You can do (and enjoy) better

- Ele é legal, Nádia, gostei dele. Mas ele não é bonito.

Minha amiga de adolescência me falou o óbvio após conhecer um namorado por quem eu estava apaixonada e com quem fazia planos loucos de futuro. Eu, ali, com medo das pessoas não gostarem dele, e ela me sai com essa.

Ele era meu namorado, o maior amor da minha vida até aquele momento, e não um troféu para eu exibir nos bares da Vila Madalena. Eu sabia tudo o que nele não se enquadrava num padrão. Conhecia até do avesso. Evitarei dizer que seus defeitos foram o que me atraíram; não vou espalhar por aí que me apaixonei justamente porque ele tem 1m70 e eu ficava maior do que ele quando usava salto. Seria mentira.

Eu o amei porque a altura dele não é importante. Ele é.

Deveria ser óbvio pra todo mundo que se relacionar com alguém não tem nada a ver com a aparência física do outro. Ou com o dinheiro que ela tem no banco, ou orientação sexual, ou outros tantas regras imbecis que a sociedade nos impõe.

Mas, peraí: você É essa sociedade. Se você diz para sua melhor amiga que o namorado dela é legal mas é feio, você está assinando embaixo de todas as críticas que já te fizeram – e, creia, foram muitas. Até para supermodelos, que hoje vivem como enfeites do mundo: muitas relatam terem sido altamente zoadas na escola.

Sempre questionei esses padrões imbecis de beleza, mas confesso que me deixei levar por eles em diversas situações na vida. Tive vergonha (sim, vergonha, e agora morro por admitir isso) de apresentar parceiros com quem eu era feliz porque eles eram feios. Porque eu sabia que todo mundo ia falar “porra, Nádia, esse cara é horrível, você pode fazer melhor”. FAZER MELHOR.

O mais curioso é que eu não achava que eu podia “fazer melhor”. Porque aquela mesma carga pesada que eu jogava nos outros, eu jogava em mim mesma. Uma fase da minha vida que lembro com muita clareza é o ano de 1999. Eu tinha 19 anos, um namorado que não gostava de mim (não do mesmo jeito que eu, e isso acabava comigo), malhava, fazia direito na PUC-Rio e fui passar algumas semanas na Europa.

Sem dúvida aquela foi a melhor viagem da minha vida. Aprendi muito, conheci gente de outros lugares do mundo – algumas dessas pessoas continuam sendo minhas amigas -, me apaixonei perdidamente por Londres e por Edimburgo.

Mas eu não me sentia bem no meu próprio corpo. Como dito antes, eu estava num relacionamento péssimo, que hoje reconheço como quase abusivo. Na época, eu achava que “não podia fazer melhor”. Porque eu era feia. E gorda. GORDA.

Oi, Londres!

Oi, Londres!

Na foto não dá para ter ideia, então cortei outra aqui para vocês verem o tamanho *indecente* da minha saia (as fotos são analógicas, então perdoem os riscos):

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Sério. Essa saia era número 36 ou 38. Hoje, ela não passaria em uma das minhas coxas. (olhem que coisa curiosa: meu braço esquerdo é mais forte que o direito e eu carrego as coisas nesse lado, apesar de ser destra.)

Eu sei que eu não me enquadrava idealmente nos padrões de beleza – nunca me enquadrei, desde criança. Mas eu era jovem, estava sozinha na Europa, morava sozinha no Rio, fazia faculdade. Tanta coisa pra me divertir e ocupar minha mente – e eu perdia meu tempo ficando com vergonha das dobrinhas na minha barriga e tentando “dar um jeito” no cabelo.

Focava na aparência do corpo das modelos, e não no que meu corpo me proporcionava.

Felizmente as coisas foram mudando e eu adquiri outros valores. A sensação de inadequação, no entanto, não passou completamente. Porque, afinal, as pessoas continuam sendo cruéis. Continuam berrando “sua gorda” quando eu ando na rua, continuam fazendo piadas no Twitter e me chamando de Ferrero Rocher no lançamento do meu livro em São Paulo (eu estava com um vestido dourado).

Sem contar as capas de revistas e a dificuldade para comprar roupa, para falar de coisas simples de imaginar.

Jamais deixei de fazer algo. Transo de luz acesa, uso biquini na praia. Sempre fui tranquila com isso, mas ao mesmo tempo jamais acho que um cara está olhando pra mim, me paquerando. Penso sempre que tem alguém ATRÁS de mim, tipo em várias cenas de filme.

Porque quebrar paradigmas é difícil, especialmente quando somos bombardeadas por todos os lados com imagens e discursos de corpos perfeitos. Perfeição, pra mim, é sentir prazer com meu corpo. É focar no que ele me oferece, e não como ele aparece pro mundo*.

E, hoje, ele aparece pro mundo uns 40 quilos mais gordo do que na foto acima. As dobrinhas na barriga, quase imperceptíveis em 1999, agora são várias barrigas juntas, especialmente depois da menopausa. Não, eu não gosto delas, porque foi uma mudança muito radical em pouco tempo, mas eu não deixo de viver e ser feliz por causa da minha nova aparência.

Como disse, preciso focar no que meu corpo faz por mim – e não se ele serve para enfeitar o ambiente. Talvez amigos do então namorado também tenham dito “a Nádia é legal, mas não é bonita”.

Todos dando sua contribuição para uma existência mais miserável de todos nós, como se todas as outras dores já não fossem suficientes. Vamos parar com isso já?

*este não é um discurso para a pessoa deixar de ser saudável. acho que a escolha é de cada um, desde que não influencie ou ofereça riscos aos outros.

Aplicativo mostra impacto de bebida sobre visual das mulheres

Vocês já devem ter visto a *notícia*, mas vamos lá:

aplicativo

O governo da Escócia aprimorou um aplicativo de smartphone que mostra como o consumo de álcool afeta o visual das mulheres ao longo de um período de dez anos.

O app faz uma simulação dos efeitos do álcool sobre uma foto que tenha sido fornecida pela usuária do telefone. A simulação se baseia no fato de a mulher beber acima do recomendado pelo governo escocês durante o período.

Chamado de Drinking Mirror (“Espelho da bebida”, em tradução livre), o aplicativo já havia sido lançado no ano passado, mas agora mostra os efeitos da bebida por um período maior.

Ele faz parte de uma campanha do governo escocês voltada a convencer as mulheres a beberem menos.

A campanha tem como alvo especificamente mulheres com idades entre 31 e 44 anos.

