Melhor. A cada ano

Sinto preguiça só de ver pela televisão as multidões em shows. Penso no trampo para chegar e sair do lugar, nos banheiros, nas filas, no aperto, nas pessoas grudadas em mim.

“Nossa, é muita vontade”, resmungo.

De fato. É muita vontade de ver sua banda favorita, de encontrar os amigos, de dançar, de ser feliz. Eu não acho que precisamos passar por desconforto para nada disso – mas infelizmente no Brasil é assim que os grandes shows rolam.

Quando as atrações do Lollapalooza foram anunciadas, eu fiquei tensa. Entre vários motivos, eu achava que não ia aguentar os três dias (nem um só, diga-se de passagem). Como todos sabem, há um ano e meio tive uma crise depressiva que me acompanhou durante meses. No Lolla do ano passado eu estava bem ruim ainda, e interagir socialmente era um suplício.

Poster do Pearl Jam no Lollapalooza Brasil 2013. Por Bradley W. Klausen

Poster do Pearl Jam no Lollapalooza Brasil 2013. Por Bradley W. Klausen. No verso, “we all have the power, deep down within… to raise up our light, it starts with a spin”

Eu não queria sair de casa. Arrumava as desculpas mais estapafúrdias para ficar trancada sozinha no apartamento. Se saísse, começava a me arrepender ainda no elevador. Em 95% das vezes eu não me dava ao trabalho nem de passar um batom. Chegava nos lugares e fechava a cara se algum desconhecido se aproximasse. E estou falando dos amigos dos meus amigos!

Agia assim porque não conseguia fazer diferente. Era tudo tão doloroso, tão difícil, tão cansativo. Voltava pra casa exausta. O cansaço, então, virava uma nova desculpa para não sair da próxima vez em que me convidassem.

Tais atitudes passaram a fazer parte de mim. Sempre fui ranzinza (sempre) e acabei me acostumando a pensar que aquilo tudo (a preguiça, o mau humor, a exaustão, a falta de vontade de conviver socialmente) fizesse parte da minha personalidade. A depressão deixa marcas profundas; e eu confundi a doença com a minha personalidade.

Fui melhorando, como vocês sabem. Saí mais. Claro que ainda tenho preguiça e várias vezes fico em casa quando meus amigos estão no bar. Normal, né? A falta de grana também é um problema sério. Mas antes eu precisava fazer um esforço pra enfrentar o mundo. Hoje acontece naturalmente. Eu quero, eu sinto vontade, eu até preciso sair de casa.

Mas o Lolla ainda parecia demais. Três dias.

Só comprei do último, claro, porque Pearl Jam não se perde. Fui na sexta-feira, dia do The Killers, e fiquei plantada na fila durante duas horas. O tempo foi suficiente para eu considerar mil vezes largar tudo, sair correndo, entrar num ônibus e voltar pra casa.

Fiquei. Pensei: “hoje, não. hoje quem manda aqui sou eu. meus amigos tão lá dentro, Brandon Flowers vai aparecer incrível no palco. Daqui eu não saio”.

Ainda bem. Nas horas e dias seguintes encontrei muita gente amada, gritei, dancei, pulei. Também fiz xixi me equilibrando no banheiro químico e até adotei uma técnica para segurar o hamburguer e o copo de coca cola sem deixar cair uma migalha.

Senti dores: meus pés incharam, o calcanhar parecia em brasas, não conseguia achar jeito para deitar sem que a lombar incomodasse.

Mas vivi intensamente os três dias, interagi socialmente com colegas de faculdade com quem nunca tive intimidade (e meu padrão de comportamento seria ficar com meus amigos de muitos anos), criei novas memórias.

Meu corpo reclamou do cansaço, mas aceitou a felicidade direitinho. Nos dias seguintes ainda tive um compromisso importante que me fez passar hooooooras dentro de um ônibus e uma noite inteira sem dormir. No fim, foram cinco dias muito intensos e movimentados.

Há um ano, eu teria chorado e desistido no meio. Não me daria nem ao trabalho de vender meu ingresso – a fadiga seria demais pra mim.

Hoje, estou quase pronta pra outro festival. Falta o dinheiro, uma gripe chata resolveu me incomodar, mas estou saudável. Falo isso aqui porque sei que muita gente que me lê está neste momento passando por dificuldades parecidas com as minhas de um ano atrás.

Com apoio, auxílio médico e terapia é possível se recuperar e viver feliz. Não é fácil, dá trabalho, de vez em quando rola medo de acontecer tudo de novo. Mas persista no tratamento. E aí, quem sabe, a gente se encontra num desses festivais. :)

***

Por falar em ser feliz, hoje tem exibição tripla de curtas no MIS, aqui em São Paulo.

Conheço um dos curtas, o “Uma Vida Inteira”, de Ricardo Santini e Bel RIbeiro. É baseado em “O Salto”, do Antonio Prata, um dos textos mais incríveis que já li. Pra completar, ainda tem a belíssima, competentíssima e  todos os íssimas bons do mundo Alice Braga.

Vamos lá?

Teaser do curta metragem – UMA VIDA INTEIRA from Bruno Autran on Vimeo.

Não adianta olhar pra fora

depressao 1

Ele começou a ficar estranho. Antes expansivo, passou a falar menos. Deu uma sumida dos eventos sociais. O olhar ficou triste, triste.

Rumores surgiram. “Desde que ele arranjou essa namorada, mudou!”, “Acho que ela não faz bem a ele”. Eu só ouvia. Meio de longe; não era íntima dele, tampouco conhecia a tal namorada.

Muitos meses se passaram. Escrevi sobre minha crise depressiva aqui. Quando ele descobriu que a Letícia era eu, me confessou: naquele período em que todos apostavam num problema externo para justificar seu ar melancólico, ele passava por uma fase depressiva. Foi feio. Ele realmente chegou ao fundo do poço.

Quase ninguém sabe disso. Nossos amigos em comum devem até hoje culpar algo ou alguém, sem nunca terem chegado perto, sem nunca terem perguntado o que estava acontecendo.

Às vezes nem o próprio doente percebe. Com isso, demora tempo demais para procurar ajuda médica, e aceitar o diagnóstico é difícil. Imaginar que algo dentro de você mesmo não funciona direito é aterrorizante. Não há nada que você possa fazer. O problema simplesmente está lá. Dentro.

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, em 2030 a depressão será a doença mais incapacitante do mundo. Pesquisas indicam que 20% das pessoas (isto é, uma a cada cinco) passarão por uma crise depressiva. Muitas delas terão uma única vez: pode ser provocada por luto, término de relacionamento, desemprego.

