Falando com portas

Eu sinto como se estivesse parada em frente a uma porta, fechada, falando incessantemente. Nenhum som além da minha voz. Nem o vento entrando pela fresta da janela. Na verdade, não tem janela nenhuma neste cômodo. Só sou eu, de pé, e a porta. Fechada.

Por mais que eu me esforce para abri-la, parece que ela está emperrada. Experimento todas as chaves. Puxo a maçaneta. O som da minha voz se mistura com as batidas na porta e os pedidos de socorro.

Nada.

Mas eu fico ali, falando, olhando para a porta, esperando que alguma coisa aconteça. Até paro de bater. Simplesmente não adianta.

***

É assim que eu me sinto na internet. Há dois anos. No primeiro deles, sofri toda sorte de xingamentos, agressões e injúrias. Sofri muito, de verdade. Foi péssimo para a minha autoestima e para meu estado emocional.

Assumir minha identidade, ainda que muita gente já soubesse quem eu era, foi um ato de coragem. Tive de enfrentar, então, mais um monte de outros julgamentos, agressões e injúrias, dessa vez de pessoas do meu mundo real.

Para completar, naquele momento minha aparência física estava ainda mais em evidência, sob o escrutínio constante de quem obviamente não vê outro propósito na vida além de agredir e humilhar os outros.

Passei por mais um ano. Agora, quando recebo mensagens me chamando de feia, feminazi ou algum outro termo imbecil, eu rio. Gargalho, até. Tenho o costume até de bater palminha. Uma só, acompanhando o riso aberto e barulhento.

Mas agora eu não aguento mais. Eu cheguei ao limite da minha sanidade. Continuo rindo das mensagens absurdas, mas não suporto mais aqueles que dizem, em tom meio paternalista meio ditatorial, como eu devo escrever, sobre o que devo escrever, como devo pensar, quantos tuítes eu devo postar por dia.

Essas mensagens não vêm com xingamentos óbvios. Por trás das palavras, uma crítica óbvia e amarga, dedos apontados, uma lupa procurando qualquer – qualquer – incoerência no discurso.

Há uma revista nas bancas, não lembro qual, com a Sabrina Sato na capa.  A manchete é “como lidar com a agressão na internet”. Segundo o que li enquanto estava na fila do supermercado, o segredo é não responder.

Isso vale para grandes celebridades, que usam as redes sociais como forma de autopromoção e para divulgação de eventos. Elas também ganham dinheiro se disserem que estão usando a roupa de tal marca ou bebendo tal cerveja.

Para completar, as celebridades contam com assessoria de imprensa para filtrar as mensagens. Uma blogueira como eu, no entanto, está na linha de frente. Leio todos os e-mails, todos os replies, todos os comentários no blog.

Nem sempre tenho tempo ou vontade de responder, mas leio tudo. Há dois anos. E não foi pouco: teve vlogger com mais de um milhão de seguidores fazendo vídeo para me sacanear, teve programa de rádio entrevistando outra pessoa se passando por mim, teve ameaça, teve análise minuciosa do meu corpo.

E eu estou exausta. Eu simplesmente não aguento mais.

Jamais ganhei dinheiro com isso aqui. Ganhei outras coisas: amigos, apoio, conhecimento. Nenhum dos meus frilas, que por sinal nem pagam minhas contas, têm a ver com o blog. Todos são de outras áreas. Fui contratada por pessoas que provavelmente nem sabem que eu fui um dia a Letícia.

Sobre meu livro, basta vocês saberem que um autor no Brasil ganha entre 5 e 15% do valor de capa. Um mês trabalhando em redação faria entrar mais dinheiro no meu bolso do que se eu esgotar a edição do livro.

Eu amo o Twitter e amo o blog. Eu não quero abandonar nenhum dos dois – o blog com certeza continuará existindo, porque eu gosto muito mesmo. Mas estou chegando num ponto em que não vou mais conseguir deixar os comentários abertos, tampouco vou querer usar o Twitter. Eu até o fechei há alguns dias, reabri depois de uma semana, mas eu considero realmente deletá-lo de vez.

Por favor, lembrem-se que aqui deste lado da tela há um ser humano real, extremamente envolvido com as causas com as quais se identifica. Eu tenho problemas como qualquer ser humano; de grana, de enxaqueca, de mau humor meio sem razão. Tem dias, como hoje, que não dá para segurar a onda.

Antes de criticarem, de apertarem o send se dirigindo a mim, de serem escrotos, pensem se vocês gostariam de ler aquilo. Multiplicado por dez, pra dizer o mínimo.

