Fiz duas faculdades. Isto é, durante dois momentos na minha vida eu fui um ser que poderia ser zoado, humilhado e – pasmem – abusado (como se ser mulher, por si só, já não fosse “desculpa” pra isso).
Felizmente na Cásper Líbero, onde fui bixete em 2008 (aliás, que porra de nome é esse? BIXETE. demorei um tempo pra me acostumar), o trote não é degradante. É idiota, como eu, Nádia, acho que todos o são. Detesto participar de gincanas e afins, então andar pela Paulista toda suja e fedida não é exatamente a minha ideia de diversão.
Mas nunca me obrigaram a nada e, pelo que sei, alguns dos meus colegas se divertiram. Podemos ter uma longa discussão sobre o pedágio (recolher dinheiro para a cerveja), mas não é essa a intenção do post.
Lá na PUC, onze anos antes, eu já não me recordo direito. Com certeza a coisa era mais “organizada”. E um pouco aterrorizante. Lembro de mim mesma desesperada procurando camiseta hering de determinada cor, pois todos os dias os veteranos iam à nossa sala, fechavam as portas, e diziam qual cor deveríamos usar no dia seguinte. Era “a semana do arco íris”. Só não consigo precisar se eu fui pra faculdade toda colorida porque queria “me enturmar” ou se por medo.
Isso acontecia todo dia. As imagens estão meio nebulosas na memória, mas é desconfortavelmente claro que os veteranos chamavam algumas mulheres para a frente da sala e mandavam fazer dancinhas. Digo que é desconfortável porque, se fosse hoje, eu ia fazer um auê. Na época, eu só era uma garota de 17 anos, recém chegada à cidade, com um puta medão de tudo.
Como eu tinha aparência regular (não era bonita, mas também não era gorda ou “esquisita” – motivos suficientes para virar chacota), passei por aqueles dias sem chamar a atenção. Eu e alguns amigos fomos à reitoria pedir para nos avisarem quando seria o trote.
As aulas aconteciam todos os dias, não havia essa “semana de integração” que vejo em outras faculdades. Então a gente ia pra PUC, sem nunca saber se era aquele o dia em que nos sujariam, nos fariam andar pelas escadas como “elefantinhos”, nos fariam dançar na boca da garrafa. Tudo isso era feito com a anuência da reitoria – que marcava os trotes (eram muitos cursos e, então, a coisa devia ser “organizada” para o campus não virar uma balbúrdia caso todo mundo resolvesse fazer no mesmo dia). Eles então nos avisaram e naquele dia faltei aula.
Toda essa imensa introdução é só para apresentar um guest post. Vocês devem ter lido sobre os absurdos do trote em São Carlos, a reação feminista, a reação completamente desnecessária de quem participava do trote, a reação da mídia. Há textos muito bons sobre o que aconteceu (você encontra vários links nesse post da Lola e aqui está uma mensagem oficial do grupo feminista responsável pela manifestação, com fotos).
A cobertura séria é importantíssima e o trote da Poli já está sendo questionado pela grande mídia, como o Estadão e o R7 (citando a Feminista Cansada, gente!)
Mas como é pra quem está lá dentro? Como é pra quem vê esses absurdos acontecendo ano após ano?
Uma leitora resolveu contar. Ela estudou na USP São Carlos e hoje é pesquisadora da instituição. Pediu para não ter seu nome revelado.
O campus da USP-São Carlos é lindo! De todos os campi da universidade, é um dos mais arborizados, se levarmos em conta que fica no centro da cidade. Um campus majoritariamente para Ciências Exatas. E como “engenharia é coisa de homem”, assim como Física, Química e Matemática, há poucas mulheres. Em salas de 50 alunos, duas mulheres. Às vezes, três.
E é nesse panorama que ocorre todos os anos, na primeira semana de aula, a “Semana do Bixo”. O dia mais tradicional é a terça-feira, quando acontece a Apelidação, ritual de apelidação dos bixos, comandado pelo centro acadêmico. Também organizam um concurso para eleger a caloura mais bonita. O comando é do concurso é do Grupo de Apoio à Putaria (GAP) – uma paródia ao antigo Grupo de Apoio à Pesquisa, órgão de financiamento – que é formado por membros do curso de engenharia, com intuito de promover festas entre as repúblicas.
