Hipocrisia social obrigatória

Essa madrugada soube das fotos e vídeos íntimos de uma jovem que estavam rolando no Facebook. Agora já tiraram do ar, mas eu cheguei a ver. Pior: li os comentários.

Algumas pessoas defendiam a garota, mas basta dar uma olhada no Twitter para ver onde as pessoas chegam para xingar alguém.

“Vazamento” de vídeos e fotos eróticas não é novidade. Com a internet, a coisa se espalha rapidamente. No momento seguinte está todo mundo falando a respeito. O nome da garota tá nos trending topics desde ontem. Aí eu pergunto: por que não está o nome do cara?

Por que em tudo que se refere a sexo a mulher é sempre xingada e julgada, e o cara sai como o COMEDOR, mesmo que tenha feito a cretinice de expor a intimidade do casal?

Foi assim com aquela assessora de Brasília que acabou na capa da Playboy. Ela foi demitida. O cara que estava com ela no vídeo continuou exercendo as funções como se nada tivesse acontecido.

Bom, na verdade, nada aconteceu. O que está errado é darem tamanha importância à sex tape, porque sexo… bom, há sete bilhões de pessoas no mundo. Poucas delas foram geradas com o auxílio dos médicos. Quer dizer: fazemos sexo sim. Pensamos em sexo o tempo inteiro. Queremos que nossas vidas sexuais sejam melhores. Então porque mesmo que nos incomodamos tanto com a vida sexual alheia?

É o que Gaiarsa chama de “hipocrisia social obrigatória”. Todo mundo fode. Quem não fode, quer foder (claro que existem exceções, mas…). O psiquiatra fala sobre “a infinita estupidez humana e sua arte suprema de manter a si mesmo e aos próximos eternamente infelizes. Todos vigiando a todos para que ninguém faça o que todos gostariam de fazer – principalmente amar, rir, dançar, cantar. Só na hora certa, no lugar certo!”.

Eu incluiria um “sem câmeras envolvidas” à última frase acima. Porque isso acontece direto. Lembro ter contado em uma das minhas histórias que tirei algumas fotos. Coloquei a observação: “fique sempre com a câmera”.

Sei que é completamente maluco a gente não poder confiar no cara com quem partilhamos a intimidade. Nem estou falando de amor, mas de respeito. Você imagina que, se está transando com alguém e vocês decidem fazer vídeos e fotos, aquilo ficará restrito ao casal. Pra vocês curtirem, para se lembrarem de bons momentos, para se excitarem.

Infelizmente, não é assim que funciona. Esse material é bastante usado por ex parceiros vingativos e babacas. Se ele (o homem) soubesse que teria o mesmo tratamento ora dispensado às mulheres, ele jamais jogaria o conteúdo online. Jamais.

Mas não estou sugerindo que passemos a tratar os homens da mesma maneira, e sim que passemos a ver o sexo como algo natural e saudável. Não há nada de errado em trepar, em fazer caras e bocas para a câmera, em fazer boquete.

Todos nós fazemos. 

Sexo não tem qualquer relação com caráter; alguém transar muito ou pouco, com diversos parceiros ou só com um; ser celibatário ou ser rodado; nada disso interfere em questões morais.

A exposição e a reação das pessoas ao último caso, sim, dizem respeito ao caráter. Porque se você SABE (não precisa ter mais do que dois neurônios pra isso) que a atitude do ex foi deplorável, mas compartilhou as fotos, você é um (a) babaca, também. Você também pode pensar “e se fosse comigo?” e evitar falar sobre detalhes da anatomia da garota.

Quem compartilha/xinga/zoa é tão criminoso quanto o cara que está nos vídeos.

Ao final disso tudo a garota ficará devastada. Você quer mesmo ser responsável por fazer alguém se sentir mal? De repente acontece uma tragédia, como aconteceu com a Amanda Todd, e todo mundo fica com cara de tristinho dizendo “o bullying tem que parar”. Isso que muita gente está fazendo É bullying!