Muita gente diz que o outro não sabe ouvir críticas. Eu sei, mas não gosto. Você gosta? Fica bem pior quando eu não conheço a pessoa, e tudo o que ela sabe de mim é pelo Twitter ou pelo blog – e se ela começou a me ler nos últimos meses, ela basicamente não sabe de nada.

Eu sempre me expus demais e sei que isso dá uma falsa sensação de intimidade. Prefiro achar que algumas leitoras são, sim, minhas amigas, e que a gente pode confessar qualquer coisa uma para a outra.

Porém, há coisas que você não diz nem para a sua melhor amiga. Se você está perfeitamente decidida a dizer a ela coisas difíceis, certamente (eu espero) você vai aguardar o melhor momento e o melhor ambiente para tanto. Então por que você acha que o Twitter é o melhor lugar para me “falar umas verdades”?

Por favor, lembre-se de mim aqui desse lado da porta. Eu sei que você não me enxerga. Mas eu estou aqui.

A migalhização da vida

Vejo algumas amigas achando muito normal indicar textos (ou escrevê-los) para publicações indubitavelmente machistas. Quando o serviço é pago, eu entendo. Todos temos contas vencendo em breve e escritor/jornalista está sempre tentando complementar a renda. Ainda que eu queira bastantão me livrar da sociedade de consumo, não vou ser hipócrita e dizer que não curto minha máquina de lavar roupa, uma boa refeição ou viajar de primeira classe (long, long time ago, I can still remeeeeeeember).

No entanto, não consigo compreender quando esse tal trabalho e/ou indicação não é remunerado. “Ah, precisamos ocupar novos espaços, falar sobre feminismo/direitos humanos/whatever com mais gente, pessoas que nunca pensaram a respeito.”

Hum. Não.

Justificam as atitudes dizendo que tal publicação tem mais leitores, mais cliques e, portanto, mais relevância. Penso que é mais fácil ligar a relevância a números frios: seguidores no Twitter, tiragem, compartilhamentos no Facebook. Impossível menosprezar isso. Porém, é preciso pensar em quantas daquelas pessoas de fato leem o texto, quantas sentem o que está sendo escrito, quantas mudarão suas vidas (ao menos um pouco, bem pouco) a partir daquilo. Criou-se uma comunidade bacana? Ou continuou tudo exatamente igual, com comunidades de babacas que apenas toleram sua permanência ali? Que, na verdade, nunca leram qualquer coisa sobre feminismo/direitos humanos além daquele texto e de uma ou outra migalha que jogam pra eles?

Fico pensando em quantas feministas tiveram essa ânsia em escrever em outros blogs também feministas ou se dispuseram a fazer um texto de graça para uma ONG. Isso vale para qualquer militância – falo do feminismo porque é o meio em que estou inserida.

Por vezes eu me associei a pessoas que depois descobri não serem muito legais. Eu o fiz por ingenuidade, burrice, desconhecimento. Contudo, quando os holofotes estão acesos, fica difícil justificar certas alianças.

Jogam migalhas e muitos ficam ali, à espera, com a boca aberta, aceitando com gosto farelos de pão.

Não seria mais produtivo se as pessoas se unissem com quem têm interesses em comum e, aí, gerassem esses tantos cliques, esses tantos seguidores no Twitter e assim sucessivamente?

O maior problema é que esse comportamento de migalhização da vida também acontece no mundo real. Ficamos (quem nunca?) aceitando qualquer tipo de atenção, carinho ou reconhecimento. Parece que só nos sentimos valorosos se o outro nos valorizar, mesmo que este outro sequer  seja relevante.

Agir assim segue criando angústia cada vez maior, pois se dependemos do olhar do outro para nos enxergarmos, ficaremos eternamente nessa busca – e jamais iremos nos sentir satisfeitos.

Comentei o assunto no Twitter e o Luiz Flávio, que lê este blog, fez comentário certeiro: “a ânsia de ser aceito pelo status quo é terrível assim. Ser aceito por um sistema falido tem mais importância que combatê-lo”.

Dispensar as migalhas e perceber que se merece mais não é dizer que merecemos absolutamente tudo – dinheiro, um apartamento com vista para o Ibirapuera ou para o mar de Ipanema (ou os dois, três, mil!), a família mais amorosa do planeta, os amigos mais interessantes, um helicóptero para se livrar dos engarrafamentos. Vivemos num mundo difícil; os problemas se acumulam, muitos obstáculos precisam ser transpostos todos os dias, a todo momento.

Dispensar as migalhas é entender que não se precisa de tão pouco. É lutar por pães inteiros. E recheados.

A cultura do estupro gritando – e ninguém ouve

Como a essa altura vocês já devem saber, Gerald Thomas tentou colocar as mãos por dentro do vestido da Nicole Bahls durante um evento no Rio. Era noite de lançamento de um livro dele e a Livraria da Travessa estava lotada. Repórteres, cinegrafistas, funcionários da loja, clientes.

