Eterno enquanto dure

Eu estava escrevendo outro post completamente diferente. Enquanto procurava um trecho de “Sexo – tudo o que ninguém fala sobre o tema” (pra variar; mas esse é dos meus favoritos, vocês sabem), cheguei a uma parte em que escrevi um nome muito familiar.

Lembro da primeira vez que li aquele parágrafo. Chorei. Gaiarsa descrevia exatamente meus sentimentos à época. Durante meses, todas as vezes em que chegava ao tal trecho, chorava de novo. Mas aí já rolava uma dor no coração, pois eu ainda sentia tudo aquilo… só não era mais recíproco.

Hoje a sensação foi outra, tão, tão, tão diferente.

Eis o trecho:

“É muito bom ver você. Fico contente quando estou ao seu lado. Quase tudo que você diz me interessa. Gosto de cada parte de você, dos olhos, dos lábios, do rosto, dos ombros e também da sua xoxota (e de seu pinto). Gosto demais de estar em contato com sua pele. Quando nos abraçamos, sinto que nos envolvemos de todo, com cuidado, com sensibilidade – você me sentindo e eu sentindo você. Ficar deitada nua a seu lado – também nu -, bem juntinho, é uma das melhores coisas da vida. Beijinhos seus em série no meu pescoço, nas minhas orelhas ou na minha nuca me dão arrepios no corpo inteiro.

Também vibro quando você corre a mão com jeito seja lá onde for. Nunca senti nada parecido com mais ninguém. Aqui, porém, cuidado. A marca dos amores verdadeiros é essa sensação de que nunca senti nada igual. Usei o plural intencionalmente, pois nos é dado sentir assim com mais de uma pessoa – e aí a afirmação desperta protestos.

Então vamos falar do amor único – na verdade, com a sensação/emoção de nunca ter sentido nada igual. Com a sensação de eternidade, outra coisa delicadamente ambígua. Único e eterno vão juntos e graças a Deus podem acontecer muitas vezes, seja entre os mesmos dois, seja entre cada um deles e outros parceiros. Não confunda “sensação de eternidade” com duração eterna!”

(ai, Gaiarsa, como você consegue ser tão lindo?)

Lembro de uma vez em que cheguei na casa do moço e esse livro estava na mesinha de cabeceira. Por alguns milésimos de segundo pensei que eu tinha levado (e esquecido) o livro pra lá. Era dele. “Peguei para dar uma relida”, ele falou. Meu coração explodia de tanto amor e tanta admiração. A gente combinava em tantos níveis que era difícil imaginar que tudo acabaria. A tal sensação de eternidade mencionada pelo Gaiarsa.

Acabou, como vocês sabem, e eu sofri bastantão. Então, na primeira vez em que li o trecho acima, eu estava apaixonada, e pensei em como tudo aquilo ali de cima descrevia tão bem as sensações que eu tinha com o então namorado.

Depois, reli já com o coração partido, e doía pensar em tudo o que havíamos perdido. Hoje, quase um ano depois da briga do século, foquei no “pois nos é dado sentir assim com mais de uma pessoa”. Ainda não aconteceu, mas vai. Sempre vai. Não estou com pressa, não tenho ansiedade, não procuro por isso. Mas vai.

De novo. Dessa vez, pra sempre

Ainda lembro de você ansioso, pernas tremendo, sacola com um livro no colo. Você olhava para cima no Paulista 900, na tal escadaria palco de tantas manifestações políticas e algumas linhas de chegada de 31 de dezembro.

Parei por dois segundos e te observei. Você não foi com aqueles óculos medonhos de hipster. A pele muito branca, a quase pancinha. Eu, num momento muito fugaz e que não sai da cabeça, fui muito muito muito feliz.

Você estava nos meus braços, mas algo – não sei ainda o quê – deu errado. Lembro com igual perfeição dos ataques histéricos, do choro, de todas as vezes em que você largou da minha mão e saiu quase correndo.