Elas resolverão esse problema externo e/ou aprenderão a lidar com ele. Pode ser com terapia cognitivo-comportamental, com o desaparecimento do problema, com yoga, com remédios. Cada um sabe qual o melhor método para superar isso.

Outros, como eu, passarão por novas crises. Lembram que eu desconfiei estar entrando numa recaída? Era alarme falso, mas mesmo assim marquei médica. Conversando, ela me disse que 90% das pessoas que tiveram mais de uma crise depressiva continuarão passando por isso. Eu, que escrevo sobre depressão, estudo sobre o assunto e tento ter uma visão otimista sobre a doença, desabei.

Chorei feito boba, repetindo “eu não quero tomar remédio pra sempre” (eu não estou tomando agora). Mesmo conhecedora do meu diagnóstico há anos, ainda não me conformei com a ideia de depender de algo químico… para resolver um problema químico do meu cérebro. É muito difícil.

Então, mesmo que a minha vida estivesse, por fora, toda linda, isso não me faria ficar curada. Digo isso porque vejo muita gente apontando os outros e dizendo: “Quem? A Mariana tem depressão? Mas como? Ela tem um bom emprego, um namorado que a ama, uma família bacana, mora bem, tem um carrão” (e todos os outros padrões de felicidade que  a gente inventou socialmente).

É como se fosse uma cartela de bingo. Se você tiver um determinado pacote, você não pode ter depressão. O resto do mundo não te permite. Mesmo que o seu cérebro aja de maneira absolutamente contrária.

Essas pessoas doentes, então, escondem o que acontece com elas. Têm vergonha de assumir o problema. Evitam ir ao psiquiatra (porque é médico de doido), adiam a terapia (a minha vida está muito boa, pra quê eu preciso de terapeuta?), abandonam os remédios (eu não vou ser escrava de uma pílula).

Em casos mais graves e muito infelizes pra quem fica, a pessoa comete o suicídio. As especulações recomeçam: “mas ela parecia tão bem”, “que história mais esquisita”, ”nem dava para perceber nada”.

Dá pra perceber, sim. Mas não adianta olhar pra fora. Você tem que olhar pra dentro.

(este post faz parte da semana sobre depressão aqui no blog. vai até sábado.)

***

Hoje, às 18h30, eu participarei de um hangout com o pessoal do Meus 5 minutos, da Editora Globo. Fique de olho no Twitter e no Facebook para ver as instruções de como participar. Você já pode fazer perguntas aqui no mural do site no Facebook.

Do you know me?

“Você está estranha. Engraçada, sei lá. Toda elétrica” ela me disse, como se eu estivesse com a cabeça cheia de doce.

“Eu sou assim.”

Lembro da festa de fim de ano da empresa em que trabalhava há dois anos. As pessoas podiam jurar que eu estava bêbada, só porque eu dancei, ri, cantei, fiz piada. Algumas semanas antes estivemos em outra celebração, bem na época em que tomava uns oito remédios ao dia (depressão, menopausa, insulina, etc) e estava com o pé quebrado.

Aloka de tiara de chifres de rena, rindo descontroladamente das caretas das amigas. A única com uma cara mais normal é a @talitaribeiro <3

Aloka de tiara de chifres de rena, rindo descontroladamente das caretas das amigas. A única com uma cara mais normal é a @talitaribeiro <3

Todas essas pessoas – do meu ex-trabalho e, agora, uma amiga – sabem que de fato eu sou ranzinza e reclamona, mas elas também me viram numa fase difícil. Como me conheceram daquele jeito, descendo rabbit hole abaixo, presumiram que eu fosse triste, desanimada, estressada.

Penso em quantas pessoas também me conheceram em fases difíceis, quantos relacionamentos enterrei em tais épocas, tudo porque eu não estava no meu normal. E, apesar de nunca ter escondido minha condição, sei que é difícil realmente compreender o que sinto. Também não deve ser fácil tomar patada em cima de patada, sem descanso, sem sorriso no final (ou antes, também).

Ninguém tem a obrigação de ficar por perto e esperar que as coisas melhorem. Cada um sabe até onde consegue ir; às vezes a pessoa não gosta tanto assim da gente para suportar o mais ou menos longo período até a estabilização. Infelizmente não há como saber quando a crise irá acabar ou quais seus os efeitos colaterais. Algumas pessoas não querem pagar pra ver.

Aí eu mudei de tiara, mudei os amigos, e continuei sem conseguir parar de rir (a sequência dessas fotos é completamente louca, inclusive)

Aí eu mudei de tiara, mudei os amigos, e continuei sem conseguir parar de rir (a sequência dessas fotos é completamente louca, inclusive)

E a gente vai ficando sozinha, porque também temos o direito de não querer por perto quem não entende os períodos nebulosos, quem não tem paciência, quem não segura na sua mão e diz que tudo vai ficar bem.

Porque pode ser que não fique nunca. Pode ser que você desista antes. Pode ser que dure tanto tempo que você simplesmente nunca mais consiga imaginar que vai passar.

Para quem me conheceu ou conviveu comigo entre os últimos meses de 2011 e muitos meses de 2012 (período carinhosamente chamado de “o ano do coma”), eu posso ser vista como uma bruxa, briguenta, dramática, mal humorada, chata pra caralho. Eles não estão errados – foi assim que me mostrei pra eles. Eu não era eu, mas como eles haveriam de saber? O desconhecimento sobre depressão ainda é geral, e nem todo mundo tem interesse em pesquisar o assunto; é mais fácil achar que a pessoa É daquele jeito, e não que ela ESTÁ. E que vai passar.

A boa notícia é que alguns seguraram as pontas. Ficaram por perto apesar de mim mesma. Hoje me olham com surpresa dançando no supermercado, falando rápido ou tendo ideias. Semana passada uma amiga disse “que não dá nem pra comparar” a Nádia de hoje com a de um ano atrás. Não nos aprofundamos no assunto (estávamos ocupadas comendo a fries do Outback – restaurante que, pelo que li nas redes sociais nos últimos dias, é só “pra quem gosta de comida ruim” – risíssimos).

Mas fico feliz de ela ter permanecido, assim como vários outros amigos. Também me entristeço com quem foi embora. Sinto saudade às vezes. Mas me desgastaria demais dizer “ei, eu sou essa aqui, não aquela lá”, como quem clama por atenção. Se não conseguiram me amar quando eu estava no fundo do poço, por que eu os deixaria chegar perto agora que eu estou alive and kicking?

(este post é o primeiro da “semana sobre depressão”, que vai até sábado aqui no blog.)

 

Eu não aceito

Antes de começar o post propriamente dito: pra quem está chegando por agora, sejam bem vindos. Sim, vários posts não estão no ar. Num acesso de sei lá o quê no início do ano eu os coloquei offline.