Pelas notícias, ninguém fez nada. Nas imagens dá para ver que o colega de trabalho de Nicole no Pânico continuou a entrevista como se nada tivesse acontecendo. Enquanto isso, Thomas enfiava a mão entre as pernas de Nicole e ela tentava se desvencilhar.

nicole bahls

 Veja/leia mais aqui. 

Sempre rolam os xingamentos à mulher, claro. São os usuais: que ela estava pedindo, que ela estava gostando, que o trabalho dela é esse mesmo, que a roupa era justa. Vocês estão cansados de saber quais as justificativas injustificáveis para o assédio e a agressão sexual.

Mas duas coisas me chamam a atenção nesse caso. A primeira é ninguém ter feito nada. Acharem normal. Acharem aceitável. Se a agressão tivesse sido com uma atriz considerada recatada, as pessoas reagiriam da mesma forma?

Duvido. Indignar-se-iam, aposto. Muita gente nas redes sociais se posicionou e apontou o comportamento de Gerald Thomas como agressão, mas a imprensa tratou como algo que “Nicole não esperava”, mostrando o assunto como mero constrangimento.

Se a mulher geralmente já é tratada como “coisa”, como um objeto para deleite masculino, quando ela tem seu corpo e sua sexualidade transformada em um produto vendável, tudo só piora. Nicole faz sucesso porque tem um corpão, segundo os padrões de beleza atuais. Ela aparece de biquini na televisão, tira fotos “sensuais”, usa roupas curtas e provocantes. Como ela “provocou” (apenas sendo quem ela é), ela merece ser apalpada por um estranho.

Porém, não existe isso de “provocar”. Gerald Thomas não é um animal irracional. Ele – e eu e você – deve esperar o consentimento do outro para poder tocar em seu corpo. Nicole Bahls claramente disse “não”, ao tentar tirar as mãos de Thomas. Parece que não é suficiente, como não é suficiente quando viramos o rosto para evitar o beijo do desconhecido na balada.

Criou-se a ideia de que o homem deve insistir e insistir, enquanto a mulher tenta guardar algo. O “não” é visto como “talvez”. No entanto, se a mulher transforma o talvez em um “deixa pra lá”, ela na verdade não está consentindo. Não é um “sim” entusiasmado, intenso, certeiro, como deve ser em qualquer relação. É um “sim” por convenção social, por achar que ele já fez demais, que agora merece o contato sexual, que é melhor ceder e se livrar logo. Isso não é consentimento, é coerção.

O pior é que esses caras não se veem como agressores, uma vez que todo mundo encara tais comportamentos como “normais”. Brad Perry tem uma frase ótima em Yes Means Yes*: “estes homens acreditam piamente que “não” significa “insista”, e nunca se veem como estupradores, apesar de admitirem o padrão de ignorar e suprimir a resistência verbal e física”.

A segunda coisa que me incomoda no caso é terem dito “mas porque ela não fez algo?”. Infelizmente, a maior parte das pessoas que sofre algum tipo de agressão (não só sexual) não faz alguma coisa. Ser vítima é costumeiramente confundido com “ser frágil”. É difícil encarar polícia, legista, imprensa, opinião pública. No caso desse post, o cara estava agredindo na frente de todos – e ninguém fez nada.

Se fosse você a vítima, você não pensaria que a errada é você por não estar gostando, já que todo mundo está achando muito normal?

Lisa Jervis discorre sobre isso no mesmo livro: “estou falando de uma construção cultural nojenta, destrutiva, que encoraja as mulheres a culparem a vítima, a se odiarem, a se culparem, a se responsabilizarem pelo comportamento criminoso dos outros, a temerem seus próprios desejos e a desconfiarem dos seus próprios instintos”.

Se o corpo da mulher é ainda visto como “de todos”, como acontece no caso daquelas que usam a sexualidade para “vender”, fica ainda mais difícil ter noção de que o corpo lhes pertence. Que é só seu. Que ninguém, ninguém pode tocá-lo sem consentimento.

Acabarmos com a cultura do estupro é um processo social, coletivo, mas também individual. Nós temos que encarar nossos corpos como nossos e de mais ninguém, além de repensarmos o sexo, transformando-o no que realmente é: prazeroso e consensual. Qualquer coisa fora disso é agressão.

*Yes Means Yes é um livro de Jessica Valenti e Jaclyn Friedman sobre a cultura do estupro. É uma coletânea de artigos muito interessante e que recomendo muito. O texto de Brad Perry se chama Hooking up with healthy sexuality: the lessons boys learn (and don’t learn) about sexuality, and why a sex-positive prevention paradigm can benefit everyone involved. 

