Sexta-feira eu estava no boteco com três amigos. Uma estudante de psicologia novinha, uma repórter de esportes de 28 anos, um advogado que estudou com a mesma professora que eu – em outra faculdade e em outra época.
Olhei ao redor, pensei em como eles são diferentes. Sequer nasceram na mesma cidade! Fisicamente também não se parecem. Em comum, eu. Sim, eu. Os três são leitores do blog e se conheceram por minha causa. Uma coisa “chega aí que estou no bar”, e de repente estávamos os quatro confessando coisas e rindo à beça.
Eles não sabem, mas fiquei pensando em como todas essas pessoas de alguma forma vão deixando pedacinhos delas em mim. Nos últimos dois anos, com o blog, eu fui juntando cada vez mais referências, cada vez mais amor, cada vez mais satisfação.
Jamais imaginei que o blog teria esse impacto na minha vida e na de outros. Nem estou falando sobre número de acessos. Não. Mas sim sobre a relevância que ele adquiriu pra tanta gente, que se deslocam para me ver, pra me dar um abraço, pra bater papo comigo. E, como bônus, acabam conhecendo outras pessoas e novas redes fortíssimas de amizade começam. As interações nos antigos lives que fazíamos aqui no blog, assim como os papos no Twitter, também têm esse poder.
E isso é incrível.
Enquanto eu catava a cebola na carne seca salgadíssima e passava na farofa, pensava em tudo o que mudou na minha vida recentemente. Eu sou outra pessoa. Minha aparência continua a mesma, à exceção das duas tatuagens, uma delas completando um ano agora.
Por dentro, porém, é impossível comparar. Há um ano eu estava péssima de saúde, sem achar o menor sentido na vida, sem ter paixão por qualquer coisa. O sentido da vida ainda me parece nebuloso. Talvez essa névoa nunca se dissipe, mas pelo menos hoje eu penso que é preciso “pagar pra ver”.
Com a dica de uma leitora do blog, me inscrevi no processo seletivo de uma pós em gênero e sexualidade. Quase não fui fazer prova. Aquela parte de mim super pessimista tomou conta dos meus pensamentos: “você não vai passar mesmo! pra quê ir estudar de novo? você já tem dois diplomas e nenhum emprego!”.
Fui, fiz, passei. A cada vez em que penso na superação pessoal de passar da letargia completa à pós graduação no tema que eu mais amo, eu me emociono. Continuo sem grana para coisas básicas. Essa é a próxima parte que quero resolver na vida. Agora, tenho certeza, sou capaz de criar, construir, sonhar.
Há um ano isso parecia impossível.
Foi com ajuda terapêutica, apoio de quem me ama e esses pedaços de amor que me dão a cada encontro (real ou virtual) é que consegui superar a depressão. Dessa vez. Eu sei que ela vai voltar.
Agora estou em Manaus, e desde que cheguei não paro de pensar nas diferenças culturais entre as três cidades em que morei. Em como meu sotaque é impregnado de expressões regionais. Mando um “égua” assustado na mesma frase em que digo “mano”. Na seguinte, falo “aí, maluco”. Eu sou todas essas cidades, todas essas pessoas. Eu sou tudo isso. E eu adoro a mistura que se formou. Ainda falta muito para eu estar totalmente satisfeita comigo; na verdade, nem acho que isso irá acontecer. Mas eu amo quem estou me tornando.
Fui aos três dias de Lollapalooza, festival que aconteceu esse feriado em São Paulo. Eu não tenho voz, minhas costas doem pelas horas a fio sem sentar, quero enrolar meus pés em plástico bolha porque pisar no chão é tarefa dolorosa.
Mas eu vi shows das bandas que mais amo na atualidade: The Killers, Franz Ferdinand e, é claro, Pearl Jam. Esta última ganha com folga qualquer competição – só amo tanto assim o R.E.M., infelizmente numa pausa (eles disseram ter se separado de vez; eu torço para que seja apenas um hiato).
Ontem assisti o quinto show do Pearl Jam. Fui a dois em 2005 (São Paulo na sexta-feira, Rio no domingo) e nos outros dois de 2011. As experiências foram totalmente diferentes, mas o de ontem, pra mim, foi o melhor. Apesar de The Killers ter sido muito divertido, Pearl Jam os deixou no chinelo. O repórter do G1 que escreveu sobre o show falou que faltou intensidade, que a banda se apoiou em hits (???), mas esqueceu de contar partes incríveis da apresentação.