Álcool e mortes

A estimativa oficial é de que uma em cada 30 mortes de mulheres na Escócia tenha alguma relação com o álcool.

Além disso, acredita-se que uma em cada três mulheres beba mais do que o recomendado semanalmente – 14 unidades (cada unidade equivale a 8g ou 10 ml de álcool puro, que é a quantidade média que um adulto é capaz de processar em uma hora, em média).

A campanha pede às mulheres que diminuam a quantidade de álcool que tomam por semana, ficando longe das bebidas algumas noites na semana.

As informações são da BBC Brasil.

Só tenho três coisas a perguntar:

1) Por que diabos esse aplicativo é voltado a MULHERES?

2) Por que diabos, dentre todos os outros problemas que o álcool pode causar, as pessoas estão mirando na aparência física?

3) Porque diabos as mulheres estão proibidas de envelhecer e engordar? (lembrando que, no decorrer de dez anos, isso é provável que aconteça, mesmo que ela não beba uma gota de álcool.)

Para quem lê em inglês, aqui está o site da campanha (logo, é sério, não uma brinks de internet) e um texto da CNN.

Por enquanto o aplicativo só está disponível para Android, mas você pode fazer o teste na internet mesmo. E ainda pode compartilhar no Facebook! WHAT.THE.FUCK.

Atirando para todos os lados – e acertando na sua autoestima

A imprensa funciona assim: se falar que uma celebridade X diz que é possível ter prazer anal, mesmo que todos nós já saibamos disso, ela vai dar isso na home para gerar muito clique. E vai gerar.

Para algumas publicações (não todas), vale também o famoso “jabá”. Compra-se espaço em revistas, jornais, sites, blogs – e daí você de repente tem um novo “look” que você “precisa compor”. PRECISA.

E gera grana.

Tudo bem óbvio, não?

Infelizmente nem sempre a gente percebe os meandros desse jogo, pois a mesma corporação é dona de diversas empresas e marcas. Então, uma companhia pode te dizer que o odor da sua menstruação (ou da sua buça) é insuportável e te vender absorventes perfumados. Você acha que é suficiente, mas aí eles vêm com o sabonete íntimo. E por aí vai.

Como diria a agora já velha frase de Jerry Maguire: “Show me the money”.

É pela grana que fazem você se sentir assim, feia, bizonha e mal vestida.

Mas e quando a mesma empresa/publicação se contradiz?

Foi o que aconteceu nos Estados Unidos. A revista Seventeen (tipo uma Capricho) fez uma campanha de “ame seu corpo”, o Body Peace Treaty. Noventa mil garotas assinaram. Entre os tópicos, estão as promessas de:

  • Aceitar as mudanças pelas quais meus corpo está passando. Vou celebrar minha nova forma e curvas. Vou arrasar!
  • Não deixar meu tamanho me definir. É muito melhor focar em quão incrível eu fico com meus jeans do que no número da etiqueta.
  • Lembrar sempre que o que eu vejo na TV e em propagandas não é real – rola photoshop, dieta, grana e malhação para ficar com aquela aparência.
  • Pensar que o sol vai surgir amanhã, mesmo que eu tenha comido muitas fatias de pizza ou tomado um sorvete hoje à noite.

A lista de coisas fofas e ounnnnnnn está aqui (em inglês).

Então pensamos “nossa, que bacana uma revista voltada às adolescentes fazer isso. É realmente muita pressão social, em especial nessa época, quando nossos corpos ainda estão se desenvolvendo, nossa autoestima fica abalada, etc, etc, etc”.

Só que não.

A mesma revista é a patrocinadora da nova edição de The Biggest Loser (Perder para ganhar, no Brasil), aquele reality show em que as pessoas fazem dietas super restritas e exercícios físicos pesados. A 14ª  temporada do programa será com… adolescentes!

Ué, não era para a pessoa se sentir bem no próprio corpo?

Vejam: eu sou gorda, todo mundo sabe disso, e não sou do time “seja gordo e não se importe com a saúde”. Quero dizer, essa é uma decisão individual e sei que, quando se é adolescente, fica mais difícil pensar na vida dali a algumas décadas e em como seu corpo estará.

Porém, o patrocínio de um programa como esse, em que os participantes são ridicularizados e culpabilizados de maneira cruel pela gordura (como se fosse um crime capital), não me parece uma iniciativa coerente com quem pretende fazer uma campanha de “ame seu corpo”.

Com a parceria, uma das competidoras, Sunny Chandrasekar, irá atualizar um blog na Seventeen sobre sua participação em The Biggest Loser. No vídeo de inscrição, a jovem diz o motivo pelo qual gostaria de ser escolhida:

“Eu quero me amar… o que é difícil pra mim, com esse peso. Em segundo lugar, quero estar incrível na minha festa de formatura.” Quer dizer: nada de amor próprio se você for gorda, nenhuma chance de estar bonita na formatura se não emagrecer.

A mãe de Sunny também fala na entrevista: “O meu maior arrependimento na vida… é ter deixado minha filha entrar nesse ciclo de ganho de peso”.

A incoerência da revista se explica de um jeito: fazer a campanha de “body positivity” pega bem, é boa mídia espontânea, tem efeito bacana depois de serem acusados de exagerar no photoshop. Gera venda de revista.

Por outro lado, patrocinar um programa de TV é fazer propaganda. Gera venda de revista.

Quanto a “querer dinheiro”, eles são bem coerentes. Nada contra ganhar dinheiro – como digo sempre, a Eletropaulo precisa ser paga. Mas cuidado com certas “filosofias de vida” que você vê na TV, em revistas, em livros, em blogs (inclusive aqui).

Pense, repense, conteste, considere os motivos por trás de cada coisa. E, ao final, escolha o seu melhor caminho.

Ser bonita é tudo o que se almeja. Mas não devia

Conheço o vídeo abaixo há algum tempo – e acho muito, muito empoderador. Infelizmente  é em inglês e não tem legenda.

Minha amiga e leitora Mariana Laudeauser (@mlaudeauser no Twitter) fez a gentileza de traduzir o que Katie Makkai fala com tanta propriedade. (veja abaixo do vídeo.)

Quando era pequena, perguntei a minha mãe, “O que eu serei? Eu serei bonita? Eu serei bonita? EU SEREI BONITA?” O que vem depois? “Ah, sim, eu serei rica?” O que é quase bonita dependendo de onde você faz compras. E essa pergunta infecta desde a concepção, passando pelo sangue e ar até as células. A palavra pende no coração de nossas mães, em um holofote fluorescente e penetrante de preocupação.