Mesmo contrariada (porque no meu mundo de faz de conta eu não deveria ter que falar isso), dou algumas dicas para o mesmo não acontecer com você. As pessoas não deixarão de tirar fotos peladas, mas infelizmente é necessário tomar algumas precauções:

  • Nunca, jamais, em tempo algum tire fotos/faça vídeos em que você possa ser identificada facilmente. O rosto, claro, não deve aparecer, mas tatuagens, por exemplo, mostram logo quem você é.
  • Fique com a câmera quando acabarem a brincadeira. Aí você escolhe quais fotos quer compartilhar.
  • Não deixe que as fotos ou vídeo sejam feitos no celular. Isso permite que o cara envie os arquivos imediatamente, sem você ver.
  • Se for fazer uma suruba/ménage, peça aos participantes para deixarem os celulares e câmeras em outro cômodo. É mais difícil controlar se alguém está fotografando com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo (sem contar que esse é um momento para relaxar, não para ficar grilada).
  • Caso vá compartilhar as fotos e vídeos, não envie do seu e-mail pessoal. Crie um outro, totalmente fake, para se resguardar.
  • Não saia com babacas. Sei que essa parte é a mais difícil, porque muitas vezes isso não vem escrito na testa deles, mas observe. Se ele é babaca com outras pessoas, ele será babaca com você.

Divirtam-se. E se cuidem, sempre.

Bullying e suicídio – parte I

Como grande parte de vocês deve ter visto, uma jovem canadense chamada Amanda Todd se matou após sofrer bullying. Para conhecer mais detalhes, leia o post de hoje da Lola. Vi muita gente compartilhando com indignação o caso. Falaram com pesar sobre a perda de uma garota tão jovem. Demonizaram quem praticou o bullying. Defender agressor é que não dá, né?

Mas eu não pude deixar de pensar no papel que desempenhamos nisso tudo. Não exatamente no caso Amanda – mas ela não é, infelizmente, a primeira pessoa a sofrer xingamentos e perseguições, tampouco a última a se matar.

Volta e meia novos casos surgem. Alguns despertam comoção popular, especialmente quando a vítima deixa algum vídeo no YouTube. Na semana seguinte, ninguém toca mais no assunto. Aparece outra pessoa denunciando bullying e ela é zoada. Dizem que é frescura. Aconselham que ela “deixe pra lá”, como se fosse fácil. Menosprezam tudo o que ela diz ou sente.

Ela dá todos os sinais de que não está aguentando. Ainda assim, as porradas continuam pelo lado do agressor, e pouco conforto é recebido para atenuar os machucados. Família, escola, amigos. Quase ninguém estende a mão, dá um abraço, aguenta as crises de choro.

E aí a vítima, sozinha, completa o ciclo. Novo suicídio, nova comoção das redes sociais, novo esquecimento. Nem sempre o fim é tão trágico. Mas me digam se não é uma calamidade que tantos adultos tenhamos problemas sérios de autoestima e amor próprio? Porque na semana passada eu recebi muitos, muitos relatos de gente que está aí, vivinha da silva, respirando, trabalhando, saindo, rindo… mas que por dentro carrega uma dor dilacerante (aliás, faltam três posts da semana da autoestima; eu não estou esquecida, só fiquei ocupada com outras coisas).

Logo, grande parte das pessoas continua vivendo apesar de. Só porque não houve morte, a dor é menos importante? Porque a pessoa conseguiu ser um adulto funcional, então tudo bem xingar, ofender, zoar? Já que o xingamento é direcionado a um adulto, “que deveria ser forte”, ele é menos ofensivo?

Falo da minha experiência. Cada um sente de um jeito e outra pessoa na mesma situação teria reagido de maneira diversa. Como contei aqui há uma semana, eu fui sacaneada na escola e também entre familiares. Criei uma casca grossa. Claro que isso teve consequências na minha autoestima, confiança  e no meu relacionamento interpessoal. Mas, ok, virei um ~adulto funcional~.

Comecei o blog em fevereiro de 2011 e sofri todo tipo de agressão psicológica que vocês podem imaginar. Fui atingida, óbvio. Não vou entrar em pormenores porque já falei a respeito muitas vezes. Isso, juntando com mais um monte de outros problemas, me fez cair em crise depressiva.

Quem lia o blog acompanhou tudo isso. Jamais escondi a minha condição. Escrevi durante toda a crise. Expus o problema no Twitter. E, em 31 de dezembro, tentei me matar. Eu dei todos os sinais. Talvez não aqui no blog (apesar de eu ter falado especificamente sobre ideação suicida), mas com certeza quem estava próximo de mim soube de tudo.

Tanto isso é verdade que meus amigos perceberam o que tinha acontecido – e foram eles que avisaram a minha própria família. Eu me despedi. Eu disse o que estava fazendo. Naquele dia já não era um pedido de ajuda (as pessoas têm mania de dizerem isso sobre quem tenta e não consegue morrer). Eu realmente achei que estava tudo acabado. Só quis dizer tchau e expressar como algumas pessoas eram muito amadas. Quis agradecer; não queria que elas carregassem uma culpa que não era delas.