Uma delas foi quando Eddie Vedder, em português, falou como a semana foi importante nos EUA em razão da discussão sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo. Ele parabenizou São Paulo por aqui a união ser permitida, disse como temos que nos amar mutuamente… e meu coração quase explodiu de tanto, mas tanto amor. Eu não cabia em mim mesma.
Pra completar, ele emendou com Better Man, música que funciona muitíssimo, muitíssimo bem ao vivo.
Infelizmente o show não foi transmitido*, então nos restam os vídeos da galera da plateia, que não mostram o discurso do vocalista. No entanto, observem o final da música:
A letra é sobre um casal heterossexual. No finalzinho (mais ou menos aos 4:37), Eddie Vedder mudou. Quando ele diz “can’t find a better man”, ele inverte para “can’t find a better woman”, e continua com “man can’t find a better man, woman can’t find a better woman”. Ele se confunde todo, mistura man com woman quando tenta cantar mais rápido, mas o resultado é absolutamente adorável.
Pra mim, foi a melhor parte do show. Especialmente porque logo atrás de mim estava um cara da organização do Lollapalooza, com colete laranja, que, ao ouvir as palavras do vocalista falando sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo – em português – simplesmente disse “não concordo” e balbuciou algumas outras merdas. O bom é que em tempos de Feliciano e desse backlash insuportável, ainda temos pessoas com um microfone na mão e 60 mil pessoas ouvindo como é importante simplesmente aceitarmos que os outros vivam da maneira que lhes é conveniente.
Se antes eu já amava Eddie Vedder a ponto de batizar meu cachorro (que tem 11 anos!) com o mesmo nome, hoje o meu amor por ele não tem nem palavras capazes de descrevê-lo.
***
Mas agora vamos aos problemas do Lollapalooza, que foram muitos, muitos, muitos. Se as atrações do ano que vem não forem absolutamente incríveis, eu ficarei em casa assistindo pela televisão.
- Ingressos: extorsivos, como todo mundo sabe. R$ 350 a inteira, mais taxas de conveniência de 20%, mais frete. Detalhe: tinha *frete* até para quem pegava na bilheteria (???).
- Bilheteria: na sexta-feira eu fiquei exatas duas horas para comprar ingresso. DUAS HORAS. No sábado a organização soltou nota à imprensa dizendo que havia melhorado o serviço, abrindo novos postos de venda. Balela. Uma amiga ficou 40 minutos na fila, não chegou nem à metade – uma pessoa acabou comprando pra ela. Eu perdi o Of Monsters and Men por causa desse absurdo.
- A lama: havia lugares intransitáveis no Jockey. Se você visse um espação sem ninguém lá, acredite: era uma área de lama movediça, igual a desenho animado. Com o detalhe de que não era efetivamente lama… era estrume.
- O cocô de cavalo: “ah, mas era no Jockey, você esperava o quê?”. Bom, com ingressos de R$ 350, espera-se que não se vá pisar na merda. Aliás, ainda que fosse de graça. Como resolver? Não sei. Não sou eu enchendo os bolsos de dinheiro com essa gracinha. Só sei que ano passado não estava desse jeito. No Terra também não.
- O som: ah, o som. Ano passado o palco Butantã já estava um lixo. Nesse ano, de novo. Vi três shows lá: Cake, Franz Ferdinand, Kaiser Chiefs (este último, de longe). Nos dois primeiros fiquei do lado esquerdo do palco e notei os problemas por causa das reclamações dos músicos. Quem ficou do lado direito, porém, não conseguiu ouvir nada. Li muita gente reclamando nas redes sociais. Pra completar, no Black Keys (palco Cidade Jardim, o principal) era impossível ouvir qualquer coisa. Dava pra conversar durante o show num tom de voz normal, sem gritar. A galera até levantou coro de “aumenta, aumenta”, mas continuamos sem ouvir nada.
- Perry: não compreendo a existência daquela tenda. O som é altíssimo, altíssimo, altíssimo. Atrapalha quem está vendo shows no Butantã, logo ao lado; no Alternativo; e até no Cidade Jardim! Durante o show do Pearl Jam, por exemplo, nas pausas entre as músicas era possível ouvir o barulho do Perry. Ano passado foi igual. No Terra, em 2012, o som dos palcos não vazavam – e eles eram bem mais próximos do que no Lolla. Em 2014, espero que eles coloquem isolamento acústico no Perry. Nem vou esperar que eliminem aquela merda, pois o próprio nome é em homenagem ao criador do Lollapalooza (Perry Farrel, do Jane’s Adiction. Cês lembram de um reality que passava no E!? Ele fazia parte).