Uma vida baseada em medo

(bilhões de vidas, na verdade)

Eu não consigo lembrar qual a primeira vez em que me ensinaram a “tomar conta” do meu corpo. Por “tomar conta”, entenda-se desconfiar de qualquer contato íntimo, evitar demonstrar que tenho órgão sexual, não aceitar absolutamente nada (nem algo material, nem sequer um favor) de estranhos.

Desde sempre só bebo refrigerante ou água abertos na minha frente; entro no prédio – a pé ou de carro – olhando para todos os lados; procuro qualquer janela/buraco em que podem me observar assim que entro num banheiro público (e isso não evitou que um cara subisse no telhado do vizinho para me olhar tomando banho).

Nem preciso comentar sobre os “cuidados” que toda mulher já tem normalmente, como trocar de caminho para evitar a rua deserta e escura.

Algumas dessas atitudes, porém, ecoavam na minha cabeça como sendo exagero, paranoia, viagem completa. Porém, nos últimos dias vi que infelizmente meu medo tinha razão de ser. Primeiro, o tenebroso caso da americana estuprada em uma van no Rio.

Morei na cidade durante 11 anos, e usava bastante transporte público. Vans, nunca. Eu achava agressivo o modo como o cara coloca metade do corpo pra fora do veículo, gritando os nomes dos bairros de destino. Posso até imaginar a agredida e o namorado em um ponto da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, esperando um ônibus que não passava. Quando viram a van, devem ter pensado que não havia nenhum problema. Afinal, ela está ali circulando de maneira ostensiva… o poder público deveria fazer algo caso houvesse irregularidades. Tristíssimo dizer que as coisas acontecem de forma diferente.

Ao ler os detalhes do crime, pensei em quantas vezes mofei esperando um ônibus, mesmo com várias vans passando por mim. Na minha cabeça, no ônibus tem mais gente, tem fiscais aqui e acolá, tornando mais difícil a mudança de trajeto. Só na minha cabeça há mais segurança num ônibus – no mundo real, estupros acontecem à luz do dia em linhas regulares de transporte público.

Ainda em choque com o estupro coletivo da intercambista, li o post da Lola sobre abuso em ônibus intermunicipal/interestadual. Coincidentemente (e desesperadoramente) eu estava na rodoviária, prestes a embarcar em uma viagem de pelo menos seis horas. Eu havia feito o trajeto contrário na madrugada anterior. Fiquei chateada quando entrei no ônibus e havia um homem na poltrona junto à minha. Passaríamos a noite ali, lado a lado, e dormir poderia representar um perigo pra mim. Escolho as roupas com as quais vou viajar com muito cuidado. Além do conforto, considero a facilidade com a qual alguém poderia me tocar e invadir minha intimidade.

O problema é que o abuso não acontece só quando há contato físico; basta um olhar, uma palavra, um gesto. Lendo o post da Lola, percebi que esse meu outro medo também não é infundado.

Se além das obviedades, temos também tantas outras atitudes para autopreservação, em que momento vivemos sem medo? Quando é que podemos aproveitar a vida sem desconfiar de que algo muito ruim pode nos acontecer?

Sei que muitas dessas coisas fazemos no automático. Mudando um pouco de foco do assédio pro assalto, quando morava no Rio e viajava, sempre, sempre, sempre me assustava quando alguém tocava em mim. Fui a Porto Seguro há 11 anos, mas até hoje uma amiga faz piada com os pulos que eu dava ao ser abordada na praia. Eram ambulantes tentando vender CDs, queijo coalho, coco, mas automaticamente eu imaginava que era alguém que iria roubar tudo o que eu tinha.

Mesmo agindo quase sem pensar, o que me faz vigiar tudo e todos, sempre, é o medo. Eu não quero mais isso. Nem pra mim, nem pra você, nem pras minhas sobrinhas, ainda bebês. Eu quero que as pessoas compreendam que nossos corpos nos pertencem, não são de domínio público. Quero viver numa sociedade livre da cultura do estupro. Quero dormir no ônibus, pegar táxi sozinha, passear com o cachorro à noite. Eu não estou pedindo pra ganhar na loteria, ser presidente do mundo, casar com o Brad Pitt (ou com o Michael Fassbender, ou com o Eddie Vedder, ou com o Brandon Flowers, ou, ou, ou…).

Eu só quero ter meu direito de ir e vir assegurado. Quero que meu corpo seja meu.

***

Há algum tempo falamos no Twitter sobre cursos de defesa pessoal. Muitas mulheres disseram que têm vontade de fazer. Sim, eu entendo que o que precisa acabar é a agressão, mas enquanto isso não acontecer, vamos fazer o que?

Um curso de defesa pessoal.