“Alguém irá me querer? Terei valor? Serei bonita?” Mas a puberdade me deixou como uma dríade deformada: dentes em ângulos de ficção científica, nariz torto, cara de cavalo e marcas vermelhas que os hormônios pintaram à mão. Coitada da minha mãe.

“Como isso aconteceu? Você terá pele de porcelana assim que marcar um dermatologista. Você chupou dedo, por isso seus dentes estão assim! Acertaram um frisbee na sua cara quando tinha 6 anos, do contrário seu nariz seria bom!”

“Não se preocupe, vamos consertá-lo!”, ela dizia, segurando meu rosto de um lado para o outro, como se fosse um repolho que ela talvez comprasse.

Mas isso não tem nada a ver com ela. Não é culpa dela. Ela também foi criada para acreditar que a melhor qualidade que poderia agraciar a sua garotinha estranha era uma fachada comerciável. Aos 16, fui mergulhada em pomadas, medicamentos, peróxidos. Os dentes encurralados em pinos de aço. Deitada na cama de hospital, o rosto cheio de gazes, protegendo o novíssimo nariz que o cirurgião esculpira.

A barriga inchada com 2 litros de sangue que engoli durante a anestesia, e cada torção convulsiva dos meus intestinos parecia que meu corpo gritava de dentro para fora: “O que você deixou eles fazerem com você?!”

Enquanto isso, o barulho de pingos que nunca acabava, como se o soro estivesse pingando beleza líquida em meu sangue. “Eu serei bonita? Eu serei bonita? Como minha mãe, desembrulhando o papel de presente para revelar a nova filha que 10 mil compraram para ela? Bonita? Bonita.”

 E agora, eu não vejo meu próprio rosto há 10 anos. Eu não vejo meu próprio rosto há 10 anos, mas isso não tem nada a ver comigo.

Isso tem a ver com o circo de auto-mutilação em que pintamos palhaços em nós mesmos. Tem a ver com mulheres que irão perambular por 30 lojas em 6 shoppings para achar o vestidinho preto certo, mas não fazem ideia de onde achar satisfação ou como vestir alegria, passando pela vida algemadas a uma sacola de compras, presas àquelas 3 sílabas.

Tem a ver com homens girando em banquinhos de bar, tristemente praticando sedução e todos que irão para casa sozinhos, cabisbaixos, pois nenhum estranho os achou suficientemente comíveis.

Isso tem a ver com a minha talvez futura filha. Quando você me abordar, perfurada por inseguranças, implorando, “Mãe, eu serei bonita? Eu serei bonita?”. Eu limparei essa pergunta de sua boca como um batom ruim e responderei, “Não! A palavra bonita não é digna de tudo que você será e filha minha nenhuma será resumida por essas 6 letras.

 “Você será inteligente, criativa, maravilhosa. Mas você nunca será apenas bonita.”

Quem está te influenciando?

Nos comentários ao post de segunda-feira ficou óbvio que muitas das piadas sobre a nossa aparência física acontece dentro de casa. Triste, doloroso. Um pouco aterrorizante.

Afinal, são pessoas que teoricamente nos amam e deviam nos aceitar “apesar de”. Pais, mães, irmãos, tios e primos que nos conhecem. Sabem como somos engraçados, inteligentes, sensíveis, bondosos, criativos, talentosos. Eles deviam reconhecer isso – e celebrar nossas virtudes.

Mas acontece o contrário: colocam uma lupa em cima dos “defeitos”. Duvidam da nossa capacidade, dizem que nossos sonhos são impossíveis de realizar… e agridem fazendo piada sobre nossa aparência física.

Nem posso imaginar as marcas que tal comportamento deixa em cada um de nós. O que eu sei, pela minha experiência e pelo feedback aqui do blog, é que muitos de nós nos tornamos inseguros e duvidamos constantemente do nosso potencial.

Como nessa semana estou falando mais de aparência física, vou focar nisso. O complicado é que tais xingamentos acabam tendo consequências em outros campos, como nas relações amorosas. Se você é chamado de feia pela sua mãe (com quem, aliás, existe uma grande chance de você se parecer), como pode acreditar que o carinha gatíssimo da escola vai olhar justamente pra você?*

E, aí, a insegurança faz você nunca chegar perto do tal moço – ou fugir quando ele fala com você. “Ele só está de zoação”, você pensa. Ou então, se ele quebrar essa barreira invisível – e fortíssima – que você colocou à sua volta, você se sentirá a mulher mais sortuda do mundo. Mesmo que ele seja um escroto, um babaca, um idiota, você ainda assim vai achar que ele está fazendo um favor a você. Então a relação se torna abusiva.

Há muito o que dizer sobre quem devia nos proteger e acaba fazendo um péssimo trabalho. Sim, eu uso o verbo “dever”. Se você não tem condição/estrutura emocional para ter um filho, não tenha. Não é um boneco.

Mas eu quero falar, mesmo, é da representação do corpo na mídia. Todos nós sabemos quão photoshopadas as pessoas são para aparecer em qualquer revista. Você já viu uma ~celebridade~ de perto?

Cobrir eventos de celebs me fez ter uma ideia totalmente diferente daquelas “mulheres de corpo invejável”. No primeiro desfile que fui, as modelos usavam lingerie. Fiquei impressionadíssima. Tinha garota com metade do meu peso e o dobro das minhas celulites na bunda. Daí comecei a cobrir todo mês a coletiva da Playboy. Lançamentos de perfume. Prêmios. A cada evento, uma surpresa.

Primeiro: quase todas as mulheres são mais baixas do que parecem na televisão. As ~gostosonas~ são pequenas, bem pequenas. Muito magras. Muito mesmo. Teve uma atriz de TV que eu poderia jurar ser capaz de segurar na cintura dela, dando a volta, com uma mão só.

Então, antes mesmo da sessão de fotos em que a celebridade aparecerá com uma roupa incrível, sapatos idem, cabelo fabuloso e maquiagem impecável, ela já fez um montão de coisa. Lembro de uma reportagem antiiiiiiiga de O Globo (eu me mudei em 2008 para São Paulo, e li isso ainda no Rio, para vocês terem uma ideia) que mostrava quanto algumas atrizes gastavam com beleza.