- Fichas de consumo, as “pillas”: o que você comprava num dia, não valia pro outro. Eu vi isso logo escrito em algum lugar, então não me senti “enganada”. Um monte de gente, porém, quis comprar todas na sexta-feira para não ter que enfrentar fila do caixa depois – eu demorei uma hora pra comprar na sexta, basicamente durante todo o show do Flaming Lips. Quando souberam que não poderiam mais usar as fichas, muita gente as jogou fora e/ou comprou coisas inúteis para não perder dinheiro. A mesma coisa no sábado. Parece que até polícia rolou pra resolver essa questão. No domingo, então, “mudaram de ideia”. Você podia trocar as pillas velhas por outras, válidas no domingo. Detalhe: soube disso porque vi nas redes sociais; não havia qualquer aviso no próprio Jockey a respeito disso. Se você é uma pessoa desconectada, amigo, se fode aí.
- Por falar em desconexão: os celulares sem sinal. Internet, então, nem pensar. Que sentido faz um festival em 2013 sem que você possa tuitar, subir fotos no Instagram ou compartilhar coisas no Facebook? Nem SMS funcionava. Ontem recebi uma mensagem: “cheguei, você está no The Hives?”. Durante o show do Pearl Jam! Isto é, já havia acabado o Hives, o Hot Chip, o Pearl Jam já tinha começado…
- Os problemas se repetem: os mesmos problemas que vi na sexta, se repetiram no sábado e no domingo. Se há lugares em que a lama torna o espaço intransitável, compra uma carreta de areia entre um dia e outro e joga em cima. Se as filas dos banheiros estão gigantescas, alugue mais banheiros. E assim sucessivamente. Com aquela estrutura, era possível fazer tudo isso. Se não se fez, é porque realmente não há respeito pelos pagantes. Antigamente rolava um romantismo em ir a lugares toscos pra ver a banda favorita, do tipo “eu venci”. Hoje não há mais lugar pra isso, especialmente com ingressos nesses valores. A experiência deve ser confortável e não oferecer nenhum risco à saúde dos espectadores.
Na reportagem sobre sexo da revista TPM (da qual fui fonte), há uma estatística assustadora: segundo o Prosex, só 6% das mulheres se masturbam regularmente. Lembrei disso hoje porque ontem participei do Conexão Futura – e uma das entrevistadas era a doutora Camita Abdo, coordenadora, justamente, do Prosex.
Outro dia conversava sobre o assunto com um casal de amigos e a gente ficou se questionando sobre quantas vezes seriam esse “regularmente” (o assunto vai virar outro post). Eu então confessei que uma prova incontestável de que eu não estou bem é a quantidade de vezes em que penso/falo/desejo sexo. Incluindo aí a masturbação.
Penso, então, em 2012, o ano do coma*. Eu definitivamente não estava bem. O processo de recuperação da crise depressiva foi difícil e doloroso. E a decepção amorosa pela qual passei me deixou… cagona. É. Todo aquele sexo e alegria de 2011, quando esse blog surgiu, desapareceu no ano seguinte.
Quando a Letícia “nasceu”, muita gente disse que eu devia ter algum problema para querer tantos caras. Não tenho dúvidas que há quem use o sexo para esquecer frustrações (quem nunca, ainda que momentaneamente?), mas não era o meu caso. Se estou mal, não consigo ter tesão.
Esse foi meu panorama em 2012. No sex at all. Bom, quase isso. Sem dar maiores detalhes, basta vocês saberem que 2012 inteeeeeeeiro foi menos florido que o “pior” mês de 2011. Além disso, todos os caras com quem interagi sexualmente eram figurinhas repetidas. Sem riscos.
Flertei pouco, e sempre com caras impossíveis. Escolhi a dedo moços comprometidos, rapazes complicados, moradores de outras cidades. Tive DRs longas, chorei ao telefone, “fiquei de mal”. Toda a parte ruim de relacionamentos eu topei. Transar, que é bom demais, nada. Eu tinha de manter uma distância segura.
Afinal, e se eu me envolvesse demais de novo? E se ele – quem quer que tomasse esse posto – me abandonasse? O que aconteceria com minha saúde mental caso eu precisasse de ajuda e ele me virasse as costas?
Achei que não aguentaria. Para evitar a decepção, tomei a atitude (ou a falta de) de me fechar. Total e completamente. Medo, cagaço, fraqueza. Chamem do que quiserem. Estarão certos.
Mas 2013 chegou e eu, cheia de planos, comecei a mudar. Ou, melhor, comecei a trazer a Letícia de volta à vida. Ela é uma parte de mim que adoro! Ela me deixa mais divertida, mais solta, mais engraçada. E fácil. ;)
Voltei, aos poucos, a paquerar. Ainda está meio difícil, porque no primeiro sinal de babaquice alheia todas as luzes de atenção se acendem. Dá um medinho. A rejeição, por exemplo, me faz pensar duas vezes em tentar outra vez; antes, eu levava na esportiva.
