Adolescentes de 11 a 13 anos receberão a vacina contra HPV gratuitamente no DF

Meninas de 11 a 13 anos que estudam em escolas públicas e privadas do Distrito Federal vão receber em 2013 a vacina contra o papilomavírus humano (HPV). A imunização deve começar em março e será feita no próprio colégio, desde que a criança ou adolescente tenha autorização dos pais para receber a dose, aplicada em três etapas – uma a cada mês. A informação é da subsecretária de Vigilância à Saúde do Distrito Federal, Marília Coelho.

Em setembro, o Senado Federal aprovou um projeto de lei que prevê que meninas de 9 a 13 anos tenham o direito de receber gratuitamente na rede pública de saúde a vacina contra o HPV. O texto, de autoria da senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), ainda precisa ser analisado pela Câmara dos Deputados.

Em entrevista à Agência Brasil, Marília explicou que a Secretaria de Saúde do DF, em parceria com a Secretaria de Educação, decidiu imunizar, em um primeiro momento, apenas meninas de 11 a 13 anos em razão do preço elevado da vacina. Ela garantiu que, nos próximos anos, toda a faixa etária prevista no projeto aprovado pelo Senado vai receber a dose.

“A ideia de vacinar nas escolas é buscar novas didáticas de vacinação. No caso do H1N1, a gente colocou a vacina em todos os postos, mas a vacinação foi baixa. Agora, a ideia é não correr o risco de ter um número baixo de vacinação. Crianças de 11 a 13 anos não estão mais em creches. Quando se trata de bebês, a mãe está de licença-maternidade e tem disponibilidade para levar. Imagina levar uma menina de 13 anos para vacinar. A gente avalia que isso seria meio inviável.”

A subsecretária ressaltou que a dose contra o HPV é nova no calendário de vacinação da rede pública, mas tem a eficácia garantida. Reações adversas como febre, segundo ela, podem ser registradas como em qualquer outro processo de imunização. Para Marília, o alerta maior é que a vacina protege apenas contra o HPV e não contra as demais doenças sexualmente transmissíveis (DST).

“Vamos ter que trabalhar muito a ideia de que você não está protegida contra qualquer doença sexualmente transmissível. Existem outros fatores que levam ao câncer de colo do útero, como a sífilis e a endometriose. Uma das preocupações é que as pessoas não deixem de se cuidar.”

Com informação da Agência Brasil, replicada pelo Uol.

Excelente notícia! O HPV é o grande responsável pelos casos de câncer de colo de útero. Lembro que ano passado a prefeitura de Catalão, em Goiás, também fez vacinação gratuita. 

É só uma membrana. Só. E é elástica

Recebi um e-mail essa semana que é basicamente a repetição do que já li várias vezes desde que comecei a escrever o Cem Homens: a garota é virgem e, por alguma razão que desconheço, tem vergonha de assumir isso.

Bom, vamos à mensagem, que está em itálico. Meus comentários estão em negrito ao longo do texto.

Tenho 19 anos e sou virgem, ou quase isso, depende do conceito de virgindade.

Primeira (e aparentemente eterna) questão: pra quê conceituar a virgindade? Além de ser importante para a saúde pública, qual a relevância disso? Sério, é uma pergunta honesta. 

Qual é o conceito de virgindade? Num relacionamento heterossexual, normalmente é quando o pênis entra na vagina. Ok. E se você for lésbica? E se for gay? E se você for hétero, já tiver feito de tudo (sexo oral, anal, masturbação no parceiro, etc), você ainda é virgem?

Ou a questão toda é o pênis? Ainda somos essa sociedade falocêntrica? 

Se a resposta for “sim”, é preciso um pau dentro da buceta para dizer que alguém não é mais virgem, eu fico com outra pergunta: por que tratamos a primeira vez de uma forma totalmente diferente entre garotos e garotas? 

Bom, eu acho que a resposta vocês já sabem. 

Sua virgindade não é a medida do seu valor

O fato é que nunca tive um pênis dentro de mim, porém sou adepta da masturbação desde que eu tinha 12 anos (ou até menos, a partir dos 12 eu tenho certeza).

Quando eu era adolescente havia uma dúvida assombrosa: absorventes internos tirariam a virgindade? Confesso que nem me passava pela cabeça introduzir algo na minha vagina durante a masturbação. 

O que deveria importar é se a pessoa teve uma RELAÇÃO SEXUAL, e não se ela tem uma MEMBRANA. E devemos nos preocupar com a primeira vez porque isso gera uma série de responsabilidades que poderiam ser resolvidas com educação sexual de qualidade. Se aquela pessoa sabe os cuidados a serem tomados para garantir a saúde física (camisinha, anticoncepcional, exames regulares) e emocional, é o que importa.

Logo, “perder a virgindade” (odeio essa expressão) pressupõe uma relação sexual, não a mera introdução de um objeto na vagina. 

Atualmente quando me masturbo geralmente é “algo externo”, já tem algum tempo que não coloco nada dentro de mim, porém, já fiz isso no passado. Enfim, acho que meu hímen já se foi. Não, nunca fui ao ginecologista, sei que deveria o fazer, mas houve fatos que contribuíam para isso. O primeiro é que fui criada em uma cidade muito pequena onde todo mundo se conhecia, e a minha mãe muito conservadora não ia engolir fácil quando eu pedisse para ela me levar ao ginecologista (ela é quem iria pagar afinal de contas!). Hoje, por causa da faculdade, moro em uma cidade maior com duas amigas e me sustento, ou seja, poderia muito bem ir ao ginecologista.

Um erro muito comum: achar que só se deve ir ao ginecologista quando se tem vida sexual ativa. Há uma infinidade de infecções e outras doenças que uma jovem pode ter sem nunca ter feito sexo. Candidíase, por exemplo, chega a ser corriqueira. Também há questões hormonais importantes. 

Eu sei que esse não é um problema da leitora. Dificilmente os pais acham que as filhas estão na idade de ir ao ginecologista. Mas essa cultura precisa mudar. Gineco não é médico de quem fode; é médico de quem tem sistema reprodutor com útero e ovário. 

Mas aí eu me pergunto: e se ele questionar se eu sou ou não virgem? Como eu já disse anteriormente, o conceito é um tanto complexo. Daí eu digo que sou e estou lá sem hímen, ou digo que não sou e o tenho. Ou senão eu falo: “Então Dr., eu metia as coisas dentro de mim quando eu tinha 12 anos, mas nunca um pênis, se é que o senhor me entende”. Vai por mim, eu não consigo. E eu também não tenho certeza se o hímen está ou não lá.

Bom, ele provavelmente vai perguntar se você é sexualmente ativa e qual a sua última relação sexual. A resposta é simples: você nunca teve uma (para fins puramente médicos, você nunca teve). 