À época, segundo o jornal, Deborah Secco gastava R$ 10 mil mensais só com salão. SÓ COM SALÃO. Provavelmente estavam incluídos tratamentos estéticos, tipo massagens e a tal carboxiterapia citada no post de ontem. Mas ela ainda tomava remédios, ia ao médico, dentista… com o fim de cuidar da beleza.

Querem ver um exemplo de como um dentista modifica muuuuuuuuuuito a aparência de alguém?

Veja essa foto antiga da Flavia Alessandra (ao lado de Adriana Esteves). Repare no nariz e na cor dos dentes.

Agora olhe essa:

Não vou nem falar das transformações de mulheres como Adriane Galisteu ou Sheila Melo, porque aí seria covardia. Peguei fotos de uma mulher que já era considerada bonita quando mais jovem e agora.

Também não menciono os conhecidos casos de transtornos alimentares. Recentemente ficamos sabendo de Christina Aguilera e de Nicole Scherzinger. Esta última, aliás, vi pessoalmente no lançamento da coleção da C&A assinada por ela.

Mas como a gente consegue ignorar essa verdadeira lavagem cerebral que fazem na gente? Sei lá. Um bom começo talvez seja policiarmos nossas próprias atitudes. Por que a gente faz comentários sobre a aparência física de uma celebridade? Mesmo que a atriz seja fodíssima, muitas vezes a gente diz “nossa, mas como está velha, podia fazer um botox”.

Observe com atenção as revistas femininas que você compra. As personagens (mulheres entrevistadas numa reportagem normal, sem serem mulheres famosas) são sempre brancas, magras e de cabelo liso? Você já viu uma gorda? Uma negra? E, ao sair na rua, quantas você viu? Muitas, né? Então por que não há representação dessas mulheres nas revistas que você compra?

A imagem abaixo traz dados impressionantes sobre as mulheres americanas. Claro que temos diferenças culturais importantes, mas os sinais de alerta devem estar ligados.

Vamos aos dados mais importantes:

- A maioria das modelos de passarela têm IMC correspondentes à anorexia.

- Dez anos atrás as modelos plus size vestiam entre números 12 e 18 (44 a 50, no Brasil). Hoje, elas estão entre 6 e 14 (38 a 46). TRINTA E OITO, GENTE.

- 4 entre 5 americanas estão insatisfeitas com seus corpos.

- 90% delas superestimam o próprio tamanho.

- 80% das mulheres disseram à revista People que imagens de mulheres na TV e no cinema as deixam inseguras.

A quem serve tudo isso? Pior que a paranóia está tão alucinante que não basta mais ser magra, ter cabelo liso, pele sem marcas, dentes perfeitos. Agora, até a cor da buceta é cobrada. Precisa ser rosinha. E se os lábios da vulva estiverem “fora do padrão”, faça uma plástica!

Quando eu era mais jovem e não conhecia muito bem as bucetas alheias, eu achava que havia algo de errado com a minha. Juro. Eu via as mulheres peladas nas revistas e ficava pensando porque eu era diferente. É daí que estamos tirando nosso ideal de beleza? A leitora do post de ontem disse “meus peitos caem para os lados”. Provavelmente ela passou pelo mesmo que eu: vê as mulheres posando e pensa “meu peito não fica assim, apontado pro céu”. Ela esquece que muitas dessas modelos passaram por cirurgias plásticas, adotam a tática de levantarem os braços (para os seios levantarem também) e tiram zilhões de fotos para que aproveitem as melhores.

E aí, no final do post, eu deixo uma pergunta: o que você acharia bonito se ninguém tivesse te dito o que é bonito?

*sobre isso, aliás, tenho uma história ~curiosa~. dizem que sou muito parecida com uma pessoa da minha família. daí uma vez essa pessoa (é um cara) me chamou de feia. respondi: “ué, mas a gente é igual!”. “ah, mas é que esse rosto fica bom em homem, não em mulher”. bacana, né? NÃO.

Plástica, dieta, carbox. Pra quem?

Há alguns meses uma leitora me escreveu o e-mail abaixo. Eu ia fazer um guest post, mas acabei me enrolando (como sempre). Ela leu meu texto de ontem e me escreveu: “não disse que eu tinha razão?”.

Não, ela não tem. Ela tem razão de temer, mas ela (e nem eu e nem você) não pode deixar que pessoas erradas digam o que é certo. Tá confusa? Leia e você vai entender.

Eu tenho muitos conflitos com meu corpo. Não consigo ficar nua na frente de ninguém, nem da minha mãe, nem de amigas, nem de namorados. Tenho vergonha de meus seios, porque eles têm estrias e, quando me deito sem sutiã, caem para os lados (o direito, para a direita, e o esquerdo, para a esquerda). A única solução para isso é plástica e tratamentos estéticos para me livrar de estrias e celulite. Só que eu não sou rica. Enfim, estou juntando dinheiro para a plástica dos seios, mas o médico já me avisou que, para a plástica ficar boa, terei que emagrecer pelo menos 10kg, pois, no momento, eu peso 90kg…

Entrei na academia. Estou gostando muito e também faço dieta acompanhada por nutricionista. Parei de comer doces e de beber álcool ou refrigerante. Sinto falta da coca-cola e do brigadeiro. Chego a sonhar com chocolate, mas tenho que me manter firme. Faço as aulas de natação bem cedo e uso maiô de corpo inteiro com shortinho próprio para água, sabe? A maior parte dos meus colegas de piscina está na terceira idade e se veste de maneira muito mais à vontade do que eu… Além disso, no vestiário, as senhoras não têm a menor vergonha de trocar de roupa perto de mim, enquanto eu só me troco dentro do chuveiro, para ninguém ver. E olha que tenho menos de 30 anos e minhas colegas devem ter todas mais de 60.  

Eu já perdi passeios à cachoeira e à praia por vergonha do corpo e já perdi ficantes por não querer transar. O que eu não quero é ficar nua, compreende? O que você me aconselha? Continuar emagrecendo e juntando dinheiro para a plástica (se tudo der certo e eu emagrecer, em janeiro, acho, já poderei fazer a plástica). Mas não são só os seios que me incomodam, mas também a barriga, as estrias, a celulite, o excesso de coxas…

Comecei um tratamento para estrias chamado carboxiterapia. Comprei um pacote de 10 sessões (custou MIL REAIS). Fui em 4 delas e te digo: a dor é terrível. Muito ruim mesmo. Fora que tudo o que ganho, invisto em tratamento, a academia e a poupança pra plástica. Abri mão, inclusive, de comprar um carro.