Mas apenas sentir que ela está aqui dentro, pulsando a cada vez que vejo um moço barbudo e penso nele passando o rosto nas minhas costas, já me deixa feliz.
Aos poucos, voltei a escrever, a sair, a ler, a achar graça nas coisas. Eu estou melhorando a última parte que faltava, e a parte que me faz tão “eu”. Cem homens é pouco.
*eu não estive em coma propriamente dito. vai tudo bem com a minha saúde física, o problema foi a prostração que vivi entre novembro de 2011 e outubro de 2012.
Eu quis comprar uma roupa nova para usar no lançamento do livro. Queria fugir de lojas de departamento e usar algo mais bacana. Na sexta-feira fui ao Shopping Morumbi. No sábado, corri até a Domingos de Morais, na Vila Mariana, onde há lojas com numeração maior.
Olhei, experimentei, mas nada me deu realmente vontade de levar. Fiquei assustada com o preço: nenhum vestido, por mais simples que fosse, saía por menos de 200 reais. Acho que me acostumei demais com Renner e C&A.
Na última loja em que fui até consegui comprar umas blusinhas. Como depois passei na Shoestock e comprei um sapato incrível, já havia decidido ir ao lançamento com ele, uma das blusas novas e uma saia que eu tenho.
Eu estava perto do Shopping Ibirapuera, e resolvi dar uma última chance às lojas com roupa de gordo. Eu procurava uma jaquetinha/casaquinho para compor o look (o uso da palavra “look” foi uma piada, ok? tenho horror quando falam isso a sério). Depois de rodar e rodar e meus pés estarem gritando de dor, vasculhava uma arara de vestidos e achei um de paetê.
Pedi para experimentar, mas não considerava usá-lo na segunda-feira. O preço estava razoável perto do que eu havia visto antes e poderia servir para um evento qualquer. O que eu havia escolhido, meio salmão, só tinha um tamanho que ficou grande em mim. Experimentei mais um, menor e em tons de cobre, mas fiquei encafifada com o brilho.
A vendedora ainda disse: “ah, o que saiu no catálogo é mais brilhoso ainda, esse aí está discreto”. Ela me mostrou a foto. E trouxe o tal vestido dourado (era o mesmo modelo, as cores das lantejoulas é que eram diferentes).
Coloquei e me senti meio ridícula. Ao mesmo tempo, pensei em tantos outros vestidos iguaizinhos que eu vi em “loja de gente normal”. Considerei usá-lo no lançamento. Liguei para uma amiga e perguntei se ela achava over. A resposta foi positiva.
Passei vários minutos decidindo se compraria ou não. Acabei decidindo levá-lo, com a garantia que poderia trocar caso me arrependesse por motivos de: vergonha de sair toda brilhosa.
Porque eu sou mais discreta. Amo roupa preta e branca, especialmente se for de bolinhas. Uso um brilhinho no máximo na blusa (e prefiro paetê preto).
Só que, enquanto eu me olhava no espelho do provador, pensei em todos os “não pode” ditos para gordos. Lembrei das roupas medonhas que vi naqueles dois dias. Cheguei a experimentar alguns vestidos pretos que ficariam ótimos… num velório! Sério: nenhum decote bacana, gola fechada até em cima, como se tivéssemos que esconder até o colo. Ok, eu preciso que a alça seja mais larguinha para eu poder usar sutiã. Algumas de nós não curtem mostrar os braços (magras também têm questões com isso). Eu tô nem aí e inclusive fiz uma tatuagem e adoro deixar à mostra.
Mas eu não preciso me vestir feito uma velha ou como alguém que decidiu sair enrolada num lençol. Poxa, custa usar a mesma estampa das roupas de ~gente magra~ e fazer uns vestidos/blusas/saias para quem é gorda?
Ah, mas é porque listras horizontais engordam, porque não se pode chamar a atenção para determinadas partes do corpo, e não pode isso, não pode aquilo. E dá-lhe vestido com estampa igual às de sofá barato.
Pensei em tudo isso. Lembrei da semana da autoestima aqui do blog. Comecei a me achar uma hipócrita: fico o tempo todo dizendo para as pessoas se amarem e serem livres, mas estava com medo de parecer ridícula com um vestido dourado, porque sempre me disseram para ser mais discreta.