Esqueça o hímen. É só uma membrana e ela não necessariamente é rompida quando se introduz algo na vagina – seja um vibrador, seja o dedo, seja um pinto. Há diversos tipos de hímen e cada uma de nós funciona de um jeito. 

Sobre isso, sempre indico o vídeo da ótima Laci Green sobre a primeira vez (é em inglês).

NINGUÉM sabe que eu me masturbo, essa é a primeira vez que conto a alguém (e está sendo via e-mail).

Esse é um tabu e tanto (e injustificável em 2012). Desde sempre os meninos são estimulados a se masturbarem. “Coisa de homem”, os pais dizem. Achavam normal, quando eu era adolescente, que os meninos tivessem revista de mulher pelada. Hoje, é totalmente aceitável que eles vejam pornografia online.

Ninguém pergunta também por qual razão aquele rolo de papel higiênico ou papel toalha está ali no quarto. Se uma garota tiver um massageador, porém, é razão para começar a terceira guerra mundial! 

Falem mais de masturbação, garotas. Contem para suas amigas o que funciona pra você. Façam um tour ao sex shop. Vejam quantas coisas bonitas, coloridas e anatomicamente perfeitas estão à venda. É bom, é gostoso. 

Já cheguei muito perto de transar, MAS MUITO PERTO MESMO, do tipo, só não rolou porque a gente tava no carro do amigo dele (eu com a minha saia toda levantada) e o bendito amigo chegou. Não tenho a pira de perder a virgindade com um príncipe encantado que vai chegar em um cavalo branco, nem quero um relacionamento sério num futuro próximo, estou focando na faculdade e no meu trabalho. Aos sábados saio para a balada e sim, pego geral (mas tudo fica no beijo na boca e na mão boba) e eu adoro isso! Atualmente estou mantendo contato com um cara que eu conheci na balada e  ele já deixou bem explícito que quer sexo. E sei lá, estou com vontade de transar!

Mas essa é minha dúvida: Conto ou não conto que sou virgem? Será que ele vai perceber? Me ajude por favor.

Bom, vamos lá. 

Perceber? Hum. Por questões físicas, tipo sangramento ou dor? Não tem como saber de antemão. Há mulheres que nunca sangraram (eu, por exemplo), outras que sangraram na hora, muitas que sangraram só quando já estavam sozinhas. 

A dor costuma aparecer, mas também não há regra. E não só virgens sentem dor, então isso não é indício de que aquela é a primeira vez da garota.

Se ele vai perceber porque talvez você não saiba direito o que fazer? É possível. Mas tem gente (homens e mulheres) que mesmo depois de transar mil vezes ainda não sabem o que fazer. Logo, também não tem como bater o martelo.

Mas eu acho que sim, todo mundo deve contar quando é a primeira vez. Porque talvez você precise de um pouco mais de paciência, talvez você se confunda ao colocar a camisinha, talvez você sangre. 

Existe a possibilidade do cara fugir, assim como pode ser que ele se sinta o máximo por “desvirginar mocinhas inocentes”. As duas atitudes são idiotas, pois dão imenso valor a algo que não tem tanta importância assim.

Antes que digam “ah, pra mim foi importante!”, eu sugiro um exercício. Pense se você deu esse valor todo porque VOCÊ quis ou se foi porque a nossa cultura coloca a “castidade” como parte do caráter de uma mulher.

O que se quer é que os jovens adiem o início da vida sexual, e não que eles transem com responsabilidade. Falso moralismo, machismo, controle. O peso que se dá à virgindade da mulher tem a ver com isso, não com a saúde dela.

Então, o que importa é você (leitora que mandou o email e você aí que está me lendo) se cuidar física e emocionalmente. Transar quando tiver certeza, quando já tiver ido ao gineco (eu sei que isso é quase utopia, mas sigo torcendo!), quando souber direitinho quais riscos você corre, quando tiver um parceiro bacana (não um príncipe encantado porque isso não existe!), quando você estiver fazendo por você, e não para agradar, conseguir algo, ser aceita. Por você e pra você.

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Sigo respondendo perguntas no ask.fm (ask.fm/vidadeleticia), usando freneticamente o Twitter (@vidadeleticia) e postando coisas no Facebook (é só clicar em “curtir” nesse quadrinho aí na lateral esquerda). Interajam! E bom fim de semana. :)

Quanto custa pra sair desse mundo?

Todos os dias eu leio reportagens absurdas. Sigo muitas ~feminazis~ no Twitter e sempre cai na timeline algum (ou vários) link de bizarrices cometidas pelos meus coleguinhas. Normalmente penso em fazer um post, mas se eu fosse escrever sobre e analisar cada matéria, o blog seria só sobre isso – e eu não poderia mais dormir, coisa que muito me dá prazer. É, a coisa está feia assim.

Mas agora está circulando um info sobre quanto custa ter uma vagina (??????). Esse é, aliás, um “argumento” muito utilizado pelos (as) machistas de plantão: em tese, custa um dinheirão ter uma buça e um corpo ~pronto para o sexo~. E aí incluem no cálculo até o hidratante que você usou, como se por isso fosse obrigação do cara pagar o motel.

O problema dessa reportagem é ela tomar forma de material informativo, quando na verdade é apenas uma palhaçada. Quando me mandam links de blogs mascus, por exemplo, eu só dou uma micro risada, porque eu sei que pouca gente vai levar a sério.

Quando sai na imprensa, porém, a informação se reveste com uma aura de “lei”. Muita gente acredita.

Portanto, aqui vão alguns esclarecimentos sobre “o custo da mulher sexualmente ativa“.

Primeiro: pílula anticoncepcional. Realmente é um custo pra mulher sexualmente ativa. Não todas, claro, porque o método utilizado varia muito (inclusive há quem não use nenhum). Mas, se é pra generalizar, ok. É um custo de fato.

Remédios para cólicas: R$ 276 por ano. Hã? Eles fizeram um cálculo da mulher tomar TODO MÊS, durante CINCO DIAS, remédio para cólica. Se a sua TPM é forte assim, eu sugiro procurar um gineco, pois pode ser algo grave, como endometriose, ou até bem simples de ser resolvido (com a troca do anticoncepcional, por exemplo).

Camisinha: R$ 223 por ano. No texto, dizem que fizeram uma média com os valores de mercado – um pacote com 3 unidades sai entre R$ 2,50 e R$ 9,90. E acharam por bem dizer que a mulher faz sexo duas vezes por semana e, portanto, usa oito preservativos por mês. De onde tiraram essa média? O ~meu~ problema não era querer transar duas vezes por semana (isto é, 100 vezes num ano)? E a pessoa só dá uma?