Mas com certeza era de algumas pessoas. Além da própria existência em si mesma, claro, pois nós, como diria Bukowski, “pedimos mais da vida do que há”.

Falei abertamente sobre a tentativa. Escrevi a respeito. Mencionei em muitas conversas. Muita gente que acompanhou todo o processo da queda no abismo ficou sabendo. Nunca me deram um telefonema. Jamais pediram desculpa por não estarem por perto.

Se eu tivesse morrido, teriam elas emitido comentários pesarosos sobre mim? “Tão jovem! Tinha acabado de se formar, estava mudando de carreira! Tanta coisa pra viver!”

Diriam? Mandariam flores? Encontrariam minha mãe na rua e falariam de mim com os olhos marejados?

Aposto que sim.

Porque socialmente isso é esperado. Você não ~pode~ simplesmente não ligar pra morte de alguém, ainda que você não tenha ligado pra ela em vida. Que monstros nos tornamos? Vestimos mesmo essa capa da hipocrisia?

O que eu vi foi um monte de gente continuando a me dar porrada. Eu estava me recuperando do pior momento que eu já vivi. Mas, como era um ~adulto funcional~, acharam que estava na hora de tentarem quebrar minhas pernas mais uma vez. Novos xingamentos, novos julgamentos. Pedras. Muitas.

Ignoraram o fato de eu estar em recuperação. Eu estava me tratando. Fazendo análise, tomando remédio, me esforçando de maneira absurda. Nada disso importava. O que importava para algumas pessoas era continuar batendo. Se já não tinham respeito por mim quando eu conseguia ficar de pé, quando eu estava caída pareceu ainda mais fácil. E bateram. Continuam batendo. Nenhuma humanidade, nenhuma simpatia, nada.

Hoje algumas dessas pessoas que me agrediram e continuam agredindo tiveram a cara de pau de se dizerem indignados com o caso Amanda Todd. Gente que também xinga, pratica bullying, menospreza a dor alheia. Indignadíssimos! Mas ninguém conhecia a Amanda. Porém, com certeza tem alguém por perto de você (mesmo que virtualmente, como eu estive durante meses) totalmente desamparado. O que você está fazendo para ajudar? O que você fez para empurrar a pessoa cada vez mais pro buraco? A culpa também pode ser sua.

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JURO que o clima vai melhorar aqui no blog. Tenho mil coisas começadas e estou muito animada com.. a vida! Mas alguns assuntos sérios acabam furando a fila. :)

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Uma estudante de jornalismo me procurou para ajudá-la com fontes para uma entrevista. Eis o recadinho dela:

“Olá. Meu nome é Mariana. Sou repórter da revista Jenipapo, produzida por estudantes de Jornalismo da Universidade Católica de Brasília. Estou escrevendo uma reportagem que vai abordar o mercado erótico para mulheres e a vida sexual das mulheres. Gostaria de saber quem toparia ser entrevistada. Gostaria de saber  quais de vocês são casadas e se frequentam sex shops ou casas de swing. Quem topar falar sobre o assunto, favor entrar em contato pelo email: mariana.avilapalhares@gmail.com. Caso solicitado pela fonte, o nome verdadeiro das entrevistadas pode ser mantido em sigilo.”

Ser cruel com gordos é inútil: um pedido por civilidade

Hoje eu não ia postar nada na semana da autoestima, porque estou com alguns probleminhas e não estou com tempo/saco de escrever. Mas daí fui olhar o Pinterest e num dos boards que sigo indicaram o texto abaixo. É do Jezebel gringo – e de maio de 2012 – mas acho que vale a tradução. Evidente que há diferenças culturais importantes, mas no que se refere ao tratamento dado ao gordo, acho que estamos bem parecidos. Infelizmente.

Quero deixar claro que falo muito sobre gordofobia porque, bom, eu sinto isso na pele. Sou gorda há duas décadas (aos olhos da sociedade, porque com certeza sou gorda hoje, mas na adolescência eu não era, não). Já fui bastante xingada, julgada, etc, etc. 

Mas tudo pode ser aplicado à questão que você aí passa. Basta não estar no ~padrão~. Lembre-se que até as supermodelos, que hoje são invejadas/desejadas, eram zoadas na escola por serem magras ou altas demais. Tá? :)

O texto abaixo é uma tradução livre de Being Mean to Fat People is Pointless: A Good Old-Fashioned Plea for Civility, publicado no Jezebel em 9 de maio de 2012 e assinado por Lindy West

 ”A obesidade vai acabar com os EUA.” Esta é a frase final do trailer do gordo-apocalíptico (difícil traduzir isso, viu?) documentário Weight of the NationO peso da nação (que, pelo que eu posso dizer, foi dirigido por Roland Emmerich e termina com o Will Smith explodindo a nave dos gordos com uma arma nuclear). Tá certo, gente. Os gordos estão chegando. Para acabar com uma nação inteira. Por isso que nós não podemos ter nações bacanas.