Também lembrei de um twitt da Deborah. Ela dizia que precisamos de mulheres “fora do padrão” que sejam seguras. Se eu fosse de preto, como era minha intenção, eu estaria passando a imagem de segurança? Talvez algumas pessoas dissessem que eu estava elegante e eu não tivesse que ler certas piadas na internet sobre a minha indumentária, mas essa sou eu?
Sempre foi. Mas, agora, aos 33 anos, eu ainda sou aquela mulher? Depois de tudo o que passei, eu ainda sou aquela que está sempre voando abaixo do radar?
Eu gosto muito de roupa preta, sempre gostei, mesmo quando era quarenta quilos mais magra. Porém, hoje não se trata muito de escolha: os vestidos mais bonitinhos que cabem em mim são sempre pretos. Por que não ir toda brilhosa, sim, e mostrar que nós também podemos nos vestir com o que está na moda?
E, bom, resolvi tirar mais um “não pode” da minha lista e o resultado foi aquele que vocês viram na segunda-feira. Teve gente que não gostou, teve quem fizesse piada. Sempre vai ter. O importante é o que eu vou fazer com isso… Demorou, mas finalmente não tenho só o discurso de quem não se importa. Hoje eu tenho a atitude.
Depois do lançamento, eu fui comer uma pizza com uns amigos. Estávamos eu, três leitores do blog com quem interajo muito e dois amigos da época em que eu era advogada (eu os conheço desde 2004).
E esses meus amigos antigos conhecem bem pouco da minha fase Letícia. Então certos assuntos vieram à tona, como a loucura que é ter trolls e haters de estimação. Contei como ano passado isso me fez sofrer, como era difícil lidar com tanta merda, como eu pensei várias vezes em parar o blog para não ter esse tipo de encheção de saco.
Ao longo dos meses eu fui me acostumando e me blindando. Se antes eu não passava um dia sem brigar no Twitter, agora é raro acontecer. Quando alguns habitués dos comentários no blog aparecem, eu nem considero aprovar. É evidente que nem sempre dá para não se importar. Às vezes já estou chateada com outras coisas, daí entro aqui, leio besteiras, e penso “ai, até isso!”.
Eu fui mudando meu jeito de reagir, mas isso não quer dizer que eu não ache absurda a atitude de alguns seres dessas redes sociais. De toda forma, na maior parte das vezes não faz mais nem cócegas.
Contando a respeito para os meus amigos, a ficha foi caindo. Foi o filminho passando na minha cabeça, de tudo o que aconteceu desde o surgimento da Letícia até agora. Como passei por coisas sobre as quais não pude falar aqui porque eram sérias demais para expor, como tive medo do que viria, como me incomodei com xingamentos, como fui tratada de maneira equivocada por tanta gente.
Ao mesmo tempo, porém, pensei em todos os e-mails e comentários incríveis recebidos nesses quase dois anos, nas palavras carinhosas de tanta gente durante o lançamento, nos amigos que fiz por aqui. Sim, amigos. Gente com quem eu saio, compartilho coisas, peço conselhos. Amigos mesmo.
Recebi feedback positivo de muita gente que já me conhecia antes, como colegas de faculdade. Gente que não falava comigo direito nos corredores da Cásper, mas leem o blog hoje e dizem que faz bem para a autoestima delas.
Isso tudo é incrível.
Nunca foi minha intenção, mas se de alguma forma eu consegui tocar tantas pessoas, isso tudo aqui não pode ser errado. Sim, ainda vou me chatear algumas (muitas) vezes, mas agora estou mais forte e muito mais serena.
Eu sou outra pessoa depois do blog. Uma nova Nádia-Letícia, modelo 3.3., muito mais confiante e feliz. Demorou para eu chegar aqui, mas cheguei. E daqui, só ando pra frente.
Ano passado uma ~leitora~ aqui do blog colocava comentários sempre me xingando. Até ela me comparar com a Beth Ditto, vocalista do Gossip.
“Leticia, imagina se você, a ”gorda-alternativa mór”, iria aprovar o meu comentário sobre as suas seguidoras baba-ovo. É tão mais fácil apagar, não é?Dou risada de você, se achando tão moderna e vai sobrar feio, minha filha. Com 30 anos parece que pode tudo, né? Espera só um pouco mais pra ver…Te imagino meio Beth Ditto, da banda Gossip: talentosa, do caralho, mas ô gordeta feia do cão! Tá, vc deve trepar pra caramba, so? I feel so sorry for you e por essas minas da sua espécie. Vão sobrar feio!!!hahahaha!”
Gorda e diva!
Eu me senti o máximo, né? Beth Ditto é talentosíssima e DIVOU no sábado, durante o show do Planeta Terra.
