Não é não

Quem lê o blog desde o início deve lembrar do número 15. Foi uma experiência péssima, extremamente dolorosa e que me tirou a alegria por algumas semanas.

A história está contada no Cem homens em um ano e uma leitora aqui do blog que já comprou o livro conversou comigo hoje a respeito de uma história parecidíssima.

Ela conheceu um cara na balada. Segundo ela, o papo era bacana, ele era educado, interessante e ela sentiu tesão. Foi para a cama com ele. Enquanto transavam, ele deu um tapa forte no rosto dela. Ela não curte; e pediu para ele parar. Não adiantou, e ele bateu nela mais algumas vezes, até finalmente atendê-la.

Sei que muita gente gosta dessa vibe mais selvagem, mas qualquer coisa no sexo deve ser consensual. Qualquer coisa. Sei que existe um certo script. No entanto, se você fez algo que é geralmente considerado gostoso (o sexo oral, por exemplo) e o parceiro não curtiu, não faça. A pessoa pode se sentir desconfortável, preferir ter mais intimidade… ou simplesmente não gostar. Estatísticas servem para dar um panorama. Contudo, não atendem a individualidade e subjetividade.

Se o que você quer fazer é considerado um fetiche, há que se ter mais cuidado ainda. Gosta de puxar cabelo e dar tapa na cara? De asfixia erótica? Sexo anal (eu sei que não é fetiche, mas é uma coisa delicada)? Fio terra?

Não é preciso conversar verbalmente sobre tudo ou assinar um contrato. Tampouco ficar perguntando toda hora se a pessoa está gostando. Basta prestar atenção na reação de quem está com você na cama.

A leitora disse que, além dos tapas, o carinha evidentemente não estava preocupado com o prazer dela. Triste e muito comum. Ainda tem muita gente fazendo do sexo uma masturbação acompanhada. Entenderam tudo errado.

O fato é que a leitora se sentiu mal com o acontecido. Pra variar, achou ser dela a culpa. Chegou em casa, leu meu texto do número 15, viu que a história não é exclusivamente dela (porque muitos passamos por isso já) e resolveu conversar com amigos próximos.

Eles disseram que a culpa era dela, que não deveria ter transado de primeira. Pra variar.

(pausa para o suspiro de cansaço.)

Quem diz tamanha bobagem ignora os índices de violência contra mulheres. Segundo qualquer pesquisa, as mulheres são muito mais agredidas dentro de casa. Companheiros de anos e familiares são os responsáveis pela maior parte dos casos de agressão. É o que mostra essa pesquisa do Instituto Perseu Abramo: o agressor, em 80% dos casos reportados, é o marido ou namorado.

Se falarmos de estupro, as coisas não mudam de figura. Um levantamento de 2005 feito por Cecília de Mello e Souza e Leila Adesse, por meio da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, mostrou que a maioria das crianças estupradas/abusadas sexualmente eram vítimas de alguém conhecido. Um dado estarrecedor: o pai biológico aparece como responsável em 21,7% dos casos analisados:

Daí vocês podem perguntar por qual razão muda essa relação conhecido x desconhecido   nos casos de estupro das mulheres adultas. Quando criança, quem denuncia  não é a própria, mas sim os familiares.

Na idade adulta, cabe à mulher (ou a homem, porque eles também são estuprados) fazer a denúncia. Isso significa expor ao policial, ao médico legista, à família e ao mundo que algo horroroso aconteceu. Não é fácil. Grande parte dos estupros não aparece em estatísticas, simplesmente porque não há denúncia deles à polícia.

Além disso, muitas mulheres são estupradas pelo próprio parceiro. Sim, eles ainda acham que sexo está entre as “obrigações maritais”. A vítima sequer reconhece isso como estupro.

Ano passado estive a trabalho no evento de divulgação da pesquisa sobre violência doméstica do Instituto Avon/Ipsos. A pesquisa é feita a cada dois anos, e na edição 2011 apareceu 6% das mulheres dizendo que foram estupradas pelo companheiro.

Horrível, né? Mas na pesquisa anterior, de 2009, isso não aparecia. Não porque não acontecia, mas simplesmente porque as mulheres não reconheciam o estupro do companheiro como crime. Pra elas, sexo é isso.

Logo, dizer que a culpa é da leitora porque não devia ir pra cama com um desconhecido é uma balela. É um jeito de reprimir a sexualidade da mulher. Claro que temos que nos preocupar com a violência. Evidente. Mas vou dizer pra vocês: a maioria absoluta dos caras com quem saí eram “desconhecidos”, e nenhum nunca me agrediu fisicamente (verbalmente, sim).

Eu posso imaginar como a leitora está se sentindo. Eu já estive na pele dela. Mas temos sempre, sempre, sempre que lembrar: a culpa NUNCA é da vítima.

***

Vamos falar de coisa boa?

Amanhã é o lançamento do meu livro!
Antes dos autógrafos haverá um debate entre mim, a Clara Averbuck e a May Medeiros.

Vamos lá?

Sometimes I wanna disappear

Mas não hoje. Não MESMO. 

Consegui sair de casa para almoçar fora. Pus vestido, meia-calça, salto alto. Passei base, corretivo, sombra, lápis de olho, rímel, blush, batom. Usei o cabelo solto. Coloquei brinco. Eu não queria nada disso, claro, mas né, é preciso voltar à normalidade.

Ganhei uma flor, comi uma massa quentinha e gostosa. E conversei durante algumas horas com o K, um querido e gentil leitor (sim, os amigos da vida real continuam sendo irreais).

