A vítima de estupro perfeita

Ontem saiu a condenação dos estupradores de Steubenville. Se você está por fora, o que aconteceu foi o seguinte: uma adolescente de 16 anos foi a uma festa, bebeu e, inconsciente, foi estuprada por dois caras.

Os dois acusados, agora condenados, faziam parte do time de futebol local, um verdadeiro orgulho para os moradores da cidade. Assim, o caso ficou escondido, até que o anonymous denunciou, alguns repórteres seguiram a pista, e o resultado foi a condenação dos responsáveis.

Triste foi o que se disse durante o julgamento e após o veredito. Tentou-se culpar a vítima, falou-se quão incríveis os criminosos são, lamentou-se que a vida DELES tenha acabado, questionou-se se a garota estava mesmo inconsciente (você pode ler vários absurdos aqui, em inglês).

Ao ler tudo isso, pensei nos casos que temos aqui no Brasil. Lembrei do New Hit, cujo julgamento acontecerá em setembro. Quantas vezes você leu/ouviu que as meninas não deviam ter entrado  no ônibus? Que alguma coisa elas queriam? E quando uma moça foi atacada no metrô de São Paulo por um cara que colocou o pinto pra fora? Ela desmaiou, e vi várias pessoas dizendo que “pessoas não desmaiam nessas situações”. Lembram da jovem estudante de direito da PUC de SP que se matou em dezembro? “Ela bebeu demais na festa, deu porque quis e daí ficou com vergonha.”

Os casos são muitos. Incontáveis, infelizmente. Muda o nome da vítima, o endereço, mas a reação das pessoas continua a mesma, seja em Steubenville, seja em São Paulo.

rape 1

Então percebi que, para a denúncia de agressão sexual ser “aceita”, você precisa ser a vítima de estupro perfeita. Se você não seguir os passos seguintes, você com certeza está mentindo, querendo acabar com a vida de alguém, “sua vadia”.

1) Seja bastante pudica, de preferência virgem. Não, nada de ter vida sexual. Se for rodada feito eu ou garota de programa, então, já deu o direito pra qualquer pessoa abusar de você. Mesmo se você nunca sequer tiver beijado na boca, se liga: não pode dar mole pro agressor. Porque aí vão dizer que ele “entendeu errado seus sinais, ele achou que você estava querendo, etc”.

2) Vista uma burca. Caso você esteja de saia curta, decote ou barriga de fora, já sabe. “Ela fez isso pra provocar”, dirão várias pessoas. Não, você não estava de short porque estava calor, porque é confortável, porque você foi andar de bicicleta no parque. Nada disso. Você fez isso para despertar os instintos alheios. Porque, como vocês sabem, a urgência de estuprar é instintiva… é natural.

3) Não beba nada. Cu de bêbado não tem dono, ué. Você nunca ouviu isso? Ah, por favor, né? Se você encheu a cara, nada mais justo do que alguém tirar sua roupa, enfiar coisas em você, fazer um vídeo e postar na internet. Tava querendo o quê? Ah, você não bebe álcool? Então favor ficar de olho o tempo todo pra checar se sua coca cola foi aberta na sua frente. Nada de pedir um suco na rua se você não puder acompanhar todo o processo – vai que alguém coloca um remedinho ali dentro e você toma. Bem feito. Não pode relaxar nunca, ô garota.

4) Reaja ostensivamente. Se você for atacada, é necessário reagir de modo que ninguém desconfie da agressão, isto é, faça escândalo, grite, arranhe ou morda o agressor, faça com que ele te dê porrada para ficar a marca. Porque você sabe… se você entrar em choque, se deixar ele terminar a agressão pra acabar logo, se desmaiar… vão dizer que na verdade foi consensual.

5) Denuncie logo em seguida. Você tem que juntar seus pedaços físicos e emocionais e ir correndo pra uma delegacia. Esqueça que você passará por constrangimentos, que lidar com um estupro é das coisas mais difíceis da vida, que isso significará outra pessoa encostando no seu corpo, tão fragilizado após a agressão. Se você demorar alguns dias para denunciar, vão falar “ih, tem algo estranho aí”.

6) Certifique-se que seu estuprador não seja alguém com carreira, trabalho ou fãs. Como é que você vai escolher seu estuprador? Sei lá. Dá teu jeito. Afinal, se você não fizer isso, será vista como alguém que “quer acabar com a vida e o futuro do pobre estuprador”.

É inacreditável. Desde sempre tomamos cuidados bizarros para não sermos atacadas. Somos ensinadas a não sermos estupradas, mas ninguém ensina a não estuprarem. E mesmo que a gente siga tudo direitinho (não recebemos estranhos em casa, não andamos em ruas escuras ou desertas, não vamos ao bar sozinhas), ainda assim teremos todos os nossos passos escrutinados para a opinião pública julgar.

Como a leitora Fernanda disse no Twitter ontem, “proibir” a mulher de fazer todas essas coisas (beber, sair, dançar, usar a roupa que estiver a fim, transar com quem bem entender) com a ameaça constante de estupro é uma questão de poder.

“Ande na linha, se não algo de muito ruim vai acontecer com você.”

No fim disso tudo, vê-se que estupro não é sobre sexo. É sobre controle, poder, dominação.

O caso Pistorius e o discurso de crime passional

Uma das mais famosas frases de defesa do feminismo (como se precisássemos disso) é “o feminismo nunca matou ninguém, o machismo mata todos os dias”. O assassinato de mulheres pelo próprio parceiro é o ponto final de histórias de violência que muitas vezes se prolongam por décadas.

Segundo dados da ONU, 70% das mulheres sofrem algum tipo de violência durante a vida. Tal número representa duas a cada três mulheres.

Às vezes a gente vê isso acontecendo, reconhece as marcas de agressão física, percebe que alguém está correndo risco, mas não fazemos nada. Aqui no Brasil temos aquele ditado de “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”. Recusamos ajuda durante, e depois, quando o crime escalou para algo irreversível – o assassinato -, temos a atitude de culpar a vítima.

“Ah, ela ficou lá porque quis”, “se ela tivesse terminado”, “alguma ela aprontou”. E perdoamos o assassino: “ele estava descontrolado”, “agiu sob violenta emoção”, “ele a amava demais”.

O caso Pistorius é emblemático nesse sentido. Como observou Jessica Valenti nesse texto (em inglês), “apenas um dia após atirar em Steenkamp [a namorada do atleta] quatro vezes, Pistorius tem sido descrito como “calmo e positivo” e “inspirador”. Ela? É chamada de “loura de pernas longas”".

Se você não está familiarizado com o crime, um pequeno resumo: Pistorius é aquele atleta que correu nas Olimpíadas de Londres de 2012 com próteses nas duas pernas. Todo mundo aplaudiu, achou o máximo, se inspirou na história do homem que, apesar de tudo, não desistiu do esporte.

pistorius

 

Um vencedor, dissemos.

Esse mesmo homem matou a tiros a namorada na última quinta-feira. Primeiro, a notícia foi a de que ela teria entrado sorrateiramente na casa do atleta para surpreendê-lo e ele a confundiu com um ladrão.

