“O feminismo quer acabar com as gentilezas!”

O moço bonito fez um movimento estranho. Pegou no meu braço como se eu fosse um bonequinho, uma peça de jogo, e me fez mudar de lugar na calçada.

Ele sempre faz isso. Eu acho curioso, apesar de ser meio muito irritante. Questionei. “Como você pode ser feminista, saber que eu sou feminista, e ficar com essa bobeira de que você tem que andar do lado de fora da calçada?”

Não há resposta, na verdade. Ele faz automaticamente, o tempo todo. Costume puro. Ele sequer se questiona porque em 2012, em plena Rua Augusta, ele se apega a idiotices do século passado.

“Ai, as feminazis estão acabando com as gentilezas!” 

Nada disso, senhoras e senhores. Queremos acabar com o cavalheirismo, com o sexismo benevolente, com a ideia de que precisamos ser protegidas só porque somos mulheres.

Gentilezas, queremos sempre. Mas não porque eu sou mulher e você é homem, mas porque somos humanos e gostamos de agrados. Segure a porta, por favor. Pague a conta eventualmente, se a grana estiver sobrando. Me ajude a carregar os pacotes pesados, caso esteja com as mãos livres. Eu farei o mesmo por você, sempre.

Contei a outro amigo bonito e feminista (e ex-inquilino do meu coração <3) que o moço barbudinho fazia questão de andar do lado de fora da calçada. Ele ficou surpreso. Desconhecia tal “regra”. Dei um google rápido e cheguei à reportagem reproduzida abaixo em itálico. Os grifos no meio do texto são meus.

Veja 10 atitudes que fazem de você um perfeito cavalheiro

As mulheres reclamam que não existem mais homens cavalheiros nesse mundo mas, em parte, a culpa é do público feminino (claro, claro, a culpa é nossa).

Com a luta pela igualdade que vem desde os anos 60 (vem de um pouco antes, moço. ih, bem antes), algumas atitudes cavalheirescas passaram a ser erroneamente taxadas de misóginas ou machistas (misóginas, não; machistas, com certeza) e muitos homens, loucos para colocar seu casaco sobre uma poça d’água, acabam temendo reações exaltadas das moçoilas. (gente, que mané casaco em cima da poça d’água. Dá a volta, muda o caminho! Ninguém precisa sujar a roupa)

Ser cavalheiro não é tratar a dama como algo frágil e desprotegida, mas sim, mostrar uma admiração e preocupação pela mocinha, valorizando-a. (~valorizando-a~, risos)

Sendo assim, listamos dez atitudes que ainda devem ser praticadas por você, macho da espécie, e que seguramente vão fazer com que o primeiro encontro não seja o último. (macho da espécie. num aguento esse discurso, assim como não aguento a ideia de que há um roteiro único e pré-estabelecido para que a pessoa queira sair com a outra de novo)

1. Ao andar na calçada com ela, você fica para o lado da rua: esta tradição vem dos tempos antigos onde as mocinhas, ao caminhar pelo lado interno da calçada, eram protegidas pelas sacadas e balcões das casas e, assim, não corriam o risco de serem atingidas por vasos ou qualquer coisa atirada pela janela. Hoje o cavalheiro, ao andar pelo lado de fora, a está protegendo do tráfego e eventualmente de poças de água atingidas pelas rodas de carros.

Protegendo do tráfego? Mas não estão na calçada? Sobre essa parte histórica, eu já li outras “explicações”, todas igualmente idiotas.

2. Na escada rolante, existe ordem dos fatores: ainda no sentido de proteção, ao entrar em uma escada rolante que sobe o homem deve dar a passagem à dama, mas quando for o sentido inverso, ou seja, a escada desce, é o cavalheiro que vai na frente. E por que isso? Se a mocinha se desequilibrar, o rapaz estará lá para segurá-la. Sinta-se um herói por isso.

Só na escada rolante? Na verdade, seria em qualquer escada. E o cara tem que ser ~cavalheiro~ pra ele se sentir um herói? Vamos parar com essa mania de só fazermos algo para sermos beneficiados de alguma forma?

3. Ela se senta antes: é sempre muito elegante puxar a cadeira para uma moça se sentar. Mostra que você a quer confortável e à vontade. Em restaurantes, porém, onde o maitre ou o garçom fazem essa distinção, você deve aguardar para que ela sente primeiro, sem dar muito na cara.

Cara, se há regra até pra ordem das pessoas se sentarem, não há como se sentir à vontade. E por que sem dar muito na cara quando há um garçom para fazer isso?

4. Abra a porta do carro: aqui é um ritual interessante que faz um sucesso tremendo no primeiro encontro, mas não deve ser esquecido nos seguintes. Espere a daminha fora do carro. Quando ela chegar, abra a porta do seu carro, deixe que ela se acomode confortavelmente. Feche a porta, contorne o carro POR TRÁS, e só então entre. De Fusca a Ferrari, a regra é a mesma.

