Eu sinto como se estivesse parada em frente a uma porta, fechada, falando incessantemente. Nenhum som além da minha voz. Nem o vento entrando pela fresta da janela. Na verdade, não tem janela nenhuma neste cômodo. Só sou eu, de pé, e a porta. Fechada.
Por mais que eu me esforce para abri-la, parece que ela está emperrada. Experimento todas as chaves. Puxo a maçaneta. O som da minha voz se mistura com as batidas na porta e os pedidos de socorro.
Nada.
Mas eu fico ali, falando, olhando para a porta, esperando que alguma coisa aconteça. Até paro de bater. Simplesmente não adianta.
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É assim que eu me sinto na internet. Há dois anos. No primeiro deles, sofri toda sorte de xingamentos, agressões e injúrias. Sofri muito, de verdade. Foi péssimo para a minha autoestima e para meu estado emocional.
Assumir minha identidade, ainda que muita gente já soubesse quem eu era, foi um ato de coragem. Tive de enfrentar, então, mais um monte de outros julgamentos, agressões e injúrias, dessa vez de pessoas do meu mundo real.
Para completar, naquele momento minha aparência física estava ainda mais em evidência, sob o escrutínio constante de quem obviamente não vê outro propósito na vida além de agredir e humilhar os outros.
Passei por mais um ano. Agora, quando recebo mensagens me chamando de feia, feminazi ou algum outro termo imbecil, eu rio. Gargalho, até. Tenho o costume até de bater palminha. Uma só, acompanhando o riso aberto e barulhento.
Mas agora eu não aguento mais. Eu cheguei ao limite da minha sanidade. Continuo rindo das mensagens absurdas, mas não suporto mais aqueles que dizem, em tom meio paternalista meio ditatorial, como eu devo escrever, sobre o que devo escrever, como devo pensar, quantos tuítes eu devo postar por dia.
Essas mensagens não vêm com xingamentos óbvios. Por trás das palavras, uma crítica óbvia e amarga, dedos apontados, uma lupa procurando qualquer – qualquer – incoerência no discurso.
Há uma revista nas bancas, não lembro qual, com a Sabrina Sato na capa. A manchete é “como lidar com a agressão na internet”. Segundo o que li enquanto estava na fila do supermercado, o segredo é não responder.
Isso vale para grandes celebridades, que usam as redes sociais como forma de autopromoção e para divulgação de eventos. Elas também ganham dinheiro se disserem que estão usando a roupa de tal marca ou bebendo tal cerveja.
Para completar, as celebridades contam com assessoria de imprensa para filtrar as mensagens. Uma blogueira como eu, no entanto, está na linha de frente. Leio todos os e-mails, todos os replies, todos os comentários no blog.
Nem sempre tenho tempo ou vontade de responder, mas leio tudo. Há dois anos. E não foi pouco: teve vlogger com mais de um milhão de seguidores fazendo vídeo para me sacanear, teve programa de rádio entrevistando outra pessoa se passando por mim, teve ameaça, teve análise minuciosa do meu corpo.
E eu estou exausta. Eu simplesmente não aguento mais.
Jamais ganhei dinheiro com isso aqui. Ganhei outras coisas: amigos, apoio, conhecimento. Nenhum dos meus frilas, que por sinal nem pagam minhas contas, têm a ver com o blog. Todos são de outras áreas. Fui contratada por pessoas que provavelmente nem sabem que eu fui um dia a Letícia.
Sobre meu livro, basta vocês saberem que um autor no Brasil ganha entre 5 e 15% do valor de capa. Um mês trabalhando em redação faria entrar mais dinheiro no meu bolso do que se eu esgotar a edição do livro.
Eu amo o Twitter e amo o blog. Eu não quero abandonar nenhum dos dois – o blog com certeza continuará existindo, porque eu gosto muito mesmo. Mas estou chegando num ponto em que não vou mais conseguir deixar os comentários abertos, tampouco vou querer usar o Twitter. Eu até o fechei há alguns dias, reabri depois de uma semana, mas eu considero realmente deletá-lo de vez.
Por favor, lembrem-se que aqui deste lado da tela há um ser humano real, extremamente envolvido com as causas com as quais se identifica. Eu tenho problemas como qualquer ser humano; de grana, de enxaqueca, de mau humor meio sem razão. Tem dias, como hoje, que não dá para segurar a onda.
Antes de criticarem, de apertarem o send se dirigindo a mim, de serem escrotos, pensem se vocês gostariam de ler aquilo. Multiplicado por dez, pra dizer o mínimo.
Muita gente diz que o outro não sabe ouvir críticas. Eu sei, mas não gosto. Você gosta? Fica bem pior quando eu não conheço a pessoa, e tudo o que ela sabe de mim é pelo Twitter ou pelo blog – e se ela começou a me ler nos últimos meses, ela basicamente não sabe de nada.
Eu sempre me expus demais e sei que isso dá uma falsa sensação de intimidade. Prefiro achar que algumas leitoras são, sim, minhas amigas, e que a gente pode confessar qualquer coisa uma para a outra.
Porém, há coisas que você não diz nem para a sua melhor amiga. Se você está perfeitamente decidida a dizer a ela coisas difíceis, certamente (eu espero) você vai aguardar o melhor momento e o melhor ambiente para tanto. Então por que você acha que o Twitter é o melhor lugar para me “falar umas verdades”?
Por favor, lembre-se de mim aqui desse lado da porta. Eu sei que você não me enxerga. Mas eu estou aqui.