Vejam como ela entrou no palco:
Sério, gente. Ela cantou “Oi oi oi” e depois disse “We are the Kings of Leon” (a banda estava tocando na mesma hora). E ainda emendou com Love Long Distance, a minha música favorita deles. Infelizmente não dá para incorporar o vídeo aqui, mas você pode assistir em alta definição no site do Terra.
O show foi tudo de diferente do que se vê no Terra. Como o horário é todo certinho, as bandas acabam fazendo apresentações muito aceleradas e “fechadas”, mas Beth Ditto arrasou e misturou músicas de outras pessoas com as dela.
Segundo o Uol: “De ”What’s Love Got To Do With It”, imortalizada por Tina Turner, a ”La Isla Bonita”, de Madonna, Ditto passou por “Bad Romance”, de Lady Gaga, ”I Wanna Be Sedated”, dos Ramones, “Angie”, dos Rolling Stones, e até “Smells Like Teen Spirit”, do Nirvana. O repertório, que começou com “Love Long Distance”, teve “Eight Wonder” dedicada a uma integrante da banda punk feminista Bikini Kill e “Melody Emergency” para Lil Wayne.”
Se eu sou parecida no talento com essa mulher, hater de plantão, obrigada, obrigada, obrigada e obrigada.
E outro momento mágico foi Only happy when it rains, última música do show do Garbage. Foi como se eu estivesse de novo na pista da Bunker 94, dançando de olhos fechados.
Também consegui ver os moços do The Drums com Let’s go surfing e os do The Maccabees com Pelican. Mas, de fato, minha noite foi das mulheres.
Lembro de mim mesma há quase um ano, netbook no colo, roubando wifi do vizinho, cartão de crédito na mão. Dedos nervosos. Naquele mesmo dia eu deveria estar em São Paulo, comemorando a aprovação na banca de TCC, feliz. Eu estava em Manaus porque tentava me recuperar de uma crise depressiva. A situação estava tão catastrófica que abandonei a minha banca (foi adiada e tudo deu certo depois).
A ansiedade era a de comprar ingresso para a primeira edição do Lollapalooza. Queria ver de perto (bom, nem tão de perto assim) os moços do Foster the People. Apesar da internet capenga, comprei.
Eu não sabia ainda que eles iriam se apresentar no Cine Joia em uma das Lolla Parties. Comprei entrada para aquela noite também. Só que eu não tinha companhia (nem pro Lolla, nem pro show no Joia). A depressão levou muitos dos meus “amigos”. Falei no Twitter minha condição de forever alone, e uma linda moça de batom vermelho na foto do avatar disse que ia.
Nunca havia falado com ela. Começamos a conversar e eu soube que partilhávamos muitas afinidades. Combinei de encontrá-la algumas horas antes do show para conversarmos. Eu estava desconfortável. Não com o fato de não a conhecer, mas porque naquela época, cinco meses depois de cair num buraco, eu ainda não fazia as coisas com prazer. Eu me forçava a tudo. Tudo: tomar banho, ler, conversar com as pessoas.
E ali, no Joia, achei que todo mundo estivesse vendo como eu estava mal vestida, como minhas olheiras eram gigantes, como eu dançava esquisito. Ainda assim me diverti.
Dois dias mais tarde era o momento do show no Jockey. Encontrei de novo a moça de batom vermelho, àquela altura já alçada à categoria de “minha neguinha” – era a Heleninha Lizo, que escreveu alguns dos textos que vocês leram no Cem +1. Além dela, tive a sempre incrível companhia de Vicky, amiga que eu também conheci por blog, mas isso já tem uma década.
Eu ainda estava meio esquisitona. Uma leitora me reconheceu na fila do refrigerante e eu quis morrer de vergonha. Daí choveu demais no show do MGMT. Adoro chuva. Lembro de olhar na direção da Marginal Pinheiros e ver os relâmpagos rasgando o céu. O som estava horrível e a banda parecia entediada. Eu, molhada da cabeça aos pés, nem ligava. Só queria dançar, rir, me divertir, curtir minhas negas, fazer piada do moço que parecia ter oitenta anos de idade, todo preocupado com a capa de chuva que havia esquecido sei lá com quem.
E a gente ainda viu esse moço aí, o rebolativo Ed Macfarlane, vocalista do Friendly Fires
Ainda vi Friendly Fires, Arctic Monkeys e, é claro, o Foster. Na volta pra casa, enquanto esperava o ônibus, quis chorar. Depois de horas sem que a depressão aparecesse, ela veio feito avalanche. Eu segurei o choro.