Novas estatísticas foram divulgadas essa semana, uma prévia das acusações catastróficas de todo mundo sobre as mãos gordurentas e em formato de salsicha dos “perigosamente obesos”. Quase isso. Em 2030, segundo o estudo, 42% da população adulta dos Estados Unidos se enquadrará na definição clínica de obesidade, e o resultado disso será… “gastos públicos”. Dica para frases de efeito sobre “escolhas” e “controle” e “coma menos, pratique mais exercícios”. Precisamos dar um jeito nos gordos!

“Se nós não fizermos nada, todos os esforços para manter os gastos públicos com saúde em dia serão inúteis”, disse o economista Justin G. Trogdon, um dos autores do estudo, no início da conferência “Weight of the Nation”, que durou dois dias em Washington.

Nossa! Aí está o ponto. Talvez a obesidade seja uma praga macabra que irá literalmente afundar os EUA. Seremos uma nova “Cidade Perdida de Gordatlântida” (lidem com isso: gordura boia!) – mas esse post não é sobre isso.

Eu não quero falar se esses índices são besteira, ou se a “epidemia de obesidade” (PÂNICO! PÂNICO! PÂNICO!) realmente cresceu na última década, ou sobre o fato de que geralmente as pessoas confundem tamanho com saúde.

Eu não vou ficar aqui tentando convencer a internet que, no mundo real, perder peso é muito mais complicado e doloroso do que apenas contar calorias. O que eu queria era pegar toda essa merda e colocar num pote agora mesmo (e cobri-lo com um tecido pra que essa merda toda fosse dormir, feito um papagaio idiota) e só escrever a respeito da maneira que falamos sobre gordos.

Os gordos americanos são reduzidos a nada além de gordura. Uma pessoa gorda tem um problema de saúde de qualquer natureza? É porque é gorda. Um gordo é solteiro? Óbvio: gordo. Com certeza merece ficar sozinho. Um gordo é pobre? Nada surpreendente – obviamente ele não consegue se controlar e toma péssimas decisões! Afinal, por qual razão uma pessoa esperta escolheria ser gorda? 

Se um gordo vai a um restaurante e senta numa cadeira quebrada – e a cadeira quebra, é porque a pessoa era gorda. Mas se um magro senta na  mesma cadeira e a cadeira quebra, é porque sentou numa cadeira quebrada. 

E esse tipo de pensamento simplista torna incrivelmente fácil colocar a culpa de todos os problemas de uma nação nos ombros dos “obesos”.

Eu sei que parte seu coração saber disso, mas falar coisas como “acabar com os EUA” machuca pessoas. Isso coloca as pessoas gordas – caso você tenha esquecido, gordos também são gente – não apenas como adversários da nossa própria saúde ou do espaço do seu cotovelo no avião (os crimes usuais), mas sim como a razão do futuro desaparecimento da humanidade.

Assumir que você tem o direito de legislar sobre o corpo do outro “para o próprio bem dela” ou “para as crianças”, ou até mesmo “porque eles são nojentos” é horrível. Mas superestimar essa ideia para proporções apocalípticas é totalmente maluco.

Ficar repetindo a ideia de que os gordos, por meio de escolhas ou de falta de vontade (ou seja lá o que você tenha decidido que eles fizeram para transformar os próprios corpos em um formato que você não gosta), estão falindo a nação simplesmente transforma o país no pior lugar para um gordo viver.

Pior: isso não vai fazer o gordo emagrecer; isso só vai fazê-lo se sentir ainda mais miserável e transformar você num grande babaca.

O jeito que tratamos os corpos humanos – magro, gordo ou qualquer coisa entre isso – é bárbaro. (E se você está aí suspirando e fingindo que não sabe do que eu estou falando, me poupe; é só ler os comentários de qualquer blog que mencione a palavra “gordo”.)

Nós substituímos o bullying e os xingamentos por uma infraestrutura que pode sim melhorar a saúde das pessoas – mas daí balançamos negativamente a cabeça ao percebemos que o atalho escolhido simplesmente não serve.

A gente coloca os corpos alheios como manifestações físicas dos seus supostos desvios morais, e assim nos sentimos superiores por não sermos um deles. Nós humilhamos publicamente e desumanizamos crianças (a autora fala sobre a campanha e imagem abaixo) para impulsionar a multimilionária indústria da perda de peso. E depois dizemos aos gordos que ELES são os vilões.