Os fatos foram se desenrolando e, até agora, o que se sabe é que a modelo Reeva Steenkamp foi morta no banheiro da suíte. Os últimos detalhes revelados indicam que ambos estavam deitados na cama (a posição dos lençóis mostra que havia duas pessoas deitadas). Reeva e Pistorius vestiam roupas de dormir e chegaram ao condomínio do atleta às 18h do dia anterior. Duas horas antes do assassinato, a polícia e os seguranças do condomínio foram chamados porque os vizinhos ouviram uma briga entre o casal.

Agora, surgiu na cena um bastão de críquete coberto de sangue – além de Reeva ter ferimentos no crânio. Um dos tiros atingiu o quadril da modelo, que teria se escondido no banheiro – e os outros três tiros foram na cabeça de Reeva. Machucados na mão dela indicam que ela teria tentado “proteger” a própria cabeça.

A história é toda horrenda e assustadora. Mas ela nos aponta coisas que insistimos em não enxergar. A primeira delas é que violência doméstica acontece em qualquer classe social. Em segundo lugar, que pessoas “acima de qualquer suspeita” na vida social podem ser, na verdade, criminosos frios e agressivos. Em terceiro, que esses crimes poderiam ter sido evitados – no caso de Pistorius e Reeva, a polícia já havia sido chamada outras vezes à casa do atleta em razão de distúrbios entre os dois.

Quarto e muito, muito importante: a cobertura midiática de crimes como esse insiste em culpabilizar (ou apagar) a vítima, costumeiramente mostrando o agressor como um cara bacana, “que ama demais”. Foi assim no caso Eloá e no de Ângela Diniz. Nesse último, o assassino Doca Street matou a companheira para “proteger sua honra” e “sob violenta emoção”. E chegou a ser absolvido no primeiro julgamento (e condenado depois a 15 anos de prisão).

Chega de romantizar crimes contra mulheres.

Não há nada romântico em matar alguém.

Isso não é “crime passional”. É violência de gênero. É ainda mais grave do que um latrocínio (roubo seguido de morte), porque essas pessoas confiaram nos parceiros e decidiram levar uma vida com eles.

Traduzo um trecho do texto de Jessica Valenti sobre o caso Pistorius porque é perfeito e aponta exatamente o que falei acima:

A conversa sobre assassinatos decorrentes de violência doméstica não passa de um conto de fadas – uma narrativa criada para fazer a loucura ter sentido. Afinal de contas, é mais confortável pensar que Belcher [um americano que deu nove tiros na esposa recentemente] tinha algum problema mental do que admitir que alguém que nós admiramos tanto era um agressor violento e controlador. É mais fácil pensar que Pistorius acidentalmente atirou em Steenkamp do que admitir que o assassinato era o final previsível para o relacionamento violento.

Por isso nós culpamos as mulheres mortas pela violência impensável cometida contra elas. Fazemos isso em parte por causa da misoginia, mas também porque isso dá uma falsa sensação de segurança. Dias após ser morta, a mulher de Belcher foi criticada por chegar tarde em casa (que abuso!), acusada de tentar deixar o marido e “levar o dinheiro dele”. Pelas descrições sexuais de Steenkamp, tenho certeza que logo alguém vai sugerir que ela de alguma forma “pediu por isso” – ela estava provocando ciúme em Pistorius ou paquerando demais. Nós precisamos acreditar que essas mulheres tiveram alguma culpa na violência, porque se não isso poderia acontecer com qualquer uma de nós. (Nós não somos “como elas”!)

News flash: você é exatamente como elas. Você é mulher. E só isso já dá automaticamente passe livre para alguém cometer violências contra você. Precisamos mudar o discurso. Imediatamente.

UPDATE: Se você ainda não se convenceu a respeito da forma como se trata a vítima de uma agressão misógina, veja a capa do The Sun abaixo. Inacreditável. Ah, caso você leia em inglês, não deixe esse texto aqui passar.

thesun

Papo de babaca

O link apareceu na minha timeline ontem à noite. Não cliquei porque não gosto do site (explico abaixo o motivo). Mas hoje ele pulou várias vezes na minha frente, e acabei clicando para ver se o texto do Alex Castro publicado no Papo de Homem sobre feminismo era bacana. Afinal, em um dos twits do próprio site eles chamaram o post de “supremo“. Vai que eu estava perdendo a oportunidade de aprender um pouco, não é mesmo? Havia esquecido como a arrogância do ser humano não tem limites. “Supremo” é um pouco demais.

De todo modo, fui ler. Começa falando como muita gente é feminista, mas não se enxerga como tal. Bacana. Explica a diferença entre feminismo e machismo, relembra que este último mata, analisa rapidamente a questão das “piadas”, faz um pequeno apanhado histórico. Tudo muito válido, mas bem basicão (entendo que o texto deve servir para apresentar o feminismo ao leitor sem conhecimento da causa).

Porém, se o autor pretende fazer um texto ~supremo~ sobre feminismo, ele não poderia escorregar num conceito importante. Alex Castro diz, com todas as letras, que não existe feminismo radical. Exatamente com essas letras, aliás: “Feminista radical não existe. Ao reclamar da patrulha das feministas radicais, por mais delicadamente que seja, você está apenas expondo seu machismo. E todo mundo está vendo”.

Hum, deixa eu ver se entendi: o problema é todo mundo ver?

É isso?

Volto já ao texto do Alex, mas agora cheguei ao ponto que me fez querer escrever esse texto – o post ~supremo~ apenas me encorajou a escrever isso hoje.

O Papo de Homem tem uma parte chamada “Cabana”. Nessa área, há um fórum online e textos exclusivos. Rolam, também, encontros presenciais. Segundo a apresentação do site, mais de 1600 homens já participaram e “desenvolveram algum nível de generosidade, potência, ludicidade, autonomia, entre outras qualidades que focamos”. Como você faz para participar? Bom, você tem que pagar R$ 150 por três meses de acesso e ser homem.

Na Cabana (não ria do nome, por favor. muito pior é a redação, que eles chamam de QG, ou seja, quartel general. ou seja, referência ao militarismo. ou seja, machista. ou seja… ufa) os participantes compartilham experiências e fazem um ~treinamento~ nos encontros presenciais.

Um clube do Bolinha, mas tudo bem. O problema está bem longe de ser esse.

Há algumas semanas eu fiquei sabendo que um dos editores do PdH postou na Cabana um texto falando muito mal da garota com quem ele estava saindo. Tenho prints de tudo. O título é “Na internet, uma linda; na real, não tem como”.

Dou um doce se vocês descobrirem o motivo pelo qual “não tem como”.

Opa!

Doce não, porque doce engorda.

E, afinal, isso impede que um cara queira namorar uma garota, segundo o editor do Papo de Homem autor do tal texto. No início do post ele diz ter conhecido uma garota por meio do Ok Cupid. É mentira. Ela era leitora do site e comentava sempre por lá.

Ele conta como eles ficaram envolvidos nessa aproximação online. Até o momento de se verem pessoalmente: “O que eu encontrei foi a decepção em forma de mulher”.

O que ele fez? Deixo a palavra com o babaca:

COITADA“.