Mesmo assim, fazendo o cálculo: 8 camisinhas por mês, 12 meses no ano = 96 camisinhas, ou 32 pacotes. Se for a mais barata, dá 80 reais por ano. Mas vamos jogar o preço lá pra cima, né? Ignorar que há quem pegue preservativo em posto de saúde e que, olhem só, têm parceiros que também compram camisinhas! Além de ter gente que não trepa com quem tem pinto.

Sabonetes íntimos: don’t. Just don’t. Muitos ginecologistas são contra, completamente contra o uso. Outros dizem que não tem problema. Mas nenhum ESTIMULA o uso. Parem. Sua buceta não é pra ter cheiro de flores. Ela tem esse cheirinho aí, mesmo, que não é fedor. É odor. 

Ginecologista: uma consulta custando entre R$ 150 e R$ 300 a cada seis meses. Quem inventou essa periodicidade? De seis em seis meses? A não ser que você tenha algo para acompanhar, os médicos recomendam uma visita ANUAL ao ginecologista.

Exames: papanicolau, ultra de mama e pelve e colposcopia uma vez ao ano. Ué, não era pra ir ao gineco de seis em seis meses? Daí você só faz o exame uma vez? Pra quê ir duas vezes no médico, então?

Depilação. Ah, a depilação. Ai de você se te acharem com a buceta peluda, hein? Vai ser presa!!! (preguiça, suspiros eternos de preguiça.)

Tratamento para infecções: R$ 60 ao ano. Gente? Eles supõem que a mulher vai ter pelo menos uma infecção por ano. Hã? Oi?

Absorvente. Ok, generalizaram no uso, etc, etc, mas era preciso partir de algum número inventado. A minha questão aqui é: não são só as mulheres sexualmente ativas que usam absorvente, têm cólica, vão ao ginecologista. Eu sei que muitas só procuram o médico após começarem a transar, mas não devia ser assim. As tais infecções do item anterior, por exemplo, acontecem com todo mundo, transando muito, pouco ou nunca. Checagem hormonal também faz parte do pacote. E menstruação, infelizmente (detesto), também.

Também fizeram a média baseando a vida sexual da mulher entre 18 e 40 anos. Fora da realidade, primeiro porque a média de idade para a primeira vez é abaixo disso. E aí chega aos 40 anos e você para de transar? A menopausa não vai ter chegado ainda (e, portanto, você vai continuar menstruando, sentindo cólica e usando anticoncepcional).

Mesmo que você já não menstrue mais (eu, por exemplo, estou na menopausa há anos!), você para de lavar a buça? De ir ao gineco? Não faz nenhum sentido dizer que isso é o custo para uma mulher sexualmente ativa. Nenhum.

Além de ser um desserviço fazer reportagens que mostrem que é um “fardo” ter uma buceta.

Eu não aceito

Antes de começar o post propriamente dito: pra quem está chegando por agora, sejam bem vindos. Sim, vários posts não estão no ar. Num acesso de sei lá o quê no início do ano eu os coloquei offline.

A ideia era ir repostando alguns, mas minha conhecida procrastinação impediu tal coisa. Quem sabe eu não consigo fazer isso depois de terminar de escrever o livro?

Por enquanto, só está online o que está online aqui e no Cem +1. Uso o Twitter @vidadeleticia, respondo perguntas no ask.fm/vidadeleticia e posto coisas no Facebook também (basta você dar um “like” nessa caixinha na coluna à esquerda). E respondo emails no [email protected]

Divirtam-se!

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(se bem que o post não é nada divertido.)

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Anteontem falava sobre transtornos mentais no Twitter. Falava genericamente; há tempos não compartilho nada sobre minha depressão. Não lembro a razão do assunto ter surgido. Talvez eu estivesse vendo Private Practice, justamente o episódio em que Sam é obrigado a internar a irmã bipolar. Sequer lembro o comentário que eu fiz.

Recebo o reply de uma garota com quem nunca havia conversado. “Quem não quer se cuidar tem mais é que se foder, mesmo”, ela disse. Sempre me assusto com esse tipo de afirmação. O primeiro motivo deveria ser óbvio para todos nós, inclusive quem não tem qualquer conhecimento sobre transtornos: desejar o mal de alguém, por qualquer motivo, é cruel e desumano.

Porque eu já fui sacaneada. Bastante. Por gente muito próxima, que teria o dever de, na verdade, cuidar de mim. E por alguns milésimos de segundo até passou pela minha cabeça como seria se essas tais pessoas explodissem pelos ares e não restasse nada, nada, nada, nenhuma única célula desses seres.

São pessoas com quem não quero encontrar nunca mais ou sequer ouvir falar no nome. Você deve ter gente assim na sua vida, também. Mas, além de imaginar esses desaparecimentos de desenho animado, eu jamais desejei o mal dessas pessoas. Quando eu era religiosa e acreditava em alguma justiça da vida, eu até achei que elas se ferrariam eventualmente, mas como forma de “pagarem” pelas maldades que fizeram (gente má não é má só com uma pessoa).

Agora sou muito cínica e sei que não, o mundo não é justo e talvez essas criaturas sejam muito felizes, bem sucedidas, amadas. Mesmo assim, nunca movi um membro para prejudicá-las. E eu não sou boazinha. Segundo os astros, inclusive, sou vingativa-escorpiana.

Então, fico assustadíssima quando alguém diz ao universo “tem mais é que se foder”. Por quê? Por que uma pessoa que você sequer conhece tem que se dar mal? Porque 20% da humanidade MERECE se ferrar? (segundo a Organização Mundial de Saúde, esta é a porcentagem da população que terá algum episódio depressivo ao longo da vida.)

Aí sim entramos numa seara que eu conheço bem. Há alguns meses uma amiga de faculdade me disse, durante conversa no gtalk: “eu também tenho minhas tristezas e aprendi a lidar com elas”.

Falava num tom de superioridade, como se ela, apesar de mais de dez anos mais nova do que eu, fosse muito sábia. Eu também aprendi a lidar com minhas tristezas. Quem me conhece sabe quão difícil é que eu peça ou aceite ajuda. Sou toda ~independente~ e odeio sentir que alguém pode estar odiando me fazer um favor.

Lidei com muita coisa na vida. Coisas ótimas (e nem por isso fáceis de digerir) e coisas péssimas. Lembro de um dos piores dias dos últimos anos: o diagnóstico de menopausa precoce. Eu sabia que ele viria. Eu não esperava que ele ia doer tanto. E eu estava sozinha, assim como peguei meu táxi sozinha depois da consule fui trabalhar. Desabei quando cheguei na redação, mas ok.