Tá, tudo bem. Viajar de avião é um saco. Você está puto porque gastou US$ 300 para sentar num dildo voador e cheirar os peidos reciclados dos outros, e ainda por cima tem o cotovelo de um gordo ocupando um pedacinho da sua poltrona por algumas horas. Eu sinto muito. Mas quer saber de uma coisa? Eu estou no Time do Cotovelo do Gordo (e não só porque eu sou uma gorda com cotovelos).

Porque a dor e humilhação que existe na vida daquele gordo dura muito mais que o seu voo de oito horas. Se eu estivesse embarcando num voo internacional e a aeromoça dissesse “Para sua informação, madame, se você humilhar publicamente essa mulher barbada, nós iremos fazer um open bar de vodka até o aeroporto de Londres”, eu iria querer muito a vodka grátis, mas obviamente não humilharia a mulher. Porque minha consciência é mais importante do que meu conforto temporário. (Também ligaria para a ANAC porque essa não seria uma empresa aérea séria.)

Este é o meu ponto. Tem gente, agora mesmo, ativamente fazendo campanha contra ser amável (a autora linka para uma história de uma mulher falando que não quer mesmo gordo ao lado dela no avião), e tratando isso como uma postura legítima e produtiva. Mesmo se xingar e machucar pessoas fosse a “solução” para o “problema” da obesidade – e não é – ainda assim não valeria a pena. Porque humanidade é mais importante.

Talvez ser gentil com gordos (e, sinceramente, com qualquer pessoa) não seja um sistema perfeito -pode ser que você fique desconfortável num avião de vez em quando -, e é possível que um gordo estranho em algum lugar dê “prejuízo” e ~decida~ fazer uma cirurgia cardíaca só porque é grátis! Mas, por ser um ser humano com compaixão, eu posso aceitar essa margem de erro e estou orgulhosa disso.

Não importa se você acredita que gordos realmente custam dinheiro público, o problema real é esse complexo industrial maluco que simplesmente não funciona. Além de machucar gente, ele é embaraçosamente não efetivo – um hobby cruel, não um ato político.

Todo mundo no planeta que se preocupa com o assunto  de veria estar no mesmo lado. Deveria ser indiferente se você é um dos que acredita que gordura é irrelevante, ou alguém que sofreu bullying por seu peso, ou um cidadão consciente que realmente quer melhorar a saúde da nação. Todos devíamos estar juntos. Isso seria incrível.

Faça campanha por merendas escolares mais saudáveis. Procure inspecionar o nosso terrível sistema de produção de alimentos. Tente encontrar soluções lógicas para lidar com o fato de que a população está maior. Porque acredite em mim: as pessoas não vão miraculosamente emagrecer só porque você gritou “chega!” para nós. Envergonhar os outros é estagnação. Não vai resolver nada. Bullying não é ativismo. Machucar não é ajudar. Pare com isso.

A régua da felicidade

Desde que comecei este blog me deparei com o que há de pior nas pessoas. Recebi muitos xingamentos horrorosos, pragas diabólicas e coisas do tipo. Felizmente as coisas acalmaram, ainda que volta e meia (todo dia, mas em menor número) eu tenha de excluir comentários maldosos.

Fui aprendendo a lidar com isso e a não dar tanta importância. Conheci muita gente bacana pelo blog. E não só eu: há um grupinho de amigos virtuais que se conheceram nos chats que a gente faz de vez em quando por aqui. Acho super legal vê-los interagindo no Twitter. Pessoas de vários lugares do Brasil, com bagagem completamente diferente, se encontraram por causa do blog.

Também conheci o namorado porque ele é leitor. Nosso primeiro encontro foi totalmente por acaso. Eu estava gripada, com preguiça de sair, e já havia combinado um almoço com um amigo. Aliás, seria um almoço com “sobremesa”. Meu querido amigo se enrolou no trabalho, eu acordei melhor da gripe, e resolvi ir lá ver qual era.

Fui muito feliz naquela tarde e noite. Jamais esperei ou desejei me apaixonar. Aconteceu. Estou muito satisfeita com os rumos da minha relação com ele e escrevi sobre o assunto no último post. O texto não chega nem próximo de demonstrar o meu real contentamento em tê-lo na minha vida.

Namorado é bem humorado, inteligente, criativo, gostoso, carinhoso, atencioso. Para vocês terem uma ideia, ele lê as blogueiras feministas, prefere a TPM à Trip, devora livros sobre sexualidade. Alguns dos textos sobre os quais já falei aqui ou no Twitter foram indicados por ele.

