Quando se fala em “cultura do estupro” muita gente torce o nariz. Dizem que isso é conversa de feminazi, que ninguém apoia tal crime, que as coisas não são tão graves como pintamos.
Bem que eu gostaria que tudo isso fosse coisa das nossas cabeças. Sobre não apoiar o estupro, vocês têm certeza que não o fazem? Quantas vezes você já falou/leu/ouviu um “vai virar mulherzinha na cadeia”, achando que é razoável um criminoso – não importa o potencial ofensivo do crime cometido – ser punido com estupro?
Culpar a vítima é também uma forma de diminuir a gravidade da lesão. “Quem mandou ela estar ali”, “não devia ter enchido a cara”, “ela provocou”, “eu conheço o cara, ele não faria isso”.
Infelizmente tais comentários não ocorrem só aqui no Brasil. Com as eleições americanas, alguns candidatos falaram absurdos a respeito do tema. Sei que tem gente achando que isso não nos diz respeito; pra mim, no entanto, a agressão a qualquer ser humano em qualquer lugar do mundo é da minha conta, sim. Evidente que não dá para acolher/resolver tudo, mas discutir a respeito é preciso para entendermos como as coisas funcionam. O patriarcado não se limita às fronteiras de um país.
Entre as bobagens ditas lá no hemisfério norte rolou, por exemplo, a sugestão de que se a mulher quiser, o corpo dela “shuts down”, isto é, ela não engravidaria de um estuprador. Só com a força do pensamento, entendem? Felizmente o senhor que disse tamanha asneira foi derrotado nas urnas.
Com o assunto em pauta, a Soraya Chemaly, colunista do Huffington Post, fez uma lista com 50 fatos sobre estupro. Em todos há link para reportagens e estatísticas. É impressionante. (aliás, se você lê em inglês, vale muito a pena acompanhá-la. recentemente traduzi um texto dela sobre feminismo.)
A lista é bastante grande e muitas coisas têm muito a ver com a realidade americana. Então escolhi alguns dos pontos para traduzir. Cá estão:
1. Estimativa por baixo do número de mulheres estupradas por ano, de acordo com o Departamento de Justiça (lá nos EUA): 300 mil.
2. Estimativa mais alta do número de mulheres estupradas por ano, de acordo com o CDC (Centro de Prevenção de Doenças): 1 milhão e 300 mil.
3. Porcentagem de estupros não denunciados: 54%.
4. Chances de uma mulher ser estuprada nos EUA: 1 a cada 5.
5. Número de mulheres que anualmente engravidam do estuprador: 32 mil.
6. Número de estados em que o estuprador pode brigar na justiça pela guarda da criança e por direitos de visitação: 31 (inacreditável. ainda bem que isso não rola aqui.)
7. Chances do corpo da mulher “shuts down”: 0 em 3.2 bilhões.
8. Porcentagem de mulheres que sofreram algum tipo de abuso sexual no Alaska: 37% (isso dá 1 em cada 3 mulheres!!!)
9. O New York Times sobre um caso de estupro: “Disseram que ela estava vestida como uma mulher mais velha”. (quer dizer, culpando a vítima… e a roupa dela.)
10. Idade de mulher estuprada no Central Park em setembro de 2012: 73.
11. Porcentagem de vítimas de abuso sexual menores de 12 anos: 15%.
12. Porcentagem de homens estuprados: 3%.
13. Porcentagem de estupradores que não foram presos: 97%.
14. Porcentagem de estupros que os estudantes universitários acham que são falsos: 50%.
15. Porcentagem de falsa comunicação de crime de estupro, segundo pesquisa: 2 a 8%.
16. Número de mulheres estupradas no conflito na Bósnia na década de 90: mais de 60 mil.
17. Número de mulheres estupradas POR HORA no Congo durante a guerra: 48.
18. País em que a mulher estuprada é presa por causa do estupro (sim, você leu direito): Afeganistão.
19. Idade da garota marroquina que se suicidou por ser obrigada a casar com seu estuprador: 16.
20. Número de “noivas crianças” (menores de 18 anos) que são obrigadas a se casar no mundo, por dia: 25 mil.
21. Idades das garotas obrigadas a casar com um cara de 59 anos num culto lá nos EUA: 8, 14 e 15.
22. Estado em que um médico está sendo processado por fazer aborto em uma garota de 10 anos vítima de incesto: Kansas.
23. País em que os médicos (e não o estuprador) foram excomungados por fazerem um aborto necessário (a garota corria risco de vida) numa garota de nove anos vítima de incesto: Brasil.
24. País em que um candidato queria criminalizar todos os tipos de aborto, inclusive os de gravidez decorrente de estupro, porque estupro é “só mais um método de concepção”: EUA.
Depois da lista com 50 itens, a autora faz alguns comentários. Traduzi uma parte que achei interessante:
“Estupros acontecem em todos os lugares. A aceitação, tolerância, negação e ignorância sobre o estupro no mundo todo são usadas, no melhor dos casos, para restringir os direitos reprodutivos das mulheres, impedindo a igualdade da mulher. Nos piores, o estupro é usado estrategicamente e com violência como arma de guerra e ferramenta de opressão ativa. Deixar a realidade sobre estupro nas sombras com certeza foi um grande desserviço e fez com que os estupradores e seus defensores tenham se safado. Então, mesmo que não seja legal de digerir essas informações sobre estupro, isso é necessário.”
Ela então cita uma frase da Jessica Valenti em outro post que eu gostaria de traduzir, mas ainda não tive tempo: “Todos os dias, a seriedade, a violência e o potencial criminoso do estupro são distorcidos de um jeito que fica mais difícil para as vítimas denunciarem, bem como para os militantes contra a violência trabalharem. Ao mesmo tempo, o mundo vira um lugar melhor para quem culpa a vítima e para os próprios estupradores”.
Sei que é um assunto indigesto e que muita gente finge não acontecer. Estupro não é sexo; estupro é violência, é disputa de poder. Acontece em todo lugar, com todas nós, o tempo todo. Precisamos apoiar quem sofreu abusos e punir quem os cometeu.
Também é necessário repetirmos, quantas vezes forem necessárias, que o parceiro não é dono do corpo da mulher – não existem as tais “obrigações maritais” que tanto se fala. Sexo nunca pode ser obrigação. Sexo é prazer, é consensual, é para todos os envolvidos. Qualquer coisa fora disso é violência.