Mas houve um momento em que “sozinha” não era mais uma opção. Eu precisei de ajuda, inclusive dessa tal amiga com quem conversei no chat. Eu preciso de ajuda até hoje, quando certos demônios invadem minha mente e me deixam especialmente medrosa e solitária.

Para tentar me entender e compreender um pouco mais da vida de quem, como eu, tem transtornos de ordem mental, comecei a ler “O demônio do meio-dia”, indicado por várias leitoras quando eu assumi meu diagnóstico.

Demorei a começar a ler; o livro é uma porrada no estômago para quem se vê a cada linha (o autor também é depressivo). Andrew Solomon vai analisando fatos históricos e sociais, estatísticas, fala de remédios. O último capítulo que eu li trata de um assunto sobre o qual não falamos: suicídio.

E é assustador. O livro é de 2001, então não sei quão atualizados estão esses dados mas, segundo Solomon, a cada 17 minutos alguém comete suicídio nos Estados Unidos. É a segunda maior causa de morte entre estudantes universitários naquele país.

É real.

Não é “não saber lidar com as próprias tristezas”. É uma dor que não passa. Depressão hoje é tratável, não curável. Você não diria para um paciente de câncer “que ele tem mais é que se foder mesmo”. Por qual razão se aceita que digam isso para quem tem transtornos mentais?

Eu não aceito.

Camisinha não é coisa de vadia

O ~alta social media~ decretou: ”Mulher: se um cara põe camisinha sem vc pedir é pq ele te acha uma vadia.”.

Minha cara ao ler esse tipo de coisa em setembro de 2012:

Infelizmente tal pensamento ainda é muito comum. Muita gente dizia que, com minha quantidade de parceiros, eu seria um poço de DST. Sabem uma coisa curiosa? Eu nunca tive nenhuma. Também não escondo de nenhum parceiro o meu passado (e presente) sexual, mas mesmo assim alguns deles não fizeram essa questão toda de usar preservativo comigo.

Eu sempre fiz questão (não, não vou dizer que jamais transei desprotegida. Já rolou e eu me arrependi amargamente).

Quando alguém dispensa a camisinha com você, essa pessoa não está necessariamente te dando um sinal sobre o que ela acha de você. Ela está falando de si mesma: é tão arrogante que acha que ela mesma é imune a doenças sexualmente transmissíveis.

Porque se você está num relacionamento (casual ou não) e a camisinha nem entra em pauta, é bastante provável que aquele (a) parceiro (a) também não faz questão de usar o preservativo com outras pessoas. E bom, vocês já sabem o que acontece.

Comecei minha vida sexual lá na década de 1990. Todo mundo parecia mais preocupado com o HIV. Grandes nomes de especial influência na minha existência morreram por causa do vírus (Cazuza, 1990; Freddie Mercury, 1991; Renato Russo, 1996). A gente via nossos ídolos lutando e definhando. Sarcomas aparentes. Perda de peso. Queda de cabelo. Fim.

Na época, as camisinhas eram mais caras e muito desconfortáveis. Quem sofria de alergia… tinha de sofrer, pois só as de látex eram vendidas. E, apesar de extremamente grossas, estouravam.

As coisas mudaram pra melhor em todos os aspectos. Contrair o HIV já não é uma sentença de morte – e talvez por isso mesmo algumas pessoas se considerem invencíveis. Ser soropositivo, porém, requer uma série de cuidados com a saúde, como vocês podem ver nessa reportagem do Profissão Repórter do ano passado.

Prevenir-se também ficou mais fácil. As camisinhas se tornaram mais baratas e confortáveis, sendo encontradas em diversos tamanhos e materiais diferentes.

Há alguns dias uma leitora mandou e-mail dizendo ter dificuldade em usar camisinha com o namorado, pois o pênis dele é bem grosso. Ele reclamava que os preservativos apertavam demais. Eu disse para ela testar a Preserv Extra Premium (nunca usei), que tem 58mm de diâmetro (as comuns têm 52).

Ela testou e me respondeu dizendo que foi ótimo: “Ele disse até que tem que colocar a mão de vez em quando pra ter certeza que não saiu, pois a sensação é de estar praticamente sem”.

Mesmo com tantas boas notícias, os preconceitos (como do tuiteiro mencionado acima) persistem. E deixam pessoas doentes. Em dez anos, dobraram os casos de HIV na terceira idade. Muitas das infectadas são mulheres monogâmicas e casadas.

Enquanto tratarmos o sexo como um componente do “caráter”, os números continuarão aumentando. Não consigo ver motivo razoável para deixar a camisinha de lado, mesmo em relações mais duradouras e teoricamente monogâmicas. Mas, caso você decida fazer isso, por favor faça exames completos antes, sempre observando a janela imunológica. Se cuidem.

E deem unfollow nesses imbecis cheios de preconceitos. A saúde física e mental de vocês agradece.

“Sou bipolar, que legal!”

As pessoas falam muito de que todo mundo está sendo diagnosticado com algum problema de ordem mental. Esbravejam. Dizem que é um absurdo, “onde nós vamos parar”, “será mesmo que precisamos tanto de remédios”.

Eu não sou médica, não tenho estatísticas em mãos. Tudo o que sei é a partir da minha própria experiência e da observação. Evidente que tenho interesse pelo tema e também leio tudo o que cai na minha mão a respeito.

Não sei se todos nós um dia vamos ser diagnosticados com um distúrbio do tipo. O que sei é que iremos passar por momentos difíceis, como a perda de um ente querido ou dificuldades que nos deixam insones. Então, qual o problema de temporariamente se tomar um remédio que nos faça sentir melhor? Se você tiver uma doença diagnosticável por exames de sangue ou raio X, você não vai se medicar?

Então, o que vejo é as pessoas esbravejando contra algo que elas desconhecem. Um médico sério não vai sair passando remédio para quem não precisa. Eu, por exemplo, tenho imensa dificuldade de dormir. Imensa. Não importa a fase da minha vida, não importa a que horas acordei, não importa se trabalhei pra caramba o dia inteiro. Simplesmente não pego no sono. E, depois que finalmente durmo, acordo o tempo todo.

Fiz exames. Passei uma noite com eletrodos no meu corpo inteiro no Instituto do Sono para tentar identificar o motivo. Uma amiga, por exemplo, descobriu durante esse exame que tem “síndrome das pernas inquietas”. Ela movimenta os membros inferiores involuntariamente durante o sono – e isso faz com que ela acorde diversas vezes e fique exausta no dia seguinte.

Meu pai também já fez esse exame. Ele tinha mais de 50 anos de idade quando um médico notou a necessidade de ele se submeter à polissonografia. Descobriu-se que ele tem apneia do sono, que é quando a pessoa para de respirar enquanto dorme. Pela falta de oxigenação no cérebro, há quem morra por causa desse problema.