O que você acha, Letícia? Acha que, se o cara se interessar por mim vestida, ao me ver sem roupa ele vai se desinteressar? Sabe, eu acho tão superficial a preocupação excessiva com a aparência… eu nem sou exigente quanto aos caras com quem fico. Não sou exigente quanto ao físico deles, basta que sejam interessantes, inteligentes, divertidos. Por que tenho que me submeter a tanto sofrimento? Mas, o sofrimento de ser considerada feia é insuportável… e me impede de ter uma vida sexual saudável. Você acha que, se meu corpo ficar aceitável (nunca ficará belo) para o padrão de beleza, vou conseguir, ao menos, ficar nua na frente das pessoas (não só de homens, mas também de mulheres, pois não fico nua nem na frente de costureiras, amigas, etc)? Vou conseguir ter uma vida sexual saudável? Vou conseguir, ao menos, ir à praia de biquíni?

Bom, vamos por partes. Primeiro, as estrias. Elas não vão sumir. Não adianta fazer tratamento, pagar uma grana, etc, etc. Isso aí vai ficar com você (e comigo) pra sempre. Mas homens e mulheres têm estrias. Já vi váááários caras com estrias nos braços e na lombar, mas nunca vi nenhum deles achando que é um pecado mortal.

Mulheres têm em geral estrias nos seios, na parte interna das coxas, na lateral do bumbum e na lombar. Pronto. Fim. Podemos mudar de assunto?  Não nesse post, digo, mas sim como cultura? É isso aí, temos estrias e não tem como fazê-las sumir. Acabou a discussão. Não há o que ser feito.

Daí a leitora diz que faz atividade física e dieta com acompanhamento de nutricionista. E que está gostando de nadar. Ótimo. Atividade física é importante para uma vida saudável. Ainda que ela não tenha começado com esse fim (mas sim com o de emagrecer por pura pressão social da magreza), os ganhos são indiscutíveis. Sobre a dieta… bom, eu tenho minhas dúvidas sobre a eficiência de dietas com restrições tão ferrenhas (sonhar com chocolate?). De qualquer forma, ela está sendo acompanhada por um profissional.

Chegamos, então, aos gastos. Ela diz que gasta todo seu dinheiro em tratamentos estéticos. Deixou de comprar um carro, que, dependendo da cidade onde ela mora, significaria um grande conforto. Se ela conseguiria economizar a ponto de comprar um carro, ela também poderia pegar essa grana e ir viajar. Conhecer outras culturas, aprender uma nova língua, fazer pós graduação.

Eu realmente não vejo problemas em tratamentos estéticos e/ou cirurgias plásticas. Já vi casos em que diminuir o seio foi libertador. Mas há muitas coisas envolvidas nisso aí: existe um risco que não pode ser desprezado, o pós operatório é bastante chato e doloroso… e, muito importante: mudar fisicamente não é garantia de felicidade.

Acontece constantemente. A pessoa diz “se eu fosse magra eu faria tal coisa”. Nada te impede de fazer qualquer coisa. Ir à praia ou ao clube; usar blusa sem mangas; ficar pelada na frente do parceiro. Nada disso é proibido para quem está “fora de forma”. Só quem impede você de fazer isso… é você mesma.

É urgente tomar as rédeas da própria vida e fazer aquilo que se quer.

Ela conta sobre um tratamento estético chamado carboxiterapia. E que dói. Procurei no Google a respeito e todos os textos reafirmam: é doloroso.  Dizem que funciona – a pele fica mais lisinha e com menos celulite. Mas dura apenas alguns meses. Depois volta tudo. Durante quanto tempo você (a leitora acima e você aí que está me lendo) está disposta a gastar uma grana e sentir dor? Porque isso seria eterno! Vi num blog uma garota comentando já ter feito QUARENTA E CINCO sessões! Gente!

Imagina quanta dor ela sofreu, e quanto tempo e dinheiro ela gastou. Eu sei que muita gente aproveita os descontos dos sites de compras coletivas, mas ainda assim. Tais sites vendem viagens também, sabe?

No final, a leitora me pergunta se eu acho que ela conseguirá, depois de tantas mudanças, ter uma vida sexual bacana. Eu espero estar errada, mas eu acho que não. Porque ela mesma diz que seu corpo nunca ficará belo, somente “aceitável para os padrões de beleza”. Quem dita tais padrões? As revistas femininas? Ora, sejamos menos ingênuas. Tudo isso faz parte de um negócio extremamente lucrativo!

Além de render bilhões, deixar as pessoas sempre preocupadas com a aparência (e desgostosas de si mesmas) é uma forma de controle. Se você não reconhece a força que tem – porque se sente inadequada -, como vai lutar pra mudar o status quo? Vai continuar sendo sempre massa de manobra.

Eu não sou contra a vaidade. Pintei meu cabelo durante anos e voltarei assim que tiver grana e paciência (tenho muito, muito cabelo, e fazer luzes significa passar a tarde inteira no salão). Adoro esmaltes. Acho maquiagem incrível.

Mas eu não vou gastar todo meu dinheiro nisso. Não vou viver obsessivamente buscando técnicas para “melhorar” minha aparência. Não vou sentir dor.

Então, no final, é importante se perguntar:

- Eu tenho condições financeiras de fazer isso?

- Está me machucando?

- Eu poderia aproveitar melhor o tempo que estou gastando em tratamentos estética?

- Pra quem eu estou fazendo isso?

- Eu estou deixando de fazer coisas na minha vida por me sentir fisicamente inadequada?

Se você disse “sim” à última pergunta, eu aconselharia que você buscasse ajuda terapêutica profissional. Nenhum tratamento estético vai te fazer se enxergar como você realmente é.

 O post de hoje (e o de ontem, e o de amanhã…) fazem parte da “semana da autoestima” do Cem Homens. :)

De Olívia Palito a botija de gás

Eu era magra quando criança. Não lembro de ser magérrima, mas me recordo bem do apelido: Olívia Palito.

Nas implicâncias entre irmãos e primos, também falavam do tamanho da minha boca, que seria desproporcional ao resto do meu rosto.

Na puberdade, comecei a engordar. Menstruei muito cedo (tinha dez anos), e meu corpo foi ficando rolicinho. Os peitos cresceram. Eu era uma das garotas mais novas da minha sala e mesmo assim passei por transformações corporais antes de todo mundo.

Foi o momento em que as primeiras celulites apareceram. Algumas estrias. O rosto, redondo desde bebê, virou piada. “Cara de banjo”, dizia o colega. Também me chamavam de “garota-propaganda da Fogás”, empresa obviamente distribuidora de gás em Manaus.