Se você tem interesse, peço a gentileza de responder o formulário abaixo. De acordo com o número de interessadas, tentarei com a ajuda de algumas amigas fechar uma turma. Passarei as informações por e-mail (datas e valores dependem da quantidade de alunas).

Para se juntar a nós, clique aqui.

Acredite e se conforme: eu não me importo

Já conheci e me envolvi com muito homem nessa vida. Tentei tratá-los  bem e muitas vezes, creio eu, isso passou a mensagem errada. Afinal, “se uma mulher está transando comigo, se importa e está por perto, ela quer namorar comigo, com certeza”.

Não. Simplesmente não.

Talvez eu trepasse com você porque você é gostoso, porque meus hormônios estavam me pirando, porque eu estava triste, porque eu não soube dizer não, porque foi cômodo, porque eu não estava fazendo nada e você também, porque eu estava na seca. E, também, porque talvez eu estivesse muito, muito, muito atraída por você e quis saber no que tudo isso ia dar.

Deixei pra trás algumas dessas “justificativas”. Aprendi a dizer não, por exemplo. Mas nem sempre o que me leva a transar com um cara é algo considerado nobre por essa sociedade que separa sexo de respeito. Pra mim, as coisas são indissociáveis.

E, talvez, lidar bem com sexo casual dê um nó na cabeça de alguns (muitos) homens. Criou-se a lenda de que a mulher só faz sexo para conseguir algo em troca: dinheiro, presentes, emprego, atenção. Nunca é simplesmente porque ela gosta.

Como sabem que eu não quero bens materiais, pronto – resta a teoria de que eu quero namorar com eles. Parece um tipo de prêmio. Só isso explica o motivo pelo qual vários caras com quem saí venham me avisar de que estão namorando; como se a partir daquele momento eles de repente ficassem off limits.

Sei que várias vezes é porque eles não querem “criar problemas” com a namorada, e a própria ideia de simplesmente falar com alguém ser uma espécie de traição me irrita. O fato de eu já ter transado ou ter desejado transar com um homem não quer dizer que eu serei inconveniente ou farei qualquer coisa contra a vontade dele. Mas, é claro, se ele pular a cerca a culpa seria minha, que me ofereci.

Perdi a conta das vezes em que fui avisada do início do relacionamento com outra mulher. Sempre fiquei com cara de ??, porque, com toda a honestidade do meu ser, na maioria das vezes eu estava cagando quilos.

Mas essa semana aconteceu algo ainda mais curioso. Converso há semanas com um moço. No início até rolou flerte, mas logo desencanamos dessa situação. Notei que ele era desses que param a conversa no meio e somem (vão dormir, tomar banho, fazer qualquer coisa cotidiana – e necessária – mas não avisam). Como tal atitude me irrita sobremaneira, perdi qualquer resquício de interesse sexual no moço. E, bom, era bem pouco até então.

Ainda assim, mandei um whatsapp só de “oi, tudo bem? voltou bem de viagem?” enquanto estava no trânsito, parada há uma hora na Marginal Pinheiros. “Voltei e estou quase namorando.”

What?

Eu nunca sequer beijei esse homem. Como ele, grande parte dos caras que resolveram me avisar do novo status não tinham relevância na minha vida. Alguns, claro, partiram meu coração ao ficarem com outra garota, ainda que meu sentimento por eles fosse, na verdade, apenas carência afetiva. Hoje encaro tudo diferente, mas não vou mentir e dizer que eu sempre ignorei todos eles.

Só que com esses caras havia alguma relação e envolvimento incontestável. Eram pessoas com quem eu falava cara a cara (e corpo a corpo). Aí sim faz sentido contar sobre eventuais mudanças no estado civil.

Fora isso, parece coisa de gente arrogante. E nem adianta dizer “tudo bem” e falar que nada mudou: eles juram que você está querendo sair por cima, como se fosse necessário fingir alguma coisa.

Não, eu simplesmente não me importo. Mas enquanto continuarmos nessa  cultura de “sexo oposto” e de “conquista”, isso vai continuar acontecendo. É uma eterna briga de egos. Se antes de verbalizarem o novo compromisso eu em diversas ocasiões já não me importava, tirar a informação da cartola sem nenhum contexto me faz é perder qualquer tipo de interesse. Não só por não querer compactuar com qualquer tipo de traição de um relacionamento monogâmico (os deuses sabem como já me envolvi com homens comprometidos), mas porque não há nada mais broxante do que a arrogância de imaginar que o outro está na sua mão. Parece que o controle entre ficar junto ou separado está nas mãos de uma pessoa só. Certamente não está na minha, mas é ainda mais certo de que não está na dele.

(no meu caso, na delessssssssss, com um plural quase infinito.)