Quem tá se irritando com esse cara se referindo à mulher SEMPRE no diminutivo? Daminha? De honra? E esse lance de contornar o carro por trás? Essa parte desconhecia. Eu abro porta do carro às vezes. Gosto, até. Mas aquela parada que a gente vê às vezes do cara saindo do carro para abrir a porta por fora, enquanto a mulher fica sentadinha esperando, é absolutamente patética.

5. Segure a porta para ela: em qualquer pesquisa que você ler, 90% das mulheres acham que um homem que segura a porta para ela passar é o máximo. E você não deve praticar isso só com quem conhece e não só com mulheres. Demonstrar respeito e educação pelos outros não arranca pedaço.

Por favor! Segure a porta sempre.

6. Ofereça seu casaco: em tempos de aquecimento global (onde a temperatura muda a todo instante) e de moda com os ombros para fora, essa regra é mais atual do que nunca. A mocinha, no sentido de ficar sensual para você, poderá usar uma peça de vestuário mais aberta e, se o tempo mudar, seguramente vai passar frio. Se você notar que sua companhia feminina está desconfortável com o clima, imediatamente ofereça seu casaco a ela. Mesmo que ela recuse, repita a oferta se notar que a temperatura está caindo. Lembre-se: você é um homem, logo você pode sentir frio. Ela não.

De novo o diminutivo. De novo a ideia de que a mulher se vestiu só para agradar o cara. Todo mundo gosta de agrados e todo mundo gosta de fazer o bem pra quem estima. Mas não se pode assumir que a mulher se vestiu assim ou assado com a intenção de ser sensual.

Não entendi porque o homem pode sentir frio e eu não. Isso me lembra o Planeta Terra do ano passado. Uma colega de faculdade estava com frio e eu não. Emprestei meu casaco pra ela. Ficou enorme! Fui um bom cavalheiro? Mas ei, eu sou mulher e não queria pegar a garota. E agora? Será que ela estava de blusa sem mangas porque queria me seduzir? Hummmm….

7. Ofereça seu lugar: mais uma regra que deve ser aplicada para qualquer mulher, conhecida ou não, e também para idosos e portadores de deficiência (digo tudo isso, porque mesmo nos locais onde existem assentos reservados a esse público, muita gente não respeita). No caso das mulheres, uma atitude dessas mostra que você está colocando o bem-estar dela acima do seu e sabe o que isso significa na cabeça feminina, não é?

Juro que não entendo essa “regra”.

8. Faça o pedido no restaurante: hoje as mocinhas trabalham, têm seu dinheiro e são mais independentes. Dividir a conta no restaurante é atitude comum e não ofende ninguém (menos no primeiro encontro, rapaz. Lembre-se que você quer impressionar). Acontece que, apesar de tudo isso, ainda é de bom tom o homem fazer o pedido do casal, uma vez que denota um interesse em deixá-la mais confortável e mais à vontade, não tendo que se preocupar com esses chatos detalhes operacionais da refeição.

Por que eu ficaria impressionada com um cara pagando a conta? Por que ele seria o “provedor”? Mas eu não quero um provedor. E é um fucking primeiro encontro, não é casamento! Eu acho que pagar a conta (ou a pipoca, ou a pizza, ou a água num passeio no parque) é uma gentileza, sim. Mas que independe de gênero, e sim de disponibilidade financeira para tanto.

Eu adoro pagar coisas pros amigos. Infelizmente isso está difícil nos últimos tempos (fuén), mas há de mudar!

9. Se estiver chovendo, você segura o guarda-chuva: aqui acontece aquela oportunidade maravilhosa de andar agarrado um ao outro, mas o objetivo é mantê-la seca. Sendo assim, se o guarda-chuva for pequeno demais para os dois, você, macho da espécie, deve se molhar mais. Com certeza, você passará aquela imagem de que se preocupa com os outros, especialmente pelo conforto dela.

Bom, se você está saindo com alguém, você já pode andar agarrado sem precisar da desculpa da chuva (is this 1920 all over again?). E não há regra pra segurar um guarda-chuva! Depende da altura da pessoa e mais um monte de variáveis. Mais uma vez: há que se fazer o que for mais confortável. Mas o lance é passar a ~imagem~, macho da espécie?

10. Acenda o cigarro dela: mesmo em uma época de cruzadas antitabagista, ainda vale a pena resgatar uma tradição dos filmes dos anos 40 e rapidamente pegar seu isqueiro quando a ver colocando um cigarro na boca. Se não é cavalheirismo, pelo menos é charmoso pacas.

Acabaram as regras e o autor inventou essa, né?

Bom, repito o que disse lá em cima: feministas não querem acabar com gentilezas, mas com o cavalheirismo. Porque, ao contrário do que o autor falou, todas essas regrinhas surgiram por causa da ideia de que a mulher é, sim, inferior. Isso tem que mudar.

Sei que muitos de nós nem me tocamos do sexismo em algumas atitudes. Outro dia compartilharam no Facebook uma foto do “Cara, sua namorada é machista” em que a moça não falava com o garçom.

