Ser bonita é tudo o que se almeja. Mas não devia

Conheço o vídeo abaixo há algum tempo – e acho muito, muito empoderador. Infelizmente  é em inglês e não tem legenda.

Minha amiga e leitora Mariana Laudeauser (@mlaudeauser no Twitter) fez a gentileza de traduzir o que Katie Makkai fala com tanta propriedade. (veja abaixo do vídeo.)

Quando era pequena, perguntei a minha mãe, “O que eu serei? Eu serei bonita? Eu serei bonita? EU SEREI BONITA?” O que vem depois? “Ah, sim, eu serei rica?” O que é quase bonita dependendo de onde você faz compras. E essa pergunta infecta desde a concepção, passando pelo sangue e ar até as células. A palavra pende no coração de nossas mães, em um holofote fluorescente e penetrante de preocupação.

“Alguém irá me querer? Terei valor? Serei bonita?” Mas a puberdade me deixou como uma dríade deformada: dentes em ângulos de ficção científica, nariz torto, cara de cavalo e marcas vermelhas que os hormônios pintaram à mão. Coitada da minha mãe.

“Como isso aconteceu? Você terá pele de porcelana assim que marcar um dermatologista. Você chupou dedo, por isso seus dentes estão assim! Acertaram um frisbee na sua cara quando tinha 6 anos, do contrário seu nariz seria bom!”

“Não se preocupe, vamos consertá-lo!”, ela dizia, segurando meu rosto de um lado para o outro, como se fosse um repolho que ela talvez comprasse.

Mas isso não tem nada a ver com ela. Não é culpa dela. Ela também foi criada para acreditar que a melhor qualidade que poderia agraciar a sua garotinha estranha era uma fachada comerciável. Aos 16, fui mergulhada em pomadas, medicamentos, peróxidos. Os dentes encurralados em pinos de aço. Deitada na cama de hospital, o rosto cheio de gazes, protegendo o novíssimo nariz que o cirurgião esculpira.

A barriga inchada com 2 litros de sangue que engoli durante a anestesia, e cada torção convulsiva dos meus intestinos parecia que meu corpo gritava de dentro para fora: “O que você deixou eles fazerem com você?!”

Enquanto isso, o barulho de pingos que nunca acabava, como se o soro estivesse pingando beleza líquida em meu sangue. “Eu serei bonita? Eu serei bonita? Como minha mãe, desembrulhando o papel de presente para revelar a nova filha que 10 mil compraram para ela? Bonita? Bonita.”

 E agora, eu não vejo meu próprio rosto há 10 anos. Eu não vejo meu próprio rosto há 10 anos, mas isso não tem nada a ver comigo.

Isso tem a ver com o circo de auto-mutilação em que pintamos palhaços em nós mesmos. Tem a ver com mulheres que irão perambular por 30 lojas em 6 shoppings para achar o vestidinho preto certo, mas não fazem ideia de onde achar satisfação ou como vestir alegria, passando pela vida algemadas a uma sacola de compras, presas àquelas 3 sílabas.

Tem a ver com homens girando em banquinhos de bar, tristemente praticando sedução e todos que irão para casa sozinhos, cabisbaixos, pois nenhum estranho os achou suficientemente comíveis.

Isso tem a ver com a minha talvez futura filha. Quando você me abordar, perfurada por inseguranças, implorando, “Mãe, eu serei bonita? Eu serei bonita?”. Eu limparei essa pergunta de sua boca como um batom ruim e responderei, “Não! A palavra bonita não é digna de tudo que você será e filha minha nenhuma será resumida por essas 6 letras.

 “Você será inteligente, criativa, maravilhosa. Mas você nunca será apenas bonita.”

Plástica, dieta, carbox. Pra quem?

Há alguns meses uma leitora me escreveu o e-mail abaixo. Eu ia fazer um guest post, mas acabei me enrolando (como sempre). Ela leu meu texto de ontem e me escreveu: “não disse que eu tinha razão?”.

Não, ela não tem. Ela tem razão de temer, mas ela (e nem eu e nem você) não pode deixar que pessoas erradas digam o que é certo. Tá confusa? Leia e você vai entender.

