Cena 1
Local: Um bar de jovenzinhos em um bairro nobre de uma grande cidade brasileira.
Personagens: eu, uma amiga (Carla), um amigo (Marcos) e um desconhecido (Beto).
Enquanto eu, Carla e Marcos esperávamos pacientemente por uma mesa no tal barzinho da moda, Beto – que estava sozinho naquela noite – começou a conversar conosco. Não tenho a menor ideia de onde ele surgiu. Quando finalmente nos chamaram, a mesa era para quatro pessoas. Convidamos Beto, então, para sentar conosco. Foi pura cortesia; nenhum flerte estava rolando ali.
Numa mesa muito próxima havia um grupo de garotas. Uma delas não tirava os olhos de Beto. Nós o incentivamos a ir falar com ela. Ele foi. Ficou lá um tempo, até que uma das garotas (não que ele estava paquerando) disse:
- Tá bom, vai. Volta lá para a sua gordinha.
(nota da redação: a “gordinha” era eu.)
Beto se enfureceu. Apesar de nunca ter me visto até aquela noite, ele ficou indignado com a grosseria da moça. Levantou de sopetão e começou a berrar no meio do bar. Eu nem liguei. Afinal, sou gorda mesmo e não posso ser responsável pela sociopatia alheia. Mas daí o Marcos levantou também, foi lá engrossar a briga, chegaram os seguranças e as meninas decidiram ir embora. Nunca mais vi Beto. Essa história deve ter uns dez anos. Acho que foi a primeira vez que fui xingada de gorda por um desconhecido. Não seria a última.
Cena 2
Local: calçadão da praia do Leblon, Rio de Janeiro.
Personagens: eu e uma amiga, Flávia.
Caminhávamos no calçadão em direção ao local onde ficaríamos na areia. Ambas vestidas. Bem vestidas, em se tratando do Rio de Janeiro (isto é, não estávamos só de biquini). A Delfim Moreira estava pouco movimentada. Passa um caminhão. O ogro sentado no lugar do carona pega um cone desses de trânsito e faz uma espécie de megafone improvisado. O que ele gritou?
- Vai, gordinha.
Bom, eu de fato estava indo pra algum lugar. Pra praia, sendo mais exata. Minha amiga, uma gostosa (logo, o xingamento não era direcionado a ela), virou pra mim estupefata, com os olhos assustados e meio marejados. “Deixa pra lá”, respondi. Eu realmente não liguei.
Cena 3
Local: uma rua qualquer da Vila Madalena, São Paulo.
Personagens: me, myself and I.
Saí do Estúdio Emme quase de manhã. Enquanto eu andava em direção ao estacionamento, passa um carro lotado de homens. Um deles coloca a cabeça pra fora da janela e grita (dou um doce se vocês descobrirem o quê!):
- Vai, gordinha.
Dessa vez eu respondi. Gritei qualquer coisa, mandei um dedo. E continuei caminhando em direção ao meu carro. Como ele mandou eu “ir” pra algum lugar, eu fui. Pra casa de um homem, transar durante várias horas.
***
Em nenhuma das situações eu me senti ofendida, ainda que a intenção das pessoas tenha sido exatamente essa. Eu sou gorda mesmo, gente. Tenho espelho em casa, vou à médica regularmente (e ela me pesa), compro roupas – e sei o número que vem na etiqueta. Logo, é meio inútil que alguém que não conheço precise me dizer que eu sou gorda, como se eu não soubesse disso.
E como eu faço para não me sentir mal com tudo isso? Eu gosto de mim. Falo desse assunto aqui hoje porque no último post um monte de gente disse que sente vergonha de ficar pelado na frente do parceiro. Também recebi alguns comentários me xingando de gorda essa semana. Sei que devo um post falando sobre a construção da autoestima, de como eu consegui superar algumas inseguranças. Agora, quero dizer pra vocês que é possível, sim, ser gordo (ou magro demais) e se sentir desejada e desejável.
É sempre fácil? Não. Eu sei que grande parte das pessoas acha que os gordos são seres preguiçosos e sem amor próprio. Não sou ingênua. Sei que nós somos motivo de chacota, sei que servimos de ponto de referência (“ali do lado da gordinha”). Mas, de tudo isso, a única coisa que me incomoda é comprar roupa; não é tão fácil achar algo bacana e que não deixe seus peitos pulando pra fora da blusa, por exemplo. Ou que passe nas suas pernas.
