Estou lendo compulsivamente. Mesmo. A maior parte do meu tempo se volta para textos feministas, e por isso mesmo quero “dar uma respirada” e buscar obras sobre outras coisas.
Foi assim que cheguei ao A culpa é das estrelas, de John Green. Ele figura na lista dos mais vendidos, uma grande amiga adorou, há diversas postagens no tumblr a respeito dele.
Sabia que a obra é voltada a jovens adultos, então imaginava mais ou menos como seria a fluidez do texto. Não tenho nada contra coisas feitas para adolescentes: assisto (e adoro) Awkward. e My Mad Fat Diary.
A história é a seguinte (e não vou dar spoiler, não se preocupem): uma adolescente chamada Hazel conhece Augustus. Ambos têm câncer e se encontram num grupo de apoio. Ela, claro, é boba, desajeitada e insegura. Ele, engraçado, divertido e seguro (claro). E eles se apaixonam – claro.
Até aí, ok, livros de amor são assim mesmo, apesar de já estar cansada de tantas mocinhas pobres, indefesas e à espera de um homem salvador que as tirará do buraco.
Logo no final do primeiro capítulo, Hazel decide ir à casa de Gus (Augustus) para assistir um filme, apesar de não conhecê-lo. Ela pega carona com ele após a reunião do grupo de apoio.
Pra mim, o problema começa aí.
Eis a narrativa:
Eu deveria estar nervosa – sentada no carro de um estranho, indo para a casa dele, perfeitamente ciente do fato de que meus pulmões de araque iriam dificultar quaisquer esforços para evitar avanços indesejados.
Eu vivo no mundo real (mais do que eu gostaria) e eu sei que mulheres temem pegar carona com estranhos. Porém, não me parece nada razoável que um livro voltado para adolescentes normatize isso.
Entendo que a ficção – e, infelizmente, obras baseadas em fatos reais também – deve ter personagens falhos. Joseph Campbell, na conhecidíssima jornada do herói, mostra muito bem como o herói/heroína precisam ter um quê de defeito, porque só assim eles se tornam humanos. Se forem perfeitos, o leitor/espectador não consegue se identificar com eles.
Da mesma forma, não sou contrária ao uso de personagens que estão beeeeeem distantes da perfeição, como vilões sanguinários e sem caráter. No entanto, o A culpa é das estrelas não tem essa pegada. Pelo contrário. É visto como um livro fofo, de amor, de companheirismo.
Portanto, normatizar a cultura do estupro dessa maneira é no mínimo irresponsável (não, ele não a estupra).
Logo depois dessa carona cheia de medo, Hazel chega à casa de Gus e pensa: “talvez ele levasse uma garota nova todas as noites para ver um filme e se aproveitar dela”.
Cultura do estupro de novo. De novo. “Se aproveitar dela.”
Notem que a narradora é Hazel, e John Green transforma a personagem numa moça tão insegura quanto Anastasia, de Cinquenta Tons. O que há com as pessoas para insistirem em ler e se identificar com narrativas em que a mulher não tem força e é salva por um marmanjo?
Gus e Hazel começam a assistir V de Vingança. Ao final, ele pergunta o que ela havia achado do filme.
A resposta:
Sério. Era um filme do tipo que só agrada garotos. Não sei por que os meninos esperam que gostemos desses filmes. Nós, meninas, não temos expectativa nenhuma de que eles gostem dos nossos tipos de filme.
E isso tudo antes do fim do segundo capítulo. Simplesmente desisti. Como aguentar esse festival de estereótipos até o final? Além da caracterização clichê dos personagens, ainda rola essa separação entre “coisas de menino” e “coisas de menina”?
A culpa é das estrelas é extremamente bem sucedido no mercado. Vai até virar filme. Ótimo pro autor. Mas e pra nós, que continuamos consumindo narrativas que imbecilizam mulheres e normatizam a cultura do estupro?
***
UPDATE
Falaram que eu devia acabar de ler o livro, porque só assim eu teria condições de realmente analisá-lo (como se quando você dissesse “putz, não gostei dessa nova música da banda X” você conhecesse a fundo o trabalho dela ou tivesse alguma formação na área). Então vou fazer isso. Gostaria de avisá-los, contudo, que não tenho qualquer especialização em crítica literária, então não adianta desqualificarem minha opinião baseando-se nisso.
Minhas sinapses nervosas funcionam perfeitamente e eu analiso criticamente a mídia, em especial quando se trata de sexismo. Portanto, sou completamente capaz de entender as mensagens que recebo, seja pela capa de revista, seja por um livro, seja num filme. A minha opinião e a minha percepção não são lei universal. Assim sendo, você pode ter a sua. Inclusive espero que você tenha a sua.
Aviso de antemão que os trechos abaixo são retirados literalmente da obra de John Green, e, como tentarei ler até o final, poderão conter spoilers.
O post será atualizado ao longo da leitura.
“”Eu tinha me sentado na beira da cama desarrumada dele. Não queria me insinuar, nem nada; é q me canso um pouco toda vez q fico muito tempo de pé.” – Hazel justificando que precisou SENTAR, mesmo ostentando um balão de oxigênio.
“Pensei em contar pra ela que estava saindo com um garoto também, ou pelo menos que tinha assistido a um filme com ele, só porque sabia que o fato de alguém como eu, tão descuidada da aparência, dos bons modos e baixinha, poder, mesmo que por um breve momento, despertar o interesse de um garoto causaria surpresa e espanto na Kaitlyn.” – Hazel, realmente super segura.
“Depois pegou um par de sapatos altíssimos, com várias tiras, à la prostituta.” – Hazel falando sobre um sapato que a amiga experimentou. Porque, claro, existem roupas “de prostituta”, “de periguete”, de “mulher que se dá ao respeito”…
(e isso tudo acima, mais o que está no post, acontece só nos três primeiros capítulos do livro…)