(e eu imagino que mulheres também façam isso. mas minha experiência é  heterossexual.)

Sim, ela faz parte de mim

- Parabéns! Virou mocinha!, disse uma tia.

Eu, aos nove anos, não entendi nada. Fiquei com raiva da minha mãe. Por que ela espalhou pra todo mundo? Era algo íntimo! Eu estava sangrando, minha barriga doía e eu tinha de usar um quilo de absorvente (estávamos na década de 1980 e, bom, eles eram grossos e não tinham abas).

Não havia motivos pra me congratular. Na verdade, eu senti até um pouco de vergonha. Eu ainda era criança. A partir de então, me preocupava a todo momento em que levantava. A olhadela rápida pra parte de trás da minha roupa; a pergunta às amigas se estava manchado. E esteve. Algumas vezes. A primeira foi no aniversário de um grande amigo. Eu estava de bermuda branca. A menstruação já havia parado; eu não sabia que ela podia simplesmente voltar algumas horas depois.

A irmã do aniversariante me puxou num canto. “Nádia, você está menstruada?” A pergunta era retórica. Uma mancha vermelha gigantesca ostentava para o mundo que eu “tinha virado mocinha”, apesar de ter uns 11, 12 anos de idade.

Liguei pra minha mãe, pedi pra ela me buscar, e fiquei quietinha numa cadeira isolada, sem falar com ninguém, mortificada. Todos os meses, sentia meus peitos crescerem a ponto de os sutiãs ficarem desconfortáveis e de eu ter de mudar a posição de dormir. De bruços, nem pensar!

Usava dois absorventes durante a noite, muitas vezes levantava para trocá-los, e ainda assim era comum ver a poça de sangue no lençol pela manhã. As dores, nem gosto de lembrar. Eram paralisantes. Um dia li na Capricho que a Ana Paula Arósio tomava a pílula de uso contínuo para não menstruar; ela não conseguia trabalhar durante a menstruação. Pensei: “meu deus, alguém é como eu!”.

Adulta, passei a ter uma relação de amor e ódio com o sangramento mensal. Ao mesmo tempo em que me incomodava com os efeitos colaterais, ficava feliz. Era sinal de que eu não estava grávida.

Fomos caminhando juntas: eu e a monstra (cá pra nós, se menstruar fosse visto como uma coisa boa, não teria esse apelido). Anos mais tarde, a porrada: eu estava na menopausa. Calores, fogachos, falta de lubrificação – tudo porque meus hormônios deram tilt e meu corpo resolveu que era hora de parar de funcionar direito. Sim, porque ainda que a menopausa seja o curso natural das coisas, ela veio duas décadas antes da hora.

Engordei – e a gordura se acumulou na região abdominal, coisa que foi novidade pra mim -, parei de transar porque minha libido tirou férias com prazo indeterminado, acordei na madrugada empapada de suor. Descobri nódulos nos seios e me deparei com a impossibilidade de engravidar. Eu nunca quis ter filhos, mas dizerem que você não pode, especialmente numa sociedade que santifica a maternidade, é muito doloroso.

Superei isso e não sinto a menor saudade da menstruação. E eu fiz as pazes com ela depois que li Cunt, da Inga Muscio. A obra aparece em várias listas de melhores livros feministas e uma leitora o indicou. Eu não o amei tanto quanto imaginei, mas mudei minha perspectiva sobre as respostas biológicas do meu corpo.

cunt

“Você precisa se assegurar que sua buceta [durante a menstruação] esteja impecavelmente limpa, usando um montão de sabonete e tomando banho várias vezes, porque garotas menstruadas tendem a deixar o ambiente fedido caso não sejam muito cuidadosas com a higiene pessoal.”

“Era vergonhoso sangrar; ser vista sangrando; deixar que os outros percebessem a parafernália usada para conter o sangramento; falar sobre o assunto; parecer que estava sangrando; pedir dispensa da educação física por causa das cólicas horríveis que muitas vezes acompanhavam o sangramento; demonstrar fragilidade, vulnerabilidade ou mudanças de humor porque em breve iria sangrar; ou demonstrar qualquer emoção além de desdém ou conformismo em relação ao sangue.”

“Ensinam as garotas que sangrar é uma coisa ruim, uma coisa embaraçosa, uma coisa secreta que devermos esconder e manter discreta, faça chuva ou faça sol.”

Inga ainda fala sobre cirurgias plásticas, orgasmo, duplo padrão moral, economia, prostituição. Um dia escrevo sobre o livro; não concordo – óbvio – com tudo o que está lá, mas ele me ajudou a me reconciliar com algumas coisas que são vistas como “erradas”, apesar de serem naturais.