Eu tenho muitos conflitos com meu corpo. Não consigo ficar nua na frente de ninguém, nem da minha mãe, nem de amigas, nem de namorados. Tenho vergonha de meus seios, porque eles têm estrias e, quando me deito sem sutiã, caem para os lados (o direito, para a direita, e o esquerdo, para a esquerda). A única solução para isso é plástica e tratamentos estéticos para me livrar de estrias e celulite. Só que eu não sou rica. Enfim, estou juntando dinheiro para a plástica dos seios, mas o médico já me avisou que, para a plástica ficar boa, terei que emagrecer pelo menos 10kg, pois, no momento, eu peso 90kg…

Entrei na academia. Estou gostando muito e também faço dieta acompanhada por nutricionista. Parei de comer doces e de beber álcool ou refrigerante. Sinto falta da coca-cola e do brigadeiro. Chego a sonhar com chocolate, mas tenho que me manter firme. Faço as aulas de natação bem cedo e uso maiô de corpo inteiro com shortinho próprio para água, sabe? A maior parte dos meus colegas de piscina está na terceira idade e se veste de maneira muito mais à vontade do que eu… Além disso, no vestiário, as senhoras não têm a menor vergonha de trocar de roupa perto de mim, enquanto eu só me troco dentro do chuveiro, para ninguém ver. E olha que tenho menos de 30 anos e minhas colegas devem ter todas mais de 60.  

Eu já perdi passeios à cachoeira e à praia por vergonha do corpo e já perdi ficantes por não querer transar. O que eu não quero é ficar nua, compreende? O que você me aconselha? Continuar emagrecendo e juntando dinheiro para a plástica (se tudo der certo e eu emagrecer, em janeiro, acho, já poderei fazer a plástica). Mas não são só os seios que me incomodam, mas também a barriga, as estrias, a celulite, o excesso de coxas…

Comecei um tratamento para estrias chamado carboxiterapia. Comprei um pacote de 10 sessões (custou MIL REAIS). Fui em 4 delas e te digo: a dor é terrível. Muito ruim mesmo. Fora que tudo o que ganho, invisto em tratamento, a academia e a poupança pra plástica. Abri mão, inclusive, de comprar um carro.

O que você acha, Letícia? Acha que, se o cara se interessar por mim vestida, ao me ver sem roupa ele vai se desinteressar? Sabe, eu acho tão superficial a preocupação excessiva com a aparência… eu nem sou exigente quanto aos caras com quem fico. Não sou exigente quanto ao físico deles, basta que sejam interessantes, inteligentes, divertidos. Por que tenho que me submeter a tanto sofrimento? Mas, o sofrimento de ser considerada feia é insuportável… e me impede de ter uma vida sexual saudável. Você acha que, se meu corpo ficar aceitável (nunca ficará belo) para o padrão de beleza, vou conseguir, ao menos, ficar nua na frente das pessoas (não só de homens, mas também de mulheres, pois não fico nua nem na frente de costureiras, amigas, etc)? Vou conseguir ter uma vida sexual saudável? Vou conseguir, ao menos, ir à praia de biquíni?

Bom, vamos por partes. Primeiro, as estrias. Elas não vão sumir. Não adianta fazer tratamento, pagar uma grana, etc, etc. Isso aí vai ficar com você (e comigo) pra sempre. Mas homens e mulheres têm estrias. Já vi váááários caras com estrias nos braços e na lombar, mas nunca vi nenhum deles achando que é um pecado mortal.

Mulheres têm em geral estrias nos seios, na parte interna das coxas, na lateral do bumbum e na lombar. Pronto. Fim. Podemos mudar de assunto?  Não nesse post, digo, mas sim como cultura? É isso aí, temos estrias e não tem como fazê-las sumir. Acabou a discussão. Não há o que ser feito.

Daí a leitora diz que faz atividade física e dieta com acompanhamento de nutricionista. E que está gostando de nadar. Ótimo. Atividade física é importante para uma vida saudável. Ainda que ela não tenha começado com esse fim (mas sim com o de emagrecer por pura pressão social da magreza), os ganhos são indiscutíveis. Sobre a dieta… bom, eu tenho minhas dúvidas sobre a eficiência de dietas com restrições tão ferrenhas (sonhar com chocolate?). De qualquer forma, ela está sendo acompanhada por um profissional.