Em algumas situações fiquei insegura. Aconteceu esse ano, por exemplo, quando conheci dois leitores do blog (eu já conheci bem mais; esses dois, no entanto, me deixaram meio bobona). Eu achava que eles esperavam que eu fosse uma femme fatale e, bom, eu estou bem longe disso. Um deles virou o número 18, o outro é o Mané (que até escreveu post aqui no blog).
Mas em geral sou totalmente relax com a minha aparência física. Gostaria de ter uma barriga menor, sim. Talvez preferisse que meus olhos fossem maiores, ou que os cabelos brancos demorassem mais uns dez anos para aparecer. Porém, nunca tive nenhum problema em tirar a roupa – seja para fazer sexo, meu passatempo favorito, seja para ir à praia. Uso biquini grande porque morro de medo de tomar um caixote e perder a indumentária no mar e pagar peitão, mas de resto… Ando pra lá e pra cá, nada Garota de Ipanema, mas muito feliz e satisfeita por ser quem eu sou.
Na cama, então, nem se fala. Pô, se o cara já me conhece, já me viu, já me beijou, já me abraçou, ele sabe o que vai encontrar quando eu tirar a roupa. Ou ele acha que eu vou usar uma barriga postiça à la Beyoncé? Que quando eu me despir ele vai ver o corpo de uma modelo? Claro que não. Ele sabe que minha bunda vai ter celulite e que minha pança vai fazer várias dobras. Pra quê sentir vergonha?
Notem que ter problemas com o próprio corpo não é exclusividade de quem está acima do peso. Conheço muita gente magra, mas que não está gostosona/super em forma, e fica querendo transar no escuro e se enrola num lençol pra ir ao banheiro. Eu não. Fico peladona mesmo, no claro, de dia, o que for.
E há quem goste! Outro dia fui ver Medianeras com o namorado. Sentamos separados no cinema, e na saída comentei que achei a protagonista linda. Bonitinho disse: “Eu fiquei em dúvida. Achei ela muito bonita naquela cena em que ela aparece atrás do aquário”. “Aquela parte só aparece o rosto dela. Você não achou ela linda porque ela é muito magra”, respondi.
Nunca tive problemas para arranjar parceiros. Eu não sou tão paquerada como algumas das minhas amigas, realmente bonitas e deliciosas. Mas eu não preciso ter mil pretendentes para massagear o meu ego. A autoestima é algo que se constrói por dentro, e não com fatores externos. Você pode receber todos os elogios do mundo, mas se você não tem confiança em si mesma, você não vai nem acreditar naquilo tudo.
Meus homens também não são de parar o trânsito. Já tive alguns? Sim. Foi legal? Sim, mas não porque eles eram bonitos. O importante é que fossem gostosos, carinhosos, atenciosos. E isso não tem qualquer relação com a beleza exterior. É ótimo ver gente bonita. Este não é um texto para falar mal de quem é belo. É simplesmente para entendermos que não há muito o que se fazer. Você é como você é, e tem que gostar de si assim mesmo. É o que tem pra hoje.
Por favor não venham dizer que é super fácil emagrecer e ter um corpo de deus grego. Também não venham com esse papo eterno de que ser gordo é ruim pra saúde. Pode ser, sim, mas a magreza não é indício de um corpo saudável.
Não é fácil olhar para si e enxergar as belezas que temos, mas não podemos deixar de viver muitos prazeres (como o sexo livre, sem vergonha, ou ir à praia) por conta de quem somos. Eu me acho feia – já disse isso algumas vezes – mas não tenho nenhum problema com isso. Não gostou de mim? Não me achou sexualmente atraente? Ok, eu não quero transar com todos os homens do mundo. Se for mulher a achar isso, então… mais irrelevante ainda!
Eu não vim ao mundo para embelezá-lo. Eu vim para viver do jeito que eu acredito, para dar alguma alegria a quem me cerca, para respeitar os outros seres humanos, até aqueles que acham bacanão me xingar na rua. Sei que isso já aconteceu com muitos de vocês, e por isso mesmo escrevo este enorme post.
Você pode escolher o que vai fazer com esses xingamentos. Vai se afundar, se esconder, se meter em dietas milagrosas? Ou vai tentar viver de maneira mais saudável, inclusive se aceitando melhor? Eu escolhi o meu caminho há muito tempo. Eu vim aqui é pra ser feliz.
(ah, e para quem acha que me xingar de gorda é uma mega ofensa, deixo vocês com Bono Vox: there is nothing you can throw at me that I haven´t already heard.)