Eu era vista assim: sem cintura e a ponto de rolar

Eu reagia xingando de outra coisa. Bati em alguns garotos. Sempre fui “boca suja”, então me defendia relativamente bem. E, pra falar a verdade, isso nem me incomodava tanto. Ficava mais perturbada com comentários de pessoas amadas e muito próximas. Uma vez um familiar (até então muito, muito importante) comprou óleo de babosa para eu passar no cabelo. Eu tinha que dar um jeito “naquela juba”. Aos 11 anos de idade, realmente acreditei que meu cabelo era errado.

Foi assim com a minha bunda, minha pele com espinhas, meus dentes separados. Com alguns problemas graves no âmbito familiar, eu nem parava muito para pensar a respeito de aparência física. Eu apenas aceitava. Se aquelas pessoas estavam dizendo que esta ou aquela característica minha era feia/não desejável, eu tomava como verdade absoluta.

E, nem tão aos poucos, minha autoestima foi sendo minada. Duvidei de mim – e ainda duvido, mas em aspectos que nada têm a ver com aparência. Na escola, as coisas ainda pioraram porque, justamente por eu ser mais nova, demorei um pouco a ter namorado. Pronto: além de feia, ainda diziam que eu era lésbica. Afinal, eu falava palavrão, não era vaidosa, era gorda e sempre ficava sozinha (isto é, sem um ~macho~) nas festinhas.

O jeito foi namorar alguém de fora dali. Foi o que fiz. E segui minha vida. Mudei de cidade. E, durante os primeiros anos de faculdade, aquelas agressões reverberavam. Eu também havia sido influenciada por tudo o que nos atinge como sociedade: também li revistas como Capricho e Boa Forma, também tentei comprar blusas que não fechavam na altura dos meus seios, também vi todos os comerciais com mulheres lindíssimas vendendo produtos light.

Depois do bombardeio de “é desse jeito que você deve ser”, eu me achava horrível. E uma baleia, enorme, nada atraente.

Aos 19 anos eu estava envolvida num relacionamento bem ruim (pra nós dois, acho) e poderia jurar que eu era a mulher mais gorda do planeta.

Eu, aos 19 anos, ENORME DE GORDA. Só que não.

Felizmente eu não deixava essas paranoias atrapalharem minha vida sexual. “Se o cara já me conhece gorda, ele não acha que ao tirar a roupa eu terei um corpo de sereia”, pensava. Então, eu transava de luz acesa numa boa.

Também ia à praia no lugar mais ~disputado~. Andava pra lá e pra cá de biquíni, sem grilos. Sentava na minha cadeirinha e ficava lá interagindo com minhas amigas gostosas e vendo os moços a caminho do mar. Apesar do R7 dizer que uma mulher “preparada para o verão” é aquela sem celulites, estrias ou gordurinhas, pra mim, “estar preparada” é bem outra coisa. Preciso de protetor solar, cadeirinha, barraca, jornal na mão (espero não estar ventando muito e que assim eu consiga virar as páginas sem parecer uma idiota) e algum dinheiro para comprar meu limão de latão e meu biscoito Globo. Preparadíssima.

Isso porque eu vou à praia sem intenção de encontrar um príncipe encantado. Eu vou para tomar banho de mar, bater papo com os amigos, esquecer um pouco da vida. Eu vou usar meu corpo para o meu prazer, não para ser um bibelô.

Porque essa é uma confusão feita o tempo todo: que você só vai ser amada se você for bonita. Que você precisa disso para ser aceita. Um episódio da minha vida adulta mostra isso muito bem.

Duas pessoas da família (mãe e filha) foram até minha casa para fazer uma visita. Eu, sempre antissocial, não queria sair do quarto. Fui até a sala só dar um “oi”. De repente, a porrada.

Elas olharam para a foto enorme pendurada na parede e disseram “você está bem mais bonita na foto”. Jura? Era meu aniversário, eu tinha feito uma escova no cabelo, as unhas estavam impecáveis e eu estava feliz porque bons amigos me acompanhavam.

Fiquei atordoada. Minha irmã havia morrido há poucos meses e a foto era, justamente, de nós duas.

(detalhe: meu cabelo estava LARANJA porque a cabeleireira errou a tinta e teve que passar tintura duas vezes. meu couro cabeludo ardia como se estivesse em chamas e eu jurava que meu cabelo ia cair todo.)

“Você devia usar o cabelo sempre assim”, “você engordou de lá pra cá”… elas repetiam baboseira em cima de baboseira, e eu ali ouvindo tudo, atônita.

“Desculpa se eu engordei depois que a minha irmã morreu violentamente, galera”, eu respondi.

“Ah, mas se você arranjar um namorado, pode sentir vontade de melhorar“, “ai, acho que, na verdade, ela deveria se arrumar mais justamente para arranjar um paquera”.

Eu não acreditava no que ouvia. Dentro da minha própria casa, sabe? Eu não sou sutil. E eu não bato sem ser agredida antes, mas depois que pisam no meu calo…

“Jura que você ficou cinco anos numa faculdade de psicologia para chegar à conclusão que a vida de qualquer mulher se resolve com um homem?”, perguntei. E me retirei da sala, claro. Depois, eu ainda fiquei com a fama de “a grossa da família”, como se fosse muito normal alguém fazer comentários jocosos sobre sua aparência.

Porque é isso que as pessoas pensam. “É só para ajudar.” Não, não é assim que se ajuda. O outro querer impor sua visão de mundo e do que é belo no corpo alheio é grosseiro. Passei por isso a vida inteira. Passo, ainda.

Outro dia mostrei a foto acima para umas pessoas (a gente falava sobre minha irmã; a respeito de voo livre, fiscalização, etc). Um cara que eu nunca vi, não sei nem o nome e jamais encontrarei novamente mandou um “acho que você fica melhor loira”. Jura, amigão? Quem te perguntou? Quem é você na night?

Dessa vez eu estava mais educada e de bom humor, e tentei explicar que era uma fase morena, mas outras pessoas presentes resolveram se meter e reiterar o comentário do rapaz. Cansei e disse “ainda bem que eu vivo sem a aprovação de vocês; eu uso o cabelo do jeito que me satisfaz”.

Achei desnecessário, mas já não me deixo atingir. Não me olhei no espelho e pensei “será que eles estão certos?”, tampouco liguei para o querido Adê (do Retrô Hair, onde corto o cabelo – e não, isso não é um jabá, é que eu realmente adoro o moço que corta minhas madeixas) para marcar uma mudança no visual.