No meu caso, não há questão física nenhuma para que eu não durma direito. Mesmo assim, enquanto pessoas saudáveis passam entre 20 e 25% da noite na fase REM (a mais profunda, quando a gente sonha), eu fico apenas 5%. Com remédio. Isto é, meu sono é uma merda completa. Eu não tenho apneia, apesar de um desvio nasal. Eu não mexo as pernas. Nada. Não é possível saber fisicamente por qual razão eu passo muito mais tempo na fase de vigília do que na fase profunda do sono.

Daí voltamos aos médicos sérios. Tive duas psiquiatras na vida (fui em mais dois, mas não gostei e fugi). Ambas começaram o tratamento me passando remédio para dormir, tarja preta e etc. Alprazolam, vulgo Frontal. Uma caixa de 30 comprimidos de 1mg custa em torno de 40 reais. Quer dizer: uma noite de sono profundo por pouco mais de 1 real ao dia.

Só que o alprazolam vicia.

As duas médicas suspenderam o remédio quando completei três meses de uso. Não me deram outra receita. Passamos então para um indutor de sono, que faz com que eu pelo menos comece a dormir. Hoje tomo Zolpidem. Em uma das últimas consultas, reclamei que nem sempre o indutor me fazia dormir. Ela me receitou outra caixa de Frontal, mas já avisou que não vai passar de novo.

Evito ao máximo tomá-lo. Comprei a caixa nova há duas semanas e só abri ontem, quando não conseguia dormir de jeito nenhum. Depois do Frontal consegui pegar no sono. Acordei 10 horas depois, com uma ressaca horrível. É: remédio para dormir (os “de verdade”) pode dar ressaca. Você passa o dia inteiro meio zoado, e não raro precisa dormir de novo à tarde. É um dia perdido.

Eu ODEIO ter de tomar Frontal pra dormir. Eu ODEIO tomar Rivotril quando o calo aperta. Eu ODEIO ter de gastar 130 reais com Cymbalta todo mês. Eu ODEIO ter de observar cada tristezinha pra saber se não é a merda da depressão chegando perto de novo.

É uma vida de merda. Eu garanto a vocês.

Eu me divirto? Sim, claro. Danço, sorrio, produzo, escrevo, saio com os amigos. Faço tudo “normal”, mas sempre estou de olho a tudo – desde a minha falta de vontade de arrumar a casa até há quantas noites não durmo direito.

Tenho de constantemente ficar observando os possíveis sintomas de uma nova crise. E, ao pensar que talvez ela esteja voltando, entro em desespero. Porque eu não quero sentir aquilo tudo de novo. Nunca mais.

Essa introdução gigantesca é só para falar mal de quem se diz “bipolar, depressivo, borderline” para fazer gracinha. Colocam na bio do Twitter. Eu levantei a hipótese de ser bipolar com a minha médica, pois eu fui da merda completa para o florescimento de ideias e risos soltos. Tive medo de que estivesse passando pela fase de “euforia”. Ela me explicou direitinho como é a fase eufórica de um bipolar, e definitivamente eu não me enquadrava. O que eu estava passando é pela fase “normal” da Letícia. Eu tenho ideias. Eu sorrio. Eu produzo. Eu sou essa pessoa – com fases soturnas da depressão (que, mais uma vez, espero que nunca mais volte).

Esse povo que se diz bipolar quer, na verdade, justificar sua falta de tato ao lidar com o mundo. Oscilações de humor são normais no nosso cotidiano. Acordamos putos, porque queríamos ficar mais tempo na cama. Ficamos felizes porque, ao chegarmos no trabalho, conseguimos algo que há tempos esperávamos. Almoçamos com amigos, e daí ficamos mais felizes ainda. Só que à tarde recebemos um telefonema contando algo bem ruim. Ou então, na volta pra casa, pegamos duas horas de engarrafamento. Quem não oscilaria de humor? Bipolaridade não é oscilação de humor, é um distúrbio que deve ser tratado.

Não justifiquem suas grosserias com bipolaridade ou coisa do tipo. Quando eu estava em crise depressiva eu não era agressiva, por exemplo. Eu não conseguia nem reagir a qualquer agressão que me fizessem. Era como se eu estivesse numa situação de quase-morte (cada pessoa reage de um jeito, claro).

Fazer piada com bipolaridade ou qualquer outro distúrbio mental é cruel com quem de fato sofre com essas doenças. Assim, quando um de nós diz ao mundo pelo quê está passando (e é difícil, juro!), não é levado a sério. Acham que é frescura, que é brincadeira, que somos mais um que coloca esse tipo de informação na bio do Twitter.

Se informem mais. Se você realmente é bipolar, depressivo ou tem outro distúrbio qualquer, há médicos extremamente competentes que podem te ajudar. Se não é, pare de tentar justificar seus comportamentos antissociais com uma doença. Distúrbios mentais, felizmente, podem ser controlados e medicados. Babaquice e preconceito, não.

PS: já vi que tem um montão de erros no texto, mais do que o comum. Tava muito puta e escrevi sem reler. E continuo puta e não vou ajeitar agora. Só daqui a pouco. Tchau!

E se fosse com você?

Neste post não vou nem falar sobre o poder da mulher sobre o próprio corpo. Há muitos bons textos sobre o assunto por aí. Trata-se de uma reflexão a partir da minha experiência.

Nunca quis ter filhos. Quando criança achava que engravidaria, “porque é assim que as coisas são”. Com o passar dos anos, vi que não era a minha. E, por isso mesmo, sempre tive pânico de uma gravidez indesejada.

Tomava pílula, usava camisinha e ainda assim desconfiava de um mísero atraso na menstruação. Se ela não viesse naqueles sete dias de pausa do anticoncepcional, eu surtava. Engravidar significaria, entre outras coisas, voltar a morar em Manaus – coisa que eu prefiro que não aconteça.

É evidente que em alguns momentos desconfiei que uma gravidez pudesse ter acontecido. Quem nunca tomou a pílula do dia seguinte, se deparou com uma camisinha estourada ou se empolgou e sequer usou preservativo que atire a primeira pedra.

Por duas ou três vezes tive receio de estar grávida. Não havia indício nenhum. Numa delas, lembro da moça do laboratório perguntando há quanto tempo eu não menstruava. Meu ciclo estava normal, mas eu havia lido que muitas mulheres continuam menstruando, mesmo gestantes. Ela ficou me olhando com cara de ????, mas colheu meu sangue.

