Ciúme não salva, ciúme naufraga

Sempre me achei uma mulher ciumenta. Está lá na descrição astrológica do meu signo (sou escorpiana) e tudo. Aceitei como verdade e, ao me perguntarem se eu tinha ciúme, respondia que sim.

Fazia ressalvas: “não tenho ciúme de familiares ou de amigos”.

Com namorados, era meio desconfiada, mas nunca criei caso para eles saírem sozinhos, irem beber uma cerveja com os amigos, jogarem bola sei lá qual dia da semana. Eu achava isso natural, uma vez que eu também queria meus momentos sozinha. Se o cara SÓ quisesse fazer programas sem mim, aí sim eu acharia estranho.

Hoje sou adepta das relações abertas, mas lembro perfeitamente quando tinha 16 anos e um namorado de quem gostava muito. Eu amava sair à noite para esses lugares que tocam música de rádio. Ele detestava. Decidimos que eu ia a uma festa e ele não. Como fui me arrumar na casa de uma amiga, ele passou lá para me ver. Queria saber como eu ficava maquiada, de vestido e de salto (não usava nada disso na época). Fez elogios, me deu um beijo e voltou pra casa. Eu fui pra night.

Maduros? Não. Nós tínhamos 16 anos! Só que existem coisas que são básicas: o direito à intimidade é uma delas.

Quero dizer, eu achava.

De vez em quando ouço histórias de namoradas (e namorados) que fuçam carteira, celular, gavetas. Sempre acho exagero de quem está contando. Não é possível que exista alguém assim, penso.

Até comprar uma revista feminina esse mês.

Na capa, a chamada: QUANDO O CIÚME PODE SALVAR SEU RELACIONAMENTO.

What? Repita, por favor:

QUANDO O CIÚME PODE SALVAR SEU RELACIONAMENTO

Calma. Isso só pode estar errado. Ciúme faz relacionamento naufragar, isso sim. Deve ter sido um erro de diagramação.

Fiquei repetindo isso como mantra, mas aí abri a revista na página da reportagem. No subtítulo: “Mas calma: se você souber usar esse ‘excesso de cuidado’ a seu favor, vai conseguir deixar o cara ainda mais apaixonado”. Gente? Até na hora de ser uma louca varrida a intenção é “segurar o gato”?

A reportagem indica 12 passos para a “recuperação” do ciúme – na verdade, de demonstrações de ciúme, para que o namorado não perceba que você está no encalço dele. Afinal, “você não quer dividi-lo com ninguém. É como se o ciúme funcionasse como um detector de ameaças, acionado toda vez que uma periguete entra em cena” (palavras da revista. slut shaming incluído).

Segundo a revista, tudo bem ser ciumenta, porque o gato já sabia desse seu traço de personalidade e se beneficia com isso (?).

Mas o que me deixou passada, mesmo, foi um dos 12 passos, logo o primeiro, que copio integralmente abaixo. O grifo ao final é meu.

Admito que sinto ciúme, sim

Você não é a última e nem a primeira mulher a ter ciúme. Então, não se sinta péssima porque perdeu a linha uma hora ou outra – seria preciso ter um coração de pedra para não pirar com certas situações. Não é fácil definir até onde o ciúme “normal” vai – a linha é tênue! Um bom termômetro é prestar atenção em quanto tempo você gasta com ele. O ideal é não ultrapassar uma hora por dia, duração necessária para se incomodar com algo e resolver, seja falando com o gato, seja sozinha.

UMA.HORA.POR.DIA.SE.ESTRESSANDO.COM.CIÚME.

Uma hora a menos de sono, um episódio inteiro de The Big C, várias páginas de um livro, um banho maravilhoso cheio de coisas cheirosas. E, se for pra incluir o gato, imaginem o tanto de coisa que dá para fazer com ele em uma hora!

Somando tudo, dá para fazer uma PÓS GRADUAÇÃO no tempo em que uma revista feminina, em 2013, diz para você se preocupar com ciúme.

Depois tem um monte de outras baboseiras, mas foi ali que descobri que as pessoas instalam Google Latitude no celular do namorado. Eu super achava que estava stalkeando algum bonitinho por ler o twitter dele de tempos em tempos, mesmo sem segui-lo.

Eu já fiz muita cagada em relacionamentos amorosos. Várias delas em razão da insegurança, que também é motor do ciúme. Mas esta insegurança estava em mim mesma, não no meu parceiro. Ele não era culpado pelas coisas que eu sentia – e, se eu continuei sentindo, mesmo quando mudei de parceiro, é porque de fato o problema era comigo. Sou EU que tenho que resolver isso.