Jurei que a despedida com beijos imensos fosse a despedida. Mas nem parece que a vida puxa meu tapete, e sim que eu vivo em cima de um tapete voador. Depois de tudo o que aconteceu aqui e aí, eu vi naquela noite de novembro sua mão estendida pra mim de novo.

Eu não queria. Xinguei. Esperneei. Joguei pro alto todas as mágoas. Merda no ventilador, como eu mesma digo. E a sua mão ali, me esperando.

Foi nela em que me agarrei numa noite mais escura que todas as noites escuras. Foi segurando em você que eu vi o dia raiar de novo. E outro dia de novo, dessa vez de uma maneira bem menos poética.

Você queria saber que tal de amor é esse. É romântico? E se for? Ah, já não deu certo uma vez. Mas eu não sou mais a mesma, você não é mais o menino da camiseta do Gato Félix.

E, no fim, o que importa? E se somos só amigos? E se eu quero aquela merda de aliança de Star Wars ridícula? E se você morar pra sempre aí e eu morar pra sempre aqui e meus cupcakes forem sempre mais bonitos que os seus? E se? E se?

Eu não sei nomear. Não tenho rótulo. Não consigo sequer entender se eu troquei tudo, se me apeguei ao sentimento porque eu não aguentava mais sentir dor.

Mas meu coração esquenta a cada puxão de orelha, a cada bolinha verde no whatsapp com seu nome, até quando você me apoia numa tatuagem bizarra. Sorrio sozinha feito imbecil quando você fala pros seus amigos me perguntarem pelo Eddie (meu cachorro) como se ele fosse gente.

Eu não sei o que vai acontecer daqui pra frente. Mas dessa vez eu não tenho medo. Tanto sentimento assim normalmente me faz ficar toda cagada e fugir, bater, xingar. Agora é tão imenso e tão certo que não sei nem mais o que pensar.

Numa madrugada dessas eu te mandei uma das minhas mensagens ininteligíveis: toco medo de tanto q eu te amo pq num toco medo. Dá cá sua mão. Eu não tenho mais medo de te amar. E o resultado disso só podia ser um: eu te amo.

Vem, babe. I’m waiting. 

 

 

Feliz todos aniversários, meu amor

Vou tentar escrever esse post deixando de lado todas as mágoas, tristezas, tropeços e tudo o que hoje me parece impossível perdoar. Vamos ver se eu consigo (escrever o post. Perdoar acho mais difícil).

Lembro com perfeição da sua cara de sono naquela madrugada de seis de novembro. Seus olhos ficam meio inchadinhos. Vi o esforço que você fez para estar de pé cinco da manhã, depois de eu me esbaldar com Julian Casablancas e cia ltda. Você, de pé, na porta de casa. Eu, estropiada, suja, cansada.

No quarto, meu presente em cima da cama. Chocolate, livro, um bilhete que hoje já nem existe mais – fiz questão de jogar fora, achando que assim me livraria das lembranças daquele dia. E de todos os outros, aliás. Que tonta. Você ainda ficou me devendo o documentário da banda que, três dias antes, tínhamos visto no Morumbi.

Dormimos, nos amamos, escolhemos o restaurante praquele almoço e pra um jantar em cinco de dezembro que nunca aconteceu. Assim como jamais faremos a “troca” dos feriados. Combinamos que você, folião convicto, estaria livre, leve e solto no Rio de Janeiro durante esses dias momescos. Eu, então, escolheria pra onde iríamos em outro feriado. Mais uma coisa que você ficou me devendo.

Com tantos planos, eu nunca imaginei que nessa sexta-feira ensolarada eu não iria acordar ao teu lado e te encher de beijos pelo seu aniversário. Nem fiz planos para o 17 de fevereiro de 2012. Achei que seria sua, você seria meu, e seríamos felizes só por existirmos na vida um do outro.

Mas as coisas mudaram e você está, de fato, livre, leve e solto no Rio de Janeiro. Eu passarei o carnaval do jeito que imaginei: em casa, vendo DVD, escrevendo, lendo. Mas, quando a festa acabar, você estará mais velho e cada vez mais longe de mim.