Mas a minha felicidade aparentemente irrita algumas pessoas. No último post há vários comentários me desejando sorte. Só que há aqueles dizendo que meu relacionamento não é sério, ou que a história é fake, ou que tudo o que eu sempre desejei, na verdade, era arrumar um namorado e por isso eu me joguei nos braços de qualquer um.

Estes comentários são desrespeitosos a mim, mas dessa vez há outra pessoa envolvida. Namorado não é “qualquer um”. Ele é um dos caras mais incríveis que eu já conheci na vida. E olha, eu já conheci MUITOS homens.

Ele também não é o primeiro/único homem do mundo a me dar atenção. Eu não sofro do chamado “dedo podre”; escolho com uma certa competência os amigos e homens que me rodeiam. Eu observo pessoas, tenho um nível de exigência um pouco elevado, e não abro minha intimidade para qualquer um. Abro minhas pernas, sim, mas chegar realmente perto não é assim tão fácil.

Sou muito amada e querida por quem me cerca. Verdade, tenho uma personalidade difícil, ácida, ranzinza, e por isso mesmo algumas pessoas me detestam. Normalmente é recíproco, então vida que segue.

O amor que recebo dos meus homens, dos meus amigos e da minha família me faz bem e me satisfaz. Sim, eu quero ser amada. Lógico! E namorado veio SOMAR nesse aspecto, e não completar.

O fato de ele ainda não querer morar comigo também trouxe espaço para as pessoas dizerem que ele não quer nada sério comigo. Bom, primeiro isso é um problema só nosso, não é mesmo? Em segundo lugar, se o namoro de um amigo de vocês demora anos para virar noivado, depois não sei mais quantos anos para virar casamento, ninguém acha nada errado, né?

Então, o que tem de errado no fato de o namorado não querer morar comigo em dois meses de namoro?

Eu conto pra vocês: as pessoas que acham que ele não quer nada sério comigo é porque não conseguem aceitar que uma “puta” possa ser amada. Como assim uma mulher que queria transar com cem homens pode ter alguém que realmente goste dela? Quem ela pensa que é? Isso é impossível! Os homens só querem comer e sair fora! Quem mandou ser vadia?

Não é exatamente isso?

É assustador. Não quero namorar com nenhum de vocês. Não só porque eu não os conheço, mas sim porque o pouco que já percebi é o suficiente para que eu perceba quão baixos vocês são.

Também vi alguns comentários dizendo que casamento aberto é indício de falta de seriedade. Juram? Eu tenho leitores que vivem – e muito bem! – assim. Casados, com filhos. Família de propaganda de margarina. Olhando de fora, vocês jamais imaginariam que eles transam com quem desejarem. Trocam casais, participam de surubas. E são felizes. Não é isso que todos nós queremos?

A babaquice chega em níveis tamanhos ao ponto de alguém dizer que, enquanto eu estava me declarando, o namorado estava viajando e comendo outra. Por mim ele não precisa nem viajar para transar com alguém; ele pode fazer isso estando aqui em São Paulo mesmo! O irônico é quem exatamente naquele momento que um desocupado fazia o comentário, eu estava falando com o namorado no gtalk – e fazendo encomenda de cosméticos! Igualzinho a um casal “normal”.

Jamais incentivei ninguém a viver da mesma maneira que vivo. Eu mal sei se as minhas escolhas são certas, imagine se vou cagar regra na vida alheia. Este ano, mais do que aprender novas posições sexuais, eu aprendi a respeitar a diversidade. Vi que há pessoas sendo felizes de maneiras pouco convencionais – e gente sendo muito infeliz dentro do padrãozinho que nos fizeram acreditar que seria o passaporte para uma vida plena.

Sou verdadeiramente feliz, e se a minha felicidade te incomoda (com o agravante de sequer nos conhecemos), quem tem problema aqui não sou eu. Você pode não querer um relacionamento aberto, pode não querer transar com cem homens, pode achar nojentas certas taras, mas não meça o mundo com a sua régua. Isso é ser intransigente, isso é não saber viver em sociedade, isso é desrespeitar a diversidade.

Somos únicos, cada um com seus medos e anseios. Só alguns de nós, todavia, conseguimos ser felizes. Destilar veneno por aí não indica que você esteja pleno; aliás, mostra justamente o contrário. Em vez de procurar defeito na vida dos outros, que tal procurar na sua? Identificar o que está errado em você é um grande passo. Talvez assim, finalmente, você comece a experimentar o que é a felicidade. Eu recomendo. Não sei viver sem ela.