E não para agradar o gato, como dizem as revistas femininas, mas porque eu mesma não posso sofrer e sofrer e sofrer em razão de um problema pelo resto da minha vida. Segundo a revista, posso perder uma hora por dia com isso. Acho que tenho coisas melhores a fazer.

Trocando a capa

A autora Maureen Johnson escreveu um excelente texto sobre mulheres e literatura. Infelizmente é em inglês e um pouco longo, mas eu recomendo demais a leitura.

Ela conta como vê o papel da mulher no mundo literário. A crítica ao baixo número de autoras e à escolha de autores homens nas aulas de literatura são recorrentes no meio feminista.

Livros escritos por mulheres são vistos como vazios, frívolos, bobos. Maureen diz que até as capas são diferentes, dependendo do gênero do autor*.

Ela então propôs aos seguidores no Twitter que eles criassem capas diferentes para livros. Se o autor fosse homem, deveriam criar uma capa “feminina” (mil aspas pra esse papel de gênero ridículo). E vice versa.

O resultado é meio assustador, de tão real e certeiro.

Vejam alguns exemplos:

Vocês podem ver outros exemplos aqui no Huffington Post.

*sim, eu faço um mea culpa sobre a capa do meu próprio livro. nunca escondi isso de ninguém. comprem bastante que é para fazermos uma segunda edição e eu mudar isso. 

 

Atirando para todos os lados – e acertando na sua autoestima

A imprensa funciona assim: se falar que uma celebridade X diz que é possível ter prazer anal, mesmo que todos nós já saibamos disso, ela vai dar isso na home para gerar muito clique. E vai gerar.

Para algumas publicações (não todas), vale também o famoso “jabá”. Compra-se espaço em revistas, jornais, sites, blogs – e daí você de repente tem um novo “look” que você “precisa compor”. PRECISA.

E gera grana.

Tudo bem óbvio, não?

Infelizmente nem sempre a gente percebe os meandros desse jogo, pois a mesma corporação é dona de diversas empresas e marcas. Então, uma companhia pode te dizer que o odor da sua menstruação (ou da sua buça) é insuportável e te vender absorventes perfumados. Você acha que é suficiente, mas aí eles vêm com o sabonete íntimo. E por aí vai.

Como diria a agora já velha frase de Jerry Maguire: “Show me the money”.

É pela grana que fazem você se sentir assim, feia, bizonha e mal vestida.

Mas e quando a mesma empresa/publicação se contradiz?

Foi o que aconteceu nos Estados Unidos. A revista Seventeen (tipo uma Capricho) fez uma campanha de “ame seu corpo”, o Body Peace Treaty. Noventa mil garotas assinaram. Entre os tópicos, estão as promessas de:

  • Aceitar as mudanças pelas quais meus corpo está passando. Vou celebrar minha nova forma e curvas. Vou arrasar!
  • Não deixar meu tamanho me definir. É muito melhor focar em quão incrível eu fico com meus jeans do que no número da etiqueta.
  • Lembrar sempre que o que eu vejo na TV e em propagandas não é real – rola photoshop, dieta, grana e malhação para ficar com aquela aparência.
  • Pensar que o sol vai surgir amanhã, mesmo que eu tenha comido muitas fatias de pizza ou tomado um sorvete hoje à noite.

A lista de coisas fofas e ounnnnnnn está aqui (em inglês).

Então pensamos “nossa, que bacana uma revista voltada às adolescentes fazer isso. É realmente muita pressão social, em especial nessa época, quando nossos corpos ainda estão se desenvolvendo, nossa autoestima fica abalada, etc, etc, etc”.

Só que não.

A mesma revista é a patrocinadora da nova edição de The Biggest Loser (Perder para ganhar, no Brasil), aquele reality show em que as pessoas fazem dietas super restritas e exercícios físicos pesados. A 14ª  temporada do programa será com… adolescentes!

Ué, não era para a pessoa se sentir bem no próprio corpo?

Vejam: eu sou gorda, todo mundo sabe disso, e não sou do time “seja gordo e não se importe com a saúde”. Quero dizer, essa é uma decisão individual e sei que, quando se é adolescente, fica mais difícil pensar na vida dali a algumas décadas e em como seu corpo estará.