Ontem as cartas do tarô e as linhas da minha mão mostraram que provavelmente ano que vem, neste mesmo dia, eu não lembrarei sequer de mandar um SMS para dar os parabéns. Então, deixo aqui meu desejo para que você tenha todos os aniversários mais felizes do mundo. Espero que seu dia seja tão incrível como foi o meu seis de novembro. Quero que, em 17 de fevereiro ou não, você sinta a felicidade que eu sempre senti a cada sorriso seu. Te amo pra sempre, meu amor. Feliz aniversário.

Angústia

- Eu te amo.

- Eu também te amo.

Parei por dois segundos naquele último domingo enquanto recolhia as roupas jogadas ao lado da cama e procurava a calcinha perdida em algum lugar entre o lençol e o edredom.

- Você não sente uma profunda angústia?

Ele me olhou de um jeito que jamais consegui compreender. Não sei se também sentia o mesmo e se surpreendeu com a revelação; não sei se simplesmente se espantou por tudo ser tão profundo do lado de cá.

Jamais saberei.

Hoje, quase três meses depois, consigo ainda sentir meu coração sendo quase esmagado. Angústia. Naquela época, era um terrível medo de que eu nunca mais o visse pela manhã ou que ele não me dissesse “você dormiu mais rápido que eu, senti quando sua cabeça finalmente relaxou em cima do meu braço”.

Angústia pelo pânico de perceber a própria vida virando do avesso. Eu, que sempre disse não precisar de um par romântico para ser feliz (e continuo achando isso, aliás), andava pela Fradique Coutinho imaginando em qual daqueles prédios ficava o apartamento que havíamos gostado num anúncio na internet.

A cada vez que chegava atrasada ao encontro e o encontrava de sorriso aberto, sem reclamar dos muitos minutos sozinho, já com a minha coca zero no copo (com gelo e sem limão; ele jamais errou), eu estremecia. Lá vinha a angústia de novo. Quando ele esquecia de pedir a minha bebida ao garçom, eu ainda resmungava. “Desculpa, me distraí”, ele respondia. Sem um traço de mau humor. Mais angústia.

E assim foi a cada pedido bizarro meu que ele atendeu; a cada plano maluco de viagens que eu provavelmente jamais farei; a cada link incrível de textos incríveis sobre sexualidade que ele me mandava. Angústia, angústia e mais angústia.

Angústia pelo medo do dia que eu sabia que inevitavelmente viria. Na manhã daquela quarta-feira não perguntei qual era a minha escova de dentes. Finalmente havia aprendido onde ele a guardava no armário do banheiro. Depois de lavar o rosto,  resolvi me livrar de mais um símbolo da minha angústia. Não a recoloquei no lugar. Joguei-a no lixo, e fiquei olhando pra ela durante um tempão, como se simbolizasse o fim daquilo tudo.

Eu poderia dizer que de nada adiantou, que a imagem dela com as cerdas viradas para cima dentro da lixeira ainda está colada na minha retina. Eu não estaria mentindo. Mas é ainda pior: semanas depois, remexendo nas gavetas do meu banheiro, encontrei a escova dele, jamais usada.

E, numa simples Aquafresh Tooth and Tongue de cabo azul a angústia do medo de perdê-lo se transformou na angústia da certeza de tê-lo perdido.

Amor, sexo e um recomeço

Estou lendo um livro em que logo nos primeiros parágrafos a autora decreta: “A maioria das mulheres não consegue separar sexo de amor. E eu sempre me pergunto como elas conseguem juntá-los”.

Eu não chego a tanto, mas sempre consegui deixar cada um no seu quadrado. Sexo com amor é uma delícia? Ô, se é. Mas, convenhamos, só se o sexo com aquela pessoa seria bom também sem amor. Caso o parceiro não tenha a menor ideia de como agir, não há amor que resolva.