Eu não acho que ter uma buceta me torna melhor do que as bilhões de outras pessoas que não têm órgãos sexuais iguais ao meu. No entanto, além de ter me atribuído papéis de gênero extremamente opressores mesmo antes de eu nascer (sim, as pessoas fizeram isso porque na ultrassonografia viram que eu tinha uma buceta, e não um pinto*), menstruar, ter a possibilidade de engravidar, entrar na menopausa, tudo isso me tornou uma pessoa diferente.

Negar essa experiência é violento. Socialmente tentam fazer com que sintamos culpa pelos ovários, útero, clitóris. Muita gente, aliás, ignora a existência desse último. Imagine, uma parte do corpo com a função única de dar prazer. Que audácia!

Empoderar-se passa por aceitar e amar seu corpo. Não foi minha buceta que me tornou mulher; há muito, muito, muito  mais coisa envolvida na construção da identidade. Porém, ela é parte de quem sou e ter esses órgãos me deram perspectiva diferente sobre as coisas. Meu poder não está diretamente ligado à buceta (meu útero nem tem uma “função”, por exemplo), mas ele não existe se eu não amar meu corpo do jeito que ele é. Minha buceta faz parte de mim, da minha história, do modo como o mundo olhou pra mim desde quando eu era um bebê. Reconciliar-me com ela, sim, faz parte do meu crescimento e empoderamento.

*papéis de gênero também oprimem homens, mas em outra escala. não simplifiquemos em demasia as coisas. 

Obrigada, obrigada e obrigada

Na terça-feira eu estive em Porto Alegre para a noite de autógrafos do meu livro. Os três eventos (em São Paulo, Rio e Porto Alegre) foram completamente diferentes. Em São Paulo, a Livraria da Vila lotou. Houve um debate antes com a presença das queridas Clara Averbuck (@claraaverbuck), Mayara Medeiros (@mayyymedeiros) e Ariane Freitas (@lovemaltine).

Eu, que estava preocupadíssima de ninguém aparecer, fiquei surpresa com a quantidade de gente. Ficou lotado e foi uma delícia. Naquela noite – que também era meu aniversário – eu tive o primeiro contato com gente que eu só conhecia pelos comentários aqui no blog ou por algumas poucas conversas no Twitter. Eu me senti o máximo. Muitos amigos da minha “vida real” também compareceram e esperaram pacientemente na fila que só acabou depois das dez da noite. Eu fiquei satisfeita, feliz, recompensada. E me senti muito, muito amada.

O problema é que vicia. Um mês depois eu estava no Rio. Infelizmente não deu tempo de avisar todo mundo, pois as coisas foram resolvidas em cima da hora. Também fui agredida no ônibus a caminho da cidade, então meu humor não estava dos melhores. Minha autoestima estava um lixo e eu sentia dor no olho. Mesmo assim, conversar com a galera foi extremamente gratificante.

Essa semana foi a vez de Porto Alegre. Lá não encheu como nas outras cidades (São Paulo é campeã no quesito), mas eu conheci pessoalmente tanta gente querida com quem falo todos os dias no Twitter. Também sempre tem uma galera que JURA ler o blog, porém dizem que não comentam. Comentem! Eu passo a conhecer vocês melhor assim.

Nos três lugares fiquei emocionada com coisas que me disseram. Várias pessoas contaram ter mudado a perspectiva da vida, de autoestima, de feminismo, de sexo, de depressão por meio do blog.

Jamais imaginei ter esse alcance. Pra mim, o blog ia ser só mais um dos que eu ia abandonar em algumas semanas e ninguém ia ler. Mesmo que hoje a quantidade de acessos seja muito inferior àquela de quando eu publicava as narrativas sexuais, o feedback é muito profundo e positivo.

Fico muito honrada em fazer parte da vida de vocês dessa forma. Gostaria de reiterar que esse crescimento não foi só das leitoras; eu também mudei muito com o Cem Homens. Repensei “verdades absolutas”, me interessei por questões teóricas, sofri na pele com agressões.

Logo, estamos passando por essas mudanças juntas. E eu só tenho a agradecer por me permitirem tudo isso.

As noites de autógrafos para divulgação do livro estão encerradas. Por mim eu visitaria todas as cidades – ah, ok, pelo menos as capitais – mas não há condições financeiras isso acontecer. Eu AMO encontrar vocês. Conversar aqui no blog é demais, incrível… ver vocês, conhecer o rosto, abraçar, sentir o cheiro… é muito, muito emocionante.

O próximo livro está a caminho. Vai ser um caminho bem longo e eu nem sei quando chegará ao fim. Provavelmente precisarei de apoio de vocês porque minha maior vontade é publicá-lo de maneira independente, com um dinheirinho extra para fazer noites de autógrafo em mais cidades. Definitivamente viciei nessa bagaça.