A ideia era ir repostando alguns, mas minha conhecida procrastinação impediu tal coisa. Quem sabe eu não consigo fazer isso depois de terminar de escrever o livro?

Por enquanto, só está online o que está online aqui e no Cem +1. Uso o Twitter @vidadeleticia, respondo perguntas no ask.fm/vidadeleticia e posto coisas no Facebook também (basta você dar um “like” nessa caixinha na coluna à esquerda). E respondo emails no [email protected]

Divirtam-se!

***

(se bem que o post não é nada divertido.)

***

Anteontem falava sobre transtornos mentais no Twitter. Falava genericamente; há tempos não compartilho nada sobre minha depressão. Não lembro a razão do assunto ter surgido. Talvez eu estivesse vendo Private Practice, justamente o episódio em que Sam é obrigado a internar a irmã bipolar. Sequer lembro o comentário que eu fiz.

Recebo o reply de uma garota com quem nunca havia conversado. “Quem não quer se cuidar tem mais é que se foder, mesmo”, ela disse. Sempre me assusto com esse tipo de afirmação. O primeiro motivo deveria ser óbvio para todos nós, inclusive quem não tem qualquer conhecimento sobre transtornos: desejar o mal de alguém, por qualquer motivo, é cruel e desumano.

Porque eu já fui sacaneada. Bastante. Por gente muito próxima, que teria o dever de, na verdade, cuidar de mim. E por alguns milésimos de segundo até passou pela minha cabeça como seria se essas tais pessoas explodissem pelos ares e não restasse nada, nada, nada, nenhuma única célula desses seres.

São pessoas com quem não quero encontrar nunca mais ou sequer ouvir falar no nome. Você deve ter gente assim na sua vida, também. Mas, além de imaginar esses desaparecimentos de desenho animado, eu jamais desejei o mal dessas pessoas. Quando eu era religiosa e acreditava em alguma justiça da vida, eu até achei que elas se ferrariam eventualmente, mas como forma de “pagarem” pelas maldades que fizeram (gente má não é má só com uma pessoa).

Agora sou muito cínica e sei que não, o mundo não é justo e talvez essas criaturas sejam muito felizes, bem sucedidas, amadas. Mesmo assim, nunca movi um membro para prejudicá-las. E eu não sou boazinha. Segundo os astros, inclusive, sou vingativa-escorpiana.

Então, fico assustadíssima quando alguém diz ao universo “tem mais é que se foder”. Por quê? Por que uma pessoa que você sequer conhece tem que se dar mal? Porque 20% da humanidade MERECE se ferrar? (segundo a Organização Mundial de Saúde, esta é a porcentagem da população que terá algum episódio depressivo ao longo da vida.)

Aí sim entramos numa seara que eu conheço bem. Há alguns meses uma amiga de faculdade me disse, durante conversa no gtalk: “eu também tenho minhas tristezas e aprendi a lidar com elas”.

Falava num tom de superioridade, como se ela, apesar de mais de dez anos mais nova do que eu, fosse muito sábia. Eu também aprendi a lidar com minhas tristezas. Quem me conhece sabe quão difícil é que eu peça ou aceite ajuda. Sou toda ~independente~ e odeio sentir que alguém pode estar odiando me fazer um favor.

Lidei com muita coisa na vida. Coisas ótimas (e nem por isso fáceis de digerir) e coisas péssimas. Lembro de um dos piores dias dos últimos anos: o diagnóstico de menopausa precoce. Eu sabia que ele viria. Eu não esperava que ele ia doer tanto. E eu estava sozinha, assim como peguei meu táxi sozinha depois da consule fui trabalhar. Desabei quando cheguei na redação, mas ok.

Mas houve um momento em que “sozinha” não era mais uma opção. Eu precisei de ajuda, inclusive dessa tal amiga com quem conversei no chat. Eu preciso de ajuda até hoje, quando certos demônios invadem minha mente e me deixam especialmente medrosa e solitária.

Para tentar me entender e compreender um pouco mais da vida de quem, como eu, tem transtornos de ordem mental, comecei a ler “O demônio do meio-dia”, indicado por várias leitoras quando eu assumi meu diagnóstico.

Demorei a começar a ler; o livro é uma porrada no estômago para quem se vê a cada linha (o autor também é depressivo). Andrew Solomon vai analisando fatos históricos e sociais, estatísticas, fala de remédios. O último capítulo que eu li trata de um assunto sobre o qual não falamos: suicídio.

E é assustador. O livro é de 2001, então não sei quão atualizados estão esses dados mas, segundo Solomon, a cada 17 minutos alguém comete suicídio nos Estados Unidos. É a segunda maior causa de morte entre estudantes universitários naquele país.

É real.

Não é “não saber lidar com as próprias tristezas”. É uma dor que não passa. Depressão hoje é tratável, não curável. Você não diria para um paciente de câncer “que ele tem mais é que se foder mesmo”. Por qual razão se aceita que digam isso para quem tem transtornos mentais?

Eu não aceito.

Agrediu? Não diga que foi piada. Cresça

Existe um moço muitíssimo importante na minha vida que já me aturou muito. Eu também já tive de lidar com muita bobagem dele. Ano passado tive uma madrugada horrenda durante minha crise depressiva e ele ficou horas comigo ao telefone tentando me acalmar (ele não mora aqui).

Sequer lembro direito o que conversamos, mas sei que ele moveu mundos e fundos pra alguém “me salvar”. Bom, salvou.

Até que essa semana eu tive uma recaída bem fodidinha. Foram três dias toda cagada, sem querer levantar da cama ou resolver qualquer coisa. Tomei dois banhos só. Me alimentei de pizza, pipoca, coca cola e brownie. Tive taquicardia, crise de choro e toda a merda que vem junto com uma crise.

E fiz drama. Ah, como fiz drama.

Este moço, por estar próximo demais de mim (ainda que virtualmente), teve de aturar. “Você não me ama”, “você vai me abandonar como todo mundo”, “você nunca vem pra São Paulo pra me ver”. Resmunguei demais.

Ele, sem paciência, disse que eu tinha que parar de “parecer depressiva”.

Para o mundo.

PARECER depressiva?

Que porra é essa?

Eu sou depressiva e nunca escondi isso de ninguém, especialmente dele. Pelo contrário, aliás: a gente se reaproximou justamente quando ele leu aqui no blog que eu estava mal.

Fiquei irada.

Reclamei no Twitter algo como “a próxima pessoa que disser que ‘pareço depressiva’ vai tomar um soco na cara”. Completei dizendo que eu não era “bipolar de Twitter”, como muita gente por aí se vangloria, sem saber quão horrível é ter um transtorno do tipo.

