem ela ser esquisita e que tudo bem ela ser solteira? E esse homem que é o príncipe encantado precisa ser milionário? Ou ela pode ganhar o dinheiro dela… com o trabalho dela?

2) Mesmo virgem e sem qualquer experiência sexual (me corrijam se eu estiver errada, mas ela sequer se masturbava), ela aceita entrar numa relação de BDSM. E na primeira vez que transa, goza sei lá quantas mil vezes e continua gozando em todas as relações com Christian.

Bom, já escrevi mil textos sobre a primeira vez e em todos eu digo que não há regra; que há quem se divirta muito e há quem odeie com todas as forças. Então Anastasia poderia, sim, ter gozado. Mas todas as vezes?

Esse discurso faz com que as mulheres se sintam culpadas por não atingirem o orgasmo vaginal. “Será que há algo de errado comigo?”, elas perguntam. Muitas não sabem nem se gozaram, e está lá uma ficção distribuindo orgasmos. Não, não e não.

3) Christian Grey quer que Anastasia assine um contrato para que eles tenham uma relação BDSM. Risos. Risos. Risos. Contrato de papel, gente! Pra transar!!!! Pra uma pessoa ser DONA do seu corpo!!!

Mais louco ainda é que Anastasia NÃO assina. E eles têm a tal relação BDSM. Ah, uma dicona: contratos em que você dispõe do seu corpo não têm qualquer valor jurídico.

4) Uma relação BDSM (o que popularmente se conhece como “sadomasoquista”) deve dar prazer aos participantes e deve ser sempre, sempre, sempre consensual. Mesmo que você aí não consiga entender como alguém pode curtir ser amarrado, usar coleira e outras práticas, há muita gente que curte. E isso não tem nada a ver com traumas passados ou algum tipo de doença mental.

Pois imagine (e agora vem um spoiler, se liga!) que Christian Grey teve uma infância mega difícil. É filho de uma prostituta que se suicidou, sofreu abusos e por isso mesmo não deixa Anastasia tocá-lo.

Hã? As pessoas já têm tanto preconceito contra quem pratica o BDSM e aí vem uma autora X e estereotipa mais uma vez??? Errado, muito errado.

5) A relação entre Christian e Anastasia é abusiva. Ponto. Não há o que discutir aqui e fico muito, muito impressionada que algumas pessoas não enxerguem isso. Pior: tem muita mulher sonhando com um Christian Grey.

Uma relação abusiva não é só aquela em que existe violência física fora do quarto, tampouco precisa ficar óbvia a dominação de um dos parceiros (se bem que Grey deixa beeeeeeeeeem óbvio que manda em Anastasia).

Se você se submete aos desejos do parceiro (que a essa altura nem sei se pode ser chamado de “parceiro”) para que ele não vá embora, mesmo que você não esteja curtindo, ISSO É UMA RELAÇÃO ABUSIVA.

Porque uma relação saudável e de parceria pressupõe que ambos (ou mais) estejam no mesmo patamar, que sejam iguais. Não é o que acontece em Cinquenta Tons. O primeiro livro da trilogia, por exemplo, acaba quando Christian chicoteia Anastasia, que fica chateada e termina o namoro.

Claro que no segundo livro eles voltam, e ela diz que ficar sem ele doeu mais do que a agressão física. Isso é exatamente o que se chama de “violência doméstica”. Uma das pessoas fisica e/ou emocionalmente superior ao outro bate no parceiro – que, “em nome do amor”, aceita aquela violência. Como é que vocês podem criticar a mulher que apanha do marido e depois aceita ele de volta, mas podem suspirar por Anastasia e Christian???

Pra vocês terem uma ideia da loucura, não sei em qual dos livros Christian compra a empresa em que Anastasia trabalha só para que ela não viaje com o chefe dela. Não está convencida ainda? Durante a lua de mel, Anastasia faz topless e Christian fica puto. Daí ele resolve que é uma boa ideia dar chupões fortíssimos nos seios dela, deixando-os marcados, para que ela não os mostre mais pra ninguém.

Numa boate, um cara apalpa a bunda de Anastasia e ela revida com um tapa. Por que ela se sentiu violentada? Não! Porque ela tinha medo da reação do Christian ao saber que alguém tinha “invadido a propriedade”.

Eis o trecho, em inglês, com minha tradução livre embaixo.

My hand is throbbing. I have never slapped anyone before. What possessed me? Touching me wasn’t the worst crime against humanity. Was it? Yet deep down I know why I hit him. It’s because I instinctively knew how Christan would react seeing some stranger pawing me. I knew he’d lose his precious self-control. And the thought that some stupid nobody could derail my husband, my love, well, it makes me mad. Really mad.

“Minha mão está latejando. Eu nunca bati em ninguém antes. O que aconteceu comigo? Me tocar não foi o pior crime contra a humanidade, não é? Mas no fundo eu sei o motivo pelo qual eu dei um tapa nele. É porque eu instintivamente sabia como o Christian reagiria ao ver um estranho me apalpando. Eu sabia que ele perderia seu tão precioso autocontrole. E pensar que um estranho poderia tirar dos trilhos o meu marido, meu amor, bem, isso me deixa louca. Muito louca.”

Christian também controla a alimentação de Anastasia. As roupas. A depilação. Ela não pode sequer se masturbar sem a permissão dele.

A cada novo detalhe sobre os livros eu fico ainda mais chocada. Fico também estupefata que as pessoas não consigam enxergar quão abusivo é esse relacionamento, e vejam tudo como se fosse apenas uma historinha de ficção. Não é.

Esta é a tecla que muitos de nós temos batido: esse tipo de obra faz com que achemos “normal” algumas coisas. Claro que não se deve proibir, censurar… mas questionar? Tentar entender porque tantas mulheres estão sonhando com Christian Grey?

Isso devemos fazer, sim. Devemos olhar para nossas próprias vidas e ver quantas vezes nós deixamos que abusassem de nós em nome de um “amor”, que na verdade é alimentado por autoestima abalada. Eu já passei por isso – quem acompanha o blog há mais tempo deve lembrar do número 15. Não chegou a ser uma relação (foi só uma noite), mas me submeter às vontades dele para ser querida/aceita me fez ficar mal durante semanas. Porque eu me dei conta da merda que eu tinha feito. Espero que não seja tarde demais pra você perceber que está fazendo merda também, pelo menos nos seus sonhos.

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Amanhã vou publicar o primeiro texto da Sheila Sens, amiga e leitora, que leu a trilogia só para escrever aqui. Vamos na ordem dos livros, claro.

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Se você acha que ~é só ficção~, leia esse texto da psicanalista Regina Navarro Lins sobre os contos de fadas. É de 2011 e eu compartilhei há alguns dias no Facebook. Por favor não ignorem o inconsciente.

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Ao final de cada texto da Sheila eu vou colocar alguns links sobre Cinquenta Tons para vocês repensarem. Hoje fiquem com o vídeo da linda Laci Green (em inglês).