Estou lendo “Cinquenta Tons de Cinza”. Sim, estou fazendo isso comigo mesma. Tanta gente veio esbravejar nesse post, dizendo que eu não poderia opinar sobre um livro que não li, que resolvi mudar o panorama. Mas tá difícil, tá difícil.
Quando acabar, claro, tentarei escrever a respeito aqui no Cem Homens (promessas, vãs promessas). Muito mais do que o conteúdo em si, me interessa como as pessoas receberam e veem o livro. E, bom, há algo que creio ser péssimo sendo dito por aí: pra Christian e Ana, é muito fácil ter orgasmo.
Ela goza em sonho, com chicotada no clitóris, com meros sussurros. Ela chega ao orgasmo na primeira vez que transa! Ela sequer se masturbava, mas ainda assim goza repetidamente.
O livro tem muito mais equívocos que esse, porém a sugestão de que gozar é simples assim me incomoda sobremaneira. Porque não o é. Sexo é construção. Assim como quando crianças nos mandavam tirar a mão o tempo todo de perto dos nossos órgãos sexuais, assim como a igreja tentou nos convencer que deveríamos transar só para reprodução, assim como aprendemos desde sempre que devemos “segurar a portinha da felicidade” para não ficarmos “mal faladas”, temos de ressignificar o sexo e o que ele representa pra nós.
Temos de transformar algo sujo, feio e reprovável socialmente em amor, prazer, libertação, alegria. Pra isso, é necessário romper com padrões culturais. Muitas vezes, essa quebra choca familiares, parceiros, amigos. Os riscos são altos demais para alguns.
Ao mesmo tempo somos bombardeados com mensagens sexuais de todos os lados. Além dos próprios hormônios, vemos o sexo ser usado até para vender sabão pra máquina de lavar roupa. Amigos começam a contar peripécias sexuais, atrizes gritam alto em filmes pornôs, a revista feminina lacra páginas de sexo (se fossem livres, não precisavam lacrar, just saying).
É como se fosse tentar saltar sobre um vão. De um lado, somos crianças e adolescentes que não podemos pensar/falar/questionar sobre sexo. Do outro, viramos adultos bem resolvidos, bem comidos, sem grilos de qualquer espécie.
Nessa fase, então, devemos ser verdadeiros sabichões na cama. E temos que gozar como nos pornôs ou como no Cinquenta Tons. AI DE VOCÊ SE CONFESSAR QUE NUNCA CHEGOU AO ORGASMO!
O problema é que você não está sozinha. Com penetração, por exemplo, 85% das mulheres não gozam. Ainda ficam insistindo na história de que o orgasmo clitoriano é “infantil”, e que o vaginal é muito mais forte. Pra completar, nos últimos anos ainda se criou uma aura mística sobre a ejaculação feminina.
Quer dizer: além de gozar – que já é muito difícil -, você precisa gozar com penetração (sem usar brinquedos, o pinto do cara é que tem que ser incrível – e você tem que ser hétero, claro) E ejacular.
Se não acontecer tudo isso, muita gente fica com a sensação de quem está perdendo algo. Por isso também buscam enlouquecidamente novas práticas, como já aconteceu com o swing e agora acontece com o BDSM.
Eu sou super a favor de experimentações, mas considero que é preciso preencher primeiro aquele vão que nos obrigam a saltar. Faz-se necessário quebrar paradigmas antes de construir novos.
Antes de se lançar no desconhecido, melhor seria se pudéssemos ir montando os alicerces da nossa própria sexualidade. Isso passa por nos conhecermos, nos tocarmos, nos olharmos pelados no espelho por todos os ângulos (todos mesmo, incluindo vagina), usarmos brinquedos.
Além da parte prática, precisamos falar mais sinceramente sobre sexo. Gaiarsa costumava dizer que seria bom que os homens fizessem com suas mulheres o que eles contavam no boteco.
Em público, ou as pessoas não fazem sexo ou fazem o melhor sexo do mundo. Os paus estão sempre duros, as bucetas sempre molhadas. Ninguém sente desconforto, dor, vergonha. Todos trepamos até o amanhecer, sem cansaço ou sono. E, a julgar pela Anastasia Steele, gozamos muito, demais, sempre.
A vida real não é assim. Inspire-se com livros de ficção, com filmes pornôs, com blogs eróticos, caso essa seja sua praia. Mas entenda que a construção da sexualidade é trabalho muito mais árduo do que se depilar ou comprar calcinha bonita.
Volte ao básico. Descubra-se. Aproveite seu corpo. Livre-se das neuras. Jogue fora tudo de ruim que te falaram sobre sexo. É difícil, eu sei. Mas posso garantir: a recompensa é muito prazerosa.
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Por coincidência, Regina Navarro Lins escreveu essa semana sobre orgasmo da mulher. Vale muito a pena ler.