*explicando a foto: pra mim, a felicidade pode ser traduzida num cachorro na grama com uma bola. o meu adora. 

O que é mais broxante: estria ou babaquice?

Uma leitora mandou um email dizendo que transou com poucos homens, mas todos praticaram bullying contra ela. A reação mais fácil seria dizer “eles fizeram porque você deixou”, o que não deixa de ser verdade. Mas como evitar isso? Como superar a baixa auto estima, erguer a cabeça e só permitir que gente bacana fique perto da gente? Como evitar aquele pensamento destrutivo de que “a gente não merece mais”? Eu já estive nesse buraco – e de vez em quando entro nele, confesso. Um dia escrevo sobre as mudanças que me forcei a fazer para me aceitar melhor. Ainda estou no caminho, mas já melhorei muito e muito. 

Uma das formas para fazer esse “estalo” rolar nas nossas mentes é ouvir/ler as histórias dos outros. A gente observa e pensa: “isso está errado”. Passando à análise das nossas vidas, percebemos como também já nos vimos naquela situação. Qual foi a nossa reação? É a reação que você esperava que a leitora que me enviou o email tivesse? Questionando isso tudo, você começa a mudar o padrão em que se está inserido.

Mas vamos parar de lenga lenga e falar do email da querida leitora:

Resolvi escrever esse e-mail (nunca escrevi para uma blogueira antes) por conta do texto sobre bullying…semana passada meu namorado terminou comigo…até hoje estou sofrendo demais, terminou dizendo que eu não gostava de mim mesma, e isso é verdade, mas ele constantemente dava dicas de como eu era gorda e por isso não conseguia ser tão boa de cama. Há 3 semanas eu estava de quatro e ele parou a transa pra dizer que minha bunda estava cheia demais de estrias. Aquilo me matava, mas eu aceitei….

Horrível né? Mais horrível é eu me humilhar demais pra voltar; depois que li seu texto percebi que sofrer bullying sexual é quase a mesma coisa que sofrer violência física, de algum modo você vai acreditando nas palavras e elas te fazem achar que você nunca vai ser feliz e nem amada e por isso precisa aguentar aquela situação, sua auto estima desaparece e vc fica a mercê do torturador, você realmente passa acreditar que merece aquilo.

Ainda me sinto doente, mas seu texto e os comentários de seu blog me fizeram entender muita coisa.

É importante que você saiba o quanto suas palavras me afetaram de forma positiva. Mesmo longe e anonimamente você foi minha única verdadeira amiga na última semana.

Perguntei à leitora há quanto tempo eles estavam juntos. Seis meses, ela me disse. E não, ela não engordou durante o relacionamento: “Cheguei até a emagrecer”.

Os comentários desse ogro são tão surreais que não dá nem pra comentar muito. Gordo não é bom de cama? Oi? Ademais, se você já começou a namorar alguém muito gordo, muito magro, muito cheio de sardas, muito narigudo… bom, você, em tese, aceitou isso. Se, durante o momento em que você está transando de quatro tudo o que você consegue ver são estrias, certamente você tem problemas sérios na cama. Você, no mínimo, não se entrega ao momento e faz tudo de maneira burocrática. Resumindo: você é um merda na cama. 

Além de ser um merda na vida, claro. Porque por mais que você não goste de algo em alguém, você não precisa falar isso pro mundo. Aí voltamos a todo o assunto do post sobre bullying, onde a discussão foi tão grande que até gerou um segundo (e agora um terceiro) post a respeito. 

E por último: onde estavam as amigas da leitora? Recebo zilhões de mensagens dizendo “não tenho mais ninguém pra conversar”. Vamos ser mais ouvintes e menos julgadores?

Bullying sexual

Ontem conversava com um amigo sobre coisas genéricas (ainda que nossas conversas sempre descambem pra sexo, inclusive “sem conversa”, se é que vocês me entendem) e ele me contou coisas horrorosas que já falaram pra ele na cama. Por “na cama” entendam o antes (flerte), o durante (cama propriamente dita) e o depois (pós-coito).

Fiquei impressionada e pensei se aquele tipo de coisa já havia acontecido comigo antes. Mesmo com tanto homem diferente, só lembro de duas vezes em que algo parecido aconteceu.

Quando eu tinha uns 18 anos, eu saía com um garoto. Ele era uma graça de boca fechada: branquinho, ombros sardentos, quase loirinho, atlético. Uma graça. Quando começava a falar, porém, era um desastre. A voz dele era medonha, a ponto de ele ligar em casa e dizerem “Letícia, uma pessoa te ligou mas eu não consegui identificar se era homem ou mulher”. O bom é que com essa informação eu já matava a charada.