Mas como eu cheguei até esse desprendimento? Vou contando ao longo dos próximos dias.

***

Depois de toda a merda da semana passada, vou fazer os próximos dias só sobre autoestima (em relação à aparência física).

Quer ver como as pessoas são cruéis? Tem outro post meu velho sobre os xingamentos na rua (tenho imensa dificuldade em entender o motivo pelo qual as pessoas fazem isso).

 Aqui: Sua gorda!

“Gordos e feios fazem sexo com mais vontade”

Será?

Ontem as Blogueiras Feministas publicaram um texto falando sobre esse mito de que nós, as gordas, fazemos tudo na cama como forma de “agradecer” pela graça alcançada (isto é, de arranjar alguém que nos coma).

Ela parece precisar da sua aprovação (isto é, que você transe com ela) para melhorar a autoestima?

O primeiro parágrafo explica tudo:

“Na luta das mulheres contra a balança, a gente que sai ganhando”

Essa frase eu ouvi a uns dias atrás quando estava próxima a um grupo de caras que conversavam sobre os planos para o final de semana. Um dos rapazes comentou que estava com tanta vontade de transar, que naquele dia “comeria” até uma mulher gorda. Nisso um outro rapaz complementa dizendo que então o dia estava ganho, porque mulher gorda não diz não, ela transa com qualquer homem, as gordinhas aceitam qualquer coisa.

Hoje, percorrendo os comentários num desses ~sites para o público masculino~ fui obrigada a ler o seguinte: “Quem tem mais experiência vai concordar que uma mina feinha tem mais motivação pra mandar bem na cama”.

MY EYES, MY EYES!

E ela?

Infelizmente esta ideia é repetida tanto por aí que já virou quase verdade absoluta. Ouço insinuações do tipo há mais de uma década. “Gorda faz tudo para agradar, são mais fogosas, etc, etc, etc.”

Eu concordo que durante o flerte algumas pessoas muito bonitas ficam com o carão de inacessíveis, esperando os súditos se ajoelharem aos pés. Porque talvez estejam acostumados. Mas, cá pra nós, vocês nunca esbarraram com gente que não está com essa bola toda (por uma série de motivos) que faz exatamente igual? A arrogância, meus caros, não está diretamente ligada à aparência, ao status social, à grana no banco.

Eu já conheci muitos homens arrogantes que eram metidos simplesmente por serem homens. “Eu tenho um pau no meio das minhas pernas, e tudo o que uma mulher quer é um pau para chamar de seu, então venha a mim, Letícia.” Nunca se deparou com seres assim? Sorte a sua.

Por essas e por outras é que a generalização é tão perigosa. Confesso já ter feito muito isso, inclusive aqui no blog (recebi críticas, repensei e tento evitar). Eu sou gorda e tento agradar no sexo. Mas eu não faço isso por ser gorda – eu já fazia quando tinha 40 quilos a menos.

Eu me dedico sexualmente porque naquele momento eu sou inteira do outro. Meu hormônios me enlouquecem, meu corpo responde. Se o parceiro também estiver no mesmo clima, a transa pode ser inesquecível. E isso não tem qualquer relação com a nossa aparência.

Será que secretamente ela grita "por favor, me comam?"

Gordos, magros, altos, baixos, muito gordos, muito magros, brancos, negros, peitudas, pintudos… somos assim porque a genética é implacável, porque comemos demais, porque malhamos bastante. O fator “gostar de sexo” não está escrito na nossa testa. Para sermos tarados e “bons de cama” precisamos de estímulo, de cabeça aberta em relação à sexualidade, e de parceiros que nos estimulem. Que achem nossa pancinha sexy, que não se importem porque nosso peito é pequeno, que admirem fervorosamente o pau menor que a ~média nacional~.

O que nos faz gostar de sexo é sermos bem comidos, e não a quantidade de refeições que fazemos num dia.

Todas as imagens foram retiradas do ótimo tumblr Gostosa que se acha gorda

O estigma da mulher honesta

Uma das grandes dúvidas da maioria das mulheres é o “momento certo” para transar. Muitas ficam adiando, adiando, pois acham que assim o cara não vai julgá-las, “desvalorizá-las”. Todo mundo sabe como eu acho isso uma bobagem sem tamanho, mas eu sei que na “vida real” essas coisas acontecem.

Foi o que uma leitora me contou por e-mail.

Moro (sozinha) em sampa há uns 5 meses, tenho 25 anos, vida estável, e tudo mais (bla bla bla).

Esses dias me aconteceu algo q eu achei q devia compartilhar, principalmente com vc…
Vc tem me ajudado muito a parar com o estigma da mulher honesta…. ou seja, a entender que não sou uma puta por querer ficar com caras, por querer fazer sexo, e principalmente, por querer ficar com alguém por ficar.

Sempre fui gordinha, mas sempre peguei quem eu quisesse.. mas transar.. ih.. transar era outro esquema.Sempre fui pudica quanto ao sexo, isso era coisa esporádica, e só achava que seria capaz de fazer sexo no estilo papai e mamae..

Depois q mudei pra cá resolvi q tinha q viver a vida. Resgatei um cara do passado. Ele veio me ver, foi tudo ótimo, e descobri coisas sobre mim que eu nem sabia… pena q foi rápido demais e não sei se vou vê-lo de novo.

Continuando a saga “viver a vida”, no domingo, um amigo de um amigo meu, com quem fiquei no final de semana passado, veio falar comigo na internet… ficou de putaria, putaria, pedindo pra vir aqui me ver, aquela coisa.

Não resisti e falei: VENHA. É, ele veio… 

Veio, me comeu, e foi embora depois de 30 minutos.

ME SENTI UM LIXO. Ele sequer tirou minha roupa, não encostou nos meus peitos, e eu nem vi direito o pinto dele. Absurdo. 

Eu, que passei a pregar que temos direito iguais, que assim como os homens nos usam, podemos também usá-los, e por aí vai, me vi de novo com o estigma de ter que ser uma mulher honesta.

Não fiz nada de errado. Eu já sabia que ele era cuzão.. mas porra, desse nível?
Ainda, antes de ir embora, me disse: “desculpa a falta de educação, mas eu tô muito cansado.. tô indo.. tchau”.