O tal editor postou a história porque, vejam, ele não sabia como terminar com ela. Ele não namoraria uma gorda, mesmo pagando um boquete delícia!!! Poderia ser só uma história inventada para que os moços da Cabana (que estão em ~treinamento~ para se tornarem seres humanos melhores) discutissem a questão da aparência física, em como estamos paranoicos com isso. Seria uma boa discussão.

O problema é que a história era verdade e o carinha, inclusive, ficou com ela mais algum tempo.

No fim do post tem esse ps:

Ela poderia ser identificada pelos amigos dele do Facebook, ela pediu para não falar sobre a noite que tiveram. E mesmo assim ele postou num fórum.

E, como era de se esperar, ela foi identificada. O tal texto chegou ao conhecimento dela, que a partir de então solicitou sua retirada do ar. Foram meses pedindo. Enquanto isso, a garota era zoada – e a autoestima e o equilíbrio emocional dela foram pro espaço. Ela realmente sofreu com tudo.

O post foi publicado em 16 de janeiro e só foi retirado do ar há poucos dias. Eu conversei com algumas pessoas do Papo de Homem sobre isso (não vou postar aqui porque o texto está demasiadamente longo). Hoje mesmo mandei e-mail para o Guilherme, dono do site, dizendo que iria escrever a respeito dessa história e deixando o espaço aberto para eles darem sua versão dos fatos. Ele disse que leria o post depois.

Assim como deixaram para depois o momento de finalmente tirar do ar a postagem que fazia piada sobre a aparência física de uma leitora. Mas talvez eles levem a sério demais a frase do Alex – e o que importa é que ninguém estava vendo, já que “o que acontece na Cabana, fica na Cabana” (andam vendo filmes demais).

Daí pode ficar a dúvida: o que exatamente isso tem a ver com o texto do Alex? Bom, além das contradições no texto que eu já comecei a apontar (e continuo abaixo), há uma coisa importantíssima: como você pode, em público, defender os direitos das mulheres e, quando ninguém vê, tratar uma mulher (ou, simplesmente, um ser humano) como lixo?

Não, não foi o Alex que escreveu o texto zoando a garota. De qualquer forma, trata-se da mesma empresa, o mesmo meio de publicação. Você indicaria/acharia lindo um texto feminista publicado, sei lá, no Testosterona? Não, né?

Falando em Testosterona, aliás, querem saber o que o PdH tem em comum com o blogueiro da MTV? Ambos retuitaram Silvio Koerich e, no dia da prisão dos responsáveis pelo site pelo site misógino, eu e outras feministas questionamos pelo Twitter a ligação entre o PdH e o Koerich.

O que responderam? “Estamos num churrasco aqui no QG, bêbados, e não vamos responder nada!”

O Guilherme estava viajando e, ao tomar conhecimento de tudo, entrou em contato comigo e com outras pessoas – Alex copiado no e-mail – e tentou resolver a cagada feita por um dos seus funcionários (o tuite foi apagado). Eu sei quem foi a pessoa que tuitou, aliás.

A partir desse fato, o Alex Castro escreveu um texto pedindo desculpas, admitindo o erro e dizendo que eles iam melhorar e etc. Ao mesmo tempo, o post da Cabana estava no ar, fodendo com a vida da garota.

Ah! Mas vamos fingir que somos bacanas, vai que alguém acredita?

Muita gente acredita. Vejo feministas retuitando qualquer coisa escrita pelo Alex. Eu sei que um homem feminista é extremamente charmoso, mas fica a dúvida: será que alguns deles não se dizem feministas só para ficarem bem na fita?

Bom, eu, na verdade, não consigo achar sexy um homem que não seja feminista…

Porque é muito fácil dizer “ei, eu já escrevi sobre feminismo” e agir de maneira contrária. O próprio autor reconhece a existência desses caras: “Nada pode ser mais constrangedor do que ver um homem, até então sensível e sensato, se defendendo de acusações de machismo seja dando carteirada (“não posso ser machista porque escrevi isso ou fiz aquilo”)”.

Fiz algumas críticas ao post do Alex no Twitter. Alguém citou a arroba dele e ele, como sempre, veio me questionar. Eu não tinha o menor interesse em conversar, até porque ele veio logo com aquela postura de “o que posso fazer para te fazer feliz?”. Gente? Só há duas maneiras de um homem me fazer feliz: me comendo ou me oferecendo um trabalho bem remunerado. De resto, eu não PRECISO de homem nenhum, especialmente para ser FELIZ (essa é uma busca só minha).

Não conseguem enxergar quão condescendente é essa postura? Pois bem. Voltando ao texto. O autor diz “não existe feminismo radical”, e foi uma das coisas sobre as quais falei no Twitter. Existe SIM feminismo radical. É uma corrente teórica pouco difundida no Brasil, mas com bastante força nos Estados Unidos.

E não tem nada a ver com ser ~radical~ (eu tive um professor de Sociologia da Comunicação que usava a palavra como sinônimo para algo muito bom). Caitlin Moran usa a palavra “estridente” em Como Ser Mulher para se referir a feministas mais incisivas. Justamente porque ela SABE sobre o quê estava escrevendo e que, se ela falar “feminista radical”, ela está se referindo a quem segue a ideologia radfem.

Claro que o público não iniciado na teoria feminista pode não conhecer o termo, mas se você quer ENSINAR milhares de pessoas, que tal se informar um pouco mais? E, se alguém apontar o erro, que tal admitir e não responder uma bobagem?

Poxa, Alex, MUITO OBRIGADA por dizer o que é importante e o que não é importante no movimento feminista!!! Obrigada, obrigada, obrigada. Não sei o que eu faria sem seu conhecimento! Obrigada por me iluminar!

Ele segue falando besteira no texto. No item 15, diz como a culpa do machismo é também das mulheres. Concordo! Mas daí o que ele faz? Em TODOS os exemplos de pais criando os filhos de maneira machista, ele coloca como personagem… as mães!

Porque é claro que apontar o dedo pro oprimido e colocar a mãe como a responsável pela educação parental é muito revolucionário e nada machista… O curioso é que vi muita gente criticando a página Cara, sua namorada é machista por esse motivo – e daí as pessoas acham bonito que um texto do Papo de Homem faça a mesma coisa? Porque o texto foi assinado por um homem e postado num lugar dado a machismos ele é mais válido? Vamos parar com o complexo de vira-latas e parar de abanar o rabo pra qualquer pedaço de osso que jogam pra gente? Nós não precisamos disso.

É preciso lembrar que a luta é de todas nós e que o fato de sermos mulheres não afasta a possibilidade de termos comportamentos machistas. Mas é como diz o texto da Paula Mariá citado na tal discussão acima linkada: “Essa lógica [de que é pior o machismo perpetuado por uma mulher do que por um homem] nada mais é do que uma clássica culpabilização da vítima, as mulheres são justamente o grupo oprimido e sim, internalizaram o olhar e julgamento machistas sobre si mesmas e sobre as outras, essa é inclusive a maior arma do opressor: Ter o oprimido em suas mãos.”.

Uma coisa é nós falarmos para uma amiga que ela está tendo atitudes machistas. Ou, num grupo formado por mulheres, conversarmos sobre como nossas mães nos criaram com “ideais” do patriarcado. Outra completamente diferente é apontar o dedo na cara do oprimido num site voltado ao público masculino!

