Ontem, ao acordar, fui tomada por tristeza e angústia pelas vítimas em Santa Maria. À exceção de alguns (infelizmente muitos) seres sem noção que fizeram piada a respeito do assunto, acredito que todos nós sentimos o mesmo. Lamentamos profundamente a perda de tantas vidas.
Eu lamentaria a perda de uma só vida, em quase qualquer circunstância, mas especialmente quando o óbito se deu em razão da irresponsabilidade alheia. O ocorrido no Rio Grande do Sul foi uma sequência de erros criminosos, sobre os quais você pode ler nesse excelente texto.
A tragédia transformou a vida dos familiares e amigos, além dos moradores da cidade. Mas nós, que estamos longe, como somos também influenciados por isso? Fiquei pensando em todas as vezes que saí de casa e, sim, procurei a saída de incêndio dos locais fechados. Parece paranoia, mas sempre tive esse cuidado.
Lembro de quando eu era jovem, bem jovem, e ia numa boate ali na Bartolomeu Mitre, no Leblon. Acho que o nome era People. Era uma night super playba. Ficava no subsolo. No térreo havia um restaurante, se me lembro corretamente. Daí você descia uma escadinha e, bom, aquela era a única saída caso algo ruim acontecesse.
Nos meus ótimos tempos de Bunker, em Copacabana, sabia que havia duas saídas – mas uma delas parecia estar constantemente fechada, a fim de evitar que saíssemos sem pagar, claro. As duas portas eram viradas para a mesma rua, enquanto as pistas de dança eram no fundo do imóvel. Logo, caso o incêndio acontecesse na parte da frente da casa, nós ficaríamos encurralados e não teríamos como escapar.
Sim, eu pensava nisso tudo quando tinha 18, 19 anos. Por isso, fiquei surpresa quando a prefeitura do Rio fechou outro local, o Espaço Marun (também foi Nautillus), no Catete, e foi criticada. Lembro das pessoas indignadas. “O Cesar Maia quer acabar com a cultura do Rio!”, reclamavam. O local não tinha qualquer plano de escape em caso de incêndio, funcionava sem alvará, um horror. Mas no país do “jeitinho”, o que a galera queria era ir dançar música das nossas infâncias, moda à época. Foda-se se os extintores estavam vencidos.
Reconheço ser impossível chegar em qualquer lugar – restaurante, cinema, boate, casa de show – e falar “amigão, me mostra aí o alvará, o seu plano em caso de incêndio, o último treinamento dos funcionários” e por aí vai. Você está indo se divertir e, se o negócio está aberto ao público, com letreiros grandes na fachada (em SP, nem tão grandes), propagandas na televisão e nas redes sociais, você não teria razão para desconfiar do mau funcionamento do mesmo.
Afinal, o poder público está aí para fiscalizar, não é mesmo?
Ter ou não ter o alvará não significa muito por aqui. Conheço empresários sérios que andam na linha, mas simplesmente não conseguem ter o documento emitido. Alguém na prefeitura, devidamente assalariado, enrola para dar o alvará. Porque faz parte de um “esquema”. Se você pagar, eles “agilizam”. E, em tal panorama, é claro que há empresários nada sérios se aproveitando do artifício da propina.
Então, como se proteger nessas circunstâncias?
Difícil, bem difícil. Até porque, em tese, isso não caberia a você. O Estado tem o poder-dever de fiscalizar; não pode simplesmente cruzar os braços e fingir que não é com ele. No entanto, assim como às vezes tenho de escrever dicas de como se proteger de potenciais agressores, também já escrevi sobre como notar que há algo errado – e salvar sua vida.
Quando trabalhava em redação, fiz uma matéria sobre como ver se determinada atividade de turismo de aventura era legal. Lembro de uma das dicas: se a pintura do lugar estiver descascando e houver fiação exposta, fuja. Afinal, se o cara não se preocupa em comprar um galão de tinta ou uma fita isolante, ele com certeza não gasta dinheiro em treinamento e segurança.
Foi o que senti quando fui ao Hopi Hari pela última vez. Estávamos em 2007 e eu ainda não havia me mudado para São Paulo. Vim ver a corrida de Fórmula 1 e meu primo, que não conhecia o parque e me acompanhou na viagem, quis ir até lá. Fomos. Notei tudo velho, alguns brinquedos em manutenção. Na volta ao Rio, escrevi um longo e-mail ao parque, relatando o que vi e lamentando, pois eu gostava de lá.
Me ligaram e uma moça muito educada e simpática admitiu que eles haviam passado por problemas, mas que com a nova direção as coisas iriam melhorar. Ao final da conversa, disse pra ela que torcia por isso, pois sabia quão importante o parque era pro turismo e para a criação de empregos diretos e indiretos na região. Porém, eu não colocaria os pés lá nunca mais.
Alguns acidentes aconteceram desde então no Hopi Hari. Em fevereiro do ano passado, Gabriella Nichimura, de 14 anos, morreu após cair do brinquedo que é uma réplica da Torre Eiffel. O parque tinha alvará, pelo que sei. E continuou funcionando depois disso. Em dezembro, um casal registrou ocorrência porque dessa vez o problema teria sido na montanha russa.
E o parque continua aberto. Por R$ 79 você compra ingresso. O que vai acontecer? Não sei. A prefeitura deveria saber.
Porém, é possível que, se acontecer um “acidente”, a prefeitura diga que não sabia de nada. Vocês têm conhecimento da minha luta contra o voo duplo com fins turísticos, que é proibido por lei. Depois de anos vendo as asas e parapentes colorindo os céus de São Conrado; aparecendo em propagandas da RioTur, novelas, programas esportivos; com a rampa localizada em área federal (IBAMA); recebendo cartões de pilotos na praia e em hotéis; eu achei que tudo fosse legal, fiscalizado, seguro (além dos riscos óbvios de, enfim, se estar voando).
Descobri da pior forma – com a morte da minha irmã – que a atividade é ilegal. E desde 2003, quando aconteceu, já perdi as contas de quantas vezes fui à 15ª DP, quantas entrevistas dei, quantos textos escrevi sobre o tema.
Mas não apenas isso. Fizemos denúncia ao Ministério Público, cobramos explicações do Ibama e da Anac, questionamos a Prefeitura do Rio. Tudo protocolado. Na ação movida na justiça, a União (representando a Anac e o Ibama) disse desconhecer que ali, na Pedra Bonita/São Conrado, exista esse tipo de atividade.
Lembro da resposta do meu advogado: “só se a União esteve em coma nos últimos trinta anos”.
Na mosca. O poder público está em coma. Tragédias acontecem – e não são acidentes, posto que poderiam ser evitados – e os responsáveis cruzam os braços. Vejo a notícia de que o dono da boate de Santa Maria e os músicos tiveram a prisão decretada.
E o prefeito? E o comandante do Corpo de Bombeiros? Continuamos colocando a culpa no acaso, no acidente, no intangível. Não. Essas mortes poderiam ter sido evitadas. No final, a culpa não é de ninguém. Daqui a um tempo, serão apenas números. Estatística: “de tantas X boates que existem no mundo, só X por cento pegaram fogo”.
Pra família, é claro, basta uma. A vida dessas pessoas desmoronou, ao mesmo tempo em que o chão se abria sob seus pés. O Estado não pode continuar se omitindo.
Daqui, só posso demonstrar solidariedade. Enquanto cidadã e jornalista, continuarei tentando evitar que novos “acidentes” aconteçam. É um trabalho pequeno, quase irrelevante, mas é o que está nas minhas mãos. Todo meu amor às vítimas e às pessoas que as amam.



