O post sobre as declarações da ministra Maria do Rosário sobre o caso Eloá levou a algumas discussões no Twitter. Algumas pessoas disseram que a ministra estava certa. Outras, que não deixariam uma filha namorar alguém tão mais velho. Teve quem reclamasse da tal sexualidade precoce (namorando aos 12 anos? queima na fogueira!).
A história toda me espanta. Fico surpresa como uma ministra pode falar tamanha asneira. Você pode até concordar que uma garota de 12 anos não deve namorar, especialmente alguém “tão mais velho”. Mas, eu pergunto: a ministra alguma vez foi lá falar com a mãe da Eloá? Oferecer apoio? Conhece os autos do processo? Falou da transformação do cárcere privado em novelinha trágico-romântica nas redes de televisão? Me parece que não (e espero estar errada). Em vez de, como autointitulada feminista, apontar que este é mais um crime do machismo, colocou a culpa na família da vítima. Ela sabe como Eloá era criada? Sabe se faltava apoio familiar? E, quem diz que a menina transava com Lindemberg: você estava lá? Que diferença isso faz no caso?
Depois se entrou na discussão de que o correto seria falarmos em erotização precoce, e não em sexualidade, já que esta é inerente ao ser humano, como demonstrei no último post. Qual é a idade para isso? Quem disse? De onde veio a regra? As coisas mudam. Não só na época em que vivemos. Eu, adolescente nos anos 1990, não queria saber de sexo com 12 anos. Ainda brincava na rua, jogava bola, subia em árvore. Mas tive um namoradinho (opa! ele era da minha idade). Durou um fim de semana e eu nem beijei ele. Eu fui precoce?
Hoje, pra quem nasceu após a virada do século (e que estão fazendo os tais 12 anos), as coisas mudaram muito. São jovens mais bem informados, mais independentes. Não sou socióloga, nem psicóloga, nem antropóloga. Mas… muita gente fala em diminuir a maioridade penal. Chamam de monstros garotos que cometem crimes aos 10, 12 anos. Eles podem matar, mas não podem transar? Sinceramente, não sei a resposta. Não sei resolver essa equação. Se filhos tivesse, ficaria em casa angustiada sempre tentando entender e acertar na educação. Se ministra fosse, escolheria melhor minhas palavras e contaria com os tais sociólogos, antropólogos, psicólogos e toda a sorte de especialistas para me ajudar nisso.
Como sou apenas uma mera blogueira, posto abaixo um texto que já havia feito e entraria no ar apenas amanhã. É a minha experiência pessoal. Como disse, de uma jovem mulher que foi adolescente na década de 1990, isto é, há vinte anos. Uma sociedade muda em duas décadas, lembrem-se disso. Não adianta vocês quererem viver lá no passado.
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O que você faz individualmente, dentro da sua casa, é problema seu. Quer ser rígido e não permitir que os filhos saiam à noite? Ou que fumem? Ou que bebam? Ou que transem?
Ok, isso é uma escolha baseada no jeito que você foi criado, nos próprios medos e inseguranças, na sua religião. O que incomoda na fala da Ministra é que ela falou como agente político, e não como uma “zelosa” (e autoritária) mãe. Eu não terei filhos, mas sou uma cidadã relativamente engajada, pouco alienada e que escrevo sobre sexo. Então, a respeito do tema eu confio no meu próprio bom senso, em autores que estudaram o assunto, em documentários sérios acerca da questão. Mais que tudo: eu lembro do que eu passei e observo muito como nos comportamos socialmente. Além dos incontáveis e-mails, eu pergunto, questiono – faço quase um interrogatório.
E, com tudo isso, eu vejo que de nada adianta proibir. Não porque “o proibido é mais gostoso”. Eu não concordo com isso. Nunca achei “gostoso” encontrar com meu namorado escondida. Odiava. Sentia culpa. Deixava de aproveitar o momento plenamente, como deveria acontecer.
Como já disse algumas vezes, transei pela primeira vez aos 15 anos. Jamais mencionei o assunto com a minha mãe. Eu sabia exatamente o que estava fazendo. Usamos camisinha. Nunca fiquei grávida ou tive qualquer DST. Mas, sinceramente, não posso creditar isso à educação sexual que tive dentro de casa.
Quando alguns artistas começaram a morrer por HIV, como Cazuza e Freddie Mercury, minha mãe comprou uma camisinha e nos mostrou. Explicou o que era a doença e disse como deveríamos nos proteger. Eu era bem nova, sexo nem passava pela minha cabeça.
Menstruei aos 10 anos, transei aos 15 e só fui ao ginecologista aos 17, quando já morava sozinha. Entre minha primeira transa e a minha saída de casa (dois anos mais tarde), minha mãe veio conversar comigo sobre meu namorado. Disse “imagina se você tivesse transado com o primeiro namorado, hoje você estaria sem ele e não seria mais virgem”. Eu ri muito por dentro. Muito. Eu havia de fato transado com o tal primeiro namorado e já havia feito o mesmo com o segundo. Detalhe: ele era virgem.
Só que durante alguns anos eu tive muito medo de que minha mãe descobrisse que eu não tinha mais – olha só que coisa! – um hímen. Eu não podia ir pras festas de carona com meus namorados, pois não podíamos ficar sozinhos. Mas aí ela ia me deixar… e eu fugia das festas. Sozinha com o namorado. Em muitas dessas vezes eu não transei, pois ainda era virgem e não ia transar só porque a oportunidade apareceu. Em outras, eu transei, no carro mesmo, naquela famosa rapidinha.
Durante anos eu rezei para que minha menstruação descesse todo mês. Tinha medo da reação da minha família caso eu engravidasse (engraçado… jamais me incomodei com a parte “social” da coisa). Muito tempo mais tarde, já morando sozinha, tinha de inventar desculpas quando ia sair com algum moço e estava recebendo visitas da família. Era mais fácil mentir do que ter de dizer o que o garoto fazia, o que estudava, há quanto tempo a gente saía e se iríamos namorar. E, na volta, ainda tinha de dizer como o filme tinha sido bom ou a comida (ui) estava gostosa. Tudo inventado, tudo ficcional, pois o máximo que eu poderia dizer é como era a suíte do motel da vez.
Estava conversando com uma amiga há pouco e ela comentou que a mãe dela dizia que a bunda da mulher caía depois da primeira transa. Assim, não adiantava essa minha amiga esconder caso fosse pra cama com alguém. Só pelo formato da bunda a mãe descobriria as peripécias da filha.
Que tipo de educação sexual é essa? Que quer que a gente adie e adie e adie a primeira transa? Pelo que vejo aqui no blog e nas minhas amigas, talvez um ou outro de nós tenhamos adiado um pouco, sim. Mas todos fizemos. E, quando isso aconteceu, o sexo veio carregado de culpa, como se fosse sujo, proibido. Um pecado.
Assim, os primeiros anos de vida sexual da maioria de nós não foi nada feliz. Ok, atingíamos o orgasmo (o que é sempre delícia), mas não era pleno. Era como se tivesse uma vozinha dentro de nós relembrando quão errado era aquele comportamento.
Em vez disso, pais e mães deveriam lidar com o sexo de maneira natural, porque é exatamente isso que ele é. Não estou dizendo que deve ser fácil perceber que o filho, que até ontem era um bebê, hoje já é grande o suficiente para ter vida sexual. Mas, como pai, você deve orientar, e não proibir.