Eis que imediatamente recebo um reply de uma garota que jamais havia interagido antes:

“parece depressiva”

Hã? Eu demorei a entender um pouco o que estava acontecendo. Podia ser um desses haters imbecis que querem qualquer motivo mínimo para zoarem os outros, mas não. Era gente-como-a-gente. Ou não, porque eu jamais faria isso.

Respondi:

“A sua sorte é que você está longe e não vai tomar o soco prometido.”

Ela não se satisfez e copiou duas seguidoras minhas reclamando que eu queria bater nela virtualmente, e ainda disse “pessoa com depressão não tem vontade de bater em outras! brinks.”. Eu a bloqueei e deixei pra lá. Como as meninas (por quem nutro muita estima) foram interpelá-la pela ~brincadeira~ sem graça, a moça respondeu:

“ai, gente, sério? eu não vou ficar pedindo desculpa e de mimimi pq alguem se ofendeu c/isso.”

Depois se vangloriou:

“vou te confessar, fiquei excitada com a minha primeira treta no twitter! \o/ demorou taaaanto. e o melhor: foi sem querer!”

Já tem um tempo que eu não levo mais as agressões pro lado pessoal, como fazia outrora. Eu sinceramente não penso que é comigo, Letícia. Talvez seja um jeito de me preservar, talvez seja porque eu tenho taaaaaaaaanto a resolver na minha vida pessoal e com meus amigos e familiares que não faz sentido me importar com o que desconhecidos falam de mim.

Porém, eu não consigo ficar totalmente alheia porque sei que gente que faz isso comigo também age assim com todo mundo. E eu recebo diariamente e-mails e comentários de pessoas que sofreram bullying. Na família, na escola, do namorado, de desconhecidos.

E eu posso imaginar quanto essas coisas machucam e prejudicam o pleno desenvolvimento da autoestima. Mas o comportamento dessa moça mostra como certas mentes são apenas desequilibradas. Elas querem que você se sinta mal. Elas se gabam de fazer o mal.

Eu não estou dizendo que não devemos menosprezar as críticas que nos fazem. Às vezes elas nos fazem perceber atos que nem nos tocamos de quão prejudiciais são. Mas o meu conselho é que levemos a sério os conselhos recebidos por quem nos quer bem, que nos pega pela mão com delicadeza e tenta nos ajudar a superar algum defeito que porventura tenhamos.

De resto, trata-se apenas de perversão. Esqueça a ideia “sexual” que lhe vêm à cabeça ao pensar no termo. Já conversei com a minha psicanalista a respeito, mas basta uma rápida lida na wikipedia:

Os perversos sugam recursos e energias de outras pessoas para se manter existindo

Um perverso procura estabelecer relações mais intimas com aqueles que se assemelham com ele ou por quem ele tem inveja.

Cuidado com quem você se relaciona. Cuidado com quem você deixa chegar perto. Alguns só querem te apunhalar. Too bad for them que daqui eles não se aproximam mais.

“Sou bipolar, que legal!”

As pessoas falam muito de que todo mundo está sendo diagnosticado com algum problema de ordem mental. Esbravejam. Dizem que é um absurdo, “onde nós vamos parar”, “será mesmo que precisamos tanto de remédios”.

Eu não sou médica, não tenho estatísticas em mãos. Tudo o que sei é a partir da minha própria experiência e da observação. Evidente que tenho interesse pelo tema e também leio tudo o que cai na minha mão a respeito.

Não sei se todos nós um dia vamos ser diagnosticados com um distúrbio do tipo. O que sei é que iremos passar por momentos difíceis, como a perda de um ente querido ou dificuldades que nos deixam insones. Então, qual o problema de temporariamente se tomar um remédio que nos faça sentir melhor? Se você tiver uma doença diagnosticável por exames de sangue ou raio X, você não vai se medicar?

Então, o que vejo é as pessoas esbravejando contra algo que elas desconhecem. Um médico sério não vai sair passando remédio para quem não precisa. Eu, por exemplo, tenho imensa dificuldade de dormir. Imensa. Não importa a fase da minha vida, não importa a que horas acordei, não importa se trabalhei pra caramba o dia inteiro. Simplesmente não pego no sono. E, depois que finalmente durmo, acordo o tempo todo.

Fiz exames. Passei uma noite com eletrodos no meu corpo inteiro no Instituto do Sono para tentar identificar o motivo. Uma amiga, por exemplo, descobriu durante esse exame que tem “síndrome das pernas inquietas”. Ela movimenta os membros inferiores involuntariamente durante o sono – e isso faz com que ela acorde diversas vezes e fique exausta no dia seguinte.

Meu pai também já fez esse exame. Ele tinha mais de 50 anos de idade quando um médico notou a necessidade de ele se submeter à polissonografia. Descobriu-se que ele tem apneia do sono, que é quando a pessoa para de respirar enquanto dorme. Pela falta de oxigenação no cérebro, há quem morra por causa desse problema.

No meu caso, não há questão física nenhuma para que eu não durma direito. Mesmo assim, enquanto pessoas saudáveis passam entre 20 e 25% da noite na fase REM (a mais profunda, quando a gente sonha), eu fico apenas 5%. Com remédio. Isto é, meu sono é uma merda completa. Eu não tenho apneia, apesar de um desvio nasal. Eu não mexo as pernas. Nada. Não é possível saber fisicamente por qual razão eu passo muito mais tempo na fase de vigília do que na fase profunda do sono.

Daí voltamos aos médicos sérios. Tive duas psiquiatras na vida (fui em mais dois, mas não gostei e fugi). Ambas começaram o tratamento me passando remédio para dormir, tarja preta e etc. Alprazolam, vulgo Frontal. Uma caixa de 30 comprimidos de 1mg custa em torno de 40 reais. Quer dizer: uma noite de sono profundo por pouco mais de 1 real ao dia.

Só que o alprazolam vicia.

As duas médicas suspenderam o remédio quando completei três meses de uso. Não me deram outra receita. Passamos então para um indutor de sono, que faz com que eu pelo menos comece a dormir. Hoje tomo Zolpidem. Em uma das últimas consultas, reclamei que nem sempre o indutor me fazia dormir. Ela me receitou outra caixa de Frontal, mas já avisou que não vai passar de novo.

Evito ao máximo tomá-lo. Comprei a caixa nova há duas semanas e só abri ontem, quando não conseguia dormir de jeito nenhum. Depois do Frontal consegui pegar no sono. Acordei 10 horas depois, com uma ressaca horrível. É: remédio para dormir (os “de verdade”) pode dar ressaca. Você passa o dia inteiro meio zoado, e não raro precisa dormir de novo à tarde. É um dia perdido.