É, tô fazendo força pra não me sentir mal, uma putona completa, e nem ficar me martirizando.. mas parece que quando eu me livro do estigma, ele bate à minha porta de novo…

Me apego nos direitos iguais, mas quando eu quis usar, acho que acabei mesmo foi sendo usada…

A primeira coisa que as pessoas precisam entender é que a gente não “usa” o outro. Ou, pelo menos, as pessoas “normais”. Se eu estou a fim de gozar apenas, eu me resolvo sozinha. No momento em que você decide fazer sexo, isso automaticamente inclui um parceiro. Não importa se é casual, se é um namoro apaixonado ou um casamento que já dura 20 anos. O corpo do outro não é para você se masturbar. Sexo não é masturbação acompanhada.

Logo, a leitora deve riscar do vocabulário a expressão “usar” quando se referir a sexo casual. Se ela fala desse jeito a respeito do carinha, é de se esperar que ela a use para falar de si mesma – e isso traz uma carga imensa de culpa e a ideia de que estamos à disposição do outro. Que vai nos usar… e nos descartar. Como um copo de plástico, um guardanapo de papel… um objeto qualquer.

Mas, sobre o caso específico, o cara é um panaca. Panaca completo. Uma amiga veio me dizer que o mesmo aconteceu com ela durante o carnaval. Ela transou com um conhecido, e o cara usou o famoso pau-britadeira. Não fez mais nada. Não demonstrou qualquer preocupação com o prazer dela, assim como o “parceiro” da leitora.

Ambas demonstraram um abalo na autoestima após o acontecido. Outro dia eu estava conversando com um amigo e falei como minha autoestima havia desaparecido após os eventos dos últimos meses. Ele me respondeu, direto (e um pouco duro) como sempre: “Ninguém tira minha autoestima, porque ela é minha, e não do outro”.

É difícil perceber isso. É dificílimo colocar isso dentro da nossa cabecinha. Em geral temos anos e mais anos de comportamentos destrutivos. Alguns de nós sofremos com bullying na escola (quando nem existia uma expressão pra isso!), outros fomos xingados dentro da nossa própria casa. Não que faltasse amor, mas toda uma geração de pais achava bacana dizer pro filho que ele “não fez mais que a obrigação” quando conquistava algo. Ontem uma leitora-amiga me disse que a mãe reclamava do cabelo dela. Meu pai fez o mesmo comigo. Isso sem contar as cobranças da sociedade, essa que coloca mulheres irreais nas capas de revista e inventa mil tratamentos estéticos ao dia. Tudo com 56% OFF nos sites de compras coletivas.

Assim, tendemos a achar que a culpa é nossa. Por que ele não se importou com o meu prazer? O que fiz de errado? Foi muito cedo? Se eu tivesse demorado mais a transar, ele teria me tratado com mais carinho?

A resposta é bem simples: não. Não. Um homem desses acha que você, mulher, serve apenas para o prazer dele. Você é um objeto, mesmo que você não vista a carapuça. Pra ele. Infelizmente não posso dizer que os moços dos dois casos são exceção. São a regra.

Da mesma forma que você pode ser “a regra” e ser insegura, sem autoconfiança e colocar a sua autoestima nas mãos do outro. Mas eu honestamente desejo que você seja a exceção, e se torne uma mulher forte, dona do próprio corpo e segura de si.

E daqui a alguns anos, quem sabe, isso se torne a regra.

Delícia

Scarlett aparece assim no Red Carpet:

Tão linda que até você, mulher heterossexual, queria enfiar a cabeça aí no meio desses peitos.

Ignoramos o vestido feito sob medida, as milhares de sessões de drenagem linfática, a maquiagem feita por um profissional super gabaritado. Algumas de nós nos lamentamos por não termos o cabelo tão perfeito, volumoso na medida certa. Outras olham pros próprios seios e pensam “queria ser mais voluptuosa”.

Até que surge isso:

Daí você se dá conta (se ainda não deu, já passou da hora) que Scarlett é gente como a gente. A gostosona atua desde os 10 anos de idade – sempre na mira dos holofotes, deve ter feito mais tratamentos de beleza do que podemos supor. Mesmo com todo o dinheiro e até com a necessidade de aparecer sempre bonita (já que isso rende contratos publicitários), Scarlett, ora vejam só, é lotada de celulite.

Este é o momento em que você, que estuda, trabalha, limpa a casa, pega ônibus, passa mil horas no trânsito, não tem dinheiro pra pagar personal trainer e etc etc etc deve perceber que os ideais de beleza da nossa sociedade são inatingíveis até para quem é inatingível, como as estrelas de Hollywood.

Não se trata aqui de falar mal da atriz. Nas praias do Rio de Janeiro você encontra mulheres e homens de corpos perfeitos, lisinhos, atléticos, sarados. Então sim, é possível ser muito, muito bonito. Mas qual a importância disso na sua vida? Que preço você está pagando por tentar, tentar e nunca conseguir se olhar no espelho e se sentir bem?

Eu nunca tive um corpão. Estou mais gorda do que jamais estive, mas mesmo antes, mais magra e com dez anos a menos, eu nunca fui gostosona. Ainda assim, sempre fiquei peladona com uma facilidade impressionante. Quando morava no Rio ia à praia no ponto mais cheio de gente gata. Ia, inclusive, com amigos gatos. Chegava lá, tirava minha roupa e lia o jornal despretensiosamente, mesmo com a minha barriga fazendo várias dobras. Eu queria ter o corpo perfeito de algumas daquelas pessoas? Sim, mas eu não estava disposta a fazer o que eles faziam para isso. Horas na academia, alface no almoço e no jantar e umas bolinhas entre as “refeições”? Tô fora. Eu olhei com cobiça para os homens de corpos perfeitos? Sim, mas também olho com cobiça moços que sorriem meio de cantinho, tímidos, ou que, gorduchinhos e de all star, cantarolam uma música que eu goste.

Sei que não é fácil se libertar de padrões que ninguém sabe quem impôs. Essa matéria ridícula, preconceituosa e desnecessária mostra que ser gordo é motivo de piada nesse mundo. Os gordos são ponto de referência, são encarados como preguiçosos e desmotivados, além de serem vistos com pena, como se estivéssemos com o pé na cova.

Então, já que estamos à beira da morte mesmo, meu conselho pra todos nós é que façamos como eu fazia em Ipanema: mostrem suas gorduras. Transem de luz acesa. Curtam o corpo de vocês – gordo, magro, esquelético – do jeito que ele é. O que importa é a fonte inesgotável de prazer que ele proporciona.