Até sair o resultado, porém, eu cismei estar grávida. Chorava. Via diversas gestantes na rua e me imaginava com aquele barrigão. Pensava nas mudanças que uma gravidez acarretaria na minha vida e na do meu então namorado. Em nenhum momento pensei na possibilidade de abortar. Jamais vi gravidez como algo horroroso, que “estraga” a vida de uma pessoa. Conheço mulheres que tiveram filho na adolescência e, por mais que à época parecesse o fim do mundo, hoje são muito felizes com a prole – hoje os filhos já estão até na adolescência.

Mesmo tendo consciência disso tudo e sabendo que minha família jamais me abandonaria, eu não queria ter um filho. Desejei fortemente que o exame desse negativo. Enquanto o resultado não saía, perambulei pelas ruas do Rio de Janeiro apreensiva. Foram, sei lá, um ou dois dias apenas. Bem pouco tempo, mesmo.

E, naquele período, vivi um turbilhão de emoções. Oscilava entre o desespero completo, o medo absoluto… até que comecei a amar um bebê que jurava estar dentro de mim. Que, àquela altura, não seria uma criança, claro. Seria quase nada.

Até que fui buscar o resultado. Quem pegou foi uma amiga. Fiquei esperando no saguão do laboratório, e ela voltou com um risinho nos lábios. Eu estava sendo patética, gelada, nervosa. Negativo. Fiquei aliviada.

Foi a única vez que cheguei a fazer um exame de sangue para verificar se estava esperando um bebê. Houve outras ocasiões em que me virei com o teste da farmácia. Sempre negativo.

Hoje, enquanto pensava sobre o julgamento de amanhã (quarta, 11) no STF sobre a interrupção da gravidez em caso de anencefalia, fiquei relembrando das sensações que tive enquanto achei – por algumas horas – que esperava um filho.

Repito: foram algumas horas, mas eu passei por uma montanha russa de emoções.

Daí imaginei como teria sido se eu tivesse, de fato, engravidado. Teria mudado minha vida inteira. Meu namorado e eu largaríamos a faculdade para voltar pra Manaus (ele também é de lá). “Enfrentaríamos” nossas famílias (convenhamos, dar essa notícia quando nãos e está casado-ganhando-dinheiro é muito difícil). Com o passar das semanas, estaríamos celebrando a vinda de um bebê.

Mas poderia ser que, aos três meses de gestação, eu descobrisse que aquela criança na verdade não tinha cérebro. E aí? Pela lei vigente hoje no Brasil, eu teria que continuar com a gravidez. Vocês conseguem imaginar isso? Carregar dentro de si um feto que jamais viverá?

Passar meses encontrando as pessoas na rua que te parabenizarão pela vinda de uma criança que você sabe que não tem como sobreviver? Fazer exames médicos, correr risco de vida, passar por uma cirurgia para “colocar no mundo” um bebê que não tem a menor chance de sobrevivência? E, caso chegasse a parir, ter de registrar no cartório, dar um nome a um bebê, e depois enterrá-lo?

Vocês têm noção do que isso deve significar para uma mãe?

Eu não consigo sequer imaginar o tamanho dessa dor. Como disse, eu amei a possibilidade de ter um filho. E foram apenas algumas horas. Pensem como seria se fossem três meses. Imaginem o corpo mudando, os hormônios enlouquecendo, a menstruação faltando. Para, mesmo com tudo isso, você não poder fazer o chá de bebê, decorar o quartinho, comprar fraldas. Nada.

Do ponto de vista meramente legal, lembrem-se que o Código Penal, que criminaliza o aborto, é de 1940. Na época era impossível precisar se um feto era anencéfalo. Nem ultrassonografia existia à época.

Quanto à questão religiosa, sou de criação católica e durante muitos anos me declarei espírita. Para quem tem essas crenças, o aborto não é “permitido”. Mas este é um aspecto religioso que não pode influenciar na legislação do nosso país que, em tese, é laico. Além disso, temos de respeitar quem crê em outras coisas – até mesmo em nada. Se você não acha bacana abortar, pois acredita que isso já estava escrito no seu destino e que já há um espírito destinado a passar pelo abortamento, então não aborte.

Também é ridículo dizer que uma mulher que aborta é assassina. Então quando doamos órgãos de quem teve morte cerebral nós estamos matando essa pessoa? A medicina tem meios, hoje, de identificar quando não há mais possibilidade de sobrevivência. O mesmo vale para quem diz “ah, então vamos abandonar um ente querido que tem uma doença fatal?”. Aquela pessoa já viveu, respirou, sorriu. Nós sempre temos esperança de uma reviravolta. E, quando nos damos conta de que não há jeito, fazemos de tudo para manter a pessoa confortável, dando todos os cuidados paliativos para que a morte seja o mais “tranquila possível”.

No caso de uma gravidez de anencéfalo, não se trata de “morte”, simplesmente porque não há vida. Por mais triste e doloroso que isso seja. Não se pode é prolongar essa dor ainda mais, por meses, gerando traumas pessoais e familiares que podem ser evitados. Espero que nesta quarta o STF reconheça o direito da mulher a interromper a gravidez. Chega de torturar mulheres.

Excelentes notícias

O dia começou glorioso com a prisão dos “responsáveis” pelo site Silvio Koerich, que era racista, misógino, homofóbico e tudo de ruim que vocês podem imaginar. Excelente, excelente.

Daí depois li que a prefeitura de Catalão, em Goiás, está vacinando gratuitamente as adolescentes contra o HPV. A vacina é cara (ultrapassa os mil reais), não é distribuída na rede pública de saúde e os planos de saúde não cobrem.

Mesmo quando têm condições financeiras, os pais tendem a não vacinar as filhas – acham que isso as estimularia a transar. Por favor, né? Colocar uma mulher em risco de pegar câncer só para ela permanecer virgem é de um atraso surreal.

Isso porque a vacina é mais indicada para garotas a partir dos nove anos de idade. Há quem ache prematuro, mas segundo a reportagem do G1 este é o momento ideal por causa da resposta imunológica. O fato é que você não sabe quando sua filha vai começar a vida sexual, e se você puder protegê-la do vírus que é o grande responsável pelos casos de câncer de colo do útero no país, torna-se essencial a vacinação.

Parabéns à prefeitura de Catalão!

Outra boa nova é que o SUS voltou a distribuir as camisinhas femininas. Caríssimas (na farmácia custa em torno de R$ 7 e nos sex shops o valor chega a dobrar), elas estavam há um ano sem serem entregues nos postos de saúde. O Ministério da Saúde comprou 20 milhões de unidades.

Justamente por causa do custo, as camisinhas femininas não são muito populares. Mas podem ser uma excelente saída para mulheres alérgicas ao látex ou que tenham aqueles parceiros chatíssimos que não se acostumam com o preservativo masculino. Eu testei e contei tudo aqui.

Um dia de boas notícias. Que continue assim.