Aqui ainda existem as repúblicas tradicionais. Conseguir uma vaga para morar nelas custa caro, mais que alugar um apartamento de um quarto, e acontece mediante um “teste”: nada mais que um trote de humilhação. A maioria dessas repúblicas é para garotos, mas existem algumas para as mulheres. O trote é sempre às 13h. O pessoal já começa a beber de manhã.
O campus é muito peculiar: vende-se bebidas alcoólicas no centro acadêmico, com conhecimento da Prefeitura e Diretorias. Isso porque não vou entrar no âmbito da maconha. Assim, quando começa o “Miss Bixete”, a maioria já está bêbada. As calouras, geralmente na faixa dos 17 anos, são “convidadas” a desfilar, não são obrigadas, mas os veteranos e também as veteranas deixam claro que quem não participa fica taxado de antissocial e acaba excluído. Entre as concorrentes estão infiltradas prostitutas (digo infiltradas porque é tradicional usar uma camiseta do curso, assim você vê o pessoal de camiseta e logo deduz que são bixos), que dançam, rebolam no palco, tiram a camiseta, como forma de induzir o mesmo comportamento às “novatas”.
O pessoal brada: “se ela fez, você também tem que fazer, ou não vai ganhar o concurso”. A passarela parece com a de um desfile convencional, mas obviamente não tem cadeiras, o pessoal fica com a barriga encostada ali e – chega a doer dizer isso – passam as mãos nas meninas durante o desfile. Quando eu cheguei aqui, no ano 2000, a festa já era tradicional. Se você ficou curioso para saber se me passaram a mão, se eu tirei a camiseta, a resposta é não. E sabe o motivo? Porque eu sou gorda! Gordas nojentas não concorrem. E foi assim me livrei de uma boa!!! Quem ganha? A mais bonita, gostosa e “assanhada”. É assim que essas garotas ficam conhecidas por toda sua vida acadêmica.
O CAASO (Centro Acadêmico Armando de Salles Oliveira) teve uma papel muito importante em defesa dos alunos durante a ditadura. Esses alunos que lutaram por seu direito à liberdade, hoje são engenheiros renomados, químicos citados por ganhadores de prêmios Nobel, físicos eleitos para a Academia de Ciências do Vaticano. São essas as pessoas que gerenciam o campus hoje e que toleram esse tipo de trote em nome dos tempos passados.
A leitora aponta a conivência da reitoria, coisa que vi pouca gente fazer. Colocam a culpa nos veteranos. Eles são culpados, sim, mas como uma universidade permite que esse tipo de coisa aconteça anualmente nas suas dependências? Como é que ela não pune quem organiza? Onde estão os responsáveis, aqueles com real poder de fazer alguma coisa?
Isso está rolando há tanto tempo que há até “hinos”. Fiquei estarrecida quando vi a letra. Eles também foram enviados pela leitora.
Hino do GAP
Foi na beira da piscina
Que o GAP se formou
Grupo de apoio a putaria
Tamo aí pra baixaria
É o CAASO que chegou
Lá na beira da estrada
Na fazenda dos Canchin
Tem uma escola sem vergonha
Que se chama federal
Se peluda fosse flor
federal era jardim
Eu vou raspar os teus pelinhos
Vou raspar os teus pelinhos
Se você só der pra mim
Fui estudar lá no CAASO
Pra virar trabalhador
Hoje estou quase jubilado
Passa o dia chapado
Batucando o meu tambor
Hino da Biologia (ritmo: hino nacional)
Perna peluda um que já foi símbolo
Da escola lá na beira da estrada
De dia passeava pela granja
De noite era muito mal amada
Seu odor, insuportável
Bem ao longe se sentia o cheiro forte
O seu rosto, abominável
Seu sorriso era mais feio que a morte
Oh federupa, xupa, xupa, salve, salve!!!
Mulher de fogo eterno, haja pinto
Para apagar o fogo da danada
De bar em bar vai dando suas voltas
Ninguém segura mais essa tarada
Devassa não dispensa uma orgia
As sextas no CAASO vai à luta
Veras que a franga faz biologia
Sua safada!!!
És a vergonha do Brasil oh depravada
Mulher da biologia está sempre no cio
Baixaria Brasil!!!
Isso tudo é nauseante. A pergunta é: como podemos tolerar isso durante tanto tempo? Como a universidade não se posiciona a respeito? Sim, somos todos responsáveis pelos nossos atos. Não quero que os universitários saiam dessa numa boa, mas já passou da hora das reitorias fazerem algo para coibir a violência (sexista ou não) dentro dos seus campi.



















