Papo de babaca

O link apareceu na minha timeline ontem à noite. Não cliquei porque não gosto do site (explico abaixo o motivo). Mas hoje ele pulou várias vezes na minha frente, e acabei clicando para ver se o texto do Alex Castro publicado no Papo de Homem sobre feminismo era bacana. Afinal, em um dos twits do próprio site eles chamaram o post de “supremo“. Vai que eu estava perdendo a oportunidade de aprender um pouco, não é mesmo? Havia esquecido como a arrogância do ser humano não tem limites. “Supremo” é um pouco demais.

De todo modo, fui ler. Começa falando como muita gente é feminista, mas não se enxerga como tal. Bacana. Explica a diferença entre feminismo e machismo, relembra que este último mata, analisa rapidamente a questão das “piadas”, faz um pequeno apanhado histórico. Tudo muito válido, mas bem basicão (entendo que o texto deve servir para apresentar o feminismo ao leitor sem conhecimento da causa).

Porém, se o autor pretende fazer um texto ~supremo~ sobre feminismo, ele não poderia escorregar num conceito importante. Alex Castro diz, com todas as letras, que não existe feminismo radical. Exatamente com essas letras, aliás: “Feminista radical não existe. Ao reclamar da patrulha das feministas radicais, por mais delicadamente que seja, você está apenas expondo seu machismo. E todo mundo está vendo”.

Hum, deixa eu ver se entendi: o problema é todo mundo ver?

É isso?

Volto já ao texto do Alex, mas agora cheguei ao ponto que me fez querer escrever esse texto – o post ~supremo~ apenas me encorajou a escrever isso hoje.

O Papo de Homem tem uma parte chamada “Cabana”. Nessa área, há um fórum online e textos exclusivos. Rolam, também, encontros presenciais. Segundo a apresentação do site, mais de 1600 homens já participaram e “desenvolveram algum nível de generosidade, potência, ludicidade, autonomia, entre outras qualidades que focamos”. Como você faz para participar? Bom, você tem que pagar R$ 150 por três meses de acesso e ser homem.

Na Cabana (não ria do nome, por favor. muito pior é a redação, que eles chamam de QG, ou seja, quartel general. ou seja, referência ao militarismo. ou seja, machista. ou seja… ufa) os participantes compartilham experiências e fazem um ~treinamento~ nos encontros presenciais.

Um clube do Bolinha, mas tudo bem. O problema está bem longe de ser esse.

Há algumas semanas eu fiquei sabendo que um dos editores do PdH postou na Cabana um texto falando muito mal da garota com quem ele estava saindo. Tenho prints de tudo. O título é “Na internet, uma linda; na real, não tem como”.

Dou um doce se vocês descobrirem o motivo pelo qual “não tem como”.

Opa!

Doce não, porque doce engorda.

E, afinal, isso impede que um cara queira namorar uma garota, segundo o editor do Papo de Homem autor do tal texto. No início do post ele diz ter conhecido uma garota por meio do Ok Cupid. É mentira. Ela era leitora do site e comentava sempre por lá.

Ele conta como eles ficaram envolvidos nessa aproximação online. Até o momento de se verem pessoalmente: “O que eu encontrei foi a decepção em forma de mulher”.

O que ele fez? Deixo a palavra com o babaca:

COITADA“.

O tal editor postou a história porque, vejam, ele não sabia como terminar com ela. Ele não namoraria uma gorda, mesmo pagando um boquete delícia!!! Poderia ser só uma história inventada para que os moços da Cabana (que estão em ~treinamento~ para se tornarem seres humanos melhores) discutissem a questão da aparência física, em como estamos paranoicos com isso. Seria uma boa discussão.

O problema é que a história era verdade e o carinha, inclusive, ficou com ela mais algum tempo.

No fim do post tem esse ps:

Ela poderia ser identificada pelos amigos dele do Facebook, ela pediu para não falar sobre a noite que tiveram. E mesmo assim ele postou num fórum.

E, como era de se esperar, ela foi identificada. O tal texto chegou ao conhecimento dela, que a partir de então solicitou sua retirada do ar. Foram meses pedindo. Enquanto isso, a garota era zoada – e a autoestima e o equilíbrio emocional dela foram pro espaço. Ela realmente sofreu com tudo.

O post foi publicado em 16 de janeiro e só foi retirado do ar há poucos dias. Eu conversei com algumas pessoas do Papo de Homem sobre isso (não vou postar aqui porque o texto está demasiadamente longo). Hoje mesmo mandei e-mail para o Guilherme, dono do site, dizendo que iria escrever a respeito dessa história e deixando o espaço aberto para eles darem sua versão dos fatos. Ele disse que leria o post depois.

Assim como deixaram para depois o momento de finalmente tirar do ar a postagem que fazia piada sobre a aparência física de uma leitora. Mas talvez eles levem a sério demais a frase do Alex – e o que importa é que ninguém estava vendo, já que “o que acontece na Cabana, fica na Cabana” (andam vendo filmes demais).