Porém, o patrocínio de um programa como esse, em que os participantes são ridicularizados e culpabilizados de maneira cruel pela gordura (como se fosse um crime capital), não me parece uma iniciativa coerente com quem pretende fazer uma campanha de “ame seu corpo”.

Com a parceria, uma das competidoras, Sunny Chandrasekar, irá atualizar um blog na Seventeen sobre sua participação em The Biggest Loser. No vídeo de inscrição, a jovem diz o motivo pelo qual gostaria de ser escolhida:

“Eu quero me amar… o que é difícil pra mim, com esse peso. Em segundo lugar, quero estar incrível na minha festa de formatura.” Quer dizer: nada de amor próprio se você for gorda, nenhuma chance de estar bonita na formatura se não emagrecer.

A mãe de Sunny também fala na entrevista: “O meu maior arrependimento na vida… é ter deixado minha filha entrar nesse ciclo de ganho de peso”.

A incoerência da revista se explica de um jeito: fazer a campanha de “body positivity” pega bem, é boa mídia espontânea, tem efeito bacana depois de serem acusados de exagerar no photoshop. Gera venda de revista.

Por outro lado, patrocinar um programa de TV é fazer propaganda. Gera venda de revista.

Quanto a “querer dinheiro”, eles são bem coerentes. Nada contra ganhar dinheiro – como digo sempre, a Eletropaulo precisa ser paga. Mas cuidado com certas “filosofias de vida” que você vê na TV, em revistas, em livros, em blogs (inclusive aqui).

Pense, repense, conteste, considere os motivos por trás de cada coisa. E, ao final, escolha o seu melhor caminho.

Vou romper é a sua cara

Fora algumas conversas no grupo do blog no Facebook, eu não fiz muitos comentários sobre o leilão da virgindade. Primeiro porque eu não preciso ter opinião sobre qualquer assunto que envolva sexualidade e mulheres; segundo porque tenho preguiça. Muita mesmo.

Mas já que o assunto volta à tona em razão da capa da Playboy de janeiro, tenho apenas três comentários – e não vou me alongar neles.

1) Catarina é dona do corpo dela e pode fazer o que quiser com ele. Fato incontestável. Ela chegou a dizer isso em alguns programas de televisão. Me contaram que ela se saiu muito bem em entrevistas “pegadinhas”. Ok. Ótimo. Empoderamento. Mas, ao mesmo tempo, não me parece razoável ter o discurso de “poder sobre o próprio corpo” (um lema super feminista) e dar valor (em dinheiro, mesmo) a uma invenção patriarcal, que é a “virgindade”.

2) Muita, muita, muita, muita gente disse “ah, se na minha época houvesse coisa do tipo, eu também leiloaria e ganharia uma grana e blá blá blá”.  Você não é mais virgem, mas deixa eu contar um segredinho: prostituição existe e você pode ganhar dinheiro fazendo sexo. Talvez você até ganhasse mais do que aparece no seu contracheque. Você topa? Hum. Foi o que pensei. Então, não, você não “faria o mesmo se na sua época tivesse um leilão”.

3) Primeiro, a “noite num avião sobrevoando o mundo inteiro e sei lá mais o quê” foi adiada porque Catarina veio ao Brasil participar de um desfile (???). Aliás, ela nem desfilou, porque os patrocinadores não quiseram ver suas marcas ligadas à imagem da mulher que – oh! – faz sexo. Agora, segundo informação da assessoria de imprensa, estão esperando uma “decisão judicial para que o ato possa ser consumado”. Qual será a próxima desculpa?

Bom, depois dessa não tão pequena introdução, vamos à capa da Playboy, motivo deste post.

*suspiro de muito cansaço*

*mas muito mesmo*

Vamos às obviedades:

O rosa predominante na capa, como se tudo o que fosse feminino e girlie fosse rosa. Ai, os insuportáveis papéis de gênero!

O urso de pelúcia, como se uma mulher que decide expor a vida sexual e ganhar dinheiro com isso ainda brincasse com ursinhos.

Rosa + Ursinho = ninfeta, precisa de você, garanhão comedor. 

RONC!

Mas o pior, ah, minhas caras, o pior: CATARINA – A VIRGEM! Para romper o ano e trazer gostosas vibrações para 2013.

Já escrevi mil vezes a respeito e irei fazê-lo quantas vezes forem necessárias, até que finalmente se entenda: HÍMEN NÃO É UM LACRE.