Eu ODEIO ter de tomar Frontal pra dormir. Eu ODEIO tomar Rivotril quando o calo aperta. Eu ODEIO ter de gastar 130 reais com Cymbalta todo mês. Eu ODEIO ter de observar cada tristezinha pra saber se não é a merda da depressão chegando perto de novo.

É uma vida de merda. Eu garanto a vocês.

Eu me divirto? Sim, claro. Danço, sorrio, produzo, escrevo, saio com os amigos. Faço tudo “normal”, mas sempre estou de olho a tudo – desde a minha falta de vontade de arrumar a casa até há quantas noites não durmo direito.

Tenho de constantemente ficar observando os possíveis sintomas de uma nova crise. E, ao pensar que talvez ela esteja voltando, entro em desespero. Porque eu não quero sentir aquilo tudo de novo. Nunca mais.

Essa introdução gigantesca é só para falar mal de quem se diz “bipolar, depressivo, borderline” para fazer gracinha. Colocam na bio do Twitter. Eu levantei a hipótese de ser bipolar com a minha médica, pois eu fui da merda completa para o florescimento de ideias e risos soltos. Tive medo de que estivesse passando pela fase de “euforia”. Ela me explicou direitinho como é a fase eufórica de um bipolar, e definitivamente eu não me enquadrava. O que eu estava passando é pela fase “normal” da Letícia. Eu tenho ideias. Eu sorrio. Eu produzo. Eu sou essa pessoa – com fases soturnas da depressão (que, mais uma vez, espero que nunca mais volte).

Esse povo que se diz bipolar quer, na verdade, justificar sua falta de tato ao lidar com o mundo. Oscilações de humor são normais no nosso cotidiano. Acordamos putos, porque queríamos ficar mais tempo na cama. Ficamos felizes porque, ao chegarmos no trabalho, conseguimos algo que há tempos esperávamos. Almoçamos com amigos, e daí ficamos mais felizes ainda. Só que à tarde recebemos um telefonema contando algo bem ruim. Ou então, na volta pra casa, pegamos duas horas de engarrafamento. Quem não oscilaria de humor? Bipolaridade não é oscilação de humor, é um distúrbio que deve ser tratado.

Não justifiquem suas grosserias com bipolaridade ou coisa do tipo. Quando eu estava em crise depressiva eu não era agressiva, por exemplo. Eu não conseguia nem reagir a qualquer agressão que me fizessem. Era como se eu estivesse numa situação de quase-morte (cada pessoa reage de um jeito, claro).

Fazer piada com bipolaridade ou qualquer outro distúrbio mental é cruel com quem de fato sofre com essas doenças. Assim, quando um de nós diz ao mundo pelo quê está passando (e é difícil, juro!), não é levado a sério. Acham que é frescura, que é brincadeira, que somos mais um que coloca esse tipo de informação na bio do Twitter.

Se informem mais. Se você realmente é bipolar, depressivo ou tem outro distúrbio qualquer, há médicos extremamente competentes que podem te ajudar. Se não é, pare de tentar justificar seus comportamentos antissociais com uma doença. Distúrbios mentais, felizmente, podem ser controlados e medicados. Babaquice e preconceito, não.

PS: já vi que tem um montão de erros no texto, mais do que o comum. Tava muito puta e escrevi sem reler. E continuo puta e não vou ajeitar agora. Só daqui a pouco. Tchau!

Como ajudar um familiar depressivo

Desde que comecei a falar sobre minha crise recebi diversos emails e comentários de familiares de depressivos. Alguns relatos foram bem pesados, de gente que está há muitos anos tentando segurar as pontas, mas se sente preso à vida do doente. Tem gente que gasta muito com remédios e acha que com esse dinheiro poderia cuidar de si mesmo. Outros sentem raiva das repetidas vezes que tiveram de largar tudo o que estavam fazendo para checar se o familiar estava bem.

Não deve ser fácil, mesmo. E eu espero sinceramente que não seja este o meu caso – que eu conviva “bem” com esta doença, mas sem passar a depender de alguém.

A primeira coisa que o familiar de um depressivo precisa ter é compreensão. A segunda, paciência. Certos leitores já perderam esta última depois de séculos convivendo com a doença.

Primeira pergunta: a pessoa está há milhões de anos com o mesmo psiquiatra? Será que não está na hora de trocá-lo? Eu já fui a quatro psiquiatras. O primeiro era muito simpático, bacana, mas eu não tinha realmente nenhum grande problema. Estava com sintomas de stress, ele passou uma sertralina para eu acalmar a ansiedade. Não pediu nenhum exame. Acreditou em tudo o que eu disse e não fez muitas perguntas.

Na segunda tentativa achei o cara deveras esquisito, quase rude. Ele repetiu a receita do primeiro e indicou umas sessões de acupuntura. Fiz uma só e nunca mais voltei lá (não por causa das agulhas, mas porque não gostei do médico mesmo).

A terceira me tratou por mais tempo. Eu de fato estava com problemas de saúde sérios, com desníveis bizarros de hormônios e outros problemas. Ela é daquele tipo de médico que te explica tudo com muita calma, faz desenhos mostrando como as coisas funcionam no seu corpo, mostra uma tabela de quando os remédios irão funcionar a pleno vapor.

Com ela, descobri até um problema no nariz que requer uma pequena cirurgia. Fiz mil exames, de simples hemograma até polissonografia. Parece exagero? Pois não é: a pessoa que dorme mal não descansa – e, falando de maneira bem simplista, quem não descansa tem stress e stress desencadeia a depressão. Ela pode não dormir uma noite inteira porque tem apneia do sono (ela desperta várias vezes durante a noite) ou síndrome das pernas inquietas, por exemplo. Ou, como eu, ela pode não ter o diagnóstico preciso.

A psiquiatra em que estou indo agora tem um método de trabalho bem diferente. Não me pediu exames. Como é psicanalista também, a gente conversa muito – e ela me força a relembrar e questionar comportamentos.

Fui em quatro psiquiatras e todos eles trabalham de forma diversa. Não gostei de dois. Então, se o seu familiar (ou você mesmo) está há muito tempo com o mesmo médico, que tal buscar uma nova opinião, um novo olhar?

Outra queixa é dos leitores é que o depressivo se recusa a fazer tratamento psicológico. Toma remédios, mas não faz terapia. Alguns desses remédios viciam. O Rivotril, por exemplo, tem esse efeito. Como é muito barato (menos de 5 reais a caixinha do sublingual) é pior ainda: a gente sabe que comprar um montão não vai fazer um rombo no nosso orçamento. Além do vício químico, há ainda o efeito psicológico, a tal “bengala”.

Eu tomo um giga cuidado com isso. Evito ao máximo usar o Rivo e, se tenho sono, tento dormir primeiro sem o Frontal. Ao não conseguir, aí sim parto para o remédio. Mas eu tomo esses trecos há dois anos e com intervalos. E se eu estivesse tomando há vinte? Seria fácil fazer essa escolha?