Mas este não é um post para mostrar técnicas infalíveis de como separar sexo de sentimento – o blog inteiro meio que fala disso o tempo todo. Falo aqui de um momento importante na minha vida, que mostrou que isso é certo na minha vida como 2 + 2 = 4… e como uma boa noite de sexo pode começar a fechar algumas feridas.

Eu era apaixonada e muito bem comida pelo meu ex. Apesar de nosso relacionamento ter sido aberto, eu não transei com ninguém além dele durante o período em que estivemos juntos. Flertei, considerei sair com outro, mas eu preferia era ficar com o ex o máximo de tempo que eu conseguisse (e isso era basicamente qualquer tempo livre).

Como vocês bem sabem, a história terminou e eu, logo em seguida, entrei em crise depressiva. Se a pessoa não consegue tomar banho, imagine fazer sexo. Sim, de vez em quando eu sentia uma vontade, mas a preguiça e falta de ânimo de fazer qualquer coisa me impediram de ir em frente. Em um bom almoço com um bom rapaz até considerei a possibilidade, mas eu só queria chorar – imaginem transar. Impossível.

Até que universo conspira (#paulocoelhofeelings) e as coisas se encaixam (ui) de maneira surpreendente. Casualmente encontrei um amigo que também estava fodido; talvez até mais do que eu.

No início foi estranho. Ambos sabíamos o motivo pelo qual estávamos naquele quarto. Nós dois queríamos exorcizar o passado. Nossa autoestima estava rente ao chão. Dois fodidos. Fo-di-dos. Que usaram uma foda para se sentirem vivos novamente.

Eu senti um pouco de vergonha de tirar a roupa. Vocês não têm noção de quão devastadora é uma crise depressiva na percepção da gente mesma. Quando me olhava no espelho, só enxergava uma mulher sem nenhum tipo de atrativo (quem disser que eu sempre fui feia, entra na fila e pega a senha). Como eu poderia imaginar que um homem não broxaria imediatamente com a visão do meu corpo nu?

Ele não broxou. Pelo contrário, aliás. A gente foi se entendendo, se descobrindo, e os vizinhos devem ter achado um pouco ruim o barulho insuportável que a cama fazia. Não foi uma transa espetacular; não demos milhares sem tirar de dentro; não ficamos até de manhã trepando enlouquecidamente. Mas o que aconteceu ali transcendeu a questão sexual, mesmo que por meio do sexo.

Parece loucura? Talvez seja – e eu não sei se estou conseguindo me explicar direito. Aquela noite foi só sexo entre amigos. Só isso. Mas eu me senti viva de novo. Sentir prazer em meio a tanto problema, me sentir desejada, fazer um homem feliz, tudo isso foi essencial para eu saber que, embaixo daquela coisa toda, a Letícia ainda existia.

Em nenhum momento da transa eu lembrei do ex. Nenhum. Aí que eu digo que sexo e amor, pra mim, estão completamente separados. Eu ainda o amava (e, convenhamos, por mais que eu não goste da ideia, ainda amo), mas não transei com um pensando em outro ou coisa do tipo.

Transei, gostei, me diverti, tudo isso olhando bem no rosto do homem que me comia. Ao final, corpos cansados, deitei ao lado dele, encostei a cabeça no peito dele… e só então lembrei de quem devia esquecer. O ex tem o peito peludo, e o outro rapaz, não. Um é gordinho, o outro bem magro. Com os hormônios mais calmos, foi estranho passar a mão num corpo diferente. Mas foi bom. Muito bom. Lembrei quão delicioso isso tudo é.

Sim, eu continuei em crise, continuei sofrendo, continuei fodida. Se sexo fosse a cura pra uma crise depressiva, as indústrias farmacêuticas venderiam mais viagras do que lexotans, mas as coisas não se resolvem assim tão facilmente.

Ah, mas como ajuda o calor subindo pelas costas e um belíssimo pau duro na sua frente. Ai, como ajuda…

To a dear friend (ou pare de beijar sapos)

Eu ia fazer um post longo sobre esse assunto. Mas vai ficar pra depois, pois prometi para uma amiga que iria copiar hoje um trecho de um texto do Caio Fernando Abreu para ela.