Daí depois, no item 23, ele fala sobre como o corpo da mulher é da mulher. Discursa sobre o aborto: você, homem, tem que respeitar qualquer decisão que sua namorada tome. Sabe o motivo? Pra ser MÁSCULO.

Não há nada mais másculo do que ter a hombridade de ficar calado na hora certa.”

Porque, é claro, é tudo sobre eles! Sobre tornar o CARA um ser humano de valor – não que ele precise de fato respeitar as escolhas da mulher. Pode? Não, não pode.

(nem vou fazer comentário sobre a palavra “hombridade” – que tem a ver com ser VARONIL, isto é, HOMEM; tampouco sobre “histérica”, que só é usada para nos referirmos… às mulheres.)

Por isso, pra mim, tal texto é apenas mais do mesmo; uma tentativa de parecer bacana para, quando postarem bobagens sexistas, poderem dizer MAS EI, A GENTE TEM UM FEMINISTA AQUI E VÁRIOS TEXTOS SOBRE O TEMA.

Muita gente acreditou. Eu, não.

Da ignorância

A confusão no Twitter ontem começou por causa de uma postagem feita por um rapaz famoso.

Ele disse: Chocolate nesse calor é igual bêbada de metabolismo rápido. Se não comer na hora, babou.

Eu não sigo o sujeito e vi porque alguém mencionou. Achei surreal. Retuitei e coloquei um “inacreditável” na frente. Bom, é perfeitamente “acreditável”, tendo em vista que este moço sempre faz comentários machistas.

Ainda assim eu sempre me espanto porque penso que há chance de mudança. Há espaço para que as pessoas pensem que piada com mulher bêbada + sexo = estupro, mas parece que não tem jeito.

Como sempre o caos se instalou no Twitter (eu me divirto, confesso). Ele respondeu: @vidadeleticia não gostou da piada da mulher bêbada. Mando reclamar com o Daniel?. Não sei de que Daniel ele estava falando, mas imagino que seja do ex-BBB. Isto é, era uma PIADA DE ESTUPRO MESMO.

O mais impressionante nessa história é que algumas pessoas saíram em defesa do moço. E é justamente aqui que quero chegar (tudo isso aí em cima foi só para vocês entenderem do que eu estava falando).

A gente prefere acreditar que nossos amigos, irmãos, companheiros de trabalho – e nós mesmos – não somos machistas. Daí dizem “não, fulano não é machista, você é quem está exagerando!”. Será?

Então, por qual razão as pessoas ficam indignadas quando uma propaganda de vodka faz exatamente a mesma associação de mulher bêbada = sexo não necessariamente consensual?

Simples: porque é errado, sim. Só que quando é com alguém que a gente conhece fica difícil reconhecer o machismo e quão babaca o amigo é. Porque ter amigos babacas nos faz um pouco babacas, também. Como você pode seguir no Twitter alguém que fala tanta merda? Não sei, mas sei que essas pessoas têm muitos seguidores.

As coisas foram crescendo e um monte de gente se meteu no meio. Começou aquela velha história de “feminista é tudo mal amada/mal comida/briga por tudo”. Primeiro que eu não falo em nome de um movimento – movimento este que, aliás, está longe de ser uno. Eu falo em meu nome. E acho esse tipo de “piada” sofrível, machista e idiota. Sempre falarei contra esse tipo de coisa.

Porém, ficou claro uma coisa difícil de acreditar em tempos de internet. As pessoas não sabem o que é feminismo. Elas não procuram saber; preferem repetir os clichês ditos por aí por… machistas!

Um dos moços envolvidos na confusão de ontem soltou um:

Pergunta séria: se machismo é ruim, pq o feminismo deveria ser bom? Não deveria existir outro termo?

Feminismo não é o contrário de machismo. Enquanto o último prega a superioridade masculina, o primeiro busca a igualdade. As pessoas pegam um sufixo – no caso, “ismo” – e acham que sempre significa a mesma coisa.

Ele continuou mostrando a ignorância:

A palavra no masculino ta associada a algo ruim, a versao feminina a algo bom? Meio errado isso.

Meio errado é ser machista e ignorante…

É como dizer que criminoso é feio e criminosa é bonito.

Risos. E a pessoa não tem nem vergonha de falar isso pra milhares de seguidores. “Barato é o marido da barata” feelings.

Uma moça que não conheço se meteu no meio da confusão e começou a me xingar por causa do cem homenszzzzzzzzzzzzzz. Ela, que se autointitula “doutora” (e, pelo que sei, não tem curso em nenhuma área que lhe dê esse título) disse “buceta não é prêmio, sexo não é disputa e sexicismo é BURRICE”.

A pessoa se dispõe a escrever sobre relacionamentos e não sabe nem que o correto é “sexismo”, e não “sexicismo”. Bem se vê que não há qualquer preparo para falar sobre o assunto.

Então, o que vejo em discussões como a de ontem é que grande parte das pessoas não têm a menor ideia do que é machismo e feminismo. Por isso repetem preconceitos – a ignorância é um dos grandes motores históricos do preconceito.

É preciso se informar. Entender que machismo não é antônimo de feminismo. E que mesmo uma feminista pentelha como eu pode ser apenas uma pentelha. Chata. Rabugenta. Inconveniente. Um machista é tudo isso, mas em situações extremas (e infelizmente muito comuns) ele mata. Qual dos dois é pior?

Hoje não é dia de flor

Não é porque rosas não são as minhas favoritas. Não é porque eu sequer tenho um vaso para colocar uma flor só. Não é porque acho brega uma flor só.

Durante grande parte da minha vida eu achei bacana o gesto de receber uma rosa em 8 de março. Que mal havia nisso? O que uma simples flor poderia representar? Era só gentileza, pensava. Sequer considerava questionar o que havia por trás daquilo.

Essa atitude é super comum. Pipocam nas redes sociais e na vida real elogios vazios sobre a beleza feminina. Ou como somos emotivas. Ou como a maternidade é algo sublime. Blogs fazem posts enormes com fotos de flores, de mulheres sorrindo. Exaltam a feminilidade, segundo um pensamento muito torto.

Torto?, perguntariam alguns. Sim, torto. Difícil reconhecer isso. Eu mesma demorei muito tempo – três décadas, pra ser mais exata – para entender que não há características naturalmente femininas.

Também entendia que a luta do feminismo era algo ultrapassado, exceto em algumas culturas em que ainda se cortam clitóris ou em que a mulher não pode votar. Eu, moradora de uma cidade grande e que ganhava o mesmo que meus colegas de trabalho homens, achava que não havia mais o que se combater. Via como absurda a ideia de que nós éramos responsáveis por lavar a louça ou coisas “pequenas” assim; só que eu entendia isso como algo isolado, e não como o padrão de comportamento de toda a sociedade. Eu, mesmo como advogada, ainda acreditava na hipótese de “crime passional”.

Esqueci de todas as vezes em que tive vergonha de tomar sorvete em público. Tomava, mas evitava a troca de olhares com qualquer transeunte.