Afinal, eu estava feliz e ela não ia me dominar de novo. Não mesmo.
Quando olho pra trás, reconheço sendo aquela semana o reinício da minha vida. Eu consigo lembrar de tudo o que aconteceu. Fiz piadas, gargalhei até a barriga doer, dancei meio Coisinha de Jesus. Eu fui feliz. 8 de abril de 2012. Eu fui feliz.
Hoje, ao ficar novamente com dedos nervosos para comprar ingresso para o Lolla do ano que vem, as imagens daquele domingo me vieram à mente. Infelizmente só pude comprar ingresso pra um dos dias – espero que não esgotem até o fim do mês e eu consiga comprar dos demais (aceito doações, obrigada).
Mas eu nem preciso esperar até março do ano que vem para ser feliz ali, naquele mesmo local. Sábado tem Planeta Terra. Na edição 2012 do meu ex festival favorito nem tem nenhuma banda que eu ame loucamente, mas estarei de novo na companhia da minha querida Vicky. Heleninha dessa vez está longe, muitos e muitos quilômetros de distância.
Claro que sentirei muita falta dela, mas o melhor de tudo ela já me deu: apareceu na minha vida e, com a ajuda dela (e de muitas outras pessoas), eu recomecei a viver. Sábado irei celebrar tudo isso com a Vicky, relembrando os momentos em que finalmente voltei a ser feliz.
“Você tatuou uma BUCETA???” (a pergunta foi retórica, porque a pessoa já conhecia a resposta.)
Ouvi um monte de impropérios, inclusive que eu envergonhava as pessoas que me conheciam.
Perguntei, então, se eu tinha tatuado a buceta na cara dessas pessoas para elas se incomodarem tanto. “É a MINHA pele”, insisti. Não adiantou.
O mais bizarro é que a pessoa que me ligou NÃO viu a imagem. Mais bizarro: ela soube porque um ser pegou a imagem compartilhada no meu Facebook pessoal (em que só meus amigos podem ver o que posto), salvou no seu celular e mandou para um grupo do whatsapp. Tal grupo é composto por pessoas que eu conheço – mas eu não falo com várias delas. Fofoquinha patética e ridícula.
Toda a celeuma foi por causa dessa imagem:
É obra da década de 1970 feita por uma artista plástica. E é uma flor. Imaginem se eu tivesse, de fato, tatuado uma buceta explícita.
Daí eu pergunto: por qual razão uma coisa que eu coloco na MINHA pele incomoda tanto pessoas que me conhecem há décadas? (o feedback via blog/facebook/twitter foi extremamente positivo, quem me pentelhou foi gente que faz parte da minha “vida real”.)
Quando as pessoas pensam em órgãos sexuais, imediatamente vem a ideia de sexo à cabeça delas. Pronto: imediatamente você vira uma puta por ter uma tatuagem que remete a uma vagina. Queimem na fogueira!!!
Apesar de sexo ser um assunto muito presente na minha vida, a tatuagem não foi feita pensando nisso. Esses seres que me criticaram não perguntaram o motivo. Apontaram o dedo, julgaram, esbravejaram que eu não tinha mais jeito.
Pois eu explico. Há dois anos eu fui diagnosticada com menopausa precoce. Os sintomas já estavam ali há muito tempo (menstruação super irregular, fogachos, suores noturnos, ganho de peso), mas eu ainda tinha um montão de exames pra fazer.
Eu estava aceitando tudo muito bem. Nunca quis ter filhos e menstruar não era o maior divertimento da minha vida, então não via problemas em estar na menopausa. Acordar na madrugada toda suada, claro, não era bacana. Tampouco sentir um calor bizarro em pleno inverno, quando você está sei lá com quantas blusas e casacos (ia tirando a roupa, ficava quase pelada, pra poucos minutos depois colocar tudo de novo). Era incômodo. Mas só.
Até eu fazer os tais exames. Quando mostrei a ultrassonografia para minha ginecologista, ela disse que todos os meus órgãos estavam atrofiados. Útero, ovários, endométrio. Tudo pequenininho, como se eu fosse uma criança.
Foi um dos piores momentos da minha vida. Fiquei atordoada. Lembrei de todas as vilãs de novelas que não podem ter filhos e as pessoas dizem que elas são “secas por dentro”.
Eu era seca por dentro.
Absolutamente devastador. Com o diagnóstico, tive de realizar mais exames: mamografia, ultra de mama, densitometria. Acharam um nódulo no meu seio. Biópsia. Mastologista. E, no meio disso tudo, a minha libido desapareceu. A lubrificação também.
Eu me sentia menos mulher. Nada funcionava.