O número de parceiros e as DSTs

Na época em que eu relatava meus encontros sexuais aqui no blog recebi toda sorte de xingamentos. Uma das “preocupações” das pessoas que jamais conheci era a minha saúde.

“Com tanto homem assim”, era “óbvio” que eu ia pegar alguma doença sexualmente transmissível. O assunto voltou à baila depois do post sobre namorar uma garota de programa.

Nós, as putas, seríamos responsáveis por todo o mal em forma de vírus, fungos e bactérias do mundo. Os moralistas e punheteiros de plantão (nada contra punheta. acho lindo. mas quem SÓ faz isso deve ter problemas) acham que a abstinência sexual os protege de doenças. Bom, a igreja também prega isso – e com esse pensamento se evitam políticas públicas sérias de prevenção.

Daí você pode dizer que uma pessoa que transou com mais de três parceiros no último ano não pode doar sangue. São padrões instituídos, mesmo. Assim como os tatuados também não podem. Moralismo barato ou só cuidado excessivo e necessário?

Não sei dizer.

Só sei contar sobre a minha experiência – personalíssima e divertida pra caramba. Segundo estatísticas, eu tenho uma vida sexual mais movimentada que a média. SEMPRE tive. Não foi algo que surgiu na minha cabeça em 2011 e eu resolvi sair dando por aí.

Não. Sempre, sempre, sempre fui liberada sexualmente. Agora um pouco mais, porque também eu era eivada de machismo.

Pois bem. Eu, euzinha, nunca tive nenhuma DST. Nenhuma. Não tenho HPV, um mal que atingirá de 50 a 80% da população feminina do mundo e é o grande responsável pelo número de casos de câncer do colo do útero.

Já tive, como quase todas nós, candidíase. Você pode nunca ter chegado perto de alguma atividade sexual e pegar cândida. É um fungo, super comum, por exemplo, no verão, por causa do uso das roupas de banho úmidas. A coceira e o odor indicam; você usa um remédio por três dias, fica sem transar nesse período e pronto. Assunto resolvido.

Por que eu, com tamanha variedade de parceiros, nunca fiquei doente? Simples: piranha que é piranha sabe disso. E se liga, se cuida. Eu não transo sem camisinha. Não vou mentir e dizer que nunca aconteceu. Já, já aconteceu, e eu fiquei em pânico depois. Faço exames regularmente, vou à ginecologista, incluo o anti HIV quando vou colher sangue para ver, sei lá, meus hormônios.

Mas eu sei que as pessoas “automaticamente” pensam em doença quando veem uma pessoa mais “dada”. Será que é automático mesmo? Será que as estatísticas realmente mostram que quem transa mais, tem mais chance de contrair doenças? Se formos analisar só o número, friamente, sim. Mas são pessoas, que se comportam de maneiras diferentes – e dispensam ou não o uso de camisinha. Tem gente, inclusive, que tem TESÃO em transar sem proteção não pelo prazer no ato sexual, mas sim pela possibilidade de pegar HIV. Uma espécie de roleta russa dos anos 2000.

Isso tudo ficou muito claro pra mim há alguns anos. Eu transei com um cara comprometido. Noivo. Usamos camisinha o tempo inteiro. Alguns dias mais tarde ele me procurou porque estava com gonorreia. Além de querer me avisar, ele fez um tipo de acusação, como se tivesse contraído a bactéria na nossa relação. Eu não sei com quantas outras pessoas ele havia transado nos últimos tempos, mas sei que ele não usava camisinha com a noiva.

Ah, mas a noiva, aquele ser quase virginal, não poderia ter uma doença tão mundana, né?

Bom, o que eu sei é que EU não tinha.

O que vejo acontecendo é que as pessoas com um suposto relacionamento monogâmico deixam a camisinha de lado. Além do risco das puladas de cerca, o casal tende a fazer isso sem fazer exames e sem considerar a janela imunológica. Um olha para a cara do outro, diz que não tem vontade de sair com mais ninguém, que já estão “há tanto tempo juntos” e simplesmente para de usar preservativo. “No pelo é mais gostoso”, repete-se por aí.

Eu, que comecei a minha vida sexual há zilhões de anos, até concordo que há uma década havia uma enorme diferença entre transar com camisinha ou sem. “É como chupar bala com papel”, diziam. De fato, ainda mais para uma mulher alérgica, não era a coisa mais legal do mundo. Mas as camisinhas mudaram, ficaram mais fininhas, mais seguras e essa sensação melhorou muito. E, cá pra nós, é o que tem pra hoje.

Só que por uma espécie de conveniência os casais ignoram os riscos de contrair alguma doença. Tem homem que acha uma afronta a mulher pedir que ele vá ao médico. Peniscopia? Quem já fez? A mulher vai sempre ao ginecologista, mas e os rapazes?

Um tempo desses fiz uma enquete aqui voltada às mulheres perguntando se elas carregavam camisinhas. Não tenho acesso agora ao resultado, mas grande parte delas disse que isso era obrigação masculina ou que tinham vergonha de andar com preservativos na bolsa. “Coisa de puta.”

Como resultado, uma em cada dez jovens atendidas no SUS tem DST (leia mais aqui, no ótimo blog da minha amiga Mariana Perroni). Conheço mulheres que contraíram HPV com o primeiro parceiro sexual. Aos 20 e poucos anos estavam às voltas com cauterização do colo do útero. Outras viram o sonho de se tornar mãe indo por água abaixo porque já havia evoluído para um câncer.

Elas se acharam acima do bem e do mal porque eram “mulheres direitas”. Daí os homens não necessariamente “direitos” saem com essas moças “acima de qualquer suspeita” e também deixam a camisinha de lado. E assim as doenças são transmitidas.

A não ser que a pessoa esteja num estágio avançado de algumas DSTs, como a gente vê nos livros de biologia, nós não temos como saber se ela está infectada. Por isso, camisinha, sempre. Falso moralismo, nunca.

Educação sexual… para os pais (e para a ministra)

O post sobre as declarações da ministra Maria do Rosário sobre o caso Eloá levou a algumas discussões no Twitter. Algumas pessoas disseram que a ministra estava certa. Outras, que não deixariam uma filha namorar alguém tão mais velho. Teve quem reclamasse da tal sexualidade precoce (namorando aos 12 anos? queima na fogueira!).

A história toda me espanta. Fico surpresa como uma ministra pode falar tamanha asneira. Você pode até concordar que uma garota de 12 anos não deve namorar, especialmente alguém “tão mais velho”. Mas, eu pergunto: a ministra alguma vez foi lá falar com a mãe da Eloá? Oferecer apoio? Conhece os autos do processo? Falou da transformação do cárcere privado em novelinha trágico-romântica nas redes de televisão? Me parece que não (e espero estar errada). Em vez de, como autointitulada feminista, apontar que este é mais um crime do machismo, colocou a culpa na família da vítima. Ela sabe como Eloá era criada? Sabe se faltava apoio familiar? E, quem diz que a menina transava com Lindemberg: você estava lá? Que diferença isso faz no caso?