Esqueci de todas as vezes em que tive medo de andar um quarteirão sozinha, mesmo sem estar com dinheiro ou outro objeto de valor. Andava, mas apressava o passo ao notar algum homem chegando perto de mim.

Esqueci de todas as vezes em que tive a sensação de estar sendo “sarrada” em transporte público só porque – eu então achava – estava de saia curta ou com uma blusa decotada. A culpa era minha, afinal.

Esqueci de todas as vezes em que minha mãe foi xingada de puta porque em plena década de 1980 se separou e namorou um homem muito mais novo que o meu pai.

Esqueci de todas as vezes em que eu mesma fui xingada de puta (ainda que sem palavras ditas em voz alta) por ter feito sexo oral no primeiro encontro.

Esqueci. Só que aí relembrei.

E procurei saber mais. Li, estudei, conversei. Escrevi esse blog. Vi situações que não acontecem só lá do outro lado do mundo; que aqui, agora, nós continuamos sendo oprimidas o tempo todo, por todo mundo, até por nós mesmas.

Porque o feminismo não é uma luta só das mulheres, assim como o machismo não se aplica apenas aos homens. Acho mais difícil de entender uma mulher machista – ela sofre na pele (porque todas sofremos, não se engane) o preconceito e todas essas coisas pequenas do cotidiano que citei acima. Como não parar para pensar a respeito e se rebelar contra o sistema?

Não digo que você precisa sair às ruas e “queimar sutiãs”. Mas reconheça a luta histórica do feminismo, nem que seja no dia em que relembramos os fatos. Mude a forma como educa seus filhos: pare de dar para sua filha brinquedos que imitam tarefas domésticas, por exemplo (meu amigo Leandro Godinho me disse que lá em Porto Alegre a pauta do jornal local do meio-dia hoje foi “garota verão” e “dicas de beleza”). Pare de julgar como puta a mulher que está com roupa curta e que beijou mais pessoas no último mês do que você o fez na vida. Chame o garçom e divida a conta do restaurante, mesmo que seu acompanhante seja homem. Mude. Aos poucos. No seu ritmo. Mas mude.

Hoje não é dia de celebrar a “feminilidade”, conceito bem difícil de entender ou precisar. Aliás, não vejo nem utilidade nos papéis de gênero.

Hoje é dia de celebrar as conquistas do feminismo e de repensar quão difícil é ser mulher. Prova disso é a “homenagem” da Band Santa Catarina que copiei nesse post. Não se cale. Fale mais alto. Seja mulher, seja homem. Só não seja machista.

Links interessantes sobre o 8 de março:

Um levantamento histórico bacana e bem resumido da Maira Kubik

Espero que isso seja brinks

Troque sua rosa por um mundo com mais igualdade

Hoje é dia de repensar o seu machismo – reflexivo sem ser pedante. Escrito por um homem

A luta é de todos nós – com vários dados sobre a violência contra as mulheres e manifestações pela data

O estigma da mulher honesta

Uma das grandes dúvidas da maioria das mulheres é o “momento certo” para transar. Muitas ficam adiando, adiando, pois acham que assim o cara não vai julgá-las, “desvalorizá-las”. Todo mundo sabe como eu acho isso uma bobagem sem tamanho, mas eu sei que na “vida real” essas coisas acontecem.

Foi o que uma leitora me contou por e-mail.

Moro (sozinha) em sampa há uns 5 meses, tenho 25 anos, vida estável, e tudo mais (bla bla bla).

Esses dias me aconteceu algo q eu achei q devia compartilhar, principalmente com vc…
Vc tem me ajudado muito a parar com o estigma da mulher honesta…. ou seja, a entender que não sou uma puta por querer ficar com caras, por querer fazer sexo, e principalmente, por querer ficar com alguém por ficar.

Sempre fui gordinha, mas sempre peguei quem eu quisesse.. mas transar.. ih.. transar era outro esquema.Sempre fui pudica quanto ao sexo, isso era coisa esporádica, e só achava que seria capaz de fazer sexo no estilo papai e mamae..

Depois q mudei pra cá resolvi q tinha q viver a vida. Resgatei um cara do passado. Ele veio me ver, foi tudo ótimo, e descobri coisas sobre mim que eu nem sabia… pena q foi rápido demais e não sei se vou vê-lo de novo.

Continuando a saga “viver a vida”, no domingo, um amigo de um amigo meu, com quem fiquei no final de semana passado, veio falar comigo na internet… ficou de putaria, putaria, pedindo pra vir aqui me ver, aquela coisa.

Não resisti e falei: VENHA. É, ele veio… 

Veio, me comeu, e foi embora depois de 30 minutos.

ME SENTI UM LIXO. Ele sequer tirou minha roupa, não encostou nos meus peitos, e eu nem vi direito o pinto dele. Absurdo. 

Eu, que passei a pregar que temos direito iguais, que assim como os homens nos usam, podemos também usá-los, e por aí vai, me vi de novo com o estigma de ter que ser uma mulher honesta.

Não fiz nada de errado. Eu já sabia que ele era cuzão.. mas porra, desse nível?
Ainda, antes de ir embora, me disse: “desculpa a falta de educação, mas eu tô muito cansado.. tô indo.. tchau”.

É, tô fazendo força pra não me sentir mal, uma putona completa, e nem ficar me martirizando.. mas parece que quando eu me livro do estigma, ele bate à minha porta de novo…

Me apego nos direitos iguais, mas quando eu quis usar, acho que acabei mesmo foi sendo usada…

A primeira coisa que as pessoas precisam entender é que a gente não “usa” o outro. Ou, pelo menos, as pessoas “normais”. Se eu estou a fim de gozar apenas, eu me resolvo sozinha. No momento em que você decide fazer sexo, isso automaticamente inclui um parceiro. Não importa se é casual, se é um namoro apaixonado ou um casamento que já dura 20 anos. O corpo do outro não é para você se masturbar. Sexo não é masturbação acompanhada.

Logo, a leitora deve riscar do vocabulário a expressão “usar” quando se referir a sexo casual. Se ela fala desse jeito a respeito do carinha, é de se esperar que ela a use para falar de si mesma – e isso traz uma carga imensa de culpa e a ideia de que estamos à disposição do outro. Que vai nos usar… e nos descartar. Como um copo de plástico, um guardanapo de papel… um objeto qualquer.

Mas, sobre o caso específico, o cara é um panaca. Panaca completo. Uma amiga veio me dizer que o mesmo aconteceu com ela durante o carnaval. Ela transou com um conhecido, e o cara usou o famoso pau-britadeira. Não fez mais nada. Não demonstrou qualquer preocupação com o prazer dela, assim como o “parceiro” da leitora.

Ambas demonstraram um abalo na autoestima após o acontecido. Outro dia eu estava conversando com um amigo e falei como minha autoestima havia desaparecido após os eventos dos últimos meses. Ele me respondeu, direto (e um pouco duro) como sempre: “Ninguém tira minha autoestima, porque ela é minha, e não do outro”.