Logo,

Ele não é ROMPIDO;

Pintos não são britadeira e/ou têm uma força capaz de “furar uma mulher”;

Logo após essa MÁCULA no corpo da mulher, ela continua IGUALZINHA. Você, homem, com seu falo de ouro, não modifica uma mulher só porque a penetrou.

A ideia de rompimento dá a impressão de que sexo é algo violento, dolorido, sujo – e que, por isso, deve ser evitado. A quem serve a gente continuar falando desse jeito a respeito de uma das coisas mais deliciosas das nossas existências?

Isso é um lacre:

Lacres são usados em PRODUTOS, não em gente. Não desumanizem mais as mulheres, tratando-nos como coisas – neste caso, restringindo-nos a uma pele que você nem sabe como é.

Sim, porque muita gente pensa que o hímen é, de fato, uma pele que bloqueia a entrada da vagina. Vamos colocar os neurônios para funcionar? Por onde sai o sangue da menstruação? Logo, é evidente que já existe um orifício ali. Não foi seu pinto-britadeira que o abriu.

Há pessoas que nascem, sim, com o hímen totalmente fechado, mas elas passam por cirurgia para abrir o orifício e o sangue poder sair.

Agora que você já conhece o que é um lacre (se ainda não tinha visto em remédios, no pote de maionese, sei lá), agora eu te apresento… o hímen!

Viram? Já têm o buraco!!! Oun, tadinho do moço que acha que está TIRANDO a VIRGINDADE de moças incautas.

Você pode perguntar o motivo pelo qual sangra. Algumas de nós não sangramos após a primeira penetração (eu não sangrei); outras sangram porque o parceiro foi violento demais; outras porque nunca introduziram outras coisas – como um vibrador ou o próprio dedo.

À medida em que você vai acariciando lá dentro, o hímen vai ficando mais e mais soltinho e é por isso que as relações seguintes à primeira tendem a doer um pouco. Depois passa.

Mas nunca – nunca – o homem é responsável por “romper” a sexualidade de uma mulher. Não somos como aquelas pizzas que chegam com um aviso no lacre: “não receber se estiver rompido”.

Leia também:

Quebrando paradigmas: virgindade

É só uma membrana, às vezes nem isso

UPDATE:

Pra quem ontem ficou criticando e etc etc etc etc etc, aí vai outra capa da Playboy. Colocando a mulher como ninfeta, usando rosa, acariciando um ursinho. So cute!

Dica da Gabriela Martins.

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Esta luta também é sua

Eu não ia falar sobre o comercial da Hope. Tinha lido diversos textos brilhantes acerca do caso (cujos links você encontrará ao longo e ao final deste post) e, sabendo que não chegaria nem aos pés de certos argumentos de quem conhece muito mais sobre feminismo, achei melhor ficar quieta.

Mas aí li este texto no Papo de Homem. O título já dá uma ideia do que vem depois: “Comercial de lingerie comprova: feministas são chatas pra caralho”. É um desfile de clichês, vistos em qualquer discussão sobre o papel do feminismo. Com veemência, Rodolfo Viana diz “as feministas veem agressão em tudo!”. Rodolfo comete, só no primeiro parágrafo, dois grandes erros. Ele diz que as feministas lutam pelas causas erradas e fala como se elas, as tais feministas, fossem um núcleo separado do resto da sociedade, como se fosse possível juntar todo mundo num grupo só e apontar. “Olha, lá vão as feministas.”

E, partindo da ideia ridícula que grande parte das pessoas têm, seria muito fácil identificar-nos. Bastaria procurar uma mulher de bigode, axila peluda e gorda. Muitos dos comentários – ali e em qualquer lugar em que se traga o sexismo à tona – corroboram a visão do autor. Somos todas chatas, mal comidas e invejosas. E lutamos pelas causas erradas.

Você tem certeza disso?

Rodolfo obviamente não conhece as lutas feministas. Menospreza o movimento que, ora vejam só, não é necessariamente organizado e certamente não é homogêneo. Na discussão dos comentários, alguém disse “porra, com tantas vertentes, fica difícil dar um passo sem pisar no calo de alguma feminista”. Mais um ponto para a ignorância.

Se você acha que essa discussão não tem nada a ver com você, eu pergunto novamente: tem certeza disso?

Feministas não somos apenas nós, mulheres. Assim como há muitas (muitas e muitas e muitas) mulheres machistas, há – felizmente – muitos homens feministas.

