- Ele é legal, Nádia, gostei dele. Mas ele não é bonito.
Minha amiga de adolescência me falou o óbvio após conhecer um namorado por quem eu estava apaixonada e com quem fazia planos loucos de futuro. Eu, ali, com medo das pessoas não gostarem dele, e ela me sai com essa.
Ele era meu namorado, o maior amor da minha vida até aquele momento, e não um troféu para eu exibir nos bares da Vila Madalena. Eu sabia tudo o que nele não se enquadrava num padrão. Conhecia até do avesso. Evitarei dizer que seus defeitos foram o que me atraíram; não vou espalhar por aí que me apaixonei justamente porque ele tem 1m70 e eu ficava maior do que ele quando usava salto. Seria mentira.
Eu o amei porque a altura dele não é importante. Ele é.
Deveria ser óbvio pra todo mundo que se relacionar com alguém não tem nada a ver com a aparência física do outro. Ou com o dinheiro que ela tem no banco, ou orientação sexual, ou outros tantas regras imbecis que a sociedade nos impõe.
Mas, peraí: você É essa sociedade. Se você diz para sua melhor amiga que o namorado dela é legal mas é feio, você está assinando embaixo de todas as críticas que já te fizeram – e, creia, foram muitas. Até para supermodelos, que hoje vivem como enfeites do mundo: muitas relatam terem sido altamente zoadas na escola.
Sempre questionei esses padrões imbecis de beleza, mas confesso que me deixei levar por eles em diversas situações na vida. Tive vergonha (sim, vergonha, e agora morro por admitir isso) de apresentar parceiros com quem eu era feliz porque eles eram feios. Porque eu sabia que todo mundo ia falar “porra, Nádia, esse cara é horrível, você pode fazer melhor”. FAZER MELHOR.
O mais curioso é que eu não achava que eu podia “fazer melhor”. Porque aquela mesma carga pesada que eu jogava nos outros, eu jogava em mim mesma. Uma fase da minha vida que lembro com muita clareza é o ano de 1999. Eu tinha 19 anos, um namorado que não gostava de mim (não do mesmo jeito que eu, e isso acabava comigo), malhava, fazia direito na PUC-Rio e fui passar algumas semanas na Europa.
Sem dúvida aquela foi a melhor viagem da minha vida. Aprendi muito, conheci gente de outros lugares do mundo – algumas dessas pessoas continuam sendo minhas amigas -, me apaixonei perdidamente por Londres e por Edimburgo.
Mas eu não me sentia bem no meu próprio corpo. Como dito antes, eu estava num relacionamento péssimo, que hoje reconheço como quase abusivo. Na época, eu achava que “não podia fazer melhor”. Porque eu era feia. E gorda. GORDA.
Na foto não dá para ter ideia, então cortei outra aqui para vocês verem o tamanho *indecente* da minha saia (as fotos são analógicas, então perdoem os riscos):
Sério. Essa saia era número 36 ou 38. Hoje, ela não passaria em uma das minhas coxas. (olhem que coisa curiosa: meu braço esquerdo é mais forte que o direito e eu carrego as coisas nesse lado, apesar de ser destra.)
Eu sei que eu não me enquadrava idealmente nos padrões de beleza – nunca me enquadrei, desde criança. Mas eu era jovem, estava sozinha na Europa, morava sozinha no Rio, fazia faculdade. Tanta coisa pra me divertir e ocupar minha mente – e eu perdia meu tempo ficando com vergonha das dobrinhas na minha barriga e tentando “dar um jeito” no cabelo.
Focava na aparência do corpo das modelos, e não no que meu corpo me proporcionava.
Felizmente as coisas foram mudando e eu adquiri outros valores. A sensação de inadequação, no entanto, não passou completamente. Porque, afinal, as pessoas continuam sendo cruéis. Continuam berrando “sua gorda” quando eu ando na rua, continuam fazendo piadas no Twitter e me chamando de Ferrero Rocher no lançamento do meu livro em São Paulo (eu estava com um vestido dourado).
Sem contar as capas de revistas e a dificuldade para comprar roupa, para falar de coisas simples de imaginar.
Jamais deixei de fazer algo. Transo de luz acesa, uso biquini na praia. Sempre fui tranquila com isso, mas ao mesmo tempo jamais acho que um cara está olhando pra mim, me paquerando. Penso sempre que tem alguém ATRÁS de mim, tipo em várias cenas de filme.
Porque quebrar paradigmas é difícil, especialmente quando somos bombardeadas por todos os lados com imagens e discursos de corpos perfeitos. Perfeição, pra mim, é sentir prazer com meu corpo. É focar no que ele me oferece, e não como ele aparece pro mundo*.
E, hoje, ele aparece pro mundo uns 40 quilos mais gordo do que na foto acima. As dobrinhas na barriga, quase imperceptíveis em 1999, agora são várias barrigas juntas, especialmente depois da menopausa. Não, eu não gosto delas, porque foi uma mudança muito radical em pouco tempo, mas eu não deixo de viver e ser feliz por causa da minha nova aparência.
Como disse, preciso focar no que meu corpo faz por mim – e não se ele serve para enfeitar o ambiente. Talvez amigos do então namorado também tenham dito “a Nádia é legal, mas não é bonita”.
Todos dando sua contribuição para uma existência mais miserável de todos nós, como se todas as outras dores já não fossem suficientes. Vamos parar com isso já?
*este não é um discurso para a pessoa deixar de ser saudável. acho que a escolha é de cada um, desde que não influencie ou ofereça riscos aos outros.