É difícil perceber isso. É dificílimo colocar isso dentro da nossa cabecinha. Em geral temos anos e mais anos de comportamentos destrutivos. Alguns de nós sofremos com bullying na escola (quando nem existia uma expressão pra isso!), outros fomos xingados dentro da nossa própria casa. Não que faltasse amor, mas toda uma geração de pais achava bacana dizer pro filho que ele “não fez mais que a obrigação” quando conquistava algo. Ontem uma leitora-amiga me disse que a mãe reclamava do cabelo dela. Meu pai fez o mesmo comigo. Isso sem contar as cobranças da sociedade, essa que coloca mulheres irreais nas capas de revista e inventa mil tratamentos estéticos ao dia. Tudo com 56% OFF nos sites de compras coletivas.

Assim, tendemos a achar que a culpa é nossa. Por que ele não se importou com o meu prazer? O que fiz de errado? Foi muito cedo? Se eu tivesse demorado mais a transar, ele teria me tratado com mais carinho?

A resposta é bem simples: não. Não. Um homem desses acha que você, mulher, serve apenas para o prazer dele. Você é um objeto, mesmo que você não vista a carapuça. Pra ele. Infelizmente não posso dizer que os moços dos dois casos são exceção. São a regra.

Da mesma forma que você pode ser “a regra” e ser insegura, sem autoconfiança e colocar a sua autoestima nas mãos do outro. Mas eu honestamente desejo que você seja a exceção, e se torne uma mulher forte, dona do próprio corpo e segura de si.

E daqui a alguns anos, quem sabe, isso se torne a regra.

Olhe para o próprio rabo

O post abaixo gerou uma pequena discussão no Twitter.

Eu estava comentando sobre essa coisa do “valor” de quem transa – ou não – no primeiro encontro.

Recebi um reply em que o rapaz dizia “Gosto do mistério. Gosto de valorizar minha conquista. É…acho que sou meio diferente…”.

Quantos erros em um só twitt, não? 140 caracteres onde você pode destilar tanto preconceito. Primeiro que essa coisa de “mistério” é pura balela. Ninguém mostra tudo de si nem em 50 anos de relacionamento, imagine naquele momento em que tudo ainda é descoberta.

Segundo: valorizar a conquista? Sério? Como o @augustoyoh bem pontuou, fica parecendo “que o cara acabou de caçar um javali”. A mulher não está numa posição passiva. Ou, pelo menos, deveria estar. Então, você não CONQUISTOU uma mulher, como se ela não tivesse poder de decisão sobre a coisa – e você, com seu charme e elegância, conseguiu fazer ela mudar de ideia.

Terceiro: “acho que sou meio diferente”. Hã? É exatamente isso que grande parte das pessoas faz. Não há nada de diferente, novo, revolucionário no comportamento do rapaz em questão.

Depois de eu falar isso tudo por lá (desculpe se você me segue e viu tudo isso, mas tem gente que não usa Twitter e/ou não estava online), o rapaz disse: “Julgando uma pessoa por uma frase escrita? Talvez vcs tenham entendido a valorização da conquista de uma forma equivocada….”.

De fato, eu posso ter julgado de forma equivocada. O que eu acho, porém, é que, quando ele viu os argumentos das outras pessoas, ele percebeu quão ridículo/conservador/machistinha estava sendo.

Perturba reconhecer em nós mesmos comportamentos que a gente não gosta de ver nos outros. Mas se tocar disso é um grande passo e um empurrão para começarmos a mudar.

A régua da felicidade

Desde que comecei este blog me deparei com o que há de pior nas pessoas. Recebi muitos xingamentos horrorosos, pragas diabólicas e coisas do tipo. Felizmente as coisas acalmaram, ainda que volta e meia (todo dia, mas em menor número) eu tenha de excluir comentários maldosos.

Fui aprendendo a lidar com isso e a não dar tanta importância. Conheci muita gente bacana pelo blog. E não só eu: há um grupinho de amigos virtuais que se conheceram nos chats que a gente faz de vez em quando por aqui. Acho super legal vê-los interagindo no Twitter. Pessoas de vários lugares do Brasil, com bagagem completamente diferente, se encontraram por causa do blog.

Também conheci o namorado porque ele é leitor. Nosso primeiro encontro foi totalmente por acaso. Eu estava gripada, com preguiça de sair, e já havia combinado um almoço com um amigo. Aliás, seria um almoço com “sobremesa”. Meu querido amigo se enrolou no trabalho, eu acordei melhor da gripe, e resolvi ir lá ver qual era.

Fui muito feliz naquela tarde e noite. Jamais esperei ou desejei me apaixonar. Aconteceu. Estou muito satisfeita com os rumos da minha relação com ele e escrevi sobre o assunto no último post. O texto não chega nem próximo de demonstrar o meu real contentamento em tê-lo na minha vida.

Namorado é bem humorado, inteligente, criativo, gostoso, carinhoso, atencioso. Para vocês terem uma ideia, ele lê as blogueiras feministas, prefere a TPM à Trip, devora livros sobre sexualidade. Alguns dos textos sobre os quais já falei aqui ou no Twitter foram indicados por ele.

Mas a minha felicidade aparentemente irrita algumas pessoas. No último post há vários comentários me desejando sorte. Só que há aqueles dizendo que meu relacionamento não é sério, ou que a história é fake, ou que tudo o que eu sempre desejei, na verdade, era arrumar um namorado e por isso eu me joguei nos braços de qualquer um.

Estes comentários são desrespeitosos a mim, mas dessa vez há outra pessoa envolvida. Namorado não é “qualquer um”. Ele é um dos caras mais incríveis que eu já conheci na vida. E olha, eu já conheci MUITOS homens.

Ele também não é o primeiro/único homem do mundo a me dar atenção. Eu não sofro do chamado “dedo podre”; escolho com uma certa competência os amigos e homens que me rodeiam. Eu observo pessoas, tenho um nível de exigência um pouco elevado, e não abro minha intimidade para qualquer um. Abro minhas pernas, sim, mas chegar realmente perto não é assim tão fácil.

Sou muito amada e querida por quem me cerca. Verdade, tenho uma personalidade difícil, ácida, ranzinza, e por isso mesmo algumas pessoas me detestam. Normalmente é recíproco, então vida que segue.

O amor que recebo dos meus homens, dos meus amigos e da minha família me faz bem e me satisfaz. Sim, eu quero ser amada. Lógico! E namorado veio SOMAR nesse aspecto, e não completar.

O fato de ele ainda não querer morar comigo também trouxe espaço para as pessoas dizerem que ele não quer nada sério comigo. Bom, primeiro isso é um problema só nosso, não é mesmo? Em segundo lugar, se o namoro de um amigo de vocês demora anos para virar noivado, depois não sei mais quantos anos para virar casamento, ninguém acha nada errado, né?

Então, o que tem de errado no fato de o namorado não querer morar comigo em dois meses de namoro?

Eu conto pra vocês: as pessoas que acham que ele não quer nada sério comigo é porque não conseguem aceitar que uma “puta” possa ser amada. Como assim uma mulher que queria transar com cem homens pode ter alguém que realmente goste dela? Quem ela pensa que é? Isso é impossível! Os homens só querem comer e sair fora! Quem mandou ser vadia?

Não é exatamente isso?