Não é preciso, também, estudar a história do feminismo para defendê-lo. Tampouco ler os blogs feministas, ainda que as duas coisas sirvam para dar um maior embasamento teórico em algumas discussões. Mas já há muita gente boa e bacana produzindo conteúdo irrepreensível a respeito do assunto.

Ler sobre a causa pode nos fazer repensar alguns conceitos e identificar quais nossos comportamentos machistas. Às vezes a gente nem percebe. Eu, por exemplo, costumava dizer que “mulher no volante é perigo constante”. Fomos criados em uma sociedade patriarcal; só nos livraremos dessas ideias tão arraigadas lendo, conversando, observando. Se ficarmos parados, é grande a possibilidade de continuarmos repetindo os mesmos padrões ensinados há décadas.

Chegamos a duas conclusões: não é preciso ser mulher e nem ter embasamento teórico para ser feminista. Então, como saber se sou uma?

É bem simples. Faça uma autocrítica. Veja as frases que você diz por aí. Você realmente acredita que há “coisas de mulher” e “coisas de homem”? Você acha razoável uma mulher ganhar menos que um homem, mesmo exercendo igual função? Você acha que uma mulher de saia curta está assumindo o risco de ser estuprada?

Dependendo das respostas às perguntas acima, acho que você consegue identificar de que lado você está. Não acredito na existência do bem e do mal, do certo e do errado. Você pode ser um pouquinho machista, sim. Como disse antes, todo mundo é (ou já foi). Perceber isso e continuar agindo da mesma maneira é que te deixa – aí sim – do lado errado da coisa toda.

Se você, homem, não acredita que o machismo te atinja, peço que veja o vídeo abaixo. É em espanhol, mas acho que dá para entender a ideia central do comercial:

Alguns defendem que o problema são as “feministas radicais” (desculpe-me, mas o problemas não são elas. elas nem existiriam se não fosse o machismo). Chegaram até a cunhar um apelido para elas: feminazi. Isso diz tanto sobre quem repete o apelido… comparar feminismo (que defende direitos iguais entre homens e mulheres) a nazistas é demonstrar quão estúpido você está sendo, só com uma tentativa babaca de reafirmar seu machismo e, de lambuja, ser “engraçadinho”.

Alex Castro fez um texto ano passado sobre a falta de consciência que algumas pessoas têm sobre serem ou não machistas. Peço licença ao dono do Oliver para reproduzir aqui um trechinho exatamente sobre o que eu disse acima:

Feminismo é a busca por direitos iguais para as mulheres.

Machismo é a dominação do homem sobre a mulher.

Os dois termos não são, nunca serão, não podem ser análogos. É uma falsa simetria. É como reclamar de não haver um Dia da Consciência Branca.

Portanto, falar que “as feministas são tão ruins quanto os machistas” só expõe, mais uma vez, o seu próprio machismo.

A feminista mais radical não tem como ser pior do que o machista mais brando. Por definição, é impossível.

Como disse Alex, calma, tem cura. Mas antes você precisa ver que sim, você pode ser machista. Se você acredita que a propaganda da Hope não tem nada de errado, você é machista, sim.

Não vou me alongar (mais) sobre a tal propaganda. Coloco no fim do post vários links de textos a respeito, muito bem escritos, gostosos de ler, esclarecedores.

O que me estarreceu nisso tudo – e é o motivo deste post – é a dificuldade em enxergarmos quão machistas somos. É feio assumir isso, né? É melhor desconstruir o feminismo, dizendo que somos feias e mal comidas, ou que não temos pelo quê lutar. Pega mal dizer que lugar de mulher é na cozinha, mas na primeira oportunidade você deixa sua mãe/irmã/namorada cozinhando e lavando a louça. Você  diz pra todo mundo que acha um absurdo quando uma conhecida apanha do namorado/marido, mas quando é uma desconhecida você diz “alguma ela aprontou”.

Isso é machismo. Observe. Repense. Ainda dá tempo de mudar.

UPDATE: Paulo Moreira Leite escreveu um belíssimo artigo sobre feminismo, liberdade de expressão e propaganda. Sejamos menos ingênuos, minha gente. “Liberdade de expressão” não serve para tudo. Recomendo a leitura.