Daí pode ficar a dúvida: o que exatamente isso tem a ver com o texto do Alex? Bom, além das contradições no texto que eu já comecei a apontar (e continuo abaixo), há uma coisa importantíssima: como você pode, em público, defender os direitos das mulheres e, quando ninguém vê, tratar uma mulher (ou, simplesmente, um ser humano) como lixo?

Não, não foi o Alex que escreveu o texto zoando a garota. De qualquer forma, trata-se da mesma empresa, o mesmo meio de publicação. Você indicaria/acharia lindo um texto feminista publicado, sei lá, no Testosterona? Não, né?

Falando em Testosterona, aliás, querem saber o que o PdH tem em comum com o blogueiro da MTV? Ambos retuitaram Silvio Koerich e, no dia da prisão dos responsáveis pelo site pelo site misógino, eu e outras feministas questionamos pelo Twitter a ligação entre o PdH e o Koerich.

O que responderam? “Estamos num churrasco aqui no QG, bêbados, e não vamos responder nada!”

O Guilherme estava viajando e, ao tomar conhecimento de tudo, entrou em contato comigo e com outras pessoas – Alex copiado no e-mail – e tentou resolver a cagada feita por um dos seus funcionários (o tuite foi apagado). Eu sei quem foi a pessoa que tuitou, aliás.

A partir desse fato, o Alex Castro escreveu um texto pedindo desculpas, admitindo o erro e dizendo que eles iam melhorar e etc. Ao mesmo tempo, o post da Cabana estava no ar, fodendo com a vida da garota.

Ah! Mas vamos fingir que somos bacanas, vai que alguém acredita?

Muita gente acredita. Vejo feministas retuitando qualquer coisa escrita pelo Alex. Eu sei que um homem feminista é extremamente charmoso, mas fica a dúvida: será que alguns deles não se dizem feministas só para ficarem bem na fita?

Bom, eu, na verdade, não consigo achar sexy um homem que não seja feminista…

Porque é muito fácil dizer “ei, eu já escrevi sobre feminismo” e agir de maneira contrária. O próprio autor reconhece a existência desses caras: “Nada pode ser mais constrangedor do que ver um homem, até então sensível e sensato, se defendendo de acusações de machismo seja dando carteirada (“não posso ser machista porque escrevi isso ou fiz aquilo”)”.

Fiz algumas críticas ao post do Alex no Twitter. Alguém citou a arroba dele e ele, como sempre, veio me questionar. Eu não tinha o menor interesse em conversar, até porque ele veio logo com aquela postura de “o que posso fazer para te fazer feliz?”. Gente? Só há duas maneiras de um homem me fazer feliz: me comendo ou me oferecendo um trabalho bem remunerado. De resto, eu não PRECISO de homem nenhum, especialmente para ser FELIZ (essa é uma busca só minha).

Não conseguem enxergar quão condescendente é essa postura? Pois bem. Voltando ao texto. O autor diz “não existe feminismo radical”, e foi uma das coisas sobre as quais falei no Twitter. Existe SIM feminismo radical. É uma corrente teórica pouco difundida no Brasil, mas com bastante força nos Estados Unidos.

E não tem nada a ver com ser ~radical~ (eu tive um professor de Sociologia da Comunicação que usava a palavra como sinônimo para algo muito bom). Caitlin Moran usa a palavra “estridente” em Como Ser Mulher para se referir a feministas mais incisivas. Justamente porque ela SABE sobre o quê estava escrevendo e que, se ela falar “feminista radical”, ela está se referindo a quem segue a ideologia radfem.

Claro que o público não iniciado na teoria feminista pode não conhecer o termo, mas se você quer ENSINAR milhares de pessoas, que tal se informar um pouco mais? E, se alguém apontar o erro, que tal admitir e não responder uma bobagem?

Poxa, Alex, MUITO OBRIGADA por dizer o que é importante e o que não é importante no movimento feminista!!! Obrigada, obrigada, obrigada. Não sei o que eu faria sem seu conhecimento! Obrigada por me iluminar!

Ele segue falando besteira no texto. No item 15, diz como a culpa do machismo é também das mulheres. Concordo! Mas daí o que ele faz? Em TODOS os exemplos de pais criando os filhos de maneira machista, ele coloca como personagem… as mães!

Porque é claro que apontar o dedo pro oprimido e colocar a mãe como a responsável pela educação parental é muito revolucionário e nada machista… O curioso é que vi muita gente criticando a página Cara, sua namorada é machista por esse motivo – e daí as pessoas acham bonito que um texto do Papo de Homem faça a mesma coisa? Porque o texto foi assinado por um homem e postado num lugar dado a machismos ele é mais válido? Vamos parar com o complexo de vira-latas e parar de abanar o rabo pra qualquer pedaço de osso que jogam pra gente? Nós não precisamos disso.