É assustador. Não quero namorar com nenhum de vocês. Não só porque eu não os conheço, mas sim porque o pouco que já percebi é o suficiente para que eu perceba quão baixos vocês são.

Também vi alguns comentários dizendo que casamento aberto é indício de falta de seriedade. Juram? Eu tenho leitores que vivem – e muito bem! – assim. Casados, com filhos. Família de propaganda de margarina. Olhando de fora, vocês jamais imaginariam que eles transam com quem desejarem. Trocam casais, participam de surubas. E são felizes. Não é isso que todos nós queremos?

A babaquice chega em níveis tamanhos ao ponto de alguém dizer que, enquanto eu estava me declarando, o namorado estava viajando e comendo outra. Por mim ele não precisa nem viajar para transar com alguém; ele pode fazer isso estando aqui em São Paulo mesmo! O irônico é quem exatamente naquele momento que um desocupado fazia o comentário, eu estava falando com o namorado no gtalk – e fazendo encomenda de cosméticos! Igualzinho a um casal “normal”.

Jamais incentivei ninguém a viver da mesma maneira que vivo. Eu mal sei se as minhas escolhas são certas, imagine se vou cagar regra na vida alheia. Este ano, mais do que aprender novas posições sexuais, eu aprendi a respeitar a diversidade. Vi que há pessoas sendo felizes de maneiras pouco convencionais – e gente sendo muito infeliz dentro do padrãozinho que nos fizeram acreditar que seria o passaporte para uma vida plena.

Sou verdadeiramente feliz, e se a minha felicidade te incomoda (com o agravante de sequer nos conhecemos), quem tem problema aqui não sou eu. Você pode não querer um relacionamento aberto, pode não querer transar com cem homens, pode achar nojentas certas taras, mas não meça o mundo com a sua régua. Isso é ser intransigente, isso é não saber viver em sociedade, isso é desrespeitar a diversidade.

Somos únicos, cada um com seus medos e anseios. Só alguns de nós, todavia, conseguimos ser felizes. Destilar veneno por aí não indica que você esteja pleno; aliás, mostra justamente o contrário. Em vez de procurar defeito na vida dos outros, que tal procurar na sua? Identificar o que está errado em você é um grande passo. Talvez assim, finalmente, você comece a experimentar o que é a felicidade. Eu recomendo. Não sei viver sem ela.

*explicando a foto: pra mim, a felicidade pode ser traduzida num cachorro na grama com uma bola. o meu adora. 

Vai escolher o quê?

Esqueçam o fato de eu ser uma mulher-que-tem-um-blog-chamado-cem-homens. Ao lerem este post, pensem em si mesmas; pensem nas suas irmãs, primas, amigas. E agora leiam o comentário do Lucas no Encantamento (update em 20/01/13: o post não está no ar, está no livro):

O cara tb agradece, conseguiu dar uma aliviada de graça, e tem certeza de que não vai ter dor de cabeça depois.

Todos saem ganhando.Eu acho muito bom que existam pessoas de todos os tipos, principalmente para nós homens.Imagina se tivéssemos que namorar sempre que quiséssemos “dar uminha”, ou se tivéssemos que ser obrigados a casar ou namorar com uma mulher que libera geral.

Sorte que temos escolha e podemos optar por cada tipo de mulher de acordo com nosso interesse e intenção naquele momento.

Viva a liberdade e a diversidade!

Ficou com nojo? Eu também. E respondi:

É, Lucas, ele não está tendo NENHUMA dor de cabeça.

Ele só queria comer? Pois eu dei. Dei GOSTOSO.E enquanto eu vou beijar mais na boca hoje, você vai bater uma punhetinha. Oh, mundo cruel!

Aí o Lucas deu o recado:

Oh loco!

Pensei que meu comentário fosse ser bem recebido, por exaltar o respeito à diversidade.Parece que errei. A Letícia tem o direito de dar para cem, eu não tenho o direito de escolher o tipo de mulher que eu quero para ter um relacionamento sério, e a que eu quero para sexo casual. Não seria uma imposição social às avessas, tal qual a que vc mesma critica, Letícia?Bem, como estou namorando, muito difícil passar uma sexta-feira na seca, não sei de onde tirou essa suposição, nem qual a importância disso ou sua relação com meu comentário.De qualquer forma, não foi minha intenção ofender nem polemizar.Beijo!

Eu sei que está um saco essa troca de comentários, mas prometo que já acaba. Eu revidei com o seguinte:

Lucas, vai dar uma de bonzinho? Pelamordedeus, né? 

“Respeito à diversidade”? Com esse preconceito? Faça-me o favor. ps: só fica de olho se a sua namorada um dia não vai (ou já não o fez) me mandar email dizendo que o namorado dela é assim ou assado. É o que mais rola. Dica.

A última pérola do Lucas foi esta:

Letícia,

Não sei se esse é o local adequado, nem se vc tem interesse em discutir isso, mas o que vc chama de preconceito, é simplesmente o meu direito de optar por qual tipo de pessoa quero na minha vida para uma aventura sexual furtiva, e qual eu quero para um envolvimento amoroso e compromissado.Vc critica tanto a hipocrisia e a contradição das pessoas que te condenam, mas está tendo comportamento semelhante quando diz não aceitar meu posicionamento, inclusive tentando me desqualificar, gratuitamente, algo que até onde alcanço, não fiz com vc. Muito pelo contrário, tentei ser o mais respeitoso possível.Igualmente ao seu caso, meu posicionamento não prejudica ninguém, é simplemente uma opção pessoal, de poder escolher quem eu quero na minha vida e para qual propósito.Outro beijo, admiro sua coragem e acho que vc escreve muito bem, parece ser muito inteligente!

Entre esses comentários, várias leitoras e alguns leitores defenderam o Lucas. Disseram que quem discordou dele (como eu), “pegou pesado demais”. Uma leitora disse “ah, é assim mesmo que os homens pensam”.

Peraí. Sério mesmo? Sério mesmo que vocês acham que mundo deve continuar do jeito que está só “porque é assim que as coisas são”? Ninguém vai mudar a vida um pouquinho para que vivamos em uma sociedade mais justa e igualitária – e isso inclui a igualdade entre homens e mulheres? Eu não estou nem falando pra ir à luta, fazer revoluções, nada disso. Simplesmente não aceitar o que um machista desse falou pode se tornar um grande passo para a igualdade.

Como alguém mencionou nos comentários, o Lucas é o pior tipo de machista. Porque quando uma pessoa não tem jeito com as palavras e já sai xingando, a gente o desqualifica logo de cara. Mas quando alguém estudou e consegue expressar as tacanhas ideias de forma inteligível, há quem não pense duas vezes no que ele disse. É como se a educação formal de Lucas validasse suas opiniões, por mais idiotas que elas sejam.

Não conseguem enxergar o machismo e falso moralismo por trás das palavras dele? Eu desenho:

conseguiu dar uma aliviada de graça“aliviada” é o que você dá quando se masturba. “de graça” é o contrário de “teve de pagar”. “teve de pagar” = prostituta.