Depois se entrou na discussão de que o correto seria falarmos em erotização precoce, e não em sexualidade, já que esta é inerente ao ser humano, como demonstrei no último post. Qual é a idade para isso? Quem disse? De onde veio a regra? As coisas mudam. Não só na época em que vivemos. Eu, adolescente nos anos 1990, não queria saber de sexo com 12 anos. Ainda brincava na rua, jogava bola, subia em árvore. Mas tive um namoradinho (opa! ele era da minha idade). Durou um fim de semana e eu nem beijei ele. Eu fui precoce?

Hoje, pra quem nasceu após a virada do século (e que estão fazendo os tais 12 anos), as coisas mudaram muito. São jovens mais bem informados, mais independentes. Não sou socióloga, nem psicóloga, nem antropóloga. Mas… muita gente fala em diminuir a maioridade penal. Chamam de monstros garotos que cometem crimes aos 10, 12 anos. Eles podem matar, mas não podem transar? Sinceramente, não sei a resposta. Não sei resolver essa equação. Se filhos tivesse, ficaria em casa angustiada sempre tentando entender e acertar na educação. Se ministra fosse, escolheria melhor minhas palavras e contaria com os tais sociólogos, antropólogos, psicólogos e toda a sorte de especialistas para me ajudar nisso.

Como sou apenas uma mera blogueira, posto abaixo um texto que já havia feito e entraria no ar apenas amanhã. É a minha experiência pessoal. Como disse, de uma jovem mulher que foi adolescente na década de 1990, isto é, há vinte anos. Uma sociedade muda em duas décadas, lembrem-se disso. Não adianta vocês quererem viver lá no passado.

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O que você faz individualmente, dentro da sua casa, é problema seu. Quer ser rígido e não permitir que os filhos saiam à noite? Ou que fumem? Ou que bebam? Ou que transem?

Ok, isso é uma escolha baseada no jeito que você foi criado, nos próprios medos e inseguranças, na sua religião. O que incomoda na fala da Ministra é que ela falou como agente político, e não como uma “zelosa” (e autoritária) mãe. Eu não terei filhos, mas sou uma cidadã relativamente engajada, pouco alienada e que escrevo sobre sexo. Então, a respeito do tema eu confio no meu próprio bom senso, em autores que estudaram o assunto, em documentários sérios acerca da questão. Mais que tudo: eu lembro do que eu passei e observo muito como nos comportamos socialmente. Além dos incontáveis e-mails, eu pergunto, questiono – faço quase um interrogatório.

E, com tudo isso, eu vejo que de nada adianta proibir. Não porque “o proibido é mais gostoso”. Eu não concordo com isso. Nunca achei “gostoso” encontrar com meu namorado escondida. Odiava. Sentia culpa. Deixava de aproveitar o momento plenamente, como deveria acontecer.

Como já disse algumas vezes, transei pela primeira vez aos 15 anos. Jamais mencionei o assunto com a minha mãe. Eu sabia exatamente o que estava fazendo. Usamos camisinha. Nunca fiquei grávida ou tive qualquer DST. Mas, sinceramente, não posso creditar isso à educação sexual que tive dentro de casa.

Quando alguns artistas começaram a morrer por HIV, como Cazuza e Freddie Mercury, minha mãe comprou uma camisinha e nos mostrou. Explicou o que era a doença e disse como deveríamos nos proteger. Eu era bem nova, sexo nem passava pela minha cabeça.

Menstruei aos 10 anos, transei aos 15 e só fui ao ginecologista aos 17, quando já morava sozinha. Entre minha primeira transa e a minha saída de casa (dois anos mais tarde), minha mãe veio conversar comigo sobre meu namorado. Disse “imagina se você tivesse transado com o primeiro namorado, hoje você estaria sem ele e não seria mais virgem”. Eu ri muito por dentro. Muito. Eu havia de fato transado com o tal primeiro namorado e já havia feito o mesmo com o segundo. Detalhe: ele era virgem.

Só que durante alguns anos eu tive muito medo de que minha mãe descobrisse que eu não tinha mais – olha só que coisa! – um hímen. Eu não podia ir pras festas de carona com meus namorados, pois não podíamos ficar sozinhos. Mas aí ela ia me deixar… e eu fugia das festas. Sozinha com o namorado. Em muitas dessas vezes eu não transei, pois ainda era virgem e não ia transar só porque a oportunidade apareceu. Em outras, eu transei, no carro mesmo, naquela famosa rapidinha.

Durante anos eu rezei para que minha menstruação descesse todo mês. Tinha medo da reação da minha família caso eu engravidasse (engraçado… jamais me incomodei com a parte “social” da coisa). Muito tempo mais tarde, já morando sozinha, tinha de inventar desculpas quando ia sair com algum moço e estava recebendo visitas da família. Era mais fácil mentir do que ter de dizer o que o garoto fazia, o que estudava, há quanto tempo a gente saía e se iríamos namorar. E, na volta, ainda tinha de dizer como o filme tinha sido bom ou a comida (ui) estava gostosa. Tudo inventado, tudo ficcional, pois o máximo que eu poderia dizer é como era a suíte do motel da vez.

Estava conversando com uma amiga há pouco e ela comentou que a mãe dela dizia que a bunda da mulher caía depois da primeira transa. Assim, não adiantava essa minha amiga esconder caso fosse pra cama com alguém. Só pelo formato da bunda a mãe descobriria as peripécias da filha.

Que tipo de educação sexual é essa? Que quer que a gente adie e adie e adie a primeira transa? Pelo que vejo aqui no blog e nas minhas amigas, talvez um ou outro de nós tenhamos adiado um pouco, sim. Mas todos fizemos. E, quando isso aconteceu, o sexo veio carregado de culpa, como se fosse sujo, proibido. Um pecado.

Assim, os primeiros anos de vida sexual da maioria de nós não foi nada feliz. Ok, atingíamos o orgasmo (o que é sempre delícia), mas não era pleno. Era como se tivesse uma vozinha dentro de nós relembrando quão errado era aquele comportamento.

Em vez disso, pais e mães deveriam lidar com o sexo de maneira natural, porque é exatamente isso que ele é. Não estou dizendo que deve ser fácil perceber que o filho, que até ontem era um bebê, hoje já é grande o suficiente para ter vida sexual. Mas, como pai, você deve orientar, e não proibir.