Eu fiquei bem afinzinha dele na época. Saímos algumas vezes, mas a coisa acabou esfriando. Ele morava muuuuuuuuuito longe de mim e não tínhamos carro à época, então ficamos bastante tempo sem nos vermos. Quando ele foi trabalhar em um bairro vizinho ao meu, combinamos de nos encontrar ao fim do expediente. Eu não fui pra dar mole pra ele. Ele era um cara que eu gostava (até então) e queria bater papo, saber das grandes mudanças que tinham acontecido na vida dele. Sem sexo.

E qual a primeira coisa que ele me diz?

- Nossa, como você engordou! Só fico com você de novo se você emagrecer.

Oi? Para o mundo. Eu nem vou falar neste post sobre o preconceito que os gordos sofrem (mas vou falar disso no blog, sim). Só quero falar de quão surreal isso é. Mesmo que eu tivesse ido lá SÓ PRA ISSO, ele poderia simplesmente dizer qualquer outra coisa, se não sentisse tesão. Mas agredir? Pra quê?

Anos mais tarde eu o vi na rodoviária aqui em São Paulo. Demorei um tempo para reconhecê-lo, pois ele tinha… ENGORDADO. Como ele estava com a namorada, eu nem falei nada. Acho que ele não me viu. Pois alguns meses depois a gente voltou a se falar virtualmente, e ele me mandou umas fotos bem, mas bem gordinho.

E vingança, amigo, é um prato que se come gelado (adoro uma vibe meio sorvete). Sou escorpiana, afinal de contas. Dez anos depois daquela tarde ensolarada, eu disse “nossa, você está bem gordo, hein?”. E aí ele, que sempre foi tão ridiculamente ligado em aparência física, enfiou o rabo entre as pernas, me xingou um pouco (não lembro do quê) e nos bloqueamos para sempre.

Lembro de outra vez que o xingamento também rolou. Eu tinha uns 18-19 anos (como eu era idiota naquela época, MEU PAI). Saía com um cara do tipo deus grego. Barriga de tanquinho, 1m90 de altura, também com as tais sardas no ombro. Ele estudava na mesma faculdade que eu, morava numa casa lindíssima, tinha carro do ano. Aquela coisa bem idiota que todo mundo já deu valor alguma vez na vida, né? Assumo minha idiotice. Um dia, conversando, ele me diz que se ele tivesse me conhecido numa balada, ele não daria em cima de mim. É que eu não era gostosona, não tinha o cabelo impecável, andava de tênis e chinelo, sabe?

Eu fiquei atônita, mas eu já achava que ele era “areia demais pro meu caminhãozinho”, e aceitei o comentário imbecil. Acabamos terminando porque o sexo com ele era horrível. Lembro de uma vez que contei seis camsinhas usadas ao lado da cama – e eu não tinha PERCEBIDO que ele havia dado várias. É. Isso mesmo. Larguei dele e fiquei com um amigo meu feeeeeeeio, pobre, bom de cama e que me tratava super bem. Beijo pro bonitão-fode-mal.

Ontem, depois dessa conversa com meu amigo, perguntei no Twitter se alguém também já havia sofrido “bullying sexual”.  Nenhuma mulher respondeu. Os homens falaram barbaridades. Como, em geral, são eles que “chegam” nas mulheres, talvez estejam mais suscetíveis a ouvir tosquice.

E teve de um tudo! Já falaram pros caras que o pau deles é feio/pequeno; que eles têm pelos demais; que são gordos. Sério, gente, precisa? Diga “não”, apenas, e pronto. Você talvez esteja perdendo uma grande oportunidade de ser muito bem comida, mas pelo menos não seja escrota (o).

E você? Qual absurdo já falaram pra você nessas situações? Conta aí!

UPDATE: Falei no Twitter, acho que vale mencionar aqui. É claro que eu já vi coisas feias ou que não me davam tesão necessariamente. O pau mais feio que vi na vida foi esse ano – até agora não consegui entender o que rolava ali, e isso faz uns dois meses. Sabe o quê eu faço nessas situações? Eu beijo, lambo, mordo, elogio. A própria pessoa já se olha no espelho e pensa “putz, queria que minha barriga fosse menor”. Você não precisa dizer pra ela que é assim. Ela compra roupas, ela também vê os modelos nas revistas, também vê os atores pornôs e seus paus gigantescos e ereção eterna. A gente não precisa perpetuar complexos e problemas de auto estima.