Chegamos, então, aos gastos. Ela diz que gasta todo seu dinheiro em tratamentos estéticos. Deixou de comprar um carro, que, dependendo da cidade onde ela mora, significaria um grande conforto. Se ela conseguiria economizar a ponto de comprar um carro, ela também poderia pegar essa grana e ir viajar. Conhecer outras culturas, aprender uma nova língua, fazer pós graduação.

Eu realmente não vejo problemas em tratamentos estéticos e/ou cirurgias plásticas. Já vi casos em que diminuir o seio foi libertador. Mas há muitas coisas envolvidas nisso aí: existe um risco que não pode ser desprezado, o pós operatório é bastante chato e doloroso… e, muito importante: mudar fisicamente não é garantia de felicidade.

Acontece constantemente. A pessoa diz “se eu fosse magra eu faria tal coisa”. Nada te impede de fazer qualquer coisa. Ir à praia ou ao clube; usar blusa sem mangas; ficar pelada na frente do parceiro. Nada disso é proibido para quem está “fora de forma”. Só quem impede você de fazer isso… é você mesma.

É urgente tomar as rédeas da própria vida e fazer aquilo que se quer.

Ela conta sobre um tratamento estético chamado carboxiterapia. E que dói. Procurei no Google a respeito e todos os textos reafirmam: é doloroso.  Dizem que funciona – a pele fica mais lisinha e com menos celulite. Mas dura apenas alguns meses. Depois volta tudo. Durante quanto tempo você (a leitora acima e você aí que está me lendo) está disposta a gastar uma grana e sentir dor? Porque isso seria eterno! Vi num blog uma garota comentando já ter feito QUARENTA E CINCO sessões! Gente!

Imagina quanta dor ela sofreu, e quanto tempo e dinheiro ela gastou. Eu sei que muita gente aproveita os descontos dos sites de compras coletivas, mas ainda assim. Tais sites vendem viagens também, sabe?

No final, a leitora me pergunta se eu acho que ela conseguirá, depois de tantas mudanças, ter uma vida sexual bacana. Eu espero estar errada, mas eu acho que não. Porque ela mesma diz que seu corpo nunca ficará belo, somente “aceitável para os padrões de beleza”. Quem dita tais padrões? As revistas femininas? Ora, sejamos menos ingênuas. Tudo isso faz parte de um negócio extremamente lucrativo!

Além de render bilhões, deixar as pessoas sempre preocupadas com a aparência (e desgostosas de si mesmas) é uma forma de controle. Se você não reconhece a força que tem – porque se sente inadequada -, como vai lutar pra mudar o status quo? Vai continuar sendo sempre massa de manobra.

Eu não sou contra a vaidade. Pintei meu cabelo durante anos e voltarei assim que tiver grana e paciência (tenho muito, muito cabelo, e fazer luzes significa passar a tarde inteira no salão). Adoro esmaltes. Acho maquiagem incrível.

Mas eu não vou gastar todo meu dinheiro nisso. Não vou viver obsessivamente buscando técnicas para “melhorar” minha aparência. Não vou sentir dor.

Então, no final, é importante se perguntar:

- Eu tenho condições financeiras de fazer isso?

- Está me machucando?

- Eu poderia aproveitar melhor o tempo que estou gastando em tratamentos estética?

- Pra quem eu estou fazendo isso?

- Eu estou deixando de fazer coisas na minha vida por me sentir fisicamente inadequada?

Se você disse “sim” à última pergunta, eu aconselharia que você buscasse ajuda terapêutica profissional. Nenhum tratamento estético vai te fazer se enxergar como você realmente é.

 O post de hoje (e o de ontem, e o de amanhã…) fazem parte da “semana da autoestima” do Cem Homens. :)

A feiura está nos olhos de quem vê

Antes do texto: dei entrevista para o site da revista Lunna. Leiam! 

Voltando à programação normal:

O comentário foi bem direto: “Vc deve ser gorda e ou feia! Conheço mulheres!”. Postado no início da tarde de hoje, me fez pensar a respeito do assunto durante algum tempo. Volta e meia encontro xingamentos deste tipo para moderação: “deve ser uma ogra”. Nem vou entrar no mérito da infantilidade da maledicência. Acho que não preciso, né?

Ontem, com todo o bafafá acerca do comercial da Hope (vou falar mais a respeito dele este fim de semana), algumas pessoas disseram que quem enxergou sexismo no comercial era, no mínimo, feio. Sentimos inveja da Gisele, afirmaram, sem sequer considerar outras possibilidades.