A gente tem mania de idealizar quem a gente gosta. Não estou falando apenas de menosprezar os defeitos, mas sim de super valorizar as qualidades. Quando a conversa flui, sentimos tesão e ainda temos afinidades, pronto: todas as luzes de “é ele” piscam freneticamente e a gente se deixa levar pela pessoa que nós criamos na nossa cabeça.

Sim, gostar mais ou menos das mesmas coisas é essencial para termos um relacionamento. Mas será que gostar do mesmo diretor de cinema ou frequentar as mesmas baladas de indie rock colocam imediatamente aquela pessoa na categoria “alma gêmea”? Alguns de nós têm essa mania. Been there, done that. Quem nunca?

Mas às vezes é preciso deixar de lado esse encantamento e focar no que é importante. É uma pessoa de valores (e, por favor, vocês sabem que eu não compartilho dos “valores” que a sociedade prega)? É justo, honesto, companheiro? Se importa quando você está triste? Te ajuda quando você precisa? Tem preconceitos? É solteiro? Está emocionalmente disponível?

Não se trata de ser mega exigente. Todos nós somos um pouquinho malucos, todos nós carregamos alguns traumas do passado, todos nós temos coisas a melhorar.

Então, um dos desejos meus para todos nós em 2012 é que paremos de idealizar. E que, se for da nossa vontade, que encontremos alguém real, de carne e osso, que nos dê a mão quando precisamos e nos beije a boca como se fosse o maior prazer já sentido nesta vida.

Finalmente, o trecho do Caio Fernando Abreu (por favor, PAREM de retuitar as frases do autor no Twitter. A maioria é fake. Leiam alguns textos dele. São curtinhos, são fáceis, são saborosos):

Talvez, sim, talvez eu fosse mulher, porque pensava no príncipe, a minha mão direita era a minha mão e a minha mão esquerda era a mão do príncipe, e a minha mão direita e a minha mão esquerda juntas eram nossas mãos. Apertava a mão do príncipe sem cavalo branco, sem castelo, sem espada, sem nada.

(…)

Eu não podia saber, ele não falava. E, depois, ele não veio mais. Eu dava um cavalo branco pra ele, uma espada, dava um castelo e bruxas para ele matar, dava todas essas coisas e mais as que ele pedisse, fazia com a areia, com o sal, com as folhas dos coqueiros, com as cascas dos cocos, até com a minha carne eu construía um cavalo branco para aquele príncipe. Mas ele não queria, acho que ele não queria, e eu não tive tempo de dizer que quando a gente precisa que alguém fique a gente constrói qualquer coisa, até um castelo.

Caio Fernando Abreu, em O mar mais longe que eu vejo

Que em 2012 paremos de construir castelos para falsos príncipes.

A régua da felicidade

Desde que comecei este blog me deparei com o que há de pior nas pessoas. Recebi muitos xingamentos horrorosos, pragas diabólicas e coisas do tipo. Felizmente as coisas acalmaram, ainda que volta e meia (todo dia, mas em menor número) eu tenha de excluir comentários maldosos.

Fui aprendendo a lidar com isso e a não dar tanta importância. Conheci muita gente bacana pelo blog. E não só eu: há um grupinho de amigos virtuais que se conheceram nos chats que a gente faz de vez em quando por aqui. Acho super legal vê-los interagindo no Twitter. Pessoas de vários lugares do Brasil, com bagagem completamente diferente, se encontraram por causa do blog.

Também conheci o namorado porque ele é leitor. Nosso primeiro encontro foi totalmente por acaso. Eu estava gripada, com preguiça de sair, e já havia combinado um almoço com um amigo. Aliás, seria um almoço com “sobremesa”. Meu querido amigo se enrolou no trabalho, eu acordei melhor da gripe, e resolvi ir lá ver qual era.