Não adianta esconder remédio ou berrar pro depressivo que ele deve largar as pílulas. Só um médico pode indicar a forma de trocar o medicamento ou diminuir a dosagem. Mais uma vez: que tal uma segunda opinião?

Além da medicina tradicional, há outros meios que ajudam muito no processo terapêutico. Não são a minha cara, mas certamente servem para muitas pessoas. É o caso da yoga, por exemplo. Sentir-se útil, como num trabalho voluntário, também pode ser uma boa. O importante é não dizer “estamos indo nesse lugar porque vai te ajudar na depressão”. Não. Acompanhe como se fosse uma grande e nova ideia, até que a pessoa mesmo sinta prazer naquilo e siga seu próprio caminho sozinha.

Eu não tenho muito como dizer que “vai passar”. Você abandonaria sua mãe/pai/irmão se ele estivesse tetraplégico? Deixaria ele fazendo cocô nas calças e sem se alimentar? Não, né? Você estaria vendo a necessidade – e aí entramos naquela velha historinha de que o depressivo é assim porque quer. Se ele consegue se levantar e tomar banho, como assim do nada ele tem essa crise de choro? É, pois é. A gente também não gosta disso. Eu garanto.

A quem interessar possa

Ontem eu tive uma recaída. A primeira do ano. Começou com a velha conhecida crise de choro, passou para a crise de choro incontrolável, culminou com ela, a temida vontade de morrer.

Ela nunca mais tinha aparecido. Foram 36 dias sem dar as caras por aqui. Não que o contrário seja ter “vontade de viver”. Isso aí eu já nem lembro qual a última vez que senti. Pode não parecer, mas eu estou apenas sobrevivendo. Escrevo, vejo filmes, leio livros, saio de vez em quando. Mas não consigo achar graça em nenhuma dessas atividades. A paixão pela vida, que me acompanhou desde sempre, sumiu.

Só que agora, que eu “pareço melhor” (isto é, estou tomando banho todo dia, pintei o cabelo e voltei a responder e-mails), algumas pessoas reapareceram. As mesmas pessoas que eram muito próximas antes da crise depressiva e sumiram quando eu precisei de ajuda.

Ontem fui à análise e comentei sobre esse curioso fenômeno, e como isso me deixava possessa. Expliquei: eu não peço ajuda, nunca. Exceto aqueles pequenos favores do cotidiano, tipo “tira xerox desse texto pra mim também?”, eu não peço nada. Nada. Em 16 anos morando sozinha, aprendi que eu tenho de resolver as coisas. Lido com tudo. Sozinha.

Mas eu precisei de ajuda. Eu sinalizei isso. Eu verbalizei isso. Eu esperneei. Eu mandei SMS, e-mail, escrevi no blog, floodei o twitter. Eu pedi. E nem era uma grande ajuda. Às vezes eu só queria um abraço. Um. Que durasse bastante tempo. Mas um. Um só. Outras noites (pior momento do dia para um depressivo) eu desejei ter alguém dormindo ao meu lado.

Não eram necessários grandes gestos. Jamais imaginei que alguém pudesse parar a própria vida para ficar de babá. Sou muito, muito grata ao apoio que recebi aqui no blog – desde e-mails até uma rosa recebida durante um almoço. Eu estava chata, muito chata, com eterna cara de choro, roupas descoordenadas e sem conseguir sorrir. Ainda assim alguns de vocês tentaram me colocar pra cima.

E quem estava “próximo” não o fez.

Nesta semana tive de ouvir, cara a cara, da pessoa que eu confiava acima de tudo, que ela não me devia um pedido de desculpa. Ela não acha que errou ao me abandonar. Sim, a palavra é essa: abandono. Porque quando você deixa sozinha uma pessoa doente, sozinha e com ideação suicida, sim, você a está abandonando.

Ontem outra pessoa veio me dizer que eu estava agindo de maneira agressiva. O que ela esperava? Que eu entregasse um buquê de flores em agradecimento pelo – mais uma vez – abandono? “Eu tentei chegar perto, você me afastou”, respondeu. Hum, talvez ela tenha esquecido das vezes que eu fiz um imenso esforço, decidi sair, mas ela estava ocupada pois ia pra uma festa “com a galera da redação” (ah, ela não me convidou).

As coisas foram muito piores do que eu relatei aqui. Foram dores tão imensas que eu não conseguiria transformar em palavras. O abandono veio até de pessoas que tinham um certo dever moral de me ajudar. E eu fiquei sozinha, completamente sozinha.

Claro que existem alguns anjos da guarda, que me aturam, se preocupam, ligam pra saber se estou bem. Curiosa e infelizmente nenhum mora em São Paulo. Quanto ao resto, eu ontem experimentei um novo sentimento que ainda não havia desenvolvido: eu tenho ódio de vocês.

Ódio.

Ódio. Muito ódio.

Até agora eu tentei fazer a “compreensiva”. Vendo meus próprios erros, eu pensei que talvez essas pessoas não tiveram condições de me ajudar. Sei lá, traumas internos, histórias mal resolvidas. Só que daí eu lembro quando eu, fodida e no auge da minha crise, me preocupei quando li que um certo senhor estava se alimentando mal. Liguei até para uma pessoa que desprezo – mas que é amigo do dito cujo – para pedir que “ficasse de olho”.

Eu, que me arrastava, me preocupei com os outros. E não sou Madre Teresa de Calcutá, não. Inclusive erro pra cacete e posso ser bem escrota. Mas eu jamais deixarei alguém que eu amo na mão.

Mas eu tentei entender. Até compreendo essa coisa de “não saber o que fazer” no início de tudo. De não saber como ajudar, de se assustar ao ver uma “pessoa tão forte” cracking under pressure. Mas tem três meses. Três fucking meses. E ontem eu pedi ajuda. De novo. E fui ignorada. De novo. Revivi o abandono all over again. Por que eu insisti numa pessoa que já havia me mostrado não ser companheira? Porque depois da conversa mais profunda que eu já tive na minha vida, em que me desnudei inteira, eu achei que ela havia entendido. E eu dei outra chance. E quebrei a cara de novo.

E o que eu senti foi muito ódio. Muito. Sei que a vida não é justa e coisas boas acontecem a pessoas ruins e coisas péssimas acontecem a pessoas muito bacanas. Não acho que algum dia essas pessoas irão pagar na mesma moeda. Ontem eu desejei que sim, é claro. Depois da consulta na psicanalista, eu vi que mesmo depois de tudo eu seria capaz de ajudar essas mesmas pessoas, em nome de um amor que já senti.

