Fora algumas conversas no grupo do blog no Facebook, eu não fiz muitos comentários sobre o leilão da virgindade. Primeiro porque eu não preciso ter opinião sobre qualquer assunto que envolva sexualidade e mulheres; segundo porque tenho preguiça. Muita mesmo.
Mas já que o assunto volta à tona em razão da capa da Playboy de janeiro, tenho apenas três comentários – e não vou me alongar neles.
1) Catarina é dona do corpo dela e pode fazer o que quiser com ele. Fato incontestável. Ela chegou a dizer isso em alguns programas de televisão. Me contaram que ela se saiu muito bem em entrevistas “pegadinhas”. Ok. Ótimo. Empoderamento. Mas, ao mesmo tempo, não me parece razoável ter o discurso de “poder sobre o próprio corpo” (um lema super feminista) e dar valor (em dinheiro, mesmo) a uma invenção patriarcal, que é a “virgindade”.
2) Muita, muita, muita, muita gente disse “ah, se na minha época houvesse coisa do tipo, eu também leiloaria e ganharia uma grana e blá blá blá”. Você não é mais virgem, mas deixa eu contar um segredinho: prostituição existe e você pode ganhar dinheiro fazendo sexo. Talvez você até ganhasse mais do que aparece no seu contracheque. Você topa? Hum. Foi o que pensei. Então, não, você não “faria o mesmo se na sua época tivesse um leilão”.
3) Primeiro, a “noite num avião sobrevoando o mundo inteiro e sei lá mais o quê” foi adiada porque Catarina veio ao Brasil participar de um desfile (???). Aliás, ela nem desfilou, porque os patrocinadores não quiseram ver suas marcas ligadas à imagem da mulher que – oh! – faz sexo. Agora, segundo informação da assessoria de imprensa, estão esperando uma “decisão judicial para que o ato possa ser consumado”. Qual será a próxima desculpa?
Bom, depois dessa não tão pequena introdução, vamos à capa da Playboy, motivo deste post.
*suspiro de muito cansaço*
*mas muito mesmo*
Vamos às obviedades:
O rosa predominante na capa, como se tudo o que fosse feminino e girlie fosse rosa. Ai, os insuportáveis papéis de gênero!
O urso de pelúcia, como se uma mulher que decide expor a vida sexual e ganhar dinheiro com isso ainda brincasse com ursinhos.
Rosa + Ursinho = ninfeta, precisa de você, garanhão comedor.
RONC!
Mas o pior, ah, minhas caras, o pior: CATARINA – A VIRGEM! Para romper o ano e trazer gostosas vibrações para 2013.
Já escrevi mil vezes a respeito e irei fazê-lo quantas vezes forem necessárias, até que finalmente se entenda: HÍMEN NÃO É UM LACRE.
Logo,
Ele não é ROMPIDO;
Pintos não são britadeira e/ou têm uma força capaz de “furar uma mulher”;
Logo após essa MÁCULA no corpo da mulher, ela continua IGUALZINHA. Você, homem, com seu falo de ouro, não modifica uma mulher só porque a penetrou.
A ideia de rompimento dá a impressão de que sexo é algo violento, dolorido, sujo – e que, por isso, deve ser evitado. A quem serve a gente continuar falando desse jeito a respeito de uma das coisas mais deliciosas das nossas existências?
Isso é um lacre:
Lacres são usados em PRODUTOS, não em gente. Não desumanizem mais as mulheres, tratando-nos como coisas – neste caso, restringindo-nos a uma pele que você nem sabe como é.
Sim, porque muita gente pensa que o hímen é, de fato, uma pele que bloqueia a entrada da vagina. Vamos colocar os neurônios para funcionar? Por onde sai o sangue da menstruação? Logo, é evidente que já existe um orifício ali. Não foi seu pinto-britadeira que o abriu.
Há pessoas que nascem, sim, com o hímen totalmente fechado, mas elas passam por cirurgia para abrir o orifício e o sangue poder sair.
Agora que você já conhece o que é um lacre (se ainda não tinha visto em remédios, no pote de maionese, sei lá), agora eu te apresento… o hímen!
Viram? Já têm o buraco!!! Oun, tadinho do moço que acha que está TIRANDO a VIRGINDADE de moças incautas.
Você pode perguntar o motivo pelo qual sangra. Algumas de nós não sangramos após a primeira penetração (eu não sangrei); outras sangram porque o parceiro foi violento demais; outras porque nunca introduziram outras coisas – como um vibrador ou o próprio dedo.
À medida em que você vai acariciando lá dentro, o hímen vai ficando mais e mais soltinho e é por isso que as relações seguintes à primeira tendem a doer um pouco. Depois passa.
Mas nunca – nunca – o homem é responsável por “romper” a sexualidade de uma mulher. Não somos como aquelas pizzas que chegam com um aviso no lacre: “não receber se estiver rompido”.
Leia também:
Quebrando paradigmas: virgindade
É só uma membrana, às vezes nem isso
UPDATE:
Pra quem ontem ficou criticando e etc etc etc etc etc, aí vai outra capa da Playboy. Colocando a mulher como ninfeta, usando rosa, acariciando um ursinho. So cute!
Dica da Gabriela Martins.