Eu acho muito bom que existam pessoas de todos os tipos, principalmente para nós homens. - “principalmente para nós homens” – se depois dessa oração você ainda não notou o machismo deste garoto…

Imagina se tivéssemos que namorar sempre que quiséssemos “dar uminha”, ou se tivéssemos que ser obrigados a casar ou namorar com uma mulher que libera geral. – Lucas rotula as mulheres. Volto a isso mais no final do post.

o que vc chama de preconceito, é simplesmente o meu direito de optar por qual tipo de pessoa quero na minha vida para uma aventura sexual furtiva, e qual eu quero para um envolvimento amoroso e compromissado. – é isso que grande parte dos homens faz o tempo todo: mulher que dá é puta. entenderam agora?

Eu trouxe o comentário do Lucas à discussão não porque quero dar visibilidade aos trolls. Eu nem tenho atualizado o Tumblr, por exemplo, mesmo com tantas pérolas recebidas. Ando de saco cheio disso e com preguiça.

O que me espantou foram as reações aos comentários. Gente que não consegue enxergar o machismo por trás das declarações do rapaz. 

Quando eu era adolescente e vivia numa sociedade muito, muito machista, eu via os garotos fazendo esse tipo de classificação das mulheres. Aquela que já deixava passar a mão no peito logo de cara (ora vejam só), não era pra namorar. Se algum amigo já tivesse comido, aí mesmo que a garota “não prestava”. 

É exatamente isso que tenho combatido aqui neste blog. Somos seres humanos, que transam na primeira vez, na décima quinta vez, ou nunca transamos. Isso não nos coloca numa escala de valor, onde quem é mais “fácil” vale menos. 

Como disseram no meio da discussão, qual de vocês nunca fez sexo casual, mas é “altamente namorável”? 

Eu não sei vocês, mas eu namoraria um cara sem me basear na vida sexual pregressa dele. E nem é porque eu já dei pra esse tantão de caras, não, mas sim porque o que me faz querer alguém do meu lado é a sua educação, o modo como ele me trata, a inteligência. Além as óbvias afinidades (gostos parecidos pra cinema, música, gastronomia, viagens), há também o modo como ele vê o mundo – e não ser preconceituoso é uma condição essencial para que eu goste dele. 

O machismo e o preconceito não se revelam apenas em palavras toscas e “sujas”. Não é só no “puta”, no “vadia”, no “macaco’, no “tinha de ser paraíba”. Ele se esconde em palavras bonitas e nas atitudes de gente que teve todos os meios de ser bacana, mas escolheu ser babaca.

E você? Vai escolher o quê?

ps: desculpem o post todo louco na formatação. não estou conseguindo ajeitar. 

Eu sou mulher e gosto muito de sexo

Vamos lá, machistas, misóginos e moralistas de plantão: INFARTEM com essa afirmação.

Eu sou mulher, gosto muito de sexo e faço muito sexo.

Não estão satisfeitos? A coisa pode piorar:

Eu sou mulher, gosto muito de sexo, faço muito sexo e lido bem demais com isso. Para completar, eu escrevo um blog a respeito.

Olhem só que merda, hein? Olhem só que coisa fora da curva, que coisa inesperada! Como assim mulher tem desejo sexual? Novidade grande pra você, que ontem fez um papai-mamãe ridículo na sua mulher, usando o corpo dela como um mero orifício: a gente gosta e muito dessa bagaça! O que talvez aconteça é que a gente não gosta de sexo com você, que usa a língua só para falar e ajudar a deglutir, e os dedos apenas para escrever críticas machistas e retrógradas.

Eu gosto de sexo e faço gostoso. Chupo, lambo, transo com dois homens ao mesmo tempo e ainda quero é mais. Falo com desenvoltura a respeito, sem ruborizar nem um segundo. Não tenho vergonha de falar que fui a um sex shop ou que pretendo ir a um show de sexo explícito. É sexo. É natural e é bom pra caralho.

E, ora vejam só: eu não sou prostituta!

As comparações com garotas de programa já cansaram. Eu juro que não me irrito mais com essa (é incrível: a cada porrada que eu tomo, a outra porrada fica pequenininha, pequenininha). Mas não consigo não pensar no caminho louco que a mente de alguém fez para chegar à conclusão de que eu sou prostituta, ou pelo menos deveria ser.

Eu não cobro porque não preciso. Eu não cobro porque faço por prazer. Eu não cobro porque tenho outra profissão. Agora, por quê “garota de programa” é xingamento? São mulheres e homens como nós; não são objetos. Objeto a gente compra no sex shop!

E aí hoje tem um babaca conhecido dos leitores dizendo o que eu deveria ou não fazer. Cobrar ao menos “cemzinho”. Disse que o que eu faço é “prostituição gratuita”. Não existe isso: eu transo de graça porque eu gosto. Triste é ver quantas pessoas aplaudem esse tipo de comentário, especialmente vindos de alguém que contou muitas de suas transas, tratando as mulheres apenas como um buraco.

Me deixo abater? Pra caralho! Eu sou humana e também tenho dias ruins. Quem reclama que eu reclamo devia vir aqui lavar minha louça. Quem de vocês, em uma semana, ficou na home do IG, depois entre as mais lidas da Globo.com e mais tarde INVENTARAM uma entrevista com você? Foi exatamente no período de UMA SEMANA.

Por tudo isso, o que eu quero dizer pros machistas e falsos moralistas é que talvez eu pare esse blog, sim, porque não estou feliz com ele. Mas jamais pararei de ser uma mulher livre, que busca o prazer e que é feliz assim. Isso vocês jamais conseguirão mudar. E há muitas de nós por aí.

Leiam dois posts sobre a merda toda que está acontecendo:

Cynthia Semíramis

Lola 

UPDATE: Copio aqui um email que recebi há algumas semanas. Esse leitor tinha curiosidade de saber quem eu sou. Bom, ele já sabe (é o rapaz que me dá muito trabalho e me aturou na quinta-feira passada, quando aconteceu o lance todo da globo.com):

Procurando quem você é cheguei a conclusão de que Letícias são muitas.
A lista de possibilidades de quem é a verdadeira Letícia na verdade me provou que a Letícia não é você, lendo esse email e digitando atrás desse teclado.
Cada transa, cada dia, cada mulher tem o seu dia Letícia. Seja com o número 3, o número 15 ou os números esquecidos.
Seja com aquele namorado bacana ou aquele ex filho da puta.

Assim como um mistério de Lost, ou o mascarado por trás do V, acho que não estou preparado para descobrir quem você é.
Na verdade acho que não quero descobrir. Ainda não apareceu o décimo negrinho, ainda aguardo a morte desejando ver o seu corpo de intocável e nu, adormecido, como no romance de Gabriel Garcia Márquez.

Vou carregar a Letícia junto comigo, em cada menina que aparece na minha vida.
Seja como amiga, como ficante, sexo casual ou namorada.
Como você mesma diz, você não é “nada demais”, você não é “diferente”.
Você é apenas uma mulher, que tem coragem de fazer o que quer, com a força para admitir e contar.
Existe um pouco de Letícia em cada um desses perfis que encontrei.

Se não existe, deveria.

Um grande beijo.

De um fã, um admirador e alguém que vai ficar com vontade de tomar uma cerveja com você por muito tempo.

E você? Também é Letícia?