Eu espero que elas não precisem, porém. Espero que elas não cruzem meu caminho. Talvez elas tenham acordado em mim um lado que eu não sabia que tinha; talvez eu mesma resolva dar uma rasteira nelas que a vida não deu. Eu não quero ser essa pessoa. Mas eu também não queria ser essa mulher que hoje tem medo da aproximação de qualquer um. Porque agora eu acho que é inútil começar uma nova amizade. Uma luzinha pisca no meu cérebro dizendo “ela vai te abandonar também”.

Então, eu vos odeio. Odeio por terem me abandonado, odeio por me deixarem medrosa, coisa que nunca fui. Odeio. Odeio. E odeio mais ainda.

If I ever feel better

Hoje fui à terceira consulta com a psiquiatra desde o início da minha crise. Devo logo dizer que a minha médica é a melhor do mundo – ela elogiou meu batom vermelho e disse que eu pareço uma mulher diferente a cada vez que vou lá. Isso deve ser bom, né? Ou pode ser uma ligeira esquizofrenia, também. :P

A consulta foi de rotina, mas eu estava ansiosa para ir lá porque não estava me dando bem com o segundo remédio, o Lexapro. Assim como meu amigo @FissRod, eu tive como efeito colateral um ligeiro aumento de peso e a diminuição completa da minha libido. Como a médica sabe que eu sou a Letícia, ela fez uma cara de :( quando eu disse pra ela que não tinha vontade de fazer sexo.

Sim, os antidepressivos podem ter esse efeito colateral. Alguns leitores já se queixaram disso; um dos “meus homens” do ano passado reclamava de demorar demais a gozar por causa da sertralina (muito conhecida por Zoloft). Por isso é importante ir sempre ao médico, acertar a dosagem, trocar o remédio quando necessário. E não dar uma de mané como eu no ano passado – parei por minha conta e meses depois me fodi.

Então, a boa notícia é que eu estou melhor. Tomando banho todo dia, produzindo, escrevendo, saindo com os cachorros, arrumando a casa. Ainda estou com uma certa dificuldade de lidar com alguns problemas; aconteceram coisas no finalzinho do ano que só muitos anos de terapia vão me ajudar.

E, vendo meu estado, a psiquiatra me recomendou, justamente, começar a terapia. Eu gostaria de fazer análise com ela, mas as consultas custam R$ 300 e né, eu não tenho emprego. Então vou aproveitar o parco reembolso do plano de saúde e vou tentar com uma psicóloga de confiança da minha médica.

É exatamente aqui que quero chegar desde o início deste post. Eu de fato tenho algumas questões físicas para desencadear o episódio depressivo, mas também tenho questões que acabam desencadeando/piorando/cagando tudo. Muita coisa eu resolvi sozinha, nas minhas muitas horas de deliciosa solidão. Eu não paro de pensar um único segundo, chega a ser insuportável.

Mas com o apoio de alguém realmente capacitado a te fazer ir além, a coisa flui mais rápido. Hoje a psiquiatra (que também é psicanalista) me fez algumas perguntas e eu soube responder exatamente por qual razão eu ajo de terminada maneira (sei que essa frase ficou sem sentido, mas paciência). Só que, apesar de conseguir identificar o problema do meu passado que me faz agir assim, eu não consigo parar de fazer tudo errado. Eu sei que estou fazendo, percebo tudo, e vou lá e erro do mesmo jeito. Over and over and over again.

Não é algo que atrapalhe os outros ou faça mal aos meus relacionamentos. Só faz mal a mim mesma. Sempre penso nisso quando observo a vida alheia. Vocês me mandam e-mail contando vários causos; vejo como meus amigos se comportam. Se são agressivos, se são fechados além da conta, se têm carência exacerbada.

E, conhecendo essas pessoas, consigo identificar o motivo pelo qual elas agem de determinada maneira – e como isso complica demais a vida da gente.

Por tudo isso, o que eu quero dizer é que sim, nós podemos melhorar. Eu estou muito, muito melhor da depressão. Estou medicada, claro, e não vou dar mole (ui) dessa vez. Talvez eu nunca me livre dos remédios. Tenho insônia há zilhões de anos, por exemplo. Mas estou me cuidando.

Uma forma de talvez evitar isso é fazer uma terapia. Os planos de saúde cobrem atendimento psicológico. Se o seu diz o contrário, não acredite e entre em contato com a Agência Nacional de Saúde (ANS). Um luto mal curado, um pé na bunda inesperado, um pai ausente, um trabalho que nos sufoca: tudo isso pode nos deixar mal e pra baixo. Talvez um dia coisas lá do passado voltem para nos assombrar. Seremos melhores namorados, amigos, cidadãos e pais se a gente se cuidar um pouco mais.

O que eu aprendi com a depressão

Antes da minha primeira crise, em 2010, eu não sabia o que era a depressão. Quero dizer, entendia como quase todo mundo, com conhecimentos advindos de reportagens bem superficiais. Talvez eu fosse um pouquinho menos preconceituosa, pois jamais achei que fosse “frescura”. Ponto pra mim. Ponto este que, aliás, não vale de nada porque eu não tinha a menor ideia da dimensão que isso toma na vida de quem tem a doença.

Eu demorei a entender meu estado depressivo. E, olhando pra trás, o episódio do ano passado me parece bem mais leve do que o de 2011. Talvez seja porque agora eu estou no olho do furacão, e as coisas parecem muito maiores e mais graves quando a gente as está vivendo.

Só que ano passado eu estava trabalhando e tinha uma “justificativa” para a minha condição. Eu efetivamente estava doente e algumas oscilações de humor poderiam ser explicadas pelos desníveis hormonais.

Mesmo assim, eu tive a tal vontade de morrer, experimentei a prostração absoluta, tive a quase palpável certeza de que eu não iria melhorar nunca. Mas, recorrendo aos clichês, se a vida de ter limões… Eu comecei, então, a repensar minha vida. E mudei. Mudei MUITO. Fisicamente eu continuei igual: mesmos cortes e cor do cabelo, não engordei ou emagreci, nem mesmo a armação dos óculos eu troquei.

Por dentro, porém, vivi uma revolução. Parte dela vocês acompanharam aqui no blog. Eu me livrei de preconceitos. Sempre fui super careta, por exemplo. Não bebo e não fumo. Mas durante as minhas crises eu quis muito ser uma bêbada – e beber, beber, beber até cair. E esquecer um pouco daquela dor e daquela angústia que eu não sabia de onde vinham.

Também julgava demais as atitudes de algumas pessoas. Não sob o ponto de vista sexual (somehow eu sempre fui cabeça aberta em relação a isso), mas tinha imensa dificuldade de entender porque as pessoas são como são. Comecei a tentar entender melhor como tudo isso funciona.