É preciso lembrar que a luta é de todas nós e que o fato de sermos mulheres não afasta a possibilidade de termos comportamentos machistas. Mas é como diz o texto da Paula Mariá citado na tal discussão acima linkada: “Essa lógica [de que é pior o machismo perpetuado por uma mulher do que por um homem] nada mais é do que uma clássica culpabilização da vítima, as mulheres são justamente o grupo oprimido e sim, internalizaram o olhar e julgamento machistas sobre si mesmas e sobre as outras, essa é inclusive a maior arma do opressor: Ter o oprimido em suas mãos.”.

Uma coisa é nós falarmos para uma amiga que ela está tendo atitudes machistas. Ou, num grupo formado por mulheres, conversarmos sobre como nossas mães nos criaram com “ideais” do patriarcado. Outra completamente diferente é apontar o dedo na cara do oprimido num site voltado ao público masculino!

Daí depois, no item 23, ele fala sobre como o corpo da mulher é da mulher. Discursa sobre o aborto: você, homem, tem que respeitar qualquer decisão que sua namorada tome. Sabe o motivo? Pra ser MÁSCULO.

Não há nada mais másculo do que ter a hombridade de ficar calado na hora certa.”

Porque, é claro, é tudo sobre eles! Sobre tornar o CARA um ser humano de valor – não que ele precise de fato respeitar as escolhas da mulher. Pode? Não, não pode.

(nem vou fazer comentário sobre a palavra “hombridade” – que tem a ver com ser VARONIL, isto é, HOMEM; tampouco sobre “histérica”, que só é usada para nos referirmos… às mulheres.)

Por isso, pra mim, tal texto é apenas mais do mesmo; uma tentativa de parecer bacana para, quando postarem bobagens sexistas, poderem dizer MAS EI, A GENTE TEM UM FEMINISTA AQUI E VÁRIOS TEXTOS SOBRE O TEMA.

Muita gente acreditou. Eu, não.

Dez propagandas sexistas

Recentemente tivemos algumas propagandas sexistas que acabaram reverberando de forma negativa nas redes sociais. A movimentação começou com a Hope, passando pela Prudence, Marisa, Axe. O consumidor está mais ligado no uso do sexismo como forma de vender produtos. Infelizmente os publicitários não têm demonstrado muito cuidado com isso.

A gente nem pode vir com o complexo de vira-latas e dizer que esse é um fenômeno brasileiro. Propagandas sexistas e que diminuem a mulher são muito, muito comuns no mundo inteiro.

Vejam 10 fotos de propagandas estrangeiras que fazem os publicitários brasileiros parecerem gênios.

A American Apparel é a rainha dos anúncios sexistas. Eles já tiveram campanhas banidas no Reino Unido por causa disso. Nas propagandas há um apelo sexual muito forte – mas sempre é a MULHER que aparece em situação de “disponibilidade”.

Aliás, rola uma certa fixação com a ideia de ~pernas abertas~. A foto abaixo seria de um anúncio da joalheria Natan – a mulher abre as pernas após ganhar uma joia. Eu falei “seria” porque eu não consigo acreditar que seja de verdade.

Outra fixação é com o leite no rosto de uma mulher. Claaaaaaaaro que é uma alusão ao esperma (quantas vezes será necessário dizer que esperma não tem NADA A VER COM LEITE?). Dessa vez nem posso dizer que o anúncio é fake, pois tem uma galeria no Corriere della Sera que mostra a foto junto de outras propagandas inacreditáveis (o que é aquela de queijo com uma mulher branca e outra negra???).

Os italianos, aliás, me parecem muito equivocados sobre a publicidade. Olhem esse anúncio dos correios (repito: estou desejando que todos eles sejam fakes, porque não é possível que alguém tenha aprovado esses absurdos).

Agora que você já viu uma mulher de frente pra vender um serviço, que tal ver outras de costas?

Ah, mas do quê eu estou reclamando? Não é pra isso que mulher serve, mesmo? Melhor seria se fôssemos todas bonecas, sem falar uma palavra. OH WAIT!

Se é pra ser boneca, por favor seja magra. Ninguém gosta de gorduchas. Faça o favor de emagrecer. Há toda uma linha de produtos lights… inclusive que usam você de público alvo e ao mesmo tempo fazem body-shaming. ”Forget about it. Men’s preference will never change. Fit Light Yogurt.” -> “Esqueça. A preferência dos homens nunca vai mudar. Fit Light”. Isto é, não queira ser uma Marylin gorda. Ai, ai.

Se teve body shaming, cadê o slut shaming? É pra já! Sabe o que é assustador nesse? É de uma campanha de conscientização de HIV… e o que fizeram? Colocaram a pessoa ~promíscua~ como sendo a que pega o vírus.

E se essa ~putinha~ não se comportar, qual o próximo passo? Encher ela de porrada!!! (a quantidade de anúncios publicitários retratando violência contra a mulher é de assustar qualquer um.)

Viu só? Com sorte você vira UM TAPETE na casa de um homem!

Eu sei que esse último anúncio é antigo. Mas será que a publicidade mudou nas últimas décadas? Essa galeria de fotos mostra que, na verdade, as propagandas de hoje são uma reedição do passado.

Em um dos meus boards do Pinterest você encontra vários outros exemplos.