Falamos bastante sobre o blog, sobre a depressão, sobre a vida. Deve ter sido um saco para ele, e por isso agradeço mais ainda. Falar out loud sobre o Cem Homens, porém, me fez colocar as coisas nos devidos lugares.

Este blog começou como um diário, mesmo. Nada além disso. Nunca busquei fama e sequer imaginaria ter mais do que meia dúzia de cliques por dia. Isso nunca foi importante para mim. E o resto da história vocês já conhecem.

Nesses meses recebi muitos xingamentos, e eles me fizeram mal. Muito mal. Há quem diga para eu não ligar. Bom, venha aqui ser eu e ler esse monte de merda para ver se você não se incomodaria. Só que hoje, dentro do turbilhão dos últimos dias, tudo parece muito sem importância. Conversando na tarde de hoje, porém, vi que não são só os xingamentos que me incomodam. Também me mandaram incontáveis (sério, são muitos!) e-mails. Homens e mulheres com problemas com a própria sexualidade, mulheres agredidas física e sexualmente, pessoas com questões sérias de autoestima. Eu fiquei triste a cada e-mail, como se eu pudesse sentir vocês do outro lado. Estranho, né? Por isso, não consigo “separar” mentalmente o que vale sentir ou não. Tenho de aprender, eu sei.

Agora, com a minha confissão de ser depressiva, então… Li relatos tristíssimos, de quem foi abandonado pela própria família, pelo namorado, pelos amigos, só porque estavam em crise. É difícil aturar isso? Pra cacete. Mas é preciso ter compreensão, compaixão. Acontece que caráter não vende em loja de conveniência.

Isso tanto é verdade que tive de ler comentários aqui no blog, por exemplo, dizendo que a natureza é sábia e eu não posso ter filhos. Isso é crueldade, não é? Ou eu estou fazendo drama? Eu jamais quis ter filhos, mas achar legal acontecer isso com alguém que você sequer conhece não me parece algo de gente bacana.

Também está aguardando moderação o seguinte comentário:

gente! vc jura q é super normal e só enfrenta algumas crises, né?
tá.
só n sei quem vc tá tentando enganar! pq a coisa tá feia!
seus posts são td menos texto de alguém normal! até o “fui criada pra ser forte” é doentio…. ngm perguntou!
vc reclama de quem te julga e te estereotipa, mas vc ama estereótipos como “forte”e “fraco”!
é vc q tá se chamando de fraca ao responder de um jeito biruta, narrando fatos tristes e irrelevantes! (desculpa, mas quem quiser justificar o pq de estar desequilibrada sempre vai achar um motivo! ngm teve uma vida 100% feliz! td mundo se fode! n é “privilégio” seu ter mortes e doenças na família! TODO MUNDO tem mortes e doenças na família)
e vc ainda reclama q seus amigos “só” ligaram de madrugada, mandaram SMS e combinaram jantar? sabia q essas pessoas (q, por sinal, tb ficam doentes e perdem parentes) tem vida?
ah, por deus, vai…
2a e última vez q entro aqui… muito mimimi egocêntrico…

Se alguém ainda não percebeu, este blog é um espaço muito, muito íntimo, nada imparcial, nada frio, nada objetivo. É, sim, um lugar ego-qualquer-coisa. Ninguém realmente perguntou se minha irmã morreu, ninguém perguntou se eu estou em crise, ninguém perguntou se eu estou sem grana.

Ninguém.

Mas eu quis falar. Assim como eu quis falar da minha vida sexual, e depois não quis mais. Então, hoje este blog é uma bagunça, uma grande salada. Espero conseguir voltar a falar sobre sexo. E fazer também, né, porque eu gosto pra cacete. Só que agora, mais do que nunca, este blog é meu. Meu, meu, meu. Nem eu sei se vou querer escrever aqui todos os dias, ou sobre qual assunto vou falar a cada novo post. É bem provável que eu fique um tempo contando as minhas pequenas vitórias do cotidiano. Desinteressante para alguns; para mim, terapêutico.

Sempre foi assim. Tenho blog desde 2001. Uma leitora reconheceu meu jeito de escrever pelo que ela se lembrava da época. Tive blog no Desembucha, tive blog no blogspot. Dei entrevista até pra Ilustrada na época. E fechei a porra toda depois que minha irmã morreu.

Pelo que vocês veem, então, a coisa não começou com o Cem Homens. Há dez anos tenho essa estranha mania de fazer da internet o meu diário. Como diria Madonna, if it is against the law, arrest me.

Não é, né? Foi o que eu supus.

Portanto, o Cem Homens é, agora, um blog onde me sinto totalmente livre para escrever sobre o que me vier à mente. Podem dizer que eu sou boba, que estou me expondo demais, que eu sou uma louca precisando desesperadamente de atenção, sei lá.

O que sei é que tenho recebido muitas mensagens carinhosas e um grande suporte por parte de bons leitores. Gente bacana, amorosa, cheia de carinho e solidariedade.

Sempre virão aqui, eu sei, pessoas querendo me agredir. Gente que não entende o que eu passo, o que eu escrevo, ou como esse blog é sim importante para algumas pessoas. Poucas? Só duas ou três mudaram suas vidas ao ler isso aqui? Foda-se. Você, que fica escrevendo bobagens na internet ou não abraça um amigo fodido, já mudou o dia de alguém? Não precisa ser uma vida, não. Tô perguntando se já mudou O DIA de alguém. Já? Continua tentando lembrar…

Repito aqui o que disse no Twitter há pouco: eu, mesmo fodida, sou muito melhor que você quando está inteiro.

Ah, quando souberam quem eu sou, começaram a falar que não me comeriam e etc. Tipo: “onde ela arranjaria os 100 homens?” e blá blá blá. Um leitor escreveu a respeito.