Fui muito feliz naquela tarde e noite. Jamais esperei ou desejei me apaixonar. Aconteceu. Estou muito satisfeita com os rumos da minha relação com ele e escrevi sobre o assunto no último post. O texto não chega nem próximo de demonstrar o meu real contentamento em tê-lo na minha vida.

Namorado é bem humorado, inteligente, criativo, gostoso, carinhoso, atencioso. Para vocês terem uma ideia, ele lê as blogueiras feministas, prefere a TPM à Trip, devora livros sobre sexualidade. Alguns dos textos sobre os quais já falei aqui ou no Twitter foram indicados por ele.

Mas a minha felicidade aparentemente irrita algumas pessoas. No último post há vários comentários me desejando sorte. Só que há aqueles dizendo que meu relacionamento não é sério, ou que a história é fake, ou que tudo o que eu sempre desejei, na verdade, era arrumar um namorado e por isso eu me joguei nos braços de qualquer um.

Estes comentários são desrespeitosos a mim, mas dessa vez há outra pessoa envolvida. Namorado não é “qualquer um”. Ele é um dos caras mais incríveis que eu já conheci na vida. E olha, eu já conheci MUITOS homens.

Ele também não é o primeiro/único homem do mundo a me dar atenção. Eu não sofro do chamado “dedo podre”; escolho com uma certa competência os amigos e homens que me rodeiam. Eu observo pessoas, tenho um nível de exigência um pouco elevado, e não abro minha intimidade para qualquer um. Abro minhas pernas, sim, mas chegar realmente perto não é assim tão fácil.

Sou muito amada e querida por quem me cerca. Verdade, tenho uma personalidade difícil, ácida, ranzinza, e por isso mesmo algumas pessoas me detestam. Normalmente é recíproco, então vida que segue.

O amor que recebo dos meus homens, dos meus amigos e da minha família me faz bem e me satisfaz. Sim, eu quero ser amada. Lógico! E namorado veio SOMAR nesse aspecto, e não completar.

O fato de ele ainda não querer morar comigo também trouxe espaço para as pessoas dizerem que ele não quer nada sério comigo. Bom, primeiro isso é um problema só nosso, não é mesmo? Em segundo lugar, se o namoro de um amigo de vocês demora anos para virar noivado, depois não sei mais quantos anos para virar casamento, ninguém acha nada errado, né?

Então, o que tem de errado no fato de o namorado não querer morar comigo em dois meses de namoro?

Eu conto pra vocês: as pessoas que acham que ele não quer nada sério comigo é porque não conseguem aceitar que uma “puta” possa ser amada. Como assim uma mulher que queria transar com cem homens pode ter alguém que realmente goste dela? Quem ela pensa que é? Isso é impossível! Os homens só querem comer e sair fora! Quem mandou ser vadia?

Não é exatamente isso?

É assustador. Não quero namorar com nenhum de vocês. Não só porque eu não os conheço, mas sim porque o pouco que já percebi é o suficiente para que eu perceba quão baixos vocês são.

Também vi alguns comentários dizendo que casamento aberto é indício de falta de seriedade. Juram? Eu tenho leitores que vivem – e muito bem! – assim. Casados, com filhos. Família de propaganda de margarina. Olhando de fora, vocês jamais imaginariam que eles transam com quem desejarem. Trocam casais, participam de surubas. E são felizes. Não é isso que todos nós queremos?

A babaquice chega em níveis tamanhos ao ponto de alguém dizer que, enquanto eu estava me declarando, o namorado estava viajando e comendo outra. Por mim ele não precisa nem viajar para transar com alguém; ele pode fazer isso estando aqui em São Paulo mesmo! O irônico é quem exatamente naquele momento que um desocupado fazia o comentário, eu estava falando com o namorado no gtalk – e fazendo encomenda de cosméticos! Igualzinho a um casal “normal”.

Jamais incentivei ninguém a viver da mesma maneira que vivo. Eu mal sei se as minhas escolhas são certas, imagine se vou cagar regra na vida alheia. Este ano, mais do que aprender novas posições sexuais, eu aprendi a respeitar a diversidade. Vi que há pessoas sendo felizes de maneiras pouco convencionais – e gente sendo muito infeliz dentro do padrãozinho que nos fizeram acreditar que seria o passaporte para uma vida plena.