Gostaria de agradecer muito, muito, muito todo mundo que compareceu no Rio, em Sampa e em Porto Alegre. Vocês fizeram minha vida mais feliz. Que venha o próximo livro.

8 de março

Oi. :)

Queria escrever coisas relevantes e lindas hoje. Mas não rolou até agora, então deixo vocês com coisas relevantes escritas e feitas por outras pessoas (links abaixo da imagem).

Primeiro, tenho orgulho e felicidade de fazer parte de uma promoção da Feito Brasil, marca de cosméticos veganos e ecologicamente corretíssima. Essa é uma promoção REALMENTE de Dia Internacional das Mulheres: além de produtos da marca, você pode ganhar uma boneca Pagu e um bottom feminista criados pela Elisa Riemer. E meu livro autografado. O kit de sabonetes é da campanha contra o câncer de mama. Quer dizer, é tudo lindo e perfeito!

Para concorrer, você tem que enviar por e-mail uma história sobre uma mulher da sua vida que lhe inspira. Não é o máximo? O regulamento você encontra aqui. Corram! É só esse fim de semana.

feito brasil

Agora, os links.

Eu posso ter esquecido de algum, porque tenho dezenas de abas abertas nesse momento, mas sintam-se à vontade para indicar textos nos comentários.

Mais um texto ótimo do Matheus Pichonelli, dessa vez sobre o Dia de Princesa (que se você ainda não notou, é hoje). E ainda tem colaboração da minha querida Tory Oliveira.

A Lola deu um presente pra todo mundo: fez um post com links de livros feministas. Vários em pdf.

Diversas feministas bacanas fizeram um post coletivo aqui.

Eu mesma, sobre o motivo de eu não gostar de flores no 8 de março.

O Sakamoto e o desejo por uma sociedade menos idiota.

Bom, indiquem textos bacanas nos comentários! E eu vou atualizando a lista conforme for me livrando da avalanche de abas abertas.

Que mulher é essa?

Ainda nem chegamos ao 8 de março e as agências já nos impressionaram com peças publicitárias equivocadas. Teve desde loja de armarinhos tentando fazer piada com um assassino esquartejador de mulheres até empresa gigante do setor automotivo dando dicas bizarras, comparando hidratante a óleo de motor.

Há muito a se discutir sobre o que temos visto, em especial numa semana emblemática como a de 8 de março. Mas a minha grande dúvida agora é: que mulheres são essas?

Com quem esses publicitários estão falando?

Ao falarem da mulher como um ser naturalmente frágil, fofo, amoroso, vaidoso, fútil e imbecilizado, os responsáveis por essas campanhas colocam todas nós num mesmo padrão, como se esse tipo de coisa existisse. Somos bilhões no mundo – algumas de nós têm as características acima, outras passam longe.

E isso não tem nada a ver com o gênero. Também há homens frágeis, fofos, amorosos, vaidosos, fúteis…

Meu ponto não é discutir papéis de gênero nesse post. Quero, na verdade, descobrir onde estão essas mulheres que se identificam com as propagandas. Ou que os publicitários pensam que se identificam.

Porque na minha vida eu sempre fui rodeada de mulheres fortíssimas. Várias machistas, sim. Somos fruto do que vivemos, afinal. Mas nenhuma delas, NENHUMA MESMO, precisa de dicas como essa:

Nunca devo atravessar um trecho alagado quando a água estiver acima dos faróis.

Verdade: Além de estragar a “chapinha” de seu cabelo, muita água também estraga seu carro. Quando se deparar com um trecho alagado, espere alguém passar: sempre há um afobadinho com pressa. Verifique a altura da água e, se for seguro, acelere suavemente de forma constante e não mude de marcha.

Todas as mulheres que conheço sabem que não podem entrar numa enchente. Nenhuma precisa de comparações entre cabelo e motor do carro.

Os publicitários estão nos tratando como idiotas há muito tempo. Não precisa ser feminista para perceber como esses conceitos estão errados. Olhe em volta: quantas mulheres que você conhece se enquadram nesse público alvo que querem atingir?

Quantas são “frágeis” e “precisam de proteção”, como se não conseguissem dar conta da vida sozinhas?

As mulheres que conheci entraram em várias lutas, muitas vezes criaram seus filhos sozinhas, são profissionais competentíssimas, viajam o mundo acompanhadas só de uma mochila.

Quem são essas mulheres com sérios problemas cognitivos que as propagandas retratam?

A pergunta é honesta. Eu realmente não consigo entender.

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Hoje é um dia muito triste para a história do Brasil. Marcos Feliciano foi eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias. O jornalista da Carta Capital Matheus Pichonelli escreveu sobre essa tragédia.