E se fôssemos feios? Isso de alguma forma desvalorizaria nossas ideias?

Não sei nem porque usei o condicional “se” no início da penúltima frase. Somos quase todos feios, sim, senhor. Alguém realmente não percebeu ainda?

Fiz um exercício curioso. Peguei um ônibus hoje e resolvi observar todo mundo que ali entrasse. Foram muitas pessoas. De todas, devo dizer que me apaixonei perdidamente por um rapaz de barba mal feita e olhos verdes. Vi também um garoto que seria considerado bonito – mas não gatíssimo – pelos nossos padrões. Logo no primeiro ponto do ônibus subiu uma moça de corpo delicioso. Bunda empinada e cinturinha fina. Todos vocês a achariam uma gostosa.

Mas foram três pessoas. Três, em meio a dezenas, dentre as quais eu me incluo. Uma vez uma garota me perguntou no Twitter se todos os homens com quem eu saía eram gatos. Respondi que não. Ela retrucou: “Nossa, então eu não quero”. A questão é: eles por acaso desejariam você?

Longe de mim querer bancar a hipócrita. A gente gosta de ver a Gisele, sim (de preferência, sem reiterar o machismo da nossa combalida sociedade). Por compromissos profissionais, eu já a vi desfilando. Fiquei impressionadíssima com a beleza, classe e simpatia da modelo. Ela não está no topo à toa.

Em um dos meus primeiros posts relatei que estava ficando mais feminina. Duas pessoas fizeram comentários me questionando se eu não estava “me vendendo ao sistema”. A discussão carece de mais embasamento e explicações do que pretendo dar numa sexta-feira em que espero o show da Shakira (podem me julgar). Matutei a respeito e concluí que não, eu não estava me enquadrando num padrãozão. Mais uma vez: coloquemos a hipocrisia de lado. Todo mundo gosta de alguém cheirosinho, com uma roupa combinando e um indício de vaidade aqui ou acolá. Eu me sinto bem melhor quando passo corretivo nas olheiras e estou com as unhas do pé pintadas de cereja.

Mas esta é uma beleza real. Sou feia, mas com um quê de belo. Somos todos assim. Também no ônibus havia um rapaz com o rosto muito bonito. A barriga, porém, mostrava que ele “precisaria” emagrecer uns 30 quilos para se enquadrar no irreal padrão de beleza vigente. Fiquei observando-o. Ele esbarrou sem querer em outro passageiro, pediu desculpa, e logo engatou uma conversa sobre o nada. Ele sorria, e ao descer do ônibus deu tchau para o amigo relâmpago que jamais encontrará novamente. Gorducho, ele é lindo simplesmente por ser quem é.

Somos bilhões de feios. Como disse meu amigo @guetoblaster hoje no Twitter, a vida não é um casting da Victoria’s Secrets. Somos ogrinhos, com cabelo desgrenhado, estrias, espinhas na bunda (uma leitora relatou o caso de um ex rolo que dizia que isso era capaz de broxá-lo). Somos reais, de carne, osso, e mais ou menos gordura.

E todos nós transamos e nos reproduzimos, se assim nos apetecer. Feio transa – e muito. Não precisamos ser deuses gregos para sermos desejáveis.

Falo de três homens com quem saí esse ano. Minhas leitoras antigas ficam suspirando por um deles, o Eduardo. Ele tem um corpo super em forma, mas não é – mesmo – bonito de rosto. O carinha com quem me reencontrei, por exemplo, tinha uma barriga tanquinho, mas usava pesados óculos (quando os tais óculos não eram modinha indie) para os seis graus de miopia. Namorado é baixinho, mas abre a boca de uma maneira surrealmente linda quando está a poucos momentos do orgasmo.

Todos somos lindos. Pode ser o jeito de andarmos ou gesticularmos. Pode ser a mordida no lábio. Pode ser até o formato das unhas. Eu sou linda, mesmo que esteja muito mais longe do padrão do que vocês imaginam.

Quem só dá valor a quem sai bem em foto para postar no Facebook é que enxerga o mundo com olhos enviesados. São pessoas que não conseguem ver a beleza. A feiura está nos olhos de quem vê.

PS: Sobre isso, leiam o texto da Hildegard Angel.