Sou verdadeiramente feliz, e se a minha felicidade te incomoda (com o agravante de sequer nos conhecemos), quem tem problema aqui não sou eu. Você pode não querer um relacionamento aberto, pode não querer transar com cem homens, pode achar nojentas certas taras, mas não meça o mundo com a sua régua. Isso é ser intransigente, isso é não saber viver em sociedade, isso é desrespeitar a diversidade.

Somos únicos, cada um com seus medos e anseios. Só alguns de nós, todavia, conseguimos ser felizes. Destilar veneno por aí não indica que você esteja pleno; aliás, mostra justamente o contrário. Em vez de procurar defeito na vida dos outros, que tal procurar na sua? Identificar o que está errado em você é um grande passo. Talvez assim, finalmente, você comece a experimentar o que é a felicidade. Eu recomendo. Não sei viver sem ela.

*explicando a foto: pra mim, a felicidade pode ser traduzida num cachorro na grama com uma bola. o meu adora. 

O que eu não queria

Nunca imaginei que este blog receberia tanto feedback de vocês. Talvez seja uma bobeira minha de não achar minha vida tão interessante – ou de não conseguir escrever de forma interessante. Mas, a cada post novo, vocês comentavam e me mandavam e-mails relatando histórias parecidas, quase sempre com bom humor e alegria.

Até que postei o número 15. Como eu estava viajando, só vi os comentários 24 horas depois da postagem. Fiquei muito surpresa com os números (é o post mais comentado até agora, se levarmos em consideração o tempo em que ele está no ar). Mas a surpresa – e uma certa alegria por ver vocês se manifestando – foi dando lugar a uma tristeza, a uma certa melancolia. De todas as histórias sexuais que eu já vivi nesses 30 anos (e não só com esses 20 e poucos homens de 2011), era a única que eu tinha certeza absoluta de jamais querer comentários do tipo “sei como você se sente”.

Foi por isso que doeu muito saber das histórias de vocês, algumas reveladas em segredo para mim por e-mail. Detestei esse choque de realidade. De repente, vi tantas mulheres relatando abusos físicos e psicológicos… E vindo, ainda, de homens nos quais elas confiaram, abriram a porta de casa, com quem elas ficaram nuas. Algumas até casaram com esses mesmos crápulas. Meu coração se partiu a cada história lida. Sofri junto com cada uma de vocês.

Sempre há quem culpe a vítima, dizendo “ela já sabia que ele era assim” ou “ela deixou”. Eu mesma falei isso no meu próprio post, absolvendo o Marcelo e me punindo, ao dizer só ter acontecido o que eu permiti. Temos essa mania horrorosa de passar a mão na cabeça dos errados, como se nós, as pessoas boas, tivéssemos de ficar o tempo todo esperando um novo golpe. Assim, estaríamos a postos para revidar.

Prefiro continuar acreditando nas pessoas, mas sempre com uma pontinha de dúvida, infelizmente. Espero, também, que nenhum ser vivo sofra qualquer tipo de ofensa, seja moral, física, psicológica… Estamos aqui para sermos felizes e para aceitarmos o nosso semelhante, seja ele quem for.

E, como disse no início deste post, nos últimos dias viajei a trabalho e aproveitei para ver o Paul McCartney no Rio de Janeiro. A última frase dele no show é “And in the end, the love you take is equal to the love you make” (de The End, do disco Abbey Road. Em tradução livre: “No final, o amor que você recebe é igual ao amor que você dá”). Veio bem a calhar neste momento em que tantas dores são expostas aqui nesse blog. Sem nenhuma demagogia – não sou dada a essas baboseiras – eu acredito piamente que só o amor pode evitar situações como as que eu passei e as que vocês me contaram. E o melhor: é também o amor que nos cura de tanta tristeza.