Só que eu melhorei. Melhorei e me senti invencível. Achei que era um período negro da minha vida, do qual eu sempre lembraria mas ficaria no passado. Parei de tomar remédios, parei de questionar, nunca sequer comecei a terapia.

Até que eu senti a angústia chegando perto. Olhava para a minha casa e via uma bagunça inacreditável até para os meus padrões. Meu carro quebrou e eu não consertei. Parei de pagar contas. Passava muitas horas olhando para o nada.

Tudo era sinal de que ela estava com saudade de mim e iria voltar.

Tentei marcar a psiquiatra, não consegui. Achei que ia segurar a barra, que dava para esperar mais um pouquinho. Enquanto isso, tudo ia degringolando na minha vida: problemas de trabalho, problemas de saúde, problemas em família. A única coisa boa era o meu namoro. Coisa boa, aliás, que eu fazia questão de transformar numa bela merda.

E, quando se transformou, vocês sabem bem o que aconteceu.

Vivi o período mais sombrio dessas três décadas. E, olha, eu já tive alguns lutos e outros problemas gravíssimos. Como agora, porém, não há nada que se compare. Eu não conseguia enxergar a saída. Eu não desejava nada além de morrer. Não queria tomar banho, nem ver televisão, nem brincar com o cachorro, nem mesmo me alimentar. Nada. Só morrer.

Queria que isso acontecesse como num passe de mágica. Nunca cheguei a tentar qualquer coisa. Sim, eu imaginei como seria tomar aquele montão de Pristiq, Frontal, Rivotril e Donaren (sobrou da crise do ano passado). Seria indolor? Eu dormiria e pronto? Sim, eu olhei para a faixa seletiva da Rebouças e pensei em casualmente cair ali quando um daqueles monstruosos ônibus de quinhentos metros estivesse chegando. Mas ia doer. Considerei me jogar de um prédio bem alto, mas quando penso nisso sempre lembro da mulher que se suicidou na Nossa Senhora de Copacabana, quase esquina com a Barão de Ipanema, e acertou uma pedestre. As duas morreram. Não queria ser a responsável por uma coisa dessas.

Se eu me incomodava com um estranho, imagine com a minha família. Eu sei como é receber o corpo de quem se ama num caixão de chumbo. Eu sei quão devastadora é a morte de um jovem numa família. Eu sei como isso gera um temor quase irracional de que algo vai acontecer a qualquer momento. Eu sei como isso torna qualquer toque de telefone em horário estapafúrdio em um problema gravíssimo. Sei como nossos corações disparam nesse momento.

Você daria a sua vida para salvar quem você ama? Foi exatamente isso que eu fiz. Eu resolvi viver porque não poderia condenar duas ou três pessoas a uma existência miserável. Prefiro eu mesma seguir com as minhas dores.

E eu detesto essa ideia cristã de que nós aprendemos com os erros, como se estivéssemos, com o sofrimento, expiando algum pecado. Mas já que estamos aqui no fundo do poço, melhor começar a subir. Para isso, comecei a repensar toda a minha vida. Toda. Absolutamente tudo.

A primeira coisa que eu precisei entender é que eu sou depressiva. Talvez eu nunca mais tenha nenhuma crise (tomara), mas eu sempre terei de observar cada tropeço. É só tristeza/preguiça, ou é a maldita chegando perto de novo?

Também resolvi mergulhar de cabeça na terapia. Estou viajando, mas assim que voltar para São Paulo eu irei procurar onde fazer. Gostaria de fazer análise com a minha psiquiatra, mas cada sessão custa R$ 250, o plano de saúde só reembolsa R$ 100 e eu não tenho emprego. Posso dizer, porém, que com apenas UMA sessão (na verdade, o retorno da consulta que tive durante a crise) eu consegui entender alguns comportamentos destrutivos meus e comecei a mudar atitudes arraigadas.

Se antes eu julgava, agora me controlo para não fazê-lo. É CLARO que eu ainda não consegui me livrar disso. São décadas agindo da mesma forma. Mas eu passei a considerar com mais cuidado os problemas alheios. Mesmo pessoas mais “fortes” são passíveis de envergar – e, numa tentativa desesperada de não quebrar, podem errar e nos machucar. A gente não sabe o que está acontecendo com ela (para algumas pessoas, por exemplo, eu estava sendo apenas estranha/antissocial, quando na verdade eu estava pensando em suicídio), a gente não sabe qual é a bagagem dela, a gente não sabe quais dores ela traz no peito.

E, tendo consciência disso, eu aprendi a perdoar (falarei sobre isso em outro post no futuro. ou não). Curiosamente não estou me referindo àquele perdão que as religiões insistem em nos empurrar goela abaixo. Estou falando de um perdão genuíno, sem esperar um ticket para o paraíso. Eu realmente consigo perdoar sem esperar uma contrapartida, simplesmente porque entendi, a duras penas, que nós erramos. Que nós somos todos meio “broken”, e que não adianta apontar o dedo na cara do outro. Claro que eu não virei Madre Teresa de Calcutá. Talvez eu perdoe uma pessoa aqui e outra acolá, mas não as queira por perto. Talvez porque elas precisam primeiro “se consertar” antes de conseguirmos ter uma relação novamente. Sim, porque eu também sou “broken”, e não mereço tomar algumas porradas que elas me deram repetidamente.

Dessa vez, eu estou tentando mudar. Inclusive fisicamente. Vai ser difícil demais, mas eu não quero mais passar por coisa parecida. Quero resolver minhas questões, quero me tornar uma pessoa melhor. E não pro mundo, mas sim para mim mesma. Não há como você se doar se você não for completa, porque se não a gente sempre fica esperando algum tipo de recompensa.

A grande lição que a depressão me deixa neste ano (e este post todo poderia se resumir somente a este parágrafo) é que a gente não tem controle sobre nada. Num dia eu estava fazendo juras de amor e comemorando a entrega do meu projeto final na faculdade. Quarenta e oito horas depois eu estava chorando e querendo que meu prédio desabasse. A depressão é assim. Num dia você está radiante (não estou falando de euforia, mas da alegria normal do cotidiano), no outro você acorda com um peso no peito que torna o simples levantar da cama um trabalho hercúleo.

O que eu aprendi é que sempre, sempre, sempre pode ser pior. Por isso, quando for melhor, que seja incrível, fantástico, intenso, inesquecível. É isso que eu desejo para mim mesma (e pra vocês) em 2012 e pro resto da minha vida. Que eu possa reconhecer esses momentos gloriosos, para que tenha força para não sucumbir às tristezas que virão, isso é certo.

Que eu simplesmente faça valer a pena. Feliz 2012.