Conversei muito com os médicos. Eram vários – só endocrinologista foram quatro ou cinco. Levantamos a possibilidade de eu congelar óvulos. Apesar de eu não querer ter filhos, foi muito doloroso saber que eu simplesmente não podia.
A TPM publicou uma reportagem falando sobre congelamento de óvulos. Acompanharam uma moça durante o procedimento. Lendo tudo aquilo eu percebi que não queria passar pelas mesmas coisas. Mais calma, ponderei sobre maternidade e tive certeza absoluta que não é pra mim.
Ficou tudo bem. Minha libido voltou e eu (ufa) não menstruo mais. Win-win.
Apesar de hoje eu não me incomodar com o que aconteceu, durante aqueles meses do fim de 2010 eu estava infeliz e com medo.
Quando me deparei com a imagem da Betty Dodson que hoje ostento no meu braço direito foi emocionante. Justamente por representar os órgãos reprodutores é que me identifiquei. Betty havia transformado em arte uma dor que eu só sentiria 37 anos mais tarde.
Eu quis marcar em mim um dos acontecimentos mais importantes da minha vida. Um fato ruim, mas que eu precisava transformar em beleza.
Nada a ver com sexo. Nada a ver com “putaria”. Gosto muito das duas coisas, porém agora o assunto foi outro. Mas as pessoas veem o que elas querem ver – e quando já estão carregadas de preconceito o resultado só podia ser esse.
Fiquei arrasada ontem e ainda não sei como reagir. Mas sei de uma coisa: ninguém NUNCA MAIS vai patrulhar o meu corpo.
Muita coisa mudou na minha vida do ano passado pra cá. E isso teve reflexos importantes do lado de fora, também. Sempre fui reticente sobre tatuagens, porque me incomodava profundamente a ideia de “pra sempre”.
Daí em maio fiz a primeira, do pulso. A segunda já estava escolhida, mas ainda me faltava coragem. Ela era bem maior.
Combinei com o Gonta (@gontexxx) e ele fez um trabalho maravilhoso.
Preste atenção nos detalhes – é uma vagina e os órgãos reprodutores! :)
Agora, quando alguém me perguntar na rua ~o que significa~, eu vou responder: É UMA BUCETA! Vai ser bacanão.
E também preste atenção nos detalhes e veja como o Gonta foi cuidadoso e incrível na execução da tatuagem. Tá doendo, tá quente, tá coberta com esse plástico que eu odeio, mas estou feliz. :)
Ela tentava se arrumar. Colocou a jaqueta, prendeu o cabelo – desgrenhado àquela altura – em um coque, tirou da bolsa o espelho para checar se a maquiagem estava borrada. Ajeitou a saia. Certificou-se que não havia ficado presa na meia-calça.
Tudo certo.
Faltava a última coisa para poder sair à rua. Os óculos. Ela os detesta. Foram moda há cinco ou seis anos; e ela os comprou em uma tarde ensolarada de sábado na Benedito Calixto. Já não são mais bonitos. Agora usam uns aros enormes, redondos, como se tivéssemos voltado quase trinta anos no tempo.
Os dela não são assim. Meio quadrados, meio retangulares. Bicolores: preto e branco. Suas cores favoritas. Na verdade não importaria se fossem óculos modernos, estilosos, o que fosse. Ela, na verdade, acha que seus olhos pequenos ficam ainda menores quando há lentes separando-os do resto do mundo. Ela não gosta de enxergar com moldura.
E, naquela noite, ela se achava toda errada. Tirou os óculos logo que chegou ali. Talvez ele não achasse tão feia quanto ela mesma se via caso ela estivesse sem aquela armação ridícula e démodé.
Mas era hora de se despedir. Tinha de colocá-los de volta no rosto redondo. Pôs.
- Você fica gatinha de óculos… Sexy.
Ela então sentiu as pernas tremendo. Não sabe dizer se a sensação era física, pela posição que havia ficado minutos antes enquanto o chupava. Provavelmente não, pois dias mais tarde ela ainda pode jurar que sente o joelho virando gelatina a cada vez que observa seus óculos.
Cinco palavras, um sorriso, alguns hormônios. E a insegurança de anos desapareceu. Agora ela gosta de ver o mundo com essa moldura.
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Volto em breve, pessoas. E, aos poucos, vou recolocando no ar os posts. Começarei pelos que vocês pediram por e-mail.
Estou concentrada em outros ~projetos~. Logo logo terei grandes novidades. Para saber a respeito, me sigam no Twitter (@vidadeleticia) e/ou curtam a página do blog no Facebook. Tenho postado algumas coisas por lá.