O machismo nosso de cada dia

Calcinha é bom mas respeito também

Não é só propaganda

O sexismo benevolente

Hildegard Angel e as mulheres feias: Iriny x Gisele

Marjorie Rodrigues e uma análise bem mercadológica da coisa toda 

Você riu da propaganda? Blogueiro mostra como a história aconteceria na vida real 

 Vergonha de quem se recusa a pensar

Estreiteza de mente

Tenho muitos amigos gays. Um deles é bem conservador, ainda que ele não se enxergue dessa maneira. Conversávamos durante um almoço e eu disse que as atitudes dele eram contraditórias. Defendi a tese de que ele deveria apoiar outras minorias, por saber como é fazer parte de uma. “Não acho”, respondeu. “Minha vida é totalmente normal, não deixo de fazer nada por ser gay.”

- Você pode beijar seu namorado onde você quiser?

- Não, ele respondeu com um fiapo de voz.

Isso porque ele mora em São Paulo, a maior cidade do país, cosmopolita e não sei mais o quê. É, nesta mesma cidade onde pessoas tomam lâmpadas na cara só por alguém desconfiar da sua orientação sexual. É, nesta mesma cidade onde amigos já tiveram de correr pelo meio da rua para fugir de agressores. E não foi uma e nem duas vezes, não.

A intolerância com o outro se expõe das mais diversas maneiras. O que eu não consigo compreender é essa coisa de não aceitar que um outro grupo tenha direitos. Ninguém está tirando o seu direito, só aumentando a gama de proteções. Hoje um rapaz fez a pergunta no Twitter: “se um gay e um hetero brigarem, o hetero não pode bater no gay?”. A hipótese é muito simplista, mas exemplifica bem como se comporta nossa sociedade, cheia de “achismos” idiotas e retrógrados.

É como a coluna de Guilherme Fiúza na revista Época. O articulista começa o texto dizendo que a ideia do dia do orgulho hetero é “idiota, mas coerente”. Segundo ele, a instituição da data é uma espécie de resposta à “exacerbação da cultura gay”. Para Fiúza, “quem não tem orgulho gay, ou não simpatiza com a causa, está na berlinda”.  Honestamente não acho que é necessário haver um “orgulho gay” (mas tenho), só que defendo com veemência que não exista nenhum tipo de restrição a qualquer outra pessoa, nem baseado em orientação sexual, nem em raça, nem em condição social, nem mesmo pela roupa que a pessoa veste. Disseram em um comentário no blog da Lola que eu defender isso era utopia (a crítica era ao fato de eu reclamar de patrulharem minha buça), “que os hippies já tentaram isso na década de 1960 e não conseguiram”. Talvez tenham razão e a luta seja, no final, inglória, mas eu não consigo viver no mundo sem tentar aparar algumas arestas. Lembro que num mundo em que se acha normal patrulhar a vida sexual de alguém (seja homo, hetero, pan; mono ou poligâmica; puta ou santa), também se acha normal patrulhar até cortes de cabelo.

 

Fiúza deixa tudo muito mais nebuloso ao longo do texto. Diz que o dia do orgulho hetero (zzzzzzzz) “é herança legítima do movimento gay, ou pelo menos de sua face totalitária, difundida pelos evangelizadores do politicamente correto”. Hã? Isso foi a sério? Face totalitária do movimento gay? E se ser politicamente correto é defender que sejamos todos iguais formal e materialmente, então eu sou assim.

 

O que me deixa perplexa é que já passou da hora de pararmos de reverberar esses achismos, como o fez o tal garoto da frase infeliz no Twitter. A internet está aí, com incontáveis artigos debatendo e explicando as razões pelas quais alguns grupos precisam de leis especiais, como é o caso da Maria da Penha ou da homofobia. É preciso parar de repetir à exaustão o tal “somos todos iguais perante a lei”, porque o ordenamento jurídico não se resume a uma frase; existe todo um arcabouço legal e teórico para sustentar o tratamento desigual de quem é, na prática, desigual. 

 

Eu não poderia falar melhor sobre isso do que os autores abaixo. Recomendo todos, sempre. 

 

O dia do medo macho, por Eliane Brum

Igualdade e falsas simetrias, por Túlio Vianna  

Que vergonha de ser hetero, por Leonardo Sakamoto 

A eterna parada dos sem noção, por Lola Aronovich

Os perigos do nada contra, mas, por Matheus Pichonelli
Carta aberta ao prefeito Gilberto Kassab, por Jean Wyllys

 

E, pra terminar, um vídeo que alguém me mandou no Twitter recentemente (desculpe, não lembro quem é e não posso dar o crédito).