Eu fiz um mea culpa. Anos atrás eu era tão tonta que ainda dizia para o meu par “pede uma coca cola pra mim?”. Juro. Eu dividia a conta, dirigia o carro, dava na primeira noite… mas agia feito uma boba para falar com o garçom!

Eu simplesmente repeti um comportamento, porque foi assim que vi o mundo girando e não me perguntei porque era daquele jeito. O curioso é que eu saía sozinha sem problemas (e, portanto, fazia meus próprios pedidos em restaurantes), mas quando estava em companhia masculina (que podia ser só de um amigo), era tomada por uma espécie de leseira baré e me colocava na posição de mulher-frágil-e-delicada. Coisa que, aliás, eu definitivamente não sou.

A partir do momento em que me dei conta do sexismo embutido naquela ação, eu a abandonei. Com certeza faço outras coisas do tipo, sem perceber o que há por trás. E, quando perceber/for informada, deixarei de lado, sem culpa por ter repetido um comportamento durante anos.

Porque foi essa a criação que tive, é esta a sociedade em que estou inserida. Mas é preciso deixar tudo que se baseia na superioridade de uma pessoa sobre a outra (por questões de gênero, classe social, orientação sexual, ou o que quer que seja). Porque não dá para ser “meio” feminista. Não dá para escolher o que me é conveniente. Tudo faz parte do mesmo sistema patriarcal e opressor.

E, por isso, o moço barbudinho vai ter que parar com aquela mania ridícula quando estiver comigo.

“Gordos e feios fazem sexo com mais vontade”

Será?

Ontem as Blogueiras Feministas publicaram um texto falando sobre esse mito de que nós, as gordas, fazemos tudo na cama como forma de “agradecer” pela graça alcançada (isto é, de arranjar alguém que nos coma).

Ela parece precisar da sua aprovação (isto é, que você transe com ela) para melhorar a autoestima?

O primeiro parágrafo explica tudo:

“Na luta das mulheres contra a balança, a gente que sai ganhando”

Essa frase eu ouvi a uns dias atrás quando estava próxima a um grupo de caras que conversavam sobre os planos para o final de semana. Um dos rapazes comentou que estava com tanta vontade de transar, que naquele dia “comeria” até uma mulher gorda. Nisso um outro rapaz complementa dizendo que então o dia estava ganho, porque mulher gorda não diz não, ela transa com qualquer homem, as gordinhas aceitam qualquer coisa.

Hoje, percorrendo os comentários num desses ~sites para o público masculino~ fui obrigada a ler o seguinte: “Quem tem mais experiência vai concordar que uma mina feinha tem mais motivação pra mandar bem na cama”.

MY EYES, MY EYES!

E ela?

Infelizmente esta ideia é repetida tanto por aí que já virou quase verdade absoluta. Ouço insinuações do tipo há mais de uma década. “Gorda faz tudo para agradar, são mais fogosas, etc, etc, etc.”

Eu concordo que durante o flerte algumas pessoas muito bonitas ficam com o carão de inacessíveis, esperando os súditos se ajoelharem aos pés. Porque talvez estejam acostumados. Mas, cá pra nós, vocês nunca esbarraram com gente que não está com essa bola toda (por uma série de motivos) que faz exatamente igual? A arrogância, meus caros, não está diretamente ligada à aparência, ao status social, à grana no banco.

Eu já conheci muitos homens arrogantes que eram metidos simplesmente por serem homens. “Eu tenho um pau no meio das minhas pernas, e tudo o que uma mulher quer é um pau para chamar de seu, então venha a mim, Letícia.” Nunca se deparou com seres assim? Sorte a sua.

Por essas e por outras é que a generalização é tão perigosa. Confesso já ter feito muito isso, inclusive aqui no blog (recebi críticas, repensei e tento evitar). Eu sou gorda e tento agradar no sexo. Mas eu não faço isso por ser gorda – eu já fazia quando tinha 40 quilos a menos.

Eu me dedico sexualmente porque naquele momento eu sou inteira do outro. Meu hormônios me enlouquecem, meu corpo responde. Se o parceiro também estiver no mesmo clima, a transa pode ser inesquecível. E isso não tem qualquer relação com a nossa aparência.

Será que secretamente ela grita "por favor, me comam?"

Gordos, magros, altos, baixos, muito gordos, muito magros, brancos, negros, peitudas, pintudos… somos assim porque a genética é implacável, porque comemos demais, porque malhamos bastante. O fator “gostar de sexo” não está escrito na nossa testa. Para sermos tarados e “bons de cama” precisamos de estímulo, de cabeça aberta em relação à sexualidade, e de parceiros que nos estimulem. Que achem nossa pancinha sexy, que não se importem porque nosso peito é pequeno, que admirem fervorosamente o pau menor que a ~média nacional~.

O que nos faz gostar de sexo é sermos bem comidos, e não a quantidade de refeições que fazemos num dia.

Todas as imagens foram retiradas do ótimo tumblr Gostosa que se acha gorda